
Ricardo Reis, pormenor do mural de Almada Negreiros na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1958).
De formação clássica,
"pagão por carácter", segue Caeiro no amor da vida rústica, junto da
natureza. Mas, enquanto o Mestre, menos culto e complicado é (ou pretende ser) um homem
franco, alegre, Reis é um ressentido que sofre e vive o drama da transitoriedade
doendo-lhe o desprezo dos deuses. Afligem-no a imagem antecipada da Morte e a dureza do
Fado. Daí, ele buscar o refúgio dum epicurismo temperado de algum estoicismo, tal como
em Horácio, seu modelo literário: "Abdica e sê rei de ti próprio". Lúcido e
cauteloso, constrói, para si urna felicidade - relativa, mista de resignação e moderado
gozo dos prazeres que não comprometam a sua interior. Trata-se de fruir, muito consciente
e ponderadamente, as coisas acessíveis sem demasiado esforço ou risco. Latinizante no
vocabulário e na sintaxe, o seu estilo é densamente trabalhado e revela ainda, muito
claramente, o seu tributo à tradição clássica no uso de estrofes regulares, quase
sempre de decassílabos nas referências mitológicas, na frequência do hipérbato, na
contenção e concisão altamente expressivas e 1úcidas.
(in Edições Sebenta)
Leia ensaio sobre:
"O Ano da Morte de Ricardo Reis"
de José Saramago