O Amigo

por Carlos Queiróz


 

Era bom encontrar o amigo

No Café, onde estava a olhar

Com um gesto elegante e ambíguo

Para o fumo a sumir-se no ar.

 

A poesia era o tema dilecto

Da conversa que o tempo engolia.

O real, o preciso, o concreto

Nem sabiam que a gente existia.

 

Nada era para nós maculado,

Nem um só sentimento era fosco:

Porque havia outra luz, outro lado,

E o mistério morava connosco.

 

Tudo isto foi antes de Orfeu

Ter levado o encanto consigo.

Esse amigo está vivo - e morreu.

(E de mim, que dirá êsse amigo?)

 

(in "Litoral", nº1, Lisboa, 1944)

FERNANDO PESSOA - O ROSTO E AS MÁSCARAS,

David Mourão-Ferreira