Localização deste documento:
http://www.cfh.ufsc.br/~guima/ciber.html

 

A Cibercultura e o Surgimento de Novas Formas de Sociabilidade

Trabalho apresentado no GT "Nuevos mapas culturales: Cyber espacio y tecnologia de la virtualidad", na II Reunión de Antropologia del Mercosur, Piriápolis, Uruguai, de 11 a 14 de novembro de 1997.

 

 

Mário José Lopes Guimarães Jr.
guima@cfh.ufsc.br
http://www.cfh.ufsc.br/~guima

Introdução

De uma forma muito geral, podemos identificar, em relação aos estudos sobre a Internet [1], duas posições. A primeira a considera como um fenômeno total, analisando-a em bloco e tecendo considerações à respeito de suas relações com a sociedade, também considerada, na maior parte das vezes, como um todo. A segunda, parte do pressuposto de que a Internet, mais que constituir-se em um artefato tecnológico inovador, estabeleceu um novo espaço e tempo de interação social, dentro dos quais emergem formas novas e diferenciadas de sociabilidade. Estas, não são homogêneas, nem no que diz respeito à própria Internet, tampouco no que tange às suas relações com o mundo "real".

Neste ensaio, pretendo fazer o apanhado de algumas idéias que vão na direção da segunda postura, que me parece mais adequada para considerar os fenômenos que estão relacionados à cibercultura. Tentarei também levantar algumas possibilidades de estudo, considerando a abordagem antropológica como privilegiada para esta tarefa.

Inicio com uma brevíssima consideração à respeito de certos termos e conceitos cuja definição é fundamental para orientar o tratamento da questão. Logo em seguida, realizo algumas considerações à respeito da adequação dos instrumentos analítico/interpretativos da Antropologia para o estudo do tema. Concluo com o esboço de um projeto de pesquisa: o namoro na Internet.

Ciberespaço / Cibercultura: Discussão de conceitos

Nas pesquisas sociais, uma das primeiras questões que devem ser pensadas é a da construção do objeto de estudo. De acordo com Bourdieu, os objetos da Ciência Social não estão "prontos", mas devem ser construídos, a partir de um determinado referencial teórico que irá orientar o trabalho analítico:

"Un objeto de investigación, por más parcial y parcelario que sea, no puede ser definido y construido sino en función de una problemática teórica (...)" (Bourdieu, 1978: 54, grifo do autor).

Portanto, antes de considerarmos a Internet como tema de estudo, e para que possamos construir, a partir deste tema, um objeto, é conveniente que sejam feitas algumas considerações conceituais, no sentido de tornar claro o referencial sobre o qual se desenrolarão as reflexões.

A Internet, conhecida como "rede das redes" [2], constitui-se em uma instância técnica que condensa uma série de características do cyberspace, conceito que lhe é anterior. Palavra cunhada por William Gibson, no já clássico romance de ficção científica Neuromancer (Gibson, 1984), o ciberespaço [3] designa, originalmente, o espaço criado pelas comunicações mediadas por computador ("CMC’s"). Segundo o próprio Gibson:

"Cyberspace. A consensual hallucination experienced daily by billions of legitimate operators, in every nation, by children being taught mathematical concepts... A graphical representation of data abstratcted from the banks of every computer in the human system. Unthinkable complexity. Lines of light ranged in the nonspace of the mind, clusters and constellations of data. Like city lights, receding..." (Gibson, 1984:51)

O termo veio rebatizar e dar novas características ao que se chamava até então de "esfera de dados". No desenrolar de sua utilização, no entanto, acabou englobando outros objetos, e dando origem a outras expressões como cibercultura, ciberpunk e ciberocracia.

Poderíamos afirmar, inicialmente, que o termo cibercultura abrange os fenômenos relacionados ao ciberespaço, ou seja, os fenômenos associados às formas de comunicação mediadas por computadores. Entretanto, o conjunto de objetos abrangidos pelo conceito é mais amplo, sendo que uma cartografia precisa dos mesmos ainda não é consensual.

De acordo com este espírito, Arturo Escobar (Escobar, 1994), define cibercultura tendo como pano de fundo as novíssimas tecnologias, em especial as relacionadas à comunicação digital, à realidade virtual e à biotecnologia [4]. A natureza desta definição faz com que a cibercultura seja considerada a partir da perspectiva da análise da tecnologia, passando a abranger os fenômenos associados às novas tecnologias de ponta e à nova "tecnologia intelectual" engendrada pelo computador, conforme veremos a seguir.

Esta definição pode ser avaliada em relação à obra Neuromancer: de fato, o seu desenrolar ocorre tanto na vida "real" como na realidade virtual criada pelos computadores envolvidos na trama. Vários dos personagens possuem seus corpos alterados e "hiper-realizados" por implantes artificiais, tanto de natureza biológica quanto eletrônica e também mista. Durante a ação, os personagens entram em contato com drogas de fácil aplicação e efeitos imediatos, que oferecem novos estados de consciência e percepção. Neuromancer, desta forma, desenha o retrato de um futuro onde a vida humana será fortemente permeada pela intervenção da tecnologia, e onde a questão da identidade individual passa a ser, exacerbadamente, um ato de escolha, determinação pessoal e, principalmente, consumo:

The bartender’s smile widened. His ugliness was the stuff of legend. In age of affordable beauty, there was something heraldic about his lack of it. The antique arm whined as he reached for another mug. It was a russian military prosthesis, a seven function force-feedback manipulator, cased in grubby pink plastic. (Gibson, 1984: 4, grifo meu)

Muito do que Gibson esboçou em Neuromancer já migrou das páginas de ficção científica para as matérias das revistas especializadas em informática e divulgação científica. Mais ainda, com o crescimento exponencial da Internet, a mídia de massa passou a tematizar esta nova "revolução tecnológica", trazendo para as camadas médias, sempre ávidas por "atualidade", os temas da conectividade, da realidade virtual, da globalização das comunicações. É sobre os efeitos destas novas tecnologias no imaginário do homem que a reflexão sobre a tecno-ciência [5] irá se debruçar.

O conceito de ciberespaço pode ser melhor compreendido à luz do esclarecimento que Pierre Levy faz à respeito do virtual (Levy, 1996). Segundo ele, o virtual é uma nova modalidade de ser, cuja compreensão é facilitada se considerarmos o processo que leva à ele: a virtualização.

A tradição filosófica utiliza o par de oposição potência/ato para a reflexão sobre os estados possíveis do ser [6]. Assim, uma semente é uma árvore em potência, que se atualiza no momento em que se transforma em árvore. Levy, considerando esta análise insuficiente para dar conta da questão da virtualização, passa a utilizar a distinção elaborada por Deleuze entre possível e virtual. O possível associa-se ao real, na medida em que aquele é este sem a existência. A realização, passagem do possível para o real, portanto, não envolve nenhum ato criativo. A diferença entre possível e real reside no plano da lógica, consistindo em um mero quantificador existencial

O virtual, por outro lado, distingue-se do atual na medida em que, diferentemente do possível, não contém em si o real finalizado, mas sim um complexo de possibilidades que, de acordo com as condições e os contextos, irá se atualizar de maneiras distintas. O objetivo de Levy, ao fazer esta migração entre o par de conceitos possível x real para a díade virtual x atual, é conseguir associar ao processo de atualização o devir, com a interação entre o atual e o virtual. De acordo com o autor:

"O real assemelha-se ao possível; em troca o atual em nada se assemelha ao virtual: responde-lhe." (Levy, 1996: 17, grifo do autor)

O virtual, portanto, não pode ser compreendido como o possível, pois este já está determinado, mas sim como um "complexo problemático" que dialoga e interaje com o atual, transformando-se de acordo com as peculiaridades de cada contexto. O seu exemplo por excelência é um programa de computador, no que diz respeito à sua interação com um operador humano [7]. Nele, os resultados finais (as atualizações) não estão determinadas, pois serão resultado do processo de atualização, efetivado pela interação com a subjetividade do operador.

O ciberespaço pode ser, portanto, considerado como uma virtualização da realidade, uma migração do mundo real para um mundo de interações virtuais. A desterritorialização, saída do "agora" e do "isto" é uma das vias régias da virtualização, por transformar a coerção do tempo e do espaço em uma variável contingente. Esta migração em direção à uma nova espaço-temporalidade estabelece uma realidade social virtual, que, aparentemente, mantendo as mesmas estruturas da sociedade real, não possui, necessariamente, correspondência total com esta, possuindo seus próprios códigos e estruturas.

A emergência da cibercultura provoca uma mudaça radical no imaginário humano, transformando a natureza das relações dos homens com a tecnologia e entre si. Pierre Levy (Levy, 1995) defende uma interrelação muito próxima entre subjetividade e tecnologia. Esta influencia aquela de forma determinante, na medida em que fornece referenciais que modelam nossa forma de representar e interagir com o mundo. Através do conceito de "tecnologia intelectual", Levy discorre sobre como a tecnologia afeta o registro da memória coletiva social. As noções de tempo e espaço das sociedades humanas são afetadas pelas diferentes formas através das quais este registro é realizado.

O imaginário humano sempre esteve atrelado à tecnologia, sendo que não podemos pensá-la diferenciada da sociedade, como um elemento isolável, mas sim considerarmos um mundo permeado pela tecnologia, que influencia as formas de sociabilidade. A partir da perspectiva das tecnologias intelectuais, Levy traça um histórico da humanidade, mostrando de que forma cada uma delas influenciou sua época [8], até chegar à mudança que estamos vivendo hoje em dia:

"No caso da informática, a memória se encontra tão objetivada em dispositivos automáticos, tão separada do corpo dos indivíduos ou dos hábitos coletivos que nos perguntamos se a própria noção de memória ainda é pertinente" (Levy, 1995: 118) [9].

Ainda inseridos no contexto da linearidade instaurada pela escrita, que determinou os moldes da racionalidade ocidental, vemos emergir, a partir do surgimento dos meios informáticos, uma nova maneira de ver o mundo:

"(...) vivemos hoje em dia uma destas épocas limítrofes na qual toda a antiga ordem das representações e dos saberes oscila para dar lugar a imaginários, modos de conhecimento e estilos de regulação social ainda pouco estabilizados" (Levy, 1995: 17)

Podemos resumir a compreensão de Levy das mudanças acarretadas pelas novas tecnologias intelectuais a partir do esquema:

mudanças nas tecnologias intelectuais:

mudanças no imaginário

:

mudanças na forma como as pessoas se relacionam entre si e com a própria tecnologia

 

 

surgimento de novos meios de sociabilidade

:

são diferentes, porém estruturalmente semelhantes

 

è

exigem novos códigos, uma apropriação diferenciada

As tecnologias intelectuais relacionadas à informática estão trazendo à tona uma modalidade de pensamento eminentemente imagético e desterritorializado. Os ícones e imagens, característicos do pensamento mítico associado à tecnologia intelectual da oralidade (Levy, 1995: 82), voltam à tona. Esta imagética, porém, alimentada pelos recursos tecnológicos, adquire mais duas dimensões: a espacialização, a conquista da terceira dimensão, e a temporalidade própria. Lev Manovich, em um artigo muito interessante (Manovich, 1996), argumenta sobre as consequências da espacialização da Internet [10] nas narrativas e na concepção de tempo:

"The computerization of culture leads to the spatialization of all information, narrative, and, even, time. Unless this overall trend is to reverse suddenly, the spatialization of cyberspace is next. ‘(...) future online systems will be characterized by a high degree of interaction, support for multi-media and most importantly the ability to support shared 3D spaces. (...) users will not simply access textual based chat forums, but will enter into 3D worlds where they will be able to interact with the world and with other users in that world.’ " (Manovich, 1996)

Um dos traços mais marcantes da Internet, e que serve, entre outros, para marcar sua diferença com outras mídias, é a interatividade. Termo que, como vários outros (por exemplo, "conectividade", "globalização", etc.), virou palavra de ordem na campanha publicitária explícita ou implícita da qual a Internet foi tema [11], a interatividade na Internet constitui uma espécie de meta dos ideólogos da rede [12].

Percebemos que em vários contextos da rede o usuário é chamado a participar, tanto através do envio intencional de mensagens, quanto pelo próprio ato de navegar através de links de hipertexto. Conforme Pierre Levy (Levy, 1996), o hipertexto virtualiza o texto ao transformá-lo em problemática textual, que só ocorre quando defrontada com subjetividades:

 

A

 

A

 

V

 

A

 

pensamento

è

texto

è

leitura

è

hipertexto

è

leitura

A: atualização
V: virtualização

Os dispositivos hipertextuais virtualizam o processo de leitura ao exteriorizarem, objetivarem as atividades, antes subjetivas, de conexão, montagem e interrelação. Logo, esta transformação, aparentemente quantitativa, é de natureza qualitativa: o leitor sempre relacionou o que estava lendo com o seu passado intelectual, suas lembranças e suas referências, construindo, em sua consciência, o seu hipertexto privado. O ciberespaço oferece uma nova forma de estabelecimento desta teia (e aqui o termo "teia" é utilizado intencionalmente: web), multiplicando o número de links possíveis e tornando, tanto os links quanto sua interrelação, externos à consciência do sujeito. [13]

Assim, mesmo em contextos onde aparentemente não é aplicável o conceito de sociabilidade, como na leitura de um hiperdocumento, estabelece-se uma relação entre o leitor e o produtor (distinção, que, conforme Levy, está cada vez mais pálida). É comum encontrarmos referências explícitas, por parte do autor, à postura do leitor (diríamos melhor: "navegador") no que se refere à leitura:

"Você pode continuar lendo o item seguinte - Como fazer referência a um texto convencional - ou retornar ao Sumário." (extraído de um documento sobre formas de citação e referência à documentos eletrônicos)

O trabalho de Levy é importante na medida em que contribui para a reflexão à respeito da virtualidade, mas, principalmente, no contexto da abordagem deste trabalho, porque traz para dentro do campo abrangido pelas CMC’s o dinamismo e a possibilidade de mudança, características essenciais da cultura.

A cibercultura e a Antropologia

O ciberespaço, ao constituir-se em um novo espaço de sociabilidade, acaba gerando novas formas de relações sociais, com códigos e estruturas próprias. Acredito que estes novos códigos não são completamente inéditos, mas sim uma reformulação e uma ressemantização das formas conhecidas de sociabilidade, adaptadas às novas condições, tanto de espaço/tempo virtuais, quanto de agentes sociais dinâmicos, cuja capacidade de metamorfose (Velho, 1994) é levada às últimas consequências. A Antropologia, com seu aporte teórico orientado para a identificação de representações sociais, é uma disciplina que se adequa à tarefa de deslindar estes novos códigos.

Jayme Aranha Filho, em seu artigo "Tribos Eletrônicas: usos & costumes" (Aranha, 1995) aponta oportunamente a radicalidade das duas posições em que se dividem as opiniões a respeito da Internet, o "cego entusiasmo" e o "pavor catastrófico" [14]. Ao sugerir uma postura intermediária entre estes dois pólos, o autor desloca o foco da análise, da avaliação dos efeitos da Internet como um todo, para o estudo da forma como ela está ganhando tanta popularidade. Sua hipótese para esta questão é a de que a rede se difunde tão rapidamente porque estabelece uma metáfora de totalidade, tendo em seu interior uma replicação das instituições sociais. Seria, então, através da eficácia de suas "analogias com o mundo" que a rede se expandiria.

Esta proposição é interessante, pois traz à tona uma possibilidade de interpretação do fascínio exercido pela versão "mass-media" do ciberespaço, a WWW. No entanto, creio que a mesma deve ser considerada com uma certa reserva, na medida em que pode conduzir à pressuposição da passividade do usuário frente ao que é proposto pelos "donos do sistema". Esta passividade lembra o trabalho da Escola de Frankfurt, que, no contexto do nascimento da indústria cultural, previa o fim da cultura "legítima" e apontava os efeitos ideologizantes das mídias na massa. Várias críticas foram realizadas a estas colocações [15], defendendo a independência simbólica dos sujeitos, que não adotam arbitrariamente valores alheios às suas culturas, mas sim se apropriam dos mesmos, dando à eles novas leituras e interpretações. A cibercultura é um campo privilegiado para o estudo das relações entre mídia/consumidor, ao estabelecer uma nova relação dos sujeitos com a tecnologia e com um meio cujo nível de interatividade é, até então, inédito. Análises desta natureza são enumeradas no inventário das problemáticas antropológicas relacionadas à cibercultura proposto por Arturo Escobar:

"How do people relate to their techno-worlds (machines, reinvented bodies and natures)? If people are differently placed in technospaces (according to race, gender, class, geographical location, "physical ability"), how do their experiences of these spaces differ?" (Escobar, 1994: 217)

Acredito que a cultura do ciberespaço mantenha uma série de semelhanças com a cultura "atual" [16]. Estas semelhanças, sejam elas decorrentes de um projeto intencional [17], ou do seu próprio desenvolvimento, serão verificáveis na medida em que esquemas teóricos utilizados para pensar a sociedade "real" possam ser transpostos com sucesso para a análise das relações de sociabilidade virtuais. Desta forma, as ferramentas conceituais da Antropologia social, especialmente as da Antropologia de sociedades complexas, são adequadas para tratarmos das questões relativas ao ciberespaço.

O ciberespaço não pode ser considerado como homogêneo e "total". Percebemos que, da mesma forma que em sociedades complexas, a experiência de alteridade no seu interior é vivida de maneira bastante intensa. As comunidades virtuais, listas de discussão, grupos de Usenet, sites de IRC (Internet Relay Chat) inscrevem, no ciberespaço, tribos de interesses e significados compartilhados. Isto faz com que a compreensão das novas formas de sociabilidade desenvolvidas pelo ciberespaço passe pelo estudo etnográfico destas "tribos":

"We can anticipate active discussion on the proper methods for studying these communities, including questions of on-line/off-line fieldwork, the boundaries of the group to be studied, interpretation, and ethics." (Escobar, 1994: 218)

Assim, referenciais analíticos como o desenvolvido por Gilberto Velho, adequam-se à reflexão sobre a vida no ciberespaço. A criação e mudança contínua de avatar, por parte de um indivíduo, por exemplo, é a radicalização da possibilidade de "metamorfoses" vinculadas ao "campo de possibilidades" ao qual o indivíduo pertence (Velho, 1994: 40-46).

Da mesma forma que o ciberespaço passa, atualmente, por um intenso e radical processo de colonização [18], estando em constante mudança [19], os referenciais teóricos utilizados para pensar as sociedades complexas precisam ser adaptados e questionados no que diz respeito à sua adequação a este novo universo simbólico. Ou seja, se por um lado existem semelhanças a nível estrutural entre o "atual" e o "virtual", originadas, certamente, pela forma analógica com que este foi estabelecido (Aranha, 1995), por outro a apropriação deste espaço social virtual por parte de seus "habitantes" faz com que novas formas de relação social estejam sendo engendradas.

As particularidades deste novo espaço-tempo fazem com que as estruturas gerais de determinados esquemas sofram mudanças, no sentido de adaptarem-se às novas condições. Estas mudanças podem ser tanto de natureza quantitativa quanto qualitativa. Um exemplo da primeira seria a potencialização da capacidade de relacionamentos simultâneos que um sujeito pode estabelecer no ciberespaço. Nos sites de chat da WWW, um usuário pode, abrindo diversas janelas, manter uma conversação com muitos (e variados) grupos simultaneamente. Já do ponto de vista qualitativo, a natureza das relações virtuais possuem várias peculiaridades. Rita Segato afirma (Segato, 1995) que os diálogos estabelecidos na Internet distinguem-se pelo fato da figura do "outro" com quem se dialoga não estar presente, resultando que, em casos de competição, sempre se é vencedor, sendo a Internet "(...) a device created to elude the experience of failure at all costs" (Segato, 1995: 11).

Até aqui foi feito um apanhado de algumas possibilidades do fazer antropológico no ciberespaço. No entanto, uma série de questões importantes permancem na zona de fronteira entre o atual e o virtual. A forma como pessoas de diferentes culturas "atuais" vivenciam a virtualidade pode indicar muito a respeito de suas próprias culturas. A forma como os indivíduos passarão a representar a experiência de múltiplo pertencimento proporcionada pela Internet, e mais uma série de outras questões pertinentes, ainda estão em aberto, pelo menos no que diz respeito ao caso brasileiro [20], e só poderão ser respondidas através de um trabalho de levantamento etnográfico minucioso nas diferentes tribos que povoam o ciberespaço.

A sedução e o namoro no ciberespaço

A partir da perspectiva de se realizarem estudos comparativos entre formas de sociabiliade "virtuais" e "atuais" no contexto brasileiro, o conjunto das práticas e representações envolvendo relações afetivas é privilegiado como objeto de estudo. O terreno compreendido pelas formas de afetividade, sedução, relações amorosas e correlatos já possui alguns levantamentos realizados no Brasil. Além do mais, estudos recentes à respeito do tema em classes populares (Boff, 1994) levam em consideração a intervenção de mídias eletrônicas no processo de sedução amorosa [21].

Na Internet brasileira existem uma série de sites específicos sobre namoro, considerando apenas aqueles orientados para uma visão menos sexualizada da expressão, ou seja, que não fazem referência explícita a possíveis interesses sexuais dos usuários. Se levarmos em conta os sites relacionados à relações mais "pragmáticas", como os de classificados sexuais, nossa lista aumentaria consideravelmente. Partindo da hipótese de que as duas modalidades de "procura" amorosa possuem características diferenciais, parece-me conveniente delimitar o caso de estudo a apenas uma, no caso deste esboço de projeto, aos encontros para "namoro".

A natureza das relações estabelecidas via Internet, a forma como elas são representadas pelos envolvidos, o desenrolar das histórias de amor, as formas, os limites e a estrutura de negociações do "cibersexo", todas estas são questões que podem ser estabelecidas a partir deste universo de estudo. As modalidades de articulação de identidades – "avatares" – nas relações onde o encontro físico é pouco provável (por questão de distância geográfica ou pela própria natureza da relação) também constitui-se em um terreno fascinante de interrogações. A partir da extrema facilidade na manipulação e criação de identidades virtuais, o jogo de sedução adquire novas e instigantes facetas. O estudo a respeito da construção e manipulação de identidades pessoais através de avatares já possui uma certa trajetória a nível nundial [22]. Um pequeno exemplo disto pode ser encontrado em uma página mantida por um provedor de acesso em São Paulo, dedicada a ensinar os usuários a "saber como se comportar no IRC, na web, nos newsgroups, na rede,(...)" [23], através da interação com uma colunista fictícia ("Déborah Gralha"), usando uma linguagem descontraída:

"G I F D E S A N I M A D O

Conheci um cara no IRC há três meses. Nos demos super bem, nossos gostos são parecidos e acabamos nos apaixonando. Um dia o fogo foi tão forte que acabamos fazendo cybersex. Mas ele sempre inventava uma desculpa quando eu pedia pra ele me mandar uma foto. Semana passada ele finalmente mandou: o cara é um bagulho!! O que eu faço?

"Internauta desconsolada", MT.

Querida Beldade on line,

Mas afinal onde mora esse príncipe? Se não for na sua cidade, delete a foto dele, cate uma do Tom Cruise e aproveite as maravilhas do mundo virtual! :) " (O nome de "Tom Cruise" está linkado à um site com fotos do ator).

Uma possibilidade de delimitação do campo seria a observação (participante ou não) de salas de chat específicas sobre o tema. A hipótese inicial é que, a despeito da possibilidade de contínua renovação da identidade dos frequentadores, os mesmos mantém uma identidade fixa por sala ou por horário de visitação aos sites, e é através desta identidade que se estabelecem os contatos. De fato, em mais de uma observação às salas de chat foram percebidas referências à avatares que não estavam presentes.

O estudo das redes de relações estabelecidas pelos frequentadores de determinado site pode revelar a forma como se processam os primeiros contatos e as aproximações dos possíveis pares. Diante da notória (ou pelo menos alegada com frequência, pelos internautas homens) desproporção entre os sexos dos usuários da rede, parece ser comum a circulação de informações a respeito de horários e locais frequentados por mulheres [24].

Como reflexo desta necessidade, uma ferramenta bastante interessante foi colocada à disposição dos internautas que buscam sua "alma gêmea" no ZaZ: uma base de dados, onde é possível cadastrar-se, fornecendo informações à respeito de sua personalidade e das características da cara-metade desejada [25]. Estas informações são cruzadas no banco de dados do sistema e uma lista de pessoas cujas características "conferem" com o desejado é gerada. Também aqui um serviço já existente antes do advento da popularização da Internet (a busca de pares através de cruzamento de dados, realizado por empresas especializadas) é transposto ao ciberespaço, mantendo suas características básicas e adquirindo novas propriedades, na medida em que se adequa ao novo meio.

Outra possível fonte de dados são as páginas pessoais. A partir da navegação aleatória em algumas home-pages pessoais localizadas nos sites que fornecem serviços de encontro, é possível constatar, preliminarmente, que o leitmotiv que orienta o design e o conteúdo das mesmas é a captura da simpatia do navegante para com o autor da página. São recorrentes as afirmações informando o desejo do autor em conhecer pessoas, estabelecer novas amizades, etc. Em alguns sites a construção da página é automatizada, ficando o autor com a tarefa de compor o texto e escolher o padrão de fundo e as ilustrações da página, a partir de um conjunto pré-estabelecido. A observação das escolhas feitas pelos usuários a partir destes conjuntos, associada à análise do próprio texto da página, podem ser reveladoras das representações e expectativas dos mesmos em relação aos "efeitos" das páginas. Neste sentido os aportes teóricos provindos da Antropologia visual seriam de grande utilidade para estes tipos de análise, bem como o referencial metodológico de Pierre Bordieu, no que diz respeito às escolhas como determinadoras dos habitus (Bourdieu, 1984).

Um estudo desta natureza poderia trazer à tona os códigos que estes sujeitos/avatares utilizam em sua vivência no ciberespaço, revelando como esta vivência é representada e em que medida ela estabelece, ou não, novas formas estruturais de sociabilidade.

Bibliografia

Aranha Filho, Jayme. Tribos Eletrônicas: usos & costumes. <http://www.ibase.org.br/~esocius/anais.html>. (agosto de 1995)

Boff, Adriane de Mello. O namoro está no ar... na onda do outro: Um olhar sobre os afetos em grupos populares. Dissertação de mestrado em Antropologia Social, Porto Alegre, UFRGS, 1994.

Bourdieu, Pierre. "La Construcción del Objeto" in: El Ofício de Sociólogo. México, Siglo Veinteuno, 1978.

Bourdieu, Pierre. "The Choice of Necessary" in: Distinction: A social critique of the judgement of taste. Cambridge, Harvard University Press, 1984.

Eco, Umberto. Apocalípticos e Integrados. São Paulo, Perspectiva, 1979.

Escobar, Arturo. "Welcome to Cyberia: Notes on the Anthtopology of Cyberculture" in Current Anthropology, v.35, n.3, junho de 1994.

Forsythe, Diana E. Representing the User in Software Design. 24 April 1997 <http://www-leland.stanford.edu/dept/HPS/forsythe.paper> (04/06/97)

Gibson, William. Neuromancer. New York, Ace Books, 1984.

Judith S. Donath. Identity and Deception in the Virtual Community. <http://judith.www.media.mit.edu/Judith/Identity/IdentityDeception.html> (20/01/97)

Leal, Ondina Fachel. A Leitura Social da Novela das Oito. Petrópolis, Vozes, 1986.

Levy, Pierre. As tecnologias da Inteligência: O futuro do pensamento na era da informática. São Paulo, editora 34, 1995.

Levy, Pierre. O que é o Virtual?. São Paulo, editora 34, 1996.

Manovich, Lev. Global Algorithm 1.3: The Aesthetics of Virtual Worlds: Report From Los Angeles. date: 22/05/96. <http://jupiter.ucsd.edu/~manovich/text/virt-space.html> (06/03/97)

Palacios, Marcos. Normalização de documentos online: Modelos para uma padronização. 08 agosto de 1996. <http://www.facom.ufba.br/pesq/cyber/norma.html > (24/07/97).

Segato, Rita Laura. The economics of desire in virtual space: Talking about christianity in the net. Série Antropologia, n° 193. Brasília, 1995.

Velho, Gilberto. Projeto e Metamorfose: Antropologia das sociedades complexas. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1994.

Vianna, Hermano. As Tribos da Internet. <http://www.ibase.org.br/~esocius/anais.html>. (agosto de 1995)

 

Notas:

 

1. A Internet, neste contexto, é uma das manifestações (sem dúvida, a mais abrangente) dos fenômenos relacionados ao ciberespaço. Logo a seguir discutirei a questão de terminologia (que, de fato, trata-se de uma questão conceitual) envolvida neste campo de estudo.

2. A Internet, em decorrência (pelo menos a nível técnico) da flexibilidade, eficiência e gratuidade de seu protocolo (o TCP/IP) acabou englobando todas as redes de computadores existentes até então. No entanto, nunca é demasiado recordar que redes de computadores com características de ciberespaço já existiam antes do advento da Internet.

3. Por questão de uniformidade, passarei a utilizar os abrasileiramentos dos termos: ciberespaço, cibercultura, etc.

4. A inclusão da biotecnologia na definição de cibercultura é conveniente, na medida em que toda uma categoria de fatos (os relacionados aos implantes artificiais, manipulação genética, etc.) passa a ser considerada no que diz respeito às suas relações com o imaginário contemporâneo.

5. Diante da redefinição do quadro epistemológico geral ocorrida nos últimos anos, alguns autores defendem que a distinção entre "ciência" e "tecnologia" está cada vez mais indefinifa, apontando para um quadro que vem sido chamado de "tecno-ciência". Infelizmente os limites deste trabalho não nos permitem aprofundar esta importante questão.

6. Esta distinção tem na filosofia aristotélica seu referencial de discussão.

7. Entretanto, poderíamos questionar em que medida os infoboots (robôs virtuais, que navegam pela Internet realizando tarefas determinadas, interagindo com outros programas-robô) não constituem uma excessão à isto.

8. Ele enumera três tecnologias intelectuais que se sucederam: oralidade, escrita e informática, descrevendo como cada uma influenciou, a seu modo, o imaginário de sua época.

9. Sobre a objetivação da memória, ver nota    , a seguir.

10. A partir do surgimento dos "mundo virtuais" em 3-D, criados com VRML (Virtual Reality Modeling Language).

11. Por ocasião do lançamento da Internet comercial no Brasil, por exemplo, ocorreu uma verdadeira "febre" da mídia à respeito, que ofereceu muito espaço e atenção ao fato. Este é um fenômeno que pode ser analisado no limite entre as duas abordagens utilizadas para falar sobre a Internet, que mencionei acima: por um lado, um reflexo na mídia do interesse e curiosidade despertados pela "novidade", por outro uma manipulação da mesma, tentando consolidar este novo meio de comunicação. Não é inoportuno recordar que o grupo RBS, detentor de um verdadeiro monopólio nas comunicações sociais no sul do Brasil, também é proprietário de um dos maiores provedores de acesso do país, a Nutec Net.

12. Em conversa informal com uma web designer e web master de um pequeno provedor de acesso de São Paulo, pude constatar o quanto a interatividade constitui-se numa meta a ser alcançada pelos "construtores" da Internet. Na ocasião, a informante comentou que este é um tema recorrente e motivo de debates na lista de discussões (via e-mail) dos web designers brasileiros. O tema também é recorrente em publicações especializadas.

13. A respeito da "externalização" da subjetividade realizada pelo ciberespaço, um exemplo muito interessante e que, sem dúvida, mereceria um estudo mais aprofundado, é o serviço oferecido pela Kodak: os usuários podem armazenar suas fotos digitais em um computador da empresa, utilizando as facilidades e os recursos de um software que organiza álbuns de família e torna as imagens disponíveis, via Internet, às pessoas interessadas.

14. A colocação do autor é semelhante à tese geral que Umbero Eco defende em "Apocalípticos e Integrados" (Eco, 1979) no que diz respeito às posturas teóricas em relação à cultura de massa. De fato, como a Internet, "ponta de lança" tecnológica da cibercultura, assume cada vez mais a forma de um mass media, as homologias entre ambos referenciais analíticos são inevitáveis.

15. Dentre elas, a realizada por Ondina Fachel Leal (Leal, 1986) é especialmente adequada ao contexto da Internet por analizar a forma como um produto do mass media é representado pelos consumidores. A autora realizou uma "etnografia de audiência" em telespectadores brasileiros de telenovela, demonstrando que os mesmos reelaboram os bens da indústria cultural a partir de seus próprios códigos culturais.

16. Utilizo aqui o termo "atual" no sentido relacionado à "virtual", conforme Levy (ver página *).

17. Hermano Vianna afirma que o "ianquecentrismo do ciberespaço seria o resultado de um projeto civilizatório norte-americano": "A grande rede é uma espécie de campo de ensaio para os princípios ‘nomádicos’ da subjetividade radicalmente individualista e da vida social estruturalmente individualizada" (Hermano, 1995).

18. Segundo os números indicados na Internet domain survey realizada pela Network Wizards <http://www.nw.com/>, nos últimos 3 anos o número de hosts na Internet vem crescendo a taxas anuais superiores a 150%. Conforme os dados de janeiro de 97, o número de hosts pertencendo ao domínio br representava 0,47% do total de hosts da Internet. Cabe salientar que o nome do domínio não indica, necessariamente, que o site esteja, fisicamente, no Brasil, da mesma forma que podem haver sites no Brasil que não pertençam ao domínio br.

19. O ritmo frenético em que são desenvolvidos novos programas e criadas novas formas de interagir com o ciberespaço é um indicador notável deste fenômeno. Um estudo da trajetória destas interfaces, do ponto de vista de seus desenvolvedores, seria de extrema conveniência no momento em que estamos passando. Um trabalho semelhante, no contexto norte-americano, foi desenvolvido por Diana E. Forsythe (Forsythe, 1997).

20. No que se refere à pesquisa sobre sociabilidade na Internet, creio que se possa afirmar que o Brasil encontra-se um tanto defasado. Certamente este atraso pode ser atribuído ao fato da própria Internet só ter ganho impulso há poucos anos. Em uma pesquisa rápida no arquivo do ano de 95 da lista de discussão anthro-l, encontrei uma série de referências à trabalhos etnográficos sendo desenvolvidos na Internet.

21. Em sua dissertação, Adriane Boff (Boff, 1994) analisa a "expressão dos afetos" em um grupo de classes populares, tomando como ponto de partida o programa radiofônico chamado "Namoro no Rádio", onde os futuros pares vão buscar sua cara metade.

22. Um exemplo destes trabalhos é Donath, 1997. A autora faz um estudo etnográfico na usenet, mapeando a forma como são manipuladas as identidades.

23. <http://www.thats.com.br/estar/deborah>

24. Em mais de uma situação informal pude constatar esta busca pelo sexo oposto através de troca de informações relatada por usuários homens.

25. <http://www.zaz.com.br/almas/index.htm>. Atualmente a base conta com mais de 13.000 registros.