|
A CIÊNCIA DA CAMISA-DE-FORÇA
Não temos dúvida alguma sobre os benefícios que a ciência nos tem trazido ao longo da história da humanidade. Contudo, é lamentável que ainda haja, nos meios científicos, estudiosos que defendam o pensamento científico com unhas e dentes, chamando qualquer outro tipo de conhecimento de crendice. Tal idéia nos lembra o caso do mentiroso que diz: - eu minto. Só que a partir deste momento ele não é mais mentiroso, pois está dizendo uma verdade. A posição de tais cientistas, que muitas vezes gostam de ser chamados de céticos, é semelhante à do mentiroso ao acreditar que a ciência é a única forma válida de conhecimento e que tudo mais é crendice. Em tal situação, sua ciência é transformada em pura crença, ou então em crendice mesmo. O que se deve combater é a desonestidade e a charlatanice, seja lá em que campo for do conhecimento humano. Mas combater e ridicularizar uma forma diferente de pensar e de obter resultados é o mesmo que radicalizar. E a radicalização na ciência acaba por torná-la também uma crendice. Albert Einstein, considerado um dos marcos da ciência moderna, não tinha esta postura cética e contrária à intuição e mesmo ao misticismo; afinal de contas, era um místico. Certa vez ele disse que "não existe nenhum caminho lógico para o descobrimento das leis elementares - o único caminho é o da intuição. E disse mais: "Eu penso 99 vezes e nada descubro; deixo de pensar, mergulho num grande silêncio - e a verdade me é revelada." Devemos levar em conta que metodologias e idéias fechadas podem direcionar resultados e que também nenhuma forma, mesmo científica, de ver o mundo, está isenta de contaminações resultantes de nossa bagagem cultural. E isto nos faz lembrar de uma dessas pegadinhas da TV em que o rosto de um monstro aparecia no espelho de um armário numa certa loja de móveis. Os adultos que entravam na loja e viam o monstro se assustavam. Mas uma criança de uns 4 anos de idade, no colo de sua mãe, via aquilo com a maior indiferença. E a mãe da criança também se assustou, como todos os demais adultos que se deparavam com a imagem do monstro no espelho. Foram dois comportamentos bem diferentes porque a cultura do medo ainda não estava instalada na mente “descontaminada” da criança. Duas verdades bem diferentes estavam sendo vistas naquele momento. Sabemos que a ciência busca uma forma coerente de acomodar os fatos analisados. Entretanto, é sempre bom considerar que duvidar ou acreditar gratuitamente em tudo são duas soluções igualmente cômodas, que nos dispensam de refletir. Além disso, devemos compreender que todas as metodologias e formas de pensamento têm limitações e estão sujeitas a contaminações provenientes de nossa bagagem cultural, ideologias, e, inclusive, nossas expectativas. Por tudo isso, a melhor e mais adequada postura na busca do conhecimento é estar aberto para as diversas opções. Afinal de contas, uma ciência como a de Michael Shermer e outros de mesma linha está pautada em regras rígidas, imutáveis e preconceituosas, que funciona como uma espécie de lavagem cerebral ou de uma camisa-de-força. Entendemos que o verdadeiro cientista moderno não pode ter medo da confusão de fronteiras entre os vários campos do saber humano. Como nos diz o físico e filósofo Paul K. Feyerabend, "a violação de leis científicas é necessária para haver o progresso da ciência, podendo-se até concluir que a Teoria da Evolução não é tão bem fundada e que deve ser complementada ou inteiramente substituída por uma aperfeiçoada versão do Gênese". É oportuno lembrar que homeopatia e acupuntura foram consideradas crendices por muito tempo no mundo ocidental, mas hoje elas vêm sendo incorporadas nas práticas oficiais da medicina, inclusive no Brasil.
|