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ENCICLOPÉDIA    SIMPOZIO

(Versão em Português do original em Esperanto)
© Copyright 1997 Evaldo Pauli

DISCURSO CATARINENSE

Autor:
Evaldo Pauli
Prof. da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC.
Membro: da Academia Brasileira de Filosofia, RJ.
do Instituto Histório e Geográfico de SC.
da Academia Catarinense de Letras.

DISCURSO CATARINENSE. N. 8:

ALEMÃES EM SANTA CATARINA.
98sc0245.

          246. Aos imigrantes alemães se deve parte significativa na definição étnica do catarinense. Sem eles o Estado de Santa Catarina não seria tão representativo quanto efetivamente veio a ser.
          Era o que, já no começo do processo imigratório centro-europeu, se encontrava na previsão do estadista brasileiro Visconde, depois Marquês, de Abrantes (1794-1865), quando na mesma Europa negociava a vinda desses imigrantes:
          "Amor ao trabalho e à família, sobriedade, resignação, respeito às autoridades são qualidades que distinguem os colonos alemães".
          O contraste logo se revelou, ao se iniciar a imigração. Enquanto a população luso-afro-brasileira apresentava cerca de 5% de alfabetizados, cerca de 80% da alemã imigrada era alfabetizada.
          Os imigrantes alemães e seus descendentes também logo desenvolveram uma economia tipo classe média, - casas construídas com boa estrutura arquitetônica, quintais em seu torno, engenhos tecnicamente melhorados. Adentrando a República (1889), desenvolveram com relativa rapidez a indústria moderna.

          Nenhum Estado da União é tão germanizado e nenhum apresenta uma distribuição de núcleos coloniais tão homogênea, quanto o Estado de Sta. Catarina. Emprestam, portanto, os alemães uma qualidade especial ao contexto étnico catarinense, onde é evidente que deram prosperidade à agricultura e à indústria, bem como logo de início a uma generalizada alfabetização. Ainda que paulatinamente, - dada a diferença cultural, - os alemães se foram miscigenando aos demais habitantes, de sorte a se distribuir a todos os catarinenses a glória da prosperidade.
          Já a partir do Primeiro Império passaram os imigrantes alemães a dominar a difícil região montanhosa da Grande Florianópolis. No decorrer do Segundo Império e início da República fundaram potências econômicas, entre outras, Blumenau (2-9-1850), Joinvile  (9-3-1851), Jaraguá do Sul (25-7-1876) , Brusque (4-8-1860), São Bento do Sul (1873), Ibirama (1897).

            Na formação germânica de Santa Catarina pode-se considerar distintamente:
             I -- Como a imigração alemã começou a acontecer na Grande Florianópolis (vd 247),
II - Como continuou a colonização alemã na Grande Florianópolis, no Segundo Império (98sc0256).
III -  Como prosperou a imigração alemã em outras regiões do Estado (vd 98sc0275).
             IV - Dimensões da presença étnica germânica em Santa Catarina (vd 98sc305. Fim do Discurso Catarinense N. 8).
             V - Em torno do Instituto Karl Hoepcke (vd n. 319. Discurso Catarinense n. 9).
            Terminada a exposição do primeiro item, voltaremos a relembrar a ordem acima indicada.

I - COMO A IMIGRAÇÃO ALEMÃ EM SANTA CATARINA COMEÇOU A ACONTECER NA GRANDE FLORIANÓPOLIS. 98sc0247==.

248. Hans Staden. Falar em alemães num Estado eminentemente turístico, como é o de Santa Catarina, faz lembrar que seu primeiro turista foi o aventureiro alemão Hans Staden, que por aqui transitou em 1549, como integrante da expedição espanhola de Diego Sanábria, a qual por aqui se demorou. Como se disse, este curioso personagem alemão, que foi Hans Staden, prestou o serviço de haver traçado, com algum detalhe, o primeiro mapa da Ilha de Santa Catarina e do continente fronteiriço, desenhando também as malocas dos índios e um Cruzeiro.
Escreveu ainda um texto de cerca de três páginas sobre as peripécias então ocorridas.
 (vd 27, Documento alemão, de Hans Staden, sobre Santa Catarina, ano 1549). 
Como primeiro turista em Santa Catarina, merece Hans Staden um monumento em Florianópolis, nas imediações do Portal Turístico, no lado do Continente. Exibirá o monumento o mapa que o turista alemão traçou. Como turista a sua imagem deve apresentá-lo olhando e admirando a Ilha.

          Florianópolis seria, entretanto, fundada apenas em 1673 (vd n. 72), por determinação do bandeirante Francisco Dias Velho,  descendente remoto de uma índia botocuda e de um irmão jesuíta.
          Apesar de se tornar município já em 1726, Capital da Capitania em 1738, e receber em 1748 nos seus arredores o reforço da imigração açoriana, continuou relativamente despovoada a região interiorana do continente fronteiriço, mesmo depois da independência do Brasil em 1822.
          As divisas interioranas do então vasto Município de Desterro iam até o Planalto em Bom Retiro. Os imigrantes açorianos, pouco afeitos aos labores agrícolas, não penetraram a mata, havendo apenas explorado algumas glebas ao longo dos rios, com o uso do braço escravo.
          Vencer a mata, sobretudo as cabeceiras montanhosas dos rios, de terras menos produtivas que as das longas vargens, foi o desafio aos olhos azuis. Dada a disciplina de trabalho peculiar aos volitivos imigrantes alemães, venceram o desafio, inaugurando em Santa Catarina, sem o uso de escravos, uma agricultura expressiva e uma indústria de alta qualidade.

          249. Como é que tudo começou a partir lá de fora, tudo se desdobrando aqui num sequencial de colônias, que se tornaram distritos, e finalmente cidades prósperas, sedes de municípios de boa qualidade de vida?
          O Brasil fora de início apenas uma colônia de Portugal, que traçou a sua ocupação administrando com seus próprios nacionais, acrescidos com alguns elementos indígenas e escravos africanos. Só depois de independente virá o operoso imigrante estrangeiro.
          A interferência francesa na península ibérica alterou o esquema político de espanhóis e portugueses. Em 1808, o Rei de Portugal, D. João VI, - afugentado pelas tropas de Napoleão, invasoras da Península Ibérica, -, acolheu-se ao Brasil, instalando sua Corte no Rio de Janeiro. Agora se abre o caminho para o relacionamento com o Império da Áustria e aliados. Não demora a imigração de suíços alemães, para diferentes regiões do Rio de Janeiro, o que se refletiu mesmo em nomes de cidades, como Nova Friburgo.
          Na Bahia se fixou um primeiro grupo de imigrantes alemães em 1818.

          A partir da Independência do Brasil, em 1822, continuaram as novas condições para a imigração da Europa Central, até mesmo porque D. Pedro I fora consorciado com a princesa Dona Leopoldina de Habsburgo, filha do Imperador da Áustria. Agora emigraram para o Brasil sobretudo alemães e italianos do Norte (estes últimos então sob o regime do Império Central).
          No Rio Grande do Sul, em 1824, principiou a colônia alemã de São Leopoldo, ao serem ali desembarcados, às margens do Rio dos Sinos, 39 imigrantes. O ingresso de alemães no Rio Grande do Sul foi dos mais intensos, derivando mesmo, muitos deles para Santa Catarina, primeiramente para o Sul do Estado e depois para o Oeste.
          Também em São Paulo (pelo Porto de Santos), a partir de 1827 foram desembarcadas sucessivas levas de imigrantes alemães que foram localizados principalmente em Santo Amaro, Itapecerica, Umbu, Rio Claro. Destes muito penetraram Santa Catarina a partir do Paraná (por alguma tampo ainda parte da Província de São Paulo).

          Os primeiros imigrantes alemães que entraram diretamente em Santa Catarina aportaram em 7 e 12 de novembro de 1828 na Capital da Província, onde parte permaneceu na mesma Capital (então denominada N. Sra do Desterro ) e parte seguiu para a Colônia de São Pedro de Alcântara (março de 1829).
           
250. O processo da imigração alemã em Santa Catarina teve início no curso do primeiro Império, sob D. Pedro I, como foi dito. O Presidente da Província de Santa Catarina, era então o Brigadeiro Francisco de Albuquerque (de 1825 a 1830), quando em 7 e 12 de novembro de 1828, em dois navios desembarcaram, em Florianópolis os primeiros imigrantes alemães.
Mais precisamente, em 7 de novembro de 1828, chegavam no Brigue “Luíza”, 276 pessoas. Em 12 de  novembro, no brigue Marquês de Viana chegavam  outros.
Em vista de uma doença, de que estavam acometidos, foram os do primeiro transporte hospedados em galpões existentes em Armação da Lagoinha, 25 quilômetros, no Sul da Ilha de Santa Catarina.

251. Soldados alemães, do 27-o. Batalhão de Caçadores, desativados com o término da Guerra Cisplatina (1824-1828), de que resultou a independência do Uruguai, foram anexados aos imigrantes vindos para Florianópolis. Havia o Brasil contratado soldados alemães para as referidas lutas, agora encerradas.
          Já com assimilação em marcha e havendo alguns casado com mulheres lusas, tinham condições adequadas de se estabelecerem no próprio meio luso da Capital, como efetivamente aconteceu.
Assim é que uma parte dos imigrantes preferiu ficar na Capital, ou Ilha de Santa Catarina, e imediações no Continente fronteiriço, na localidade de Campinas. Foi portanto no coração da Capital de Santa Catarina que, em 1828, iniciou a colonização alemã agora oficialmente iniciada.
Em março de 1829, a maior parte dos imigrantes chegados em novembro de 1828, foi encaminhada para a projetada Colônia de São Pedro de Alcântara, instalada cerca de 25 quilômetros da Capital, sobre lotes rurais previamente medidos, no curso médio do rio Maruim, visando povoar o caminho em direção de Lages.
 Como se sabe, o Município de Florianópolis à época da chegada dos primeiros imigrantes em 1828, se dilatava ainda pelo vasto continente fronteiriço. São José, - açoriana, - tinha então apenas a condição de freguesia, e certamente ganhou ao serem estabelecidos alemães em Campinas (no caminho para a Capital) e em São Pedro de Alcântara, no médio curso do Rio Maruim.  
Foi criado o Município de São José em 1833, levando então consigo toda a face continental, que fazia frente à Capital. Somente mais tarde, depois da construção da primeira ponte, se reintegrava o Estreito ao município da Capital. Todavia, continuou com o município de São José o bairro de Campinas, onde se haviam instalado imigrantes alemães, conforme citado acima.

            252. Uma imprecisão na instalação da Colônia de São Pedro de Alcântara a fez ser dada como tendo ocorrido em 1-o. de março de 1829. Sabendo-se que ali já se encontravam imigrantes, ficou sendo esta a data convencionada com que se comemorou em 1929 o primeiro centenário do empreendimento, naquele local.
            Não obstante, a data do aportamento de 7 de novembro de 1828, quando chegaram os primeiros, é também um evento digno de ser comemorado, em virtude da significação mais geral que nele se contém. Ela poderá ser tomada como fundação da colonização alemã em Santa Catarina.
O referido aportamento de 7 de novembro de 1828 é, antes de tudo abrangente e precisa. Ela também relaciona o acontecimento com a Capital de Santa Catarina, beneficiada com ele, já de início e no decurso do tempo. Sucede ainda que naquela época os municípios do continente fronteiriço ainda não se haviam separado. Tudo fazia parte de um só grande município de Florianópolis. Nesta visão mais ampla, podemos afirmar que a colonização alemã em Santa Catarina principiou em 1828, na Capital de Santa Catarina, e não em 1829 na Colônia de São Pedro de Alcântara.

            Aliás, foi significativo que em 1948 se comemorasse o bicentenário da colonização açoriana (iniciada em Lagoa, Santo Antônio, São Miguel, São José) com um Congresso Catarinense de História.
Objeto para comemorações similares são também as grandes datas da imigração para Santa Catarina, dos alemães chegados em sete de novembro de 1828 à Florianópolis, e dos italianos, chegados em 1836 à Tigipió, no Vale do Rio Tijucas.
             
          253. No dia 9 de fevereiro de 1829 foi nomeado um primeiro Diretor da Colônia de São Pedro de Alcântara, Silvestre José dos Passos.
            Em fevereiro de 1830 se encontra na direção João Henrique Soechting, tenente alemão do 27-o.batalhão de caçadores, demitido do cargo “em virtude de moléstias, adquiridas na campanha do sul”, por decreto de 29 de novembro de  1829.
            A data de terras que lhe coube se situava no Alto Biguaçu, onde se foi estabelecer com sua mulher lusa D. Guiomar Silva.

Não obstante haver mandado a lei de 15 de dezembro de 1830 abolir as despesas com a colonização estrangeira, João Henrique Soechting se manteve na direção da Colônia alemã, como se verifica em uma carta sua de 3 de junho de 1831 em que se justifica junto ao Presidente da Província por ter colocado imigrantes no Alto Biguaçu. Efetivamente o Presidente solicitará ao Governo que mantivesse um encarregado na colônia; parece que a situação de Soechting se encontra em função a este pedido.
            Financeiramente, continuou a colônia alemã entregue a si mesma, mas progredia e seu progresso se estabilizou. A superpopulação se dirigia para outras regiões, mas sem que isto redundasse em decadência.

            Era criado o Distrito ou Freguesia de São Pedro de Alcântara em 13 de abril de 1844.
            Noventa anos depois se criaria o distrito de Louro (no Alto Biguaçu) e que virá a ser o Município de Antônio Carlos, em 1936.
O Município de São Pedro de Alcântara se criaria apenas em 1997. Apesar da pequenês do território em que a Colônia de São Pedro fora estabelecida, nunca regrediu, e pode finalmente vir a ser denominada como sendo uma cidade.

254. A origem renana dos primeiros imigrantes da Grande Florianópolis. Vinham da região do Reno, limites com a França. No curso das guerras napoleônicas estavam sob influxo francês. Sabe-se que foi em decorrência dos estragos das guerras napoleônicas, que os renanos emigraram. Com a industrialização da região, cessou o movimento vindo desta área, continuando a vir os alemães de outras partes da Alemanha.
            Os imigrantes chegados em 7 de novembro de 1828 permaneceram quase um ano em Armação, em virtude da demora na execução do plano do governo de estabelecer uma Segunda colônia, mais além da de São Pedro de Alcântara, sempre no então caminho de Lages. E como o plano não se executasse perfeitamente, em virtude  da colocação inadequada dos imigrantes, eles, em grande parte, acabaram por seguir outras direções, diluindo-se por diferentes regiões de Santa Catarina.
            Na época, o caminho de Lages, acima de São Pedro de Alcântara, tomava o rumo do chapadão do Morro do Gato, na divisa exata entre os municípios de São José e Antônio Carlos (Alto Biguaçu). Ali foram, no Morro do Gato (ou Katzenberg, na língua dos alemães), instalados os imigrantes do Brigue Luíza, de mistura com outros. Na penetração, mais alguns foram instalados ainda em 1830 no Louro (Alto Biguaçu) e Santa Filomena (na  continuação do caminho para Lages, nas cabeceiras do Rio Maruim).

Em Morro do Gato (Katzenberg, no dizer equivalente dos imigrantes) veio a ser criado um cemitério, com uma igreja dedicada a Santa  Bárbara. Conforme tradição oral, este nome lembrava aos imigrantes o cumprimento de uma promessa, que haviam feito à padroeira contra as tempestades, nos momentos mais perigosos da travessia do Atlântico.
            O abandono do caminho do Morro do Gato e a evasão da maioria dos seus moradores fez desaparecerem o cemitério e sua igrejinha. Alguns  tomaram o rumo dos vargedos de Santo Amaro, outros, em 1836, os de Gaspar (onde se iniciavam os núcleos de Pocinhos e Belchor).

            O jovem Dr. Blumenau (1819-1899), que vinha em nome de uma sociedade de proteção aos imigrantes, ao transitar em visita de inspeção por São Pedro de Alcântara, e sabendo da re-emigração para o Vale do Itajaí, foi até ali. Ficaram, por conseguinte os pioneiros da colonização  alemã vindos em 7 de novembro de 1828 relacionados com  a fundação da cidade de Blumenau. Por mais  este motivo a data é memorável.
          O destino dispersivo que tiveram os imigrantes alemães do primeiro transporte leva a preferir simplesmente a data de 7 de novembro de 1828, de sua chegada à Ilha de  Santa Catarina, como referência para a fundação  da colonização alemã no Estado.
          Em vista da polarização urbana, até mesmo parte dos descendentes dos que em 1829 haviam seguido para São Pedro de Alcântara, retornam à Capital. Os excedentes demográficos da zona montanhosa da Grande Florianópolis afluem progressivamente mais e mais para o centro urbano, destacando a significação destes núcleos coloniais para a Capital do Estado.

          255. Caracterizou-se pela falta de recursos governamentais a colonização alemã oficial em Santa Catarina com os imigrantes vindos em novembro de 1828.
A 15 de dezembro de 1830 um decreto imperial fazia cessar as despesas com a colonização estrangeira ficando a colônia de São Pedro de Alcântara entregue a si mesma.
Estendia-se já então pelo Alto Biguaçu na localidade designada Louro, hoje parte do município de Antônio Carlos.
A década de 1830 foi particularmente difícil para o Governo Imperial. Dividiram-se profundamente os partidos políticos. D. Pedro I deixou o poder em 1830, retirando-se para Portugal. Em função da minoridade de D. Pedro II, estabeleceu-se no Brasil de então o regime da Regência por uma década. O falecimento em Portugal de D. Pedro I, em 1834, frustrou as esperanças dos conservadores no Brasil. Firmou-se logo o Partido Liberal. Na Província de Santa Catarina os liberais evoluíram com a inteligente chefia de Jerônimo Coelho.
Seguiram-se as tumultuações da Revolução Farroupilha (1835‑1845), combinada com o banditismo.Terminada a revolução continuou o banditismo, paradoxalmente favorecido pela anistia.
Não obstante, a prejudicada colônia alemã sobreviveu às pilhagens dos farroupilhas.

          Ordenando o assunto em partes, continuaremos pela ordem anunciada (vd:146): III -  Como prosperou a imigração alemã em outras regiões do Estado. (vd 98sc0175; IV - Dimensionamento da presença étnica germânica em SC. (vd 98sc0205); V - Instituto Karl Hoepcke (vd.98sc...).

II -  COMO PROSPEROU A IMIGRAÇÃO ALEMÃ EM OUTRAS REGIÕES DO ESTADO (vd 98sc0258).
           
          259. No Segundo Império, com base em novas leis sobre a colonização, - agora por meio de sociedades ou companhias particulares, - pôde expandir-se o povoamento com imigrantes alemães e descendentes, já desde a década de 1830, na minoridade de D. Pedro II (1825-1891).
Passou a dividir-se a história da colonização alemã em Santa Catarina, - aquela que continua na Grande Florianópolis e aquela que se dá em outras regiões, como Vale do Itajaí (notadamente Blumenau) e extremo Norte Catarinense (notadamente Joinvile).
 Ocorrendo iniciativas próximas e mesmo mais longe pelo território catarinense, continuou a expansão da colonização alemã. Além disto, a prosperidade de alguns dentre os alemães, permitiu a aquisição de boas terras a latifundiários nacionais.
O plano oficial de colonização da Província, que agora atinge também o Vale do Itajaí, recebeu da Assembléia Legislativa de Santa Catarina suas Primeiras determinações com a lei provincial n. 11 de 5 de maio de 1835.
 Determinaram-se os direitos e as obrigações dos colonos e o critério de distribuição dos lotes. Determinou-se também que se iniciassem núcleos sobre o Rio Itajaí-açu e o Itajaí-mirim. Embora surgissem mais volumosamente imigrantes alemães, a vez também foi de italianos, sobretudo aqueles que podiam vir em nome da Áustria.

          Novas colônias se instalaram na região montanhosa da Grande Florianópolis.
          Ali, - nos altos difíceis, todavia belos, da Grande Florianópolis, - estes primeiros imigrantes, acrescidos logo de outros mais, desenvolveram uma decápole de municípios industriosos.
          Espraiaram-se depois também  para as planícies dos municípios de beira mar, adquirindo agora às populações pré-existentes, vargedos férteis. Dali veio porque municípios originariamente lusitanos, se germanizaram notoriamente.
         
Em função à lei inovadora de 1835, foram criadas novas colônias de alemães na Grande Florianópolis (vd 160).
Principalmente no Vale do Itajaí fundaram-se Ilhota (Colônia Belga), em 1845; Colônia Itajaí (Belchior e Pocinhos); Blumenau, em 1850; Colônia Militar Santa Tereza, sobre a estrada de Desterro, nas cabeceiras do rio Itajaí do Sul, onde hoje se encontra Catuira, acima de Ituporanga; Brusque, em 1860; Luis Alves, em 1877; Ibirama, em 1897.

          260. Louro em Alto Biguaçu. A primeira expansão de São Pedro de Alcântara se deu pela descida ao outro lado da montanha (lado Norte), pelo Rio Louro, afluente do Rio Biguaçu. No contexto de então, o caminho Florianópolis-Lages na altura de São Pedro de Alcântara seguia pela chapada dos montes, e não pelo vale do Rio Maruim, evitando assim os banhados ao longo do curso das águas. Era, portanto, relativamente fácil a derivação pelo Rio do Louro, afluente do Rio Biguaçu.
          As cabeceiras do Rio do Louro faziam parte do Morro do Gato, e por isso fizeram parte da mesma Colônia de São Pedro de Alcântara na sua dimensão inicial. Todavia segue o Rio do Louro em frente, em direção inversa e alcança mesmo a planície do Rio Biguaçu. Este é o Louro para o qual se expandiram os reemigrantes alemães.
         
          Pelo outra margem do Rio Biguaçu (Norte), se criava ainda a Colônia Leopoldina, em 1837, já contexto da nova lei de povoamento, de 1835.
          O futuro Município de Antônio Carlos (de 1963), reúne o território do citado Louro (parte da Colônia de São Pedro de Alcântara e parte do Alto Biguaçu) e o território da Colônia Leopoldina, esta correspondendo ao curso médio do Rio Rachadel e cabeceiras do Rio Farias.
          Primeiramente Louro será distrito em 1919, integrado no Município de Biguaçu. Com as mudanças políticas geradas pela Revolução de 1930, a sede do distrito passou ao local de nome Encruzilhada, onde, depois, em 1963, passará a ser também a sede do Município de Antônio Calos.

 261. São ainda colônias alemãs da Grande Florianópolis:
          A colônia de Vargem Grande, a 12 Km Oeste de Santa Amaro da Imperatriz, era fundada em 1836, com 44 colonos reemigrados que haviam abandonado São Pedro de Alcântara. Na região se formou o Município de Águas Mornas, de que Vargem Grande ficou parte integrante.

A Colônia Piedade, então na costa marítima de Biguaçu e hoje no território do Município de Celso Ramos, se estabelecia em 1847, retirando-se não muito depois quase todos os seus colonos para outros outros núcleos coloniais, ou simplesmente para as adjacências de Tijucas e São João Batista.

A Colônia Santa Isabel, fundada em 1847, em Rio dos Bugres, afluente do Cubatão, foi núcleo originário do atual Município de Rancho Queimado.

Há também 9 alemães (entre 112 componentes) na Colônia Militar de Santa Tereza fundada em 1853 quase a meio caminho da estrada Florianópolis – Lages,  sobre o Rio Itajaí do Sul.

A Colônia de Teresópolis, sobre o Rio Cubatão, se criava em 1860.

A Colônia nacional de Angelina, fundada em 1859. Depois  penetrada por alemães, apresentava em 1872 cerca de 1.100 habitantes, sendo que 58 eram alemães (de nascimento).
            Não longe de Santo Amaro da Imperatriz também se estabelecia em 1908 o núcleo colonial federal de Anitápolis, em que foram localizadas 2.301 pessoas.

          262. Também para o Sul do Estado se deu a reemigração alemã. Pelo visto o deslocamento dos laboriosos germanos da Grande Florianópolis montanhosa se deu para mais além dos seus limites, atingindo os vales dos Rios de Braço do Norte e Capivarí, afluentes do Rio Tubarão. Mais adiante esta reemigração chegará até Forquilhinha, já na bacia de Araranguá.

A colônia  Grão-Pará é um caso especial. Fundada no Sul a 8 de Julho de 1882, apresentava em 1891 a população de 5.800 pessoas das mais diversas procedências sendo alemães 462, italianos 559, Espanhóis 480, Russos 434, Belgas 310, Ingleses 305, Holandeses 195, Poloneses 642, Suecos 110, Austríacos 40, nacionais 1.637, franceses 35, Portugueses 70.
Esta colônia incluía “Rio Braço do Norte”, “Rio Fortuna”, “Rio Sete”, que se destacaram como prósperos núcleos alemães, e que também receberiam contingentes das migrações provenientes de Teresópolis já desde 1873.
Com referência à migração interna, quase todos os alemães do Sul do Estado procedem das colônias da região da Grande Florianópolis, notadamente de Teresópolis. Estas migrações ocorreram até o fim do Império. Depois  a imigração desta zona, incluindo São Pedro e Alto-Biguaçu, passou a se dirigir para o Vale de Itajaí, e a começar de 1930 para o Planalto da região da mata e para  o Oeste Catarinense, onde foram encontrar os alemães do Rio Grande do Sul.
Quando do fenômeno da urbanização e desenvolvimento do litoral, também para ali se deu uma forte afluência germânica, inclusive para a Capital do Estado.
         
          263. Com base na lei de colonização (1835), facultando a iniciativa particular, aconteceu já cedo  também a fundação de núcleos germânicos no Vale do Itajaí.
A colônia Itajaí (Belchior e Pocinhos) depois parte norte do Município de Gaspar, estabelecia-se sobre o Rio Itajaí. Assim foi que se fundaram os núcleos de Belchor e Pocinhos, já antes da fundação futura da espetacular Blumenau, em 2-9-1850.
          Reemigraram alemães da Grande Florianópolis para Belchor e Pocinhos, de onde não poucos derivaram para Gaspar e Itajaí.
A colônia apresentava em 1839 apenas 17 famílias estrangeiras e 47 brasileiras.
Havendo o Dr. Blumenau conhecimento deste fato, de que imigrantes de São Pedro haviam, reemigrando para o Valle de Itajaí, para lá seguiu, e teve a idéia, mais tarde realizada, de também ali criar um estabelecimento, que terá seu nome Blumenau..

            A colônia belga, com 150 integrantes, se fundava a 18 quilômetros da foz do Rio Itajaí, em 1845. Depois formaria a cidade de Ilhota.
Na região, pela banda Norte do Rio Itajaí, a colônia Luiz Alves, fundada posteriormente, em 1877, foi penetrada por alemães, quando já apresentava 68 famílias italianas, 26 alemãs,  22 brasileiras.

264. A expansão alemã, por reemigração sistemática, a partir de São Pedro de Alcântara, se deu também para o Alto Vale do Itajaí, onde atingiu as cabeceiras do Rio Itajaí do Sul.
          Esta região fica logo atrás da Grande Florianópolis, e foi por isso alcançada pela expansão dos povoadores na proporção que subiam o Planalto.
          Ali se destacou Ituporanga (município em 1948), redividido depois em outros mais.
         
          265. A função econômica dos alemães na Grande Florianópolis. Certamente a colonização alemã teve um significado especial na consolidação econômica da região da Capital.
            Em decorrência de certa proximidade, ao mesmo tempo em que polarização da Capital, e até algum parentesco, as populações dos núcleos alemães da região da Grande Florianópolis tenderam a se fundir entre si, ao mesmo tempo em que passaram a atuar em toda a região. Aconteceu até falarem-se dois, ou três dialetos alemães na mesma localidade, - o Hunsrueck, o luxemburguês, ou mesmo suiço-alemão.
             Esta fusão foi mesmo facilitada pela proximidade dos dialetos, usos, métodos de trabalho, alfabetização e mesmo de religião, geralmente católica entre os alemães da Grande Florianópolis.
            As populações das primeiras colônias, próximas entre si, derivaram também da mesma região da Alemanha ocidental. 
Este grupo étnico possui fisionomia peculiar e pertence, em geral, ao ramo dos francos, distinto dos saxões. É de índole reconhecidamente alegre, como é peculiar aos renanos em geral. Não se estabeleceram outros núcleos renanos em Santa Catarina, senão por imigração interna, ou por reemigração a partir da região da Grande Florianópolis, ou a partir do Rio Grande do Sul (onde dominam), como se verifica no Oeste Catarinense.
           
A região da Grande Florianópolis, sobretudo a começar de 1860, recebeu também alemães Westfalianos, da região norte do Reno (falantes do alemão antigo, similar à língua dos holandeses, dos quais são vizinhos na Europa). Hoje, na mesma Alemanha as duas regiões se dizem Rein-Wesphalien, e têm como capital comum Düsseldorf
Os westfalianos, aqui, em Santa Catarina, foram localizados no médio e alto vale do Rio Cubatão e ainda sobre as nascentes do Rio Capivari e do Rio Braço do Norte, que correm para o Sul, ou seja, para o Rio Tubarão. Trata-se das colônias de Teresópolis (1860, depois Queçaba, no Município de Águas Mornas, no Rio Cubatão), Anitápolis (1860) e São Bonifácio (1864).

            266. O significado global das colônias alemãs da Grande Florianópolis é diferente em muitos aspectos daquele da imigração alemã do Vale do Itajaí e extremo norte do Estado.
Enquanto lá se desenvolveram  cidades alemãs polarizantes significativas no mesmo círculo das colônias alemãs, destacando-se neste função as cidades polarizadoras de Blumenau e Joinville, Brusque e Jaraguá, e outras, - aqui, na  Grande Florianópolis, a colonização alemã  é polarizada exteriormente pela Capital e pelas cidades lusitanas do litoral adjacente, como São José, Biguaçu, e algum tanto Tijucas.
Isto resultou em que os núcleos alemães da Grande Florianópolis devem ser apreciados pelo que significam para a cidade polarizadora, e não só internamente para si mesmos.
Pelas circunstâncias geopolíticas da Grande Florianópolis somente poderia ser assim, de sorte a terem de ser tomados outros parâmetros para a conceituação do significado da imigração alemã desta parte do Estado.
Por não haverem apreciado os acontecimentos desta forma abrangente, passou despercebido a muitos o verdadeiro significado da colonização alemã da Grande Florianópolis, para a Capital. Assim sendo, Florianópolis não é apenas um discurso bandeirante, nem é somente uma expressão açoriana. Florianópolis é também uma eloquência alemã.

            A função das colônias alemãs da Grande Florianópolis poderá ser apreciada em três itens, agora sem considerar sua expansão para outras regiões do Estado:
            - ocupação das terras ainda devolutas;
            - extensão para os latifúndios improdutivos;
            - polarização de Florianópolis e cidades litorâneas adjacentes e consequente relativa germanização da Capital e de outras cidades litorâneas.

            267. A ocupação das terras ainda devolutas nas regiões lusas foi o que primeiramente significou a colonização alemã na Grande Florianópolis, na sua parte mais difícil, a montanhosa.
Este foi o ¨desafio aos olhos azuis¨ localizados nas Colônias de São Pedro de Alcântara, Piedade, Leopoldina, Santa  Isabel, Teresópolis, Anitápolis, São Bonifácio.
Estes alemães efetivaram o povoamento de uma região difícil. Os imigrantes conseguiram dominar a região montanhosa. Se de início se dizia “povoamento do caminho de  Lages”, esta intenção estratégica dos governantes se converteu simplesmente no povoamento de toda a micro-região, que ainda por muito tempo continuou sendo um desafio para o sistema rodoviário.

            Desde o início alguns dos primeiros imigrantes já permaneceram em Campinas, quase diante da  Capital.
Colonos do núcleo de Morro do Gato (ou Santa Bárbara) entre  São Pedro de Alcântara e Alto Biguaçu, conseguiram em 1836, do Governo, concessões em Vargem Grande (vd), conforme já se disse, no atual Município de Águas Mornas, no caminho de Santo Amaro para Lages
 
            268. A extensão para os latifúndios improdutivos, mesmo adquiridos por compra, foi mais um sucesso da colonização alemã na grande Florianópolis. Se a colonização lusitana, representada no continente fronteiriço por São José, São Miguel,  Enseada de Brito, mal havia conseguido  estabelecer ao longo do curso médio dos rios fazendas com escravatura, ela fracassava quase inteiramente quando se deu a abolição desta.
Os colonos alemães, com os recursos conquistados penosamente nas terras difíceis que se lhes haviam concedido, expandem-se então ao longo dos rios, adquirindo por compra as vastas extensões improdutivas. Drenando os vargedos e usando melhores técnica nos seus engenhos, foram vencendo. E assim foram descendo ao longo dos rios, alcançando paulatinamente a beira do Oceano, numa transformação generalizada da fisionomia agrícola da região.

            269. Polarização de Florianópolis e consequente germanização da Capital. Fundação bandeirante, de 1673, reforçada a partir de 1748 pela colonização açoriana em seu torno, Florianópolis, como as demais cidades litorâneas inicialmente lusas, foi também penetrada por alemães, mas no começo em número limitado.
            Havia uma colônia alemã de origem urbana, que criou a indústria da Capital, destacando-se o grupo Hoepcke (vd). Estes alemães industriais e comerciantes, alguns profissionais, como médicos, exerciam liderança sobre os imigrantes alemães da região colonial próxima.
            É importante advertir para os soldados alemães, de uma tropa que lutou no Uruguai até 1828, e que foram anexados aos imigrantes vindos em novembro de 1828. Mais jovens e solteiros, muitos deles se conservaram na Capital e em Campinas.
            Dentre os soldados alemães desativados  se destacou Häberle, que fundou uma casa comercial que depois passará para Ferdinand Hacradt e deste para o grupo Hoepcke.
         
          270. Efeitos da colônia alemã sobre a Capital. Ainda que não se estabelecessem intencionalmente núcleos originários de imigrantes alemães no espaço do atual município de Florianópolis, estes todavia se instalaram espontaneamente. E logo influenciaram o desenvolvimento da Capital, direta e indiretamente.
          Agora nada mais representava a pesca da baleia, praticada em "armações", que, por décadas durante a ocupação colonialista portuguesa, havia resultado em dividendos para o comércio. Vindos já ao tempo do Brasil independente, os imigrantes alemães da Grande Florianópolis, comercializando seus produtos, passaram a reanimar o referido comércio.
          Ocorria ainda o detalhe, que, enquanto a população lusa praticava a pesca artesanal e uma agricultura com transformação em engenhos primários, os alemães exerciam uma agricultura com engenhos melhor equipados.
          Havia também uma anterior tecelagem em teares rústicos,. Os alemães obtinham melhores tecidos importados da Europa pelo para seu comércio da Capital.

          Acresce ainda, que, com a independência do país, os quartéis portugueses da Ilha de Santa Catarina desapareceram não muito depois, perdendo os jovens a oportunidade de receber soldo, como acontecia anteriormente.

          Terminara também em 1828, conforme já se referiu, a Guerra Cisplatina, com a independência do Uruguai, antes igualmente pleiteado pelo Brasil e Argentina. Em vista de haver o Brasil contratado soldados alemães para as referidas lutas, - agora em 1828 encerradas, - muitos destes militares foram anexos aos imigrantes.
          Já com assimilação em marcha e havendo alguns casado com lusas, tinham condições adequadas de se estabelecerem no próprio meio luso da Capital, como efetivamente aconteceu com muitos deles.
          O ex‑soldado Ulrich Häberle criou um estabelecimento comercial, que, anos depois, em 1857 passou a Fernando Hackradt. Este logo se associou ao sobrinho Karl Franz Albert Hoepcke (Senior) (n. 25-6-1844, +1924). Este, vindo ao Brasil em 1963, para Blumenau, e dali para a Capital, aqui se consolidou no comércio, navegação e indústria, com filiais no interior.
          Quando em 1871 Hackradt se retirava do grupo, a firma Hoepcke já era a mais expressiva de Santa Catarina. Desenvolveu também a indústria e a navegação. Instalou em 1913 uma fábrica de rendas e bordados, que obteve destaque ao longo do século, penetrando no seguinte.
 
          Faleceu Carl Hoepcke longevo, em 1924. Inversamente, de outra parte, faleceram cedo seus dois filhos masculinos, Max e Paul. Continuou a empresa Ruth Hoepcke, que se consorciou com Aderbal Ramos da Silva (n.1911), o qual assumiu a Presidência da Empresa Hoepcke, em 1942, e foi eleito Governador do Estado de Santa Catarina, para o período 1947-1951.
          O Instituto Carl Hoepcke (vd) criado em 2004, por iniciativa das netas
Sílvia e Anita. Além de guardar a memória Hoepcke, desenvolveu estudos sobre a presença alemã na sociedade florianopolitana e mesmo na do Estado (Cf A Notícia, Joinvile, 6-6-2004)..

          271. Os efeitos da Colônia alemã urbana de Florianópolis. Assim outros alemães ou seus descendentes tiveram sua atuação na Capital. Alguns dentre os imigrantes e ex‑soldados permaneceram em Campinas, situada entre a Capital e o núcleo originariamente açoriano de São José.
          Houve também em Florianópolis uma colônia alemã urbana, de cidadãos não ligados a colonização do continente fronteiriço,  mas por reemigração de colônias mais distantes como Blumenau e Joinvile, ou mesmo vinda por conta própria da Alemanha. Além dos já citados Hackradt e Hoepcke, alguns praticaram a medicina e o magistério. Houve ainda quem fundasse uma fábrica de bordados, que depois se integrou no grupo Hoepcke.
           Mas, nem na cidade de Florianópolis, nem na Grande Florianópolis, a indústria dos alemães teve significativa expansão. Importa considerar que os primeiros imigrantes vieram de uma Alemanha ainda em fase pré‑industrial. Tão logo o Reno alemão se industrializou, cessaram de emigrar os renanos.
         
          De outra parte, nem a Grande Florianópolis, nem Florianópolis mesmo eram no curso do século 19 região  adequada para um maior desenvolvimento.
          Outro fator da não prosperidade se deve à ausência governamental de um plano de desenvolvimento para a região.
          Por um século os núcleos originários da imigração alemã na região montanhosa ficaram politicamente subordinados a sedes municipais que lhes eram externas e situadas junto ao mar, e que eram São José, Palhoça, Biguaçu.
          Depois de independizados estes núcleos, tornaram‑se próprios municípios, ainda que sujeitos às limitações da região montanhosa.

          No que se refere à religião e ao ensino e certamente se fez notar a presença alemã. Religiosos e religiosas procedentes da Alemanha atuaram nas Igrejas e estabilizaram instituições de ensino. Destacaram-se o Colégio Coração de Jesus das Irmãs da Divina Providência (de 1898) e o Colégio Catarinense dos jesuítas (de 1906).
          A presença franciscana alemã se fez sentir também na Capital de.Santa Catarina Por ultimo, o nome do Colégio Coração de Jesus (das Irmãs da Divina Providência), passou ao nome de Colégio Bom Jesus (por influência franciscana).

272. O processo de germanização de Florianópolis a partir do interior.  As penetrações em pequena escala proveniente das colônias passou a crescer e se tornou mais considerável que o grupo de origem urbana proveniente diretamente da Europa.
Uns e outros prosperam, como também a partir deles se dá a miscigenação. Florianópolis passa a ter cidadãos de nome germânico nascidos em seu mesmo território, de que alguns são ilustres.
Por exemplo, Duarte Paranhos Schutel nasceu aqui em 1837, filho de João Schutel e Maria da Glória Teixeira. Formou-se em medicina. Do Partido Liberal, foi deputado provincial por 4  legislaturas, foi mesmo Presidente da Câmara municipal (1877), o que então equivalia a ser Prefeito, e foi ainda Deputado Geral do Império (1885-1888). Foi escritor significativo e deu nome, como patrono, à Cadeira n. 7, da Academia Catarinense de Letras.
E assim ocorrem outros exemplos de presença germânica no plano social.
Com o fenômeno crescente da urbanização após a segunda Guerra Mundial (1939-1945), cresceu Florianópolis, passando a polarizar as populações excedentes da região colonial. O desenvolvimento dos transportes diminuiu o isolamento dos povoados.
Com isso a Capital entrou para o processo de germanização mais intensiva. A esta altura, já não se  trata de um afluxo de alemães a se situarem ao lado de outra população. O processo de miscigenação, em adiantado estado psicológico, permitiu que a relativa germanização da Capital do Estado se fizesse quase imperceptivelmente.
As colônias da região montanhosa serão um manancial constante de excedentes demográficos, que em movimento contínuo e incontido, fornecerão população germanizante à cidade e mesmo ao interior da Ilha de Santa Catarina.
            Com o estabelecimento dos lusos à beira-mar e dos alemães ao longo dos cursos dos rios até a suas cabeceiras, além de outras etnias, pode-se depreender que a futura configuração étnica da população da região geográfica da grande Florianópolis será de um misto com forte presença germânica.

            273. Uma penetração germânica, de vagar e sempre. Em 1829, quando 146 famílias se destinavam à fundação de São Pedro de Alcântara (25 Km da costa, no caminho de Lages),  12 famílias se deixavam logo ficar na cidade de Desterro e arredores.
            Todavia, a pequena capacidade inicial de Florianópolis para criação de empregos, resultou em que a reimigração se orientou inicialmente para outras regiões do Estado.  Não obstante à sua pequena capacidade polarizantes, a penetração germânica na Capital de Santa Catarina se deu.
            Uma informação de 1848 diz que se encontravam estabelecida em Praia Comprida alemães de São Pedro de Alcântara inclinados ao comércio, contando com armazéns, oficinas, lanchas, canoas. Compravam e vendiam aos agricultores alemães que procediam de São Pedro de Alcântara (Cf. Arcipreste  Paiva, Memória  Histórica da Colônia de São Pedro de Alcântara, 1848).
            Em 1858 uma descrição de Avé-Lallement advertiu para a presença alemã:
            “Deu-me ocasião de conhecer um digno alemão, o Sr. Häberle, de Württenberg, geralmente conhecido e estimado, que se acha no Brasil há mais de 30 anos. A princípio militar e depois negociante, vendeu sua casa comercial que havia dirigido com prudência e felicidade e vive na sua bela residência, sita num magnífico jardim da Praia de Fora, dedicando-se às suas flores e à contemplação, para a qual só uma vida agitada e trabalhosa fornece matéria. O Sr. Hackradt, um alemão ativo e bem educado, que comprou o negócio de Häberle, levou-me ao seu antecessor" (Transcrito do livro “Nossos pais” do Pastor Max Henrich Flos, 1961, pag. 127 – referente ao capítulo  “Descrições de Desterro,” feitas pelo Dr. Avé-Lallemant, julho 1858).

            274. O comércio dos imigrantes de São Pedro de Alcântara era feito com a Capital, que passou a ser beneficiada com os produtos vindos da colônia alemã. O maior poder aquisitivo do colono alemão, que o do açoriano pobre; veio mais uma vez favorecer a cidade, cuja base era comercial.
            Informava longamente o Pe. Paiva em 1848:
"O comércio da Colônia é hoje um tanto considerável, possuindo o arraial algumas casas de negócio e várias oficinas, onde os introdutores de gado e vários viajantes, que descem da vila de Lages, se refazem do necessário. Algumas vezes, os que comerciam neste gênero é ali que vão esperar os tropeiros com o fim de efetuarem uma negociação mais vantajosa. Os colonos conduzem os seus gêneros em cargueiros até um dos arrabaldes da vila de São José, denominado Praia Comprida. Aqui existe um não pequeno número de alemães, que, mais inclinados ao comércio, deixaram a colônia e vieram se estabelecer com negócio. Este é sem dúvida um dos lugares da vila que encerra maior comércio, e muito tem concorrido para o incremento da mesma. Conta já um grande número de armazéns, oficinas,  e a maior parte de seus moradores possuem lanchas, botes ou canoas, que diariamente navegam para o porto da Capital, levando os gêneros dos colonos e que descem de São Pedro de Alcântara.
Os seus edifícios se tornam notáveis pela maneira de sua construção; as peças do madeiramento são encravadas umas nas outras e presas com tornos de cerne, dispensando desta arte toda sorte de pregos. O seu repartimento interior é igualmente de madeira bem trabalhada.
            Os colonos ao chegar a este lugar com seu cargueiro embarcam os gêneros nas lanchas de que nós falamos e transportam-nos à Capital, onde os vendem, abastecendo-a assim dos gêneros de primeira necessidade. À tarde voltam à Praia Comprida, que poderá distar légua e meia da cidade, e recolhem-se à colônia, levando consigo, efeitos para negócios e próprio consumo.
            Os gêneros principais de sua lavoura são a batata, o feijão, a mandioca e o milho de que fazem excelente farinha; cultivam igualmente a cana de açúcar, que dela fazem aguardente.
São muito amigos de criar, e por isso um dos artigos mais fortes do seu mercado é a carne de porco e a manteiga, e que vem diariamente, com abundância.
Na Vargem dos Pinheiros, três léguas acima do arraial, produz espontaneamente a verdadeira erva-mate em grande quantidade, porém como os colonos não usam desta bebida e talvez ignoram o seu fabrico, não tratam de admiti-la no seu mercado, e apenas algum nacional ali reside, costuma ir buscar, e depois de preparada, levar em pequenos jacazes ao mercado da Capital” (Pe. Paiva, Memórias, 1848).

            275. Ocorria também inversamente a penetração lusa no meio germânico de São Pedro, principalmente na parte leste, mais próxima de São José. Criada a Freguesia, seus limites parecem que incluíram mesmo áreas já antes povoadas por alguns nacionais. Em 1848 informava o Pe. Paiva:
            “Nesta freguesia existem igualmente para mais de 50 famílias brasileiras, as quais pela maior parte compostas de lavradores diligentes, muito concorrem para o engrandecimento daquela.
            Esta estatística foi calculada depois que por lei provincial deste ano foram alongados os limites a leste da freguesia de São Pedro de Alcântara, e por isso deve discordar da que existe em poder do Exmo. Presidente da Província, tirada antes daquela lei” (Pe. Paiva, - Memórias, 1848).
            O negro surgiu cá e lá, nos meios alemães de Santa Catarina, mas como um empregado assalariado e não como escravo, senão raramente.

            276. Também foram polarizadas as colônias germânicas pelas cidades lusas adjacentes à Capital, como São José, Palhoça, Biguaçu, inclusive Tijucas.
No caso de Tijucas aconteceu inicialmente uma atração Em todo a fértil bacia do rio relativamente grande. Inicialmente se deu a penetração alemã nas cabeceiras do Rio Tijucas na região de Angelina. E assim ainda a partir da colônia alemã de Piedade (1847),  já cedo reemigraram os alemães para o interior, visando as regiões férteis da bacia de Tijucas.
Na cidade de Tijucas ocorre também a presença alemã, juntamente com a italiana. Seja o exemplo do industrioso alemão nato João Bayer, vindo para Tijucas em 1893, e o de João Bayer Filho (Prefeito de Tijucas) e genro de Benjamim Glote Junior. Ou ainda de Gaspar Laus Neto, que foi Presidente da Câmara Municipal.
Assim acontece que, apesar da notória presença açoriana em toda a região de Tijucas, ela não foi tão considerável, e até poderá ter diminuído em porcentagem.
 
            III -  COMO PROSPEROU A IMIGRAÇÃO ALEMÃ EM OUTRAS REGIÕES DO ESTADO. 98sc277.

          278. A penetração em Santa Catarina a partir do Rio Grande do Sul e do Paraná se deu simultaneamente, ainda na década de 1820, com a expansão da colônia alemã da Grande Florianópolis.
          Estas duas outras procedências contribuíram também para a generalizada presença alemã em Santa Catarina.
          Mais tarde ocorreu ainda a reemigração dos excedentes coloniais do Rio Grande do Sul para o Oeste Catarinense.

          279. No Rio Grande do Sul fundava-se a Colônia Alemã de São Leopoldo, a primeira daquele Estado, em 1824. O processo de penetração alemã no território catarinense, a partir do Rio Grande do Sul, está a acontecer, talvez a começar de 1826, por expansão da colônia de São Pedro das Torres (Pirataba), situada às margens do rio Mampituba, que faz a divisa das então duas províncias.
            Dadas as divergências criadas por dois pastores evangélicos, parte dos imigrantes alemães destinada ao Rio Grande do Sul veio em 1826 para Glória, sobre o Rio Mampituba. Desenvolvendo-se o povoado em ambas as margens, ficou o cemitério de então, situado do lado de Santa Catarina, em local depois chamado Glorinha.
O povoado da parte do Rio Grande, mais se desenvolveu e passou ao nome Glória, depois alterado para Piratuba, e fez parte do município de Torres, RS.
           Situado o núcleo na margem direita do Rio Mampituba, dezenas de famílias não demoraram a passar, em épocas diferentes, para a margem esquerda, de Santa Catarina.
          Os primeiros alemães do Rio Grande do Sul a se estabelecerem nas margens do Rio Mampituba, penetrando os atuais municípios catarinenses de Passo de Torres, São João do Sul, Santa Rosa, Jacinto Machado, Sombrio, Turvo e Araranguá, são representados pelos nomes de família: Lummertz, Raupp, Paulus (Paulo), Magnus, Kreutzberg (Crasborges), Emmerich (Emerin) e outros.
          Curiosamente, alguns dos descendentes de alemães que se misturaram com a população lusa, passaram a grafar seus nomes erradamente, e não raro passaram a ser também analfabetos. 
           
          A penetração da colônia alemã rio-grandense, ao se estender ao vale do Rio Araranguá, encontrou em Forquilhinha, perto de Criciúma, o grupo mais avançado da expansão alemã a partir do Grande Florianópolis. Mas a penetração sulina continuará na direção norte, constatando-se mesmo na Capital do Estado.
          Adiante-se que a penetração da colônia alemã do Rio Grande do Sul continuará, por outras vias, a acontecer no futuro, - migrando para o Oeste de Santa Catarina (vd) e ainda para o meio urbano de Florianópolis.
         
          280. No extremo norte catarinense, a partir do Paraná os primeiros alemães entraram em janeiro de 1829, passando de Rio Negro para Mafra. Toda a região era então considerada paranaense em ambas as margens do rio, onde foram estabelecidos naquele início de 1829 mais de cem imigrantes, que compunham 29 famílias.
          Em consequência do acordo de limites de 1917, veio a margem catarinense a denominar‑se Mafra, onde também se situava uma primeira capela que serviu à população. 

          A penetração paranaense de alemães se fez sentir até em Santa Cecília, região bem adentrada do Estado de Santa Catarina.

          281. Presença alemã inicial no Vale do Itajaí. Ocorreu já antes da fundação futura de Blumenau em 2-9-1850. Conforme já se adiantou, a lei de colonização (1835) facultou a iniciativa particular, de onde logo resultou a fundação de núcleos germânicos no Vale do Itajaí, entre outros a Colônia Itajaí (Belchior e Pocinhos), estabelecida sobre o Rio Itajaí, depois parte norte do município de Gaspar,
          Reemigraram alemães da Grande Florianópolis para Belchor e Pocinhos, de onde não poucos derivaram para Gaspar e Itajaí. A colônia apresentava em 1839 apenas 17 famílias estrangeiras e 47 brasileiras.
            Note-se que a família Müller, a que pertenceu o ilustre itajaíense, Lauro Severiano Müller, reemigrou da microrregião de Florianópolis. Assim também sucedeu com os Bornhausen. 
            Foi a colônia alemã de Itajaí que fez vir da Alemanha um jovem professor, de 19 anos, Marcos Konder (n. 5--5-1855, Tréveris, + 1890, Itajaí). Exerceu inicialmente a função para a qual fora encomendado. Casou-se com Adelaide Silveira Flores, filha do Cel. Flores, chefe político. Prosperou como comerciante, havendo sido partidário de Hercílio Luz. Pai dos assim chamados irmãos Konder, a saber, Marcos (n. 1882), Adolfo (1884), Victor (n. 1887).
As filhas do Professor alemão Marcos Konder (pai dos irmãos Konder) casaram respectivamente com Bornhausen e com Reis, deram também origem aos conhecidos grupos familiares Konder Bornhausen e Konder Reis.

          282. Em Blumenau, ainda que não só em Blumenau, se deu a coroação bem sucedida da imigração alemã em Santa Catarina. Sua fundação se deu quando na metade do século, em 2 de setembro de 1850, se instalavam os 17 primeiros imigrantes, e teve início Blumenau como bem sucedida colônia de iniciativa de Hermann Blumenau (1819-1899). Ele a transferiu ao Governo Imperial em 1860, ficando ainda na sua direção até 1882, às vésperas da municipalização.

          Recursos do Segundo Império, - que o Primeiro Império não dispunha, - permitiram o sucesso do empreendimento, além dos fatores intrínsecos aos mesmos imigrantes, suficientemente desenvolvidos para o que se propunha. A  Colônia de Blumenau evoluiu rapidamente, fazendo penetrar os colonos até as cabeceiras dos últimos afluentes do Vale do Itajaí. Este Vale se tornou a melhor expressão da colonização alemã em Santa Catarina e talvez mesmo no Brasil.

Em Blumenau aconteceu a mais simpática história da origem de uma cidade catarinense.
No sentido etimológico, Blumenau quer dizer botão de Flor (Blume = flor, Au = olho).  Admirada já em seu tempo, pelo Presidente da Província e pelo Imperador do Brasil, hoje está na admiração de todos quantos conhecem a Flor do Vale do Itajaí.

O doutor Hermann Otto Blumenau foi antes de tudo ele mesmo, - um homem inteligente e prático. Nasceu a 26 de dezembro de 1819, em Hasselfeld, ducado de Brunsvick, Alemanha. Primeiramente farmacêutico de profissão, empregado em indústrias químicas.
Por último, com vistas a novos planos, fez-se conhecedor da língua portuguesa, aprendida já na Europa.
Tinha conhecimentos dos problemas do seu tempo, dos desajustamentos sociais do velho mundo e das promessas do novo, da marcha emigratória e pensou ele mesmo de vir para a América.
As informações desta parte do mundo as tinha por contato pessoal com o sábio Alexandre von Humbold. Neste tempo, como estudante, tivera relações também com Fritz Müller (vd) que, mais tarde, irá conviver com ele, na América. Em 1844, a serviço das indústrias Trammsdorf, no mesmo ano que também ingressou na Universidade de Erlangen, esteve em Londres e ali teve contato com João Sturz, cônsul-geral do Brasil na Prússia, que o entusiasmou com referência ao país representado. Ao ser destituído, em 1859, Sturz fará contra- propaganda.
Tomou Hermann Blumenau contato com a Sociedade de proteção aos emigrados alemães, com sede em Hamburgo, que o contratará para inspecionar as colônias alemãs do Brasil, com ordenado e as despesas de viagem e estadia. Foi uma grande oportunidade, inclusive para os projetos pessoais de Blumenau. Colando grau a 23 de março de 1846, logo seguiu viagem, tomando o veleiro Johannes, dia 30 do mesmo mês, em Hamburgo.

283. Inspecionou o Dr. Hermann Blumenau primeiramente os núcleos alemães do interior do Rio Grande do Sul, tomando conhecimento de sua situação, para informar a Sociedade de proteção aos emigrados alemães.
Retornou ao Rio de Janeiro, via Desterro, permanecendo na Capital do Império, onde por cerca de 8 meses tratou dos interesses da sociedade que representava.
Refere-se também que o Dr. Blumenau, recém-formado, trazia a promessa de uma cadeira de química e mineralogia na Escola Politécnica do Rio de janeiro. Não se efetivou, todavia  este desiderato.

284. Dia 4 de abril de 1847 o Dr. Blumenau conferenciou com o Presidente da Província de Santa Catarina, Marechal Antero José Ferreira de Brito, chegando a conclusões favoráveis.

Seguiu o Dr. Blumenau, em 11 de abril de 1847, a inspecionar a Colônia de São Pedro de Alcântara, distante 25 quilômetros da Capital, sobre a estrada de Lages.
Ali teve conhecimento, que alguns colonos haviam migrado para o Rio Itajaí (Belchior e Pocinhos, na atual Município de Gaspar).
Novamente na Capital, o Dr. Blumenau recebeu do Cel. Neves, Vice-presidente da Província, a sugestão da conveniência de tentar os seus planos nos vales do Itajaí, Tijucas e Itapocu, grandes bacias hidrográficas.

285. Seguiu o Dr. Blumenau a pé para o Norte, atravessando Biguaçu, Tijucas, chegando adoentado à freguesia do S.S. Sacramento de Itajaí.
Retornou a Desterro, desta vez por via marítima, em busca de recursos para se tratar.

Pela segunda vez foi para o Rio Grande do Sul, onde lamentou existir o braço escravo, mesmo entre os alemães de São Leopoldo.
Teve proposta do Governador do Rio Grande do Sul para dirigir uma colônia que acabava de receber 2000 imigrantes; recusou.
Tinha combinações com a Companhia Hamburguesa para introduzir imigrantes novos ainda a fazer vir. Convencera-se de que devia estabelecer sua colônia no Vale do Rio Itajaí.

286. No Rio de Janeiro encontrou-se com Fernando Hackradt, que já estivera em Santa Catarina. Associou-o na empresa. A primeira tarefa consistiria em explorar o Rio Itajaí e localizar um ponto conveniente.
Em 26 de outubro de 1847 Hackradt viajou à frente, para realizar em Desterro os primeiros preparativos. Em dezembro chegou também o Dr. Blumenau. No começo de 1848, - via Tijucas, - seguiram para o Rio Itajaí.

287. Guiados pelo caboclo Ângelo Dias, prosseguiram pelo Rio Itajaí até o local onde se fundaria a colônia. Parecendo tratar-se da posição mais conveniente, acamparam em rio Velha, pouco além do Rio Garcia, ambos afluentes da direita do grande Itajaí, tendo logo adiante.o terceiro afluente o Rio Itoupava. Deixa-se ali ficar Hackradt para explorar a região dos três pequenos rios.
Enquanto isto, Blumenau seguiu de canoa com o guia Ângelo Dias, cerca de 70 quilômetros, até alcançarem o Rio Subida. Penetrou ainda pela foz do rio Benedito (Indaial) alcançando o confluente rio dos Cedros (Timbó).

288. Meses após, numa carta aos pais, relatava emocionado de satisfação:
"Estou, sobretudo encantado com a majestática solidão, com o ar quente e agradável, com o azul puríssimo do céu. Foram dois dias magníficos que lá passei, no silêncio, onde jamais gente civilizada pusera pé. Ainda hoje, depois de três meses,  sinto-me arrebatado pelo solidão das florestas, pela lembrança de nelas haver estado, estático, pisando lugares que são o que eram há milênios" (Cf Cristina Blumenau, Um colonizador alemão no Brasil (artigo publicado no livro Auswanderer de Hermann von Freeden e Georg Smolka, tradução de José Ferreira da Silva).
Infere-se da carta mencionada, que não havia moradores em Blumenau à época de sua fundação propriamente dita. Não importa que tenham sido feitas aquisições em algumas partes a particulares, pois era possível possuir grandes extensões de terra sem nelas residir. Não havia mesmo condições para então viver nas matas e nem havia necessidade para isto.

         289. Um Projeto de Colonização à Assembléia Legislativa Provincial, em começos de 1848. Novamente de retorno à Desterro, o Dr. Blumenau, em nome da Sociedade de proteção aos Emigrados Alemães, fez um plano arrojado de colocar em 10 anos, dez mil imigrantes. O projeto obrigava ao Governo criar facilidades; legais no transporte e pagar 2$000 por colono estabelecido nos dez primeiros anos.
         Foi preciso transpor muitos percalços e resistências depois das frustrações, até que fossem instalados os primeiros 17 imigrantes.
         Tudo foi anotado, antes e depois, e assim ficou historiado, passo por passo, como Blumenau iniciou em 2 de setembro de 1850, com aqueles 17 povoadores iniciais.

          290. Passou por cessão, ao Governo Imperial, em 13-1-1860 a colônia particular do Dr. Hermann Blumenau, fundada em 2 de setembro de 1850.
          Continuou o mesmo fundador seu Diretor oficial, e isto até que ocorresse a municipalização em 1880, por desmembramento de Itajaí.
          A partir da colônia de Blumenau planejaram‑se novos núcleos.          
         
          292. Particular menção cabe à colônia Hansa Hamônia (depois Ibirama), 1897. Note-se que a “Sociedade Colonizadora de Hamburgo”, transformou-se em 1897 em “Sociedade Colonizadora Hanseática”.  Fundou Hansa-Humbold (depois Corupá) no vale do Itapocu.
          A partir de 1899, também fundou Hamônia (depois Ibirama), onde estabeleceu a sede da Empresa. A partir dos vários núcleos estabelecidos, formaram diversos futuros municípios na região.
           
          293. A colônia de Brusque, sobre o Rio Itajaí Mirim,  foi fundada em 4 de agosto de 1860. Ali chegavam então, guiados pelo Presidente da Província, 55 pioneiros incluído o Barão austríaco, Maximílian von Schneeburg, todos em pequenas embarcações, pelo rio Itajaí-mirim, atracando num pequeno porto, em local que hoje é a Praça Vicente Só.
          Tornou-se município em 1881, mantendo inicialmente o nome da Freguesia São Luiz Gonzaga. O nome de Brusque foi adotado em 17 de janeiro de 1890, homenagem ao Presidente da Província Francisco de Araújo Brusque, de quando ocorrera a fundação da Colônia.
           Pelo seu pioneirismo na indústria têxtil, Brusque se tornou o "Berço da Fiação Catarinense" e uma referência para o Estado de Santa Catarina.

294. A estrada do Vale do Itajaí. Em 1864 o engenheiro Emilio Odebrecht recebeu a incumbência de traçar a estrada de rodagem de Blumenau a Curitibanos ligando assim o vale e o próprio planalto ao estuário de Itajaí.
Recebiam os contratantes dos diversos trechos de estrada a construir um terço em dinheiro e dois terços em terras; nasceram dali numerosas outras localidades, como Rodeio e Timbó. Canalizaram-se também colonos teuto-brasileiros da região de São Pedro de Alcântara e Sul do Estado.

         A estrada e o povoamento do Vale de Itajaí deram novas oportunidades à cidade portuária de Itajaí, cuja população se desenvolveu, baseada no comércio e nos trabalhos de exportação.
Muitos dos moradores das colônias desceram a esta cidade e ali desenvolveram novas iniciativas e mesmo a indústria, como também a estocagem dos produtos do interior.

          295. Joinvile, um sucesso no extremo Norte do Estado, resultou do impulso imigratório alemão marcado pela criação da Colônia Dona Francisca, que depois assumiria o nome atual.
Recebia seus primeiros 191 imigrantes em 9 de março de 1851.
A colonização era promovida pela “Sociedade Colonizadora de Hamburgo” fundada em 1849 em Hamburgo, com o propósito imediato de colonizar as terras do patrimônio de S.A. Imperial o Príncipe de Joinville, por contrato de 5 de maio daquele ano. Este contrato foi aprovado pelo Governo no ano seguinte, por decreto n. 537, de 15-50-1850.
O casal de Príncipes conservou apenas parte de suas terras. O espaço concedido para a colonização atingia os atuais municípios de Jaraguá, Schoeder e São Bento do Sul. O casal de príncipes não teve, aliás, oportunidade de vir à colônia à qual, contudo dera origem. Por causa de todo este contexto, ficou Joinvile engalanada com o título de Cidade dos Príncipes. Alcançou a condição de município já em 15-3-1866.
Primeiramente com objetivos agrícolas, a Colônia Dona Francisca, depois Joinvile, logo se industrializou, passando a polarizar a região, tal como Blumenau no Vale do Itajaí. Cedo passou a rivalizar com Florianópolis, como cidade maior do Estado.

          296. Jaraguá do Sul merece especial menção na região Norte, havendo surgido como um desdobramento territorial do dote pelo qual teve início mais cedo a cidade de Joinvile.
           Em 1876 recebia o engenheiro militar Coronel Emílio Carlos Jordan, por doação, uma área de dez mil hectares da Colônia Dona Francisca, e que se situavam às margens do Rio Itapocu. Havendo situado seu empreendimento junto à barra do seu afluente Jaraguá, nasceu dali a futura cidade. Então se dirigiu para lá com 60 trabalhadores, assim fundando Jaraguá em 25 de julho daquele ano de 1876, inicialmente como empresa canavieira.
De imediato construiu 10 fornalhas para açúcar e 2 alambiques. O produtivo latifúndio foi o inicio de uma cidade cujas indústrias, ao lado do centro maior de Joinvile, contribuíram para o desenvolvimento da micro-região do Litoral de São Francisco.
          Instalados colonos alemães prosperou uma nova cidade, que se separaria de Joinvile, como novo município, em 1943.

          297. Com referência à “Sociedade Colonizadora de Hamburgo”, transformou-se em 1897 em “Sociedade Colonizadora Hanseática”.  Fundou Hansa-Humbold (depois Corupá) no vale do Itapocu.
Povoou, a partir de 1899, também Hamônia (depois Ibirama) (vd).

298. São Bento do Sul (vd), sobre o Planalto Norte, surgida 1873, foi também uma realização da Sociedade Colonizadora de Hamburgo.

          300. Os Alemães no Sul de Santa Catarina derivaram principalmente da Microrregião da Florianópolis (vd).
          Fizeram-se bem conhecidas pela sua presença germânica as cidades de Braço do Norte, São Ludgero, Forquilhinha.
           

302. Alemães no Oeste de Santa Catarina. Ocorreu uma forte penetração dos excedentes populacionais das colônias alemãs e italianas do Rio Grande do Sul, a começar de cerca de 1900.
          A densidade germânica ocorreu principalmente ao longo do Rio Uruguai, a cujas margens se alinham, por exemplo, São Carlos, Mondaí, Itapiranga. Mas existem ainda alemães expressivamente penetrados em todos os demais municípios do Oeste catarinense.
            Tais descendentes alemães traziam uma boa tradição agrícola da colônia alemã do vizinho Estado, além de haverem sido estabelecidos em boas terras e dentro de um planejamento.
 
          303. Aconteceu ainda uma corrente imigratória alemã para o Oeste a partir da Grande Florianópolis, alcançando, sobretudo as regiões da mata do Rio Canoas e Vale do Rio do Peixe.
          Note-se que os alemães do Oeste do Estado, quer de procedência catarinense, quer rio-grandense, são de origem predominantemente renana. Ao se reencontrarem, reconheceram-se pelo mesmo dialeto e não se distinguem entre si, tanto quanto quando são comparados com os que imigrantes vindos diretamente para o Vale do Itajaí.

          I V - DIMENSIONAMENTO DA PRESENÇA ÉTNICA GERMÂNICA EM SC. 98sc0305.
         
          306. A notável presença alemã em Santa Catarina não significa que devamos ser um Estado de raças justapostas, como se fôssemos uma nova Suíça, com falantes do alemão, francês, italiano. Tudo se encaminha para um contexto melhor, qual seja o congraçamento de todos e que as novas gerações consolidam pela miscigenação, falando finalmente o português.
Os que simplesmente distinguem entre portugueses, açorianos, italianos, alemães, ou ainda em negros, índios, judeus, navegam contra a história. Cultivando o etnicismo, não são humanistas e praticam o mal.
Aspiremos ser catarinas, e, em sentido mais amplo, brasileiros. Globalmente sejamos os humanos. Um dos grandes males acontecidos através dos milênios foi a divisão de raças, e esta ainda agravada pela divisão de línguas. Não sejamos as vítimas disto. Nem queiramos participar disto como cúmplices.

307. O Reino dos Suevos, - um reino germânico na primitiva Lusitânia. O primeiro encontro de germânicos e portugueses começou a acontecer em Portugal antigo, sobretudo no Portugal de Lisboa para o Norte. A Capital do novo reino é Porto Cale, de onde o adjetivo portucalense, finalmente Português e Portugal.
           No século 5-o, ano 409, fixaram-se ali os suevos (Suábios), vindos da Alemanha, miscigenando-se com a população lusitana anterior e aceitando sua língua, apesar de terem tido o domínio político. Vem isto muito a propósito lembrar a respeito de nosso Estado de Santa Catarina, onde a população de origem alemã, - mais densa que em qualquer outro Estado brasileiro, bem como de forte poder econômico, - paulatinamente se miscigena com os demais cidadãos.
É possível dizer que o Rio Grande do Sul apresente maior número de descendentes alemães, porque aquele Estado é maior em dimensão e população, mas não representam ali a mesma porcentagem em relação à população total. Ainda que lá também se expressassem com vigor no desenvolvimento, aqui em Santa Catarina a contribuição germânica é muito mais visível, e contribui notoriamente para determinar a identidade do catarina.

Com referência ao passado de Portugal, como foi lá a presença dos suevos?  Chegaram ali quando declinava o Império Romano, havendo Roma  caído em 476 (data que divide a antiguidade e a Idade Média). Encontravam-se os suevos na Alemanha, que em tempo algum pudera ser vencida pelos romanos. Estes, quando a primeira vez penetraram fundo a Germânia, foram derrotados por Siagrius, na Westfália, e depois se contentaram em apenas estabelecer cidades fortificadas em seu contorno, como Viena, Augsburgo, Treveris, Colônia, Metz.
       Conhecido historiador romano, de nome Cornélio Tácito (54-120 d.C.), em seu livro Germania descreve com romanticidade a pureza das tribos nórdicas de além Reno e Danúbio, asseverando que elas constituíam um perigo para o Império (Tácito, 37). Efetivamente aquelas tribos o vencerão e até hoje aqueles nórdicos caracterizadamente volitivos conservam a liderança no mundo.
          Mais especificamente dos suevos diz: que "ocupam a maior parte da Germânia e se dividem em diversas nações, das quais cada uma conserva seu nome, ainda que todas se digam  pelo nome comum de Suevos" (Tácito 38). O nome Suábia, que hoje ainda se mantém como denominação regional de uma parte do sul da Alemanha, a que pertencem Augsburgo e Wuertemberg, decorre do nome dos suevos.
          Note-se ainda que de um subgrupo dos suevos denominado alamanos (literalmente todos homens) se formou o nome de Alemanha, através do francês e do latim tardio alemanus.
          Quanto ao nome Deutsch, que o alemão se atribui a si mesmo, ele significa "popular", e Deutsdland  (Alemanha) equivale à "país do povo".
          Finalmente,  os escritores latinos usavam o nome Germania para designar a Alemanha, como se verifica em Cícero e Tácito.
Se os germânicos se orgulham do que deles se têm dito, este ufanismo é herdado também pelos miscigenados. Têm os miscigenados a vantagem de se poderem orgulhar de todas as raízes. Aliás, os próprios germânicos já cedo se miscigenaram. Na mesma Alemanha assimilaram aos celtas restantes, por exemplo, aos tréviros; os prussianos são miscigenação germânica e eslava.      
Quando os francos se deslocariam para a Gália,  os ingleses para a Grã Bretanha, os lombardos para o norte da Itália,  também os suevos se movimentaram. Atravessando os Pirineus (divisor da Gália e Espanha) nos anos 408 e 409, ocuparam a maior parte de Portugal, a partir de Lisboa (sobre o rio Tejo), estendendo-se para todo o norte, com derivação até os montes Cantábricos, já dentro da Espanha.
Com maior concentração no Minho e no Douro, os suevos foram contudo minoria em relação à população anterior (iberos, galegos, lusitanos, latinos). Na miscigenação dos usos e costumes, resultou a aceitação da língua do país, apesar da dialetização, como também haveria de acontecer com os francos na Gália e mesmo com os ingleses em sua outra região.

Durou quase dois séculos o reino dos suevos em Portugal, do ano 409 a 585, quando um outro grupo germânico, o dos visigodos (com capital em Toledo, antiga capital da Espanha) o anexou; permanece todavia a população sueva em Portugal.
Entretanto, quando da invasão árabe (em  711), muitos visigodos se acolheram na região sueva de Portugal, adensando consequentemente a porcentagem nórdica da população. Foi o reino dos suevos um primeiro sinal de diferenciação de Portugal em relação à Espanha. Esta diferenciação resultará na formação, cinco séculos depois, do definitivo Portugal.
Fenômeno notável foi o de que nenhum dos povos de Portugal deu seu nome ao país: nem os iberos, nem os galegos, nem os romanos, nem os suevos. A nova etnia, resultante da miscigenação assumiu uma denominação geográfica, a de Porto Cale (como inicialmente se chamava a atual região da cidade do Porto). Dali derivaram os nomes Portugal, portucalensis (forma latina),  portugalês, finalmente português.
Na Europa geralmente os nomes dos países derivaram de denominações gentílicas: França - país dos francos, Itália - país dos italianos, Bretanha - país dos bretões, etc. Diferentemente, na América prevaleceram os nomes geográficos, e isto é mais moderno e menos racista. Português não é originariamente um nome gentílico, apesar de semanticamente ter derivado um tanto para esta direção.
O que acontecerá no Brasil e no Estado de Santa Catarina, a população de diversas origens étnicas? Aqui, a resultância da miscigenação também vai assumindo espontaneamente uma denominação geográfica, a dos Brasileiros, no Estado de Santa Catarina, a dos catarinas, ou catarinenses. 
Como em Portugal, - ninguém mais se denominando suevo ou visigodo, galego ou romano, ibero ou o quer que seja, - o catarinense se identificará como um catarina, e não mais como um índio carijó ou caigang, nem mais como um português ou um açoriano, nem mesmo como um italiano, ou como um alemão, deste do qual agora tratamos. Importa em tudo isto ter a visão histórica, que inclui o passado e o futuro, e se advertir da interação sociológica dos acontecimentos. Eis o discurso que importa aprender,  com vistas ao ufanismo em relação a todas as raízes étnicas e à nova identidade dali resultante.

          308. Surpreende dizer que, para o Brasil independente em 1822, imigraram cerca de 200 000 alemães, num espaço de tempo de menos de 100 anos.
          Ainda que em maior número os imigrantes alemães se tenham estabelecido no Rio Grande do Sul, recebeu o território menor de Santa Catarina uma densidade maior deles. Além disto, uma parte da colônia alemã do Rio Grande do Sul reemigrou para o Oeste de Santa Catarina.
          É possível que o quociente alemão na formação do homem catarinense atinja a porcentagem de 25% de sua população. Em consequência seria o Estado de Santa Catarina o mais germanizado do país.
          Somados os imigrantes alemães, italianos, poloneses e outros de menor número, formam cerca de 50% da população do Estado. Em consequência da progressiva miscigenação, passar‑se‑á no futuro a falar apenas em raízes alemãs, e não de alemães, como também em raízes italianas (da Itália do Norte e Tirol), polonesas, açorianas, bandeirantes (portuguesas e indígenas), africanas.

          309. A expansão da colônia alemã para dentro do espaço geográfico já ocupado por outras etnias constitui fenômeno sociológico notável. O processo da referida expansão para fora de seus núcleos originários se deu principalmente pelo seu maior poder de compra, resultante da operosidade alemã.
          Assim é que, notoriamente disciplinado para o trabalho, o imigrante alemão instalado em Santa Catarina principalmente como agricultor, não somente logo adquiriu condição de classe média, mas também passou a adquirir terras melhores que as recebidas inicialmente em cabeceiras de rios.
            O fenômeno de conquista geográfica das melhores terras aconteceu sobretudo no Grande Florianópolis, descendo aos poucos ao longo dos vargedos à margem dos rios, até atingir a foz. Muitas das fazendas lusitanas, anteriormente mantidas à base de escravos, e que se tornaram decadentes com a abolição da escravatura, foram adquiridas pelos imigrantes e depois pelos seus descendentes.

        310. Aconteceu também o ingresso progressivo das populações alemãs em cidades antes tipicamente lusas, quando do processo de urbanização, acontecido no Brasil, sobretudo depois de 1930. Anteriormente se moviam os excedentes das populações agrícolas alemãs para novas frentes agrícolas. Passando agora às cidades, fizeram‑no, quer pela via dos ofícios, quer pela criação de empresas comerciais e industriais. Inclusive a empregada doméstica alemã foi muito disputada por causa de sua particular operosidade.
            Entretanto, parte da população agrícola alemã se conservou operosa em suas propriedades de origem. Em decorrência, a Grande Florianópolis, cada vez mais germânica, continuou fonte inesgotável de novos excedentes populacionais, que adentradamente no futuro continuarão a enviar pessoal para Florianópolis, São José, Biguaçu, Palhoça, quer para o centro urbano, quer para a ocupação das respectivas praias.
            A costa catarinense, no passado colonial, foi tipicamente lusa. Passou agora a ser  um cadinho de fusão de raças, de mui variadas denominações, em que haverá algo do bandeirante aventureiro (resultante do romântico português e do selvático indígena), do pacífico e gentil açoriano, do pertinaz e operoso filho da Germânia, do alegre italiano, do prudente eslavo, como ainda do sentimental africano, e assim ainda da nobreza grega, da astúcia árabe, da laboriosidade japonesa, e até dos felizes falantes do espanhol.
            No rolar do tempo se foi dando a miscigenação das etnias. No futuro o verdadeiro catarinense já não será nem o bandeirante, nem o açoriano, nem o alemão ou italiano, nem outro qualquer. Será o cidadão de muitas raízes. Na fusão permanecerá o que cada raça oferece de mais forte.
            Já que o nosso tema aqui e agora é o dos alemães, o seu forte está na pertinácia e operosidade, já anotada. Podemos acrescer ainda que os alemães acentuam em sua formação um forte respeito pelo alheio.
Revelam os alemães ainda pronunciado interesse pelas iniciativas comunitárias. Assim sendo, a notória presença alemã no Estado de Santa Catarina é algo efetivamente bom.

            311. Pergunta-se, qual seria a porcentagem do contingente germânico no Estado de Santa Catarina, comparado com a população total?
            Não é possível chegar a uma conclusão exata porque as estatísticas não costumam considerar a etnia. Dão como nacionais os filhos de imigrantes já nascidos no país, uma declaração da origem étnica; não é portanto possível detectar o número exato de imigrantes, senão por métodos muito complexos, que não dispomos para o nosso texto, o qual por isso apresenta tão só aproximações. 
            Sabemos que foi a seguinte a imigração oficial para Joinville e Blumenau, até a data em que cessou a imigração oficial:
            De 1850 a 1860 ..........................947
De 1860 a 1870........................4.515

De 1870 a 1880........................4.321
De 1880 a 1890........................1.320
De 1890 a 1897........................7.875  Total 8.978 imigrantes.

Depois disso, cessada a imigração oficial, converteu-se a Sociedade Colonizadora de Hamburgo (1849-1897) em “Sociedade Colonizadora Hanseática” (1897 em diante), que atuou em Joinville, São Bento, Jaraguá, Corupá, Ibirama, Presidente Getúlio, introduzindo:
De 1897 a 1915 ........3.500.
Total até aqui .........22.478 imigrantes

            A colônia São Pedro de Alcântara recebia:
Março de 1829........ 635.
Novembro de 1829 ...50
            Dezembro de 1830......9.         Total  694 imigrantes

Colônia Belga:
Em 1845... 90 belgas
            Depois ..... 60 indivíduos

Colônia Piedade:
Em 1847... 150 alemães.

Colônia Militar de Santa Tereza:
Em 1854... 9 (sendo 2 soldados)

Das demais colônias não se têm dados senão referentes ao total da população, sem especificação dos imigrantes que procedem da Europa. Mas serão certamente mais de 5.000 pessoas, vindas em épocas as mais diversas.

            Assim temos a soma de:
            Sociedade Colon... 22.478.

            São Pedro ..........................  694

Piedade .......................... 150
Santa Tereza .....................  9
            Diversos ....................... 5.000.
Total. .......................... 28.321.

            312. Avaliação do crescimento vegetativo. Se se der aos imigrantes alemães um crescimento regular vegetativo mínimo e que deles fizesse uma população de 45.000 ao alcançarem o ano de 1900, quando a população de Santa Catarina era de 321.294 habitantes,  cabe ao contingente germânico a porcentagem de cerca de 14 % com referência à população total.
            Esta porcentagem certamente se elevou com as imigrações após 1900 e pela ascensão de numerosos reemigrantes alemães gaúchos ao oeste catarinense. Aqui também é difícil fazer o cômputo. Mas não estará talvez longe da verdade se se elevarem, com estes cômputos posteriores a 1900, a porcentagem de 14 % para 18%. Isto quer dizer que numa população de 1 milhão e meio (1.500.000), o contingente germânico poderá ser de 270.000 pessoas. Não fica contudo fora de cogitação que o crescimento vegetativo pudesse ter sido maior que o dos lusos ou dos negros.

            313.  Podemos ainda tomar outro caminho para avaliar o contingente germânico de Santa Catarina.
            Em vez de atender às cifras dos imigrantes, apelaríamos à população dos núcleos por eles povoados, e então parece que se chega a uma porcentagem maior de 20 a 23 %.
            Em 1824, quando ocorria a colonização alemã de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, que se refletiu para o sul de Santa Catarina, possuía esta província apenas 45.410 habitantes.
            Em 1836 a população se elevava a 63.624. Ora,  encontravam-se em 1829 cerca de 694 imigrantes em São Pedro de Alcântara, marcando pois um pouco mais de 1% da população total.
            Em 1847 acrescenta-se a colônia Santa Isabel (1847) com 256 habitantes, a colônia belga (1854), com 150 habitantes, a colônia Militar Santa Tereza (1854), com 9 alemães. Reunidos todos estes números e mais os leopoldenses do sul da província, calcula-se em 2% a população alemã da Província.
            Em 1872, a província apresenta 159.802 habitantes. Os alemães apresentam então cerca de 21.632 indivíduos, conforme o cálculo abaixo:

2% do grupo antigo ........... 3.196
Santa Isabel (1862) ........... 1.268
Joinville (1872) .................. 6.810

            Blumenau (1872) ............... 6.498

Teresópolis (1869) ............ 1.694
Brusque (1874) ................. 2.166. Total... 21.632

            Haverá lusos incluídos, mas em compensação há alemães em localidades lusas não incluídas no cômputo. Tem-se pois quase 7% de alemães sobre a população total da Província.
            Daqui para frente se torna mais difícil o cômputo. A difusão aumenta, quer das zonas alemães para as lusas, quer das lusas para as alemães, e o mesmo já ocorre com a miscigenação, bem como é difícil avaliar quem possui aumento vegetativo mais rápido e menor mortalidade.
            Considerando que no século 19 as zonas lusas foram seriamente varridas por epidemias é de se crer que a população teuta detivesse um crescimento
vegetativo vantajoso, erguendo sua porcentagem sobre o cômputo geral do Estado. As moradias alemãs se avantajavam pela melhor construção e de maneira geral as localidades alemãs se situavam nos terrenos mais elevados, sobretudo em se tratando da Grande Florianópolis.
Foi também grande a mortandade dos negros.
           
Em 1900 a população do Estado é de 321.000 habitantes.
Blumenau (antes da redivisão)... 34.472.
Joinville...................................... 19.960.
São Bento (e C. Alegre) ............  8.351.
Brusque (sem N. Trento) ...........  9.124.
2% do grupo antigo ............. ...... 6.420.
           Teresópolis e Cia ......................  3.500 (?).
            Santa Isabel e Cia ............................ 2.500 (?).
            Grão Pará (alemães) ....................... .1.000 (?). Total...... 86.327

Descontem-se 16.000 a favor dos lusos e italianos, deixando os alemães em 70.000. Ter-se-ia então cerca de 20% de população alemã em Santa Catarina no ano de 1900. Mas ingressaram outros mais depois, pela Sociedade  Colonizadora Hanseática e pela ascensão gaúcha para o Oeste catarinense. Se fossem estes outros um total de 9.000 sobre a população de 300.000 habitantes, ter-se-ia um acréscimo de mais de 3%.
Dali  viria um contingente total de 23% de alemães em Santa Catarina. Ou seja 345.000 em um milhão e meio.
Como se pode observar por esta outra fórmula se chega a uma porcentagem superior à primeira.
Pela primeira, havia 18%, usando mesmo de muito boa vontade.
Pela segunda, a população alemã chegaria a 23 %.
O termo médio seria 20,5%.

Crispim Mira avaliava em 1920 a população do Estado em 750.000 cabendo 150 mil aos alemães e 500 aos italianos. Isto vem dar 20% exatamente ao contingente germânico.
Ora, ocorrendo só depois disto a grande afluência dos colonos gaúchos para o Oeste Catarinense, a porcentagem dada por Crispim Mira (1) se eleva naturalmente acima de 20% vindo coincidir com o nosso parecer (Crispim Mira, Terra Catarinense, p. 9).

314. Finalmente ainda sobre o processo de nacionalização dos alemães.  O Decreto-Lei n. 88, 31-23-1938,dispondo sobre a nacionalização do ensino, ativou o processo de assimilação da língua portuguesa, oficial do país.
Apesar de haverem sido os imigrantes alemães e seus descendentes notáveis como fundadores de escolas e colégios, a língua alemã continuou excessivamente presente, embora não devesse vir a ser simplesmente extinta como pensavam alguns33De outra parte a tendência nacionalista de época provocava atritos desnecessários. Tudo era ainda agravado pela circunstância do regime ditatorial (1937-1945), no país representado no País por Getúlio Vargas, e em Santa Catarina por Nereu Ramos.

315. Concluindo, sobre os alemães em Santa Catarina, a história que deles se fez conhecer, os mostra efetivamente como fator eminentemente positivo, na definição do Estado e mesmo de sua Capital Florianópolis.
          Os alemães em Santa Catarina foram  sempre de expressiva influência no progresso econômico, particularmente na agricultura e indústria.
            E assim também atuaram na cultura, inclusive religiosa, pois o imigrante germânico veio alfabetizado e aqui se tornou um fundador de escolas e igrejas, colégios e, não muito depois, ainda de universidades.

          Foi no decorrer do segundo Império que se deu uma imigração de contingentes que já não procedem só da região do Reno, mas também da Saxônia (Prússia e regiões limítrofes), bávara e outras.
          Para entender estas diferenças importa considerar que os Estados Alemães eram autônomos entre si, havendo a unificação da Alemanha ocorrido só em 1871, a partir de quando também se apressa a unificação da língua alemã. Além disto, o Reno se industrializou mais cedo e por isso desta região cessaram as imigrações; anteriormente os Estados do Reno haviam sofrido mais com as guerras napoleônicas, e por isso dela derivaram as primeiras emigrações, mas que logo diminuíram, como já advertimos, com a industrialização.

= (Texto de minha Conferência em 1956, numa série de estudos coordenada pelo Prof. Edmundo Acácio Moreira, no contexto da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, em Florianópolis. Adendos tomados ao meu Discurso, na recepção do prêmio concedido ao Romance histórico Desafio aos olhos azuis (19.. ==). 

 


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