| O Barão de Teive sai da tumba de Fernando Pessoa Entre os muitos heterônimos criados pelo poeta, surge agora o fidalgo indignado com a própria racionalidade. Um outro eu ou o mesmo desassossegado colecionador de máscaras? Por Ciça Guirado Solidão, desafeto, desapego do bem e do belo vulgares, incapacidade de amar uma mulher. Esses e outros sentimentos egoístas rondam o pensamento de Álvaro Coelho de Athayde, o Barão de Teive, semi-heterônimo que Fernando Pessoa matou duas vezes. (Talvez por isso ele tenha demorado tanto tempo para submergir do labirinto literário do espólio.) A primeira quando sente a impossibilidade de fazer arte superior diante do manuscrito encontrado numa gaveta de hotel, por isso deita-o a arder ao lume; a segunda quando leva a personagem ao suicídio. Convencido de sua superioridade, o Barão preferiu colocar-se à parte do mundo na Quinta da Macieira, uma pequena propriedade afastada do centro urbano lisboeta, onde, a 12 de julho de 1920, Pessoa iria executá-lo com um sorriso que nada tinha de inocente, como sondou Richard Zenith, o homem que liberta o Barão por inteiro, divulgando o caderno de capa preta que repousava na arca pessoana da Biblioteca Nacional de Lisboa. A Educação do Estóico, recentemente lançado em Portugal, pela editora Assírio e Alvim, mostra mais um lado da prosa pessoana. (O livro, preço ainda não definido, pode ser encomendado na Livraria Portugal no tel: 0XX11- 3104-1748) Uma única vez o Barão havia escapulido do baú, com destino ao Brasil. Passeou quase ocultamente, em 1965, pelas mãos de Aliete Galhoz, na segunda edição da Obra Poética de Fernando Pessoa, da Nova Aguilar. Galhoz citou breves fragmentos do Barão. Já lá se vão mais de 30 anos... Este tempo todo o Barão hibernava orgulhos tão nobres (mesmo que falsos) que parecia ser impossível ao peito lusitano superar o espelho e estender a mão ao fidalgo. Daí que muita gente ficou quieta ou torceu o nariz à edição de Richard Zenith, um americano da Virgínia, que há mais de uma década estuda Fernando Pessoa. Fez-se silêncio e não foi para ouvir o fado. Curioso país! Somos capazes de encher páginas e páginas, com fotografias e entrevistas, com obras de terceira ordem, mas quando se publica um texto inédito de Pessoa, que de imediato suscita curiosidade internacional, nós, nada! Silêncio, desinteresse, notas breves de vão de página..., indignou-se Eduardo Prado Coelho, em ensaio sobre o Barão publicado, em Lisboa, no jornal Público do dia 26 de junho passado. Foi só no último Jornal de Letras, Artes e Idéias, quinzenário cultural, edição de 28 de julho (ilustração de capa por Júlio Pomar), que a Polêmica Pessoana foi estampada nas bancas do país. Contidos, como convém ser em caso de Pessoa, falaram famosos especialistas (Ivo de Castro, Antonio Tabuchi, F. Cabral Martins, Aliete Galhoz, Manuela Parreira da Silva, Sidónio Paes e outros). Elogios amenos. Ácidos menos amenos lançaram sobre Zenith. As farpas mais pesadas foram as de Teresa Sobral Cunha, que aproveitou a deixa para desfigurar a edição feita por Zenith do Livro do Desassossego. Conhecedora da obra há quase 20 anos, ela contestou não só a organização dessa obra, mas também os direitos editoriais que serão explorados pela Assírio & Alvim até o ano de 2006, conforme acordo estabelecido entre a editora e os sobrinhos do poeta. De qualquer forma, a editora, que repassa ao Brasil, pela Cia. das Letras, e a vários países europeus, o direito de reimprimir as relíquias pessoanas, tem um projeto em andamento para publicar todo o espólio. Além do Livro do Desassossego e da Educação do Estóico, publicou-se Mensagem e Ficções do Interlúdio (Fernando Cabral Martins), A Hora do Diabo (Teresa Rita Lopes), A Língua Portuguesa (Luísa Medeiros), Correspondência (1905-1922) (Manuela Parreira da Silva). Obras que receberam nova roupagem, nova transcrição, por não concordarem os estudiosos com as antigas publicações. Cada Pessoa, um livro, cada edição, um Pessoa. Cada leitor pode também provar da sua reordenação, ou comparar as várias edições numa febril fúria que ataca o espírito dos que têm tendência à critica genética. A Cia. das Letras, por exemplo, garante, na estreita faixa publicitária da capa, que o Livro do Desassossego, lançado este ano no Brasil, é uma obra definitiva. Zenith avisa que isto não diz respeito à sua edição. Para ele, qualquer outra pessoa editaria o poeta de modo diverso: Cada um tem a sua versão. Esta é a minha, mas isto não significa que seja a última ou a melhor, defende-se. Quando o aristocrata apareceu em cena, em 1965, Aliete Galhoz, na introdução da Obra Completa de Fernando Pessoa, interpretou-o: Entre o asceta e o homem vulgar não conheço, na esfera da dignidade da alma, uso intermédio ou médio termo. Quem usa que use, quem abdica que abdique. Use com a brutalidade do uso; abdique com a absoluteza da abdicação. Abdique sem lágrimas, sem consolações de si mesmo, senhor ao menos da força de saber abdicar (grifo meu para mostrar que a lição adotada por Richard Zenith é outra. Ele leu: da força da sua abdicação, p. 52, por considerar que Pessoa-Teive havia escrito primeiro assim, depois riscou, no manuscrito, da sua abdicação e corrigiu para saber abdicar, segundo o critério utilizado por ele, que considera a primeira escritura). São purismos assim que causam tanta balbúrdia! Ninguém abdica da sua visão. Enquanto isso, o Barão deve sorrir sarcasticamente e assustar a todos ao dizer: Atingi à saciedade do nada, à plenitude de coisa nenhuma (...) Nada já pode transformar a minha vida. Se...se... Sim, mas se é sempre uma coisa que não aconteceu; e se não aconteceu, para que supor o que seria se ela fosse? (p. 17). O medo de falhar o impedia de correr perigo: Do mesmo modo, nunca pude jogar em jogos de competência. Perdi sempre com rancor e despeito. Por me julgar superior a todos? Não, que nunca me julguei superior no xadrez ou no wihist. Por simples orgulho, um orgulho extravasado e sangrento, que nenhum esforço desesperado da minha inteligência pôde recolher ou estancar (p. 20). Repugnando os conceitos estéreis da fidalguia, o Barão casa-se com a uma rapariga muito simples, mas (tal como Pessoa não concretiza sexualmente seu romance com Ofélia Queirós) não chega a atingir o bem estar da relação amorosa, o que atribui às diferenças sociais: Entre mim e ela ergueram-se-me na indecisão da alma 14 gerações de barões, a visão da vila sorridente do meu casamento, o sarcasmo dos amigos nunca íntimos, um vasto desconforto feito de mesquinhezes, mas de tantas mesquinhezes que me pesava como a comissão de um crime. E assim eu, o homem da inteligência e de desprendimento, perdi a felicidade por causa dos vizinhos que desprezo (p. 21). E o poeta fingidor? Quais motivos alegaria para nunca ter tocado o corpo de Ofélia, com quem apenas conversava longamente ou passeava de elétrico pelas ruelas da baixa pombalina? Também Ricardo Reis, mesmo cercado de Nausicas, jamais provou do prazer do sexo. O mesmo parece ter ocorrido com Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Bernardo Soares e com todos os outros Fernandos. Apenas fingimentos líricos? Será que a arca do poeta ainda reserva surpresas promíscuas? Ou a promiscuidade de Pessoa só se pode medir pela multiplicidade mutilada das variantes heteronímicas? Zenith, no post-mortem que fecha, com grande alívio para os leitores, a Educação do Estóico, admite que 20 anos de promiscuidade literária deixaram Pessoa rodeado de páginas e páginas de um Fausto em caos, de um Livro do Desassossego cujo título definia perfeitamente o seu estado redacional, centenas de poemas inacabados (...), fragmentos de ensaios variadíssimos, e ainda dezenas de planos também incompletos, hesitantes, contraditórios (...) (p. 100). Ao contrário de Bernardo Soares, o ajudante de guarda-livros, que só fazia sonhar, o Barão de Teive guarda razões de dureza sempre com escrúpulo da precisão, a intensidade de esforço de ser perfeito (...) Mil idéias juntas, cada uma um poema, que cresciam inúteis. De tantas nem me podia lembrar quando as tinha, quanto mais quando as já perdera (p. 25). Pessoa-Soares rebateria com a necessidade de voar para dentro: Eu nunca fiz senão sonhar. Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida. Nunca tive a preocupação verdadeira senão a minha vida interior (Livro do Desassossego, p. 120). O Barão não chora. Resmunga com os pessimistas Leopardi, Vigny e Antero de Quental, que se baseavam num racionalismo extremo e ilógico. Garante Teive que: Os três são vítimas da ilusão romântica (p. 68); O pessimismo, verifiquei, é muitas vezes um fenômeno de recusa sexual. (...) Todos os indivíduos grosseiros têm a necessidade da nota sexual; é ela até que os distingue (pp. 29-30). Teria sido essa a razão de não ter levado para a nobre cama todas as mulheres que o cercavam? Não havia uma criada da minha casa que não pudesse ter seduzido. Mas umas eram grandes, ou, se o não eram, pareciam-no, pela exuberância vital, e perante essas eu tinha uma timidez antecipada, até encastrada : nem sonhando, me concebia seduzindo-as. Outras eram pequenas, frágeis, e fazia-me pena. Outras eram feias. E assim passei ao lado da generalidade da vida (p. 40). Critica a máxima de Leopardi que diz: Eu sou tímido com as mulheres, logo Deus não existe, ponderando que esta é uma metafísica muito pouco convincente (p.74). Apesar de todas as insatisfações, o Barão declara: Tenho todas as condições para ser feliz, salvo a felicidade. As condições estão desligadas umas das outras (p. 27). Ele recusa o pessimismo, mas acaba condenado pela racionalidade e confessa antes do suicídio: Atingi, creio, a plenitude do emprego da razão. E é por isso que me vou matar (p. 57). Assim terminou o aristocrata, um dos muitos instrumentos de exorcismo e redenção. Nasceram todos para salvar Pessoa da vida que não aturava, de que não gostava, ou que lhe parecia além das suas capacidades (...) (pp. 85-86), analisa Zenith no Post-mortem. Ciça Guirado é jornalista (UEL-PR), mestre em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) e Doutoranda em Estudos Portugueses, na Universidade Nova de Lisboa. Em 1995 e 1996 foi colaboradora no Grupo de Trabalho para o Estudo do Espólio e Edição Crítica da Obra Completa de Fernando Pessoa
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Fonte: http://www.estado.estadao.com.br/