Resenha

A teoria de Hume da identidade pessoal

Jaimir Conte

 

         Apesar das contínuas modificações a que estamos sujeitos no decorrer de nossas vidas, temos, não obstante, a crença de que o nosso ‘eu’ de agora é o mesmo ‘eu’ de outrora. Não pensamos que agora já não somos o mesmo que fomos algum tempo atrás, nem que já não seremos o mesmo dentro em pouco. Em outras palavras, acreditamos numa identidade pessoal. Mas qual é a base desta crença? Esta pergunta nos remete para a filosofia, marcada por questões como esta.

         Em A teoria humeana da identidade pessoal, dissertação de mestrado em filosofia defendida em março de 2002 na Universidade Federal de Santa Catarina (103 páginas), a autora, Marlei Grolli, procura analisar o tratamento oferecido pelo filósofo escocês David Hume (1711-1776) ao problema da identidade pessoal.

         A dissertação é constituída de três capítulos, precedidos de uma breve introdução e encerrados por uma conclusão. 

         No primeiro capítulo a autora compara a identidade pessoal com a identidade dos objetos físicos. Aborda ainda o papel da imaginação na teoria humeana da identidade e a noção de crença causal.

         No segundo capítulo a autora reconstrói a crítica de Hume à noção de ‘eu’ , destacando o pressuposto humeano de que a idéia de ‘substância mental’ é equivocada para explicar a identidade pessoal.

         O terceiro capítulo da dissertação é dedicado a uma apresentação da possível resposta de Hume para o problema da identidade pessoal. Neste capítulo são analisadas também algumas críticas dirigidas à solução apresentada por Hume. A autora contrasta em particular duas interpretações: por um lado a interpretação segundo a qual para Hume a identidade pessoal é uma ficção que formamos devido a uma tendência a confundir coisas relacionadas com uma coisa una; por outro lado a interpretação segundo a qual Hume, no Apêndice ao seu famoso Tratado da natureza humana (obra recentemente traduzida para o português), abandona esta solução em favor da solução apresentada por Henry Home. 

         O fio da argumentação da autora no desenrolar de sua dissertação parte da constatação de que ao questionar o modelo cartesiano de mente como substância pensante, a res cogitans de Descartes, negando a existência de um “eu” (self), ou “substância mental” como responsável pela identidade pessoal e afirmando que este nada mais é do que um feixe de percepções que temos em um determinado momento e que varia na medida em que essas percepções variam, Hume tem que encontrar outra forma de explicar esta identidade. Hume espera dar tal explicação afirmando que sentimos uma conexão entre nossas percepções, no entanto, tal conexão não se deve às impressões mas à forma como as sentimos. Deste modo, não há uma conexão real entre as percepções para que possamos atribuir unidade à nossa mente; contudo, sentimos esta conexão. Logo, Hume investiga qual faculdade da nossa mente poderia nos dar tal sensação. A autora mostra, enfim, que a conclusão de Hume é que nossa imaginação tem uma facilidade maior de relacionar idéias que são contíguas, semelhantes ou que estão causalmente conectadas. Estas três relações – de causalidade, semelhança e contigüidade – são assumidas por Hume como princípios capazes de juntar nossas idéias de forma a sentirmos uma conexão forte entre elas. Tais princípios são também denominados por Hume como “legisladores no mundo das idéias”. Por causa da conexão forte que sentimos entre as idéias formamos a idéia de unidade da nossa mente, ou identidade pessoal. Da mesma forma, ao procurarmos nos objetos físicos o que permanece imutável para que possamos atribuir a eles identidade, nada encontramos. Tudo o que temos são as qualidades sensíveis de tais objetos, que associamos na mente para formar a idéia de identidade. Portanto, tanto a idéia de identidade pessoal quanto a idéia de identidade dos objetos físicos são ficções construídas pela nossa imaginação. Tais ficções são possíveis por causa dos princípios de associação de idéias.

         A dissertação tem o mérito de reconstruir em seus detalhes toda teoria humeana da identidade pessoal, levando em conta interpretações de vários comentadores de Hume. Para que sua leitura não fique limitada a um público acadêmico restrito, para o qual o trabalho constitui boa referência, espera-se que esta dissertação, assim como muitas outras que estão disponíveis apenas nas estantes das bibliotecas universitárias, tome a forma de livro e conquiste um publico leitor mais amplo. 

 

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