Olhares de África: lugares e entre-lugares da arte na diáspora

Iniciado em 2006 com apoio da CAPES, e do CNPq, em 2008 e 2009, o projeto  aborda as artes visuais contemporâneas através das narrativas e imagens que contestam, reforçam e recriam uma poética visual africana e afro-brasileira.

O projeto dialoga com a teoria pós-colonial, ao repensar lugares de saber, poder e representação presentes nas relações entre nações e culturas posicionadas desde o processo de colonização e descolonização. Autores como Young (2002), Journet (2002), Mirzoeff (2004) Cohen (2003)  e Bhabha (1994) constituem referências importantes e ampliam o debate sobre  tradição, modernidade, autenticidade e singularidade, encenando uma crítica aos binarismos e modos de pensar a cultura contemporânea.

A.chamada ‘arte africana’ está entre aquelas categorias muitas vezes definidas como objetivas, como não resultantes e/ou decorrentes de processos de construção social, tornando-se assim altamente vulneráveis, em suas generalizações principalmente quando  utilizadas para delimitar fronteiras culturais. Os usos e procedimentos classificatórios reatualizam a carga de significados com grandes  implicações que vão do gênero à etnicidade. As classificações que orientam o olhar estético na cultura guardam suas “bagagens” diversas, não podendo ser entendidas da mesma forma em todos os lugares, embora circulem amplamente nos universos midiáticos globais. Apor exemplo, o ‘black’ ou  o ‘negro’ assume dimensões distintas nos diversos contextos, o mesmo acontecendo com o ´africano/a´. Parece  relevante hoje indagar quais imagens de África são veiculadas nos diferentes contextos e quais os discursos a elas associadas. 

Busca-se, portanto, depreender as imagens que se apresentam como articulações discursivas e integram as narrativas históricas e heróicas e que tem nas artes visuais o seu ponto de ancoragem. No Brasil esta produção vem destacando-se enquanto projeções de singularidades realçadas desde um passado colonial escravista. Em Moçambique remetem ao contemporâneo, a uma forma de distanciar-se dos estereótipos de arte convencionalmente vista como primitiva ou tribal. Em Portugal, vêm sendo identificadas com o período pós-independências, pelos desdobramentos e processos reflexivos e por vezes, vista como arte da lusofonia. A relação espaço-tempo  está sendo propositalmente destacada no projeto para ampliar as possibilidades comparativas que o tema sugere.  

Na última década no Brasil, ao mesmo tempo em que há um visível e crescente aumento do interesse pela África (leis que incentivam o estudo de África em forma de conteúdos didáticos e de proteção do patrimônio cultural afro-brasileiro, acordos comerciais e intercâmbios estudantis e de pesquisa científica) – prospera, de modo surpreendente, a veiculação de um conjunto de imagens que tem muito pouca ou nenhuma correspondência com a África na atualidade. Um exemplo disso é o conjunto das imagens disseminadas em programas oficiais como o “Programa Brasil Quilombola”

A chamada “diáspora africana”, nomeia e expressa o que é comumente identificado com discursos e lugares subalternos perante as ex-colônias. Moçambique passou pelo processo político de independência e socialismo de Estado e vive hoje condições decorrentes do padrão de subalternidade que vem do período colonial desdobrando-se, portanto, em condições persistentes na atualidade. As narrativas que abrangem os países chamados “lusófonos” não representam desconhecimento da diversidade de suas experiências coloniais, mas pauta-se no reconhecimento de estratégias que fazem parte das novas relações pós-independências. É o lugar da experiência de des-individualização, do restabelecimento e resgate dos vínculos sociais, por onde ocorrem as inúmeras possibilidades de contato humano, permanecendo emolduradas pelos diversos significados conferidos à vida coletiva. A diáspora, segundo Paul Gilroy (2001), é um conceito que perturba a mecânica cultural e histórica do pertencimento, altera o poder fundamental do território para determinar a identidade, ao valorizar os parentescos sub e supranacionais, histórias pós-coloniais, trajetórias e sistemas de trocas transculturais. A idéia de “diáspora negra” desenvolvida por ele abre novas possibilidades para se pensar a territorialidade e as formas de conceber pertencimentos e fronteiras culturais.  A arte, sem dúvida alguma, é um importante lugar para investigar e discutir as identidades situadas no marco da contemporaneidade.

1ª imagem – Idasse Tembe
2ª imagem – José Guimarães – Favela
3ª imagem - Jorge dos Anjos- Sem titulo, 2002
4ª imagem - Tania Anaya.Calendário do Ministério da Educação, 2006
5ª imagem - Francisco Vidal - O caderno do autor
6ª imagem - Rosana Paulino - Bastidores, 1997
7ª imagem - Obra de Gemuce - Corrida viciada 4 instalação, 2009

Coordenação: Ilka Boaventura Leite

Pesquisadores de Iniciação Científica:

Milena Argenta (2007)

Márcia Irigonhê  e Carolina Peçanha (2008-2009)

Thania Cristina dos Santos (2009)

Willian Conceição (2010-2011)

Apoio: CAPES  (2007) CNPQ (2008- 2011) 

Contato e informações: nuerolhares@cfh.ufsc.br

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