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BIG BANG: a origem
de tudo
Texto copiado e adaptado
da revista
Globo Ciência n°
10, de maio de 1992
Autor do artigo: José
Tadeu Arantes
(Usado para trabalhos
didáticos na disciplina Fundamentos de
Astronomia e Geodésia
do curso de Geografia da UFSC)
Paulo Araújo Duarte
(organizador). Professor de Astronomia do Departamento de Geociências
da Universidade Federal
de Santa Catarina
paduarte45@yahoo.com.br
Quando confirmou
que a radiação cósmica não é homogênea,
mas sofre oscilações espantosamente pequenas, o satélite
científico americano Cosmic Background Explorer (Cobe) colocou os
habitantes da Terra, em fins de abril, diante de algo que poderá
se converter na maior descoberta deste século - ou mesmo de todos
os tempos, como chegou a arriscar o professor Stephen Hawking, o mais renomado
astrofísico da atualidade. A importância fundamental desse
fato está em revitalizar a teoria da Grande Explosão (Big-Bang)
primordial, que agora se consolida como a mais sofisticada e consistente
explicação do começo do universo já concebida
pelo homem, em todos os tempos. Por trás da pergunta aparentemente
ingênua dos filósofos medievais havia uma reflexão
profunda: queriam saber se o espírito ocupa ou não um lugar
no espaço - ou melhor, indagavam-se sobre a natureza do espírito.
De modo semelhante, a teoria do Big-Bang parte de uma indagação
sobre a natureza da matéria. Como é possível que toda
a matéria existente no universo, que se distribui hoje por bilhões
e bilhões de galáxias, cada uma delas com bilhões
e bilhões de estrelas, estivesse confinada num volume infinitamente
pequeno? Desde as descobertas do genial Albert Einstein (1879-1955), sabe-se
que matéria e energia são expressões diferentes da
mesma realidade. Da transformação da matéria em energia
originam-se tanto o poder destrutivo da bomba atômica como o poder
construtivo da luz do Sol, responsável pela vida na Terra. E o universo
primordial era pura energia. Quando, retrocedendo teoricamente no tempo,
nos aproximamos de sua origem, a energia, expressa em temperatura, atinge
valores estonteantes. O limite desse retrocesso, o começo de tudo,
é o que os cientistas chamam de "singularidade": um ponto sem volume,
de densidade e temperatura infinitas.
0 universo
se expande
"Singularidade" é
só um limite para nomear o inominável. É uma ironia
que, fugindo sempre de qualquer explicação metafísica
sobre a origem do universo, a ciência tenha chegado a uma situação
que desafia a capacidade explicativa da física. A teoria do Big
Bang, porém, longe de ser fruto de qualquer especulação
filosófica ou contemplação mística, é,
como qualquer teoria científica, apenas uma maneira coerente de
acomodar os dados compilados pela observação. O primeiro
desses dados foi fornecido em 1929 pelo astrônomo norte-americano
Edwin Hubble ( 1889 - 1953). Com o melhor telescópio da época
- o de Monte Wilson, Califórnia - e ajudado por Milton Humason (
1891-1973) - um ex-porteiro de laboratório, de instrução
primária, mas excepcional perito em espectrografia -, Hubble descobriu
que as galáxias distantes estão todas se afastando de nós.
E que a velocidade desse afastamento é tanto maior quanto mais longe
está a galáxia. Assim, como já faz séculos
que perdemos a ilusão de habitar o centro do cosmo, se um astrônomo
extraterrestre observar o céu a partir de qualquer outra galáxia,
também verá as galáxias distantes se afastando dele,
como Hubble. Ou seja: é o universo inteiro que está em expansão.
O fenômeno é parecido com o que ocorre quando se enche uma
bexiga (ou balão) de aniversário decorada com bolinhas: na
medida em que a superfície da bexiga se expande, as bolinhas se
afastam todas umas das outras - e tanto mais rapidamente quanto mais longe
estiverem entre si. A idéia do universo em expansão já
existia antes de Hubble. Em 1922, o meteorologista e matemático
russo Alexander Friedmann (1888-1925) chegara à mesma conclusão
a partir de um tratamento puramente teórico das equações
de Einstein sobre gravitação. Curioso é que o próprio
Einstein não admitia essa possibilidade. Embora fosse o principal
responsável pela maior revolução da ciência
neste século, sua cosmologia era essencialmente clássica:
ele considerava o universo eterno e estático em seu conjunto. Como
a solução mais simples de suas equações desmentia
esse pressuposto, introduziu nelas um artifício matemático,
algo feito sob encomenda para driblar a questão. Anos mais tarde,
o grande gênio admitiria, com humildade, que essa fora "a maior gafe"
de sua vida. Seja como for, o modelo de Friedmann permaneceu relativamente
ignorado até que as descobertas de Hubble dessem à tese da
expansão do universo uma formidável confirmação
experimental. Quem traçou os contornos gerais da teoria do Big Bang,
na década de 1940, foi um ex-aluno de Friedmann, russo como ele:
George Gamow (1904-1968). Refugiado nos Estados Unidos mas ainda bom apreciador
de vodca, esse físico nuclear e talentoso escritor de livros de
divulgação científica era um peso pesado - física
e intelectualmente. Com o objetivo inicial de explicar a formação
dos elementos químicos, acabou se aprofundando cada vez mais na
astrofísica e na cosmologia.
Descobertas
se completam
Na época, o
físico inglês Fred Hoyle sustentava que os núcleos
atômicos de todos os elementos químicos se formavam gradualmente,
por fusão nuclear, no fervilhante interior das estrelas. É
a chamada nucleossíntese estelar, explicação razoável
que acabou esbarrando num obstáculo: a superabundância do
hélio-4 - sabe-se hoje, ao pesquisar em qualquer direção
do céu, que esse elemento leve constitui cerca de 25% da massa do
universo. Ora, mesmo considerada a intensa atividade de todas as estrelas,
ela seria insuficiente para explicar a grande quantidade e a homogeneidade
da presença do hélio. Gamow veio com a explicação:
propôs que o hélio se formou em escala cósmica numa
fase em que o conjunto do universo passava por temperaturas semelhantes
ou até mais altas que as encontradas nas estrelas. E prosseguiu
no raciocínio: para que esses patamares elevadíssimos de
temperatura houvessem sido atingidos, seria necessário que toda
a massa do universo estivesse comprimida num volume extremamente reduzido.
Isso casava perfeitamente com o afastamento das galáxias observado
por Hubble. Afinal, pensou Gamow, já que a matéria está
em expansão constante, houve um momento, no passado, remotíssimo,
em que estava toda compactada. Nessas, condições, compressão
e temperatura seriam tamanhas que nenhum átomo, nem mesmo núcleo
de átomo, subsistiria. A matéria só poderia apresentar-se
então como um plasma formado de partículas subatômicas
em frenética atividade. Depois, com a explosiva expansão,
a temperatura cairia rapidamente, permitindo que as partículas se
combinassem. E a teoria foi se completando de modo espetacular. Os cálculos
de Gamow levaram-no a concluir que essa formidável "cozinha" cósmica
não funcionou por mais de meia hora - tempo suficiente, acreditava,
para que se formassem os núcleos atômicos de todos os elementos
conhecidos. Os conhecimentos atuais fazem crer que tanto Gamow como Hoyle
produziram grandes descobertas parciais que se complementam. Assim, a nucleossíntese
primordial formulada por Gamow responde apenas pela formação
dos núcleos dos elementos leves: hidrogênio, deutério,
hélio-3, hélio-4 e lítio-7. Isso porque a rapidíssima
queda de densidade da matéria provocada pela expansão impediu
que as reações continuassem. Os núcleos dos elementos
mais pesados só se fundiriam bem mais tarde, justamente na nucleossíntese
estelar postulada por Hoyle. Contudo, como a história da ciência
nunca foi uma festa bem-comportada, desencadeou-se nos anos 50 uma guerra
de argumentos inteligentes e farpas venenosas entre defensores e adversários
do Big Bang - expressão criada, aliás, por ironia do brilhante
Fred Hoyle. Acabou pegando, embora sugira uma explosão de matéria
no espaço, o que não corresponde à teoria. Nem matéria,
nem tempo, nem espaço preexistem ao Big Bang: surgem com ele. Do
lado dos arquiinimigos do Big Bang, perfilavam-se os defensores da teoria
do Estado Estacionário: Hoyle e seus jovens colegas da Universidade
de Cambridge, os austríacos Hermann Bondi e Thomas Gold. Para eles,
o universo seria infinito e homogêneo no espaço, bem como
eterno e imutável no tempo. Se mantinha sua densidade média
constante, apesar da expansão descoberta por Hubble, era porque
matéria nova (partículas subatômicas) era continuamente
criada, ocupando o vazio deixado pela matéria que se afastava. A
própria expansão seria provocada pelo aparecimento da matéria
nova, que empurraria a matéria preexistente. De onde vinha essa
matéria nova? Do nada, respondiam os três, com a maior candura.
Afinal, ponderava Gold, "será mais fácil admitir um único
grande milagre (Big Bang) do que vários pequenos milagres(criação
contínua)?" A disputa entre os dois partidos cosmológicos
só seria decidida em 1965, nos EUA, por obra do acaso. Os físicos
Arno Penzias e Robert Wilson operavam uma enorme antena para estudar, a
serviço da empresa Bell Telephone, a interferência das radiações
estelares nas comunicações via satélite.Toparam então
com uma fraquíssima emissão de rádio que chegava de
todas as regiões do céu. Quebraram a cabeça na tentativa
de descobrir a origem daquele sinal (uma família de pombos que se
aninhara na antena chegou a ser responsabilizada).
Uma descoberta
sensacional
Bem perto deles, na
Universidade de Princeton, uma equipe de físicos liderada por Robert
Dicke conduzia uma pesquisa em busca de algum vestígio da origem
do universo. Um contato entre os dois grupos, uma conversa sobre os respectivos
trabalhos e vem à tona uma das mais sensacionais descobertas da
física moderna: a misteriosa emissão, percebem Dicke e seu
grupo, era justamente o que eles mais queriam encontrar: um "eco" do Big
Bang. Na verdade, é um resíduo de energia, proveniente
dos restos fossilizados de fótons (partículas de luz) que
existiram no universo primordial quando a radiação se desacoplou
da matéria, uns 300 ou 400 mil anos depois da origem. Ao longo do
processo de expansão e resfriamento, a temperatura dessa radiação
caiu quase ao zero absoluto, e ela já não surge mais em forma
de luz, mas de microonda. Preenche uniformemente o espaço e equivale
à emissão de um corpo negro a 2,7 graus Kelvin, que é
também a temperatura média atual do universo. Tudo exatamente
como George Gamow previu nos anos 40. A euforia é geral. O mundo
científico entra em polvorosa. A imprensa dramatiza: "Descoberta
a voz de Deus". Era o golpe de misericórdia no "estado estacionário"
de Hoyle e companhia. A partir daí, a teoria do Big Bang ganharia
aceitação da quase totalidade dos especialistas. É
bem verdade que, para isso, o modelo recebeu acréscimos, passou
por reformas e ganhou interpretações crescentemente sofisticadas.
O próprio cálculo da idade do universo foi várias
vezes corrigido, até chegar ao consenso atual: algo entre 15 e 20
bilhões de anos. A física de partículas passou para
o primeiro plano, lado a lado com as observações astronômicas,
como alimentadora dessas revisões teóricas. Explica-se: os
grandes aceleradores de partículas permitem reproduzir, "em condições
de laboratório", níveis de energia próximos aos que
se calcula terem existido no universo recém-nascido. A partir
daí desenharam-se cenários mais e mais complexos das dramáticas
transformações do cosmo em sua estruturação
material. O mais intrigante desses cenários é sem dúvida
o "modelo inflacionário" do Big Bang, proposto no início
dos anos 80 pelo físico norte-americano Alan Guth e reformulado
pelo russo Andrei Linde. Esse modelo baseia-se na concepção
de vazio da física quântica: o vácuo é pensado
como contendo energia, que pode exercer importante pressão sobre
o meio. Apenas um centésimo de milionésimo de bilionésimo
de bilionésimo de bilionésimo de segundo depois do Big Bang,
teria ocorrido um fenômeno crucial: a expansão a uma taxa
fantasticamente superior à normal. Isso não durou mais que
uma ínfima fração de segundo mas fez com que uma região
menor do que o próton ficasse bem maior do que todo o universo que
hoje somos capazes de observar. Em conseqüência, o universo
real teria dimensões simplesmente inimagináveis: um diâmetro
da ordem de 103000
anos-luz (o algarismo 1 seguido de 3 mil zeros). Ora, o universo que podemos
observar não excede algumas dezenas de bilhões de anos-luz.
Com seus bilhões e bilhões de galáxias, ele representaria
apenas uma diminuta parcela do universo verdadeiro. A idéia do vazio
quântico vem permitindo também que cientistas mais ousados
especulem sobre o que haveria por trás da desconcertante "singularidade"
que deu origem ao cosmo. Se se considerar que a energia potencial da gravitação
contrabalança rigorosamente a energia da matéria (isto é,
a massa mais a energia cinética), conclui-se que a energia total
do universo é nula. Nesses termos, o cosmo pode ser pensado como
tendo surgido de uma "flutuação" do vazio (toda vez que um
sistema muda de estado fala-se em flutuação e, no caso, o
vazio e o cheio são dois estados do mesmo sistema). Esse surpreendente
raciocínio, em que os físicos contemporâneos se empenham
seriamente, mostra o quanto as ciências de ponta se afastaram da
acanhada concepção de matéria que predominava no século
passado. E, por estranho que pareça, aproximaram-se, ao mesmo tempo
- involuntariamente, por certo -, de certa maneira de ver o mundo que é
característica das grandes tradições místico-filosóficas.
Isso é perceptível quando tomamos o exemplo do taoísmo
chinês: ele concebe a multiplicidade como manifestação
da Unidade, que por sua vez é gerada pelo Vazio - um vazio impenetrável
ao raciocínio, mas paradoxalmente pleno de virtualidades. O mistério
sobre a origem de tudo permanece - deslocado, porém, para um plano
mais alto. Pode ser essa, afinal, a postura da ciência: não
ter a presunção de eliminar o mistério último
das coisas, mas a grandeza de contemplá-lo com humildade e assombro.
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