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O
mito das três raças repaginado*
Ilka
Boaventura Leite
Professora
do Departamento de Antropologia da UFSC e coordenadora do NUER
Quando
o assunto é a identidade cultural brasileira, volta e meia
nos deparamos com aqueles que se rendem aos "argumentos persuasivos"
que defendem a mistura como o principal elemento identitário
e, portanto, "constituinte" da nacionalidade brasileira
. Estes "argumentos persuasivos", como chegam a enfatizar,
justificaria por si só, a preferência, considerada
"mais simpática", por esta visão de um Brasil
miscigenado, mestiço, pressupondo, certamente que isto seria
a garantia de uma visão mais democrática da referida
sociedade em questão.
A meu
ver, isto caracteriza uma postura interpretativa, teórica
e política, não propriamente explícita (mas
considerada altamente "otimista") do mito das três
raças, tal como foi brilhantemente analisado por Roberto
Da Matta. Em outros termos, o mito das três raças,
há muito incorporado como ciência nas cartilhas escolares,
reaparece agora repaginado, narrando novamente o sucesso absoluto
da triunfante missão colonial embranquecedora. Este argumento,
no quadro político do Brasil atual, soa para os negros brasileiros
como mais um terrível ardil.
Afinal,
pensar o Brasil pluricultural, proposta levada pelos movimentos
sociais à Assembléia Nacional Constituinte de 1988
deveria pressupor um reconhecimento mínimo de que as desigualdades
sociais observadas encontram-se também projetadas no plano
cultural e, que superar essas desigualdades, implica na necessária
incorporação, no plano jurídico, das experiências
históricas dos grupos que participaram da construção
do país. Significa não negar a cultura a esses grupos,
mas sobretudo vê-los, no mínimo, enquanto espectro
de uma negação, e, portanto capazes agora de se afirmarem
pelo viés da experiência qualificada, marcada, neste
caso, pelo racismo. Mas, tudo indica que essas especificidades,
tidas como irrelevantes, incômodas, ou, melhor, perigosas
e supostamente capazes de produzir ainda mais conflitos, devem ser,
para o "nosso bem", abafadas. Esta postura, um tanto fóbica,
parece ser de uma ingenuidade atroz, mas não é. Tratar
diversidades como misturas, pode muito bem ser visto como um certo
agenciamento da cidadania - poderia concluir, sem dúvida,
José Maurício Arruti.
O Brasil,
um dos países de maior desigualdade social atualmente no
mundo, nunca poderá se ver como democracia se não
respeitar as diferenças culturais, se não conseguir
vê-las, sem precisar apagá-las através da idéia
da mistura. Conforme nos lembra Ruben George Oliven, uma nação
não se torna democrática se não consegue reconhecer
os valores e as expressões estéticas de seus grupos
formadores, se não traduzir isto em direitos sociais. Quando
a lei maior, a Carta Constitucional chega a ter que mencioná-los,
chega a explicitar o fato de grupos humanos inteiros terem sido
durante séculos de formação da nação,
alijados dos direitos sociais e culturais básicos, como é
o caso de africanos e seus descendentes e de algumas nações
indígenas que restaram hoje "aldeadas", é
inútil querer ignorar as proposições resultantes
deste debate que está apenas começando. De fato, ainda
há muito a ser feito, para que nossa sociedade se torne democrática.
No
momento em que a discussão sobre o racismo está sendo
provocada desde a base das instituições, em que há
inúmeros dispositivos jurídicos propugnados por instâncias
e organismos internacionais preocupados com os direitos humanos
como a UNESCO, a ONU, a Organização Internacional
do Trabalho, a Conferência de Durban, que incidem sobre questões
cruciais a serem postas em prática para se atingir um estado
mínimo de dignidade humana; no momento em que tais instituições
reconhecem a necessidade de proteção do patrimônio
cultural afro-brasileiro, do apoio aos estudantes negros que buscam
uma chance para se profissionalizar, em que a regularização
fundiária das terras ocupadas pelas famílias afrodescendentes
estão sendo vinculadas com o combate ao êxodo e à
fome, que apontam formas de abolir certas discriminações
no mercado de trabalho; no momento em que se discute amplamente
no país e se busca soluções que contemplem
essas populações historicamente alijadas; exatamente
neste momento, ressurge o mesmo discurso que ecoou nos anos trinta,
trazendo consolo e acomodação às elites dominantes.
Quase um século depois, esse discurso retorna falando em
mestiçagem, em mistura, e estas vozes, surpreendentemente,
são as mesmas que são contra as chamadas ações
afirmativas e cotas. Vozes que se apegam aos argumentos persuasivos
da miscigenação, da mistura, não mais de raças....Isto
nos parece uma sinistra coincidência.
Levamos
cinqüenta anos para demonstrar que Gilberto Freyre foi um dos
mais ilustres representantes do pensamento conservador, elitista
e folclorista deste país e há vozes que ainda insistem
em entroná-lo como o nosso pai intelectual, ou seja, ainda
insistem em que nos reconheçamos a partir do mito das três
raças, supostamente "formador" da identidade nacional
brasileira, da suposta nacionalidade. Pois bem, como vem percebendo
Kabengele Munanga, uma das vantagens de se acreditar no mito das
três raças, é o de não precisar enxergar
que os pobres, os não-letrados, os indigentes, a população
carcerária do Brasil, correspondem, em sua maioria, aos descendentes
dos africanos que chegaram no Brasil como escravos. São esses
os filhos dos que durante mais de trezentos anos foram escravizados,
torturados e mortos. É só olhar em volta, nem há
necessidade de pesquisas, ou estatísticas. É só
olhar em volta, para constatar isto, mas as pesquisas confirmam:
em todo o país, há cerca 20% de alunos negros e 80%
de brancos sentados nos bancos das universidades. Tendo feito palestras
em lugares os mais eqüidistantes do país, procurei,
no momento de começar a falar, localizar os negros na platéia.
Quase não os vi. Uma vez falei para uma platéia de
mais de 500 estudantes em uma universidade do oeste catarinense
e não havia um único negro lá, sequer um para
alterar a minha narrativa. Também circulei por inúmeros
espaços dentro do campus e também quase não
os vi entre os funcionários. Retornando à UFSC, também
percebi que ocorre o mesmo, e no quadro de professores, isto apareceu
de modo mais acentuado: somente cerca de 1% são negros. As
estatísticas, embora rarefeitas e até problemáticas,
existem, e foram amplamente divulgadas pela mídia, evidenciando
ainda mais que os fatos "falam por si", mas é claro,
somente para quem quer considerá-los.
No
quadro de ausência quase completa de professores negros nas
universidades, apenas uns poucos funcionários, principalmente
cuidando da limpeza. Este último ponto é verdadeiramente
emblemático. Estou falando, é claro, da região
sul do Brasil, mas posso também falar de minhas vivências
em outras regiões. Lembro-me que em meados dos anos 80, na
faculdade de filosofia e ciências humanas da USP, bem no canto
do corredor, havia um balcão elegante, de madeira e mármore,
onde se servia cafezinho, sempre gratuito, aos professores e seus
convidados, geralmente alunos de pós-graduação.
Sempre passava por lá após as sessões de orientação.
Este cafezinho era servido por uma família inteira de negros
que se revezavam, em pé, nos três turnos do dia, fazendo
e servindo o precioso líquido para os professores e seus
convidados. Alguns freqüentadores mais assíduos contavam
que esta família de negros estava ali há décadas,
servindo o cafezinho aos professores. Muitas vezes eles eram percebidos
enquanto negros e se tornavam, inclusive, assunto principal das
conversas, até discussões, por vezes acaloradas. Muitos
dos argumentos, altamente persuasivos sobre eles, eram depois inclusive
incorporados em teses e textos científicos. Isto me chamava
muita atenção e agora retorna, quando me deparo com
esta visão, por vezes mais cínica do que bem humorada,
de que um sistema democrático pode existir independentemente
do respeito às diferenças, ou que estas diferenças
não devam ser realçadas, pelo risco de que elas possam
"recrudescer o racismo".
Não
podemos esquecer que o ideário democrático das elites
brasileiras foi construído no período escravocrata
e em diálogo íntimo com as teorias racialistas, nos
lembra Lilia Schwarcz. Neste sentido é que enquanto os intelectuais
da USP, (universidade da qual fiz parte como aluna, e que trago
aqui apenas como um caso exemplar) bebiam seu cafezinho à
moda do Império, eram servidos pelos negros pobres e iletrados,
discutiam, ardentemente a redemocratização do país.
Tal como na vigência do Império, ser a elite (e, ao
mesmo tempo, ser branco ou branca) ainda representa ter acesso,
ser atendido por um grupo de serviçais, de preferência
por uma extensa parentela familiar (geralmente considerados como
negros, não importa a tonalidade da pele). Ser elite é
dedicar a eles certa complacência, combinada com altivez,
uma espécie até de apadrinhamento cordial, sem contudo
deixar de impor ou fazer valer a regra vigente de cada um no seu
lugar (relembrando aqui mais uma vez Da Matta). Este cenário
de relações patriarcais instituiu paulatinamente a
idéia de negro como sinônimo de serviçal, e
também, desses como seres com poucas capacidades intelectuais.
Cada um no seu lugar vem sendo o brado máximo da nacionalidade
brasileira. O episódio do porteiro que pede aos negros para
seguirem pelo elevador de serviço é um conhecido exemplo
e foi discutido exaustivamente pelo filho de uma lavadeira chamado
Florestan Fernandes, que também tomou daquele cafezinho,
mas nem por isso acomodou-se, demonstrando que vozes como a sua,
embora minoritárias nos diversos ambientes acadêmicos,
se diferenciavam radicalmente da maioria. Naquele balcão
da USP, bem como em outras universidades em todo o país,
a elite intelectual, em sua maioria proveniente de famílias
escravocratas com um forte orgulho de seu passado, e seus agregados,
recém-chegados, continuou tranquilamente sendo servida pelos
descendentes dos escravos, sem qualquer problema de consciência,
sem o medo que aparenta hoje quando a questão ganha relevância
nas políticas sociais. Esta elite, presente também
em outras universidades do país inteiro, ainda defende, com
unhas e dentes os valores democráticos, sem se dar conta
de que ele não existe sem o reconhecimento jurídico
do direito à diferença, que eles não se implantarão
sem que se possa conferir aos sujeitos históricos de carne
e osso, os tributos extraídos da secular negação
de suas diferenças, de suas especificidades culturais. Sim,
especificidade não quer dizer cultura espetaculosa para estrangeiro
ver, mas a valorização de trajetórias, a própria
fala que sempre foi sufocada ou ignorada. Estas elites que se postam
mais uma vez no lugar de intelectuais e pesquisadores da realidade
social brasileira querem, curiosamente, dar um basta, um chega de
falar no assunto, àqueles que de fato, nunca puderam falar.
Chegam ao absurdo de defender, na atualidade, que os jovens negros
devem ficar na escola básica: -"vamos investir na escola
básica", é o argumento mais usado, como se os
negros tivessem que ficar eternamente no ensino fundamental, no
"primário".
As
universidades públicas brasileiras ainda são verdadeiros
redutos dessa gente, de indivíduos provenientes e que ainda
postulam uma cultura e tradição escravocrata. É
interessante observar como o cenário atual se constituiu.
Na ausência de quadros representativos da sociedade nacional,
as universidades acolheram preferencialmente os filhos dos imigrantes
europeus, tornando-os subproduto e desdobramento das antigas práticas
coloniais, de buscar, lá fora, no estrangeiro, a inspiração
e as alianças, capazes de reavivar, até os dias atuais,
as velhas estratégias e projetos de embranquecimento, agora
disfarçados em amplas posturas meritocráticas. E é
neste contexto, que defendem: não há negros porque
eles não passaram no vestibular! Quanta hipocrisia! Nossa
subserviência e supervalorização do que vem
de fora, advém, provavelmente, dentre tantos aspectos, deste
tipo de racismo que aqui se desenvolveu e, que, constato, cresce
a todo vapor, mais uma vez referendada pela postura de um viajante
distanciado, que busca legitimar-se de um lugar de poder incontestável:
-"viajei pelo mundo e posso dizer o que vocês são",
é a afirmação "empírica" do
pesquisador que se considera muito bem fundamentado.
Precedendo
a um dos regimes mais desumanos que toda a humanidade já
se defrontou, passados quase quatro séculos, veja bem, quatrocentos
anos de escravização, tortura, morte e exploração
de africanos, envolvendo mais de quatro milhões de indivíduos
do continente africano, há ainda quem busque resgatar, revigorar,
a idéia de país misturado, pacificado pela miscigenação.
Revestido pelo medo, o mesmo medo que assolou os senhores de escravos
nas casas-grandes, que sempre existiu no país, o conflito,
é agora a razão maior, o pânico maior, que se
revela na causa contra as ações afirmativas, contra
as cotas. A cruzada é explicitamente pelo silêncio.
Uma forma, a meu ver, inútil, de dissipar as lutas travadas
pelos negros para contar a sua história, para falar de sua
negação. O que temos ouvido, ao contrário e
"ad nauseam" são discursos sobre a democracia racial,
sobre o povo "pacífico e ordeiro", imagem divulgada
no mundo inteiro por Gilberto Freyre - e para inglês ver!
Relembrando
um pouco certos fatos incontestáveis do passado:
Enquanto o Brasil reacomodava seus negros recém-libertos
no fundo do quintal, no fundo da casa, no fundo da cozinha, no fundo
da igreja, no fundo do fundo, diria nosso corajoso Roger Bastide,
os Estados Unidos, com seu horrendo regime segregacionista já
tinha implantado um sistema universitário que formava padres,
médicos, enfermeiras, professoras - quadros humanos para
instituições voltadas exclusivamente para os africanos
e seus descendentes. O contra-senso imposto pelo racismo ali implantado
é que estes quadros profissionais, frutos de uma política
baseada no reconhecimento extremo da diferença (não
esqueçamos, segregacionista e baseada em idéias de
inferioridade) não impediu, por outro lado, a emergência
de situações exemplares, capazes de alavancar um processo
político reivindicativo, como foi registrado através
de Martin Luther King e seus sucessores, até os dias atuais.
Assim que houve o aparecimento das ações afirmativas
e as cotas nos Estados Unidos, que representaram apenas uma parte
ínfima do processo político, houve uma inversão
acelerada dos índices que eram até então desfavoráveis
aos negros . Todos os analistas até agora concordam que estas
posturas, extensivas inclusive ao mercado de trabalho, alteraram
profundamente a cultura política do país. Por incrível
que possa parecer, foi a visibilidade daquele tipo de racismo, evidenciado
na discussão das cotas o que permitiu a instauração,
em curto prazo, de um senso de justiça que deslanchou um
processo político com dividendos altamente positivos e considerados
irreversíveis para a comunidade negra norte-americana. Os
exemplos que inspiram auto-estima a um povo são, ao mesmo
tempo, as bases sólidas em que se assenta a idéia
de nacionalidade, foi a pertinente conclusão de Anthony Smith.
O exemplo dos Estados Unidos pode não ser dos melhores, mas
certamente é o grande inspirador das lutas atuais dos negros
brasileiros. O que assistimos, agora, no Brasil, essa reação
contra as cotas, e ao mesmo tempo, um redirecionamento para o foco
da mistura, parece muito mais uma reação às
prováveis mudanças. É possível ver que
este racismo, suavizado pela ênfase na mistura, é ao
mesmo tempo, o que vai servindo de combustível infalível
para o crescimento da invisibilidade, a face da moeda que conforta,
aliena e acomoda: "não dá pra saber quem são
os negros, portanto fica difícil implantar tais políticas",
dizem alguns. A elite (vendo-se principalmente como branca), não
reconhece a necessidade de ceder um milímetro no que considera
mérito seu. Quando se trata de falar das cotas, fazem tudo
para desconstituir a iniciativa, afirmando inclusive que isto é
coisa dos americanos.
Pergunto:
E a meritocracia, por acaso também não é? Esta
sim, foi implantada e absorvida com uma rapidez surpreendente entre
a maioria dos professores das universidades públicas brasileiras.
Esta sim, tem sido uma peça de importação rápida
e sem qualquer questionamento, que pouco a pouco vai transformando
os corredores das universidades brasileiras em verdadeiras pistas
de corrida, instaurando um reconhecível clima de "salve-se
quem puder". E constato essa corrida vem ganhando cada dia
mais força e adeptos. Em recente episódio na UFSC,
que se tornou de domínio público e agora institucional,
uma pseudo-elite convencida do indiscutível fundamento meritocrático
(também "altamente persuasivo"), decidiu cassar
o direito de outros professores, colegas seus, ao ensino na pós-graduação,
professores com farto currículo e longa experiência
de ensino, (um deles com formação em nível
de pós-doutorado), professores inclusive adorados pelos seus
alunos, simplesmente por não terem obtido (o que parece nem
ser verdade) o índice estipulado no ranking, na famosa pista
de corrida instituída pela CAPES. Sinceramente, me sinto
envergonhada de fazer parte de uma comunidade científica
que promove cassações de colegas em nome de se colocar
em algum degrau acima, que se vê inclusive, com o legítimo
direito de se auto-ranquear...
Lembro-me,
neste momento tão delicado de nossa experiência democrática,
de uma frase, dita por Raul Antelo, no auge da recente crise na
Argentina: - "esta crise não é econômica,
é cultural". De fato, tendo a concordar com ele, a coisa
é mais ampla, abrange a atual crise política brasileira,
que enxovalha as manchetes dos jornais. Não é somente
uma crise política, é principalmente uma crise de
cultura política. E enquanto tal guarda uma relação
direta com as atuais políticas culturais .
Vislumbro
tudo isto agora, com bastante nitidez, principalmente quando sou
novamente obrigada a me encontrar com o fantasma de Gilberto Freyre
rondando as "pistas" universitárias. Só
posso mesmo concluir que precisamos, urgentemente resgatar aquele
velho e instrutivo ditado africano que diz: "quem não
sabe para onde vai, deve buscar se lembrar de onde veio".
Florianópolis,
20 de junho de 2005
Mais informações:ilka@cfh.ufsc.br
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