
ENCICLOPÉDIA SIMPOZIO
(Versão em Português do original em Esperanto)
© Copyright 1997 Evaldo
Pauli
FONTES DA HISTÓRIA
CATARINENSE
Autor:
Evaldo Pauli
Prof. da Universidade Federal
de Santa Catarina - UFSC.
Membro: da Academia Brasileira
de Filosofia, RJ
do Instituto Histório
e Geográfico de SC
da Academia Catarinense
de Letras.
MEMÓRIA POLÍTICA
SOBRE A
CAPITANIA DE SANTA CATARINA.
92sc1816.
Introdução
à
Memória
Política sobre a Capitania de SC,
da autoria de
Paulo
José Miguel de Brito,
editada em
Lisboa,
1829.
Trata-se do maior texto sistemático até então escrito
sobre SC. O enfoque é histórico e geopolitico, aflorando
as vezes algumas considerações de natureza sociológica.
O valor desta Memória Política decorre do fato de haver sido
elaborada com documentos que hoje já não existem. Também
contou o autor com a fontes do seu tempo. Mas não dispõe
da documentação de origem paulista, razão porque nos
seus relatos ocorrem algumas defasagens, que a ciência histórica
atual complementa e as vezes até corrige.
Nasceu Paulo José Miguel de Brito em Portugal. Seguiu a carreira
militar havendo sido aproveitado em diferentes cargos político-administrativos.
Bastante cedo, em 1811, atuou em SC, como ajudante de ordens do Governador
da Capitania. Declara haver escrito a Memória Política
em 1836 no Rio de Janeiro.
Havendo retornado à Portugal, a apresentou à Academia das
Ciências de Lisboa, a qual a aprovou para a publicação
em sua tipografia, e assim foi publicada em 1829, com 181 paginas, e em
segunda edição em 1832.Uma terceira edição
foi realizada em 1932, em Florianópolis, 111 paginas. Faleceu o
autor no cargo de Governador de Moçambique (1829-1832).
Na Enciclopédia de SC, da Enciklopedia Simpozio, a Memória
Política de Paulo José Miguel de Brito foi inserida com a
atualização ortográfica e ainda, com uma numeração
contínua, ate 150. As notas foram posicionadas no final dos artigos.
E. Pauli
MEMÓRIA POLITICA
SOBRE A
CAPITANIA DE SANTA CATHARINA.
ESCRIPTA NO
RIO DE JANEIRO
EM O ANO DE 1816
POR
PAULO JOZE MIGUEL DE BRITO,
Ajudante de Ordens, que foi, do Governo de mês-
ma Capitania, Governador e Capitão Gene-
ral de Moçambique, e Correspondente da
Academia Real das Sciencias.
LISB0A
NA TYPOGRAFIA DA MESMA ACADEMIA
1 8 2 9.
Com Licença de S. MAGESTADE.
ARTIGO
EXTRAÍDO DAS ATAS
DA
ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS
DA SESSÃO DE 2 DE NOVEMBRO DE 1827.
Determina a Academia Real das Sciencias, que seja impressa á
sua custa, e debaxo do seu privilegio, a Memória Política
sobre a Capitania de Santa Catarina, que lhe foi apresentada pelo
seu Correspondente Paulo José Miguel de Brito. Secretaria, da Academia,
1 de Julho. de 1829.
Manoel José Maria da Costa e Sá,
Vice-Secretário da Academia.
INDICE
Do que contém esta Memória Política.
INTRODUÇÃO.
PARTE PRIMEIRA.
Historia.
PARTE SEGUNDA.
Estatística.
PRIMEIRO : Descrição Física.
SEGUNDO : Descrição Política.
TERCEIRO : Governo e Administrado publica.
QUARTO : População.
QUINTO : Produções dos três
Reinos da Natureza.
SEXTO : Agricultura, Industria, Comércio.
SETIMO : Finanças.
OITAVO : Força Militar.
NONO : Educação publica, caráter
e costumes dos habitantes.
PARTE TERCEIRA.
Importância, e melhoramento da Capitania
PRIMEIRO : Importância política.
SEGUNDO : Modo de promover o melhoramento da
Capitania.
TERCEIRO : Medidas que se devem tomar relativas
ao aumento da população, agricultura, rendas, e educando
publica.
QUARTO : Reflexões sobre as medidas
propostas.
QUINTO : Conclusão da Memória.
INTRODUÇÃO.
5. Entre as muitas e mui importantes descobertas que
tem produzido o espírito humano, ocupado em todos os tempos da utilidade
dos homens, e das sociedades, merece toda a consideração
a que devemos ao gênio sublime do imortal Cristóvão
Colombo, que nos revelou a existência de um novo mundo, desconhecido
a toda a antiguidade, e que só começou a existir para o homem
civilizado depois do século XIV; século em que aquele homem
extraordinário no-la descobriu, quer ele se fundasse nas leis da,
atração e gravidade dos corpos; quer ele fosse guiado em
suas tentativas pelos escritos dalguns filósofos da antiguidade;
quer finalmente (o que é mais verosímil) pelas noticias,
e informações de alguns navegantes do seu mesmo século.
Como quer que fosse, é fora de duvida que Colombo ofereceu a vários
Soberanos, e Príncipes da Europa a execução, em favor
deles, do grande projeto que havia concebido; isto é, o infalível
descobrimento de um novo Continente; e que depois t mil repulsas que destes
Soberanos experimentara, acompanhadas das contrariedades e obstáculos
com que a inveja, e a ignorância costumam oprimir sempre o verdadeiro
merecimento, pôde por fim conseguir que fossem atendidas e bem aceitas
da imortal Isabel Rainha de Castela as solidissimas razões em que
fundava o bom sucesso de seus planos e empresa. Debaixo dos auspícios
desta grande Princesa umas pequena frota se prepara, e com ela sai Colombo
do porto de Palas munido de todos os poderes, e plena autoridade, em 1492
em busca do Continente que fazia todo o objeto de seus mais ardentes votos
e desejos, assim como o havia sido de seus muitos estudos e serias meditações.
Depois de umas viagem que não se pode chamar longa, atendidas as
grandes dificuldades que se sabe, sofreu Colombo, deu vista das Ilhas Caribes,
tomou porto nelas, desembarcou alguma gente da que levava, e voltou á
Europa a anunciar o sucesso de sua viagem, trazendo consigo testemunhos
e provas incontestáveis do descobrimento que fizera.
6. Estava dado por Colombo o primeiro passo; o gênio sublime deste
grande homem acabava de traçar o caminho, e não restava a
qualquer outro ousado viajante se ' não a pequena dificuldade de
segui-lo sem desvio para ver coroada sua ousadia. Com efeito alguns anos
depois um homem não menos hábil que Colombo, e seguramente
mais astucioso do que ele, invejoso talvez da gloria que aquele acabava
de adquirir, ou movido das recompensas que se seguirão a sua bem
sucedida empresa, vai oferecer-se a Corte de Espanha para fazer novos descobrimentos,
asseverando como certa a existência . de um grande Continente ao
Sul das terras que Colombo acabava de descobrir: não foram grandes
as solicitações que Américo Vespucio foi obrigado
a fazer junto daquela Corte, que aproveitava já do feliz resultado
da viagem de Colombo, mais anuindo facilmente Fernando V. ás proposições
deste segundo viajante lhe fez preparar umas expedição com
que ele partiu de Cadiz no ano de 1497, e efetuou o descobrimento do prognosticado
Continente: nesta viagem reconheceu Vespucio toda a costa de Pariá
e da terra firme até o Golfo do México, donde voltou á
Europa depois de dezoito meses de navegação. Desta sorte
deixando Vespucio a Colombo a gloria de ser o primeiro que descobriu as
Ilhas da América, adquiriu para si o renome de descobridor do grande
Continente, vendo assim associado seu nome ao daquela vastíssima
Região; com grave prejuízo do de Colombo, que no conceito
do homem imparcial goza, e gozará em todos os tempos, do tributo
das primeiras honras daquele premeditado descobrimento. Estes dois homens
celebres, tanto nas primeiras viagens como em todas as que depois fizeram
àquele Continente, nunca se esqueceram de volta á Europa,
de a enriquecer não só com mil objetos de permutação
mercantil, mas até com o ouro, prata, pedras preciosas, abundantes
produtos daquelas terras, e em fim com todos os despertadores das paixões
humanas; e eis aqui o porque o primitivo descobrimento feito por Colombo
foi de um interesse transcendente, e teve uma prodigiosa influência
sobre os costumes dos povos; sobre as artes e ciências; sobre a agricultura
e comércio; em fim sobre a política de todos os Governos
da Europa.
7. Entre tanto que tudo isto se passava nos desconhecidos mares da América;
no entanto que Colombo, e Vespucio faziam em favor da Coroa de Espanha
grandes e mui importantes descobrimentos, já nesses mesmos tempos.
e em tempos ainda anteriores, os Portugueses á custa de mil perigos,
e de trabalhos excessivos, haviam descoberto as Ilhas de Porto Santo, a
Madeira, os Açores, e toda a Costa da África desde o Cabo
de Nun até o de Boa Esperança e ainda alem deste, debaixo
da direção e instruções do imortal Príncipe,
e Infante o Senhor D. Énrique; e cujas imensas viagens e descobertas
foram por fim coroadas com o desejado descobrimento da Índia sob
a conduta e comando do nunca assaz louvado Varão Vasco da Gama.
Parece deveria terminar-se aqui a gloria da Nação Portuguesa,
mas não foi assim, pois que esta não cabendo já nas
três partes do Orbe conhecido, estava nos seus destinos que se fizesse
transcendente ao Novo Mundo; e eis aqui o como os seus Decretos se preencheram.
Pedro Alvares Cabral havia partido de Lisboa em 9 de Março do ano
de 1500 comandando a segunda Armada, que o Senhor Rei D. Manoel mandava
á, Índia para continuar na consolidação das
vantagens da viagem, e feliz sucesso de Vasco da Gama. Aquele viajador,
tendo-se entranhado muito ao Oeste no Oceano Atlântico, avistou inesperadamente
terra pela latitude de 12o, ao Sul do Equador no dia 24 de Abril daquele
ano. Umas descoberta inesperada desta natureza não podia deixar
de surpreender a Cabral, o qual desejoso de reconhecer a terra que o acaso
oferecia a seus olhos, navegou alguns dias ao longo da Costa, entrou com
a sua Armada em um porto ao qual deu o nome de Porto Seguro, desembarcou
ali alguma gente, e tomando em fim posse daquela terra descoberta, em nome
do Rei de Portugal no dia 3 de Maio, dando-lhe o nome de - Terra da Santa
Cruz =, seguiu sua viagem demandando a Índia que buscava, e expediu
para Lisboa o navio que comandava Gaspar de Lemos com a noticia do descobrimento,
e do mais que fizera em Porto Seguro.
8. Contente o afortunado Senhor D. Manoel de tão maravilhoso sucesso
mandou no seguinte ano de 1501 umas expedição de três
navios em direitura á terra descoberta por Cabral, com o fim de
melhor a reconhecerem, e de fazerem todos os exames e indagações
necessárias a um descobrimento de semelhante natureza; assim como
de se colocarem marcos com as Armas do Reino nos lugares apropriados, os
quais testemunhassem o domínio e posse da Coroa de Portugal. Recolhida
a Lisboa aquela expedição em 1502, e ouvidas as noticias
e informações dos navegantes sobre o que virão e examinarão,
mandou o predito Monarca em 1503 outra expedição com o mesmo
intento, a qual não teve o êxito que se esperava, mas alguns
armas depois foram mandadas outras, não só aos referidos
fins, mas também com aquele de evitar que os Franceses e Espanhóis
fizessem comércio com os Indígenas, tendo aqueles estabelecido
já para este efeito algumas Feitorias em diferentes lugares da Costa.
Tais procedimentos, reiterados por alguns anos, produzirão serias
contestações entre as três Cortes respetivas, até
que para se terminarem de umas vez, resolveu o Senhor D. João Il.
colonizar a terra de Santa Cruz, a qual pelo andar dos tempos já
tinha adquirido o nome de Brasil. Dividiu aquele Soberano a Costa em nove
grandes porções de território com o nome de Capitanias,
as quais deu de juro e herdade a outros tantos Portugueses, distintos por
seus serviços. e expediu em 1531 Martim Afonso de Souza com umas
Armada, encarregando-o de explorar a Costa do Brasil até ao. Rio
da Prata, e de fundar umas Colônia na Capitania que depois lhe doou
conhecida pelo nome de S. Vicente. A esta profunda medida política
do sobredito Monarca deveu o Brasil a sua primitiva população.
Européia, e a sua cultura e civilização.
5. Não foram poucos nem pequenos os perigos a que em algumas daquelas
Capitanias se expuseram seus Donatários, e a gente que com eles
viera do Reino, em razão da muita resistência que encontrarão
nos Indígenas, porem armados sempre contra estes, e derrotando-os
sempre que atacavam, conseguirão no meio de contínuos assaltos,
e excessivas dificuldades começar os seus estabelecimentos, que
pelo andar dos tempos aumentarão e prosperarão. Iam crescendo
assim as Capitanias de S. Vicente, Espírito Santo, Ilhéus,
Porto Seguro, e Pernambuco, mas a da Baía adiantava pouco, vistos
os perigosos ataques com que os Indígenas deste lugar inquietavam
continuamente o seu Donatário Francisco Pereira Coutinho, a quem
obrigarão por fim a abandonar o seu estabelecimento; porem tentando
ele depois recuperá-lo, foi morto barbaramente por aqueles selvagens.
Por motivo deste sucesso a Capitania da Baía se devolveu á
Coroa, e porque o andar dos tempos tivesse mostrado ao Senhor D. João
III. os inconvenientes que resultava dos muitos poderes concedidos por
ele aos Donatárias, e a necessidade de haver umas Autoridade no
Brasil que coibisse os seus excessos, e á qual eles fossem subordinados,
aproveitou o Monarca a ocorrência daquela devolução
para dar princípio a umas Cidade, que servisse de assento ou capital
do governo do Brasil. Foi então nomeado Governador Geral Tomé
de Souza, sendo ao mesmo tempo encarregado de dar principio á Cidade
da Baía que deveria ser o lugar de sua residência: partiu
pois este Governador de Lisboa em 1549 com umas Armada de seis navios,
provida do necessário para os indicados fins. Esta nova administração
que se deu ao Brasil concorreu certamente muito para a sua gradual prosperidade;
os estabelecimentos começados em cada umas das Capitanias foram
aumentando consideravelmente, e ainda mais na de S. Vicente, onde os Colonos
tinham já povoado e cultivado grande porção de terreno
para o interior do pais, de maneira que em 1554 foram lançados os
fundamentos da Cidade de S. Paulo. Porem não estava ainda povoada
a Baía de Santa Luzia, assim chamada por Fernando de Magalhães,
quando nela entrou em 13 de Dezembro de 1519, o qual nome mudou no de Rio
de Janeiro Martim Afonso de Souza quando depois a avistou, que foi no primeiro
dia do ano de 1532. Aqui se haviam dolosamente estabelecido os Franceses
sete anos depois da criação do governo geral do Brasil, mas
sendo expulsos deste lugar duas vezes em diferentes épocas pela
força das armas debaixo do comando de Mem de Sá, este mesmo
lançou em 1567 os fundamentos da Cidade de S. Sebastião que
hoje habitamos, e que tem a prerrogativa de ser a Sede da Monarquia Portuguesa.
6. Desta sorte ia prosperando e se achava já no período da
sua maior grandeza em 1578 esta Monarquia então respeitada e temida
de todo o mundo conhecido: porem, bem como os particulares, as nações
também tem seus dias de prosperidade, e de luto: aquela, de que
Portugal tinha gozado em grau eminente depois da memorável batalha
de Aljubarrota, ficou sepultada com o Senhor Rei D. Sebastião nos
campos de Alcacer em o fatal dia 4 de Agosto do predito ano; este cobriu
toda a Monarquia por espaço de muitos anos, e somente se aliviou
em 1640, que foi a feliz época da gloriosa Aclamação
do Senhor D. João IV: porem as profundas chagas que o desgraçado
acontecimento de Alcacer abriu no corpo político da Nação,
não puderam curar-se totalmente com o remédio especifico,
que tinha manipulado o herói João Pinto Ribeiro, ajudado
de outros leais Portugueses, e seria bem dolorosa a recordação
dos males, que sofreram o Reino, o Brasil, e todas as nossas possessões
desde a invasão de Filipe II. até á total expulsão
dos Holandeses das nossas colônias transatlânticas.
7. Continuavam entre tanto as temerárias empresas de Bartolomeu
Bueno, e doutros destemidos habitantes da Capitania de S. Vicente, na conquista
e escravidão dos Indígenas, as quais tendo por objeto um
fim bárbaro, deram em resultado um acontecimento útil, isto
é, o primeiro descobrimento das minas de ouro, donde se seguiu depois
em diferentes épocas encontrarem-se outras do mesmo metal, e pedras
preciosas; acontecimentos estes que despertavam umas das mais violentas
paixões inerentes á espécie humana, e vem a ser, aquela
que ordinariamente arrasta a praticar tudo quanto ha de excesso, tanto
no bem como no mal. A ambição pois acarretou ao Brasil muita
gente de Portugal em diferentes tempos, e com vários pretextos,
vindo por este modo a aumentar-se sucessivamente a população
e cultura dos vastos sertões, em que se inculcava a existência
daqueles preciosos minerais. Estes acontecimentos considerados politicamente
por umas parte, e pela outra debaixo do ponto de vista da ruína
do nosso comércio na Ásia em razão das conquistas
que os Holandeses ali haviam feito durante o domínio Espanhol em
Portugal, fizeram com que então se olhasse com mais atenção
para o Brasil, pois que ele, e somente ele, é que podia conservar
e sustentar o comércio Português. Por tão atentáveis
motivos se fizeram necessárias medidas administrativas, tendentes
a aumentar ainda mais a população e a cultura do Brasil,
e a sua prosperidade em geral; para cujo fim se foram criando pela diuturnidade
dos tempos diferentes Capitanias, e se nomearão para cada umas delas
Governadores, Bispos, Magistrados, e outros empregados públicos:
nestes e outros objetos de administração muito deve o Brasil
ás sabias disposições dos Senhores D. João
IV, D. Pedro II, e D. João V. Apareceu porem em 1750 sobre o horizonte
político de Portugal um novo astro, debaixo de cujos brilhantes
raios se fecundou seu solo; se vivificarão a agricultura, a industria,
e o comércio; se criarão e se nutrirão todos os elementos,
que constituem a riqueza, a força, e a dignidade de umas Nação.
Estes benéficos influxos se repercutirão bem depressa em
todas as partes da Monarquia, e mormente no Brasil, onde melhorarão
todos os ramos da administração publica; não escapando
um só á inteligência e vistas políticas do imortal
Rei o Senhor D. José, a quem Portugal e o Brasil devem o principio
da sua verdadeira riqueza e prosperidade. Dos resultados porem de tão
úteis medidas gozou a Nação em maior abundância
durante o pacifico e feliz reinado de sua Augusta Filha a Senhora D. Maria,
que a morte nos roubou ha poucos meses com geral desgosto e dor de todos
os Portugueses; porem umas época ainda mais brilhante e útil
para o Brasil, e única nos anais da Historia de Portugal estava
reservada para o reinado do nosso Amado Soberano o Senhor D. João
VI.
8. O vulcão político que arrebentou em 1789 na França,
e que parecia querer engolir em suas crateras todos os Tronos da Europa,
teve os resultados que todos havemos presenciado, mas que talvez a prudência
humana não pudesse bem prever. Os Franceses querendo regenerar a
sua Nação (como eles diziam) começarão esta
metamorfose quimérica pelo estabelecimento de tudo quanto podia
concorrer para a perder e degenerar. Cumpre correr aqui um denso véu
sobre o espantoso quadro da Revolução Francesa, e de seus
efeitos, que tão fatais tem sido para a França, e para toda
a Europa, e os quais foram seguramente a justa consequencia dos princípios
subversivos da ordem social, com que espíritos turbulentos ensanguentaram
a sua pátria; direi simplesmente que os Franceses depois de terem
marchado sucessivamente por espaço de alguns anos dentro de um circulo
vicioso de quiméricas e tirânicas inovações;
pararão por fim no mesmo ponto donde tinham partido. Acaso Voltaire,
Mirabeau, Condorcet, com todos os de mais Coripéos da Revolução
Francesa poderiam esperar que as suas teorias produzissem tais resultados
?
9. Um homem astucioso se apodera então da autoridade suprema daquela
Nação, restabelece umas Realeza que só a ele convém,
e imitando em tudo a conduta de Augusto conserva as instituições
democráticas, como este fizera outrora em Roma; e os Franceses,
aqueles mesmos Republicanos, que pouco tempo antes haviam proscrito a Realeza,
e votado e clamado pela morte ignominiosa do seu legitimo Rei, o desgraçado
Luiz XVI; aqueles mesmos Franceses, que não atinavam já com
o caminho por onde quereriam fugir á vergonha e ao turbilhão
dos males, que produziu a sua decantada regeneração política,
entregam-se inteiramente (como eles Se expressavam) = á fortuna
de um Soldado feliz =; servindo de degraus ao usurpador, para que este
possa mais facilmente subir a um Trono, que haviam ocupado os mais poderosos
Monarcas do Universo. Quem poderá compreender estas contradições
do espirito humano! Bonaparte por meio de rápidas conquistas faz
tremer todos os Tronos da Europa: sua pérfida política o
força a derrubar uns, e levantar outros a seu jeito para neles colocar
a sua família, e caminhar por este modo á Monarquia Universal.
Porém não julgando ter satisfeito a saia ambição
com o que havia praticado no Norte da Europa, tenta ainda sacia-la na Península,
e retalhando Portugal a seu arbítrio pelo aleivoso Tratado de Fontainebleau,
propõe-se nada menos que capturar o nosso Soberano, bem como fez
depois com a Real Família de Espanha. Os cálculos. da perfídia
e do crime nem sempre são felizes: a Divina Providencia, que vigiava
sobre os destinos dos Portugueses e do seu Rei, inspirou a este Soberano
a resolução mais. que heróica de transferir-se com
a sua Augusta Família para o Brasil; vindo a ser esta resolução
o principio da sua mais brilhante época; e para o Monarca um dos
imortais títulos da sua gloria. Deve pois o Brasil á execução
daquela medida política o aumento de prosperidade, que ele tem adquirido
no espaço de oito anos; foi ela quente produziu a franqueza dos
seus portos a todas as nações do mundo civilizado, e com
o que se desobstruirão os canais da riqueza publica: foi ela quem
deu ao Brasil um aumento repentino de população de muitas
mil almas; Sábios, Artistas, e Comerciantes estrangeiro; o livre
exercício de toda a qualidade de industrial, finalmente foi por
ela que o Brasil adquiria não só estes mais ainda outros
muitos agentes da riqueza, da força, e da dignidade de umas Nação.
Estas e outras medidas gerais, bem como as que são peculiares a
cada umas das Capitanias, as quais devemos á judiciosa política
do nosso Monarca, tem produzido resultados assaz notórios em favor
da prosperidade do Brasil; mas o Régio e Benigno Coração
não estava ainda satisfeito com tantos benefícios; faltava-lhe
igualar ainda em tudo os habitantes deste precioso país com os de
Portugal, e para isto elevou o Brasil á categoria de Reino, e o
uniu àquele politicamente, para também unir civilmente e
identificar em umas só família os Portugueses de ambos os
hemisférios; medida esta de umas utilidade transcendente para o
vasto Império Português, e com a qual ficou extinta de umas
vez a indiscreta rivalidade, que ainda se deixava perceber nas classes
ignorantes do povo, entre Portugueses Americanos, e Portugueses Europeus.
É por tanto inegável que aquela resolução mais
que heróica do Monarca deu princípio á época
mais útil e mais brilhante do Brasil, depois do seu descobrimento,
única, como já disse, nos anais da Historia Portuguesa.
10. Todavia por muito que já se tenha feito a bem da prosperidade
deste novo Reino, falta ainda bastante que fazer. É certo que em
diferentes Capitanias já se tem posto em execução
muitas medidas administrativas, tendentes ao melhoramento da sua agricultura,
industria, e comércio, porem não é menos certo que
outras há também que ainda não gozarão destes
benefícios. A Capitania de Santa Catarina é uma daquelas,
em favor da qual se não deram ainda providencias algumas relativas
ao seu melhoramento, sendo ela de umas importância assaz. evidente,
tanto pela sua localidade, seu belo clima, fertilíssimo solo, como
por outras qualidades físicas, com que a natureza a quis enriquecer.
Durante os anos que nela residi, confesso que as examinei com desvelo,
não me poupando também a exame algum que pudesse ilustrar-me
sobre o seu estado político atual, assim como sobre o modo de promover
o seu melhoramento. Convencido pois: de que aquela Capitania é digna
de toda a atenção considerada tanto política como
militarmente, e outro sim de que somente a falta de conhecimento exato
do país, e das vantagens que ele encerra, é a causa de ter
estado como em esquecimento, tomei a meu cargo advogar seus interesses
e prosperidade por meio desta Memória Política, que eu divido
em três partes: a primeira trata da sua Historia em resumo; assumpto
que me ocasionou ou deu imenso trabalho, em razão do grande numero
e diversidade de Autores tanto nacionais como estrangeiros que fui obrigado
a consultar, não só relativamente ao descobrimento da Capitania,
mas também ao seu primeiro Donatário, e Povoador: a segunda
contêm a sua Estatística: a terceira finalmente trata da importância
da Capitania, considerada política e militarmente; nesta terceira
parte se mostra a necessidade, e indica o modo de promover o seu melhoramento
e a sua prosperidade. Não direi que desempenho dignamente o fim
que me propus, pois confesso que me abalancei a umas empresa mui superior
ás minhas forças; e sem pretender que nela se não
possam encontrar alguns defeitos, devo confessar também que não
foi nem o orgulho, nem a ambição que me obrigarão
a escrever esta Memória: foi sim o meu zelo pelo Real Serviço,
e o ardente desejo que tenho de contribuir como posso para o melhoramento
de umas tão importante porção dos domínios
do meu Soberano, e para felicidade de grande numero de meus Concidadãos;
lembrando-me do pensamento de Camões, quando diz:
„Porem não deixe, em fim, de ter disposto
„Ninguém a grandes obras sempre o peito;
„Que por esta, ou por outra qualquer via,
„Não perderá seu preço, e sua valia.
Lusíadas, canto 5o.
MEMÓRIA POLITICA
SOBRE À CAPITANIA DE SANTA CATARINA.
PARTE PRIMEIRA.
Historia.
ARTIGO PRIMEIRO.
Descobrimento.
17. CONCORDA o maior numero dos nossos Historiadores,
em que o Senhor Rei D. Manoel depois de receber por Gaspar de Lemos a noticia
do descobrimento, que por acaso fizera Pedro Alvares Cabral, no dia 12
de Abril do ano de 1500, (nt 1) mandara
preparar umas Expedição de três navios, para ir em
direitura á terra descoberta, com o fim de a reconhecer, e melhor
examinar; e que partira de Lisboa, em 10 de Março de 1501, e que
ali se recolhera em Setembro de 1502: porem discordam acerca de quem fosse
o seu Comandante (nt 2). Como quer
que seja, o que parece certo, é que nela viera Américo Vespucio,
suposto alguns dos mesmos Historiadores sejam de opinião, que o
Comandante era Gonsalo Coelho. Na descrição da viagem desta
primeira Expedição não se diz se ela avistou ou não
a Ilha que hoje se chama de Santa Catarina, quando aliás se mencionam
vários pontos da costa do Brasil, que reconheceu, e outros onde
aportou, desde a latitude de 5o, até á de 32 ao
sul do Equador (nt 3).
18. Tendo-se recolhido a Lisboa esta primeira Expedição,
mandou o predito Monarca aprontar outra, de seis navios, a fim de continuar
o que com a primeira tinha começado; e a respeito de seu Comandante,
se encontra a mesma diversidade de opiniões; por quanto alguns dos
Autores já citados dizem, que era Vespucio, outros Gonsalo Coelho,
e finalmente diz outro que era Cristóvão Jáques (nt
1). Em umas palavra, fosse quem fosse, como em tudo quanto li a respeito
da viagem desta segunda Expedição, não encontrei prova,
ou indício de que ela avistasse a sobredita Ilha de Santa Catarina,
estou persuadido, de que não a avistou, sendo certo alem disto que
o próprio Vespucio diz não passara para o sul do paralelo
de 18o., nesta segunda viagem ; e o mesmo escrevem alguns dos Autores já
referidos, e concordam todos em que a Expedição saiu de Lisboa
no dia 10 de Maio de 1503, e ali se recolheu em Junho de 1504 (nt
2). Não consta que depois desta viesse outra Expedição
á terra que descobriu Cabral. até fins do reinado do Senhor
Rei D. Manoel, parecendo que ele abandonava aquela empresa, ou pelo menos
lhe merecera pouca atenção, por alguns anos (nt
3).
19. A Corte de Espanha, á qual não agradou aquele descobrimento
dos Portugueses, tinha concedido licenças a muitos aventureiros
para tentarem novos descobrimentos ao sul do Equador, e aproveitando-se
das noticias e informações que eles levavam para a Europa,
e muito auxiliavam as suas vistas políticas, mandou aprontar umas
Expedição, cujo comando conferiu a João Dias de Solis,
navegante hábil daqueles tempos, e então Piloto-mór
da Espanha, com ordem de vir fazer novas descobertas; e parece que também
com a de procurar passagem para as Ilhas Molucas, pelo sul da América.
Solis partiu de Espanha em 8 de Outubro de 1515, com três navios,
(segundo diz Érrera), avistou terra do Brasil pela latitude de 64o
sul, e pelos fins daquele ano estava Solis no Cabo de Santo Agostinho:
dirigiu-se daqui ao Cabo Frio, e seguiu a costa até o porto de que
ele foi o primeiro descobridor, e que Fernando de Magalhães demandou
depois em 1519 (hoje Rio de Janeiro): continuou Solis para o sul, e avistou
um rio, a que chamou dos Inocentes, (depois rio de S. Vicente): seguiu
daqui para o sul e avistou a ponta de terra a que chamou Cananéa,
e continuando ao longo da costa, foi fundear em uma baía, a que
chamou dos Perdidos, e que está pela latitude de 27o".
20. Seguindo sempre para o sul, Solís aportou em outros lugares
da costa, até que avistou o Cabo, a que deu o nome de Santa Maria,
e finalmente descobriu, e entrou por um grande rio chamado pelos Indígenas
= Paraná-gu-assú = a que deu o nome de rio de Solis (depois
rio da Prata), e onde foi morto por aqueles selvagens. (nt
1)
21. Por esta abreviada descrição da viagem de Solís
se colige claramente, que a baía onde ele fundeou, e que nomeou
= dos Perdidos = é aquela mesma compreendida pela Ilha de Santa
Catarina e pela terra firme adjacente: e suposto não esteja exatamente
indicada a sua latitude de 27o, mas sim a de 27o, 26' esta pequena
diferença deve atribuir-se á qualidade dos instrumentos náuticos
de que se usava naqueles tempos, assim como ao atraso, em que então
se achava a ciência da navegação; sendo assaz notório,
que todos os navegantes antigos e modernos até ao tempo, em que
o nosso hábil Cosmógrafo Pimentel escreveu o seu excelente
Roteiro, e ele mesmo, determinarão com pouca exatidão a posição
geográfica de muitos lugares, (ou talvez de todos) da costa do Brasil.
Cumpre notar, que na descrição desta viagem de Solís
não se diz, se aquela baía dos Perdidos tinha por um lado
alguma Ilha ; porem ele podia estar ali fundeado, e não perceber
se a terra que lhe ficava a leste, era ilha, ou não; o que precisamente
lhe havia de suceder, umas vez que ancorasse ao norte e para leste da Ponta-grossa,
a pouca distancia da praia das Canavieiras : um lançar de olhos
sobre o Plano Hidrográfico da Ilha de Santa Catarina, que vai anexo
a esta Memória, bastará para se conhecer a verdade do que
levo dito. Também pode dar-se, que no tempo em que Solis, fundeou
na indicada baía, o terreno que hoje é Ilha, ainda estivesse
unido á terra firme por um istmo, no lugar onde existe agora o estreito
que separa a Ilha da terra firme, e que depois se desunisse por efeito
de algum daqueles fenômenos físicos, de que a historia nos
oferece muitos exemplos ; sendo certo, que Monsieur Frezier, navegante
assaz conhecido, que esteve na Ilha .de Santa Catarina, no ano de 1712,
afirma haver somente duas braças e meia de fundo no sobredito estreito,
(nt 1) quando hoje ha mais de quinze.
Mas apesar do que deixo referido, quero conceder que Solis fundeasse em
lugar situado exatamente na latitude de 27o, oo„: se assim aconteceu,
fundeou na enseada das Garoupas, único lugar para o norte da Ilha
de Santa Catarina, até ao rio de S. Francisco, a que Solís
podia dar o nome de baía, ainda que o não seja. Por tanto,
ou ele ancorasse em Garoupas, ou na baía que separa a sobredita
Ilha da terra firme, em qualquer das duas hipóteses fica evidente
que Solís foi o primeiro descobridor da Ilha que hoje se chama de
Santa Catarina, e da costa do Brasil que pertence á Capitania daquele
mesmo nome; pelo menos eu assim considero Solis, em quanto não chegarem
ao meu conhecimento as descrições circunstanciadas das viagens
dos outros navegantes, que antes dele vieram ao Brasil.
ARTIGO SEGUNDO
Indígenas.
23. No tempo do descobrimento do Brasil, todo o território.
que hoje forma a Capitania de Santa Catarina, era habitado por duas nações
Indígenas, denominadas, uma Carijós, e a outra Tapuias. Os
primeiros habitavam desde o rio da Cananéa até o dos Patos,
que consta das nossas Historias ter a sua foz pela latitude de 28o,
os quais rios serviam de limites a umas porção da costa,
que tinha 70 léguas com pouca diferença, quase na direção
norte-sul: estes Carijós não só não eram antropófagos,
mas tinham mais razão, e humanidade do que outras nações;
viviam da caça, da pesca, e de alguma cultura das terras. Antônio
Érrera escreve que quando Sebastião Cabot, e Diogo Garcia
aportarão com as suas Expedições na Ilha dos Patos,
(hoje de Santa Catarina), o primeiro em 1526, e o segundo em 1527, aqueles
Indígenas lhes forneceram farinha de mandioca, abóboras,
e outros viveres desta natureza (nt 1);
o que assaz prova, que eles tinham alguma industria agrícola. Os
Carijós confinavam pelo norte com a nação dos Goianazes,
e pelo sul com a referida dos Tapuias, a qual habitava do rio dos Patos
para o sul até ao Paraná-gu-assú.
24. Querem alguns Escritores, que o rio dos Patos fosse o que hoje se chama
Rio Grande, o qual comunica com o mar pelo porto de S. Pedro; porem não
é desta opinião o Padre Simão de Vasconcelos, Cronista
da Companhia de Jesus, que descrevendo os rios da costa desde Cabo Frio
para o sul, se explica como se segue "... o outro rio é dos Patos,
está em altura de 28 graus, e é mui caudaloso. Tem por fronteira
á sua barra a Ilha de Santa Catarina... " (nt
1) No Plano Hidrográfico desta Ilha, que M. Frezier ajuntou
á descrição da viagem já citada, designa também
com o nome de rio dos Patos aquele mesmo, de que falia o sobredito Cronista,
hoje conhecido na Capitania, pelo nome de rio de Embaú.
ARTIGO TERCEIRO.
Primeiro Donatário.
26. Este assunto constitui umas parte muito interessante
da Historia da Capitania de Santa Catarina, e por isso não devo
deixa-lo em silencio, mas resumilo-ei quanto me seja possível.
As conquistas dos Portugueses na India, e o descobrimento do Brasil não
tinham agradado á Corte de Espanha, e por isso diligenciava ela
por diversos modos a aquisição de um estabelecimento neste
país, assim como o poder descobrir umas passagem pelo sul da América
para as Ilhas Molucas, (descobertas pelos nossos heróis da Índia
em 1511), e para outras da Ásia, que a mesma Corte julgava lhe pertenciam,
em virtude da quimérica linha divisória, designada pelo Papa
Alexandre VI. em 1493. Estas e outras razões determinarão
Carlos I de Espanha (depois Carlos V em Alemanha) a dar ouvidos, ás
lisonjeiras promessas, que lhe fez o audaz e hábil Português
Fernando de Magalhães, como é notório (nt
1); o qual partiu de Sevilha em 10 de Agosto de 1519 para ir realizar
aquelas promessas, o que com efeito fez descobrindo a indicada passagem,
e o estreito a que deu o seu nome, e correndo os mares d'oeste conseguiu
chegar ás sobreditas Ilhas Molucas, e as Filipinas; mas não
teve tempo de as conquistar todas em favor do Monarca, a quem as tinha
prometido (nt 2). Todavia Magalhães
adquiriu nesta empresa grande gloria, pois ficou considerado como o primeiro
navegante, que fez viagem em roda do Globo. Esta viagem de Magalhães
preencheu as vistas políticas da Corte de Espanha, no que respeita
á indicada passagem, e ao domínio das Ilhas da Ásia;
mas restava-lhe ainda satisfazer os seus desejos relativamente ao estabelecimento
no Continente que descobrira Cabral. Para o conseguir foi mandado Sebastião
Cabot em 1526, apesar de dizerem alguns Historiadores, que ele viera encarregado
de ir ás Molucas, seguindo umas derrota semelhante á que
fizera Magalhães (nt 3): como
quer que fosse, Cabot partiu de Espanha em abril do predito ano com umas
Expedição de quatro navios, veio em direitura a Pernambuco,
e foi dali á Ilha dos Patos (de Santa Catarina), donde seguiu viagem
para o rio de Solís, ao sul do qual não passou; mas subindo
rio acima até á confluência do Paraná, aí
edificou algumas fortalezas, e tomou posse do país em nome da Coroa
de Espanha (nt 4). Deu parte a Corte
do que havia feito, e, ou solicitasse ou não novos meios para continuar
o estabelecimento que havia começado, o que ainda hoje parece duvidoso,
o certo é, que no seguinte ano de 1527 o Rei de Espanha mandou outra
Expedição comandada pelo Português Diogo Garcia, o
qual depois de ter estado na referida Ilha dos Patos, foi unir-se a Cabot
no rio de Solis, e subindo então ambos oitenta léguas acima
da mencionada confluência (se é verdade o que escreve Érrera),
aí deram o nome de rio da Prata àquele que se chamava antes
rio de Solis (nt 5).
27. O estabelecimento dos Espanhóis no rio da Prata, as diligencias
que os Franceses faziam por se estabelecer segunda vez em Itamaracá,
as contestações cada vez mais vivas entre as Cortes de Portugal,
Espanha, e França a este respeito, e outros motivos alheios deste
lugar. determinaram por fim ao Senhor D. João III. a colonizar o
Brasil; e começando a pôr em pratica a sua resolução,
enviou a este Continente Martim Afonso de Sousa (bem conhecido na Historia
da Índia) com umas nova Expedição. Este benemérito
Fidalgo partiu de Lisboa pelos fins de Novembro, ou princípios de
Dezembro do ano de 1530, ou já em 1531 segundo alguns Historiadores
escrevem; veio avistar o Cabo de Santo Agostinho, foi á baía
de Todos os Santos, onde se demorou algum tempo, seguiu dali para Porto
Seguro, onde entrou, e tendo partido dirigiu-se á baía de
Santa Luzia, á qual deu o nome de Rio de Janeiro em razão
de o ter avistado no primeiro dia deste mês do ano de 1532 (nt
1). Seguiu daqui para o sul, e foi dando aos lugares da costa que ia
avistando sucessivamente os nomes dos Santos, de que rezava o Calendário.
nos dias em que os descobria; e por isso deu o nome de S. Vicente ao porto
que avistou, e onde entrou em 22 de Janeiro, o qual até então
se chamava = rio dos Inocentes =. Aqui se demorou alguns meses, e começou
o estabelecimento de umas colônia, para o que muito cooperarão
os dois Portugueses João Ramalho, e Antônio Rodrigues, que
havia anos, viviam entre os Indígenas, casados, e estabelecidos
(nt 2). Em fim depois de 10 de Outubro
do mesmo ano (nt 3), partiu para o
Sul, continuando na exploração da costa até o rio
da Prata, onde aportou, e esteve até 21 de Dezembro de 1532. (nt
4) É verosímil, que nesta viagem para o sul de S. Vicente,
Martim Afonso de Sousa pusesse á Ilha, até então denominada
dos Patos, o nome de Santa Catarina, sem duvida pela avistar a 25 de Novembro,
dia desta Santa virgem e mártir. Do rio da Prata voltou para S.
Vicente, onde se achava em 4 de Março de 1533 (nt
5), e neste ano se recolheu a Lisboa.
28. Senhor D. João III. acelerava no entanto a colonização
do Brasil, e para mais facilmente a realizar dividiu politicamente a costa
em grandes porções de terreno com a denominação
de Capitanias, as quais deu de juro e herdade a diferentes vassalos beneméritos
com a condição de virem ou mandarem conquista-las, e povoa-las
á sua custa, as quais Capitanias reverteram depois todas á
Coroa em diversas épocas, e por diferentes motivos. Nove foram os
primitivos Donatários (nt 1),
entre os quais se incluem o sobredito Martim Afonso de Sousa, e seu irmão
Pedro Lopes de Sousa : a Capitania do primeiro continha cem léguas
de extensão pela costa, começando doze ao norte de Cabo Frio,
e acabando doze ao sul da Cananéa (nt
2) : principiava aqui a Capitania de Pedro Lopes de Sousa com quarenta
léguas, as quais terminavam na terra alta de Santa Ana pela latitude
de 28o,20'; e alem disso dez léguas mais, que se achavam encravadas
na doação de Martim Afonso desde o rio de Curuparé
até ao de S. Vicente, o que fazia o total de cincoenta léguas.
Fica por tanto manifesto que a Ilha de Santa Catarina, e grande parte da
terra firme adjacente, que forma hoje a Capitania deste nome, eram compreendidas
na doação de Pedro Lopes de Sousa, e que foi ele o seu primeiro
Donatário; o que tudo melhor se conhecerá lendo-se a carta
da doação deste ilustre Português, feita em Évora
aos 21 de Janeiro de 1535 (nt 3).
ARTIGO QUARTO.
Primeiro Povoador.
31. É constante que o primitivo estabelecimento
que se fez na Capitania de Santo Amaro, foi no terreno das dez léguas
já referidas, encravadas na de S. Vicente, e que as quarenta que
começavam ao sul de Cananéa, bem como a Ilha de Santa Catarina,
somente se povoarão muitos anos depois; porem o seu excelente porto
era muito frequentado naqueles tempos, mormente pelos navios Espanhóis
que iam para o rio da Prata, e para o mar Pacifico, dos quais ficavam sempre
algumas pessoas na Ilha; e segundo escreve Prevost, bastantes ficarão
da Esquadra comandada por Diogo Valdez, que ali esteve em 1580 (nt
1).
32. Como quer que seja, o que parece certo é que o primeiro Povoador
da Ilha de Santa Catarina fora Francisco Dias Velho Monteiro, natural da
Capitania de S. Vicente, da qual passara para aquela Ilha, onde fundou
o primeiro estabelecimento no lugar, em que hoje se acha edificada a Vila
Capital; o que se presume ter acontecido no ano de 1561. Ignora-se porem
se ele foi como aventureiro, ou se em virtude de algum contrato feito com
o Donatário da Capitania, ou com os seus delegados que então
se achassem «m alguma das Vilas de S. Vicente, ou de Santo Amaro.
O certo é, que Velho Monteiro levou consigo para a Ilha seus dois
filhos José Pires Monteiro, e Salvador Pires Monteiro, duas filhas,
cujos nomes se ignoram, e quinhentos Índios domesticados; e alem
disso dois frades, e um homem casado por nome José Tinoco, sua mulher
Ignacia da Costa, e um filho pequeno chamado José, e duas filhas,
umas Ignez da Costa, outra Domingas da Costa.
33. Um dos primeiros cuidados de Velho Monteiro foi a edificação
de umas Ermida, pouco distante da sua residência, a qual não
chegou a acabar, por quanto alguns anos depois dele estar na Ilha sucedeu
aportar ali um navio Holandês com água aberta, que vinha de
Lima, e trazia alguma prata, e tendo fundeado perto da praia das Canavieiras,
pôs em terra a sua carga para poder concertar. Velho Monteiro com
os seus quinhentos Índios foi atacar, os Holandeses, que vendo-se
surpreendidos precipitadamente se embarcarão nas lanchas os que
puderam, sendo os de mais mortos a tiros de flechas, e Velho Monteiro se
apossou de tudo quanto eles tinham posto em terra. Os Holandeses não
tardarão muito tempo em que não tomassem vingança
de tão atroz hospitalidade ; porque recolhidos á Europa os
que escaparão, e voltando dali a um ano outro navio com alguns deles,
tomarão pratico no rio de S. Francisco, e foram demandar a Ilha
de Santa Catarina. Dispuseram-se os Holandeses para atacar Velho Monteiro
por surpresa, o que efetuaram, e o aprisionaram estando ele na cama: obrigando-o
a restituir a prata pertencente ao outro navio, e violentamente o levarão
ao lugar, em que ele disse que a tinha escondido. Neste conflito observando
Velho Monteiro que os Holandeses faziam ações desonestas
a suas filhas, quis desafrontar-se, e lançando mão do chifarote,
que um deles tinha á cinta, outro lhe disparou um tiro de pistola
nos olhos de que imediatamente caiu morto. Os Holandeses acharão
com efeito a prata que estava escondida, e a levarão para bordo
do navio, bem como as duas filhas do falecido Velho Monteiro, a mulher
do sobredito Tinoco, e suas duas filhas, e ter-se-ia realmente efetuado
aquele rapto, se os dois frades que ficavam na Ilha, não abrandassem
os Holandeses á força de rogativas, que vieram a ser eficazes
quando a elas ajuntarão vários presentes de farinha, gados,
aves & c., conseguindo assim a liberdade das referidas mulheres, depois
do que os Holandeses deixarão o porto.
34. Depois destes acontecimentos, e passados alguns tempos, os dois filhos
do falecido Velho Monteiro se transportarão com suas irmãs
para a Vila da Laguna, que Domingos de Brito tinha começado a fundar.
(nt 1) Antônio Bicudo Cortez
afirma, que no adro da Ermida, que Velho Monteiro começara a edificar,
estava colocada umas grande cruz de pedra, a qual caíra em terra
no ano de 1727, e que indo ele vê-la, logo que chegou á Ilha,
com outras pessoas, todas presenciarão, que nela estava gravada
a era de 1651, do que inferirão ser este o ano, com pouca diferença,
em que Velho Monteiro passara a povoar a Ilha de Santa Catarina (nt
2).
35. Raynal diz na sua Historia Filosófica e Política &c.
que a Ilha de Santa Catarina foi dada em 1654 a Velho Monteiro, da mesma
sorte com que se deram as outras Capitanias (nt
1). Esta opinião apesar de ser de um Escritor muito sublime,
não me merece credito: pelo menos eu ainda não encontrei
em nossas Historias documento algum que verifique tal doação:
o que delas consta é ter havido antes da sobredita época
em que Velho Monteiro foi para a Ilha de Santa Catarina, e ainda depois,
prolongados litígios entre os Condes de Monsanto, e de Vimieiro;
aqueles herdeiros de Pedro Lopes de Sousa, e estes de Martim Afonso de
Sousa, relativamente ao domínio, e posse da Capitania de Santo Amaro,
em a qual se compreendia a sobredita Ilha; do que pode concluir-se que
a mesma Ilha não podia ser dada a um terceiro, sem que tais litígios
se decidissem de umas vez, sendo certo que eles somente terminarão
no reinado do Senhor D. Pedro II, o qual Monarca por Alvará de 11
de Janeiro de 1692 confirmou ao Conde de Monsanto (já então
Marquês de Cascais) D. Luiz Alvares de Castro e Sousa o domínio
e posse de quanto fora Donatário no Brasil o referido Pedro Lopes
de Sousa, incluindo a Capitania de Itamaracá (nt
2); e daqui se conclui que a Ilha de Santa Catarina não podia
ser doada àquele Velho Monteiro : em prova desta verdade exporei
ainda mais o seguinte fato.
36. Quis o sobredito Marquês de Cascais vender a Capitania de Santo
Amaro a José de Góes e Morais pela quantia de quarenta mil
cruzados, para o que pediu licença ao Senhor Rei D. João
V, o qual Monarca mandou ouvir primeiro o Conde de Monsanto imediato sucessor
daquele Marquês, e depois o Procurador da Coroa: o resultado desta
medida foi ordenar o Soberano por Alvará de 22 de Outubro de 1709
que a Capitania fosse comprada pela Coroa para nela ser incorporada, a
que assim se executou, e do que se lavrou a competente Escritura em Lisboa
aos 19 de Setembro de 1711 (nt 1).
Declara-se nesta Escritura que o Marquês vende a O Rei a Capitania
de Santo Amaro com 50 léguas de extensão quarenta que começam
12 léguas ao sul da Cananéa, e acabam na terra de Santa Ana,
que está em; altura de 28 graus e um terço, e as dez que
restam, principiam no rio de Curupache, e acabam no de S. Vicente... e
porque a Ilha de Santa Catarina era umas parte da doação
compreendida nos indicados limites (nt
2), fica evidente que também foi incluída na venda; aliás
far-se-ia na Escritura alguma declaração que a excluísse,
o que não se fez: logo, como deu o Senhor D. João IV. a Velho
Monteiro a Ilha de Santa Catarina em 1654, se o Senhor D. João V.
em 1711 a comprou a um herdeiro de Pedro Lopes de Sousa, que estava de
posse dela? Porque não a comprou o Monarca aos herdeiros daquele
Velho Monteiro ? E porque os filhos deste a abandonaram depois da morte
de seu pai? É sem duvida pela razão que a Ilha não
lhe foi dada como o foram as outras Capitanias do Brasil: por tanto Raynal
enganou-se a este respeito.
37. Depois da trasladação dos filhos de Velho Monteiro para
a Vila da Laguna (nt 1) somente ficarão
na Ilha de Santa Catarina alguns dos Índios que ele consigo levou
de S. Vicente, aos quais tinha distribuído terrenos para os cultivarem,
e não quiseram abandona-los. Pode dizer-se que estes homens e seus
descendentes, formarão quase a totalidade da população
da Ilha por espaço de 40 a 50 anos, porque somente depois do ano
de 1700 é que para ali se transportarão alguns habitantes
das Vilas da Capitania de S. Vicente, sendo os primeiros Salvador de Sousa,
e Manoel Manso de Avelar, que as referidas memórias manuscritas
já citadas tratam por segundos povoadores da Ilha ; o que também
ali é tradição vulgar ainda hoje (nt
2).
38. Porem tendo o Senhor D. João V criado a Capitania de S. Paulo
em 1710, desmembrando-a daquela do Rio de Janeiro, é depois desta
época que teve maior aumento a população de Santa
Catarina, porque como a Ilha e terra firme adjacente passarão ao
domínio da Coroa, e o Capitão General de S. Paulo tinha autoridade
de conceder sesmarias, deu-as a vários habitantes da sua Capitania
na sobredita Ilha e terra firme, e para ali foram estabelecer-se eles e
suas famílias. Ao sobredito Salvador de Sousa conferiu também
o Capitão General de S. Paulo o posto de Capitão mór
das ordenanças, e a Manoel Manso o de Sargento mór, o que
assaz prova haver já suficiente população em Santa
Catarina, e com efeito Mr. Frezier afirma que em 1711, quando ali aportarão
os dois navios Franceses comandados um por Mr. Roche, outro por Mr. Bessard,
governava então na Ilha Salvador de Sousa ; e no seguinte de 1712,
quando lá esteve o próprio Frezier, governava já Manoel
Manso, em cujo limitado governo, então subordinado ao da Vila da
Laguna, diz aquele navegante, que haviam na Ilha e terra firme 147 pessoas
brancas, alguns Índios, e negros libertos estabelecidos pela beira-mar
(nt 1).
39. Assim foi gradualmente crescendo pela diuturnidade dos tempos a população
daquele país, de maneira que o lugar, onde havia maior reunião
de fogos, que era com pouca diferença no sitio em que o primeiro
povoador Velho Monteiro estabeleceu a sua habitação, foi
criado Vila em 26 de Março de 1726 com a invocação
do Desterro, que ainda hoje conserva. Desde então por diante os
Capitães Generais de S. Paulo, cujo governo se estendia até
ao extremo meridional das nossas possessões, mandavam periodicamente
um Oficial para comandar na Ilha de Santa Catarina, até que o Conde
de Sarzedas (nt 1) mandou para ali
o Capitão Antônio de Oliveira Bastos, com alguma tropa de
linha da Vila de Santos, o qual governou na Ilha até 7 de Março
de 1739; dia em que tomou posse o primeiro Governador nomeado pelo Soberano.
ARTIGO QUINTO
Criação da Capitania.
41. A vantajosa posição geográfica
da Ilha de Santa Catarina, o seu excelente porto, muito frequentado pelos
navios que iam da Europa para o rio da Prata e Mar Pacífico, e outras
razões políticas determinarão em fim o Senhor D. João
V em 1738 a formar com a Ilha e terra firme adjacente umas Capitania ou
governo separado, independente da de S Paulo, a que havia pertencido até
àquela época. Os seus primitivos limites eram, pelo norte
o rio de S. Francisco, pelo sul os montes que deságuam para a Lagoa
Merim, e pelo oeste os domínios da Coroa de Espanha: mas estes limites
variarão depois por diferentes motivos, mormente quando no reinado
do Senhor D. José os Vice-Reis do Brasil passarão da Baía
por ordem da Corte a residir no Rio de Janeiro.
42. Primeiro Governador da Capitania de Santa Catarina foi o Brigadeiro
José da Silva Pais, Oficial hábil daqueles tempos, que se
achava empregado em diferentes comissões no Rio de Janeiro. Foi
nesta Cidade que ele recebeu a sua nomeação, e as ordens
para ir criar o indicado governo, do qual tomou posse em 7 de Março
de 1739, e desde logo se ocupou em examinar a natureza e qualidades físicas
e políticas do país, do que deu parte para a Corte informando-a
do que viu, e do que era necessário fazer. Propôs em primeiro
lugar que a residência do governo fosse e devesse ser na Ilha, e
não na terra firme (nt 1);
que era alem disso indispensavelmente necessário edificar na Vila
do Desterro a casa para os Governadores, e umas Igreja matriz; e que deviam
edificar-se outras em vários lugares da beira-mar; que era essencialmente
preciso fortificar o porto, e colonizar a Capitania.
43. No entretanto que não recebeu resposta da Corte, começou
aquele Governador por fazer levantar a fortaleza de Santa Cruz na pequena
Ilha de Inhátó-me-rim, fronteira á ponta grossa na
barra do norte, a qual .fortaleza serviria também de registo dos
navios por isso mesmo, que o melhor ancoradouro se acha, e está
debaixo da sua artilharia: em Agosto do seguinte ano de 1740 deu princípio
a outra fortaleza na sobredita ponta grossa, e pouco depois do mesmo ano
principiou igualmente outra na Ilha maior das duas de Ratones (nt
1). Depois disto voltou a sua atenção para a defesa da
barra do sul, que suposto seja estreita, e menos frequentada que a do norte,
é com tudo de grande importância considerada militarmente,
e na pequena ilhota que está situada na entrada da indicada barra,
começou a edificar em 1742 uma pequena fortificação.
44. Quando assim se ocupava o predito Governador destes e outros objetos
relativos á fundação desta nascente colônia,
partiu em Agosto de 1743 (sem duvida por ordem que recebeu) para o continente
do Rio Grande, e colônia do Sacramento, por onde se demorou até
10 de Março de 1746, dia em que novamente se recolheu a Santa Catarina,
onde continuou a ocupar-se com reconhecido zelo no estabelecimento e prosperidade
daquela Capitania; até que em 2 de Fevereiro de 1749 foi substituído
no governo pelo Coronel Manoel Escudeiro Ferreira de Souza, e o Brigadeiro
Pais se recolheu a Lisboa.
45. Na criação da Capitania de Santa Catarina ficou pertencendo
a administração da justiça civil e criminal ao Ouvidor
da Vila de Pernagoá cuja Ouvidoria então compreendia todo
o território para o sul até á lagoa Merim; a repartição
da Fazenda Real ficou subordinada ao Provedor dela no Rio de Janeiro, e
os negócios eclesiásticos ao Bispo de São Paulo, vindo
tudo a mudar pela decurso do tempo, como ao diante mostrarei.
ARTIGO SEXTO
Colonização.
47. Depois que foi criado o governo da Capitania de
Santa Catarina, tratou o Senhor D. João V da sua colonização.
Consultou sobre esta tão interessante medida o Conselho Ultramarino,
o qual em 8 de Agosto de 1746 dirigiu a sua consulta á presença
daquele Monarca, .que em resolução da mesma de 31 do dito
mês e ano, ordenou que das Ilhas dos Açores e Madeira se transportassem
para Santa Catarina e continente do Rio Grande quatro mil famílias
para povoarem e cultivarem aqueles férteis países. Em consequência
mandaram-se afixar Editais em todas aquelas ilhas prometendo aos seus habitantes
que quisessem vir para a indicada colonização, transporte
á custa do Estado, ajudas de custo, instrumentos de lavoura, e outras
vantagens, com tanto porem que os homens não tivessem mais de quarenta
anos de idade, e as mulheres mais de trinta (nt
1), Grande numero de famílias das sobreditas Ilhas se ofereceu
para serem: transportadas ao Brasil aceitando as promessas declaradas nos
Editais; e o Rei tomou as medidas convenientes para se efetuar o transporte
com a menor despesa possível da Fazenda Real, e para este fim o
pôs em arrematação. Feliciano Velho Oldemberg arrematou
este transporte pelo preço de vinte e dois mil reis por cada um
Casal e Sua família até á sua chegada á Ilha
de Santa Catarina: expediram-se as ordens necessárias ao Capitão
General do Rio de Janeiro (nt 2),
dirigindo-lhe a Provisão Regia de 9 de Agosto de 1747, que regulava
tudo quanto era relativo á mencionada colonização,
ordenando-se àquele que comunicasse tudo ao Brigadeiro José
da Silva Pais para lhe dar execução no que lhe pertencesse
como Governador da Capitania de Santa Catarina.
48. Vieram pois aqueles colonos em diferentes comboios, o primeiro dos
quais trazendo 461 pessoas chegou á Ilha nos princípios do
ano de 1748: o segundo em Março de 1749 com 600: o terceiro em Dezembro
do mesmo ano com 1:066: o quarto chegou em 20 de Janeiro de 1750: o quinto
e ultimo que veio, chegou nos fins do ano de 1753, com 500 pessoas, e já
no tempo do Governador. D. José de Melo Manoel, que havia sucedido
ao Coronel Manoel Escudeiro em 25 de Outubro daquele mesmo ano.
49. Algumas das graças concedidas àqueles colonos pela indicada
Provisão Regia de 9 de Agosto de 1747 foram por outras subsequentes
ampliadas depois, com as quais muito melhorarão as circunstancias
daquela colônia, e se promoveu o aumento da sua população
e agricultura. Pela Provisão de 20 de Novembro de 1749 se determinou
que aos filhos dos Casais que dentro de um ano, contado depois da sua chegada
aos lugares destinados para suas habitações, casassem, se
lhes concedessem as mesmas vantagens de um quarto de lagoa em quadra de
terreno, ferramentas, sementes etc. que se tinham concedido a seus pais
pela indicada Provisão de 1747; porem representando o Governador
Brigadeiro a o Rei, em oficio datado de 18 de Fevereiro de 1742, as tristes
consequências dos inconsiderados casamentos que faziam aqueles mancebos
somente com o fim de gozarem das sobreditas vantagens, resolveu o Monarca
pela outra Provisão de 4 de Abril de 1752 que aquele prazo de um
ano se ampliasse até cinco anos, durante os quais gozariam daqueles
benefícios os filhos que casassem.
50. Outra Provisão de 19 de Maio de 1753 estabeleceu em regra que
todos os sobreditos colonos fossem curados nas suas doenças á
custa da Fazenda Real até o fim do terceiro ano da sua chegada ao
Brasil, beneficio este que depois se ampliou sem limite de tempo a todos
os colonos, que não tivessem meios alguns para o seu curativo, pela
Provisão de 16 de Outubro de 1754. Finalmente por outra expedida
em 31 de Dezembro do mesmo ano se determinou que a demarcação
das Sesmarias que se dessem aos colonos, a fizesse o Juiz ordinário
com o Escrivão da Câmara, e que este escrevesse a Carta que
o Governador devia passar para servir de título do sesmeiro, sem
que por isto o Escrivão pudesse levar emolumento algum; e que houvesse
na Câmara um livro, onde estes títulos dos povoadores ficassem
lançados com toda a clareza. (nt
1).
51. Tais foram em resumo algumas das medidas que se tornarão para
colonizar a Capitania de Santa Catarina, as quais no meu sentir são
as que devem servir de norma para qualquer outra colonização;
que se intente efetuar em outros lugares do Brasil, fazendo-se aquelas
alterações que são próprias dos tempos, e das
circunstancias políticas atuais.
PARTE SEGUNDA
Estatística
ARTIGO PRIMEIRO.
Descrição Física
53. Posição Geográfica
= Entre os Paralelos de 26 e de 30 graus ao sul do Equador, e os Meridianos
de 38, e de 40 a oeste de Lisboa, está situada a Capitania de Santa
Catarina, que hoje se compõe da Ilha deste nome, e da terra firme
adjacente compreendida naqueles limites.
54. Fronteiras = O seu extremo pela parte setentrional é
o rio Saí, que conflui no Oceano em o primeiro dos sobreditos Paralelos;
e pouco ao norte do segundo conflui no mesmo mar o rio Mampituba, que é
o extremo da Capitania pelo seu lado meridional: por este confina com a
Capitania do Rio Grande de São Pedro; e pelo lado setentrional com
a de São Paulo : pelo lado d'oeste com ambas, servindo-lhe de limite
a Serra Geral, que nestas. paragens corre do sul para o norte, mais próxima
á costa do Brasil: o limite da Capitania pela parte de leste em
toda a sua extensão de 74 léguas é o Oceano Atlântico
meridional.
55. Superfície = A área da Capitania na terra firme
pode considerar-se composta de duas figuras geométricas, um retângulo
e um trapézio contíguos, tendo um lado comum na latitude
de 28o 45', em que está situada a Vila da Laguna; porque
daqui para o sul a Serra Geral sobredita vai gradualmente aproximando-se
para a costa do mar, da qual somente fica distante três léguas
nas vizinhanças do rio Mampituba; e para o norte da indicada latitude
a mesma Serra em partes se aproxima, e noutras se afasta da costa, mas
nunca em maior distancia de quinze léguas. Somadas as superfícies
das mencionadas duas figuras geométricas, cujos lados ficam conhecidos
pelo que levo dito, resulta a superfície total de 987 léguas
quadradas de vinte por grau.
56. Posição e superfície da Ilha = A Ilha de
Santa Catarina está situada um pouco para o norte da metade da extensão
da costa da terra firme, e é separada desta por um pequeno estreito,
que não tem de vão mais de 180 braças; o lançamento
da Ilha é quase de norte a sul, achando-se a ponta setentrional
pela latitude de 27o 26' e na longitude de 38o 37'
a oeste do Meridiano de Lisboa: o meio da Ilha no lugar daquele estreito
e da Vi1la Capital está situado na latitude de 27o 40';
e a ponta mais meridional em 27o 53'. Tem quase dez léguas
de norte a Sul, e menos de três na sua maior largura de leste a oeste:
e em razão da sua área não tem de superfície
mais de 15 léguas quadradas, que somadas com as acima ditas da terra
firme, dão o total de 1002 léguas quadradas para a superfície
de todo o terreno da Capitania.
57. Configuração do terreno = Em quase toda a extensão
da costa do mar, que pela maior parte é praia, o terreno é
pouco elevado : porem para o interior da Capitania tem muito maior elevação,
de maneira que todos os rios tem catadupas mais ou menos altas, as quais
aumentam em numero á proporção que vai diminuindo
a distancia das cabeceiras dos mesmos rios, e por conseguinte todo o terreno
vai sendo mais elevado, quanto mais se avizinha da Serra Geral : sobre
cada umas destas diferentes elevações acham-se vastas planícies,
e altos montes; àquelas e estes cobertos de densas matas, onde se
criam e vegetam excelentes madeiras.
58. Montes = Em todo o sertão da Capitania existem vários
montes, alguns de notável altura, outros porem de medíocre
elevação, a que no país vulgarmente chamam morros:
daqueles os mais assinalados e conhecidos são o da Cambirela e o
do Taboleiro, ambos situados nas imediações do rio Cubatão;
e destes é o morro da Taquara, o da Espera, e outros; mas por elevados
que todos sejam, a Serra Geral de que já falei lhes é superior
em altura.
59. Planícies = Entre estes e vários outros montes,
cujos nomes se ignoram, assim como entre eles e a Serra Geral, ha vastas
planícies todas cobertas de florestas, sendo as mais conhecidas
os chamados campos de Una, situados entre aquela Serra e os montes que
bordão a costa do mar; entre 28o e 28o 30'
de latitude, um pouco para o norte do extremo setentrional da grande lagoa
chamada vulgarmente Laguna, na qual vai desaguar o rio de Una, que atravessa
os sobreditos campos; não longe dos quais tem as suas primitivas
nascentes o grande rio Uruguai, que corre e se entranha para o sertão,
que hoje indevidamente faz parte da Capitania de S. Paulo.
60. Para o norte dos campos de Una, separado destes por umas ramificação
de montes que correm daqueles que bordão a costa até á
Serra Geral, existe entre esta e as outras o grande vale chamado campo
do Governador, que se estende para o norte até á várzea
dos Pinheiros, próximo do qual campo nasce o rio Cubatão,
ficando para o nordeste dele, não longe, o monte do Taboleiro: este
campo tem algumas léguas de extensão, e ainda hoje se acha
coberto de mato. Ao norte, e entre ele e o campo da Boa vista está
aquela várzea dos Pinheiros, que é umas grande extensão
de terreno baixo e plano, onde há grande abundância daqueles
madeiros, semelhantes aos de Portugal. A chamada várzea do Garcia
fica para o nor-nordeste da dos Pinheiros a pouca distancia, e estende
até ao rio Biguassú, que a atravessa em parte até
que volta a sua corrente para leste. Entre as duas várzeas dos Pinheiros
e do Garcia, e a Serra Geral está situado o campo da Boa Vista em
terreno muito elevado, todo rodeado de rocha inacessível pelo lado
do sul, e ainda de leste : este campo é pela maior parte descoberto,
compondo-se quase todo de faxinais com alguns capões de mato: demora
ao oeste-sudoeste do estreito, que separa a Ilha da terra firme, Deste
lugar para o norte até ao Rio de S. Francisco ha neste sertão
outras planícies menos conhecidas, e também ha algumas para
o sul da Vila da Laguna até ao extremo meridional da Capitania.
61. Rios = Vários rios mais ou menos caudalosos nascem e
correm no sertão da Capitania, sendo três os mais consideráveis.
Destes é o primeiro o rio de S Francisco, que tem a sua origem na
falda de leste das serras do Curitiba; recebe as águas do rio de
S. João, do Palmital, do Jacaré, do Cachoeira, e de outros
muitos; e depois de engrossado por eles vai depositar as suas águas
na grande bacia, ou para melhor dizer no braço de mar, que cerca
toda a Ilha do rio de S. Francisco, e que se comunica com o mesmo mar por
duas barras diferentes, que distam umas da outra quatro a cinco léguas;
cuja distancia é banhada pelo mar Oceano, e forma o costão
de leste da sobredita Ilha lançado de norte a sul: a barra do norte
está pela latitude de 26o 15'; por ela se entra para
o porto da Vila do rio de S. Francisco, do qual porto mais abaixo tratarei:
a barra do sul chamada de Araquarim, apenas tem 230 braças de largo,
e muito pouco fundo, de maneira que por ela somente podem entrar lanchas.
Defronte, e pouco para o norte desta barra de Araquarim estão três
Ilhas próximas á costa, a que chamam I1has do Remédio;
e para o norte destas estão as quatro Ilhas dos Tamboretes.
62. Segundo rio é o Tajáhi, que nasce no sertão
que hoje pertence á Capitania de S. Paulo; e diz-se que atravessa
o caminho, que vai da Curitiba para o continente do Rio Grande (o que não
afirmo): este rio recebe por ambas as suas margens outros muitos do sertão
de Santa Catarina, sendo pela do sul que lhe entra o rio de Ta-jáhi-merim,
que tem as suas cabeceiras nas vizinhanças das faldas de leste da
referida Serra Geral, e do campo do Governador, e corre para o norte entre
aquela Serra e o campo da Boa Vista: o Tajáhi vai confluir
no Oceano pela latitude de 26o 58', aonde forma um pequeno e
seguro porto com barra, em que poderá entrar Curvetas.
63. Terceiro é o rio Tubarão, que tem ás suas
nascentes na face de leste da predita Serra Geral pela latitude de 28o
3/4 a 29o: neste rio confluem outros
pouco notáveis, por ambas as suas margens, e depois de engrossado
por eles vai depositar as suas águas na grande Lagoa, ou Laguna
em um lugar fronteiro á barra, que comunica esta com o Oceano, na
latitude de 28o 45'. Os três rios sobreditos são
perenes e caudalosos, e nos tempos de chuvas mui rápida e perigosa
é a sua corrente.
64. Os outros rios menos consideráveis são (começando
pelo norte) o Itapecó, que nasce no sertão, e vem desaguar
na lagoa do mesmo nome, a qual comunica com o Oceano por umas barra, que
tem pouco mais de 15 braças de vão, e nove palmos de fundo,
duas léguas e um quarto para o sul da referida barra de Araquarim.
65. O Cambarigú-assú conflui no Oceano a distancia
de duas léguas e meia ao sul da barra do rio Tajáhi, e pouco
para o norte da ponta setentrional da enseada das Garoupas : tem na sua
foz 20 braças de largo e pouco fundo : este rio serve de limite
ao termo judicial da Vila do rio de S. Francisco pelo sul, e ao da Vila
Capital do Desterro pelo norte.
66. O Tejucas Grande nasce ao sul da várzea dos Pinheiros,
corre ao norte por algumas léguas, e nesta direção
atravessa a várzea do Garcia, ficando-lhe para o oeste o campo da
Boa Vista, e também o Pico Grande a pouca distância, e depois
de ter regado as suas imediações volta para leste, e seguindo
este rumo vem confluir na enseada, que do rio toma o nome, por umas barra
de 60 braças de largo, e 14 palmos de fundo, sete léguas
para o sul da barra do rio Tajáhy.
67. O Bigú-assú nasce para o sul da várzea
do Garcia, e corre para o norte passando a oeste do morro da Serapilheira,
depois do que volta para leste, em cuja direção vem confluir
na baía formada pela Ilha de Santa Catarina e pela terra firme adjacente,
ao norte do estreito que as separa, cinco léguas para o sul da barra
do Tejucas Grande: na sua confluência tem quarenta braças
de largo, e pouco fundo.
68. O Maruhi tem as suas origens a leste da várzea do Garcia,
donde corre para o norte, volta depois para leste, e vem confluir na sobredita
baía sul do mencionado estreito, e da foz do Bigú-assú,
distante desta quatro léguas e três quartos.
69. O Cubatão tem as suas cabeceiras perto, ou talvez já
dentro do referido campo do Governador; passa a oeste e ao norte do monte
do Taboleiro, volta para leste e vem confluir na predita baía por
três diferentes barras, das quais a maior tem 50 braças de
largo, e quinze palmos de fundo, e dista uma légua e um quarto para
o sul da confluência do Maruhi. Este rio Cubatão, duas léguas
de corrente acima da sua foz, tem umas Catadupa de notável altura.
70. O Massambú nasce ao sul dos montes, que bordão
a costa unidos ao Cambirela, onde conflui na sobredita baía, pouco
para dentro da barra do sul da mesma, légua e meia ao sul da Freguesia
da enseada do Brito.
71. O Embaú tem as suas origens nas vertentes dos montes,
que ficam a leste do campo do Governador, recebe parte das águas,
que descem dos montes, que o separam dos campos de Una, e dos que ficam
ao sul do Massambú; corre a leste, e não longe da sua foz
volta para o nordeste, e conflui no Oceano pela latitude de 28o,
tendo na sua confluência perto de 100 braças de largo, e 15
palmos de fundo.
72. Alem dos rios que levo mencionados, ainda ha muitos outros que vem
desaguar no Oceano, desde a barra de Araquarim ate a do Embaú os
quais omito por serem pouco consideráveis. Para o sul do Embaú
seguem-se os rios Seriu, Garopaba e Biraquera ainda
menos consideráveis do que os antecedentes, bem como o são
outros que ha da Laguna para o sul até ao Mampituba, os quais também
deságuam no Oceano: alem destes ha outros muitos menores em todo
o sertão da Capitania, assim como diferentes ribeirões que
vão desaguar rios que deixo mencionados. Na Ilha de Santa Catarina
ha os rios de Ratones, o Vermelho, o do Tavares, que não merecem
particular atenção ; assim como ha outros ainda menos dignos
dela aos quais no país chamam vulgarmente córregos.
73. Lagoas = A única lagoa considerável que ha em
toda a Capitania, é aquela geralmente conhecida pelo nome de Laguna,
a qual considerada na sua maior extensão, de norte a sul não
tem mais de quatro léguas, e umas com pouca diferença na
sua maior largura de leste a oeste, e bastante fundo em alguns lugares.
Ali vão depositar suas águas, alem do rio Tubarão
de que já falei, os rios Parobés, o das Garças, o
do Chiqueiro, o de Una, e outros muitos. Comunica a Laguna pelo seu extremo
do sul com a lagoa de Santa Marta; esta com a do Camaxo, e esta com a de
Garopaba, par canais naturais em direção quase paralela á
costa do mar, não muito distante desta ; circunstancia muito vantajosa
para a agricultura dos terrenos vizinhos àquelas três lagoas,
as quais são navegáveis, bem como a grande Laguna, em todo
o ano. Ha outra lagoa na terra firme pouco digna de atenção,
que é a de Itapecú, onde deságua o rio do mesmo nome,
de que já falei: na Ilha ha duas léguas pouco notáveis.
74. Portos = Alem do porto da Ilha de Santa Catarina ha na Capitania
mais três, que não sendo tão espaçosos e frequentados
como aquele, são contudo de grande utilidade para o comércio.
O porto do rio de S. Francisco, cuja barra, como já disse, está
pela latitude de 26o 15', tem a entrada pelo norte das Ilhas
chamadas da barra, (em umas das quais, que chamam Ilha da Graça,
está umas armação para a pesca das Baleias) entre
o morro de João Dias, que é a ponta do nordeste da Ilha do
rio de S. Francisco, e um baixo alagado, que demora ao nor-noroeste da
predita ponta; nesta barra ha 4 a 5 braças de fundo, e logo para
dentro à 6, 7, 8; até que se chega ao pontal da parte do
norte na terra, que corre pela costa até ao rio Saí; neste
pontal começa o canal formado pelo braço do mar aonde o rio
de S. Francisco vem depositar as suas águas, como disse a pag. 32;
e por ele se navega entre a terra, que de referido pontal corre para oeste,
e a terra da Ilha do nome daquele rio, canal que tem meia até uma
légua de largura, até se chegar á Vila de S. Francisco,
que fica duas léguas para dentro, e para oeste da sobredita barra.
Em frente desta Vila é o ancoradouro, que tem de 3 até 4
braças de fundo, e boa tença; porem é desabrigado
dos ventos do 3o e 4o quadrantes do horizonte.
75. O porto de Tajáhi é pequeno e pouco frequentado por não
haver ali povoação, mas é seguro e abrigado, e pode
vir a ser de transcendente utilidade, como ao diante direi: a soa entrada
é entre o pontal do norte e a ponta cabeçuda do lado do sul,
com 6 a 7 braças de fundo, o canal é estreito, e deve demandar-se
com vento e maré favoráveis; o ancoradouro tem o sobredito
fundo, e é defronte de umas fazenda de lavoura, chamada do Arzão,
única que com casa ali se encontra.
76. O terceiro porto é o da Laguna, cuja barra é estreita,
e não tem mais de 3 braças e meia de fundo; um banco de areia
com alfaquis a faz mui perigosa, e somente navegável para pequenas
Sumacas; desde a barra até à Vila há uma légua,
e aqui é o ancoradouro, que não tem mais de quatro braças
de fundo.
77. O porto da Vila Capital da Ilha de Santa Catarina, que é na
frente, da mesma Vila, assim como as duas baías entre a Ilha e a
terra firme, vão representadas no Plano Hidrográfico, que
vai junto a esta Memória.
78. Enseadas = A maior e mais notável enseada da Capitania
é a das Garoupas: é espaçosa, tem muito fundo, e boa
tença, e podem ali fundear com segurança grandes armadas:
a sua ábra está pela latitude de 27o 10' mais
ou menos, e tem quase umas légua de largo.
79. Varias enseadas menos consideráveis ha em outros lugares da
costa: tais são a de Itapocoroy, duas léguas e meia para
o norte da barra do Tajáhi; a de Garopaba ao sul do rio Embaú;
e a de Imbituba entre aquela e a barra da Laguna todas estas enseadas são
de pequeno âmbito, e abrigadas dos ventos do 3o e 4o
quadrantes do horizonte: não tem grande fundo, mas sim boa tença:
em cada umas delas ha umas armação para a pesca das baleias,
e ali vão fundear e carregar as embarcações, que transportam
o azeite para esta Corte. A enseada das Tejucas grande, onde deságua
o rio do mesmo nome, suposto seja espaçosa, não é
própria para receber navios, em razão do seu pouco fundo,
e má tença. Para o norte e para o sul desta há ainda
algumas outras mais pequenas, que só admitem lanchas, e às
quais no país chamam vulgarmente sacos; e na costa oriental
da Ilha de Santa Catarina ha duas mais, que são o saco do Inglês,
e o do Pântano, em que podem fundear navios. Ha porem em toda a costa
da Capitania vários lugares, alem dos mencionados, onde se pode
fundear, e até efetuar desembarques no tempo de verão.
80. Clima e Estações = É mui benigno o clima
desta Capitania, o ar aí é puro e saudável; e em toda
ela se sentem distintamente as quatro estações do ano; todas
suportáveis pelo equilíbrio da economia animal. A primavera
é caracterizada pelo desenvolvimento da ceva no reino vegetal, e
parece ser menos duradoura do que as outras estações, e mais
sujeita a trovoadas; porem ordinariamente os meses de Novembro e parte
de Dezembro são de tempo mui aprazível. Neste ultimo mês
começa já a sentir-se o estio, e até fins de Fevereiro
o calor é intenso, e seria mais se não houvesse diariamente
a viração pelo quadrante do nordeste, que quase sempre começa
depois do meio dia, e da mesma sorte, se a folhagem então verde
e viçosa das espessas matas; que povoam a Capitania, não
absorvesse grande parte dos raios do sol. Já em Março se
distingue o outono, estação a mais regular e até deliciosa,
e com efeito os dias em Abril e Maio são verdadeiramente encantadores,
e as noites não o são menos, e respira-se um ar puro, e sobre
maneira saudável; mas nos fins de Maio começa já a
sentir-se o frio, mormente nas manhãs em que sopram os ventos do
oeste, a que no país chamam minuanos: neste tempo as virações
mareiras não são tão frequentes, e começam
mais tarde que no estio. Em Junho principia a sentir-se o inverno, durante
o qual sopram com violência diariamente os ventos mareiros desde
leste até sul, e a atmosfera torna-se então úmida,
pesada, e escura por muitos dias sucessivos: nesta estação
são frequentes as chuvas e as trovoadas. Ha porem muitas excepções
no que deixo referido, as quais se manifestam mais em ocasião de
mudança das estações, e das fases da lua, como por
muitas vezes observei.
81. Solo = Parece que a Natureza se esmerou em prodigalizar os seus
dons com este país, e entre eles lhe concedeu um solo de umas fertilidade
superior a toda a expressão, era tudo quanto é necessário
para a subsistência dos homens, e para as comodidades da vida. Nenhuma
outra Capitania do Brasil oferece umas produção tão
variada, tanto dos vegetais indígenas, como dos exóticos.
Neste fertilíssimo solo se criam, nutrem, e produzem excelentemente
as plantas cerealinas, leguminosas, tuberosas, e filamentosas, bem como
as oleosas, colorantes, odoríferas, hortenses, e medicinais ; e
outro sim as arvores, e arbustos frutíferos.
82. Vulcanismo = Não consta ter havido erupção
vulcânica nesta Capitania, nem se encontrão vestígios
de tais fenômenos físicos: o mesmo digo a respeito de terremotos.
83. Águas minerais = Nas vizinhanças da margem do
norte do rio Cubatão, se descobrirão, ha alguns anos, nascentes
de águas minerais quentes, (nt
1) de que vários indivíduos enfermos tem usado com reconhecido
proveito: não sei que existam outras nesta Capitania.
ARTIGO SEGUNDO
Descrição Política
85. A Capitania de Santa Catarina contêm hoje
três Vilas, e dez Freguesias; a saber; na Ilha umas Vila e quatro
Freguesias; e na terra firme adjacente todas as de mais, que passo a descrever.
86. Nossa Senhora do Desterro, esta Vila é grande, suficientemente
populosa, e comerciante, ereta em Vila em 26 de Março de 1726; vistosamente
situada á beira-mar na face do sul da ponta de terra, que no meio
da Ilha se lança para a terra firme até formar o estreito,
que separa umas da outra, em terreno gradualmente elevado, a cinco léguas
distante (por terra) da ponta setentrional da Ilha: é a Capital
desta Capitania, e a residência do Governador, Juiz de Fora, (nt
1) e mais autoridades publicas, assento do Regimento de infantaria
de linha da guarnição da Capitania, da Junta da Fazenda,
(nt 2) da Alfândega, que lhe
está anexa : com umas grande praça de figura retangular,
em cujo lado do norte está edificada a Igreja Matriz, que é
mui boa; no lado de oeste o Palácio dos Governadores, no de leste
a casa da Câmara; estes edifícios são regulares, nobres,
e bem construídos : o lado do sul da praça é praia,
onde ha um Trapiche de madeira (hoje todo arruinado) que serve de cais
para desembarque da gente, e dos gêneros (nt
3). Tem algumas ruas sofríveis, bem que só umas seja
calçada: ha nelas belas casas, que se tem edificado recentemente:
alem da Matriz ha mais umas Igreja medíocre, da ordem terceira de
S. Francisco, que está a concluir-se; e outra mais pequena para
o lado oriental da Vila com a invocação do Menino Deus; e
anexo a ela ha um pequeno hospital de caridade e a casa em que se recebem,
os expostos (nt 4). O quartel do Regimento
de linha é sofrível, e tem um medíocre campo na sua
frente, ao qual chamam do manejo; está situado no extremo oriental
da Vila, e na falda do morro que por este lado a domina. Nos subúrbios
da Vila ha algumas chácaras de particulares, que imitam do modo
possível as quintas de Portugal, em que seus donos tem feito pequenos
jardins, e sofríveis pomares de espinho, e de caroço. As
avenidas da Vila são agradáveis por serem bordadas de ambos
os lados por limoeiros plantados a diminuta distancia uns dos outros, os
quais depois de crescidos formão cercados muito espessos, sempre
vestidos, e vistosos; e assim continuam até aos arrabaldes, e ainda
a maior distancia da Vila. Este é dominada pela parte de leste do
morro do Antão, que pelo sul se une ao do Menino Deus: do alto de
cada um deles, e ainda do de outros morros se goza umas variedade de golpes
de vista sublimes e encantadores: a baía que separa a Ilha da terra
firme, e que o estreito divide em duas partes; o numero de pequenas Ilhas
dispersas por ambas elas, a variedade de pequenas enseadas, a multiplicidade
de praias e pontas salientes do seu contorno, a diversidade de cores verdes
com que na estação própria se reveste o terreno cultivado
á beira-mar em razão das plantações de diferentes
qualidades, os montes e vales, cultivados uns, e cobertos de viçosas
matas outros; esta variedade de objetos que se sucedem uns aos outros,
torna aqueles sítios sobremaneira aprazíveis aos olhos, e
oferece assunto para serias meditações ao espírito
do observador Filósofo! Se á Ilha de Santa Catarina se tivesse
dado a atenção política que merece, e se tivessem
aproveitado devidamente as vantagens que ela oferece, combinando o útil
com o agradável, sem duvida seria ela hoje o Paraíso do Brasil;
e também o viria a ser em poucos anos, se por desgraça nossa
tão vantajosa situação se cedesse ao Governo Inglês,
como ele o pretendeu, se é verdade o que constou a este respeito:
se assim foi, que mais é necessário para provar a sua importância,
e o cuidado que com ela deve haver!
87. Termo judicial da Vila do Desterro compreende toda a Ilha, e a porção
da terra firme incluída desde o rio Cambarigú-assú
até ao sítio chamado Páo da Rainha, nos matos de Garupaba,
distantes entre si 21 1/2 léguas, segundo
contam no país, cujo termo abrange as seguintes Freguesias, quatro
na Ilha, e três na terra firme adjacente.
88. Freguesias na Ilha = A matriz da Vila Capital, cujo território
tem de extensão para o norte légua e meia (nt
1) até ao pequeno rio chamado do Amorim, no saco de Itacorobi;
2 1/2 para o sul até ao Ribeirão; 1 1/2
para leste até ao córrego grande: para oeste é a baía.
A Igreja é construída toda de alvenaria, é grande,
singela, e moderna em arquitetura, e ainda não está totalmente
acabada: tem Vigário, e Coadjutor. A população desta
Paróquia compunha-se em 1810 de 5$250 almas; a saber: homens brancos
1$468, mulheres 1$916; homens de cor libertos 71, mulheres 106; escravos,
homens 955, mulheres 734.
89. Santo Antônio; aldeia medíocre, situada á
beira-mar na face de oeste da Ilha, 2 1/2 léguas
para o norte da Vila Capital, em umas pequena enseada, cuja ponta setentrional,
que é a mais saliente, se chama Sambaqui. A Paróquia é
dedicada a Nossa Senhora das Necessidades, templo pequeno e antigo; e tem
um Vigário: a sua extensão para o norte é de 3 1/2
léguas até á ponta do Rapa, que é a mais setentrional
da Ilha de Santa Catarina; e para o sul umas légua até ao
indicado rio do Amorim, por onde extrema com a Matriz da Vila Capital;
para leste 2 1/2 léguas, aonde confina
com a Freguesia da Lagoa. No referido ano de 1810 a população
desta Paróquia de Santo Antônio compunha-se de 3$367 almas;
a saber: homens brancos 1$224, mulheres 1$467; libertos de ambos os sexos
54; escravos, homens 405, mulheres, 197.
90. Lagoa; é aldeia pequena, mas linda, e bem colocada em
terreno elevado, sobranceiro á margem d'oeste da maior Lagoa que
ha na Ilha, e comunica com o Oceano por um canal estreito e curto, que
passa junto ao morro do retiro situado sobre a praia que forma a face oriental
da Ilha, o que faz esta situação muito aprazível:
a Igreja é pequena, mas bela, e é dedicada a Nossa Senhora
da Conceição: para o norte a extensão desta Paróquia
é de mais de duas léguas até ao morro do Inglês,
e de umas e meia para o sul até ao pequeno rio do Tavares, por onde
extrema com a Matriz da filia, ficando-lhe esta, e a Freguesia das Necessidades
pelo oeste: a sua população no referido ano era de 2$430
almas; a saber: homens brancos 876; mulheres 918; libertos de cor e de
ambos os sexos 37; escravos, homens 412, mulheres 187: o seu terreno é
o mais fértil da Ilha de Santa Catarina.
91. Ribeirão; um lugarejo situado à beira-mar em terreno
um pouco elevado na face de oeste da Ilha, e na falda do seu mais alto
monte, fronteira a terra firme, quase leste-oeste com a barra do rio Cubatão:
a sua Igreja, que é pequena e pobre é dedicada a Nossa Senhora
da Lapa, e tem Vigário: o limite desta Freguesia pelo norte é
umas linha reta tirada da ponta de Caiacanga-merim a rumo de leste até
á costa oriental da Ilha, pela qual linha extrema com a Matriz da
Vila, de que foi desmembrada ha alguns anos: para o sul da Paróquia
tem de extensão 2 1/2 léguas
até á ponta dos naufragados, que é a mais meridional
da Ilha: a sua total população era de 1$436 almas; sendo
brancos, homens 516, mulheres 457; libertos de cor de ambos os sexos 48;
escravos, homens 325, mulheres 98.
92. Freguesias na terra firme = S. Miguel; povoação
medíocre, situada á beira-mar para dentro da barra do norte
da Ilha, a distância de mais de uma légua, em lugar aprazível
que olha para o oriente, tendo pelo ocidente os montes que deságuam
na margem do norte do rio Bigú-assú: a Igreja Paroquial tem
a invocação do Arcanjo S. Miguel: é pequena, e pobre,
e tem um Vigário, a sua distancia para o norte estende-se a nove
léguas até ao rio Cambarigú-assú, e para o
sul umas e três quartos até ao Quebra-cabaços, que
dista outro tanto do estreito para o norte ; a sua população
era de 3$601 almas. São fregueses desta Paróquia os moradores
da enseada das Garoupas, da ponta e praia das Bombas, e dos Zimbos, da
enseada das Tejucas, da praia das Palmas, da armação grande
dos Baleias estabelecida na ponta da terra firme, que fica quase leste-oeste
com a ponta setentrional da Ilha de Santa Catarina.
93. S. José; lugar situado a beira-mar em formosa posição
na terra firme, para o sudoeste do estreito. a Paróquia é
dedicada ao Santo que dá o nome ao lugar, é pequena, e boa,
e tem um Vigário: o terreno desta Freguesia, que é o mais
cultivado e fértil de barras a dentro, estende-se para o norte na
distancia de 3 léguas até ao rio Quebra-cabaços, e
para o sul umas e meia até ao rio Aririú, por onde confina
com a Freguesia da enseada do Brito, e pelo norte com a de S. Miguel: a
sua total população era de 2$808 almas.
94. Enseada do Brito; povoação pequena situada na
terra firme á beira-mar sobre a costa que borda a sobredita enseada,
fronteira á ponta de Caiacanga-assú, na Ilha, e quase leste-oeste
com a mesma ponta. A igreja é pequena e antiga, dedicada a Nossa
Senhora do Rosário, e tem um Vigário: o limite desta Freguesia
pelo norte chega a duas léguas, até ao sobredito rio Aririú,
por onde extrema com a Freguesia de S. José; e para o sul avança
a seis léguas até ao lugar chamado Páo da Rainha,
nos matos de Garupaba: a sua total população compunha sede
1$511 almas. (nt 1).
95. Vilas na terra firme = A segunda Vila da Capitania e a mais
antiga é a da Laguna, fundada por Domingos de Brito Peixoto, como
já disse, em o ano de 1653; esta Vila está situada no extremo
meridional da língua de terra que forma o lado oriental da grande
Lagoa; está assentada sobre a estrada geral, que vai de Santa Catarina
para o continente do Rio Grande de S. Pedro, pela latitude de 28o
45' mais ou menos: é suficientemente populosa, tem poucas ruas,
umas praça com um chafariz, casa da Camada, e Igreja Matriz sofrível,
dedicada a Santo Antônio dos Anjos; tem um Comandante militar, hoje
nomeado por O Rei, e sujeito ao Governador da Capitania, e terço
de Ordenanças com o seu Capitão-mor, e mais Oficiais; quatro
companhias de Milícias, um corpo Municipal, dois Juizes ordinários,
e outras Autoridades locais. O termo judicial desta Vila se estende para
o norte á distancia de 8 1/2 léguas
até ao referido lugar do Páo da Rainha, por onde confina
com o termo da Vila Capital; e para o sul na distancia de 19 1/4
léguas até ao rio Mampituba, extremo meridional da Capitania.
Para o norte da Vila da Laguna na distância de 4 1/2
léguas está a pequena povoação de Vila Nova,
com Paróquia dedicada a Santa Ana, assentada sobre a referida entrada
geral pouco distante da enseada e armação das Baleias de
Imbituba. A Vila da Laguna e seu terreno (incluindo a Paróquia de
Santa Ana) contêm uma popu1ação de 5$983 almas; a saber:
homens, brancos 2$251, mulheres 2$669; libertos de cor, de ambos os sexos,
86; escravos, homens 887, mulheres 490.
96. A terceira e menor Vila da Capitania é a do Rio de S. Francisco,
situada na face do noroeste da Ilha, e na margem do sul do rio do mesmo
nome; a sua latitude é de 26o com pouca diferença;
é pequena e pouco populosa. Em todo o seu termo apenas ha umas Paróquia,
que é a da Vila dedicada a Nossa Senhora da Graça, com Vigário
e Coadjutor. Para o norte estende-se o termo desta Vila até ao rio
Saí, extremo setentrional da Capitania, por onde confina com o termo
da Vila da Guaratuba pertencente já á Capitania de S. Paulo,
na distancia de cinco léguas: para o sul chega o termo até
ao rio Cambarigú-assú na distancia de 16 léguas, por
onde extrema com o termo da Vila Capital, e com a Freguesia de S. Miguel.
Tem Câmara, dois Juizes ordinários e mais Autoridades locais;
duas companhias de Milícias, um Terço de Ordenanças
com o seu Capitão-mor e mais Oficiais; e o comando militar é
exercido pelo Oficial, que manda o destacamento do Regimento de linha que
mensalmente para ali vai da Vila Capital. A sua população
consta de 3$953 almas ; a saber: homens brancos 1$891, mulheres 2$062;
libertos de ambos os sexos 212; escravos homens 371, mulheres 252. As armações
das Baleias de Itapocoroi, e da Ilha da Graça estão dentro
dos limites do termo desta Vila, e da sua Paróquia.
ARTIGO TERCEIRO
Governo, e Administração publica.
98. Governo da Capitania de Santa Catarina é
individual, e a pessoa que o exerce tem o título de Governador,
é nomeado pelo Soberano, a quem está hoje unicamente sujeito
(nt 1); é pelo Ministério
que se expedem as ordens, e a este dirige o Governador a sua correspondência
oficial, sem intervenção de alguma outra Autoridade. O Governador
não tem regimento privativo, que regule as suas atribuições;
dirige-se pelas leis e regulamentos tanto militares como civis relativamente
aos casos gerais, e pelas ordens, que pela diuturnidade dos tempos, e sucessão,
dos acontecimentos tem sido expedidas aos diferentes Governadores da Capitania
em diversas épocas: não tem autoridade alguma na administração
da Fazenda Real, da justiça civil e criminal, e nos objetos municipais,
nem pode ingerir-se nestas diferentes administrações, sem
que para isso receba ordens do Ministério. Tens o Governo um Ajudante
de Ordens nomeado por O Rei (nt 2),
um Secretário, umas Secretaria, em que são empregados hoje
um Oficial, e um amanuense (nt 3).
99. A administração da Fazenda Real está a cargo de
umas Junta, composta de cinco membros, da qual é Presidente o Governador
da Capitania, e que tem umas Contadoria com os seus respetivos Oficiais
(nt 1).
100. A Capitania tem um Magistrado superior com o título de Ouvidor,
que para cumulo de males dos seus habitantes não reside hoje dentro
dela! Foi criada a Ouvidoria por Decreto de 20 de Junho de 1749, desmembrada
da de Pernagoá, á qual pertencia até àquela
época todo o território dali para o sul, e ficou pertencendo
desde então á Ouvidoria de Santa Catarina (nt
1). Os Ouvidores desta sempre residiram na Vila Capital da Ilha, até
que por Alvará de 16 de Novembro de 1812 se legislou que eles passassem
a residir na Vila de Porto Alegre, Capital da Capitania de S. Pedro do
Rio Grande, ficando a mesma Vila cabeça de comarca.
101. A administração da justiça, pelo que pertence
ao civil e criminal, está confiada na Vila Capital e seu termo a
um Juiz de Fora (lugar criado em 1811, como já disse); e nas outras
duas Vilas aos Juizes ordinários; destes e daqueles se apela ou
agrava para o Ouvidor da Capitania na Vila Capital, e na da Laguna: mas
na Vila do Rio de S. Francisco para o Ouvidor de Pernagoá. Dos dois
Ouvidores se apela para a Casa da Suplicação desta Corte.
Os mesmos Juizes servem nas Repartições dos órfãos,
defuntos, e ausentes nas respetivas Vilas, onde ha os competentes Escrivães,
Tabeliães, Advogados leigos, e Oficiais de justiça.
102. Em cada umas das Vilas ha umas Câmara, que tem a seu cargo a
administração municipal; e um Juízo de Almotaceria,
com os respetivos Escrivães, e mais Oficiais.
103. No que respeita á administração eclesiástica,
toda a Capitania é sujeita ao Bispo do Rio de Janeiro, o qual nomeia,
um Delegado seu em cada umas das Vilas, a que chamam Vigário da
Vara, e tem Escrivão, Meirinho, e mais Oficiais do Juízo
eclesiástico. Em toda a Capitania não ha Convento, nem Hospício
algum das Ordens regulares, quer de um, quer de outro sexo: dizem que houvera
outrora um Hospício dos Jesuítas na Vila Capital, cuja casa
serve hoje de residência do vigário da Matriz.
ARTIGO QUARTO
População.
105. Esta parte da Estatística de um país
é sobre maneira interessante, mas nem a Capitania de Santa Catarina,
nem outras muitas do brasil, fornecem os precisos elementos para se tratar
esta matéria com a exatidão e miudeza, que ela merece. Se
os cálculos da população são sempre incertos,
em razão das dificuldades que ha em a avaliar com precisão,
se isto mesmo acontece entre as nações mais ilustradas da
Europa, se muitas vezes observamos grandes diferenças nos cálculos
da população de umas nação, feitos por diversos
escritores, e até mesmo pelos homens que tem estado á testa
dos negócios públicos, alguns dos quais sendo Ministros de
Estado muito hábeis, eram ao mesmo tempo escritores mui sublimes,
se isto acontece, digo, a respeito da Inglaterra e da França, como
se vê nas obras publicadas antes e depois da revolução
(nt 1), com muito maior razão
se encontrarão inexatidões na avaliação da
população de umas Capitania do Brasil, onde este ramo da
Estatística (bem como outros) está ainda tão atrasado.
Umas prova desta verdade se encontra nos ridículos mapas de população.
que de algumas Capitanias se remetem anualmente ao Ministério, em
os quais apenas se faz menção do numero dos habitantes de
ambos os sexos, livres ou escravos; omitindo-se a proporção
da população com a extensão do território,
e a dos sexos, nascimentos, casamentos, óbitos, idades, filhos naturais,
e legítimos, com cada umas destas classes, e delas com a população
total; omite-se igualmente qual seja a relação desta com
os recrutamentos, e com cada umas das classes da nação, que
se empregam nas artes, nos ofícios, e noutros modos de vida; quais
sejam as causas físicas ou políticas da mortalidade prematura,
e da maior ou menor propagação, e quais seriam os meios que
deviam empregar-se para conservar a população existente,
e promover o seu aumento; e finalmente outros objetos relativos a esta
parte da Estatística tão interessante em todo e qualquer
país. Sem duvida ha motivos, que eu ignoro para se praticarem tais
omissões, porem quaisquer que eles sejam, não me persuado
que varões tão conspícuos e sábios, como são
os que hoje compõem o Ministério, olhem com indiferença
para objetos, que são de tanta transcendência nos Governos
políticos de todas as nações. Certamente eles não
ignoram o que é atualmente o Reino do Brasil, e o que ele poderá
vir a ser em poucos anos debaixo do Governo Paternal do nosso Bom Soberano;
não ignoram que o Brasil é um Estado nascente, que possui
hoje a Corte e a Sede da Monarquia, e por conseguinte não pode ser
já governado, como o era quando Colônia; sendo indubitável
que com a mudança de categoria política nasceu umas nova
ordem de coisas; não ignoram finalmente que o Brasil contêm
em si muitos e mui poderosos agentes da riqueza publica, mas que tem grande
falta de população, que é a verdadeira riqueza dos
Estados; porque segundo a frase de um grande Escritor moderno estrangeiro,
a população é o grande sintoma do grau de felicidade
de umas nação (nt 2);
e no sentir de outro nacional, que faz honra á nossa pátria,
tudo, falta aos Estados que tem falta de gente (nt
3).
Voltando porem ao assunto, a que dediquei este artigo, direi que a população
de todo e qualquer país é um efeito ou resultado necessário
de duas causas; e vem a Ser ou a do seu físico, ou a do seu moral:
pelo físico se entende em geral, a sua posição geográfica,
o clima, a qualidade do terreno, a fertilidade ou esterilidade do solo:
pelo moral se entende o caráter, educação, usos e
costumes dos povos; seu governo e legislação política
e civil, No que respeita á primeira causa, a Capitania de Santa
Catarina nenhum obstáculo oferece á conservação
e aumento da população, como bem se manifesta pelo que levo
dito; portanto resta examinar se ali existem obstáculos provenientes
da segunda causa.
106. Em 1810 a população existente na Capitania se campanha
de 30$339 indivíduos; a saber, 11$173 homens, e 12$507 mulheres,
brancos; 293 homens, e 358 mulheres de diferente cor, libertos: 4$633 homens,
e 2$b70 mulheres; escravos: o total desta população, comparada
com a extensão do território, dá 30 habitantes por
cada uma légua quadrada. Ora para se conhecer quanto esta população
pode aumentar, cumpre notar que ela somente habita a Ilha, e umas porção
da terra firme à beira mar em toda a extensão da costa, que
terá quando muito três léguas na direção
leste-oeste, isto é, umas superfície de 237 léguas
quadradas, porque todo o resto da Capitania para o interior é sertão
inculto, e despovoado, de maneira que neste estado abandonado se acham
ainda hoje 764 léguas quadradas! Naquela superfície povoada
o terreno, que não admite cultura por estar ocupado com povoações,
caminhos, águas estagnantes ou correntes, e outros obstáculos,
não é maior da. sua oitava parte (nt
1); logo restam 208 léguas quadradas, capazes de cultura: porem
estas não estão todas cultivadas, por que o uso geral dos
proprietários de terrenos no Brasil consiste em conservar grande
parte destes cobertos de matos; e posso afirmar sem exageração
que ainda em 1810 se conservava neste estado umas terça parte da
superfície povoada, ou 69 léguas quadradas; que diminuídas
das sobreditas 208, restam 139, que são realmente as que se cultivam
naquela Capitania. É pois esta extensão de terreno, que produz
não só o necessário sustento para toda a população,
mas até um grande excedente de subsistência, que se exporta;
e combinando a produção destas 139 léguas quadradas
no ano sobredito de 1810 (que não foi dos mais férteis) com
o consumo, que dela fez a população no mesmo ano, tiro em
resultado de cálculos aritméticos, que se todas as 208 léguas
capazes de cultura se fabricassem pelo mesmo mau sistema atual, e em identidade
de circunstancias, elas produziriam subsistências para umas população
de 64$249 indivíduos, o que é mais do duplo da população
existente em 1810: quero dizer, que sem cultivar mais terreno do que o
da indicada superfície atualmente povoada, a população
teria superabundante sustento, ainda que esta duplicasse. Idênticos
raciocínios e cálculos aplicados para com as 764 léguas
quadradas do sertão inculto dão em resultados, que elas produziriam
sustento para 206$647 indivíduos, numero - este, que somado com
aquele outro, que já mostrei que podia sustentar a superfície
povoada, faz um total de 270$896 almas de população possível
da Capitania, e comparada esta com a extensão do território
daria 270 indivíduos por cada umas légua quadrada : quero
dizer, que esta população possível seria 96 vezes
maior do que a existente (nt 2).
Se examino o andamento da população naquela Capitania, observo
que desde o ano de 1774 ele foi estacionário por alguns anos, retrogrado
em outros, e lentamente progressivo em muitos ; porem se o comparo periodicamente,
venho no conhecimento de que a população sim, tem aumentado
durante um período, mas que este aumento tem sempre diminuído
á medida que os períodos são mais vizinhos: por exemplo,
o total da população branca (nt
3) no ano sobredito era de 9$058 almas, em 1787 subiu a 16$177; em
1800 a 21$068; em 1813 (segundo consta) a 24$806: logo no primeiro período
dos 13 anos de 1774 a 1787 houve um aumento de população
de 7$119 indivíduos; no segundo, isto é, de 1787 a 1800,
aumentou de 4$831; e finalmente no terceiro período de 1800 até
1813 o aumento foi somente de 3$738. Logo, se a população
aumentasse todos os anos em proporção ao período,
não haveria estas grandes diferenças para menos nos outros:
qual será pois a sua causa? Não consta que desde 1774 até
1813 houvesse na Capitania de Santa Catarina peste, fome, guerra (não
merece este nome a invasão dos Espanhóis em 1777), doenças
epidêmicas, terremotos, ou a1gum outro flagelo extraordinário,
com que algumas vezes o Céu, segundo se explica Filangieri, castiga
as nações: por tanto houve outras causas, que deram lugar
àquelas diferenças; causas, que tem roubado á população
pelo menos 5$609 indivíduos desde 1774 até 1813, pois que
se a população branca aumentasse em cada um dos dois ultimas
períodos sobreditos na mesma proporção, em que aumentou
no primeiro, deveria haver em 1800 23$269 almas em toda a Capitania, e
30$4,15 no ano de 1813; porem neste ano dizem ser a população
branca de 24$806 indivíduos (4), logo ha umas diferença de
5$609 para menos. Restava-me agora examinar quantos destes indivíduos
pertenceriam a cada sexo, quantos deles se teriam casado, quantos teriam
sido os nascimentos resultantes destes casamentos, e quantos dos nascidos
teriam falecido (5), a fim de poder mostrar com mais clareza, que o indicado
roubo feito ã população não se, limitava somente
àquele numero de almas que deixo mencionado, mas sim que ele chegaria
a outro muito maior, porem não foi possível obter os dados
necessários para entrar em semelhante exame. Fica portanto evidente
que na Capitania de Santa Catarina tem existido, e ainda existem, obstáculos
á conservação e aumento da sua população
provenientes da segunda causa já referida, isto é, do seu
moral, e não do seu físico; obstáculos de que tratarei
na terceira parte desta Memória, bem como indicarei os meios de
remover, senão todos, ao menos alguns.
107. Suposto seja diminuta a população desta Capitania, com
tudo ha outras no Brasil menos povoadas relativamente á extensão
do território; por quanto a de S. Paulo, que tem de superfície
40$000 léguas quadradas, mais ou menos (nt
1), apenas contêm hoje 200$408 habitantes (nt
2), ou 5 por cada légua dita. Goiás, que dizem ter 57$600
de superfície (nt 3), não
excede a sua 1/13 população a 50$365 indivíduos (nt
4), ou 1 por uma e 1/13 léguas. Mato Grosso, tendo quase 48$000
de superfície (nt 5), apenas
conta pouco mais de 18$000 habitantes (nt
6), isto é, um por 2 2/5 léguas. Porem comparando-se
a população de Santa Catarina com a de Portugal, que é
o Reino menos povoado da Europa, conhece-se que a Capitania é 31
vezes menos povoada que o Reino; por que este em 1801 tinha 2:292$000 almas,
ou 930 por légua quadrada (nt
7), quando aquela tem apenas 30. Se a Capitania fora povoada na proporção
de Portugal, ela conteria 941$860 habitantes, população esta,
que se aproxima á da Província do Minho, no referido ano,
que somente tem de superfície 250 léguas ditas (nt
8).
108. Concluo este artigo fazendo de passagem umas breve nota, que me parece
necessária e digna de atenção, e consiste esta em
mostrar a relação que ha entre a população
livre e a cativa nesta Capitania; que vem a ser de três e três
décimos para um, isto é, que a segunda é pouco menos
da terça parte da primeira: circunstancia esta mui vantajosa, e
que não se dá em algumas das outras Capitanias do Brasil:
por exemplo, na do Espírito Santo, onde a população
total é de 24$000 almas, são livres 11$900, e cativos 12$100,
ou maior numero deste que daqueles: Goiás tem 20$027 cativos, e
30$338 livres, isto é, o numero daqueles é igual 2/3 do numero
destes. S. Paulo tem 45$382 cativos, e 155$026 livres, isto é, aqueles
fazem quase 1/3 do numero destes.
ARTIGO QUINTO
Produções dos três Reinos
da Natureza.
110. A Natureza se esmerou em liberalizar com a Capitania
de Santa Catarina não só um excelente clima, mas também
um solo fertilíssimo, porem não sei por que fatalidade estas
suas preciosas dadivas tem sido ha tantos anos desprezadas por aqueles,
a quem cumpria aproveita-las devidamente em utilidade de seus habitantes
e do Estado. Nenhuma outra Capitania do Brasil é tão fértil
como esta, tanto em substancias que dependem de cultura, como naquelas
que a terra espontaneamente cria e nutre, produzindo assim não só
todas aquelas, que se dão nas outras, Capitanias (á excepção,
do Pará) mas muitas outras, que elas não produzem, mormente
no Reino vegetal, como vou referir.
111. Das sementes cereais, como o trigo, e milho de todas as qualidades,
a cevada, o centeio, a produção é abundantíssima,
e muito mais das leguminosas, como são o feijão, a fava,
ervilha, e outras. É extrema a produção da mandioca,
que constitui a base principal do sustento de quase todos os habitantes.
A cana do açúcar, o café, o algodão, o tabaco,
são vulgares e abundantes em toda a Capitania: o anil é copiosissimo,
e a terra inutilmente o reproduz todos os anos, sendo geralmente desprezada
esta planta, que tantos interesses podia dar! Os linhos, galego donzelo
e cânhamo; a batata, o amendoim, as cebolas, e os alhos são
vegetais da maior produção. As plantas odoríferas
tais, como a alfazema, o alecrim, o jasmineiro, a roseira, manjericão,
os craveiros, e outras aí se dão muito bem: as hortenses,
como o repolho, couves de diferentes espécies, a alface, a chicória,
o nabo, o rabão, o pepino, a mostarda, a cenoura, o tomate, o aipo,
a hortelã, a salsa, o coentro, abóboras, carneira menina
e outras ; o melão, a melancia, o morango, aí vem bem, e
se criam perfeitamente. As arvores frutíferas, como a laranjeira,
o limoeiro, o pessegueiro, o damasqueiro, o marmeleiro, a figueira, são
vulgares, e dão saborosos frutos; e a hoje ha algumas pereiras,
ameixieiras, e ginjeiras, que mui bem se criam, e produzem. E que direi
das excelentes madeiras, de que tão abundante é a Capitania!
112. Reino animal também é mui rico, e seria mais interessante,
se se empregasse mais industria com as diferentes substancias que ele fornece:
com tudo a falta de pastos naturais, e o desmazelo em os fazer artificiais
são causas de não haver mais abundância de gado vacum,
cavalar, e lanígero, emprego mui fácil, e para o qual a Capitania
tem muitos e bem apropriados terrenos.
113. Parece que o Reino mineral neste país é o mais. pobre,
talvez por que grande numero de suas produções estando ocultas
na terra exige conhecimentos científicos para se descobrirem, e
analisarem ; sendo certo que até hoje ainda não se mandou
sábio algum a esta Capitania para fazer ali indagações
mineralógicas, medida esta, que é de toda a necessidade,
tanto neste ramo, como em outros da Historia Natural. Todavia posso afirmar
que ha em diferentes lugares do terreno povoado cristal de roca, nitreiras,
pedra calcaria, almagre, e argilas de diferentes cores e qualidades. E
quem sabe o que haverá no sertão inculto e despovoado? Em
conclusão para nada faltar a esta Capitania, até possui nas
vizinhanças do rio Tajáhi o mais precioso dos metais, o ouro,
e noutros lugares o mais necessário de todos, isto é, o ferro:
relativamente a este metal, que na frase de um judicioso Escritor moderno
(nt 1) é o instrumento mais
poderoso da industria humana, são da primeira necessidade as indagações
científicas, pois conhecendo-se pela analise que dele se fizer,
se a sua qualidade é boa, lucraria mais o Estado em explorar as
minas em Santa Catarina do que em S. Paulo, em razão da brevidade
da condução para os lugares da beira-mar. Para não
fazer mais extensa a narração das produções
desta Capitania, ajunto umas tabela notada com a letra A, em que vão
mencionadas todas aquelas, que chegarão ao meu conhecimento, durante
os anos que ali residi ; incluindo as madeiras, de muitas das quais também
se podem extrair excelentes tintas, gomas, resinas, óleos para diversos
usos; bem como as diversas qualidades de peixe saborosíssimo, que
se pesca nas vizinhanças da costa do mar.
ARTIGO SEXTO
Agricultura, Industria, Comércio.
115. Não examinarei neste artigo se a agricultura
é a mais solida base da riqueza de um país; nem se a industria
manufatureira e o comércio simultaneamente com ela formão
aquela riqueza, ou se esta pode derivar de cada um destes agentes per si
somente. Alheias desta Memória são por certo tais matérias,
sobre as quais tanto se tem escrito em Inglaterra, na Itália, e
na França desde o reinado de Luiz XIV (nt
1); porem a maior parte destas teorias parece-me mais engenhosa que
solida, pois que nem as doutrinas do Doutor Quesnay e dos outros Fisiocratas,
nem as dos escritores de Economia Política seus adversários
eu julgo aplicáveis a todas, as Nações, em todos os
climas, e localidades. Fazendo pois abstração de tais doutrinas,
limitar-me-ei somente a tratar do estado atual da agricultura, industria,
e comércio da Capitania de Santa Catarina: na terceira parte desta
Memória tratarei de algumas das causas do seu atraso.
A massa total das produções, que por meio da agricultura,
se poderia tirar do terreno da Capitania, seria imensa, e de um extremo
valor, se a esta vantagem ou vantagens não tivesse servido de obstáculo
um mau sistema de administração desde o ano de 1753; ou para
melhor dizer desde a sua colonização; e ainda assim mesmo
a agricultura tem tido um progressivo aumento, porem vagaroso, e este mesmo
aumento se deve quase tudo á natureza, bem pouco á arte,
e nada á administração (nt
2).
116. Passando porem a tratar da cultura das terras nesta Capitania, direi
que é semelhante á que se pratica em todo o Brasil: as primeiras
sementeiras são feitas nas cinzas dos matos queimados, e produzem
muito, porem as seguintes produzem menos; as terras são preparadas
com a enxada; com esta se fazem covas pouco profundas, onde se lançam
as sementes, que depois se cobrem com pouca terra, que o semeador empurra
com o pé, de maneira que não se usa do arado, nem de outros
instrumentos de lavoura, de que se faz uso em Portugal. A debulha e a colheita
dos cereais e dos legumes, geralmente falando, é pouco perfeita
; naquela usam mais do mangual que dos gados; nesta não sacodem
nem joeiram bem o grão; e o ensacam, com grande quantidade de casulos,
e de pragana: na preparação da farinha de mandioca também
ha pouca perfeição, do que resulta ordinariamente ser grossa,
e pouco torrada; e o mesmo se observa na preparação do arroz,
que todo é descascado á força de trabalho braçal.
No que respeita ao açúcar, também no país não
o preparam bem, é pouco batido, e mal barreado, e por isso umedece
facilmente; fabrica-se pouco, e pela maior parte reduzem o sumo da cana
a aguardente, que em geral é boa, e tem exportação:
não ha na Capitania engenhos, mas sim pequenas engenhocas.
117. A agricultura tem um grande obstáculo nesta Capitania, o qual
consiste na falta de fazendas de criação de gado vacum, cavalar,
e lanígero; o que é devido ao desmazelo ou ignorância
daqueles, a quem cumpre prover e vigiar sobre tais objetos de administração
publica. Semelhante falta em um país, que até 1808 era puramente
agrícola, é na verdade bem notável! A consequencia
dela é, que todos os lavradores vão ou mandão comprar
os seus gados á Capitania do Rio Grande, não só os
que são necessários para os trabalhos da lavoura, mas até
os que são precisos para o sustento dos. habitantes, pois que todo
o gado, que se mata e corta nos açougues, se vai comprar á
referida Capitania (nt 1). Com tudo
os lavradores conservam sempre algumas rezes para os seus serviços
e trabalhos campestres, e da propagação destas rezes desatinam
as que podem dispensar para as vender aos navegantes, que aportam na Ilha
de Santa Catarina.
118. Por esta breve exposição do estado da agricultura da
Capitania se conhece quanto ela é apoucada e imperfeita, por tanto
exige esta toda a atenção e zelo da parte daqueles, que estão
á testa dos negócios públicos; sendo aliás
certo que sem agricultura não podem haver artes, nem comércio
(nt 1): máxima esta, que é
geralmente aplicável a todos os países, quaisquer que sejam
as teorias dos escritores modernos de Economia Política.
119. Todas as nações da Europa seguem com as suas Colônias
o sistema de lhes proibir o estabelecimento de fabricas e artes da primeira
ordem, que servem para fornecer os principais objetos de comércio;
sistema que Portugal também seguiu até ao ano de 1808; mas
não era possível proibir duas qualidades de industria, sem
as quais as Colônias nunca sairiam do Estado de infância, e
cujos resultados com o tempo viriam a ser fatais ás Metrópoles.
A primeira é aquela, de que depende a conservação
e o melhoramento dos diferentes ramos da agricultura própria do
país, como são a preparação de muitas produções
que lhe são inerentes, por que a terra produz matérias brutas,
ás quais é indispensável dar a conveniente forma,
segundo o uso que delas se pode e deve fazer, aliás de pouco serviria
a sua cultura: a segunda é aquela industria, que se exercita nas
artes e ofícios da primeira necessidade, tão indispensáveis,
que nenhuma sociedade política pode existir sem eles; tais são
por exemplo os ofícios de pedreiro, carpinteiro, alfaiate, sapateiro,
e outros. Por tanto estas duas qualidades de industria também haviam
de exercitar-se na Capitania de Santa Catarina, ainda que em grau medíocre
e pouco perfeito; mas também ali existem outras de que se tira algum
proveito, e mais se tirará pelo decurso dos tempos, umas vez que
findou o indicado sistema político em consequencia da vinda da Corte
para o Brasil, e que o Soberano tem permitido o estabelecimento de fabricas,
de manufaturas, e o livre exercício de toda e qualquer industria.
120. O algodão, suposto esteja ainda atrasada a sua cultura e amanhos
nesta Capitania, é umas das suas produções, em que
os habitantes exercitam bastante industria: tiram-lhe o caroço,
e o batem, e fiam á força de trabalho manual, e sem que empreguem
máquina alguma das que são próprias para tais fins;
dele fazem panos finos e grossos para diferentes usos, tecidos com o linho,
de que também usam, ou separadamente e sem mistura. eu vi mui boas
murcelinas, acolchoados, colchas para camas, e roupa de mêsa, tudo
fabricado no país ; e alem disso alguns tecidos de algodão
cor de ganga, que o terreno também ali produz, se bem que em menor
quantidade. Faz-se ali pouco uso do anil, do qual extraem a cor por meio
de fervura promovida pelo fogo, tingem o fio de algodão, e fabricam
panos com listas azuis para vestuário, de que se vestem os pobres
e os escravos.
121. Do gravatá, arbusto que a terra produz em abundância
e sem dependência de cultura, extraem os habitantes daquela Capitania
por meio da fermentação e maceração umas fibra
rija e flexível, com a qual fazem cordas para diversos usos, mormente
empregando-as no trabalho das embarcações, e redes de pescaria;
e tecido fazem dele velame e sacaria.
Da casca de um arbusto, a que no país chamam estopa-pau, extraem
os habitantes umas certa estopa, de que se servem para calafetar as embarcações;
e a experiência tem mostrado ser mui própria para as obras
que devem estar debaixo d'água.
122. A indústria relativamente ao linho canhamo é nula; e
produzindo esta semente em muita abundância, desgraçadamente
não a semeiam os habitantes. De balde tem o Ministério em
diversas épocas tentado promover a sua cultura, porem não
tem posto em prática os meios necessários para este fim;
tem-se dado sim a semente aos lavradores, e tem-se-lhes oferecido pagar
o linho cânhamo depois de preparado por 3$200 reis cada umas arroba;
porem como os linhos, donzela e galego, geralmente se vendem no país
por 4$960, não querem os lavradores cultivar o cânhamo, que
lhes dá menor interesse, e por isso de propósito inutilizam
esta semente, fervendo-a em água antes de a deitarem á terra,
para fazerem persuadir que não é análoga ao terreno!
Pode o Ministério estar certo de que se não tomar outras
medidas, nunca obterá linho cânhamo de Santa Catarina e do
Rio Grande, porem Se tomar medidas discretas, obterá de ambas estas
Capitanias não só o necessário para consumo da nossa
Marinha, mas até para vender aos particulares e aos estrangeiros:
já (em outro tempo) houve bastante linho cânhamo em Santa
Catarina, e até já ali se fabricaram viradores, amarretas,
e outros cabos; e se então se tivesse premiado quem os fabricou,
talvez houvesse quem o imitasse nesta industria.
123. No Vice-Reinado do Marquês de Lavradio, e no de seu sucessor
Luiz de Vasconcelos e Souza, foi muito animada em Santa Catarina a propagação
da cochinilha, e a industria resultante deste importante inseto; hoje porem
não ha nem industria, nem inseto algum desta espécie em toda
a Capitania: a causa de se desprezar este tão interessante ramo
de industria é a mesma, por que se tem abandonado outros.
124. Aos sobreditos dois beneméritos Vice-Reis deve a Capitania
a plantação do café, e mormente ao segundo, que neste
e outros objetos de utilidade publica foi coadjuvado pelo incansável
e zeloso governador José Pereira Pinto, cujo governo durou desde
7 de Junho de 1786 até 17 de Janeiro de 1791. período este,
em que se fizeram na Capitania muitas coisas úteis, e em que assaz
se promoveu a agricultura e industria: a Capitania produz hoje muito e
bom café, mas a sua cultura e amanhos ainda estão muito atrasados.
Pelo que respeita ás arvores frutíferas ha hoje alguma industria,
mormente para com as de espinho e caroço, pois se vai adotando a
operação da enxertia ; e por isso em algumas chácaras
de particulares ha belíssimas frutas : também já se
encontrão nas mesmas, flores de diferentes espécies, e diversas
hortaliças, que não são inferiores ás de Portugal.
Não ha porem industria alguma á cerca dos frutos oleosos,
tais como a azeitona, o amendoim, o mamão, e outros, os quais são
totalmente desprezados, podendo aliás utilizarem-se extraindo deles
muito azeite, ao menos para os usos domésticos.
125. Pelo que pertence ao Reino animal os diferentes entes e substancias,
que ele fornece próprios para deles se fazer uso, constituem objeto
de pequena industria; todavia preparam-se sofrivelmente os couros em cabelo
e curtidos, e os sebos, tanto para o consumo do país, como para
a sua exportação: fazem-se bons queijos, e excelente manteiga,
e seriam muito interessantes estes dois produtos da industria rural, se
houvessem na Capitania criações de gado vacum; bem como se
houvesse de lanígero, se poderiam fabricar lanifícios, ao
menos para os usos domésticos. Na Vila da Laguna prepara-se muito
bem o peixe seco, e nisto consiste a maior industria dos seus habitantes,
os quais também se dedicam muito á cultura e preparação
dos linhos. Também os habitantes da Vila do rio de S. Francisco
tem umas industria peculiar, e consiste esta na fabricação
das betas de embé, e de embira, que tem diferentes usos na Capitania,
e também fora dela. A pesca das Baleias, e a extração
do azeite destes cetáceos é outro ramo de industria dos habitantes
desta Capitania, e sem duvida aquele que maiores interesses tem dado ao
Estado; porem acha-se hoje em grande decadência, e cedo o veremos
totalmente extinto, se quanto antes não se tomarem as convenientes
medidas: ao diante falarei neste importante assumpto.
126. A industria é apoucada no que respeita aos produtos do Reino
mineral ; com tudo fabrica-se sofrível loiça de diversas
qualidades de barro, muita da qual se exporta; bem como boa telha e tijolo.
Das terras argi1losas extraem os habitantes tintas de diversas cores, de
que se servem para pintar o interior de suas casas; e algumas destas cores,
tais como o branco, o amarelo, e o vermelho, são finas e duráveis.
Ha vários outros produtos dos três Reinos da natureza, em
que os povos exercitam alguma industria segundo os usos que deles fazem,
o que me parece inútil mencionar por ser coisa de pouca monta.
127. Passando a tratar do comércio desta Capitania direi em primeiro
lugar que seguindo as regras da Estatística eu deveria apresentar
agora umas tabela, em que se incluíssem todos os gêneros e
manufaturas, que se exportam e importam no país com os seus respetivos
valores parciais e totais; deveria comparar os valores da importação
com os da exportação, e mostrar se aquela é igual,
menor, ou maior do que esta, a fim de melhor se conhecer se o comércio
é vantajoso ou prejudicial á Capitania (nt
1); mas não podendo obter relação ou mapa das
importações, nem sendo ali costume remete-lo o Governo ao
Ministério, apenas posso apresentar o mapa que se lhe remeteu pertencente
ao ano de 1810, que somente contêm (segundo a pratica) a produção,
consumo, e exportação daquele ano: vai notado com a letra
B (N. 2). Por este mapa se vê que o valor
aproximado da massa total da produção foi de 401$937 cruzados,
e o da exportação de 188$257; o que claramente manifesta
quão pouco a Capitania produziu, e exportou relativamente á
fertilidade do seu solo, á sua total extensão, e até
mesmo, ás 139 léguas quadradas que somente se cultivam. As
importações consistem em todas as manufaturas de lã,
de linho, de algodão, e de seda; chá, cera em velas, e açúcar
refinado; ferragens, enxadas, machados, e outras obras de ferro, e até
este em barra; toda a qualidade de obra de ouro, prata, cobre, e outros
metais, drogas, e especiarias, e finalmente escravatura; o que tudo vai
desta Corte do Rio de Janeiro, com quem a Capitania faz quase todo o seu
comércio, e o resto com o Rio Grande, para onde somente exporta
farinha de mandioca, e aguardente, e donde apenas importa os gados, e o
charque : é de notar que a importância dos fretes é
a favor da praça desta Corte, pois a ela pertencem todas as embarcações
que transportam os gêneros, tanto de exportação como
de importação, por que hoje não ha umas única,
que pertença a proprietário de Santa Catarina.
128. Seja-me permitido fazer agora umas comparação ; e seja
esta entre toda a exportação da Capitania de Santa Catarina
com a de umas das pequenas Ilhas do Arquipélago do México,
por exemplo a Martinica. Esta Ilha segundo os melhores Geógrafos
tem 16 léguas de comprimento, e 8 de largura, ou 128 de superfície.
Por cálculos exatos feitos pelos Economista, e Franceses a Martinica
no ano de 1769, que não foi o da sua maior colheita, exportou para
a Europa em café, açúcar, anil, algodão, e
cacau, quantidades tais, que se venderam na mesma ilha, por „cinco milhões
e quinhentos mil cruzados" dinheiro de Portugal, depois de feita a redução!
É verdade que a Martinica exportou aqueles gêneros para a
Europa, onde eles tem o maior valor, e por isso também na Ilha se
vendem a maior preço; mas suponho agora que a exportação
de Santa Catarina. no armo de 1810 também se fazia para a Europa,
e que nos seus mercados todos os gêneros deram um lucro de quinhentos
por cento (o que não seria verosímil); eis pois que o valor
da exportação na Europa não excederia de 941$285 cruzados,
soma que é pouco maior da sexta parte daquela, a que subiu a exportação
da Martinica, vendidos ali mesmo os seus gêneros ; isto é,
fazendo abstração dos lucros que eles produziriam vendidos
na Europa. Cumpre notar que a Martinica ainda no sobredito ano de 1769
tinha muitas terrenos incultos, assim como tem outros que não admitem
cultura alguma, e por tanto a superfície do terreno cultivado é
muito menor do que a superfície de 139 léguas, que se cultivam
na Capitania de Santa Catarina: alem disso a Martinica não goza
de melhor clima, nem de um solo mais fértil do que aquela Capitania.
A comparação que acabo de fazer, me dava motivo para produzir
muitas reflexões tendentes a mostrar os grandes interesses que se
podem tirar da Capitania de Santa Catarina; porem receio exceder os limites
de um escrito desta natureza, e por tanto concluo dizendo que assim como
os Franceses souberam tirar tanto partido da Martinica, também nós
o poderemos tirar ainda maior de Santa Catarina, umas vez que para este
fim se tomem medidas acertadas.
ARTIGO SETIMO
Finanças.
130. Depois que es Vice-Reis do Brasil passaram a
residir nesta Cidade do rio de Janeiro, o Governador e mais autoridades
da Capitania de Santa Catarina ficaram-lhes subordinados em tudo, e igualmente
o ficarão á Junta da Fazenda e ás Repartições
fiscais : todas as arrematações das rendas do Estado eram
feitas perante aquela Junta, e a mesma recebia todos os rendimentos da
Capitania, e as poucas que ali se cobravam, remetiam-se para esta Cidade
á mesma Junta, a qual por omissão sua ou dos Vice-Reis, ou
talvez por um zelo mal entendido destes e daquela, nunca mandava em tempo,
nem por inteiro, para a Capitania as somas precisas para as suas despesas;
sistema bárbaro, que deu ocasião a umas divida enorme da
Fazenda Real, com indizível prejuízo da agricultura, e sacrifício
de numerosas pessoas e famílias, que por aquele motivo ficaram reduzidas
á miséria e indigência. Houveram anos sucessivos, em
que até não se pagaram os soldos aos Oficiais e soldados
do Regimento de Linha da guarnição da Capitania, em alguns
se lhes pagaram pela metade, noutros pela terça parte, e por muitos
deixaram de se lhes dar os fardamentos e fardetas: aos lavradores não
se pagavam as farinhas que se lhes tomavam com violência para municiamento
do mesmo Regimento, e outros muitos gêneros, que por conta da Fazenda
Real se lhes compravam; e como não havia ainda comércio suficiente
para suprir esta falta de circulação interna do numerário,
a pobreza se fez transcendente a muitas classes dos habitantes, como sempre
acontece em todo o país, onde o dinheiro não gira (nt
1): são fatos estes, que ninguém ignora em Santa Catarina,
e ainda hoje ali existem muitas pessoas que foram vitimas desta miséria
publica; que unicamente se deveu àquele péssimo sistema de
administração (nt 2).
Este estado de coisas só melhorou durante o Vice-Reinado do Ex.mo
D. Fernando José de Portugal, hoje Marquês de Aguiar, em que
se estabeleceu umas consignação anual de vinte e quatro contos
de reis para satisfazer as despesas do Regimento de Linha, e outras da
folha militar, e começou a liquidar-se e a pagar-se a divida atrasada
da Fazenda Real, mediante a Junta da Revisão que se estabeleceu
nesta Cidade, em consequencia muitos dos credores do Estado, tanto lavradores,
como comerciantes, e militares cobraram o que se lhes devia, e por isso
principiou a girar mais dinheiro na Capitania, e a prosperar a fortuna
de varias classes dos habitantes.
131. Vai anexa a esta Memória a tabela da
receita e despesa da Capitania, do ano de 1810, notada com a letra
C. Deve advertir-se que nesta tabela não se faz menção
do rendimento do azeite das Baleias, cuja pesca está ha anos administrada
pela Fazenda Real, porque todo o azeite se remete para esta Corte, onde
se vende tanto para consumo interior, como para exportação,
e todo o produto da venda entra para o Real Erário, quando aliás
deveria entrar nos cofres da Capitania, como ao diante direi. Cumpre também
notar que na sobredita tabela não se inclui o ordenado do Governador,
que são cinco mil cruzados por ano, nem o soldo da sua patente militar,
porque ambas estas adições são pagas nesta Corte,
assim como também o São os soldos de alguns Oficiais que
servem naquela Capitania (nt 1).
ARTIGO OITAVO.
Força Militar.
134. A força militar movente desta Capitania
consiste em um Regimento de Infantaria de Linha, disciplinado também
na arma de artilharia, e organizado segundo o regulamento de 1763. É
esta a única tropa paga, que desde muitos anos tem guarnecido toda
a Capitania; e por varias vezes tem ido guarnecer, e também defender
a do Rio Grande, onde hoje se acha, e para onde marchou em 1811. Ha também
em Santa Catarina dois Regimentos de Infantaria de Milícias, um
na Ilha, outro na terra firme, organizados segundo o plano de 1796; e mais
nove Companhias da mesma Arma, francas, e quatorze Companhias de cavalaria,
espalhadas aquelas e estas pelas diferentes Freguesias da Capitania. Estes
corpos mal regulados, e mal disciplinados, e fora de toda a proporção
relativa á população, e por isso mui prejudiciais
á agricultura, estavam faltos de armamentos até 1814. Apesar
de tudo isto, desde que o Regimento de Linha marchou para o Rio Grande,
entraram os pobres milicianos em todo o serviço diário que
ele fazia, sem excetuar mesmo os destacamentos para guarnecer as fortalezas,
que primeiramente se faziam por tempo de trinta dias, e depois se reduziu
a quinze; do que tem resultado a eles e suas famílias graves prejuízos,
e á agricultura males, que são superiores a toda a expressão,
e que não puderam remediar-se em poucos anos: é da primeira
necessidade aliviar a Capitania, isto é, os povos, deste terrível
flagelo, que tem sofrido ha cinco anos, e que nunca tinham suportado; assim
como é necessário dar melhor organização aos
sobreditos corpos, a fim de que os habitantes possam para o futuro empregar-se
livremente na cultura das terras. Deste objeto que eu considero de grande
importância, tratarei na terceira parte desta Memória.
135. A força permanente, isto é, as fortificações
que ha em diferentes lugares desta Capitania, são tais ou acham-se
em tal estado, que devem antes considerar-se como nulas, e por isso não
tratarei delas, pois em rigor tal matéria pertence antes á
defesa militar da Capitania, objeto de que não me propus a tratar
nesta Memória. Com tudo ao diante tocarei neste assumpto de passagem
para mostrar a necessidade de se abrirem comunicações internas
no sertão da Capitania, mediante as quais se possam receber socorros
pelo interior do país, no caso de umas guerra, ou ataque inesperado;
a fim de que não aconteça outra vez o que aconteceu á
tropa que defendia a Ilha de Santa Catarina, quando os Espanhóis
a atacaram em Fevereiro de 1777.
136. Alem dos mencionados Regimentos e Companhias francas de milícias,
ha em cada umas das três Vilas da Capitania um corpo de ordenanças
na conformidade do Regimento de 10 de Dezembro de 1570; porem estes corpos
também estão muito faltos de gente, porque indevidamente
e contra a lei estão alistados nos corpos milicianos muitos indivíduos
que se deviam alistar nas ordenanças; não faltão porem
nestas Oficiais, pois até há alguns agregados, o que também
é contrario á lei.
ARTIGO NONO
Educação publica, caráter
e costumes dos habitantes.
138. É sobremaneira apoucada a educação
publica nesta Capitania: nela não ha sociedade alguma literária,
não ha colégios, nem seminários; apenas um Professor
Régio de Gramática Latina na Vila Capital. e algumas escolas
de primeiras letras são os únicos meios de instrução
que couberam em partilha a estes desgraçados povos, que pela maior
parte fora das Vilas não sabem ler, nem escrever. Com tudo ha na
Capital muitas pessoas que tem instrução (que elas não
adquiriram no país), sendo certo que os homens ricos que querem
dar melhor educação a seus filhos os mandão para esta
Corte; porem aqueles que não tem posses para fazer as despesas necessárias
a este fim; também não tem a satisfação de
que os filhos saibam mais do que o que podem aprender dos tristes mestres
que ha na Capitania. Qual será pois a aplicação que
se terá feito do tributo que pagão estes povos ha tantos
anos, denominado subsidio literário? (nt
1)
139. A população branca da Capitania deve considerar-se composta
de três classes de indivíduos: a primeira dos descendentes
dos primitivos habitantes desta Capitania, que para ali foram estabelecer-se
antes da colonização, oriundos das diferentes Vilas e lugares
da Capitania de S. Vicente, aos quais em Santa Catarina chamam paisanos:
a segunda dos descendentes dos colonos, que foram das Ilhas dos Açores
desde 1748 até 1753: e a terceira finalmente se compõe dos
descendentes dos indivíduos, que de Portugal e de diferentes partes
do Brasil foram para Santa Catarina em diversas épocas por vários
motivos. É evidente que o caráter usos e costumes dos ascendentes,
no todo ou em parte, se haviam de transmitir aos descendentes de cada umas
destas classes; por tanto observam-se nestes povos usos, inclinações,
e modos de vida mui diferentes (com as devidas excepções);
e fazendo agora abstração dos defeitos que são inerentes
á espécie humana, de clima, de Governo, de legislação,
e de outras causas tanto físicas como políticas, que tem
uma influência direta e poderosa sobre o caráter, usos, e
costumes dos povos, o que em geral posso dizer dos habitantes desta Capitania
é, que eles são mui fieis ao seu Soberano, muito inclinados
a todos os atos da nossa Religião, tanto públicos como particulares,
ás festividades da Igreja, e ás procissões, e principalmente
ás festas do Espírito Santo, o que tudo vi fazer em Santa
Catarina não são só com decência, mas até
com grandeza. Igualmente se fazem ali com sumptuosidade mui superior á
riqueza e á civilização do país os batizados,
os casamentos, e sobre tudo os funerais. A moral, que eu chamarei publica,
é boa, e por isso os povos tomam grande afeição e
respeito aos homens que se conduzem bem, e não deixam de censurar
com severidade os que se portão mal: são caritativos e hospitaleiros,
recebem com franqueza e tratam com sinceridade os que vão de fora
para o país: são pacíficos, obedientes ás Autoridades,
laboriosos, robustos, industriosos, e resolutos; inclinados á caça.
á pesca, á musica, á cantoria, e ás danças.
140. As mulheres são em geral agradáveis em suas maneiras;
observam cuidadosamente os seus deveres domésticos; são prendadas,
industriosas, e fecundas: as mais nobres, ou as mais polidas e civilizadas
são dotadas de muita urbanidade, de maneiras dóceis, e meigas;
são inclinadas aos divertimentos; sabem cantar, tocar algum instrumento
de cordas, e dançar, e não se observa nelas aquela bizonhice,
que se encontra nas mulheres de outras Capitanias do Brasil. (nt
1)
141. A classe dos habitantes de cor é geralmente inclinada a toda
a qualidade de industria, e aos ofícios mecânicos: os mulatos
são dotados de muita habilidade e viveza, qualidades geralmente
inerentes a esta casta de gente, em consequencia do cruzamento das raças
de que procedem.
Dos escravos pouco se pode dizer; porque a sua desgraçada condição
os inibe do gozo dos direitos sociais, e por conseguinte do que deles se
deriva: são aptos para toda a qualidade de trabalho braçal
e maquinal, e também se encontrão alguns com habilidade para
os ofícios mecânicos, mormente os crioulos.
PARTE TERCEIRA.
Importância, e melhoramento da Capitania.
143. Do que acabo de expor na segunda parte desta
Memória evidentemente se colige: 1o a importância
da Capitania de Santa Catarina: 2o o seu estado de atrasamento.
3o a sua susceptibilidade em matéria de melhoramento.
Cumpre-me pois agora tratar do modo porque ele deve promover-se, indicando
algumas medidas administrativas que considero da maior necessidade; farei
igualmente algumas reflexões, para que em maior grau de clareza
se veja e mostre a sua importância considerada politicamente debaixo
de relações tanto internas como externas; e da mesma sorte
demonstrarei o muito que dela dependem debaixo das mesmas relações
as duas Capitanias limítrofes; o que passo a fazer em resumo.
ARTIGO PRIMEIRO.
Importância política.
145. A Capitania de Santa Catarina está em
umas posição geográfica assaz vantajosa para servir
de escala á navegação da Europa, e da América
setentrional para a Ásia, África, Rio da Prata, e mar Pacifico,
debaixo deste ponto de vista o seu porto principal é excelente,
pois que nele podem abrigar-se e reparar-se tanto os navios de comércio,
como os de guerra, e proverem-se ali de mantimentos, e do mais que precisarem
por preços mais baixos do que na Baía, ou nesta Capital.
Goza alem destas vantagens de um belo clima, e fértil solo ; contêm
mil léguas quadradas de superfície; é abundantíssima
das produções dos dois Reinos, vegetal e animal, e contêm
as duas mais essenciais e preciosas do Reino mineral, isto é, o
ouro e o ferro; é habitada por homens laboriosos e robustos, dados
á agricultura e á industria: por tanto pode dizer-se que
aquela Capitania possui os principais elementos da riqueza e prosperidade
de qualquer país. Se mediante umas bem entendida administração
de todas aquelas vantagens se quiser tirar partido para dar princípio
aos melhoramentos que admite a Capitania, como por exemplo, povoar e cultivar
todo ou parte do sertão, abrir comunicações inferiores
por ele, continua-las até às Capitanias limítrofes;
animar por outros muitos modos o aumento da população, da
agricultura, da industria, e do comércio; melhorar a educação
publica, aumentar as rendas do Estado, e bem assim tomar outras muitas
medidas discretas, e necessárias para o indicado fim, sem duvida
que dentro em poucos anos aumentará extraordinariamente a riqueza
desta Capitania, e por conseguinte a sua importância política.
146. Pelo que respeita ás comunicações interiores,
observarei aqui de passagem que a mais útil e necessária
é aquela, que se deverá abrir pelo sertão para comunicar
a beira-mar desta Capitania com a parte mais meridional da Capitania de
S. Paulo. Sobre a estrada geral, que vai da Cidade deste nome até
ao Rio Grande, está situada a Vila das Lages, quase na mesma latitude
da ponta do sul da Ilha de Santa Catarina, e na distancia desta de 24 léguas
em linha reta, mais ou menos: por tanto abrindo-se umas estrada desde o
estreito, que separa a sobredita Ilha da terra firme, até á
indicada Vila das Lages (como já houve) resultarão desta
comunicação utilidades assaz manifestas; pois por meio dela
se promoverá e facilitará a povoação e cultura
dos férteis e incultos territórios, que formão a parte
setentrional da Capitania do Rio Grande, e a meridional da de S. Paulo.
(nt 1), e também a parte central
da de Santa Catarina; de maneira que as três Capitanias são
interessadas nesta comunicação, que necessariamente deverá
aumentar a riqueza e prosperidade de todas elas. A posição
da Vila das Lages é mui vantajosa para ali se estabelecer um deposito
do comércio interno dos indicados territórios, pois que os
seus habitantes não tendo portos de mar cômodos e frenquentados
senão a uma distância excessiva (nt
2), seriam obrigados pelo seu próprio interesse a levarem os
produtos da sua agricultura e industria á sobredita Vila, donde
em 5 ou 6 dias de jornada ou podiam também levar á Ilha de
Santa Catarina (como já aconteceu) na certeza de acharem ali favorável
mercado. Resultariam ainda maiores utilidades àqueles habitantes
e ao Estado, se a indicada comunicação interior se continuasse
desde a Vila das Lages até ás Missões hoje Portuguesas,
situadas sobre a margem oriental do rio Uruguai entre 28, e 29o
de latitude, ou esta comunicação se fizesse toda sobre o.
terreno, ou aproveitando-se as águas daquele rio nos lugares e pela
distancia, que o seu leito e corrente o permitirem ; projeto este, cuja
realização não oferece impossibilidade física
conhecida, nem obstáculo político que não possa remover-se,
umas vez que o Brasil passou de colônia a ser Reino, onde hoje se
acham umas Corte e a sede da Monarquia Portuguesa, e que por tanto podemos
dizer = Rerum novus nascitur ordo =. Este projeto de comunicar diretamente
a Capitania de Santa Catarina com as referidas Missões hoje Portuguesas
talvez cause estranheza, e não duvido que haja quem o considere
quimérico, ou pelo menos impolítico, porem eu sou de diferente
opinião, pois contemplo a sua verificação nau só
praticável e útil; mas também necessária. Não
é meu intento tratar aqui deste objeto por miúdo, somente
toquei nele de passagem para indicar com mais amplitude a importância
da Capitania, que faz o assumpto desta Memória; reservando para
o diante o mais que tenho a dizer sobre as referidas comunicações
interiores.
147. Passando agora a contemplar a Capitania debaixo de vistas políticas
exteriores, mais se ampliará ainda a sua importância, assim
como a dependência que tem delia as duas Capitanias limítrofes.
Para o mostrar tomarei para exemplo o caso possível de guerra com
alguma das nações marítimas da Europa, o que suposto
não seja provável, todavia não é impossível.
Suponha-se pois que alguma daquelas nações nos declara a
guerra, e que convêm aos seus fins fazer as hostilidades no Brasil,
e mormente na parte dele que fica para o sul do Cabo Frio, para o que infalivelmente
mandará umas Esquadra, e um Exercito de tal força, que seja
muito superior ao que nós lhe podemos opor atualmente. Não
é provável que o inimigo venha em direitura atacar esta Capital
por mar, ou por terra, imediatamente depois de uma viagem em que precisamente
as tripulações dos navios e as tropas hão de sofrer
alguns dos incômodos e privações inerentes a expedições
de tal natureza: é por tanto mui conforme á boa razão
que ele procure um porto, aonde possa reparar-se daqueles incômodos
e privações de umas longa viagem, desembarcar as tropas,
receber mantimentos, refrescos, e que em fim lhe possa servir de apoio
ás suas futuras operações hostis. Qual será
pois esse porto que o inimigo procure, que reuna se não todas, ao
menos a maior parte das proporções para os indicados fins?
Todas as considerações razoáveis fazem presumir que
seja o porto da Ilha de Santa Catarina; o que no meu sentir é tão
evidente, que julgo ociosas quaisquer reflexões a este respeito.
e somente trarei á lembrança o exemplo dos Espanhóis
em 1777, exemplo que sempre devemos ter diante dos olhos, e que nos deu
uma boa lição, mas que nunca aproveitamos pelo que respeita
àquela Ilha, (nt 1) que sempre
que for atacada ha de ser conquistada uma vez que não haja nos seus
marca forças marítimas, que possam bater e destruir a esquadra
e navios inimigos que transportarem a tropa atacante: ora não tendo
nós forças que possam combater com as de qualquer das sobreditas
nações, é evidente que a cada umas delas não
custará muito conquistar a sobredita Ilha, (nt
2). Dado este primeiro golpe peio inimigo, e conservando ele a posse
da Ilha, da terra firme, e do porto, quais seriam os resultados prováveis
daquela conquista? Os primeiros seriam sem duvida o bloqueio do porto desta
Capital, e o do Rio Grande ; os segundos umas invasão nesta Capitania,
bem como na de S. Paulo, mediante um desembarque em Santos, ou em suas
imediações. Mas suponha-se que o inimigo não tenha
nenhumas destas operações, e que se dirige imediatamente
a atacar esta Capital, ou seja forçando a entrada do porto, ou efetuando
um desembarque na Vila Capital da Ilha Grande, na Sipitiba, ou em algum
dos outros muitos pontos próprios para essa operação,
que existem tanto para o sul desta barra, como para o norte dela : qual
será o resultado destas hostilidades, umas vez que nós não
tivermos forças suficientes para opor ao inimigo, tanto marítimas
como terrestres? Não é meu intento tratar circunstanciadamente
de tais operações hostis, que Deus permita nunca se realizem,
pois quanto tenho dito a este respeito é unicamente para provar,
que sem a previa conquista da Ilha de Santa Catarina nunca o inimigo poderia
com tanta prontidão e facilidade pôr em pratica as suas tentativas
contra as duas Capitanias limítrofes, e contra esta Capital; por
que aquele porto da Ilha é n mais próprio, cômodo,
e próximo para deposito das suas forças marítimas;
e a Ilha para as terrestres, e para os seus trens de guerra; estas duas
circunstancias reunidas formão dela um centro comum, seguro e mui
vantajoso para as operações do inimigo tanto por mar como
por terra. Logo fica demonstrada a importância da Capitania de Santa
Catarina considerada debaixo de suas vistas políticas exteriores,
e o muito que dela dependem tanto a segurança desta Capital, como
a das duas Capitanias limítrofes, que por esta circunstancia estão
mais expostas a serem invadidas ; o que acontecendo sofreríamos
também o duplicado mal de ficarmos privados dos muitos recursos,
isto é, dos mantimentos que ambas exportam para esta Corte, alguns
dos quais são de primeira necessidade. como, o trigo, os gados,
e o charque para sustento dos escravos.
148. De tudo quanto tenho dito neste artigo evidentemente se tirão
duas consequências; primeira, que é de toda a necessidade
dar á Capitania de Santa Catarina a atenção que ela
merece, e traze-la prosperar aumentando os seus recursos locais, e a sua
defesa; e por meio de medidas enérgicas e discretas promover, o
aumento da agricultura e da popu1ação, sobre tudo de parte
do sertão da terra firme, e abrindo estradas de comunicação
interior; finalmente conservando-a sempre guarnecida com boa e suficiente
tropa e munições de guerra ao menos para repelir umas surpresa,
ao que por muitos anos, tem estado, e ainda hoje está exposta: a
segunda consequencia é, que já mais se deve consentir na
ocupação temporária ou permanente da Ilha de Santa
Catarina por qualquer das nações estrangeiras, sejam quais
forem os manejos e negociações políticas de que elas
se sirvam para conseguir a indicada ocupação, e ainda á
custa dos maiores sacrifícios que fizermos para não assentirmos
já mais a ela.
ARTIGO SEGUNDO.
Modo de promover o melhoramento da Capitania.
150. Antes de tratar da matéria a que destino
este Artigo, permita-se-me que eu faça algumas reflexões,
que julgo mui precisas.
Desde que o nosso Soberano chegou a esta Capital do Brasil, tem-se tomado
muitas medidas gerais, e algumas peculiares a cada uma idas Capitanias,
tendentes todas a promover o aumento da população, da agricultura,
da industria, e comércio de cada umas delas, a boa arrecadação
das rendas do Estado, as comunicações internas, e as comodidades
ou o bem ser dos povos. Por exemplo mandaram-se vir das ilhas dos Açores
casais para povoarem e cultivarem diferentes lugares; deram-se providencias
para se povoar e cultivar grande parte das Capitanias de S. Paulo, Minas
Gerais, Goiás, e Mato Grosso; abriram-se estradas para comunicar
umas com as outras Capitanias; Minas com a do Espírito Santo, e
a da Baía, Goiás com a do Pará etc. estabeleceram-se
Companhias de agricultura e de mineração em todas aquelas
Capitanias gerais; tem-se criado muitas povoações, elevado
outras à hierarquia de Vilas, algumas destas á de Cidades,
etc. etc.; e somente a desgraçada Capitania de Santa Catarina não
tem merecido estes benefícios! Ainda ali não se povoou ou
cultivou um só palmo do sertão; ainda não se criou
Companhia alguma que trate do seu melhoramento; ainda não se abriu
comunicação interior para se corresponderem entre si as diferentes
povoações da Capitania, nem esta com as limítrofes;
finalmente nem ao menos se mandou renovar umas única estrada de
comunicação com a Vila das Lages, de que já falei,
que esteve aberta e transitada por espaço de nove anos, cuja necessidade
e utilidade foram bem reconhecidas pelos Vice-Reis, Marquês do Lavradio,
e Luiz de Vasconcelos (que mandou abrir a indicada estrada) e por quatro
Governadores mui beneméritos, que teve aquela Capitania desde 1786!
(nt 1) Apenas lhe tocou o aumento
e nova organização dos Corpos milicianos, alguns recrutamentos
(medidas estas assaz opressivas para os povos), a criação
do lugar de Juiz de Fora, e a de umas Junta de Fazenda! Quais seriam pois
as causas, por que se não tem olhado para esta Capitania com igual
atenção á que outras tem merecido?
151. Mas passando a tratar dos objetos que mais carecem de atenção
nesta Capitania, e dos meios por que o seu melhoramento se deve promover,
conheço que estes devem abranger vários ramos de administração
publica, a que são aplicáveis os princípios gerais
desta ciência, porem limito-me a falar unicamente daqueles objetos,
que atualmente exigem prontas providencias, e que considero essenciais
para promover a prosperidade da Capitania ; tais são a população,
a agricultura, as rendas Reais, e a educação publica; deixando
á diuturnidade dos tempos outros assuntos, que por sua utilidade
também mereceram consideração. Todos sabem que em
um país pouco povoado o aumento da população é
sempre vagaroso, principalmente quando esta provêm unicamente do
andamento natural da procriação; indicarei por tanto como
meio mais pronto para aquele aumento a transplantação repentina
de um suficiente numero de famílias na Capitania, alem de outras
medidas que lhe são peculiares: por este modo não só
se aumentará de repente a população, mas também
se fornecerá ao país um numero de braços mui necessário
para a cultura das terra e para dar principio a algumas povoações
no sertão.
152. Proporei como meio mais essencial para o aumento da agricultura (alem
de outros) a renovação da estrada do sertão para comunicar
a beira-mar e ao sul do estreito com a indicada Vila das Lages, como disse
em outra parte, obra esta, cuja utilidade é conhecida e desejada
de todos os habitantes de Santa Catarina; não havendo um entre os
muitos, com quem me informei sobre este interessante objeto, que deixasse
de manifestar-me os maiores desejos de que esta estrada se renovasse, e
as utilidades que ela daria á Capitania. Entretanto não consta
que depois da chegada do Soberano a esta Corte se dirigisse á Sua
Real Presença alguma suplica, ou representação sobre
este assunto de utilidade publica, o que na verdade custa a acreditar!
Apenas um homem particular, assaz zeloso pelo bem da sua pátria,
(nt 1) se deliberou a escrever umas
pequena Memória sobre esta estrada, e a manda-la publicar no único
Jornal que se imprimia nesta Corte, escrito este que não produziu
resultado algum, nem ao menos aquele de acordar do letargo em que existem
os homens a quem cumpria interessar-se por esta importante obra.
153. O Marquês do Lavradío quando foi Vice-Rei deste Estado
conheceu bem a necessidade e importância desta estrada de comunicação
(nt 1), porem foram causa de se não
empreender a sua abertura a guerra do sul em 1777, e o pouco tempo que
depois dela findar ele se demorou no governo; mas o seu sucessor Luiz de
Vasconcelos e Souza conhecendo igualmente aquela necessidade e importância,
que assaz lhe fez ver o infatigável e zeloso Governador interino
da Capitania, José Pereira Pinto, mandou que se abrisse a sobredita
estrada por ordem de 31 de Outubro de 1787, tendo precedido as necessárias
indagações sobre o terreno por onde devia passar (nt
2). Arrematarão a sua fatura Antônio José da Costa,
e Antônio Marques Arzão, pela quantia de virote e quatro mil
cruzados ; principiou-se a obra em 14 de Novembro de 1788, e ultimou-se
em 6 de Dezembro de 1790, fazendo entrega ao Procurador da Câmara
da Vila Capital da extensão de dezesseis léguas e 560 braças
de caminho medidas á corda sobre o terreno, desde a guarda de Maruhi,
3 léguas para oeste do estreito que separa a Ilha da terra firme,
até ao lugar chamado Castelo-melhor, ao poente da Serra Geral, situado
na fronteira da Capitania . de Santa Catarina com a de S. Paulo (nt
3). Conservou-se aberta esta estrada, e foi trilhada até ao
ano de 1800, mas como não se tratou logo de a povoar e cultivar
por um e outro lado, nem se estabeleceu Freguesia ou arraial algum em toda
a sua extensão, e os Sertanejos que por ela transitavam, não
encontravam as precisas comodidades, e alem disto foram algumas vezes atacados
pelos Indígenas chamados Bugres, que vivem por aqueles sertões,
desanimarão e intimidaram-se aqueles Sertanejos, e deixarão
de vir a Santa Catarina; por conseguinte o mato foi crescendo pelo discurso
dos tempos; mandaram-se, retirar algumas patrulhas do Regimento de Linha
que se tinham colocado em diferentes lugares, e em virtude deste progressivo
e depois total abandono fechou-se a estrada de sorte, que hoje nem vestígios
existem dela: tal foi o desgraçado fim de umas obra tão útil,
em que se dispenderam vinte e quatro mil cruzados! Deve daqui concluir-se
que o projeto da abertura desta comunicação interior não
é só meu; que a sua necessidade e importância foram
reconhecidas por dois hábeis e zelosos Vice-Reis do Brasil, e por
todos os Governadores da Capitania de Santa Catarina que se seguirão
a José Pereira Pinto; e assim por todos estes motivos, e por aqueles
que deixo referidos no Artigo antecedente, é indispensável
tornar a abrir a indicada estrada até Lages. (nt
4) Por tanto eu proponho esta medida não só como a primeira
e a mais necessária para o aumento da agricultura daquela Capitania,
mas também como a mais indispensável para a sua defesa militar.
Outro objeto digno de toda a atenção é o melhoramento
das rendas Reais; indicarei o seu aumento como necessário, mas não
opressivo, mediante a arrematação do contrato da pesca das
Baleias, e dos Dízimos; e pelo que pertence á educação
publica, que é o manancial dos bons costumes, e dos bons vassalos,
indicarei algumas medidas de primeira necessidade, na convicção
de que com algumas das que passo a propor sobre os quatro referidos objetos,
pouco dispenderá a Fazenda Real, com outras nada, umas vez que as
coisas se fação como se devem fazer.
ARTIGO TERCEIRO.
Medidas que se devem tomar relativas ao aumento
da
população, agricultura, rendas,
e educação publica.
155. Para conservar e aumentar a população
da Capitania são necessárias as medidas seguintes:
1.a - Transportar para ali Casais das Ilhas dos Açores em numero
suficiente para povoarem e cultivarem por ambos os lados a estrada do sertão
de que tenho falado, desde a beira-mar até á Vila das Lages,
e as suas imediações sobre a estrada geral que vai de S.
Paulo para o Rio Grande: para isto é indispensável:
2.a - Que seja incorporada na Capitania de Santa Catarina a sobredita Vila
das Lages, e seu termo que forma o extremo meridional da Capitania de S.
Paulo, cuja Cidade é distante daquela Vila 200 léguas (segundo
contam no país) ou pelo menos 160, quando de Santa Catarina a Lages
ha apenas 24 em linha reta; e não pode haver mais de 30, sobre a
estrada que se abrir.
3.a - Determinar que durante os quinze anos sucessivos que vão decorrer,
não se possa recrutar para a tropa de Linha dentro dos limites da
Capitania indivíduo algum que ali seja residente, qualquer que seja
a sua cor e o seu estado.
4.a - Destinarem as Câmaras rendimentos suficientes para a criação
dos expostos, a favor de cujos entes a religião e a humanidade reclamam
todo o benefício.
5.a - Fazer propagar em toda a Capitania o uso da Vacina, que ali é
muito necessária, tomando-se para este fim as necessárias
medidas quanto antes.
6.a - Mandar recolher á Ilha o Regimento de Linha, que é
a sua natural guarnição, e que se acha destacado no Rio grande
desde 1811.
156. Para aumento da agricultura, e do mais que dela deriva, indico.
1.a - Isentar os milicianos do serviço militar diário, que
estão fazendo, em toda a Capitania ha, cinco anos com manifesto
prejuízo da lavoura, pelo grande numero de braços que lhe
são roubados diariamente; e destacar desta Corte a tropa indispensável
para o indicado serviço, em quanto se não derem as providencias.
2.a - Dar baixa imediatamente a todos os milicianos que tiverem mais de
12 anos de serviço, ou de 50 de idade, para que uns e outros possam
ocupar-se livremente na agricultura: eduzir, e dar nova organização
aos Corpos de milícias.
3.a - Abrir, e cultivar a supramencionada estrada do sertão por
ambos os lados até á Vila de Lages, e isto pelo modo que
ao diante direi; abrir outra comunicação interior pelo mesmo
sertão entre a Vila do Rio de S. Francisco e a da Laguna: povoar
e cultivar os terrenos de ambas as margens do rio Tajáhi-assú
desde a sua foz até á primeira cachoeira; e o Merim desde
a sua confluência naquele até onde for navegável, e
dali para cima até ao campo da Boa Vista.
4.a - Aumentar a povoação e cultura de toda a beira-mar que
forma a enseada de Garoupas, e estabelecer ali umas Freguesia, por estarem
aqueles moradores mui distantes da sua, que é a de S. Miguel, e
por ser este ponto muito interessante para a defesa da Capitania.
5.a - Obrigar os proprietários de grandes terrenos a afora-los com
vantajosas condições para os enfiteutas, a fim de aumentar
o numero de pequenos proprietários, o que certamente é umas
das causas imediatas do aumento da agricultura em todo e qualquer país.
6.a - Isentar de Dízimos e outros tributos por tempo de dez anos
a todos os cultivadores de terrenos que atualmente estejam incultos em
qualquer parte da Capitania, ou esses cultivadores sejam residentes já
dentro dela, ou vão de fora para ali, estabelecer-se, tanto nacionais,
como estrangeiros; isenção que se concedeu para as Capitanias
de Minas, Goiás, e outras.
7.a - Diminuir de umas terça parte por dez anos sucessivos todos
os direitos que se pagão por importação de gêneros
nas alfândegas deste Reino segundo a. legislação em
vigor, e que se importarem em toda a Capitania.
8.a - Declarar o porto da Ilha de Santa Catarina franco para todas as nações
do mundo civilizado, com isenção de todo e qualquer direito
de ancoragem, ou de baldeação, e deposito.
157. Pelo que pertence ao aumento e administração das rendas
Reais, julgo necessárias as seguintes medidas:
1.a - Que a arrematação da pesca das Baleias, a dos Dízimos,
e a de todos os mais rendimentos da Capitania se façam ali perante
a sua Junta da Fazenda, e não nesta Corte.
2.a - Que se arremate quanto antes a sobredita pesca que se faz nas seis
armações, ora existentes em diferentes lugares da Costa da
Capitania, antes que se extinga totalmente este importante ramo de industria,
o qual infalivelmente acabará dentro em pouco tempo, se continuar
a ser administrado pela Fazenda Real.
3.a - Os preços, porque se fizerem esta arrematação
e aquela dos Dízimos, e outros rendimentos, deveram entrar todos
nos cofres da Junta da Capitania; e de todos, bem como do dinheiro da venda
da Pólvora, poderá ela dispor para suprir as suas despesas.
4.a - Que todos os rendimentos Reais da Vila do Rio de S. Francisco, que
mal e indevidamente se recebem na Junta da Fazenda de S. Paulo, se recebam
naquela de Santa Catarina, á qual a mesma Vila pertence.
5.a - Que a divida moderna da Fazenda Real na Capitania seja paga pela
sua Junta da Fazenda por meio de umas consignação razoável
e determinada para este fim, pois que a divida até ao ano de 1797,
declarada antiga pelo Alvará de 9 de Maio de 1810, é paga
pelo Real Erário, em virtude do Decreto de 12 de Outubro de 1811.
158. Concluirei este artigo indicando as medidas necessárias e relativas
á educação publica, e são as seguintes:
1.a - Estabelecer em cada umas das Freguesias para ensino dos seus moradores
umas escola de primeiras letras e de Doutrina Cristã, e em cada
Vila umas aula de Gramática Portuguesa, e Latina.
2.a - Na Vila Capital do Desterro se criará um seminário
ou colégio, no qual seriam admitidos e educados até um numero
designado os filhos dos habitantes pobres ; e onde se ensinem a estes as
primeiras letras, Gramática Portuguesa, e Latina, Retórica,
Filosofia, e as Línguas Francesa, e Inglesa; podendo também
frequentar as aulas destas faculdades todos aqueles alunos, que não
residirem dentro do indicado colégio.
Não trato de estabelecimentos de educação mais elevada,
dos de caridade, de ciências, e de artes, porque atualmente não
são da maior necessidade naquela Capitania, e seria grande desacerto
exigi-los, quando nesta Corte, onde alguns deles são mais necessários,
ainda não os há.
ARTIGO QUARTO.
Reflexões sobre as medidas propostas.
160. Mui fáceis e pouco dispendiosas para o Estado são quase
todas as medidas ou providencias que deixo indicadas; e suposto eu conheça
quão necessárias sejam ainda outras, com tudo aquelas são
as que julgo de mais precisão, e que tem conexão com o estado
atual da Capitania, e devem servir de princípio ao seu melhoramento:
delas irei tratando pela ordem com que as deixo escritas, e não
só direi como se hão de verificar, mas também farei
algumas reflexões sobre cada umas delas, para melhor conhecer a
sua necessidade, e utilidade.
161. Das que são relativas ao aumento da população
a primeira é a mais morosa, e dispendiosa, mas para transportar
para Santa Catarina os colonos dos Açores não se carece seguir
o método que seguiu o Senhor D. João V, quando mandou colonizar
aquela Capitania. Os navios da Coroa que vierem de Portugal para esta Corte,
podem sem grave incomodo vir pelas Ilhas, Terceira e de S. Miguel, e receberem
ali os casais que poderem proporcionar-se, e talvez um ou dois destes navios
possam transportar os primeiros necessários. Para este fim deveram
previamente fixar-se Editais naquelas Ilhas, em que se declare o que se
dará àqueles colonos quando desembarcarem em Santa Catarina,
que não será menos, porem sim mais do que o sobredito Monarca
mandou dar aos da primitiva colonização pela Provisão
Regia de 9 de Agosto de 1747, de que já falei, e principalmente
a respeito das terras que se devem dar, que seriam da extensão de
meia légua quadrada a cada um casal. (nt
1)
162. A incorporação da Vila de Lages e seu termo á
Capitania de Santa Catarina é umas medida utilíssima, e inteiramente
se conforma com as providencias dadas pela Carta Regia de 5 de Novembro
de 1808 dirigida ao Capitão General de S. Paulo, sobre a povoação
e cultura dos campos de Garapoava, sendo certo que todo aquele termo confina
com a fronteira oeste de Santa Catarina em muito menor distancia da Capital
desta do que na Vila da Curitiba, e ainda em menor da Cidade de S. Paulo;
por conseguinte é muito mais cômodo, e mais interessante para
os habitantes das Lages e seu termo terem todos os seus recursos domésticos,
administrativos, e políticos na Ilha de Santa Catarina, do que na
Curitiba ou em S. Paulo : este motivo simplesmente tomado per si só
era mui solido para decidir a que se abrisse a projetada estrada de que
tenho falado, mesmo quando não houvessem tantos outros, que deixo
referidos, e que são dignos da maior atenção. (nt
1)
163. Não é menos essencial a proibição dos
recrutamentos, e o praticarem-se tem sido umas das maiores causas da pouca
população desta Capitania; que estando ainda no princípio
da sua infância, sofreu um recrutamento assaz opressivo no ano de
1759, quando se organizarão as seis Companhias da primitiva guarnição
da Ilha; outro que não o foi menos, de alguns 400 homens no tempo
do Governador Francisco de Souza de Menezes, o qual findou em 5 de Setembro
de 1775 para contemplar com aquelas Companhias um Regimento conforme a
ordenança do Marechal Conde de Lipe: outro de quase 400 homens foi
feito pelo Governador Manoel Soares Coimbra desde 1791 até 1793;
e finalmente outros muitos menores se tem feito desde aquela época,
e todos tem recaído sobre os filhos dos pobres lavradores, que com
eles se empregavam na agricultura, á qual por este modo foram roubados
outros tantos braços, sendo certo que a maior parte destes recrutados
ficarão reduzidos ao celibato. Tem resultado ainda outro grande
mal dos recrutamentos e vem a ser, umas numerosa emigração;
pois que á menor suspeita daquela medida opressiva começam
a fugir para fora do país os que tem receio de serem recrutados:
é por tanto necessário isentar os povos deste terrível
flagelo.
164. Pelo que respeita á criação dos expostos fora
ocioso recomendar a utilidade desta medida, mas como para ela não
tem as Câmaras os rendimentos suficientes, (nt
1) é de toda a necessidade aumentar os atuais: ou concedendo-se-lhes
sesmarias para elas aforarem os terrenos, ou determinando o Estado umas
consignação anual suficiente para tão útil
fim.
A Vacina é da maior precisão nesta Capitania, onde muito
grassam as bexigas; sou por tanto de opinião que se mande para a
Vila Capital um Medico hábil (o que ali não ha) para estar
á testa de umas Comissão Vacinica, que tenha a seu cargo
em toda a Capitania este importante objeto, a fim de salvar as vidas de
muitos dos habitantes
165. A ausência do Regimento de Linha, que é a guarnição
daquela Capitania, tem causado grandes males, tanto pela opressiva medida
que se tomou de mandar fazer o serviço militar pelos milicianos,
como pelo desamparo e pobreza a que ficarão reduzidas muitas famílias,
do que se tem seguido outras desgraças, que por decoro deixo em
silencio. É de necessidade que o Regimento se recolha ao seu quartel
para os fins que ao diante apontarei.
166. No que respeita ás medidas propostas para o aumento da agricultura,
a necessidade da que indiquei em primeiro lugar fica demonstrada em diferentes
partes desta Memória; mas ainda repetirei que não é
possível avaliar os prejuízos que a Capitania tem sofrido
com o serviço diário que os milicianos, tem feito ha cinco
anos, flagelo este que ela nunca tinha conhecido, e que assaz fatal lhe
tem sido. Não haveria tropa de Linha nesta Corte, ou em alguma outra
Capitania, que pudesse destacar-se para Santa Catarina? Deixar desguarnecido
um ponto tão interessante da costa do Brasil, e exposto aos insultos
do mais pequeno Corsário é na verdade causa pasmosa! Repito
que é necessário guarnecer desde já a Capitania com
boa e suficiente tropa, que não poderá ser menos de 1$200
homens das armas próprias da natureza do terreno, e mais circunstancias
peculiares da Capitania (nt 1)
167. As baixas dos milicianos, isto é, dos lavradores, são
necessárias para que eles possam empregar-se livremente nas suas
lavouras, e por que também alem das razões expendidas os
Corpos de milícias estão cheios de homens velhos, que servem
somente de fazer numero. Por estas e outras razões já expostas
é igualmente necessária a redução destes Corpos,
e outro sim por que também se evitarão em parte abusos, que
o respeito e o decoro mandão calar.
168. No artigo em que tratei da força militar disse que ela se compunha
de dois Regimentos de Infantaria de milícias, nove Companhias francas
da mesma arma, e quatorze Companhias de cavalgaria (alem do Regimento de
Linha) o que faz um total de 2$862 indivíduos, isto é, quase
a decima parte do numero total da população branca da Capitania,
o que bem mostra que estes Corpos não tem com ela proporção
alguma comparativa, como também disse no sobredito artigo. Pergunto
agora, qual é a nação da Europa que tem optado semelhante
relação entre as suas milícias e a sua população?
Se mesmo em Portugal se adotasse, que tem 3:000000 de habitantes, deveria
ter 300$000 milicianos. E seria isto razoável e político?
Ninguém dirá que sim. E se o não é entre as
nações civilizadas, ricas, e populosas, como o poderá
ser no Brasil, que ha tão poucos anos começou a sair do seu
estado de infância? Mas deixemos estas reflexões, e vamos
comparar a população da Capitania de Santa Catarina com o
numero excessivo dos milicianos que ela contêm. Em 1810 a população
da Ilha somente, constava de 4$084 indivíduos do sexo masculino:
se deste numero diminuirmos o dos homens de menos de 25, e de mais de 40
anos de idade, que devem ser isentos de servir nos corpos milicianos segundo
a lei, e se o mesmo fizermos ao numero daqueles que ela também isenta
por diferentes motivos, restarão quando muito 1$000 homens, isto
é, pouco menos da quarta parte daquela total população.
Ora dentro da ilha ha um Regimento de Infantaria, e seis Companhias de
Cavalaria de milícias, e mais umas de Infantaria, que fazem o total
de 1$121 praças. Logo, como não é possível
haver maior numero de praças do que de homens, segue-se que não
havendo estes; os Corpos devem estar incompletos; ou aliás estão
neles alistados, indivíduos que não o devem estar (como realmente
acontece), o que é injusto, e até opressivo da liberdade
individual. Vamos a outra prova: na terra firme, dentro do termo da Vila
Capital, a população do sexo masculino compunha-se em 1810
de 2$927 indivíduos ; diminuindo deste numero aquele dos isentos
do serviço das milícias pelas razões já ditas,
ficarão quando muito 730: dentro do mesmo termo havia um Regimento
de Infantaria, e cinco Companhias de Cavalaria, o que no seu estado completo
forma o total de 1$000 praças : aqui temos também dentro
do indicado termo maior numero de praças de milicianos, que de homens;
o que dá a mesma conclusão que tirei acima: tanto é
verdade que não chegava ali a população para a criação
do Regimento que se organizou em 1810, que umas das suas Companhias, a
primeira, foi criada na Ilha dentro da Freguesia do Ribeirão, contra
a expressa determinação da lei da regulação
destes Corpos, e com grave prejuízo e risco de vida dos miseráveis
soldados, que para se acharem nas revistas, exercícios, e outros
serviços, foram e são obrigados a atravessar a Baía
em suas pequenas canoas, para virem da Ilha á terra firme! Fica
por tanto manifesta a necessidade e utilidade da redução
dos Corpos milicianos, a qual deverá combinar-se com a comodidade
dos povos, que jamais se devem oprimir, nem desviar dos seus trabalhos
agrícolas sem urgente motivo. (nt
1).
169. A medida, que indiquei em terceiro lugar, isto é, a abertura,
povoação, e cultura da estrada para a Vila das Lages, é
(como tenho mostrado) utilíssima, e talvez a mais interessante para
a Capitania ; mas para que ela se realize com melhor sistema, do que aquele
que se seguia e adotou com a estrada que se abriu em 1788, e depois se
deixou fechar, ouso propor um método de que a meu parecer ainda
ninguém se lembrou para aquele fim, e é o seguinte: Deve
estabelecer-se na Vila Capital da Ilha de Santa Catarina umas Companhia
de Acionistas, que se encarregará e mandará abrir a indicada
estrada desde a Beira-mar até á Vila das Lages; povoa-la
toda por ambos os lados, estabelecer os arraiais ou Freguesias precisas,
e tudo o mais que for necessário para a conservação
e prosperidade deste útil estabelecimento, o que tudo deve fazer-se
á sua custa, e debaixo da sua administração, e direção;
de tal maneira, que a Fazenda Real não haja de ter ingerência
alguma naquela administração: intitulasse-a esta Companhia
= Companhia de agricultura e melhoramento da Capitania de Santa Catarina
= : o seu fundo será de cento e setenta mil cruzados, em moeda metálica:
a sua duração não será por menor tempo que
o de vinte anos, e os seus estatutos seriam feitos por ela, e propostos
ao Soberano, sem a aprovação do qual não poderão
ter efeito, nem validade: eis aqui em resumo as bases da criação
desta Companhia (nt 1).
170. Não deve perder-se de vista o aumento da povoação
e cultura da enseada das Garoupas, em razão do quanto e é
mui própria e acomodada para se efetuar um desembarque, porque admite
grande numero de navios, é segura e abrigada, e alem disto está
atualmente sem defesa alguma. Desde ali até á barra do norte
da Ilha de Santa Catarina apenas contam 5 léguas, e ao estreito
9. ora na hipótese de que o inimigo efetua um desembarque naquela
enseada, poderá com toda a facilidade apoderar-se da terra firme,
fazer-se forte ali, senhorear-se das comunicações da Beira-mar,
cortar a retirada aos defensores da Ilha, e ataca-la também por
aquele lado. Por tanto é necessário aumentar a povoação
daquela enseada, defende-la de modo que possa aproveitar-se a natureza
do terreno, estabelecer ali umas Freguesia, e estacionar um destacamento
de tropa de linha: seria mui útil que a maior parte dos habitantes
daquele lugar se empregassem na pesca, e que se estabelecessem ali fabricas
de salgar e secar o peixe, ramo de industria este, que pelo discurso dos
tempos virá a ser mui vantajoso para o Estado.
As medidas que indiquei em 5o 6o 7o e
8o lugar, são de utilidade tão conhecida, que
a seu respeito julgo desnecessária qualquer reflexão.
171. No que respeita ás medidas propostas tendentes ao aumento e
administração das rendas Reais, algumas não só
as julgo de necessidade, mas até de rigoroso dever. Se os Dízimos
são das produções da Capitania, porque razão
não se arrematam e cobram ali? Se a pesca das Baleias, e a sua redução
em azeite é um ramo de industria dos habitantes da Capitania, por
que não se ha de receber ali o seu rendimento para suprir as necessidades
e despesas publicas? Em umas palavra, se nas outras Capitanias as rendas
Reais são cobradas, despendidas, e arrematadas pelas Juntas de Fazenda,
por. que não se praticará o mesmo em Santa Catarina? Quanto
a mim estas questões são assaz terminantes!!!
172. A ultima arrematação do contrato da pesca das Baleias
foi feita por Joaquim Pedro Quintela pelo diminuto preço de quarenta
e oito contos de réis por ano, em os doze que decorreram desde 1789
até l801: fazia-se então a referida pesca nas Armações
da Baía, Rio de Janeiro, Ilha de S. Sebastião, Bertioga,
e Santa Catarina, onde então se contavam cinco Armações
(nt 1), Se pelo numero total destas
se tivesse repartido o preço da arrematação, (para
ser pago nas respetivas Capitanias) pertenceria a cada umas anualmente
a soma de 5:333$333 réis; e por conseguinte ás cinco sobreditas
da Capitania pertenceriam réis 26:666$666, quantia esta que todos
os anos se deveria ter pago na Provedoria de Santa Catarina para suprir
as suas despesas e necessidades (nt 2).
Se isto se tivesse praticado desde que naquela Capitania se estabeleceram
as Armações para a mencionada pesca, não chegaria
ali a divida da Fazenda Real a umas enorme quantia até ao ano de
1797; (e talvez a outra ainda maior desde aquele ano até hoje),
ter-se-iam sim pago aos empregados públicos seus ordenados, aos
Parrochos as suas côngruas, aos lavradores as farinhas que davam
para municiar a tropa que em diversas épocas passou por ali para
o Rio grande, ou ficava no país estacionada, e também o Regimento
da guarnição, não se chegariam a dever a- este muitos
anos sucessivos de soldos, de fardamentos, e de fardetas (nt
3); e finalmente os povos não teriam padecido tantos vexames
e misérias, e o país seria hoje mais rico do que é,
e mais crescida a sua população. Porém se os males
passados não podem remediar-se, devem estes ao menos evitar-se para
o futuro ; e por isso proponho que se arremate quanto antes o sobredito
contrato da pesca das Baleias, que se faz nas seis Armações
da Capitania de Santa Catarina; que esta arrematação se faça
perante a sua Junta da Fazenda, e não nesta Corte, e que o seu preço
seja pago todo nos cofres da mesma Junta. É para recear que hoje
por efeito do miserável estado em que se acham todas as Fabricas
daquele importante estabelecimento, tanto a respeito dos edifícios,
como dos escravos, oficinas, lanchas, e de mais utensílios da pesca,
ninguém ouse arrematar este contrato por mais de vinte contos de
réis anualmente, preço este que a Fazenda Real não
deve desprezar, porque mais vale pouco que nada (nt
4). Porem se não houver quem arremate este contrato, neste caso
sou de parecer que a administração da pesca da Baleias em
todas as Armações ora existentes na Capitania de Santa Catarina
se encarregue á sua Junta da Fazenda sem ônus ou restrição
alguma; e alem disto também sou de opinião que somente venha
para esta Corte o azeite necessário para o consumo do país,
e que todo o mais fique em deposito na Armação grande de
Santa Catarina, onde se irá comprar o que for para negocio, ou para
exportação para outros países, pagando-se tanto um
como o outro nos cofres da referida Junta da Fazenda.
173. O contrato dos Dízimos da Capitania de Santa Catarina foi ultimamente
arrematado nesta Corte por Joaquim Antônio Alves no triênio
de 1811 a 1813 pelo preço de 25 contos e 200$000 réis, ou
pouco mais de oito contos por ano. Umas conta corrente da receita e despesa
deste contrato, que por acaso veio á minha mão, me fez conhecer
que o sobredito arrematante ganhou durante aquele triênio 19:128$400
réis, líquidos de todas as despesas.
Não respondo pela veracidade daquela conta, porem é certo
que tenho ouvido dizer a algumas pessoas, que não tem duvida alguma
em arrematarem este contrato por doze contos de réis anuais livres
para a Fazenda Real, sem o menor receio de perderem neste negocio (nt
1). Ora se a referida arrematação pelos doze contos se
verificasse, seguir-se-ia que os dois contratos das Baleias e dos Dízimos
renderiam ao Estado pelo menos 32 contos de réis por ano: esta quantia
entrando nos cofres da Junta da sobredita Capitania, junta com os outros
seus rendimentos menores, que andam por dez a onze contos por ano, fariam
um total de quarenta e dois contos de réis anuais, pelo menos; (nt
2) quantia esta que chegaria para todas as despesas da Capitania, á
excepção dos soldos da Tropa que a deve guarnecer, os quais
soldos unicamente deveram ser pagos pelo Real Erário, pois que aquela
Tropa deverá considerar-se como pertencente á guarnição
desta Corte, mas destacada em Santa Catarina, era quanto aque1la Capitania
não tiver todos os rendimentos suficientes para ali lhe pagar os
referidos soldos: (nt 3) para os
ter, e até para pagar a maior numero de Tropa, não será
necessário decorrerem muitos anos, umas vez que se adotem e rea1izem
as medidas que tenho indicado, e que se estabeleça a Companhia de
que falei.
174. Ninguém acreditara que haja naquela Capitania umas Vila, onde
exercitam jurisdição quatro Autoridades sendo umas só
pertencente á mesma Capitania!!! Tal é a sua administração!
Na vila do Rio de S. Francisco exercitam jurisdição o Bispo
do Rio de Janeiro, a Junta da Fazenda de S. Paulo, o Ouvidor da Comarca
de Pernagoá, e o Governador de Santa Catarina. Este no que pertence
ao governo militar ; aquele sobre a cobrança de alguns rendimentos
do Estado que por Lei pertence aos Ouvidores, pois que á sua Comarca
ou Ouvidoria pertence ainda hoje a sobredita Vila, e esta Ouvidoria pertence
á Capitania de S. Paulo, a cuja Junta da Fazenda responde aquele
Ouvidor pelo que pertence ás rendas Reais; e finalmente o sobredito
Bispo em tudo o que é relativo aos Negócios Eclesiásticos!
Esta miscelânea de Autoridades e de poderes deveria acabar-se, separando
a sobredita Vila da Comarca de Pernagoá, e unindo-a àquela
de Santa Catarina, onde também ha um Ouvidor: a boa razão,
e a comodidade dos povos pugnam pela sobredita união, e pela sujeição
em todos os ramos da administração publica ás Autoridades
da Capitania de Santa Catarina. (nt 1).
175. A medida que indiquei em quinto lugar é de toda a necessidade
e de transcendente utilidade a fim de embolsar os credores do Estado, do
que injustamente se lhes está devendo. A religião de acordo
com os princípios da justiça universal mandão pagar
o que se deve, e alem disto mandão que se pague prontamente a todo
o indivíduo que serve o Rei e a Pátria por qualquer modo
que seja; sendo certo outro sim; que a mesma razão por que se mandou
pagar a divida do Estado anterior ao ano de 1797, é aquela por que
se deve pagar a que se contraiu depois do sobredito ano. Não faço
particular menção de outras medidas que deixo indicadas,
porque a sua utilidade é geralmente conhecida. (nt
1)
176. No que respeita á educação publica, somente proponho
as medidas que são indispensáveis. A maior parte dos habitantes
de Santa Catarina não sabem ler, escrever, ou contar, por não
terem mestres que os ensinem nos distritos e Freguesias das suas habitações;
e certamente o Estado nada utiliza ou pode ganhar com esta desgraçada
ignorância dos povos. É por tanto necessário que os
mil vezes infelizes habitantes da Capitania de Santa Catarina, ao menos
hoje que tem mais perto o seu Amado Soberano, aprendam uns as primeiras
letras, outros mais algumas coisas que os tire da ignorância em que
tem vivido até agora, sem lhes ser preciso deixar os seus lares
para virem a esta Corte a estuda-las: o conhecimento das línguas,
Francesa e Inglesa, que são hoje as mais vulgares, é necessário,
porque o porto da Ilha é e virá a ser ainda mais frequentado
pelos estrangeiros, e precisa-se ali de quem os entenda.
ARTIGO QUINTO.
Conclusão da Memória.
178. Tenho dito quanto é, ou me parece suficiente sobre a importância
e melhoramento da Capitania de Santa Catarina, e sobre a sua Historia,
e Estatística; mostrando também quanto é necessária
e útil a sua conservação, a fim de que ela nunca seja
cedida a alguma nação estrangeira, nem ocupada temporariamente
pelas suas tropas. Alem das medidas administrativas que deixo indicadas
para o aumento da população, agricultura, industria, comércio,
rendas Reais, e educação publica, tenho ainda em vista outras
de que tratarei no Apêndice a esta Memória, que deixo. anunciado.
É necessário porem que a pessoa a quem se encarregar a execução
das indicadas medidas, seja capaz de desempenhar com zelo e acerto tarefa
tão árdua e delicada, aliás não teriam elas
o divido efeito. A razão de acordo com o bem do Real Serviço
estão dizendo que essa pessoa seja o Governador da Capitania, por
tanto ele não deverá ser um homem simplesmente militar. embora
siga ele esta profissão, porem deve possuir os conhecimentos teóricos
que lhe são inerentes, e alem destes outros científicos e
políticos, e reunir a todos prudência, docilidade, um espírito
patriótico e criador, e sobre tudo limpeza de mãos, e bons
costumes. É certo que estas qualidades em todos os tempos são
precisas a todo o homem que o Soberano emprega na difícil comissão
de governar os povos (que não é o mesmo que comandar soldados)
; fazem-se porem mais necessárias quando se trata de realizar estabelecimentos
novos, que por via de regra sempre encontrão oposições,
duvidas, e obstáculos, que somente o Governador poderá vencer,
e a tudo resistir discretamente por meio daquelas qualidades, que quase
sempre fazem mais que a Autoridade.
-
179. Estou convencido de que até hoje ninguém tomou a seu
cargo advogar a justa causa dos interesses da Capitania de Santa Catarina
com tanto zelo e desinteresse, como eu o faço, e por meio de um
escrito tão amplo, que suposto seja imperfeito, como já disse,
nem por isso deixou de causar-me excessivo trabalho. Não foi (aqui
o repito novamente) nem orgulho, nem a ambição, que me obrigaram
a escrever esta Memória ; foi sim o desejo de servir o meu Rei,
e a minha Nação, e para dar aos meus concidadãos o
exemplo de empreenderem estas ou outras semelhantes tarefas.
Ao menos para expertar
Os engenhos, que atrás vem;
Que soe a terra de os dar:
O vão é mau de acertar,
Se não no mostrar alguém.
F I M.
"Memórias
Políticas sobre a Capitania de Santa Catarina",
foi transposto originalmente
e na íntegra.
Os nomes próprios
foram mantidos com a grafia da época.
Apenas a ortografia
foi atualizada;
o conteúdo textual
do livro é o mesmo escrito pelo autor, em 1816.
