Fontes da Hist. Catarinense - índicesÍndice - Enc. de SC

ENCICLOPÉDIA    SIMPOZIO

(Versão em Português do original em Esperanto)
© Copyright 1997 Evaldo Pauli

FONTES DA HISTÓRIA CATARINENSE

MEMÓRIA HISTÓRICA SOBRE

A COLÔNIA ALEMÃ DE SÃO PEDRO DE ALCÂNTARA.

"Padre Joaquim Gomes de Oliveira e Paiva"

- Vigário da Vila de São José - 

Introdução ao texto:

1. Implantada em 1829, poucos anos depois da Independência do País, a primeira colônia alemã em Santa Catarina, despertou a admiração dos nacionais.

Esta impressão nos deixa a leitura do texto escrito em 1848 pelo então jovem Pe. Joaquim Gomes de Oliveira Paiva, que a descreveu quando de sua primeira visita à região montanhosa e difícil em que estes novos catarinenses foram instalados.

Filho de comerciante português da capital da Província, foi o Padre Paiva uma das grandes inteligências da então pequenina Desterro. Nascido em 1821, estudou no Rio de Janeiro, e já em 1843 abria um colégio na capital, tornando-se assim o fundador do ensino secundário em SC.

Foi vigário da Freguesia de São José de 12-10-1844 a 21-12-1849, quando conheceu a colônia alemã estabelecida nas cabeceiras do rio Maruim, 25 quilômetros para o interior, até onde se estendia sua paróquia. Estava em andamento a separação da freguesia de São Pedro de Alcântara, por desmembramento da de São José. A Assembléia Legislativa criara a nova freguesia por ato de 13-4-1844, que seria confirmada em outubro de 1845, quando esteve de passagem o bispo do Rio de Janeiro, que então se encontrava na comitiva de D. Pedro II. Esteve o Pe. Paiva em São Pedro de Alcântara em Maio de 1845 e também na sua ramificação, Vargem Grande, hoje no contexto do município de Águas Mornas. Escreveu depois o Pe. Paiva as Memórias, publicando-as em 1848.

Será também deputado provincial, vigário da Matriz de N. Sra. do Desterro a partir de 1851. Por acréscimo será também Arcipreste da Província (representante regional do bispo do Rio de Janeiro), razão porque finalmente se fez mais conhecido como Arcipreste Paiva. Publicou também outros estudos sobre a Província. É um dos primeiros catarinenses a ter uma visão sociológica sobre Santa Catarina.

2. Pertenceu Arcipreste Paiva ao Instituto Histórico Brasileiro desde os primeiros anos da existência deste, e foi em sua revista acolhido o estudo sobre a Colônia de São Pedro de Alcântara.

Amplamente difundido, o ensaio histórico e sociológico poderá ter prestigiado as ações do Governo Central no apoio ao movimento imigratório. Fora ainda o tempo em que Dr. Hermann Blumenau circulava na região com vistas a criar também uma colônia.

De futuro o texto do Pe. Paiva foi republicado várias vezes, porquanto serve de fonte da história catarinense, além do seu valor como ensaio de sociologia.

3. No texto aqui apresentado os subtítulos são do original. Para efeito do uso da Enciclopédia Simpozio foram antepostos números.

O autor da Memória Histórica , além de se ocupar da imediata expansão da Colônia de São Pedro de Alcântara para as margens do Rio Cubatão, hoje município de Águas Mornas, diz também que uma parte dos imigrantes se estabeleceu desde o início em Campinas (entre São José e Florianópolis). Outra parte logo se deslocou para a região de Gaspar, onde os escontrou o Dr. Blumenau, razão porque foi ter ao Vale do Itajaí, para fundar sua colônia logo acima.

Para apreender a abrangência do texto de Arcipresta Paiva, também se tenha conhecimento que a então Colônia de São Pedro de Alcântara incluía Louro, do atual município de Antônio Carlos, a partir de onde se expandiu para o resto do mencionado município e mesmo para Biguaçu.

Ao chegar a estrada de Lages à sede de São Pedro de Alcântara, desviava para a chapada dos morros, para os divisores de água dos rios Maruim e Biguaçu, onde o Pe. Paiva encontrou então a capela de Santa Bárbara. A reforma do traçado colocou a continuaidade da estrada ao longo do rio Maruim, atendendo ao que parece aos conceitos do Pe. Paiva. Em consequência desapareceu a referida capela. Descendo desta chapada se atingia Louro.

Quanto à Igreja de São Pedro de Alcântara descrita pelo Pe. Paiva, foi substituída por edifício maior, no mesmo local, por ocasião do centenário da Colônia.

E. Pauli.

 


MEMÓRIA HISTÓRICA SOBRE

A COLÔNIA ALEMÃ DE SÃO PEDRO DE ALCÂNTARA (1848).

(Texto original e integral).
 

1. FUNDAÇÃO DA COLÔNIA.

A Colônia alemã estabelecida em Santa Catarina sob a denominação de são Pedro de Alcântara acha-se situada sobre a margem esquerda do rio Maruim, distrito da vila de são José, e na distância de quatro léguas e meia a oeste do arraial da mesma Vila. A sua fundação data do ano de 1829.

O governo central do Brasil, reconhecendo sem dúvida a necessidade de lançar mão da colonização, único meio para de pronto povoar o vasto território de santa Cruz, e fazei- aparecer as riquezas que se ocultam em seus fertilíssimos campos, pode engajar não pequeno número de famílias alemãs, que sucessivamente fez distribuir pelas províncias do sul.

Durante o ano de 1828 desembarcaram na Ilha de santa Catarina, vindas nos brigues Marquês de Vianna e Luíza, 146 famílias, em número de 523 pessoas, e reunindo-se mais tarde 93 indivíduos que tinham sido praças dos batalhões dissolvidos no Rio de Janeiro, assim como 19 do Batalhão 27, também dissolvido nesta Província; pode-se contar ao todo 625 alemães, que se destinaram à nova Colônia de São Pedro de Alcântara.

O Brigadeiro Francisco de Albuquerque e Mello, então Presidente da Província, empregou todos os meios a seu alcance para a realização desta obra; e mostrando ardentes desejos de vê-la concluída durante a sua administração, encarregou desta empresa o Major Silvestre José dos Passos, nomeando-o Inspetor da Colônia.

Este prestante cidadão, apesar de sua idade sexagenária, não poupou esforços em tão penosa tarefa, desempenhando a sua missão com probidade, inteligência e zelo que lhes são naturais. A Providência pareceu abençoar seus patrióticos serviços, coroando-os em breve com feliz resultado; e a posteridade algum dia avaliará com mais justiça o mérito deste venerando ancião.

O Inspetor da Colônia, apenas recebeu as ordens e instruções com que devia dar princípio à sua comissão, marchou a explorar o terreno para o futuro estabelecimento.

Logo que chegou às terras devolutas, depois de tê-las examinado minuciosamente, escolheu o lugar que lhe pareceu mais azado para servir de logradouro público ou arraial, e aí demarcou um quadro, em cujo meio deixou uma pequena praça bordada de duas ruas, que denominou, uma de São Pedro de Alcântara, e outra de Albuquerque.

Em seguida fez levantar vinte palhoças, para nelas receber os colonos, até que estes fizessem casas dentro das datas que lhes deviam ser demarcadas.

De 146 famílias que se destinaram a formar a nova colônia, 14 se deixaram ficar na cidade e seus arrabaldes, c por isso só 132 datas foram demarcadas para igual número de famílias.

Cada uma data foi regulada de 50 a 100 braças de frente, segundo o número de pessoas que continha cada família; todas, porém, com 750 braças de fundo, marcando as frentes das referidas datas a estrada que conduz à Vila de Lajes.

Os colonos, logo que chegaram a Santa Catarina, foram mandados para a Armação da Lagoinha, na costa oriental da ilha, e aí se conservaram até voltar para a Capital, e então foram residir no quartel militar do Campo do Manejo.

Ao princípio amedrontados pela notícia de que os indígenas frequentavam esses lugares que lhes eram dados para o seu estabelecimento, recusaram sair da Cidade. Este terror poderia fazer malograr a empresa se o Presidente da Província não os animasse, marcando Lima diária de 160 réis a cada alemão que subisse para o lugar da Colônia. Este incentivo teve ótimo resultado. Os colonos imediatamente anuíram à proposta e os indígenas, que infestavam aqueles sítios, foram fugindo de semelhantes vizinhos.

Hoje a Colônia de São Pedro de Alcântara floresce; e se não entregar-se ao abandono a estrada que a atravessa em direção à Vila de Lajes, nós a veremos em todos os anos crescer e progredir, pois encerra em si elementos de prosperidade, que lhe promete lisonjeiro futuro.
 
 

 
2. DESCRIÇÃO FÍSICA DO ARRAIAL DE SÃO PEDRO DE ALCÂNTARA.

A 26 de maio de 1845 fizemos ali a nossa primeira visita paroquial, e no espaço de seis dias tivemos ocasião de examinar minuciosamente o estabelecimento e admirar os costumes desses homens nascidos na antiga Germânia, e por um capricho de fortuna arrojados aos sertões e florestas do vasto Império de Santa Cruz.

O viajante que se dirige a esta colônia goza de todas as delícias que podem tornar agradável o passeio em uma manhã de primavera. Na distância de uma légua da Vila de são José, depois de caminhar por uma estrada guarnecida de aprazíveis chácaras, encontra o rio Maruim, e dando-lhe a esquerda, jamais o perde de vista, nem deixa de ouvir seu doce e brando murmúrio. Este rio, na distância de duas léguas e meia de sua foz, forma um salto com grande estampido sobre alcantilada pedreira; e o viajante neste sítio vê-se forçado a parar enquanto contempla tão maravilhoso quadro com primor desenhado pela natureza.

Depois de quatro léguas de bom caminho, posto que às vezes se torne pantanoso por ocasião de chuvas consecutivas, ao tocar no alto do morro do Cunha, divisa-se a capela, hoje matriz, edificada sobre elevada colina, e algumas casas que se acham à margem do rio.

Ao entrar no arraial da Colônia não se oferece outra vista além de uma larga rua, que conterá vinte edifícios, e cujo intervalo serve de praça, porquanto os alemães, apartando-se do risco que lhes dera o Inspetor Passos, julgaram mais conveniente estender-se pela margem do Maruim. Contudo, ainda que pequeno, o arraial apresenta um agradável e interessante aspecto maximé nos dias em que os colonos aí concorrem para a celebração dos ofícios divinos.

Por ocasião de solenidades religiosas, apenas o sino da capela convida os fiéis ao augusto sacrifício da missa, os colonos honestamente vestidos ali se dirigem. O interior da igreja é ornado com simplicidade, mas, decentemente. Na distância de dois passos da porta principal deixa-se ver uma pequena coluna de madeira sustentando uma pia de água benta e junto desta um pequeno cofre onde se recolhem as esmolas para a cera e mais despesas do altar. Ao lado do Evangelho, desde a porta até a grade que defende o altar-mor, vê-se uma ordem de banquinhos baixos, sobre os quais as mulheres se ajoelham durante a oração; e ao lado da Epístola outra do mesmo modo para os homens, ficando adiante os meninos de um e outro sexo.

Aqui reina o mais profundo e inalterável silêncio, ainda mesmo nos dias de maior concurso de fiéis.

Durante este sacrifício da missa os colonos entoam certos cantos em estilo religioso, porém variado. Então não pude deixar de sensibilizar-me a ver até os meninos de seis anos cantar de cor muitos dos Salmos, pronunciando admiravelmente as palavras latinas.

A um dos lados da igreja está o cemitério, onde, além de uma cruz plantada pelos padres missionários quando aí estiveram, observei outras muitas, porém pequenas, fincadas sobre cada sepultura, e todas enfeitadas de flores e festões de papel picado, muito principalmente as que assinalavam os jazigos de inocentes. Enquanto dura a visita paroquial, principalmente na quaresma, os colonos, ainda que a maior parte oriundos da Prússia, mas, católicos romanos, à exceção de três ou quatro famílias luteranas, não perdem um só dia de missa, e nenhum deixa de procurar os sacramentos da penitência e eucaristia, para o que desprezam a longitude três e quatro léguas, muitas vezes por caminhos intransitáveis. E para sentir que estes homens venham de tão longe exprobrar-nos a nossa indiferença pela religião, dando-nos sólidos exemplos da observância que devemos aos seus preceitos, únicos e preciosos laços que unem a sociedade humana.

Por uma resolução da Assembléia Provincial, em 1844 a Colônia de São Pedro de Alcântara foi elevada à Freguesia sob a mesma denominação, e o Revmo. Sr. Bispo Diocesano, em sua visita a esta Província, confirmou a resolução na parte espiritual e encarregou-me o regime da nova paróquia.

Neste tempo, os colonos querendo partilhar da munificência de Sua Majestade o Imperador, dirigiram-lhe um requerimento, pedindo-lhe uma esmola para a reedificação da nova matriz; o digno monarca, pronto sempre a fazer generosos donativos em prol dos templos e estabelecimentos pios, os acolheu favoravelmente, indagou com interesse acerca do estado da Colônia, e mandou entregar ao Presidente da Província certa quantia para ser aplicada ao conserto da matriz de São Pedro de Alcântara.

Os alemães ficaram encantados da afabilidade com que o Imperador os recebeu, e não cessaram de falar com louvor do augusto filho da Arquiduquesa Leopoldina; assim se exprimiam em referência à virtuosa e primeira Imperatriz do Brasil, de saudosa recordação.
 
 

 
3. A ESTRADA DE LAGES ATÉ OS ÚLTIMOS COLONOS ALEMÃES.

Antes de entrarmos na análise do caráter e dos costumes dos colonos, continuaremos a descrição do terreno povoado até os últimos moradores a oeste. Deixando o arraial da Freguesia, entra-se na estrada que guia à Vila de Lajes, a qual, como dissemos, vai marcando as frentes das terras que foram concedidas aos colonos no princípio do estabelecimento.

Ao descer de um morro bastante íngreme denominado de João Branco, oferece-se aos olhos do viajante a mais bela planície cortada pelo rio Maruim, onde, segundo a opinião de alguns, deveria ser o arraial da Freguesia. Aqui o rio, formando com sua volta uma espécie de península, deixa o viandante, que seguindo à direita vai subir o grande Morro do Galão, abundante de pedras soltas de variadas formas, e em cujo princípio corre um ribeiro de cristalinas águas.

Na distância de menos de uma légua do arraial acha-se situada uma pequena ermida com a invocação de Santa Bárbara, erguida pelos colonos moradores daquelas vizinhanças, quando alguns sacerdotes em ocasião de se acharem nesta capela a celebrar o augusto sacrifício da missa, então concorrem a este lugar não só os moradores de São Pedro de Alcântara, como os que habitam as margens e cabeceiras do rio Biguaçu, em grandes distancias dali.

Em uma das nossas visitas a esta ermida apanhamos infelizmente grandes aguaceiros e os caminhos tornaram-se intransitáveis, a ponto de os nossos animais não poderem segurar-se, pois que nos morros era perigoso caminhar, visto que as chuvas os tinham muito escorregadios, e nas baixadas não menos perigo havia em entrar nos enormes tremedais que aqui se formavam.

Nesta ocasião admirei o fervor com que aquela porção de fiéis procurava assistir os ofícios divinos. Homens, mulheres e crianças, em número de duzentas pessoas, caminhavam a pé, arrostando com prazer tão penosos incômodos. Esta ermida foi construída com muita simplicidade, porém, está decentemente ornada. Possui, como a de São Pedro, o seu cemitério, onde se nota o mesmo que descrevemos no outro. O local é péssimo, pois, além de ser cercado de morro, está ainda muito assombrado de mato e retirado de vizinhanças.

Ao sair deste sítio vai subir-se ao extenso morro de São João, o qual em alguns lugares oferece as mais belas vistas, como a da barra norte da ilha do Arvoredo, Santa Cruz, assim conto a serra por onde se estendem os lavradores; que cultivam às margens do Biguaçu.

Alguns colonos a quem couberam datas ao norte da estrada, abandonaram-nas poucos anos depois; e a isto se deve à solidão que existe; nas proximidades do caminho, logo que se entra no morro do Galão de que já falamos.

Este abandono proveio sem dúvida da falta de água corrente que os colonos tanto precisam para seus engenhos, o que era difícil encontrar nas terras que ficam ao norte.

O rio Maruim era a divisa mais própria para marcar as frentes das datas, acompanhando sempre a estrada à margem esquerda daquele como se observa, de São José ao arraial da Freguesia ; porém, infelizmente não acontece assim.

A estrada, ao subir o Galão, deixa o rio e segue sobre os morros em grande distância, donde resulta que os colonos, a quem tocaram terras ao sul da estrada, retiraram-se desta e foram procurar a margem do rio, que dista daí poucas braças a fim de fundarem seus estabelecimentos; e os que ficaram ao norte, à exceção de algum que teve a felicidade encontrar água corrente em suas terras, abandonaram as datas e foram estabelecer-se, ou nas margens do Biguaçu, ou nas do Cubatão, distante deste lugar quatro léguas e muito próximo às Caldas da Imperatriz.

Hoje é considerável essa ramificação da Colônia de São Pedro que foi estabelecer-se no Cubatão, e por isso dela nos ocuparemos um pouco.
 

 
4. RAMIFICAÇÃO DESTA COLÔNIA, ESTABELECIDA NO CUBATÃO.

[Hoje município de Águas Mornas].

No ano de 1836, onze famílias alemãs, deixando as datas que lhes tinham sido concedidas no Maruim, pediram e obtiveram outras, posto que mais limitadas, nas margens do rio Cubatão. Aqui reunidos, os novos povoadores começaram por prestar não pequeno serviço, fazendo com a sua presença desaparecer os indígenas que, ainda de vez em quando, infestavam esses lugares.

Feitas algumas derrubadas, formaram como uma pequena colônia, que hoje promete esperançoso futuro, não só pela fertilidade das terras e índole dos seus cultivadores, como pela vizinhança em que está com a nova Colônia Santa Isabel, que se vem estabelecendo nas margens do Rio dos Bugres e proximidades da serra da Boa Vista.

O arraial da Capela das Dores da Vargem Grande, assim denominado por ser Nossa Senhora das Dores o orago da ermida que aí erigiram os colonos, está situada na margem direita do Cubatão, em um ameníssimo descampado, ondeado de pequemos outeiros e lombas, distando da Capital seis léguas e meia, e cinco da Vila de São José.

A viagem à esta ermida é na primavera um passeio excelente, e durante o qual o viajante goza de um ar livre e balsâmico, devido às viçosas árvores que ornam a estrada de um e outro lado. Neste delicioso trajeto jamais se perde de vista o bem conhecido Cubatão que, banhando estas terras com suas águas às fertiliza, tornando-as as mais produtivas da Província.

A estrada que sempre acompanha a margem esquerda do rio, maximé em tempo seco, oferece aos colonos cômodo transporte de gêneros de suas lavouras, dos quais parte é conduzida em cargueiros até o salto do mesmo rio fronteiro à fazenda de Dona Vitória, e aí embarcam em canoa até a Vila de São José, ou em direitura à Capital, e parte vai nos mesmos animais até o lugar de seu destino.

Em meia viagem deste estabelecimento deixa-se ver sobre uma elevada colina a casa principal da fazenda de Santa Ana, pertencente ao cidadão Joaquim Alexandre de Campos. É este lugar sem dúvida um dos mais pitorescos do Cubatão. Aqui descansaram suas Majestades e a imperial comitiva tanto à ida como à volta no passeio que fizeram a Caldas da Imperatriz. Esta fazenda possui igualmente um decente oratório, que muito utiliza aos moradores do Cubatão, sempre que aí se dirige o Vigário de São José a administrar os sacramentos aos seus paroquianos.

Na distância de uma légua e meia deste lugar estão situadas as Caldas do Norte, menos procuradas que as da Imperatriz, talvez pelo pouco trato que têm recebido, continuamente inundadas de charcos de água fria, que lhes ficam vizinhos, ao que somente se deve atribuir o seu inferior grau calorífico.

Entretanto, é inegável ser o local em que se acham incomparavelmente melhor que as do sul ou da Imperatriz, pois oferece cômodo o plano terreno para um grande estabelecimento. É de esperar que o governo, concluída a obra do hospital de Caldas da Imperatriz, trate de providenciar o seu melhoramento, a fim de aproveitar-se mais essa preciosa terma com que a natureza mimoseou a nossa Província.

A poucas braças de distância deste sítio começa o grande morro de Nossa Senhora, único estorvo que dificulta de algum modo os colonos, principalmente com mau tempo, à condução dos gêneros de sua lavoura. Este obstáculo, porém, atualmente intenta-se remover, e poder-se-á efetuar com facilidade, fazendo-se uma muda da estrada em diferente direção.

Na descida desse morro o arraial da capela das Dores oferece aos olhos do viajante o mais aprazível quadro, não escapando à primeira vista uma só de suas casas edificadas sobre colinas. Este local, mais desassombrado de morros que aqueles que o precedem, parecendo ao longe uma extensa planície, deu motivo a que o denominassem Vargem Grande. O seu terreno é, em pequenas distâncias, cortado de ribeiros que correm a unir-se ao Cubatão, aqui menos veloz em sua carreira, como para contemplar a beleza deste sítio encantador.
 

 
5. DESCRIÇÃO DA CAPELA E SUAS SOLENIDADES RELIGIOSAS

Os colonos, eminentemente religiosos, logo que chegaram a este lugar, trataram de erigir uma ermida, onde fizeram seus exercícios de piedade e religião, constituindo por seu chefe o alemão Nicolau Henken (leia-se: Heinzen), ancião de reconhecidas virtudes, pai de numerosa família e que, como mais instruído, os dirigia e aconselhava à prática do bem, merecendo de todos os colonos respeito e veneração.

Esta capela, posto que construída com paredes de pau a pique e de pequenas dimensões, sobressai com elegância no alto de uma colina, dominando todos os aposentos que lhe ficam em torno. No seu interior apresenta o mesmo aspecto que a de São Pedro de Alcântara, simplesmente ornada, porém, com decência.

O Excelentíssimo e Reverendíssimo Prelado Diocesano em sua visita autorizou-nos a benzer esta capela e um lugar para cemitério, a requerimento dos colonos. Em virtude deste despacho dirigimo-nos à Vargem Grande a 12 de maio de 1846 e no dia seguinte teve lugar a solenidade da bênção, finda a qual celebramos missa a que assistiram os colonos; confessaram-se, comungaram, sem que deles um só faltasse, guardando em todos estes atos aquele respeito e acatamento que costumam em ocasiões semelhantes. Na tarde deste dia rezaram véspera diante da cruz que se tinha plantado no adro da ermida. Era admirável o fervor com que eles, acompanhados de suas famílias, e as mulheres trazendo ao colo os filhos ainda de peito, entoavam os cânticos sagrados, parte em latim, parte na língua vernácula.

Findos os atos religiosos, um dos colonos foi gravar no tronco de grossa árvore uma inscrição em português para perpetuar a memória desta solenidade, assegurando que o dia 13 de maio seria para eles, em todos os tempos, um dia de guarda. Retiramo-nos penhorados de tanta bondade; e para animá-los a prosseguirem no melhoramento material da capela, lhes concedemos quaisquer rendimentos que se arrecadassem ali por espaço de dois anos, proveniente dos enterros que se fizessem no novo cemitério.

No dia 10 de novembro do mesmo ano fomos outra vez convidados à capela das Dores, e tivemos o maior pesar quando soubemos que era para celebrar uma missa por alma do bom Nicolau, cujas virtudes havia pouco tempo tínhamos admirado.

A povoação inteira estava sepultada no luto e consternação, apresentando aquele sítio um verdadeiro contraste do quadro risonho que nos oferecera a seis meses. O ato da missa passou-se no maior silêncio, interrompido apenas por sentidos soluços, que bem exprimiam a dor de que os colonos se achavam possuídos. Em seguida fizemos uma exortação, porém, pouco tempo nos demoramos, porque o copioso pranto dos assistentes nos comoveu em extremo, e vimos que até as crianças lamentavam a morte de seu mestre e benfeitor. Pedro Henken (leia-se: Heinzen), filho do finado, possuindo boas qualidades para desempenhar a missão de que seu pai estava encarregado, passou por escolha dos colonos a fazer as vezes daquele varão que tanto trabalhou para a prosperidade deste estabelecimento, maximé na parte relativa à edificação moral da mocidade, em que era assaz solícito.
 

 
6. VANTAGENS DO CUBATÃO PARA ESTABELECIMENTOS COLONIAIS.

Os gêneros de lavoura destes alemães são os mesmos que cultivam os que habitam a s margens do Maruim na Freguesia de São Pedro de Alcântara, como veremos quando se tratar desta espécie. Possuem engenho para o fabrico do açúcar (que aqui é perfeitíssimo), farinha de mandioca, de milho, etc., e dos quais alguns são movidos por água.

Em ocasiões de safra ajudam-se mutuamente, reinando entre eles a mais perfeita harmonia.

Não podemos deixar de observar aqui que esta ramificação da Colônia São Pedro de Alcântara estaria hoje mais aumentada que o mesmo tronco, se não fossem as datas de terra que alguns brasileiros têm obtido nas estremas das dos colonos e que sem as cultivar impedem que aqueles se estendam.

Estes obstáculos devem ser removidos de princípio, quando o Governo tenha de marcar os terrenos para o estabelecimento de colônias. Reconheço que os brasileiros devem ter igual direito a obterem datas de terras devolutas; mas, estou convencido também que estas terras, quando se concedem, é para o fim de serem cultivadas, e nunca para conservá-las em mato virgem, na expectativa de achar ocasião oportuna de vendê-las com grande lucro, obstruindo, entretanto, ao adiantamento de uma povoação interessante que quer estender-se. É isto uma especulação bem pouco louvável.

Quando avençamos que este ramo poderia estar hoje mais florescente que o próprio tronco donde se desmembrara, fundamo-nos em que, além de outras comodidades, o rio Cubatão fertiliza melhor as terras adjacentes que o Maruim; e, enquanto este é único, não falando no Biguaçu pela sua distância, àquele confluem os rios Forquilhas, Águas Claras, dos Bugres, e um sem número de ribeiros e cachoeiras, que banham as suas imediações. Acresce que as terras do Cubatão parecem conservar a sua fortaleza por mais tempo e os seus frutos dão com mais abundância e diversidade.

Finalmente, posto que estes alemães mostrem o mesmo caráter e costumes que possuem os que habitam a freguesia de São Pedro, é notável que aqueles tem a mais decidida inclinação ao trabalho e quase nunca se entregam a divertimentos; e uma prova bem convincente é o quanto eles têm feito, atento o seu pequeno número e o pouco tempo que para aqui vieram estabelecer-se. Contudo, uns e outros merecem iguais encômios de todo o brasileiro que se interessa pelo engrandecimento de sua pátria. O arraial da Capela das Dores conta hoje mais de quarenta famílias, satisfeitas e em boa inteligência com seus vizinhos; pelo que deve esperar-se um futuro ditoso para este utilíssimo estabelecimento.
 

 
7. CARÁTER E COSTUME DOS COLONOS.

Os colonos de São Pedro de Alcântara são em geral industriosos, amantes do país que os abriga e inclinados ao trabalho, ao qual começam a aplicar-se na mais tenra idade.

Amigos do seu cômodo, nada valem aos seus olhos as diferentes modas do trajar. Tendo a cabeça coberta e os pés agasalhados de grossas meias e impenetráveis sapatões, aparecem em todo lugar e com desembaraço, trajando vestidos talhados pelo mesmo molde de que usavam quando aqui chegaram a perto de vinte anos.

Nenhum colono deixa de entender mais ou menos deste ou daquele ofício mecânico; e a maior parte, além de falar sofrivelmente o português, sabe ler, escrever e contar no seu idioma, tendo consigo o cuidado de possuir sempre consigo um mestre alemão para a instrução primeira dos filhos. Muitos também costumam mandar os filhos frequentar escolas brasileiras.

Homens sumamente francos, maximé para com os brasileiros, conservam constantemente abertas as portas de suas casas, e aí todos entram sem outra formalidade que a de tocar a aba do chapéu, pois os alemães poucas vezes o tiram da cabeça. Qualquer indivíduo, ainda que desconhecido seja, pode entrar na casa do colono e percorrê-la toda, sem que isto seja por ele estranhado.

São amigos de passar bem e a avareza entre eles é desconhecida; contudo, reina ali um costume, que de alguma sorte desmente a franqueza e a bondade que os caracteriza, a saber: qualquer colono, comendo ou dormindo em casa de outro, tem, no dia seguinte, de pagar hospedagem, salvo se é parente próximo do dono da casa; entretanto, se o hóspede é brasileiro tratam-no com o maior agrado e não lhe exigem dispêndio algum. O motivo desta diferença, dizem eles, é o antiquíssimo costume do seu país entre a gente do campo, costume que não exercem com os brasileiros, porque estes também os hospedam com afabilidade, sem que precisem pagar a comida ou aluguel da cama em que dormiram.

Torna-se digna de atenção a maneira porque um casal divide entre si os trabalhos diários. O marido desmata, roça e planta; a mulher colhe e carrega sobre os ombros, seja qual for a distância; e muitas vezes enquanto esta caminha longo espaço, gemendo sob o peso da carga, aquele, fumando em seu comprido cachimbo, marcha de mãos nos bolsos até encontrar comprador aos seus gêneros.

Os filhos de um e outro sexo, apenas deixam os desvelos maternos, começam a partilhar o trabalho de seus pais; acordam-se ao romper do dia e tem a seu cuidado tratar dos animais.

Nos dias em que se reúnem no arraial da Freguesia, depois de findos os ofícios divinos, tratam de divertir-se ou no jogo da bola ou dançando a favorita valsa, para o que aparece de pronto uma flauta ou clarineta, único instrumental de que usam, e dão princípio ao baile.

Na grande sala, que ali sempre tem toda a casa, ainda que pequena, valsam indistintamente sem diferença de sexos ou idade. Qualquer pessoa, ainda que não pertença àquela comunidade, pode entrar independente de convite e tomar parte no divertimento.

O músico é que interrompe a valsa, cessando de tocar, e logo passa a receber os donaativos que cada qual lhe oferece, segundo a sua generosidade.

Durante o festim esgotam-se uma infinidade de copos de vinho, comprado ao dono da casa, que é sempre quem lucra com os bailes. Contudo, reina entre eles a mais perfeita união; a ordem jamais se altera, e se alguém se embriaga vai imediatamente sobre alguma calçada pagar a Morfeu o tributo da intemperança. São verdadeiramente unidos entre si; para prova do que, basta refletir que, residindo eles a tantos anos naquele lugar, ainda até hoje não consta que tenha havido ferimento, roubo ou qualquer outro atentado contra o seu semelhante.

Uma grande parte destes colonos militaram durante a revolução européia sob as bandeiras de Bonaparte, e mostrando ainda hoje especial dedicação às armas, entretêm o viajante com a narração de suas aventuras, onde deixam aparecer o entusiasmo de um gênio guerreiro. O nome de Napoleão é pronunciado por eles com prazer indizível, e as salas de suas casas são ornadas de quadros representando diversas façanhas do grande homem.

As suas conversações jamais versam sobre matérias políticas, e nem tem, a semelhança de quase todo o estrangeiro, a mania péssima de envolver-se nos negócios políticos do país em que se agasalha.

Indiferentes à promulgação de novas leis, mudanças de autoridades, criações de impostos e outras inovações de que é susceptível o nosso sistema de governo, cuidam somente no seu negócio ou lavoura, e estimam a prosperidade do lugar em que habitam. Esta preciosa condição só por si bastaria para eles merecerem as simpatias dos catarinenses.
 

 
8. SEU COMÉRCIO, AGRICULTURA E POPULAÇÃO

O comércio da Colônia é hoje algum tanto considerável, possuindo o arraial algumas casas de negócio e várias oficinas onde os introdutores de gado e vários viajantes, que descem da Vila de Lajes, se refazem do necessário. Algumas vezes os que comerciam neste gênero é ali que vão esperar os tropeiros com o fim de efetuarem uma negociação mais vantajosa.

Os colonos conduzem os seus gêneros em cargueiros até um dos arrabaldes da Vila de São José, denominado Praia Comprida. Aqui existe um não pequeno número de alemães que, mais inclinados ao comércio, deixaram a Colônia e vieram estabelecer-se com negócio.

Este é sem dúvida um dos lugares da Vila que encerra maior comércio e muito tem concorrido para o incremento da mesma. Conta já um grande número de armazéns, oficinas, e a maior parte de seus moradores possuem lanchas, botes ou canoas que diariamente navegam para o porto da Capital, levando os gêneros dos colonos que descem de São Pedro de Alcântara.

Os seus edifícios tornam-se notáveis pela maneira de sua construção: as peças do madeiramento são encravados umas nas outras e presas com tornos de cerne, dispensando dest'arte toda a sorte de pregos. O seu repartimento interior é igualmente de madeira bem trabalhada.

Os colonos ao chegar a este lugar com seu cargueiro embarcam os gêneros nas lanchas de que nós falamos e transportam-nos à Capital, onde os vendem, abastecendo-a assim dos gêneros de primeira necessidade. A tarde voltam à Praia Comprida, que poderá distar légua e meia da Cidade, e recolhem-se à Colônia, levando consigo efeitos para negócio e próprio consumo.

Os gêneros principais de sua lavoura são a batata, o feijão, a mandioca e o milho de que fazem excelente farinha; cultivam igualmente a cana de açúcar, que dela fazem aguardente.

São muito amigos de criar, e por isso um dos artigos mais fortes do seu mercado é a carne de porco e a manteiga, e que vem diariamente com abundância.

Na Vargem dos Pinheiros, três léguas acima do arraial, produz espontaneamente a verdadeira erva mate em grande quantidade; porém, como os colonos não usam desta bebida e talvez ignorem o seu fabrico, não tratam de admiti-la no seu mercado, e apenas algum nacional que ali reside costuma ir buscar e, depois de preparada, levar em pequenos jacás ao mercado da capital.

A população da Colônia conta atualmente de 145 famílias em número de 700 almas, não contando neste número muitas famílias que têm mudado o domicílio para as margens dos rios Biguaçu, Tijucas e Itajaí, e muitos que hoje residem na Vila de São José e na Capital.

Se os colonos estivessem todos reunidos no ponto para onde foram mandados, de certo poder-se-ia contar na Colônia São Pedro de Alcântara perto de 3.000 pessoas.

Nesta freguesia existem igualmente para mais de 50 famílias brasileiras, as quais pela maior parte composta de lavradores diligentes, muito concorrem para o engrandecimento daquela.

Esta estatística foi calculada depois que por lei provincial deste ano foram alongados os limites a leste da Freguesia de São Pedro de Alcântara, e por isso deve discordar da que existe em poder do Excelentíssimo Senhor Presidente da Província, tirada antes daquela lei.
 

 
9. A COLÔNIA ALEMÃ É A QUE MAIS CONVÉM AO BRASIL.

Pela exposição que temos feito, forçoso é concluir que não pequena utilidade tem tirado a Província de santa Catarina com o estabelecimento da Colônia São Pedro de Alcântara em seu território. Os sertões que lhe ficam ao sul e oeste têm sido descortinados pela foice dos lavradores laboriosos e constantes, deixando aparecer, entre florestas de preciosas madeiras de construção, terras próprias para liberalizar-nos todos os frutos de que abundam a Europa e a Ásia.

Os indígenas que outrora infestavam o continente, a ponto de se aproximarem da Capital em distância menor de cinco léguas, amedrontados pela vizinhança dos colonos, têm abandonado esses lugares, de modo que um só não aparece na longa estrada de 34 léguas que comunica a Vila de São José com a de Lajes.

Hoje o viajante caminha tranquilo, não teme a flecha do bugre; e o lavrador, habitando solitário esses sertões, goza das delícias do campo, sem recear perigos do ermo.

Com a sua agricultura eles têm igualmente concorrido para animar o comércio da Província; e a abundância de víveres se derrama por seus habitantes, principalmente na Capital e na Vila de São José, aonde os colonos diariamente afluem, conduzindo os frutos do seu trabalho.

É também fora de dúvida que a população da Província tem tido aumento considerável no decurso de quase vinte anos que temos a ventura de possuir esta colônia, composta de indivíduos industriosos, pacíficos, amigos do trabalho, e que longe de servir-nos de peso, pelo contrário têm concorrido em grande escala para o engrandecimento do país que abriu os braços para hospedá-los.

À vista das vantagens que esta Província tem obtido com a colônia alemã, atendendo-se ao admirável progresso com que vão florescendo a de São Leopoldo e a de São Pedro de Alcântara, aquela na Província do Rio Grande do Sul, compostas da mesma gente, forçoso é confessar que a colonização alemã é a que unicamente pode utilizar o Brasil.

A Província de Santa Catarina, pela experiência de muitos anos, está habilitada, mais que nenhuma outra, para confirmar o princípio que avençamos. Nela se tem estabelecido colônias tiradas de diferentes Estados da Europa, e qual a que tem progredido à exceção da alemã?

Onde estão as colônias francesas do Saí, sarda e belga-brasileira? A primeira expirou no berço e as duas últimas estão quase extintas. Estas colônias, vivendo em continuada luta com os empresários, vão-se por si mesmas definhando, e seus membros dispersos, ou evadem-se ou preferem antes sofrer na cadeia as penas da lei que cumprir as condições do seu contrato.

Portanto, ainda uma vez confessamos, os alemães são industriosos, sinceros, e a constância que os caracteriza não os deixa desanimar à vista do trabalho. São estes os verdadeiros colonos de que o Brasil precisa, para cujo engajamento se devem fazer os maiores sacrifícios.

Quando já estava adiantado este nosso trabalho, vimos com prazer desembarcar na Capital desta Província uma porção de famílias alemãs, em número talvez de 280 indivíduos, a fim de estabelecerem-se parte nas terras nacionais da Armação da Piedade, e parte para formar uma outra colônia com a denominação de Santa Isabel nas imediações do Rio dos Bugres e Boa Vista, abrindo-se ao mesmo tempo uma nova estrada deste sítio à Vila de Lajes.

É isto sem dúvida uma prova de que o Governo brasileiro se interessa pela ventura dos povos, cujos destinos lhe estão confiados.

Com o estabelecimento desta nova colônia e o melhoramento de vias de comunicação da Vila de São José com a de Lajes, - sem que por isso se abandone a antiga estrada do Maruim, cuja conservação é absolutamente necessária ao incremento da Colônia São Pedro de Alcântara, e para o que a Assembléia Provincial de 1848 acaba de consignar uma quantia,- o comércio desta Província dará um passo gigantesco.

Os colonos, homens ativos, industriosos, prósperos; e os catarinenses gozando das vantagens que lhes devem resultar do melhoramento do comércio e agricultura do país, bendirão ainda uma vez ao Governo que, conhecedor das necessidades desta Província, sabe empregar os meios adequados a elevá-la ao grau de prosperidade e grandeza a que a destinou a natureza.

Na verdade, obter-se a cultura de trinta e tantas léguas de fertilíssimas terras; ver-se povoadas de um e outro lado essas estradas, por onde entra comodamente no interior da Província o gado vacum, cavalar e muar; encontrarão os viajantes durante a longa jornada casas de negócio, onde se refaçam do preciso, pasto para descanso das tropas, e em qualquer parte compradores aos seus gêneros; são sem dúvida uma soma de benefícios que formarão em poucos anos um manancial de riquezas para a Província de Santa Catarina que, encerrando em si todos os elementos de grandeza, só necessita de braços que os desenvolvam.
 

 
10. MEIOS DE ANIMAR A COLONIZAÇÃO E PROMOVER O SEU INCREMENTO.

Uma lei que continuando a isentar os colonos de certos ônus lhe concedesse gozarem dos direitos de cidadãos brasileiros, seria de reconhecida utilidade para o Brasil.

Animados por este incentivo em ocasiões de engajamento para colonizar, os estrangeiros mais espontaneamente viriam procurar as nossas terras e, então, teríamos a satisfação de ver o território brasileiro povoado de colonos industriosos, de braços úteis à agricultura, e não de miseráveis aventureiros obrigados a abandonar o pátrio solo pela força da necessidade, e algumas vezes para se subtraírem à vigilância da justiça.

Na sessão de 1848 o Exmo. Sr. Conde de Caxias, Senador pela Província do Rio Grande do Sul, solícito em promover o bem estar de seus comitentes, propôs e obteve do Senado uma resolução para que fossem considerados cidadãos brasileiros os alemães das colônias de São Leopoldo e São Pedro de Alcântara, estabelecidas naquela e nesta Província.

Foi um ato de reconhecida justiça e que deveria estender-se a todas as colônias que no Brasil contassem um certo número de anos em estado de adiantamento notável, e que delas colhessem vantagens as províncias em cujo território se achassem estabelecidas.

A Colônia São Pedro de Alcântara, fundada a 20 anos em Santa Catarina, apesar da emenda que nos consta oferecera à resolução o Exmo. Sr. Senador por esta Província, não mereceu obter do Senado igual concessão. Contudo, resta-nos a esperança de que algum dia o corpo legislativo, melhor informado do mérito destes colonos, não os deixará por mais tempo privados dos direitos que assistem ao cidadão brasileiro; pois é justo que aqueles que conosco trabalham tenham parte também nos nossos gozos.

A falta de sacerdotes na Província de Santa Catarina tem sido de alguma forma um estorvo ao melhoramento moral e mesmo material das nossas povoações.

A Colônia São Pedro de Alcântara, elevada a freguesia por lei provincial de 1844, e no ano seguinte confirmada pelo Exmo. Sr. Bispo Diocesano, foi anexada à Matriz de São José, e até o presente assim se tem conservado por falta de um sacerdote a quem seja confiado o seu regime.

Todas as vezes que o Vigário de São José visita a nova freguesia é recebido com a maior satisfação. O acolhimento respeitoso que lhe prestam, o grande concurso aos ofícios divinos e participação dos sacramentos, a alegria que manifestam durante a visita paroquial, são argumentos incontestáveis do quanto apreciam os exercícios da religião e consequentemente, quanto sentem a privação de um cura d'almas que efetivamente os conforte com as doçuras do Evangelho, e por eles distribua os dons de que gozam todos os fiéis no seio da religião católica. A Capela das Dores não deixa de sentir igualmente a falta de um capelão, e o mesmo acontece às novas colônias que se forem estabelecendo, maximé as que ficarem mais remotas da matriz da Vila. Praza aos céus que o Governo Brasileiro, considerando a religião como um poderoso elemento de engrandecimento e civilização para os povos, não deixe de providenciar sobre a grande falta de ministros do culto que experimentam não só as colônias, como grande parte das freguesias da Província.

Dando fim a este tosco trabalho, ficamos dirigindo ao Céu ardentes votos para que se conservem no Governo Imperial as lisonjeiras disposições que têm manifestado em proteger com estabelecimentos coloniais esta bela porção de terras de Santa Cruz; e que o Exmo. Sr. General Antero José Ferreira de Britto, seu digno Presidente, que tanto se tem desvelado pela ventura dos catarinenses durante a sua administração, continue a reclamar do Governo Central aqueles meios de que a Província, por suas escassas rendas, não pode dispor, mas, que são indispensáveis para o desenvolvimento dos germes de prosperidade com que a brindou a próvida natureza.

Vila de São José na Província de Santa Catarina, em 20 de maio de 1848.

O Vigário

Joaquim Gomes de Oliveira Paiva.

 


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