
O quinto império - o visionarismo profético
Através da profecia do Quinto Império, a
Mensagem inscreve-se na corrente profética, aquela que de facto corresponde a uma
identificação colectiva e de sentido positivo. O
Bandarra é "Este cujo coração foi / Não
português mas Portugal" e António Vieira "O Imperador da Língua
Portuguesa".
Esta profecia que nasce do sonho ou da
meditação, anunciou um Império de um tipo novo, espiritual.
De acordo com o esquema da interpretação do
sonho de Nabucodonosor, por Daniel, que assinala os quatro impérios - Babilónia,
Medo-Persa, Grécia e Roma - o quinto seria segundo Pessoa (Sobre Portugal -
Introdução ao problema nacional, p. 234) o Império de Inglaterra, por de impérios
materiais se tratar. Ora, o Império que profetiza é espiritual e o esquema em que se
insere é diferente, pois é o da grandeza civilizacional: "Grécia, Roma,
Cristandade/Europa - os quatro se vão /Para onde vai toda a idade /Quem vem viver a
verdade/ Que morreu D. Sebastião?"
O apelo da Mensagem vai no sentido da
concretização de uma vocação universalista dos portugueses, a qual não se afasta da
que é expressa em 1923 na Revista Portuguesa: "O Quinto Império, o futuro de
Portugal, que não calculo, mas sei- está escrito já, para quem saiba lê-lo, nas trovas
do Bandarra e também nas quadras do Nostradamus. Esse futuro é sermos tudo. Quem,que
seja Português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de
uma só fé (...). Ser tudo de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em
faltar ainda alguma cousa (...).Na eterna mentira de todos os deuses, só os deuses todos
são verdade".
Das condições para a criação de um
"império de cultura", refere Pessoa como fundamentais: uma língua rica e
completa, o aparecimento das obras de génio nessa língua.
Para além do anúncio de si próprio como o
génio contemplado no grande acontecimento profetizado por Bandarra para 1888 (data em que
nasceu), importa considerar a apreciação política de autores portugueses que Pessoa faz
no ensaio sobre "A Nova Poesia Portuguesa", mas sobretudo a sua admiração por
Teixeira de Pascoaes.
De facto, a Mensagem constroi-se em
diálogo com o profetismo de Pascoaes, o poeta da saudade, dele se aproximando e
demarcando,Pessoa considera que as "intuições proféticas" de Pascoaes vão no
sentido da sua antevisão do "futuro glorioso que espera a pátria portuguesa "
e propôe-se nos seus estudos "sociológicos" fazê-las passar do nível
intuitivo ao de um pensamento lógico.
"O nacionalismo místico" de Pessoa
reformulará a visão de Pascoaes e sobretudo acentuando a vocação universalista de
Portugal e a sua disponibilidade de "poder ser".
Se em Pascoaes a saudade reúne lembrança e
desejo, em Fernando Pessoa o poder criador do mito recebe a força suprema da qual depende
inteiramente o futuro e, com ele, o passado.
A memória não depende de uma realidade
empírica, mas de um alto destino que se faz e o faz existir. Leiam-se os primeiros versos
do poema "Viriato":
"Se a alma que sente e faz conhece
Só porque lembra o que se esqueceu
Vivemos, raça, porque houvesse
Memória em nós do instinto teu"
Como nota Alfredo Antunes (in A Saudade
Profética), a profecia sebastianista aparece em Pascoaes bastante diluída quanto à
sua concretização espacio-temporal, enquanto em Pessoa ela é investida de um alto valor
de intervenção que engloba o descontentamento do presente e visa o futuro pela acção
de uma vontade transformadora.
A diferença é bem visível se compararmos, por
exemplo, o tom apelativo do terceiro dos símbolos"O Desejado", com este
extracto de "A Era Lusíada" de Teixeira de Pascoaes: "Eis que ele
reaparece logo, ainda não em corpo vivo,mas em fantasma de nevoeiro.A Saudade lutuosa,
através das suas lágrimas, visiona o Desejado. Os seus olhos perdem-se na neblina do mar
que desenha vagamente ao longe , a ilha do Encantamento.(A Era Lusíada, Porto,
1912).
O Sebastianismo de Fernando Pessoa exige uma
referência imprescindível a António Nobre, que deixou incompleto um poema intitulado
" O Desejado" , publicado postumamente.
Segundo Pessoa, o autor do " livro mais
triste que há em Portugal" , o Só diz-nos da nossa tristeza de sermos
orfãos e choramos sabendo que é inutilmente que choramos.
Do ritual de sacríficio consagrado nas páginas
de Nobre, encontramos um eco nítido no terceiro de "Os Avisos", onde às
lágrimas choradas é interior o calor e a luz.
De "submissão"voluntária ao sonho se
poderá falar (" Quando meu sonho e meu senhor?")
Tudo o que Pessoa escreveu sobre o assunto ,
irónicamente ou não , poderá elucidar-nos acerca de uma vivência dos problemas
portugueses.
Mas apenas na Mensagem encontramos a
identificação do sujeito e da pátria, num pensamento da Hora trágica, que apenas o
mito, que como tal se afirma pode interpretar, fazendo surgir o sol na noite, o nacional e
o universal.
O Quinto Império, símbolo colocado sob os
desígnios do Encoberto, nada tem de loucura irracionalista ou de cálculo de uma
identidade.
A Mensagem é toda ela um acto de paixão
pela Pátria, que a confunde com a aspiração anónima de um povo, a passar além de si,
e dar ao mundo novos mundos que só a inteligência pode achar.
"O Sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Momentos de espr'ança e da vontade,
Buscar um linha fina do Horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a ponte
Os beijos merecidos da verdade"
("Horizonte")
A ortografia arcaica que Pessoa valoriza
corrobora a mitificação do passado e o ideal aristocrático que animam a Mensagem.
Este ideal é, aliás, sublinhado por um intenso
patriotismo visível nas "Páginas de Estética" e de
"Auto-Interpretação" e que conjuga o seu acérrimo humanismo:
"Há três realidades sociais - o
indivíduo, a Nação, a Humanidade" (
)
"A Humanidade é outra realidade social tão
forte como o indivíduo, mais forte que a Nação, porque mais defenida do que ela"
(
) "É através da fraternidade patriótica, fácil de sentir a quem não seja
degenerado que gradualmente nos sublimamos ou sublimaremos, até à fraternidade com todos
os homens. (
)". A Nação é a escola presente para a Super-Nação futura.
Cumpre, porém, não esquecer que estamos ainda e durante séculos estaremos na escola e
só na escola.
Se intensamente patriota é três coisas: é
primeiro, valorizar em nós o indivíduo que somos e fazer o possível por que se
valorizem os nossos compatriotas, para que assim a Nação, que é a suma viva dos
indivíduos que a compõem, e não o amontoado de pedras e areia que compõem o seu
território, ou a colecção de palavras separadas ou ligadas de que se forma o seu
léxico ou a sua gramática - possa orgulhar-se de nós, que, porque ela nos criou,
somos seus filhos, e seus pais porque a vamos criando".
Fonte: http://www.ufp.pt/
- Universidade Fernando Pessoa - Portugal