O ano da morte de Ricardo Reis
(José Saramago)


O Ano da Morte de Ricardo Reis, de José Saramago tem a característica marcante da intertextualidade. Já no título do livro, que resume o conteúdo básico e conduz o fio narrativo, percebemos a retomada de um dos heterônimos de Fernando Pessoa, Ricardo Reis.

Enquanto intertextual, o personagem retomado irá apresentar-se de forma diversa. Tecendo um paralelo entre o Ricardo Reis pessoano e o Ricardo Reis que nos é apresentado no livro, notamos claramente as diferenças que mostra a visão do outro sobre o mesmo, ou seja, como o autor, que se revela como narrador onisciente estando presente em todas as situações, revendo o passado e antevendo o futuro e principalmente tomando conhecimento dos pensamentos e sentimentos passados no "eu" de cada personagem, vai recriar em perspectiva e personalidade diversa o mesmo Ricardo Reis. É importante ressaltar que a representação social e a máscara corpórea de ambos os Reis, vão ser as mesmas: "Um homem grisalho, seco de carnes" (página 15) , a modificação é tão somente interior e subjetiva, marcando a diferença dos autores, o poeta Pessoa que o cria e o escritor Saramago que o recria.

Ao Ricardo Reis pessoano podemos atribuir a seguinte definição: é um espectador do mundo que não se envolve sentimentalmente nas suas tragédias:

"Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos Que a vida passa e não estamos de mãos entrelaçadas."

Tem a concepção de amor como algo espiritual e imaculado que não se realiza no plano material, por isso sua musa Lídia é incorpórea.

"Para ser grande, sê inteiro: nada Teu exagera ou exclui. Sê todo em cada coisa. Põe quanto és No mínimo que fazes. Assim em cada lago a lua toda Brilha, porque alta vive."

É comedido e correto, suas odes são rigorosamente metrificadas e nelas retoma o período clássico. É monárquico e revela-se conservador.

Na retomada de sua personalidade por Saramago, o personagem perde algumas caraterísticas básicas, motivo de cobrança para Fernando Pessoa que ressurge do mundo dos mortos: "você afinal desilude-me, amador de criadas, cortejador de donzelas, estimava-o mais quando você via a vida à distância que está" (página 183).

"gestos que parecem querer recompor umas feições, restituí-las aos seus lugares de nascença, refazer o desenho, mas o artista tomou a borracha em vez do lápis, onde passou apagou, um lado da cara perdeu o contorno, é natural, vai para seis meses que Fernando Pessoa morreu." (página 330)

Podemos observar que assim como o poeta Fernando Pessoa (na perspectiva fictícia), tem os seus contornos físicos dissipados ao longo do romance pelo decorrer dos nove meses de falecimento (embora no plano real a matéria também deteriore), tecendo um paralelo com o embrião humano que leva nove meses para ser gerado, o seu heterônimo retomado vai também dissipando a sua personalidade ao longo desse período. "alguma latinação clássica de que já não fazia leitura regular" (página 22) "formara, de enfiada, três versos de sete sílabas, redondilha maior, ele, Ricardo Reis, autor de odes ditas sáficas ou alcaicas, afinal saiu-nos poeta popular" (página 47) O Reis de Saramago deixa-se contagiar pelas coisas mundanas, já não é tão coerente e objetivo. Surge uma Lídia camareira do Hotel Bragança com quem ele mantém relações, a sua musa se corporifica e ele deixa de "fruir o momento que passa" como espectador, para realizá-lo carnalmente. "quem será que não quer dormir em mim, o corpo inquieto, de quem, ou o que não sendo corpo com ele se inquieta, eu por inteiro, ou esta parte de mim que cresce, meu Deus, as coisas que podem acontecer a um homem." (página 99)

Aparece também a personagem Marcenda por quem Ricardo Reis se apaixona, passando à expectador já que aguarda a sua presença de todos os meses, as cartas, e por fim uma decisão de unir-se à ele que não se concretiza.

"e este ainda queixoso só porque não recebeu de Marcenda uma carta de amor, não esquecer que todas as cartas de amor são ridículas" (página 269)

E ao final do romance ele se deixa contagiar totalmente pelos acontecimentos do mundo quando chora a morte de Daniel, irmão de Lídia. "e entra em casa, atira-se para cima da cama desfeita, escondeu os olhos com o antebraço para poder chorar à vontade, lágrimas absurdas que esta revolta não foi sua, sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo" (página 411) Atendo-se aos exemplos propostos na questão, observamos a mudança de perspectiva futura da citação de Os Lusíadas (Camões) e das retomadas dessa citação no início e do final do romance abordado. Os Lusíadas data de 1572, encaixando-se no período da Literatura Renascentista:

"Literatura Renascentista: Marcada pela consolidação do capitalismo mercantilista (século XV a meados do século XVI), é muito livre em relação às imposições morais , levando uma atitude de epicurismo e busca de uma moral naturalista. Nasce uma atitude antropocentrista, semelhante à da Antigüidade clássica, em oposição ao teocentrismo medieval. A natureza é o modelo básico para o conhecimento humano." (Almanaque Abril, vol.1 (1975) – São Paulo: Ed. Abril, 1974 – Anual 1995, página 678)

Como pudemos observar na citação esta época era favorável à Portugal que possuía sua economia voltada para as explorações marítimas, e tinha posição geográfica favorável. Era o mundo a ser conquistado e explorado em favor e em nome da pátria portuguesa como aconteceu. Portugal detinha não só o poder, mas as condições para obtê-lo; a perspectiva de ascensão era total : "Onde a terra se acaba e o mar começa". Já O Ano da Morte de Ricardo Reis romance contemporâneo do século XX, retrata um período onde imperava a ditadura no Ocidente, representada em Portugal por Salazar, a perspectiva dos acontecimentos era diferente, e o verso comentado anteriormente é retomado invertido: "Aqui o mar acaba e a terra principia". Podemos tomar a citação do ponto de vista do personagem que retorna à Portugal de navio, o "Highland Brigade" (cujo o nome inglês não é apresentado gratuitamente pois revela a opressão exercida em Portugal pela Inglaterra), e para ele que chega depois de dezesseis anos a terra recomeça renovada pelas mudanças. Mas também da perspectiva histórica fazendo uma alusão à perda do extenso império português marítimo e colonial, Portugal regressando depois de muitos anos e conquistas, como uma criança que tenta armazenar a água nas mãos e o elemento líquido escorre surpreendentemente pelos dedos e ela regressa de mãos vazias porém com o aprendizado que adquiriu na experiência. Ao final do livro a frase conclusiva "Aqui, onde o mar se acabou e a terra espera" podemos entrever na primeira oração o final da utopia revolucionária marítima, o fim dos sonhos de grandeza, reconquistas e transformação em grande potência mundial. E na segunda oração, a espera pela libertação da miséria e do subdesenvolvimento do país, espera de uma revolução que libertasse o país da opressão que a ditadura salazarista exercia em 1936 em Portugal.

Diante destas três frases, pudemos observar a variação da perspectiva semântica, pois no verso de Camões podemos interpretar terra como um Portugal dinâmico que sai aventurando-se pelo mar promissor que trará a riqueza e a ascensão, e nos de Saramago o mar tem uma conotação de algo findo que nada mais oferece nem promete e a terra um Portugal passivo e expectador dos acontecimentos; da perspectiva ideológica, no século XVI em plena ascensão Portugal posicionava-se "quase no cume da cabeça da Europa toda" e no século XX é o quintal da Europa, colocando-se em posição inferior; e da perspectiva estética, na inversão de terra-mar para mar-terra.

 


(Por Daniela Sirigni - Pós-Graduada, Bacharel e Licenciada em Língua Portuguesa e Literaturas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro)