ballnovofer.gif (536 bytes) TRÊS POEMAS PORTUGUESES


PESSOA REVISITED


 

Esta noite encontro-te, poeta.

Esta noite, que não é antiquíssima,

Nem idêntica por dentro

Ao silêncio,

Sendo apenas o lúcido abismo

Da minha insônia,

Sigo da margem

Ao rio dos teus versos.

Alguma vez todos os poetas

Se encontraram contigo.

Mesmo os menores como eu

Ou o meu vizinho do lado,

Que é contabilista, não faz versos

E arrepela violino nas horas de lazer.

Esta noite olho e penso

Os versos reacionários,

Em que reinventaste o sentido das palavras

E te negavas.

Negavas-te na irônica contradição

Dos conceitos escalpelizados

E até

Na matemática escorreita da correspondência comercial,

Com o mesmo à vontade

Com que um Einstein especula com espaços interestelares

E a diurna e esquisita noite galáctica.

O teu gênio desmedido

Frustrava em ti

O burocrata para uso externo.

E rias, alto

Como um insulto amargo,

Por detrás

Do Álvaro de Campos snob,

Ou oculto

Na frieza geométrica e longínqua

Do Ricardo Reis.

Cerebrais, frios, são,

Dizem,

Os teus versos.

São-no como quem fala, lenta,

Pausadamente,

Dissimulando na garganta o nó da angústia.

Diante

Da alheia ignorância do tempo absurdo,

Com a miopia e o bigode estreito

Do manga de alpaca a fingir cabotismos,

Habitavam

O gênio e a náusea.

Com o gesto banal e repetido de quem

Acende o cigarro

Abriste as portas do espanto

E fizeste acreditar que eram as da dispensa.

Porisso

Hoje nos limitamos a entrar,

Porisso dormimos hoje com a cabeça

Nos teus versos,

Falamos com ar despreocupado

No Pessoa, à hora do café

E visitamos-te com secreta religiosidade.

Agora que tu te foste,

Sem que déssemos por tal,

Desapercebido, caminhando nos bicos dos pés,

Como o fazias em vida,

Em vão te buscamos,

Em vão rezam por ti compridas laudas

Em jornais a ressumar cultura,

Em vão te imitamos,

Em vão a estridência do nosso arrependimento.

Lá onde moras não há som

E nem sequer te incomodam no leito

As duras pedras e a terra úmida das raízes.

No dia 30 de Novembro de 1935

Aqui fazia sol

E eu, na beira do passeio,

Via passar os elétricos sem os entender

E resumia o sonho à nitidez gulosa

Do pão com manteiga,

Sentado a milhares de quilômetros da tua morte.

Perdoai pois se não fui

Ao teu enterro anônimo.

 


Livro: O País dos Outros - RUI KNOPFLI (1932)


FERNANDO PESSOA
(1888-1935)


 

Disfarçamos os gestos nessa bruma

Que o corpo sabe rente ao coração

- como o perfeito mar morre na espuma

e vem ouvir-se em nós a escuridão.

Perfeito o magoado som de pluma

Que modula em seu arco a solidão

Só nos sossega a hora mais escura

E os passos que em perdido rumo vão.

Sorriem já as máscaras ao lume,

Solto o mundo em redor do coração

- e correm nos seus braços de negrume

os tons dissimulados da canção.

Que mais do que da terra em que se nasce,

Desta escura canção a alba faz-se.

 


Livro: Viagem de Inverno - Luís Filipe de Castro Mendes


NATUREZA MORTA COM BERNARDO SOARES


 

Esta mesa de mármore

Mó absorvente onde

As folhas espadanam

Põe-me na rota dessoutro

bojo calipígio onde o poeta

ele-mesmo copiava a escrita.

Vagueia a paisagem, irradiando-me;

Ambaciado sol me localiza

Sou eu, é minha a mesa,

Meu o sossego, e mói.

Sobre o ringue sem patinadores,

Cisterna seca à minha frente,

Poluídas tílias em flor.

Ousarei invovar outro terreiro,

O sol-a-sol do só, a poluída vida,

Os duplicados que o poeta fez?

Plagiadas arcadas:

E o meu olhar margina

As águas, pródigas águas

Que redemoinham após a seca.

 


livro: A Lume - Luiza Neto Jorge (1939-1989)


Referência Bibliográfica:

SILVA, Alberto da Costa e BUENO, Alexei (Org). Antologia da Poesia Portuguesa Contemporânea: um panorama. Rio de Janeiro: Lacerda Ed., 1999.