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1. Importa comemorar o dia do Estado de Santa Catarina, a saber, a
data do seu surgimento como governo regional. Isto aconteceu em época
já distante, por ato de 11 de agosto de 1738. Naqueles remotos anos
do Brasil colônia, um governo regional se dizia Capitania, e seu
Governador era nomeado pelo Rei de Portugal. No curso do Império
passou a Capitania a denominar-se Província, e seu Presidente era
nomeado pelo Imperador do Brasil. Finalmente, no regime da República
passou-se a dizer Estado, e seu Governador eleito por eleição
popular.
Não há discussões sobre a validade da data de 11 de agosto de 1738, como sendo a da origem do Governo regional de Santa Catarina. Ela está suficientemente documentada em texto ainda subsistente. O que importa é pô-la em destaque cívico. Já vamos muito além de dois séculos, e somente agora passamos a nos advertir da conveniência de uma comemoração cívica, destacando a importância daquela data como formativa da identidade catarinense e como oportunidade de manifestação do ufanismo peculiar às comunidades políticas. Todos os anos, pois, no raiar do dia 11 de agosto, viva o Estado de Santa Catarina! Cada vez, e sempre, - PARABÉNS AOS CATARINAS!
2. Data a comemorar. Seja lembrado como o acontecimento se deu e como depois se consolidou. Surgiu o Estado de Santa Catarina como Estado pioneiro no Sul do País. Esta história se constitui de todo um processo, que teve seus pródromos em meio a lances difíceis, mas depois com um desenvolvimento de consolidação ainda hoje em marcha, agora todavia com resultados que nos ufanam cada vez mais.
3. Pródomos de um Estado pioneiro. Já logo depois da descoberta do Brasil, quando por aqui ocorreram alguns primeiros aportamentos, surgiu o topônimo Isola Santa Catalina, dado por Sebastião Caboto, navegador italiano, então à serviço da Espanha. Aportando aqui em 1526 deu o nome à Ilha de Santa Catarina, a que antes os índios carijós denominavam Meiembipe, e que significa elevação ao longo do mar.
Depois os bandeirantes passaram a administrar os índios, levando-os
para São Paulo. Mas os mesmos bandeirantes, acompanhados de índios,
não demoraram a também se estabelecer nesta costa.
Na década de 1640 iniciaram eles o povoamento
de São Francisco, que já em 1660 se tornaria o primeiro município
desta costa.
Em 1673 fundavam os bandeirantes a atual Florianópolis,
chamando-a então Ilha de Santa Catarina, conservando, pois,
o nome que remontava aos primeiros aportamentos, ocorridos no século
anterior.
Em 1684 os bandeirantes fundavam também Laguna,
onde não muito depois, em 1720, se instalaria o segundo município
da região.
Não demora, e em 1726 se cria o
terceiro município catarinense, sob a denominação
de Desterro, uma referência à freguesia de N. Sra. Do Desterro,
padroeira da igreja local. O nome que passaria ao de Florianópolis,
em 1894, por decisão da Assembléia Legislativa e decreto
do primeiro governador eleito, o republicano Hercílio Pedro da Luz,
em homenagem ao então Presidente da República, Floriano Peixoto,
por haver restabelecido a ordem constitucional no Estado.
4. As razões que fizeram surgir o governo regional de Santa Catarina
em 11 de agosto de 1738 se prendem à então situação
geopolítica do sul do Brasil. Razões portanto de ordem geral
e que se refletiam nos acontecimentos de então, reclamavam para
esta parte do continente um governo regional.
Haviam os portugueses, a partir do Rio de Janeiro
e com apoio na Ilha de Santa Catarina, fundado em 1680 a Colônia
de Sacramento, no distante Uruguai, diante de Buenos Aires, afrontando
pois os interesses espanhóis. Em consequência das dificuldades
decorrentes, Portugal criou, em 11 de agosto de 1738, o governo regional
de Santa Catarina, com objetivos principalmente militares. Nasceu pois
nosso Estado como o primeiro no Sul, ao mesmo tempo que como potência
militar, distante vanguarda do território brasileiro.
O primeiro governador de Santa Catarina foi uma alta patente militar portuguesa o brigadeiro José da Silva Paes. Fora enviado para o Brasil em 1735, devendo atuar com vistas a defesa do Sul. Já em 1737 fundou o forte Jesus-Maria-José na barra do Rio Grande. Havendo recomendado à Metrópole a criação de um governo regional na então ainda escassamente povoada Santa Catarina, foi o referido governo efetivamente criado em 11 de agosto de 1738, por desmembramento de São Paulo. Deste Governo, pioneiro no Sul do País, tomou posse como seu primeiro governado, o mesmo Brigadeiro Silva Paes, em 7 de março de 1739, com o objetivo principal de comandar a defesa e incrementar o povoamento do Sul do Brasil.
5. Expansão territorial. Inicialmente a nova capitania de Santa Catarina equivalia apenas ao espaço do então município de Desterro, com limites ao norte no rio Camboriú, ao sul na Ponta do Ouvidor (em Garopaba), a oeste no Planalto de Bom Retiro. Expandiu-se a governadoria de Santa Catarina a primeira vez em 1742, quando também se desanexava da Capitania de São Paulo o então vasto município de Laguna, que incluía o território litorâneo do Rio Grande do Sul. Outra vez em 20-6-1750, quando o mesmo acontecia com São Francisco. E ainda uma terceira vez em 1820, quando o município de Lages se separava do então ainda vasto São Paulo.
Importa destacar que, como já mencionado, com a anexação de Laguna, também se incluía o Rio Grande do Sul na Capitania com sede na Ilha de Santa Catarina. Aquela segunda Capitania a se estabelecer no Brasil meridional, a do Rio Grande do Sul, seria criada duas décadas depois da primeira, por ato de 9 de setembro de 1760. De outra parte, o terceiro governo regional do Sul, a Província do Paraná, se separará da de São Paulo apenas em 1853. O caráter pioneiro de Santa Catarina como governo regional deste Sul do Brasil faz do dia 11 de agosto de 1738 um dia por excelência para a comemoração da identidade catarinense.
Como foi o acontecer dos primeiros anos da Capitania de Santa Catarina? O malogro dos objetivos portugueses na região do Prata fez a Metrópole aceitar os termos do Tratado de Madrid, de 1750, reorientando seus interesses. Cedendo a Colônia do Sacramento no Uruguai, recebeu o interior do Rio Grande do Sul. Passou assim a se alinhavar a formação geográfica do vizinho Estado, então ainda parte do governo de Santa Catarina. O Brigadeiro Silva Paes, que já houvera construído em 1737 o forte Jesus-Maria-José no Rio Grande, havia também voltado a ele, como governador de Santa Catarina (que foi de 1739 a 1748), ali havendo passado, em atividades militares, os anos de 1743 a 1746. Neste mesmo espaço aqui, na sede da Capitania, onde ao mesmo tempo se construía um complexo de fortalezas, administrava um capitão, seu imediato.
AINDA SOBRE O DIA DO ESTADO DE SC.
6. O haver nascido como Estado bandeirante no Sul, eis o cunho histórico mais significativo de Santa Catarina. Neste meritório esforço cabe também mencionar a participação dos imigrantes. Eles são parte da história da fundação do governo regional estabelecido em 11 de gosto de 1738, porque o consolidaram. O reforço do povoamento com novos contingentes populacionais foi um projeto mentalizado já pelos que por primeiro planejaram este governo regional.
A partir de 1748 a 1755 foram instalados núcleos açorianos: na Ilha de Santa Catarina nas localidades de Lagoa (onde o primeiro governador Brigadeiro Silva Paes os instalou pessoalmente) e Santo Antônio; no continente fronteiriço nos núcleos de São Miguel, São José, Enseada de Brito; mais ao sul, em Vila Nova (ao lado de Imbituba). O açoriano representa sobretudo o lusitano do Sul de Portugal (Alentejo), emigrado para o arquipélago de Açores, de onde reemigrou para cá. A imigração açoriana não foi realimentada.
Todavia continuou a acontecer a imigração lusitana interna, proveniente de São Paulo, vindo ao longo do litoral e pelo caminhos do planalto. Continuou a vir também uma elite administrativa, quer como nomeados civis, quer como militares. Este outro lusitano derivou sobretudo de Lisboa e Portugal do Norte. Trouxe consigo também o índio e o africano.
Com a Independência (1822), já nos primeiros anos do império, um novo plano imigratório introduz outros imigrantes europeus. No interior, na difícil zona montanhosa do Grande Florianópolis, a partir de São Pedro de Alcântara (1829), que incluía parte do atual município de Antônio Carlos, foram estabelecidos alemães renanos, que a dominaram, penetrando até o alto vale Rio Itajaí do Sul (Ituporanga), derivando também para o Sul do Estado (Braço do Norte), e ainda para a região de Itajaí e Gaspar. No decorrer do segundo Império ampliou-se a imigração alemã, a partir de Blumenau e Joinvile, desta vez com dominância dos saxônicos.
Aconteceu ainda, e já a partir de 1836, uma intensa imigração proveniente do norte da Itália. Neste quadro participaram logo também outras etnias, ainda que em menor escala, como de poloneses, russos, tchecos, rumenos, árabes, gregos, japoneses, e até mesmo espanhóis e franceses.
A tudo isto se somou uma forte imigração interna, dando
continuidade aquela dos antigos bandeirantes. O novo afluxo teve desenvolvimento
no Oeste de Santa Catarina para onde afluiram nas primeiras décadas
da República os excedentes demográficos do Rio Grande do
Sul, estendendo para aquela região do nosso Estado os notórios
resultados do anterior processo imigratório alemão e italiano
do Estado vizinho.
Mais recentemente, com o despertar do potencial
turístico e cultural da costa marítima de Santa Catarina,
passou a acontecer também o afluxo de uma classe média valiosa
proveniente dos Estados vizinhos, quer do Rio Grande do Sul, quer do Paraná.
Assim, portanto, desde as primeiras levas bandeirantes, prosseguindo pelas
intermediárias, até as mais recentes, vai se formando uma
identidade catarinense, na qual participam os mais variados valores étnicos.
7. A miscigenação é uma vocação dos habitantes da América. Será a miscigenação o grande fenômeno mundial do terceiro milênio, dada a facilidade da comunicação física e eletrônica que se instalará. Entre nós as gerações novas aceitaram mais cedo a miscigenação, em função da qual ficamos libertos dos ódios raciais que alimentam as guerras na Europa e o terrorismo no Oriente Médio.
Santa Catarina é o Estado brasileiro em que a população primitiva está em melhor equilíbrio quantitativo com a imigração posterior. Com raízes étnicas proporcionalmente distribuídas, surge o catarinense como resultância de uma miscigenação crescentemente aceita e que se revela adequadamente cosmopolita.
O nome de Florianópolis, capital de Santa Catarina, destacando ser uma -polis, retrata a nossa mundialidade. Florianópolis, clássica como palavra, é, aliás, a única capital de Estado brasileiro com denominação de formação erudita.
Também o nome de Santa Catarina, filósofa legendária da antiga cosmopolita cidade helênica de Alexandria, representada como Deusa tendo ao seu lado a roda da fortuna, mais uma vez sugere que um elenco de valores se expressa em nós.
Salve Santa Catarina! É tempo de festejar o dia do Estado de Santa Catarina. É hora de erguer nossa bandeira e cantar nosso hino. Festejemos, agora e sempre, o dia 11 de agosto de 1738: na imprensa, na poesia, na música, nas instâncias oficiais, na sociedade, nos nossos corações ".
Evaldo Pauli.