18 de Junho de 1998

 
(Traduzido e enviado pela Embaixada de Portugal em Atenas)

The god is dead whose cult was to be kissed

Aris Vlavianos

Li recentemente os poemas em Inglês de Fernando Pessoa (1888-1935), há pouco publicados em Portugal, numa cuidada tradução de Luísa Freire. Foi uma experiência reveladora.

Pessoa é sem dúvida o maior poeta português depois de Camões – um criador em cuja obra estão condensados os temas e as técnicas de literatura do século XX, particularmente no que respeita à polimorfia da vida actual e à abordagem experimental da composição.

Aquela última foi em grande parte baseada na criação de uma série de "alter egos" a quem ele dava nomes diferentes. Era o seu modo de investigar a natureza instável da sua própria personalidade e superar as restrições de uma só personalidade literária. Os heterónimos serviram a Pessoa como meio de exprimir vários aspectos filosóficos, conseguindo assim uma visão mais completa e objectiva da realidade do que qualquer outra que pudesse oferecer uma só e única perspectiva.

Dando a cada nome uma vida concreta e estilo diferente (os poemas de Álvaro de Campos estão escritos em versos livres, os de Ricardo Reis têm métrica mas não rima e os do próprio Pessoa muito frequentemente apresentam rima), o poeta tentou desliga-los da sua personalidade, criando assim uma obra mais pessoal e ecuménica.

Pessoa falava inglês perfeitamente e nessa língua escreveu alguns dos seus poemas.

Essa sua heterogeneidade bilingue talvez seja a razão da sua heterogeneidade (quase psicopatológica), quando escrevia em Português. Já que as duas línguas diferentes e tradições literárias não lhe bastavam – a tradição da poesia inglesa do século XIX e a pós-romântica ou a modernista portuguesa – Pessoa escrevia as suas obras portuguesas em linguagens diferentes e publicava-as com nomes também diferentes. Justamente porque sempre se sentia obrigado a escolher, para se exprimir nos seus poemas, entre o Inglês e o Português, Pessoa aproveitou o isolamento que lhe provocava a necessidade de escolher entre as duas línguas igualmente íntimas e ao mesmo tempo estranhas. Escrevendo numa delas, Pessoa devia fazer de conta que desconhecia as tradições poéticas da outra; e para mais, escrevendo em Português, devia cada vez ignorar a linguagem usada por pelo menos cinco personalidades diferentes da dele.

Mesmo o nome de Pessoa parece insinuar esse destino particular. Proveniente da palavra latina "persona", "máscara" em Português corrente, significa pessoa. No tema "máscaras", Pessoa dedicou um dos seus 35 melhores sonetos, publicados na Inglaterra em 1918: "Quantas máscaras usamos nós, e mais tantas debaixo delas, em cima da cara da nossa alma".

Quando se exprimia em Inglês, Pessoa habitualmente comunicava as suas ânsias metafísicas e fantasias eróticas numa linguagem como a de Benlose, de Blake e de Hopkins. Foi efectivamente um daqueles "eremitas" da poesia inglesa: escreveu numa língua que lia e imaginava, mas raramente falava ou ouvia.

Tal como confessa no Soneto VI: "Como um mau orador... cortejar as volúpias da Musa, numa língua estranha". Na pessoa de Alexandre Search, parece curioso ele ter escolhido a língua dos tempos da sua educação anglo-saxónica, para escrever a espécie de poesia que alguns poetas ingleses ousavam escrever só em Latim ou, como Elliot, em Francês. Se continuasse a escrever em Inglês (cessou em 1921) seria sem dúvida um dos maiores poetas dessa língua.

Os seus sonetos e as composições como "Antínoos" e "Nupcial" mais que comprovam o que precede.


fonte: http://www.instituto-camoes.pt/