UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS
HUMANAS
DEPARTAMENTO DE GEOCIÊNCIAS
PROFESSOR: Paulo Araújo Duarte
(organizador) paduarte45@yahoo.com.br
Texto usado para trabalhos didáticos
na disciplina Fundamentos de Astronomia e Geodésia do curso
de Geografia da UFSC.
A HIPÓTESE
GAIA
A nova e arrojada
teoria de James Lovelock pode mudar para sempre o modo como vemos a vida
em nosso planeta.
Fonte: Revista Seleções
n° 238, março de 1991, p. 25-29
Autor do artigo: Lowell
Ponte
No meio das colinas ondulantes
do sudoeste da Inglaterra, a casa de telhado de barro, palha e ardósia
parece imutável desde o tempo de Shakespeare. Seis pavões
emproados gritam no prado que a rodeia. Logo ao lado, porém, um
edifício aloja um laboratório recheado de computadores, cromatógrafos
e equipamentos químicos e eletrônicos. Seu dono, James Lovelock,
é um anacronismo. Numa era em que quase todos os cientistas são
especialistas trabalhando em grandes organizações, ele, que
tem 72 anos, é um investigador e inventor independente, que segue
como quer a sua curiosidade, abrangendo muitos campos. Parece um Benjamin
Franklin moderno, capaz de num dia estudar a corrente do Golfo e no outro
empinar um papagaio para captar os segredos dos raios. Pois foi ali que
ele propôs uma teoria que está modificando profundamente as
opiniões que os cientistas tinham da vida em nosso planeta.
VÏDA EM MARTE. Tudo
começou há três décadas, quando Lovelock inventou
o Detector para a Captura de Elétrons. Muito utilizado ainda hoje,
esse «nariz» eletrônico consegue farejar, entre milhares
de bilhões deles, alguns produtos químicos que se encontram
no solo, na água ou no ar. Em 1961, a NASA, conhecedora das capacidades
de Lovelock, solicitou sua colaboração no projeto de detecção
de vida em Marte. Lovelock estudou a química daquele planeta, usando
análises dos telescópios infravermelhos da NASA, e opinou
que lá não havia transformações químicas.
Tal estabilidade era a prova clara de um planeta sem vida. Mais tarde,
duas sondas Viking que desceram em Marte confirmaram sua conclusão
decepcionante. Contudo, enquanto procurava sinais de vida no Planeta Vermelho,
Lovelock ficou fascinado com o chamado Problema Goldilocks, um enigma que
há muito intriga os cientistas: por que razão Vênus
é quente demais para ter vida, Marte frio demais para isso e a Terra
tem a temperatura adequada? Os investigadores costumavam pensar que nosso
planeta tinha tido a sorte de estar à distância certa do Sol,
de modo que a água aqui permaneceu líquida, com uma temperatura
entre o ponto de ebulição e o gelo. Mas nosso Sol vai-se
tornando mais quente, à medida que envelhece; a melhor estimativa
é a que diz que ele brilha agora com mais 25% a 30% de luz e calor
do que quando apareceu a vida na Terra, há cerca de 3,8 bilhões
de anos. Calcula-se que a temperatura da Terra era então de cerca
de 26°C. Hoje ela está mais fria, com cerca de 15°C. Como
é que isso é possível? Lovelock perguntou-se se haveria
um mecanismo muito poderoso e que se auto-regulasse. Surgiu então
com uma tese provocadora: nosso planeta se comporta como um gigantesco
organismo vivo, no qual todas as coisas vivas interagem para manterem a
estabilidade. Tanto os indivíduos como as espécies têm
um determinado papel nisso tudo, mas sem o saberem, tal como os glóbulos
vermelhos do nosso sangue, têm uma vida própria e sem querer
trabalham concertadamente (sic) para manterem a nossa vida. William Golding,
Prêmio Nobel de Literatura e vizinho de Lovelock, sugeriu que se
chamasse Gaia a esta teoria, já que Gaia era o nome da deusa Terra,
em grego antigo. Lovelock adotou o nome e, desde que ele o propôs,
num encontro de cientistas em 1969, a Hipótese Gaia se tornou o
centro de um aceso debate científico. Embora pareça simples,
ela é uma idéia revolucionária. Argumenta que os seres
vivos não são vítimas passivas do seu meio ambiente,
mas podem alterá-lo. Tal teoria poderia transformar o pensamento
científico, do mesmo modo que o fez Isaac Newton, ao comparar o
universo a um mecanismo de relógio. A Hipótese desafia o
preestabelecido cientificamente por peritos que possuem especialidades
tão restritas que não os deixam ter uma imagem mais abrangente
das coisas: o mundo como um sistema, no qual o mar, o céu e a vida
se influenciam uns aos outros. Como afirmou Lovelock, que se formou em
Medicina: «Precisamos estudar a Terra tal como os médicos
fazem diagnósticos e tratam os doentes, não como se fosse
uma perna ou um ouvido isolado, mas um ser vivo inteiro. Precisamos de
cientistas que pensem de um modo novo, que sejam geofísicos.»
Para entender como funciona a Hipotese Gaia, tem-se de recuar aos primórdios
da vida. Há provas que sugerem que a atmosfera da Terra continha
então 98% de dióxido de carbono; isso produziu um «superefeito
estufa» que manteve nosso mundo quente. Mas, à medida que
o Sol foi se aquecendo, que terá impedido a Terra de superaquecer?
Um efeito estufa incontrolável transformou Vênus, um planeta
muito parecido com o nosso, quer em tamanho, quer na química elementar,
num inferno, com temperaturas de superfície acima dos 375°C.
A resposta de Lovelock é que os seres vivos da Terra são
os responsáveis pela diferença. As primeiras bactérias,
por exemplo, consumiam dióxido de carbono, retirando-o do ar e limitando
o efeito desse gás-estufa. Em seguida, há cerca de 3,7 bilhões
de anos, formas primitivas de algas azul-esverdeadas, as cianobactérias,
foram as primeiras a utilizar a luz do Sol para se alimentarem. Mas também
produziam o que para elas era um gás venenoso: o oxigênio.
Os produtos químicos dos vulcões impediram o gás tóxico
de aumentar durante bilhões de anos. Mas há cerca de 2,5
bilhões de anos, a produção de oxigênio excedeu
a sua remoção através dos vulcões, e esse gás
começou a se acumular livremente no ar. O oxigênio esfriou
a Terra, ao reagir e retirar do ar o gás metano. Pode ter sido essa
a causa da primeira glaciação, que está gravada nas
rochas que já então existiam. Era também venenoso
para uma parte da vida existente a essa altura. A Terra voltou a aquecer
e os organismos aprenderam a viver com o oxigênio e prepararam o
terreno para a vida que conhecemos.
OXIGÊNIO: a chave.
Hoje, a atmosfera da Terra contém 21 % de oxigênio. Se ele
diminuísse para 15%, a maior parte da vida animal morreria com falta
de energia celular e as plantas sofreriam, porque dependem do dióxido
de carbono que os animais expelem. Se, pelo contrário, o oxigênio
aumentasse para 25%, até a madeira verde e encharcada das selvas
arderia com facilidade e os incêndios nas florestas dos cinco continentes
transformá-las-iam em cinzas. Mas, devido a um controle tipo termostato,
esses grandes incêndios limitariam a única fonte verdadeira
de oxigênio, o enterramento de matéria orgânica nas
camadas sedimentares mais profundas da Terra. E este é apenas um
dos muitos sistemas de regeneração que a Hipótese
Gaia utiliza. Por acaso, Lovelock mencionou ao cientista Robert Charlson,
da Universidade de Washington, as medições que efetuara do
gás dimetilsulfito, produzido pelo plancton, na atmosfera. Este
cientista interrogava-se sobre que partículas desconhecidas forneceriam
os núcleos nos quais se condensa a umidade que conduz à formação
de nuvens. Lovelock e Charlson propuseram a hipótese de um outro
mecanismo «gaio» de regeneração. Se o tempo aquecesse,
o plâncton poderia emitir dimetilsulfito; as partículas de
enxofre daí resultantes poderiam produzir gotículas mais
abundantes e nuvens refletoras que assim protegessem o mundo e refletissem
mais luz do Sol para o espaço. A Terra, de acordo com essa teoria
ainda em debate, estaria reagindo às condições de
maior calor com uma ação de esfriamento do meio ambiente.
Desde que Lovelock a
criou, há 21 anos, que a Hipótese Gaia vem atraindo entusiastas
de todos os quadrantes. Entre eles, contam-se alguns homens de negócios,
porque ela lhes sugere que a Terra conseguirá sobreviver ao aumento
da poluição industrial. Lovelock concordou com isto, mas
acrescentou que a sobrevivência poderia incluir a substituição
dos seres humanos por espécies mais resistentes à poluição.
Muitos ativistas dos Partidos Verdes europeus adotaram noções
próprias a respeito da Hipótese Gaia. Mas Lovelock criticou
a política ambiental, considerando-a «uma pastagem luxuriante
para demagogos». Muitos cientistas consideram Gaia uma heresia, porque
parecia sugerir que a vida na Terra controla conscientemente seu meio ambiente.
Mas Lovelock e sua colaboradora de longa data, Lynn Margulis, da Universidade
de Massachusetts, acreditam que a natureza age de acordo com a evolução
darwiniana, sem qualquer inteligência ou plano consciente. Acontece
apenas que, com 30 milhões de espécies no mundo, a vida tem
um enorme poder de recuperação. Mais de 60 proeminentes cientistas
estudiosos da Terra reuniram-se, em março de 1988, em San Diego,
na Califórnia, sob os auspícios da prestigiosa União
Geofísica Americana, para debater e discutir a Hipótese Gaia,
com a presença de Lovelock. «Gaia é uma teoria, e como
tal está pronta a ser julgada pelos cientistas,>, diz Lovelock.
«Fiquei encantado por vê-la debatida por meus colegas. Ainda
não sabemos se é um verdadeiro modelo da Terra, mas foi bom
ter havido uma discussão científica e séria sobre
ela. Claro que o júri ainda se encontra reunido.»
Um dos críticos
da Hipótese Gaia, o biólogo britânico Richard Dawkins,
defendeu que a Terra não pode ser vista como um gigantesco organismo
vivo, como a Hipótese a considera, porque não se reproduz.
«Quer se concorde ou não com ela, trata-se de um brilhante
princípio de organização», diz Stephen Schneider,
climatologista no Centro Nacional de Investigação Atmosférica
dos Estados Unidos. «Reúne cientistas que normalmente não
se comunicam entre si, tais como biólogos, geoquímicos e
especialistas da atmosfera, levando-os a colocar questões profundas
sobre o modo como o planeta e os seres vivos interagem.»
Lovelock teve a primeira idéia sobre Gaia enquanto procurava, sem
qualquer êxito, vestígios de vida em Marte. Todavia, investigações
recentes mostram que o Planeta Vermelho recebe sol suficiente apenas para
manter a vida. Lovelock e o jornalista científico Michael Allaby,
seu colaborador, propuseram corajosamente uma previsão futurista:
soltar o poder da Gaia para dar vida a Marte. Para aquecer o planeta e
conseguir que a água corra de novo, sugeriram que se podia alagar
a atmosfera de Marte com gases de clorofluorcarbono, o que criaria um efeito
estufa. Em seguida, implantar-se-iam lá microrganismos retirados
dos vales secos da Antártida. Através da fotossíntese,
estas criaturas minúsculas começariam a transformar o dióxido
de carbono e a água em oxigênio. Sem os predadores ou os competidores,
poderiam reproduzir-se e cobrir a superfície do planeta. Em seguida,
seria possível estabelecerem-se colônias humanas e estufas.
Em 1992, no 500.° aniversário da descoberta do Novo Mundo por
Colombo, a NASA planeja colocar em órbita o satélite Mars
Observer. Enquanto isso, cientistas do Centro de Pesquisa Ames, em Mountain
View, na Califórnia, estudam a possibilidade de introduzir gases
de clorofluorcarbono na atmosfera de Marte, como previu Lovelock. Pensam
que Marte poderá atingir a temperatura que permita que a água
corra dentro de aproximadamente um século e que os microrganismos
tratados pela engenharia genética poderiam finalmente criar uma
atmosfera respirável para os peregrinos da Terra no século
XXI. |