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Sociabilidade no Ciberespaço: Distinção entre Plataformas e Ambientes

(Trabalho apresentado na 51a Reunião Anual da SBPC – PUC/RS, julho de 1999)

Mário J.L. Guimarães Jr. [1]


Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social – UFSC
http://www.cfh.ufsc.br/~guima
guima@cfh.ufsc.br

 

Resumo: A partir da problemática relacionada ao delineamento de objetos etnográficos, este trabalho pretende introduzir na discussão teórica relativa à antropologia das manifestações culturais no interior do Ciberespaço (Ciberantropologia) a distinção analítica entre plataformas e ambientes de sociabilidade virtual.

Conteúdo:

 

Introdução

A consideração das representações a respeito da espacialidade e das redes de pertencimento fazem parte da discussão da Antropologia das Sociedades Complexas. É sabido que diferentes grupos culturais, as chamadas "tribos urbanas", resignificam e transformam simbolicamente o espaço físico oferecido pelo aparato urbano. Esta reconstrução, no imaginário dos grupos, de um espaço aparentemente estabelecido em sua "fisicalidade" configura um dos aspectos mais fascinantes da dinâmica social em contexto urbano. Ao considerarmos o Ciberespaço como um espaço de emergência de novas sociabilidades, percebemos que também em seu interior se estabelecem construções de espaços simbólicos. Este trabalho, desenvolvido a partir de observações de campo e revisão crítica da bibliografia relacionada à Cibercultura, pretende contribuir à discussão sobre as possibilidades epistemológicas da constituição de objetos etnográficos no interior do Ciberespaço, através da sugestão da distinção analítica entre plataforma de sociabilidade virtual e ambiente de sociabilidade virtual.

Parte-se da concepção de Ciberespaço como um Locus virtual criado pela conjunção de diferentes tecnologias de telecomunicação e telemática, ou seja, um espaço criado pelas comunicações mediadas por computador ("CMC’s"). Sua principal manifestação contemporânea é a Internet, apesar de encontrarem-se elementos denotadores de uma "ciberespacialidade" em tecnologias anteriores às das redes de computadores, como no caso das BBS’s, conferências telefônicas, redes de rádio-amadores, etc.

O Ciberespaço, assim definido, configura-se como um locus de extrema complexidade e heterogeneidade, estabelecendo-se em seu interior as mais diversas e variadas formas de interação, tanto entre homens, quanto entre homens e máquinas. Grande parte destas interações caracterizam-se societariamente, ou seja, envolvem duas ou mais personas [2] que se relacionam em um determinado ambiente, a partir de uma cultura localmente elaborada. A heterogeneidade é notória ao percebermos o grande número de ambientes de sociabilidade existentes, no interior dos quais desenvolvem-se as formas mais variadas de convívio social. O Ciberespaço, da mesma forma que o "espaço" social, longe de ser um contínuo homogêneo, é territorializado e fragmentado em diferentes espaços simbólicos, constituídos e operacionalizados pelas práticas de sociabilidade que ocorrem em seu interior. Estas práticas constituem culturas locais, específicas e eminentemente heterogêneas, cuja interpretação e mapeamento é uma tarefa ainda incipiente a ser realizada pela Antropologia.

A distinção de que trata este trabalho refere-se à uma abordagem de investigação antropológica que se caracteriza por ser realizada no interior do Ciberespaço, tomando como informantes as personas construídas pelos usuários e que não busca uma possível "validação" dos dados através de verificação "off-line". Ou seja, trata-se de uma Antropologia que pretende descrever as práticas e representações em vigor no interior de um espaço simbólico constituído dentro do Ciberespaço, uma "Ciberantropologia" ou "Antropologia on-line" [3]. O Ciberespaço, contudo, enquanto fenômeno emergente e multi-facetado da contemporaneidade, oferece muitas outras possibilidades de investigação a partir do prisma da Antropologia, que não serão abordadas aqui [4].

Abre-se, a partir deste cenário, um leque de questões de natureza metodológica e epistemológica relacionadas à investigação antropológica no Ciberespaço. Não por acaso, muitos dos elementos teóricos e instrumentos metodológicos elaborados para o estudo das chamadas "sociedades complexas contemporâneas" podem ser migrados e adaptados para o caso do Ciberespaço. A forma como esta migração conceitural pode ser elaborada, bem como o escopo de sua validade são temas prementes, para os quais este trabalho tem a pretensão de prestar uma colaboração.

O Problema

Uma das questões frequentes à Antropologia das Sociedades Complexas é a natureza da constituição de seus objetos [5]. Esta questão não é recente na Antropologia, e se impôs desde que o olhar antropológico voltou-se para as sociedades urbanas, que pela sua própria natureza não constituem uma unidade analítica observável mas, pelo contrário, são compostas por diferentes "tribos" ou províncias de significado. Os habitantes dos grandes centros urbanos pertencem simultaneamente a diferentes grupos, logo, ao construir seu objeto de pesquisa, o antropólogo passa a tomar como fio condutor o pertencimento dos indivíduos a determinadas redes de relações e/ou significados, sem a pretensão de esgotar, em termos explicativos, o funcionamento da sociedade como um todo:

Essa multiplicidade de experiências e papéis sublinha a precariedade de qualquer tentativa excessivamente fixista na construção dos mapas socioculturais. (Velho, 1989: 25)

À Antropologia cabe o papel de esboçar os contornos dos mapas de significado que demarcam cada uma das diferentes tribos que caracterizam as sociedades complexas, sem perder de vista, todavia, o processo de interação existente entre esses grupos, que no contexto contemporâneo proporciona "(...) uma mobilidade material e simbólica sem precedentes em sua escala e sua extensão" (Velho, 1989: 39).

Plataformas x Ambientes

A grande maioria dos trabalhos que abordam o Ciberespaço a partir de uma perspectiva social empregam como critério principal de definição do grupo a ser estudado a utilização de um determinado programa. Podem ser citados como exemplos os trabalhos de Reid (1991), que pesquisou os usuários de IRC, Hamman (1996) que abordou os frequentadores das salas de sexo da AOL, e Turkle (1997) que fala sobre a constituição da identidade de usuários de MUD.

As observações de campo no Ciberespaço realizadas na fase exploratória da pesquisa de minha dissertação de mestrado [6], contudo, demonstraram que a atividade societária de um grupo não se restringe à apenas um programa, mas sim que são empregados uma série de recursos, de acordo com o contexto, para que esta sociabilidade seja levada a cabo. Assim, considerando um tipo específico de tarefa antropológica, a saber, a identificação e "tradução" de culturas locais [7], é conveniente ter em mente que os grupos que se formam no Ciberespaço não utilizam necessariamente apenas uma plataforma de sociabilidade, mas sim que criam seus espaços de sociabilidade pela conjunção de diferentes plataformas, de acordo com o contexto. Vem daí a necessidade em se distinguir entre plataforma de sociabilidade virtual e ambiente de sociabilidade virtual. Por plataforma podemos compreender os elementos de software ("programas") que dão sustentação às relações de sociabilidade no Ciberespaço. Comumente uma plataforma constitui-se de um programa principal (como o Palace, por exemplo), mas há casos de plataformas constituídas por diversos programas (como o IRC) [8].

Os "ambientes de sociabilidade virtual", por sua vez, são constituidos a partir das plataformas, não raro abrindo mão de mais de uma concomitantemente. Em observações de campo é comum manter contato simultâneo com determinada persona através do Palace e do ICQ, por exemplo. As comunidades virtuais [9] desenvolvem sua dinâmica abrindo mão de diferentes plataformas, de acordo com o contexto (Guimarães Jr., 1998a). O relevante é o pertencimento ao grupo, independente da plataforma utilizada para realizar este pertencimento. No caso do Palace, por exemplo, apesar de aparentemente existir um sentimento de "fidelidade" à plataforma, os usuários abrem mão de diferentes recursos para entrarem em contato.

Portanto, caracterizo como "ambiente de sociabilidade" o espaço simbólico criado no Ciberespaço por programas específicos orientados à comunicação de dois ou mais usuários, povoado por personas que estabelecem uma atividade societária por um determinado tempo. A partir desta sociabilidade podem ou não se desenvolver comunidades virtuais estáveis.

Esta proposta de distinção analítica pode ser sintetizada de acordo com o seguinte esquema:

O intuito desta distinção é o de sublinhar que o espaço a ser percorrido pelo olhar antropológico no transcorrer da investigação etnográfica de um grupo não deve ser aquele determinado pelo aparato técnico (as plataformas) mas sim o constituído e elaborado societariamente. O trabalho de campo no Ciberespaço demonstra que os grupos abrem mão dos mais diferentes recursos para pôr em prática sua existência. Disso não decorre que inexista uma hierarquia ou preferência, mas sim que não existe uma exclusividade. É comum a utilização de uma plataforma preferencial, a partir da qual os grupos se formam e onde acontece a maior parte da vida social do mesmo, e uma série de outros recursos coadjuvantes. Os canais mais estáveis do IRC, por exemplo, com muita frequência possuem Home-Pages, onde são relatados detalhes do canal e de seus membros, divulgadas notícias em geral, fotos dos IRContros, etc. Além das páginas na Web também são utilizadas listas de discussão via e-mail [10] e ICQ.

Conclusão

Esta distinção não pretende, de forma alguma, remeter à uma possível cisão entre fatores de ordem técnica e de ordem social, cada um estabelecendo uma esfera autônoma de problematização teórica que encontraria na empiria seus pontos de intersecção. Sabe-se que a técnica, assim como a ciência, não é "neutra" e independente do mundo social. Pelo contrário, ambos estão intensamente imbricados, estabelecendo relações mútuas e intensas. No que diz respeito ao panorama da sociabilidade que se exerce no interior de um espaço cuja existência é, em última instância, dependente da técnica, essa imbricação se faz ainda mais saliente e indispensável de ser considerada na perspectiva da análise social.

A consideração da distinção proposta torna saliente o quanto de social existe na técnica, que nunca é empregada de forma "passiva", mas sempre é adaptada, transformada e resignificada. Os ambientes de sociabilidade são, desta forma, construtos sociais elaborados a partir dos artefatos técnicos disponíveis. Mesmo as plataformas em si também podem ser constituídas socialmente, pois o desenvolvimento de suas sucessivas versões muitas vezes é influenciado pela dinâmica da sociabilidade que se desenvolve em seu interior. O caso dos inúmeros scrips de clientes de IRC ou das alterações sucessivas realizadas nos serviços de Web-chat são exemplos disto.

Da mesma forma que nos aglomerados urbanos contemporâneos, onde o uso de um mesmo aparato urbanístico não determina necessariamente o pertencimento a uma província de significado, também no Ciberespaço as relações sociais que determinam um determinado grupo não são necessariamente efetivadas dentro de um mesmo contexto. A dinâmica social no Ciberespaço cria espaços simbólicos de sociabilidade que transcendem o que é proporcionado pelas plataformas. O social se mescla com o técnico de tal forma que orientar o recorte do objeto de estudo apenas pelo que o técnico apresenta seria ineficiente. Ao tomarmos plataformas e ambientes como entidades analiticamente distintas, apesar de intimamente imbricadas, teremos a oportunidade de aproximar a atividade etnográfica da experiência vivida pelas personas no transcorrer de sua atividade no interior do Ciberespaço.

Referências bibliográficas

Durham, Eunice. "A Pesquisa Antropológica com Populações Urbanas: Problemas e perspectivas" in Cardoso, Ruth C.L. (org.) A Aventura antropológica: teoria e pesquisa. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1986.

Escobar, Arturo. "Welcome to Cyberia: Notes on the Anthtopology of Cyberculture" in Current Anthropology, v.35, n.3, junho de 1994.

Geertz, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 1989.

Guimarães Jr., M.J.L. Notas sobre Etnografias Virtuais: fazendo Antropologia no Ciberespaço. Trabalho apresentado na 50ª Reunião Anual da SBPC, Natal, 1998a.

Guimarães Jr., M.J.L. Etnografia em ambientes de sociabilidade virtual multimídia. Trabalho apresentado na mesa redonda "Novos Paradigmas: Etnografia e Ciberespaço" do X Ciclo de Estudos sobre o Imaginário – Imaginário e Cibercultura (no prelo), Recife, 1998b. <http://www.cfh.ufsc.br/~guima/academia.html#trabalhos>

Hammam, Robin. Introduction to Virtual Communities Research and Cybersociology magazine Issue Two. <http://members.aol.com/Cybersoc/is2intro.html>. 1998.

Hamman, Robin. Cyborgasms: Cybersex Amongst Multiple-Selves and Cyborgs in the Narrow-Bandwidth Space of America Online Chat Rooms. <http://www.socio.demon.co.uk/>, 1996.

Leaning, Marcus. Cyborg Selves: Examining identity and meaning in a chat room. Dissertation submitted as course requirement for the M.Sc. Social Analysis, South Bank University, October 1998. <http://www.geocities.com/Athens/Atrium/2136/Title.html>

MacKinnon, Richard C. "Searching for the Leviathan in Usenet" in Jones, Steven G., CyberSociety – Computer-Mediated Communication and Community, p.112, London, Sage, 1995.

Magnani, José Guilherme C. Festa no Pedaço. São Paulo, Brasiliense, 1984.

Magnani, José Guilherme C. Quando o Campo é a Cidade: Fazendo Antropologia na metrópole. in "Na Metrópole: Textos de Antropologia Urbana", José G. Magnani e Lilian de L. Torres, orgs., São Paulo, Edusp, 1996.

Máximo, Maria Eliza. Internet: novos caminhos de socialização. Um estudo das listas eletrônicas de discussão. Trabalho de Conclusão de Curso, Ciências Sociais, UFSC, 1998.

Reid, Elizabeth M. Electropolis: Communication and Community On Internet Relay Chat. <http://people.we.mediaone.net/elizrs/electropolis.html>, 1991.

Turkle, Sherry. Life on the Screen. New York, Touchstone, 1997.

Velho, Gilberto. A Utopia Urbana: Um estudo de antropologia social. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1989.

 

 


Notas

1. Este trabalho foi realizado sob a orientação do Prof. Theophilos Rifiotis, do PPGAS/UFSC. Além disso contou com a valiosa colaboração dos colegas do GECA: Ana Maria C. da Silva, Eduardo Botelho Ribeiro, Jayme Aranha e Vanessa A. Pereira.

2. Utilizo o conceito de persona de MacKinnon (1995), que o emprega para designar as identidades construídas pelas pessoas no interior do ciberespaço.

3. Leaning (1998) também argumenta neste sentido, defendendo uma explicação dos fenômenos do ciberespaço a partir de uma perspectiva êmica, que não precise recorrer à fatores externos para ser validada

4. Escobar (1994) faz um providencial "reconhecimento de terreno" em relação à Cibercultura, elencando algumas possibilidades de investigação antropológica em relação ao tema.

5. Magnani (1984) presta uma contribuição à esta discussão através do seu conceito de "pedaço". Mais tarde (1996) faz uma esclarecedora introdução à Antropologia Urbana, abordando esta e outras questões. Podemos encontrar contribuições à este respeito também nos trabalhos de Velho (1989) e Durham (1986), entre outros.

6. "Ambientes de Sociabilidade Multimídia: Estudo da Sociabilidade no Palace", projeto de pesquisa realizado junto ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFSC. Para maiores detalhes sobre o ambiente Palace ver Guimarães Jr., 1998b.

7. A partir da concepção de Antropologia como empreendimento hermenêutico (Geertz, 1989).

8. Esta é uma caracterização um tanto primária e simplificada. Mesmo as plataformas mais "simples" como o Palace são constituídas de, no mínimo, dois programas distintos, a saber, o cliente e o servidor. Todavia, este tipo de detalhe não se faz relevante para esta discussão.

9. A discussão à respeito do conceito de "comunidade virtual" é extremamente rica e um tanto polêmica. Hamman (1998) faz uma interessante síntese da mesma e aponta para uma definição bastante eficiente a nível intrumental, onde elenca os elementos básicos e necessários para a constituição de relações de sociabilidade, dando conta das relações dinâmicas e fluidas que se estabelecem no interior do ciberespaço.

10. Sobre a listas de discussões como espaço de sociabilidade ver Máximo, 1998.