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ENCICLOPÉDIA    SIMPOZIO

(Versão em Português do original em Esperanto)
© Copyright 1997 Evaldo Pauli

INTERPRETAÇÃO SOCIOLÓGICA

DO CATARINENSE


Autor:
Evaldo Pauli
Prof. da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC.
Membro: da Academia Brasileira de Filosofia, RJ.
do Instituto Histório e Geográfico de SC.
da Academia Catarinense de Letras.

§ 4. COLONIZAÇÃO ALEMÃ NO SUL CATARINENSE. 94sc1324.

          325. No Sul de Santa Catarina uma presença alemã por expansão. Embora significativa a presença alemã no Sul do Estado se fez por reemigração, raramente por emigração direta.
          Os núcleos germânicos principais no Sul se deram distintamente:
         - sobre o Rio Mampituba (a partir de São Pedro das Torres);
         - sobre o Rio Braço do Norte (a partir São Ludgero e Braço do Norte),
- sobre o Rio Capivarí (notando-se Armazém),
         - sobre o Rio Mãe Luzia (com destaque Forquilhinha).

          326. Imigração alemã a partir de São Pedro das Torres, RS. Ainda que a população de origem alemã do Sul do Estado de Santa Catarina proceda principalmente por derivação da região da Grande Florianópolis, aconteceu já cedo uma pequena penetração a partir da Colônia alemã do Rio Grande do Sul.
           No Rio Grande do Sul fundava-se a Colônia Alemã de São Leopoldo, a primeira daquele Estado, em 1824. O processo de penetração alemã no território catarinense, a partir do Rio Grande do Sul, está a acontecer, a começar de 1826, por expansão da colônia de São Pedro das Torres (Pirataba), situada às margens do rio Mampituba, que faz a divisa das então duas províncias.
Dadas as divergências criadas por dois pastores evangélicos, parte dos imigrantes alemães destinada ao Rio Grande do Sul veio em 1826 para  Glória (depois Pirataba), sobre o Rio Mampituba. Desenvolvendo-se o povoado em ambas as margens, ficou o cemitério de então, situado do lado de Santa Catarina, em local hoje chamado Glorinha.
O povoado da parte do Rio Grande, mais se desenvolveu e passou ao nome Glória, depois alterado para Pirataba, e fez parte do município de Torres, RS.
           Situado o núcleo na margem direita do rio Mampituba, dezenas de famílias não demoraram a passar, em épocas diferentes, para a margem esquerda, de Santa Catarina.
          Os primeiros alemães do Rio Grande do Sul a se estabelecerem nas margens do Rio Mampituba, penetrando os atuais municípios catarinenses de Passo de Torres, São João do Sul, Santa Rosa, Jacinto Machado, Sombrio, Turvo e Araranguá, são representados pelos nomes de família: Lummertz, Raupp, Paulus (Paulo), Magnus, Kreutzberg (Crasborges), Clesar, Emmerich (Emerin) e outros.
          Curiosamente, alguns dos descendentes de alemães que se misturaram com a população lusa, passaram a grafar seus nomes erradamente, e não raro passaram a ser também analfabetos. 
           
A penetração da colônia alemã a partir do Rio Mampituba, ao se estender ao vale do Rio Araranguá, encontrou em Forquilhinha, perto de Criciúma, o grupo mais avançado da expansão alemã a partir do Grande Florianópolis. Mas a penetração sulina continuará na direção norte, constatando-se mesmo na Capital do Estado.
Adiante-se que a penetração da colônia alemã do Rio Grande do Sul continuará, por outras vias, a acontecer no futuro, - migrando para o Oeste de Santa Catarina (vd) e de lá também para o litoral, inclusive do Oeste para o meio urbano de Florianópolis.

            327. A reimigração alemã para o Sul Catarinense a partir da Grande Florianópolis, se deu a partir da década de 1870, ocorrendo então se instalarem sobre o alto e médio curso do Rio Braço do Norte (afluente do Rio Tubarão), em São Ludgero, ou Braço do Norte, na bacia do Tubarão (vd), em busca de melhores oportunidades.
A reimigração interna das novas populações alemães da região do Grande Florianópolis também se estabeleceu bastante cedo, em vista das limitações da região para a agricultura. Em 1836, enquanto alguns iam para Gaspar outra corrente tomou a direção do Sul do Estado de Santa Catarina, estabelecendo pela volta de 1870 um núcleo em São Ludgero, depois difundindo-se amplamente pelos vales do Capivarí e Braço do Norte, afluentes do Rio Tubarão, distendendo-se ainda mais longe até Forquilhinha, para além de Criciúma.

A opção em direção do Sul do Estado a partir da Grande Florianópolis se deu inicialmente da Colônia de Teresópolis (vd),onde havia notável presença de westfalianos.
A propósito diz uma observação de Mons. Frederico Tombrock, patriarca espiritual de São Ludgero: “Estes habitantes do Rio Salto ficaram sempre muito pobres, porque o terreno deles não prestava. Por  intervenção do Revmo. Padre Guilherme Roer (Vigário de Teresópolis), o  Governo Imperial generosamente em recompensação do terreno pedregoso e mau do rio Salto deu-lhes as terras muito superiores do Braço do Norte para cultivar (Livro doTombo de São Ludgero, fl. 1)
Ocorreu também um fluxo paralelo, - conforme se adiantou, - de reimigração para sobre o Rio Capivari, também afluente do Rio Tubarão. Ali se formaram núcleos germanizados como Armazém, São Martinho.
A mencionada superioridade das terras do Sul, sobre as da região de Florianópolis, Palhoça e São José, provocou uma corrente imigratória interna que atraiu principalmente aos moradores de Teresópolis, fato que explica a predominância dos alemães westfalianos no Sul do Estado. 
Também  imigraram famílias de São Pedro de Alcântara ali por volta da Proclamação da República. Os Rohden, Junckes, Michels, Arns, derivam do mencionado núcleo de São Pedro de Alcântara.
Henrique Pauli e outros, também de São Pedro de Alcântara, retornaram por causa da inquietação provocada pelas correrias dos índios e foram em busca do Alto-Biguaçu, hoje Antônio Carlos.
Desta forma se misturaram, no Brasil, os subgrupos étnicos vestfalianos e renanos que na Alemanha se conservavam distintos. Um bom faro linguístico pode distinguir pelos sobrenomes quais são os nomes renanos, quais os nomes westfálicos.

328. Forquilhinha alemã. Os imigrantes estabelecidos no curso médio do Braço do Norte e Capivari, prosseguiram em novas migrações até atingirem as margens ubertosas dos afluentes do Rio Araranguá.
Em 1913 um grupo penetrava em Forquilhinha e São Bento, sobre o Mãe Luzia, e outro ia colocar-se sobre o Rio Manuel Alves, no ponto do confluente Rio Jundiá.
De Jundiá  procederam famílias alemãs industrialistas de Araranguá, entre os quais se destaca a dos Haan. Esta procura das terras sulinas veio confirmar sua não inexpressiva fertilidade.
A tendência da reemigração alemã para o Sul a partir da Grande Florianópolis foi sempre reduzida, e se inverteu depois o Vale do Itajaí e Oeste do Estado.
           
            329. Alemães a partir de Grão-Pará. A colônia Grão-Pará fundada no sul a 8 de julho de 1882, apresentava em 1891, a população de 5.280 pessoas das mais diversas procedências sendo alemães 462, italianos 559, Espanhóis 480, Russos 434, Belgas 310, Ingleses 305, Holandeses, Polacos 642, Suecos 110, Austríacos 40, nacionais 1637, franceses 35, portugueses 1, diversos 70. Esta colônia incluía “Rio Braço do Norte”, “Rio Fortuna”, “Rio Sete”, que se  conhecem como prósperos núcleos alemães, e que também receberiam contingentes das migrações provenientes de Teresópolis já desde 1873.
                       
         § 5. ALEMÃES NO PLANALTO DERIVADOS DOS ESTADOS VIZINHOS. 94sc1331.
           
332. São Bento do Sul, sobre o Planalto Norte, surgida 1873, foi também uma realização da Sociedade Colonizadora de Hamburgo (vd), porque até lá se estendia o dote da Princesa Dona Francisca e seu consorte Príncipe de Jeanville.
          A operosidade da colônia tornou São Bento do Sul destaque no contexto das cidades de Santa Catarina.
 
333. Alemães no Planalto Norte de SC, derivados a partir do Paraná.
Quando o Paraná era ainda parte da Província de São Paulo, até 1853, os imigrantes alemães se estabeleceram em diferentes localidades, que, depois de resolvida a questão de limites (1917), vieram para sob a administração catarinense.
          Dividido o município de Rio Negro, o lado catarinense foi ter o nome de Mafra. Ora, exatamente em Mafra ocorrera, em fevereiro de 1829, a instalação de um núcleo de imigrantes alemães. Ali também se situava a primeira capela que serviu à população de ambos as margens do rio.
          Outros municípios mais do Norte catarinense, situados ao Sul do Rio Iguaçu, quando do povoamento inicial da região a partir do Paraná, também foram alcançados por imigrantes alemães.
          A penetração paranaense de alemães se fez sentir até Santa Cecília, região bem adentrada do Planalto Norte do Estado de Santa Catarina.
 
          334. Alemães no Planalto de Lages e Oeste Catarinense. Aconteceu uma corrente imigratória alemã para o Planalto a partir da Grande Florianópolis  e demais regiões do Litoral. Alcançaram assim os alemães do litoral inclusive Lages, todavia sobretudo as regiões da mata, próprias para a agricultura, como do Rio Canoas e Vale do Rio do Peixe.
          Em Lages nasceu o futuro Governador Felipe Schmidt (vd 231).
          Em Ábdon Batista, sobre o Rio Canoas, é frequente a população de origem alemã.
          E assim o mesmo acontece em Joaçaba, sobre o Rio do Peixe, e municípios em torno.
         
336. Penetração de alemães Rio-Grandenses no Oeste do Estado, a começar de 1900. A ascensão de italianos e alemães para o Oeste Catarinense pode ser vista como expansão dos excedentes populacionais das colônias italianas e alemãs e do Rio Grande do Sul
Notam-se particularmente os alemães nos municípios de Itapiranga, Mondaí, São Carlos, Palmitos. Também foram expressivamente penetrados Mas existem ainda expressivamente penetrados em todos os demais municípios do Vale do Rio do Peixe.

          A densidade germânica oestina ocorreu principalmente ao longo do Rio Uruguai, onde se alinham, por exemplo, São Carlos, Palmitos, Mondaí, Itapiranga. Mas existem ainda alemães expressivamente penetrados em todos os demais municípios do Oeste Catarinense.

Os descendentes alemães vindos do Rio Grande do Sul traziam uma boa tradição agrícola da colônia alemã do vizinho Estado, além de haverem sido colocados em boas terras e dentro de um planejamento previamente realizado pelas Companhias Colonizadoras que operavam a partir do Rio Grande do Sul.
 De outra parte, havendo sido a cobrança feita sobretudo a partir de fora do Estado, ela representou por algum tempo uma sucção para fora do Estado. Isto não veio a ocorrer em todo sentido, quando os empreendedores vieram a reinvestir na mesma colônia que fundavam.
 
          337. Note-se que os alemães do Oeste de Santa Catarina, quer de procedência catarinense, quer rio-grandense foram de origem predominantemente renana. Ao se reencontrarem, se reconheceram pelo mesmo dialeto.

            338. Austro-alemães, em especial tiroleses em Treze Tílias (= Dreizen Linden). Iniciada em 1933, sob o patrocínio pelo Ministro da Agricultura da Áustria, Andreas Thaller, sobre o Rio do Peixe, a colônia de Treze Tília teve especial destaque étnico e cultural, inclusive e econômico. Como se sabe, a região do Tirol se situa entre a Áustria e a Itália dividida entre os dois países. Para Santa Catarina vieram emigrantes de ambos os lados.
            A população de Treze Tílias desde logo se fez notar pela sua elevada tradição cultural, em artes e folclore.
            O desenvolvimento econômico de Treze Tílias se destacou pela sua produção de laticínios.

         ART. 6-o.
         PORCENTAGEM GERMÂNICA NO ESTADO DE SC. 94sc1340.

         341. Com que base calcular a porcentagem? É  possível chegar a uma avaliação aproximativa sobre qual seria a porcentagem do contingente germânico no Estado de Santa Catarina, comparado com a população total.

CRESCIMENTO COMPARATIVO DA POPULAÇÃO

ANO

FLORIANÓPOLIS

SANTA CATARINA

1772

 

 

1774

 

9.058

1810

12.483

30.339

1872

25.709

159.802 (Oficial)

1890

30.687

282.769

1900

32.229

320.289

1920

41.338

668.743

1940

46.771

1.178.340

1950

67.630

1.560.502

1960

98.520

2.146.909

1970

140.000

3.000.000 (estimativas)

1980

 

 

1990

 

 

==

 

            As estatísticas do século 19 não consideraram diretamente o aspecto da imigração. Contabilizam como nacionais os filhos de imigrantes nascidos no país, sem declaração da origem étnica. É possível obter o número mais ou menos exato de imigrantes, mas não dos filhos dos imigrantes. Mesmo os números sobre os imigrantes não incluem senão os que migraram, oficialmente. Muitos outros penetraram nas colônias por vias não anotadas pelas autoridades, como foi sobretudo o caso das reemigrações.
           
            O caminho do cálculo pode iniciar pelas estatísticas dos primeiros imigrantes, passando-se depois ao cálculo do crescimento vegetativo.

            Quando se fizer uma genealogia de toda a população de SC,  haverá um novo recurso para avaliar a presença comparada das etnias.

342. Somatório das estatísticas dos imigrantes alemães. Conhecem-se estatísticas em separado de várias colônias. A partir do ordenamento destes vários blocos estatísticos se chega a um total aproximativo de época.

            Sabe-se que foi a seguinte a estatística da imigração para Joinville e Blumenau, até a data em que cessou a imigração oficial:

De 1850 a

1860

947

De 1860 a

1870

4.515

De 1870 a

1880

4.321

De 1880 a

1890

1.320

De 1890 a

1897

7.875

Total

 

18.978 imigrantes

                       
            Depois disto, cessada a imigração oficial, converteu-se a Sociedade Colonizadora de Hamburgo (1849-1897) em “Sociedade Colonizadora Hanseática” (1897 em diante), que atuou em Joinville, S. Bento, Jaraguá, Corupá, Ibirama, Presidente Getúlio, Introduzindo:  de 1897 a 1915 3.500, total até aqui 22.478 imigrantes.

            A colônia de S. Pedro de Alcântara, na Grande Florianópolis, recebia:
            Março de 1829...........635.
            Novembro de 1829......50.
            Dezembro de 1830........9.
            Total......................... 694 imigrantes.

            Colônia Belga, no Vale do Itajaí:
            Em 1845.......90 belgas.
            Depois...........60 indivíduos.

Colônia Piedade, na Grande Florianópolis:
            Em 1847........150 alemães.

            Colônia Militar de S. Teresa, Rio Itajaí do Sul.
            Em 1854...........9, (sendo 2 soldados)
           
            Também restam dados referentes ao total da população de cada Colônia, sem especificação dos imigrantes que procedem da Europa, vindos em épocas as mais diversas.
            Assim tem-se a soma de:
            Sociedades...............22.478
            S. Pedro.........................694
            Piedade..........................150
            S. Teresa.... ==9
            Diversos.....................5.000
            Total..........................28.321 imigrantes

            343. Crescimento vegetativo. Se aos imigrantes alemães se der um regular crescimento vegetativo mínimo e deles se fizer uma população de 45.000 ao alcançarem o ano de 1900, quando a população de Santa Catarina era de 321.294 habitantes, atribui-se ao contingente germânico a porcentagem de cerca de 14%, com referência à população total.
Esta porcentagem talvez se tenha elevado com as imigrações de depois de 1900 e pela ascensão de numerosos colonos alemães gaúchos ao Oeste Catarinense. Também aqui é difícil fazer o cômputo. Mas não estaremos talvez longe  da verdade se elevarmos, com estes acréscimos posteriores a  1900, a porcentagem de 14 % para 18%. Isto quer dizer numa população de 1.500.000 o contingente germânico seria de 270.000 pessoas. Não fica contudo fora de cogitação o crescimento vegetativo pudesse ter sido maior que o do luso, ou do negro, por razões vagas de que se tem conhecimento.
           
Um outro caminho para avaliar o contingente germânico de Santa Catarina, em vez de atender às cifras dos imigrantes, apela à população dos núcleos por eles povoados, e então parece que chegará a uma porcentagem maior, alteada agora de 20 a 23%.
            Em 1824, quando ocorria a colonização alemã de S. Leopoldo no Rio Grande do Sul, que se refletiu para o Sul catarinense e mais tarde para o Oeste Catarinense, possuía o território desta Província apenas 45.410 habitantes.
            Em 1836, a população se elevava a 63.624. Ora, encontravam-se em 1829 cerca de 694 imigrantes em S. Pedro de Alcântara, marcando pois um pouco mais de 1% da população total.
Em 1847 acrescenta-se a colônia Santa Isabel (1847) com 256 habitantes, a colônia Belga (1854), com 150 imigrantes, a Colônia Militar Santa Teresa (1854), com 9 alemães. Reunidos todos estes números e mais os leopoldenses do Sul da Província, demos 2% à população alemã da Província.

            Em 1872 a Província apresentava 159.802 habitantes. Os alemães apresentavam então cerca de 21.672, conforme o cálculo abaixo:

            2% do Grupo Antigo............3.196
            Santa Isabel (1862)...............1. 268
            Joinville (em  1872)..............6.810
            Blumenau (em 1872).............6.498
            Teresópolis (em 1869)............1.694
            Brusque (em 1874)..................2.166
            Total......................................21.632

            Haverá lusos incluídos, mas em compensação há alemães em localidades lusas não incluídas no nosso cômputo. Temos, pois, quase 7% de alemães sobre a população total da província.
            Daqui para frente se torna mais difícil o cômputo. A difusão aumenta, quer das zonas alemãs para as lusas, quer das lusas para as alemãs, e  mesmo já ocorre a miscigenação, bem como é difícil avaliar quem possui aumento vegetativo mais rápido, e menor mortalidade.
Considerando que no século 19, as zonas lusas foram seriamente varridas por epidemias, é de se crer que a população teuta obtivesse um crescimento vegetativo vantajoso, erguendo sua porcentagem sobre o cômputo geral do Estado. Foi também grande a mortandade dos pretos.
           
            344. Em 1900 talvez 20% de alemães, e depois 23%.
Considere-se que a população do Estado de SC em 1900 era de 321.000 habitantes:           
            Blumenau......................... 34.472
            Joinville............................ 16.960
            S. Bento e Campo Alegre.. 8.351
            Brusque (sem N. Trento)... 9.124
            2% do Grupo Antigo........... 6.420
            Teresópolis e Cia............... 3.500
            Sta. Isabel e Cia................. 2.500
            Grão Pará (alemães).......... 1.000
                                                          86.327.

            Descontados 16.000 a favor de lusos e ítalos, deixando os alemães em 70.000, tem-se então cerca de 20% de população alemã em Santa Catarina no ano de 1900.
Depois ingressaram outros mais, pela Sociedade Colonizadora Hanseática e pela ascensão gaúcha para o Oeste catarinense. Se fossem estes outros um total de 9.000 sobre a população de 300.000 habitantes, ter-se-ia um acréscimo de mais 3%.
            Dali viria um contingente total de 23% de alemães em Santa Catarina. No futuro isto poderia equivaler quase 700.000 em três milhões.
            Como se pode observar por esta outra fórmula se chega a uma porcentagem superior à primeira.
Pela primeira, imigrantes, se tinha 18%, usando mesmo de muito boa vontade.
            Pela segunda, população, se chega à 23 %
            O termo médio dá 20,5%.

            Crispim Mira avaliava em 1920 a população do Estado em 750.000 cabendo 150 mil aos alemães. Isto vem dar 20% exatamente ao contingente germânico.
            Ora, ocorrendo só depois disto a grande afluência para o Oeste Catarinense dos colonos gaúchos, alemães e sobretudo italianos, a porcentagem dada por Crispim Mira se eleva naturalmente acima de 20% vindo coincidir com o parecer exposto acima.

ART. 7-o.
QUALIDADES ALEMÃS, DE ALCANCE SOCIOLÓGICO. 42sc1345.

            346. Os germânicos, como um todo, e os germânicos entre si. O tema sobre qualidades sociológicas se apresenta muito difícil, podendo em cada afirmação objetiva restar alguma subjetividade. Importa, portanto, meticulosidade, distinguindo os germânicos em geral frente aos não germânicos, e depois subdistinguindo os germânicos entre si.
           
Em Santa Catarina há que examinar os germânicos frente aos lusitanos, que são os latinos da região, e ainda algum tanto frente aos italianos, que também são latinos e marcam muita presença.
            No contexto das diferenças se dão aquelas que são da índole psicológica e física em geral, e aquelas que se são meramente culturais, resultantes de hábitos. Os alemães são criadores de hábitos (vd 476), que embora estejam na linha das qualidades naturais da etnia, não se confundem com elas.

            Considerando que os mesmos alemães se redividem em subgrupos com notórias diferenças há que dar atenção a este fato, e até mesmo há que principiar por ele.
           
            347. Subdivisões étnicas alemãs. Antes de chegarem à Europa, as tribos germânicas se subdividiam em três grupos linguísticos:
-  O grupo dos germânicos orientais, ditos godos (ou góticos), que do Oriente migrou diretamente, através Danúbio e do Mediterrâneo, para o Sul da Europa, em dois subgrupos, o dos ostrogodos, que estabeleceu um reino na Itália (Capital Ravena, ano 489) e o dos visigodos, que estabeleceu outro reino na Espanha incluindo Portugal (Capital Toledo, perto de Madrid, duração de 411 a 711).
- O grupo dos germânicos nórdicos, redivididos, entre outros, em dinamarqueses, suecos, noruegueses.
- O grupos dos germânicos ocidentais, estes redivididos (linguisticamente também), em falantes do germânico ocidental antigo, correspondendo aos holandeses, ingleses, westfalianos (na Alemanha ao lado da Holanda), e em falantes do germânico ocidental moderno, ou Hoch Deutsch (= Alto Alemão). 

Ocorrem ainda diferenças culturais entre um mesmo grupo situado cronologicamente em seu remoto passado quando emigrou para a América e os que ficaram. As diferenças futuras entre os que emigraram e os que ficaram não são etnológicas, mas culturais cronológicas.
Os emigrantes alemães vindos em 1828 para Santa Catarina, vieram a partir de uma Alemanha pré-industrial, ao passo que os emigrantes vindos depois de 1850 já vieram com a visão de um mundo mais desenvolvido.
Diferem pois os alemães que cedo imigraram para a Grande Florianópolis, e os alemães vindos posteriormente para as colônias do Vale do Itajaí e para o extremo Norte do Estado, onde logo instalaram indústrias.

            348. Imigrantes westfalianos em Santa Catarina. Apresentam-se etnicamente característicos os que falam o Germânico Antigo, a saber os westfalianos, holandeses, ingleses.
São os vestfalianos de estatura elevada, decisão obstinada, conservadores em costumes, em sua religião católica e mesmo na Língua, o germânico antigo.

Os westfalianos se localizaram, na Alemanha, junto à Holanda, ao norte do Reno. Na época da migração dos povos, não foram, em virtude da  posição geográfica, tão atingidos quanto outros pelas hordas que passavam.
             
            Ocorreu algo similar com os holandeses e Ingleses. Por isso, os westfalianos conservaram também a linguagem na sua forma antiga. Mantêm assim formas arcaicas como o “t” que o alto alemão converteu em “ss”, como em water e wasser (água).
Outra forma característica de sobrenome Westfaliano, - Niehus (= Nova casa), e que no alto alemão seria Neuhaus).
 
            Em Santa Catarina os westfalianos se estabeleceram em Teresópolis (Município atual de Águas Mornas), de onde muitos reemigraram em direção Sul.
            São nomes caracteristicamente westfalianos como também holandeses os sobrenomes em ing:  Boeing, Bruening,  Koning, Oening, Eising.  Mas também Locks, Foxius, Waterkemper, Niehus.
Em Waterkemper ocorre o “t” característico do baixo-alemão, porquanto no Alto Alemão se diria Wasserkemper.

            Narrava-se, na década de 1940, que em São Ludgero (núcleo westfaliano) dois senhores viram um objeto na encosta do morro. Disse um:  é uma pedra. O outro: é um chapéu. Depois de muito discutirem, foram verificar.
            E então observou o primeiro que efetivamente era uma pedra mas o segundo, revelando a obstinação westfaliana, pôs o pé sobre a pedra e declarou  decisivo, -  é um chapéu.

            349. Imigrantes renanos em Santa Catarina. Outro grupo, já oposto ao westfaliano, é o renano, ligeiramente ao Sul, onde aflui o rio Mosela. Estes renanos pertencem ao grupo que falam o germânico ocidental moderno, todavia um dos seus dialetos, denominado Hunsrück. Localizaram-se aqui em Santa Catarina  na zona de S. Pedro de Alcântara e Antônio Carlos. Nem por isso deixa de ocorrer alguma mistura. Assim a família Dümmond do Alto-Biguaçu é originariamente westfaliana. 
            O Reno sempre foi uma zona estratégica já penetrada pelos antigos romanos e por onde passavam as grandes correntes migratórias. Na região, em virtude do contato com o mundo latino, eram também mais frequentes os nomes latinos embora não sejam exclusivos e latinizados, e o povo mesmo chegou a falar o latim. Ao tempo da Renascença criaram-se também sobrenomes latinizados, como Pauli, Petri, Conradi, Philippi; que reaparecem nos imigrantes de São Pedro de Alcântara e Antônio Carlos.
             
            Ocorre uma diferença evolutiva cronológica entre os teutos vindos para a Colônia de São Pedro de Alcântara (1829), duma Alemanha que ainda não alcançara a supercivilização do fim do século, quando chegaram outros para o Vale do Itajaí. Deve-se a este fato uma certa inferioridade cultural e profissional entre os primeiros alemães da colônia de São Pedro de Alcântara e os alemães posteriores do Vale do Itajaí. Como renanos que eram, nada teriam a perder os imigrantes de São Pedro de Alcântara num cotejo com  os demais grupos germânicos mesmo sob o ponto de vista cultural, não fosse a distância cronológica ocorrida entre uma e outra imigração.
            O renano é manifestamente alegre. Ao contrário do Westfaliano, mais severo. Mas participa o renano algo também da pertinácia do Westfaliano, no que ambos são iguais, portanto com vantagens comuns contra os alemães de outras regiões da Germânia.

            350. Etnia dos alemães do Norte do Estado de Santa Catarina. São geralmente emigrados do Norte da Alemanha (Holstein, Hamburgo), Centro (Brunswick, Prússia, Saxe) e Sul (Baden, Wuertemberg, Baviera). Por via de regra, não coincidem com os alemães da planície renana e nem com os da Westfália, de onde vieram anteriormente os imigrantes da Grande Florianópolis.
Costumam os protestantes ser do Norte (exceto da Westfália) e Centro da Alemanha. Os católicos, - minoria na Alemanha, - são geralmente do Sul e da Renânia.

            Uma das razões porque a imigração para o Vale do Itajaí e Joinville não incluía os Renanos, e Westfalianos parece ter sido o fato de a  Sociedade Colonizadora de Hamburgo, depois Sociedade Colonizadora Hanseática, encarregada desta colonização, ter operado através do porto de Hamburgo. Ora, este porto, o maior da Alemanha, não coordenava contudo a região do Reno, que mantinha outra saída, ou por Bremen, ou pelos Países Baixos. Efetivamente, os colonos de São Pedro de Alcântara embarcaram em Bremen.

            Sendo ainda Hamburgo um porto internacional, dotado das regalias da velha Hansa, continuava a dispor das facilidades para coordenar emigrantes de nações vizinhas como Dinamarca, Suécia, Noruega, Polônia, e mesmo Suíça  e Áustria.
            A relação dos imigrantes iniciais de Joinville tem assim suas procedências explicadas: Suíça, 190, Prússia, 70, Noruega, 61, Oldemburgo, 44. Holstein, 20, Hannover, 20, Sleswig 17, Hamburgo, 16, Saxônia, 8, Polônia 5,  Luebeck 4,  Mecklenburgo, 4, Luxenburgo, 3, Suécia, 3, Wuertemberg, 1, Brunsvick, 1, Schwarzburg, 1, diversos, 4. Total 471.
            Outra indicação de 1873 diz como entrados em Joinville: 1004 alemães, 127 austríacos, 62 dinamarqueses, 11 suecos, 1 suíço.

            Ainda outra circunstância que parece ter sido a decisiva para afastar o Renano e o Westfaliano da imigração para o Vale do Itajaí foi uma questão ligada ao tempo. A colonização do Norte de Santa Catarina ocorreu na segunda metade do século 19, quando já não interessava aos renanos e aos westfalianos a emigração. As indústrias do Reno e do Ruhr já haviam dado prosperidade à região, ocupando os excedentes demográficos. Sobretudo depois de 1870 é que a indústria cria corpo. Com referência à Westfália, como também Oldenburg, é ela uma região das melhores terras da Alemanha, o que também não animava a emigração.
            Mesmo antes da formação da grande indústria, a emigração westfaliana foi reduzida. No Rio Grande do Sul se fez conhecida quase só em Teotônia, em Santa Catarina em Teresópolis (Águas Mornas), de onde derivou em parte para Braço do Norte e São Ludgero.
Entretanto já não ocorria o mesmo com a região do Hunsrük,montanhosa  e de terras mais depauperadas, onde por estas e outras razões, suas populações elegeram mais facilmemte a emigração. A colonização rio-grandense iniciada em 1824, portanto cedo, é predominada pelo grupo Hunsrük (se não houver engano nas informações). Mas tão logo iniciada a industrialização do Reno, paralisou a saída deste grupo, por não sentir mais a necessidade de  abandonar o próprio país.

            Tem-se, pois, ali duas razões para explicar a procedência diferente das populações germânicas do Norte, Centro e Sul de Santa Catarina.
            Em Brusque predominam os alemães de Baden, Baviera, Holstein (os católicos, são do Sul da Alemanha, os protestantes do Norte). trata-se da convergência de tipos bastante distintos.
Houve quem dissesse que os badenses e bavareses são conhecidos como pacatos e pensamento vagaroso. Manifestam senso de responsabilidade e aplicação ao trabalho. São religiosos (católicos).
            Com referência aos emigrantes de Holstein (protestantes) são conhecidos também pela dedicação ao trabalho.
            Jacinto Antônio de Matos, falando a propósito dos colonos de Brusque declarou: “revelaram-se operosos e morigerados, principalmente os da Baviera e Holstein” (História da Colonização em SC  - 1917, pg. 87).
 
            Igualmente a Colônia de Blumenau (inclusive todo o Vale do Itajaí) foi colonizada pelos imigrantes saídos da região ligada ao porto de Hamburgo.
Verdade é que Dr. Hermann Blumenau promovia inicialmente uma colonização particular, que só em 1860 se transformou em oficial, do Império. Mas ele pessoalmente por coincidência, se ligava à mesma religião controlada pelo porto de Hamburgo, sendo protestante nascido em Brunswik, e formado em  Berlin.
Hermann Hering Sênior, fundador das formidáveis indústrias Hering de Blumenau é nascido na Baviera.
De outros se sabe que vieram de Wuertemberg. Em 1917 publicava J. A. Matos uma estatística em que apareciam na Colônia de Blumenau 750 austríacos naturalizados e 116 não naturalizados; 5 suíços naturalizados e 25 suíços não naturalizados  (J. A. Matos História da Colonização de SC,Fpolis, 1917, p. 131).

            O caráter linguístico destes outros imigrantes, importados através de Hamburgo, do Norte, Centro e Sul da Alemanha é a de que não falam o Platt Deustch (Velho Alemão ou Baixo Alemão), mas o Hoch Deustch, ou dialetos, com as respectivas características de pronúncia. São dialetos deste tipo o bavarês e o badense.
            Havendo participado mais intensamente da recente cultura alemã, estes emigrantes tardios eram bem alfabetizado e falavam o alto-alemão, mesmo ao lado dos dialetos. Por isso é que nos núcleos alemães do Vale do Itajaí e da região de Joinville se falava o alemão gramatical, contrariamente ao que sucedia entre os teutos das regiões da Grande Florianópolis e do Sul do Estado.

            Encontram-se os nórdicos, - principalmente noruegueses, - nas regiões germânicas do Norte do Estado de Santa Catarina. Alguns se reconhecem-se por causa de seus nomes terminados em -sen (que em alemão corresponde a -Sohn = filho). Na listagem dos primeiros colonos de Joinville tais sobrenomes são efetivamente designados como de nacionalidade norueguesa: Wriksen, Jansen, Joergensen, Olsen, Simonsen, Petersen, Luttersen, Görresen, Steensen, Kottelsen, Paulsen, Mattisen está como de Sleswig (Sul da Dinamarca), que não deixa de ser nórdico.
Com referência a Jens Jensen, de nome caracteristicamente nórdico, o conhecido fundador da grande Cia Jensen de Laticínios, de Itoupava Seca (Blumenau), fora um marinheiro do Veleiro Assecurateur, do qual em 1864  se evadiu em Itajaí, havendo estabelecido a mencionada organização em 1872 (informação pessoal obtida pelo autor na própria firma a Henrique Stolz em 16/ 07/ 1951) . A parte final do nome sugere tratar-se efetivamente de um nórdico.
            Dada uma distinção interna evidente nas levas alemãs emigradas da Europa, deve-se considerar as diferenças, quando possível, na avaliação exata dos alemães em Santa Catarina, quer em suas caraterísticas temperamentais, quer em suas modalizações culturais, inclusive de religião e folclore em geral.
            Se os alemães se destacaram desde logo pelas suas residências e solidez de seus empreendimentos agrícolas, deveu ter havido ali razões culturais, como também étnicas.

352. Em linhas gerais, o alemão é menos sentimental do que o latino.
A sentimentalidade é uma característica de todo o ser humano, divergindo porém de etnia para etnia. Mesmo quando o grau de sentimentalidade é igual, costuma ser desigual o processo de interferência das faculdades da inteligência e da vontade, inclusive da educação.

A inteligência dos alemães age, por assim dizer, mais acima da influência dos sentidos, sendo mais seca (racional, como se diz), menos brilhante, e parecendo até menos rápida; mas é uma inteligência industriosa, indagadora, inventiva.

 Quanto às faculdades impulsivas, o alemão é um dinâmico, um esforçado, um trabalhador.
No fundo o alemão tem como ideal a comodidade, entendida como comodidade estável, construída pelo trabalho.
O alemão é ainda dotado de grande senso de cooperação e espírito de empresa. Sabe ele disto, razão porque facilmente se orgulha e vai a afirmações absolutas, o que pode não agradar às outra etnias.

Comparado com o luso, o alemão pode parecer de inteligência menos viva, embora não inferior. Tem uma psicologia menos visual, sendo mais abstrato. É menos expansivo, quando não até socialmente mais tímido, menos quando se encontra entre seus, ou seja, entre os de sua convivência cotidiana,

353. A discrição (timidez e acanhamento) é um sentimento que acontece em lusos e em alemães, mas com alguma diferença naquilo que gera dito sentimento. Pouco tem a ver com a vivacidade menor de inteligência, mas encontra um campo propício nela.
Efetivamente, a origem da discrição (timidez e acanhamento) é diferente no luso e no alemão.

No interior, onde as pessoas enveredam mais pelo espírito natural da razão, se observa muito claramente a timidez das crianças e da mulheres alemãs. Na chegada de visitantes se tornam escusas e arredias.
A convivência social destrói rapidamente esta tendência, mas sendo natural da etnia, ela se fixa no subconsciente.

Quanto ao espírito de intenção reflexa e intenção direta, o alemão se comporta com menor espírito de intenção reflexa, firmando-se na intenção direta. O luso, e o latino em geral, quando dá um passo a frente, está também de prontidão para dá-lo atrás, porque se sente como que observado. O germânico não cuida tanto se está sendo observado. Faz as coisas com objetividade, sem atender muito à impressão ambiente. Facilmente se permite certas liberdades quando a roda é de pessoas conhecidas, dizendo “estamos entre nós”.

Os germânicos chamados ingleses e seus descendentes norte-americanos são, neste ponto, mais livres ainda e os pés vão logo sobre a mesa, a gravata e o paletó já não interessam mais. Ficam em manga de camisa e a gola aberta, fumam cachimbo, riem alto, cantam coletivamente. Os alemães são mais ou menos assim.
Os lusos se sentem observados, e por isso conservam a atitude social quando em festejos familiares. Não têm a facilidade de chegar a um cantar coletivo como os alemães. Cantam desimpedidamente, ainda que saibam não ser boa a voz. 
Tais diferenças ente germânicos e latinos influem também o grau de espontaneidade com que uns e outros sentem a auto-estima sobre a exposição do próprio corpo. Há, pois, diferenças, em uns e outros, no que se refere às liberdades no modo de vestir e na maneira de praticar o naturismo.

 

354. Opinião do jornalista Assis Chateaubriand sobre a timidez social dos alemães:

Blumenau, 3 de março de 1953 - “todos quantos visitaram o vale do Itajahy tinham acerca de sua população, apenas uma queixa: a timidez desta gente,  o seu retraimento contumaz, a sua distância inveterada do visitante. Quantas vezes vim aqui em Blumenau e Joinville, e não achei com quem conversar. Entretanto, em 1940, os Rádios Associados promoveram uma audição de 132 cantores,  do orfeão do Teatro Lírico de Blumenau no Rio e em São Paulo. Voltando depois a esta cidade, tentei retomar contacto com aqueles espontâneos e excelentes artistas locais. A não ser o velho Kurt Hering (por sua vez também uma índole reservada), em mais nenhum outro dos seus companheiros me foi dado encontrar. Todos eles se haviam enfurnado em casas e selvas, para  ficarem desaparecidos até hoje dos meus olhos”.
Naturalmente que nem todos os grupos germânicos são igualmente taciturnos e tímidos. Certamente o são muito menos os bavareses e renanos. Os renanos formam a população alemã de S. Pedro de Alcântara e Antônio Carlos. Os bavareses se encontram em São Bento do Sul.
Entretanto, no fundo, todos, mesmo os renanos e bavareses têm uma índole mais tímida e reservada que os lusos e os latinos em geral...

Acrescentou Assis Chateaubriand, referindo-se aos efeitos da civilização.
“...Paulo Prado, em 1925, quando em São Paulo, só quem recebia hóspedes à mesa da sua casa eram Dona Olivia Penteado, o conselheiro Antônio Prado e o velho conde de Matarazzo, costumava dizer a Capistrano de Abreu e a mim que cada dois meses precisava vir ao Rio de Janeiro.
Fazer o que? Interrogava eu a Paulo Prado. “conversar, só conversar, dizia-me ele. Não tenho com quem falar em São Paulo, porque nenhum me convida, para almoçar nem jantar”.

Blumenau agora está transformada. Tem um prefeito, e a mulher de um prefeito altamente hospitaleiro. O Sr. Hercílio Deecke é um “gentleman” tão civilizado, tão acolhedor como o presidente do Jockey Club de São Paulo, nosso amigo Fábio Prado. Ele não é só acolhedor no Club. Também a sua casa é tão hospitaleira quanto o Club Tabajara, do qual é presidente.
A sua esposa honrada pelo “charme”, pela presença de espírito pelo refinamento das prendas domésticas, o mais fidalgo salão da Avenida Paulista e de Senador Vergueiro.
Frequentador desde 12 anos do Vale do Itajahy, rejubilo-me por duas novidades que aqui achei: um club social de primeira ordem e um prefeito que, com a esposa, agasalha os forasteiros em seu lar, como o mais fino membro do corpo diplomático no Rio ou em Petrópolis.
Uma civilização são, sobretudo, contatos e convivência... É o que está aparecendo e se dilatando em Blumenau e sua hinterlandia” ( “O Jornal”,  do Rio, transcrito pela A Gazeta, F-polis., 15-04-1953.

355. A psicologia menos visual e mais abstrativa dos alemães tende com certa exclusividade para a comodidade estável. Por esta razão as roupas costumam ser boas, fortes, resistentes, mas sem preocupação acentuada para a vistosidade.
Refere Crispim Mira, sobre os alemães de Joinville: “Singela a indumentária. Roupas boas, porém simples. Há cuidado no resguardo do frio e da umidade. Um ou outro traje melhor para dias excepcionais. Quase total ausência de jóias” (Crispim Mira -  Terra Catarinense, Fpolis., 1920. Pg. 69).

Ao contrário dos alemães, os lusos mais depressa atendem às cores da indumentária e às da confecção. Um alemão numa loja de tecidos tende por primeiro a perguntar pela qualidade do tecido, resistência, firmeza da cor, e gosta dos preços elevados, pois prefere pagar uma vez, do que barato por algo menos durável.
Nas  confecções fabris costumam os alemães fabricar menos e bem. Por esta razão nas zonas alemãs se vendem tecidos mais fortes que em localidades lusas, e as fábricas dos descendentes alemães de Brusque e Blumenau costumam produzir tecidos bons.
Um comerciante, ao se haver mudado para Guarita (inicialmente de população lusitana), ao Sul de Araranguá, referiu, em 1950, que já não podia adquirir na firma têxtil Renaux de Brusque, porque só produzia tecidos superiores e resistentes, vendáveis apenas em colônias italianas e alemãs, conforme fazia anteriormente em Turvo. Agora, para atender aos lusitanos, devera procurar firmas de São Paulo, com produtos inferiores, pois ao luso interessava a vistosidade e não a resistência.
A despreocupação dos alemães pela cor, com interesses sobre a  estabilidade os leva a adquirir casimira de alto custo, mesmo quando as confeccionem menos bem, como um brim barato.
A psicologia menos visual dos alemães os faz possuir, as vezes, uma exuberância de vasos de folhagens no interior de suas salas de visita, sem que se completem por um vaso de flores, ao passo que o luso é capaz de possuir flores sem folhagens.
Em festas populares os alemães da zona rural também dão alto apreço aos enfeites de verdes palmitos e troncos de arbustos ficados ao longo dos caminhos de uma procissão.
 Tem-se notado que, na procissão de Corpus Christi, os tapetes confeccionados com matéria vegetal são novamente uma demonstração do gosto mais abstrativo dos alemães.
As vitrines alemãs e as suas residências se encontram as vezes belamente coloridas; isto se deve antes interpretar como resultado de dedicação ao perfeito, do que como tendência de manifestar uma psicologia visual.

Na volta dos anos de 1950 fiz várias observações ao longo do litoral catarinense. Uma bilha d’água, de argila, costuma ter apenas a cor natural, quando entre os alemães; já outras etnias mais depressa as pintam, por exemplo de azul. O mesmo acontece com pequenos veículos, como carrinhos de mão, carretas puxadas por cavalos, carros de boi.
No passado, em lugarejos pobres, as casas dos lusos, eram invariavelmente brancas, com janelas azuis. Já os alemães, quando pintam as casas, têm antes a preocupação da conservação das paredes, o exercício do bom gosto,  a exuberância de Status Social.

356. A industriosidade alemã. Uma qualidade notória dos alemães é a industriosidade, com iniciativas sempre novas, nisto se diferenciando dos lusos (vd 216).
A industriosidade alemã se revela na cozinha, no plantio, nas pastagens, na organização social, na Igreja, em toda parte.

O tipo do alemão catarinense de iniciativa e que ilustrará nossa  afirmação era um senhor de nome de Frederico Guilherme Busch nascido em 1895 em Cambirela (Palhoça). Foi alfaiate em Florianópolis, e depois se transferiu para Blumenau, por motivos de saúde, onde se casou na família Probst. A sua atividade em Blumenau foi notável, conforme se encontra publicado numa revista:
“Veio para Blumenau onde abriu uma pequena alfaiataria no local onde hoje se acha estabelecida a Casa Moelmann SA. Neste tempo começou a importar máquinas de costura, desenvolvendo desta forma, os seus  negócios. Iniciou, também o serviço de exportação de laticínios para o Rio de Janeiro, S. Paulo e o Norte do País tendo nesse ramo – exportação, - sido o primeiro no município.
Em 1900, mais ou menos, importou o primeiro automóvel à máquina a vapor. Foi o primeiro de S. Catarina ou talvez do Brasil. Quando o automóvel chegou na alfândega de Florianópolis, o inspetor da mesma consultou o Sr. Ministro de como deveria despachá-lo como máquina a vapor. O primeiro pneumático desse automóvel rebentou em Blumenau, na  esquina da Alameda. Duque de Caxias (R. das Palmeiras) com a rua 15 de novembro. Mais ou menos nessa época, ele comprou, juntamente com o sogro, Sr. Henrique Probst, uma pequena tecelagem que estava situada nos fundos da atual fábrica, que transferiu depois, para onde se acha a atual empresa Garcia, podendo, por isso considerar-se os dois os fundadores da maior fábrica existente em Blumenau.
Em 1903, mais ou menos, mandou buscar a única companhia lírica que  Blumenau teve a oportunidade de assistir até hoje; só a orquestra contava 35 figuras. Sobre este fato, ele se manifestou, certa vez, da seguinte maneira: ‘perdi 18 contos, mas, pelo menos, mostrei aos blumenauenses o que é uma Companhia Lírica’ (18 contos nesta época era uma fortuna).
Em 1901 ou 1902 recebeu a primeira máquina cinematográfica e escreveu ao seu representante, no Rio, para que lhe comprasse algumas fitas, tendo o mesmo respondido que não se conhecia na praça do Rio aquele artigo. Por isso, mandou buscar um lote de filmes na Pathé Fréres de Paris e deu, durante quase 3 anos, espetáculos cinematográficos gratúitos, pois, ninguém sonhava então, que o cinema seria um dia ‘comércio’. Já em 1908 deu em Blumenau espetáculos de cinema falado, cujo aparelho foi destruído pela enchente de 1911.
Em 1905, começou a instalar a Luz e Força na cidade de Blumenau, montando uma usina com duas turbinas hidráulicas no lugar Gasparzinho.
O primeiro foco de Luz pública iluminou o lugar, onde hoje está a casa do transformador, na Praça Dr. Blumenau. Foi às 10h30 da noite, assistido por uma grande multidão.
Como Blumenau se desenvolvesse rapidamente e o Salto do Gasparzinho tem o potencial relativamente pequeno, foi obrigado a vender a concessão à firma Bromberg & Companhia, proprietário da Usina do Salto, isto mais ou menos em 1918.
Em 1905 ou 1906 abriu, em Blumenau, uma fábrica de fósforos, que  ocupava 150 operários.
Em 1911 comprou um ônibus original “Nenz” para 25 pessoas, que trafegou entre Itoupava Seca e a Cidade. Teve de acabar por falta de  movimento.

Construiu em 1912 uma lancha para transporte de passageiros entre Blumenau e Itajaí, lancha essa que fazia o percurso em 1 hora e pouco, quando vapor Blumenau levava 5 a 6 horas. Também esta teve que suspender por falta de movimento.
Faleceu em 1943 com 77 anos de idade” (Vale do Itajaí, set. 1950).

Na cozinha, a industriosidade da mulher alemã se vê nos preparos diversos à comida, no beneficiamento do leite, na confecção de pão em casa. Sobretudo no passado, esta industriosidade da mulher se fazia notar também no plantio de uma horta.
Na zona rural, em torno da casa alemã existem cercados e arrumações de utilidade diversa, revelando sempre a industriosidade. Tudo é ainda enfeitado por canteiros de flores.

A igreja também recebe os mesmos cuidados. Os núcleos germânicos, sejam católicos, sejam protestantes, sempre se destacaram pelos edifícios das igrejas. Acontecia o mesmo nas localidades lusas tão logo para ali afluíssem algumas famílias alemãs operosas. Ou fosse nomeado um vigário alemão para dita região
Nas pastagens há o capricho das cercas e a limpeza geral. As ervas indesejáveis são extirpadas pela raiz, razão porque  as pastagens se tornavam belas e emprestavam um aspecto novo ao conjunto residencial.
Também nas fábricas, os patrões estão a inventar e a progredir. Os operários confeccionam bem os artefatos industriais.

357. A laboriosidade e a operosidade alemã. Manifesta-se a laboriosidade na firmeza das faculdades impulsivas que se não deixam abalar por veleidades fugidias.
Este dinamismo dos germanos se observa em ambos os sexos e em todas as idades. Atestou-o também o Dr. Heráclito C. Ribeiro com vivência na região alemã:
“Todos os membros de uma família constituem fonte de receita. O chefe da casa, a esposa, os filhos adultos e até os menores trabalham para o progresso comum, convergem seus esforços para o bem estar e riqueza do lar” (Dr. Heráclito C. Ribeiro - Memória sobre o município de Joinville,1916, aprovada no Congresso Brasileiro de Geografia de S. Salvador, 1916, in Revista do Instituto Histórico e Geográfico de SC, vol. VII, 1918, 3-o trimestre pg. 242).
A mesma impressão de grandeza fabril se observa em Blumenau e Brusque.
Quanto à agricultura, ela já existia em território catarinense, já como um a ocupação preconizada aos açorianos, que por isso foram inicialmente agraciados com excelentes terras. Mas novamente aos alemães coube alterá-la fundamentalmente. 
Em 1850, quando se fundava Blumenau, o Presidente da Província descreveu a situação preexistente “a agricultura,  que pouco mais se estende da plantação da mandioca, milho, cana, feijão e arroz, pouco aumento tem tido, já pela falta de braços, e já  porque os nossos agricultores, aferrados ao que viram praticar os seus antepassados, não procuram, apartando-se da antiga rotina, bem amanhar o terreno, melhorar de sementes e ensaiar o cultivo de novas plantas,  nem buscam por máquinas suprir a força dos braços humanos, tanto que  se apresentando um engenho de tornar farinha, não tem eles tratado de adquirir iguais: e esse mesmo não consta que tenha trabalhado além dos dias de experiência” (Fala do Presidente João José Coutinho).

Os alemães em Santa Catarina aram a terra com desvelo. Incrementada a agricultura sobre ela basearam a indústria.
Em 10 anos, Blumenau contava com 1000 habitantes que mantinham cultivadas 1.220.000 braças (Vale do Itajaí, Setembro 1950).

O semicírculo de colônias alemãs em torno de Florianópolis abastece admiravelmente o mercado da Capital. O Vale do Rio Biguaçu, inicialmente ocupado por fazendeiros lusos açorianos com displicentes criações de algum gado, foi de pouco em pouco adquirido pelos colonos alemães a partir das cabeceiras dos Rios em direção às planícies. Os alemães, instalados sobre terras montanhosas, foram comprando com suas economias os terrenos menos bem tratados, os converteram em propriedades produtivas.
 
No setor pesqueiro e pecuário os imigrantes alemães se desenvolviam menos agressivamente, raras vezes enveredando pela pesca artesanal. Não obstante, sobre o Rio Mampituba a firma Renner de Porto Alegre, adquiria todo o pescado. Em Biguaçu se desenvolveu a empresa Wildner.

A pecuária também foi praticada pelos alemães. Deram desenvolvimento à produção do leite de consumo, da manteiga e queijo. Nisto os nórdicos se tem revelado verdadeiros peritos. Em torno das residências rurais se observam sempre pastagens limpas e bem cercadas, ao passo que as dos lusos costumam ser mal ocupadas, cheias de ervas daninhas. A indústria de laticínios do Vale do Itajaí é mais uma vez obra dos ascendentes alemães.
A laboriosidade alemã se pode observar mais uma vez no alto índice de rendas públicas dos municípios. Joinville e Blumenau assumiram a dianteira na arrecadação já antes de completarem cem anos de fundação. A renda per capita dos municípios com presença alemã se manifesta expressiva em todos eles.

358. O ideal alemão da comodidade conquistada. O alemão tende para a comodidade, porém para a comodidade estável.
O luso também se inclina para a comodidade, e nisto se aproxima do alemão. Mas a comodidade desejada pelo luso não tem o caráter expresso da estabilidade, e seus empreendimentos para conseguir a comodidade tomam por isso rumos diversos, quando não, ainda que aparentemente, opostos.
O alemão se sacrifica pela casa, com destaque da casa estável. O luso, mais visual, pode encantar-se mais pelas cores, sejam das paredes, sejam das cortinas e dos objetos em geral.
Os italianos, - bastante diferenciados entre si, - oferece ainda outros modos de inclinação para o estável, diferindo tanto do alemão, como luso. Esforça-se mais no sentido de ter fortuna. A casa, mesmo quando seu dono seja rico, é por vezes modesta, de madeira e sem pintura.

Uma casa forte resiste às gerações e assim vale ainda como um patrimônio transmitido à posteridade. O mesmo ocorre com as terras e os estabelecimentos fabris. Com o correr dos decênios, os alemães se alteram economicamente.
As antigas propriedades açorianas, que eram enormes extensões de terras, sucumbiram muitas em mãos de colonos alemães economizadores.
Os alemães, que preferem em primeiro lugar a comodidade estável de uma boa casa, chegam ordinariamente, porém a ter esta casa e mais as restantes comodidades. Por isso, a casa residencial alemã satisfaz quase sempre o ideal pleno da tendência racial para a comodidade.
É  bem como refere (Crispim Mira) a respeito dos joinvilenses alemães: “Prevalece, em cada lar a preocupação do conforto. Os móveis da sala, mesmo na colônia, são estofados, macios, grandes e cômodos. Os da sala de jantar e dos quartos, simples. No interior dos municípios há predileção, nos leitos, pelos colchões de penas. A cozinha costuma ser  espaçosa, com fogão de tijolos e cimento, ao centro, grande e límpido. Os pratos e os utensílios culinários brilham de asseio, inclinados nas prateleiras. A sala e a cozinha são as peças principais da casa alemã. É nesta, costumeiramente, que se tomam as refeições. Não há cozinha sem bateria de todos os aparelhos mais modernos, como é rara a  residência sem varandão espaçoso com trepadeiras e poltronas para descanso” (Crispim Mira - Terra Catarinense,Fpolis, 1920 pg. 69-70).
Ainda o seguinte
“O alemão não é econômico. Gasta, ao contrário, em  que lhe traga bem estar e coopere para sua prosperidade. Mas não desperdiçam em coisas de luxo” (Ibidem pg. 71).

Quer na cidade, quer no interior, por toda a parte, o alemão aspira à comodidade e a sabe conseguir, porque em todas as partes se observam as melhores residências com as melhores comodidades, com a melhor ordem, asseio e abundância,  e tudo isto envolvido por um bem tratado jardim.
A tendência para a estabilidade, faz dos alemães ótimos profissionais. O serviço perfeito e acabado exige um certo preparo e isto os alemães procuram aprender, para atingir a estabilidade dos frutos do seu trabalho.
Uma terra com maus construtores, maus pedreiros, maus pintores, não pode  ter boas casas, belos edifícios, ponte majestosa. O melhor edifício da antiga Laguna bandeirante é a igreja Matriz, mas é um edifício fora de esquadro e mal executado, a par de alguns aspectos artísticos.
Enquanto as vilas e povoados açorianos se enchem de casas mal construídas, as cidades alemãs e seus arredores se elevam com paredes fortes e de resistência secular.
Moradias mal construídas, - com telhados permitindo a evasão das águas deteriorando os vigamentos, paredes fora do prumo, - envelhecem rapidamente e devem ser substituídas, representando o fato uma  repetição da despesa anterior.
Numa terra de bons construtores, o dinheiro é melhor aproveitado em edifícios sólidos, e a consequência é uma grande economia. O dinheiro novo, em vez de ser empregado em substituições e consertos, vai servir para ulteriores realizações. Desta forma uma localidade progride e a comodidade surge normalmente. Este foi o processo da construção das cidades alemãs de Santa Catarina, produto não só do trabalho, mas de um trabalho calculado por  profissionais competentes.
Tais boas construções melhores também surgiram cedo nas cidades, como Florianópolis e Itajaí, onde prosperou também a colônia alemã urbana, como também a italiana.
Pelo mesmo caminho da psicologia da estabilidade se desenvolveram, nos núcleos da imigração alemã de Santa Catarina, os outros profissionais: ferreiros, carpinteiros, e até os operários e gerentes de fábricas, sem excluir também os médicos e farmacêutico.

359. O espírito de associatividade dos alemães. O alemão é de um alto senso de cooperação. Ainda que o espírito de associatividade ocorra em todos os seres humanos, ele se manifesta particularmente entre os alemães. Onde há alemães, muito depressa nasce uma sociedade, depois outra e outra, o que finalmente resulta em uma comunidade, com superior organização.
De natureza, a cooperação visa objetivos longínquos e é próprio ainda do alemão prevenir as coisas, o futuro, e tudo aquilo que contribui de qualquer maneira à comodidade estável. Por isso, ele é cooperativista e menos individualista que os povos latinos em geral. Consegue mais facilmente movimentos de conjunto, para instituição de hospitais, escolas, clubes, formação de sociedades comerciais e fabris.
O luso, em vista de sua natureza sentimental, apresenta um alto grau de solidariedade social, sobretudo quando o sofrimento está à vista.
A solidariedade social dos alemães tem outra base, o espírito prático que percebe os meios que conduzem ao fim, e assim consegue os objetivos estáveis e a comodidade segura.
Ao longo do vale do Itajaí os hospitais são uma instituição frequente e exemplar. Em Blumenau e Ibirama surgiram e cresceram logo os hospitais. Não demorou o surgimento do hospital de Presidente Getúlio. E cedo outro em Rio do Sul. Em Brusque se formou em Azambuja o Hospital Cônsul Carlos Renaux.

Em matéria de assistência aos alienados, as colônias alemãs foram as pioneiras no Estado de Santa Catarina, conforme se depreende dum relatório de 1910, que relata os auxílios do Governo, nos seguintes termos:
“Atualmente o Estado sustenta 18 dementes assim distribuídos:
Em Joinville 7 a cargo da municipalidade da mesma cidade, em casa apropriada a Rua alemã, a razão de 1$000 diários; em Blumenau, 4 na  casa de detenção do hospital da mesma cidade, fazendo a despesa de 800 réis por dia; em Azambuja 5 no hospital dirigido pelo Reverendo Padre Gabriel Lux, custando 20$000 mensais cada um e no Rio de Janeiro, 2 a  razão de 3$150 diários cada um”.
Só trinta anos mais tarde, no curso do Governo Nereu Ramos (1935-1945), é que se construiu a Colônia Santana de psicopatas, no município de São José, no então Distrito de São Pedro de Alcântara.

Num congresso de sábios, em São Salvador da Bahia, o Dr. Heráclito Ribeiro, não esqueceu de ressaltar, com referência à Joinville, o senso de cooperação dos alemães:
“O espírito de associação merece especial referência. Sob esta feição poucos municípios do país se lhe podem comparar. Existem numerosas sociedades: beneficentes, religiosas, recreativas, educativas, musicais, industriais, econômicas e esportivas. Quase todas possuem personalidade jurídica, visto haverem sido registrados em cartórios seus estatutos. Para demonstrar a constância, a tenacidade dos habitantes, assinalaremos que algumas foram fundadas há mais de meio século, vivem desde o alvorecer da colônia”.
Designa então, o mencionado autor uma série de 78 sociedades, para concluir:
“Destas associações, as mais antigas são:  Schuetzenverein zu Joinville,fundada a 26 de dezembro de 1855; Helvetia,a 1-o de maio de  1856; a Ginástica desta cidade, a 16 de novembro de 1858; a Singerbund,a 12 de dezembro de 1858; a Loja Maçônica, cuja pedra fundamental foi colocada a 29 de dezembro de 1864 e levantado o edifício a 2 de dezembro de 1865; a escola alemã que festejou a 14 de agosto o 50-o aniversário de sua fundação” (Dr. H. C. Ribeiro - Memória Histórica sobre o município de Joinville, 1916, in Revista do Instituto Histórico e Geográfico de SC, 3-o trimestre, 1918, pg. 243-246).

Em Forquilhinha, no município de Criciúma se desenvolveu por muito tempo a cooperação admirável, expressa pela Sociedade União Colonial, criada em 1935, para desenvolver a colônia alemã ali estabelecida a começar de 1913. Explorava o comércio e a indústria, com a participação por igual da maioria do povo. Alcançou notáveis sucessos graças ao espírito de união a ponto de não se adquirir e vender quase tudo dentro da sociedade.

Uma outra face quis ver o Padre Jácomo Vicenzi no que se refere à união alemã. Referiu o seguinte: “a cidade de Blumenau é o centro comercial de todo o extenso município. Aí todo o comércio está em mão de alemães. Os alemães, pelo  que tenho podido notar, tem uma qualidade que lhes é característica: a grande união entre si. Dessa forma, era facílimo e até inevitável que os principais homens de negócios fizessem entre si uma liga formidável, contra a qual fosse inútil qualquer tentativa de reação. Assim, em qualquer casa de negócio em que o pobre colono, o lavrador, ou o criador de gado  se apresentasse, os preços eram iguais: de seus gêneros recebiam a paga mínima, enquanto tudo que compravam era de preços exorbitantes. Até hoje todo e qualquer empreendimento generoso de negociantes brasileiros e italianos para aliviar aqueles populações dessas imposições de monopólio, tem sido sempre gorado” (Vicenzi - Uma viagem ao Estado de Santa Catarina em 1902).

O espírito de cooperação dos alemães se manifesta na religião pela formação imediata de associações piedosas, como sejam o Apostolado da Oração e a Congregação Mariana. Os coros para cantar missas polifônicas se mantêm com relativa facilidade. As igrejas de regiões alemãs sempre tiveram corais superiores, dotadas de órgãos ou de harmônios.

360. Fisionomia física dos alemães. Ordinariamente os alemães primam pela altura, embora haja também indivíduos de estatura média e mesmo baixa.
Entre os mesmos germanos se notabilizam, pela altura, os nórdicos. Neste contexto se assevera, por exemplo, que a mulher alemã é mais baixa que a  mulher escandinava.

Ao alemães são dolicocéfalos, com um rosto dominantemente largo e curto.

Têm a pele clara, cabelos ordinariamente louros, quase nunca de um preto retinto.
Mais raramente, ocorrem também famílias alemãs notadamente morenas.
Dominam os alemães de olhos azuis. Mas, também ocorrem os de olhos pretos.

CAPÍTULO 6-o

 

ITALIANOS EM SANTA CATARINA.
                94sc1362.

               363. A imigração italiana no contexto catarinense. O italiano como contingente demográfico é o terceiro maior grupo étnico introduzido no Estado de Santa Catarina, situado numericamente logo depois dos lusos e alemães.
                    Ocorreu algum paralelismo entre a prosperidade italiana e o desenvolvimento da imigração alemã.
               A colonização italiana, em Santa Catarina, se deu em sistemáticas diferentes nas regiões do Centro, do Norte, do Sul e do Oeste.

               Em forma de imigração sistemática, os primeiros italianos vieram por obra das companhias colonizadoras formadas no contexto da lei de 1835. A empresa Demaria e Schuttel, - de dois cidadãos da Capital de Santa Catarina, Carlos Demaria (um inglês, com relações em Gênova), e o médico Henrique Schutel, agente consular do Rei da Sardenha, - agendou instalar uma colônia, na qual facilitavam a venda de terrenos recebidos do Estado para fins de povoamento.
               Em decorrência se estabeleciam em Santa Catarina, já em 1836, ao tempo da Província, os primeiros italianos de uma imigração que se tornaria sistemática.
               Fundou-se então a colônia Nova Itália (depois Município de Tigipió), no interior do Vale do Rio Tijucas, na Grande Florianópolis.
 
               Outro detalhe que favoreceu a imigração italiana foi o casamento de D. Pedro II em 1843 com Teresa Maria Cristina de Bourbon,  filha do Rei de Nápoles, Francisco I. 

Mas vieram os italianos em maior densidade somente na segunda metade do século, ou seja no II Império e começo da República, fundando mais outras colônias, uma ainda no mesmo Vale de Tijucas, e que se fez conhecer como Nova Trento.
            Rapidamente, se expandiu a colonização italiana para o Vale do Itajaí e para o Sul do Estado, finalmente também para o Oeste do Estado.

               Por trás da imigração italiana ocorriam razões na mesma Itália, que vinha de uma divisão territorial do longínquo passado. Embora alcançando a Península itálica sua unificação definitiva em 1870, continuou envolvida em problemas.
               Considere-se ainda que os italianos vindos para Santa Catarina, antes e depois de 1870, procederam sobretudo do Norte da Itália, e que estivera então em parte sob o domínio do Império da Áustria.
               Diferentemente os italianos vindos para o Estado de São Paulo, eram do Sul  da Itália, que então se caracterizava pelos latifúndios. Os empregados destes latifúndios passaram a se empregar nos lifúndios de São Paulo, substituindo ao escravo negro. Outro era, pois, o italiano emigrado do Norte da Itália, buscando em Santa Catarina terras para se instalar como proprietário.

               Quanto ao centro da Itália, até 1870, fora uma teocracia milenar, conhecida pelo nome de Estados Pontifícios, remontando ao Imperador Carlos Magno. Não faltaram pensadores italianos que advertiam sobre o alto preço político desta situação para a Itália dividida, que por um milênio ficara sem união e sem projeção nacional.
               Curiosamente, Garibaldi, - aquele que em 1839 estivera em Santa Catarina, criando a República Juliana em Laguna, - combatia o Império Brasileiro (porque estava este ajustado com o da Áustria, o qual por sua vez ocupava parte da Itália e protegia o Estado Pontifício. Garibaldi, na Europa lutara pela reunificação da Itália, e de onde teve por isso de fugir. Ao retornar, efetivamente o conseguiu, participando da reconquista da Roma papal, liquidando em 1870 os Estados Pontifícios.
               A criação posterior em 1929 do minúsculo Estado do Vaticano, foi um retorno simbólico aos Estados Pontifícios, dando ao Papa e, de certo modo, à Igreja Católica, a condição de extraterritorialidade diplomática.
              
               Ainda outras razões faziam emigrar os italianos. O Sul da Itália, em vista da situação gerada pelos grandes latifúndios, tinha um contingente de população sem terra sem outra opção que não a de emigrar. O Norte da Itália passou a industrializar-se. Embora a industrialização representasse uma evolução no sentido de uma produção maior, além da melhoria dos produtos, de outro lado provocou a crise para o artesanato, como por exemplo o da produção artesanal de tecido e da renda, entre outras a de bilro.
               Interessado o Brasil em imigrantes, ofereceram-se aqui novas oportunidades para os que preferiram uma outra oportunidade, como então se apresentava na América.

               No Brasil começara a haver condições para a entrada de italianos. Em Santa Catarina tais condições passaram a ocorrer, quando, - no Segundo Império, já na Regência, - se criaram, em 1835, leis adequadas sobre a imigração, realizada por companhias particulares de povoamento. Na medida que diminuíam as oportunidades do uso do braço negro, ofereceu-se aos latifundiários produtores de café a opção pelo imigrante italiano.

               Didaticamente a história do povoamento italiano em Santa Catarina é tratável sob os artigos:
               - Italianos na Grande Florianópolis (vd 364);
               - Italianos no Vale do Itajaí e Norte do Estado de S. C. (vd 373);
               - Italianos no Sul de Santa Catarina (vd 385);
               - Italianos no Planalto e Oeste de Santa Catarina (vd 395);
               - Qualidades dos italianos, de alcance sociológico (vd 405).

               ART. 1-o. - ITALIANOS NA GRANDE FLORIANÓPOLIS.   94sc0364.
        
               365. Italianos no Vale do Tijucas: Tigipió, Nova Trento, Canelinhas. O Vale do rio Tijucas é referência inicial importante da imigração italiana.
               Ainda que o Vale do Rio Tijucas fosse o berço catarinense da imigração italiana, a  cidade mesma de Tijucas não foi todavia núcleo inicial de nenhuma imigração étnica, e sim apenas de polarização de outros núcleos.
Politicamente, Tijucas fora primeiramente parte do grande município de Florianópolis. Criado o Município de Porto Belo em 1832, Tijucas pertenceu a este.
               Em 1833 fora desmembrado de Florianópolis o município de São Miguel, com extensão até Porto Belo, sendo que então incluía Tijucas.

               Cresceu Tijucas pela afluência de populações lusas (de Porto Belo e São Miguel), italianas (sobretudo de Tigipió e de Nova Trento) e alemãs (sobretudo de Armação da Piedade).
               Criava-se  a Freguesia de Tijucas em 1848, continuando a integrar Porto Belo. A sede do município de Porto Belo será transferida para Tijucas em 1859. De futuro, além da recriação do município de Porto Belo, foram criados outros e outros municípios no Vale do Rio Tijucas, dos quais foram colônias originariamente italianas Tigipió e Nova Trento.

               Ainda que se antecipasse na foz do RioTijucas a presença lusa, que se dera por reemigração a partir de Porto Belo e a partir de São Miguel, ocorre mesmo atribuir-se ao navegador italiano Sebastião Cabotto, a denominação de São Sebastião do rio Tijucas, que ali teria aportado no remoto ano de 1530, quando de retornava do Rio da Prata para a Espanha, a cujo serviço se encontrava.
               Também é interessante anotar que no futuro, ao tempo da origem do povoado, foi um espanhol, - Sebastião Cozas, - que edificou uma primeira capela em Tijucas, dedicada a São Sebastião.
               Mas foi no interior que principiou a presença colonizadora italiana.

                 366. Tigipió (inicialmente Nova Itália) fundada em 1836, figura como colônia italiana pioneira de Santa Catarina, estabelecida no interior do Vale do Rio Tijucas.

               Note-se que, no curso do Brasil Colônia prosperavam principalmente as frentes para o mar, de sorte a se estabelecer com anterioridade o município de Porto Belo, em 1832.
               Mas, prosperando as margens de penetração ao longo dos rios, adiantou-se Tijucas, para onde se transferiu em 1859, a então sede municipal de Porto Belo. No progresso do interior do Vale de Tijucas, a participação dos italianos foi incontestável.
               Tigipió, fundada em 1836 como Nova Itália, se desenvolveu em direção de Major Gercino, que se municipalizou em 3 de outubro de 1961, por desmembramento de São João Batista, que por sua vez se emancipara de Tijucas, em 1958.

               A Colônia Nova Itália foi estabelecida com 180 sardos, como se denominam os habitantes da Ilha italiana de Sardenha, no Mediterrâneo.
               Foram colocados por iniciativa do inglês Carlos Demaria e pelo Suíço-alemão Henrique Schutel, no contexto de colônia particular, conforme previa a Lei de 1835 (vd).
               Aconteceu logo uma interação entre a população lusa do Vale do Rio Tijucas e no futuro com a colônia italiana de Nova Trento, também do Vale do Rio Tijucas.

               367. Nova Trento é uma significativa fundação italiana, de 1876, sobre o Rio Alferes, afluente Norte do Rio Tijucas. Foi estabelecida a partir da colônia alemã de Brusque (fundada em 1860, sob a denominação Colônia Itajaí), esta sobre o rio Itajaí Mirim, afluente do Rio Itajaí-Açu.
               Com mais detalhe, em 1866 se criava logo ao sul de Brusque a Colônia Príncipe Dom Pedro, que em 1869 foi anexada à de Brusque. Dita Colônia Príncipe Dom Pedro se instalava sobre terras do rio Águas Claras (afluente do rio Itajaí Mirim), e que se estendiam, a partir de Brusque, para mais além, por cima dos morros, a uma outra Bacia hidrográfica, a de Tijucas, que dali recebe como seu afluente, o Rio Alferes.
Assim se estabeleceu um caminho de expansão, do Vale do Itajaí para o Vale do Tijucas, utilizado sobretudo pelas imigrações italianas, ainda que também aproveitado por reemigrantes alemães.
               Em 31 de julho de 1874 foi criado o 4-o. Distrito Colonial, que em 1876 recebeu a denominação Nova Trento.
               Os primeiros imigrantes italianos chegaram a Nova Trento em 9-3-1876, procedentes da Alta Lombardia

               Notabilizou-se Nova Trento pela sua prosperidade econômica. A evolução de Nova Trento permitiu que, politicamente, se elevasse a Distrito em 1884 e Município em 1892, agora por desmembramento de Tijucas.

               Na região de Nova Trento haviam acontecido anteriormente explorações de madeira de lusos e ingleses. Agora acontece o povoamento propriamente dito, com cerca de 300 famílias do Tirol meridional, razão porque assumiu o nome de Nova Trento, referência à Trento, da região de origem.
                
               Cedo Nova Trento se tornou também um centro religioso dos padres jesuítas. Eram estes da Província Romana, diferentemente da maioria dos demais jesuítas em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, da Província Alemã.
              
               Figura como imigrante de Nova Trento "Santa Paulina". Com o nome de "Amábile Visitainer", e nascida na Itália, veio no início da colônia, aos 9 anos, integrada na família de seus pais, que se estabeleceram em Vígolo. Em 1890, com Virgínia Rosa Nicolodi (Irmã Matilde), fundou a Congregação religiosa das Irmãzinhas da Imaculada Conceição.
               Em 1894 já eram 3 religiosas, quando se transferiram de Vígolo para a sede urbana de Nova Trento, onde deram desenvolvimento à iniciativa, que se estendeu inclusive para São Paulo, com vistas à assistência social e o ensino. Faleceu madre Paulina, em São Paulo, em 1942, aos 77 anos, vindo a ser sepultada em Ipiranga. O Vaticano a declarou beata em 1991 e santa em 2002.
               Santa Paulina deu oportunidade ao turismo religioso para Nova Trento, que lhe construiu um templo especial.
              
               368. Expandiram-se as colônias italianas de Tigipió e de Nova Trento para outros municípios do Vale de Tijucas, inclusive para a cidade de Tijucas. Mas tudo aconteceu na forma de uma polarização étnica plurivalente. Foi bem o caso São João Batista.
               A partir da foz do RioTijucas, um lento desdobramento de sua população se expandiu rio acima, alcançando o local onde afluia o Rio do Braço. Ali, em 1834, João de Amorim ergueu em  em 1834 pequenina capela a São João Batista, que finalmente deu nome à região.
               Estabelecendo-se em 1836 mais adentradamente a já mencionada Colônia Nova Itália (depois Tigipió, e integrada na município de Major Gercino), por iniciativa do inglês Carlos Demaria e do médico suiço-alemão Henrique Schutel, desta região também afluiram povoadores para São João Batista.
               Outros eram alemães, e vinham de uma colônia alemã de Armação da Piedade, cujos primeiros integrantes preferiram dispersar-se pelo interior.
               Outros ainda vieram de Nova Trento e Brusque. Após 1950 uma usina de açúcar deu impulso à plantação de cana. O mesmo impulso foi dado à indústria de calçados. Depois de um complexo longo passado, São João Batista se tornava um vigoroso município em 1958.
              
               369. Italianos na cidade de Tijucas. A polarização da colônia italiana do Vale do Rio Tijucas se deu por último para dentro da cidade de Tijucas, porque bem situada.
               Em Tijucas se fez conhecer a família italiana Gallotti, pela sua liderança comercial e política. Note-se que em Tijucas foi vigário, de 1871 a 1875, o Pe. Nicolau Gallotti, tio de == Benjamin Gallotti (n. 21-4-1853, Nápoles, + 7-12-1930, ambos italianos do Sul.
               Como se sabe, Benjamin Gallotti praticou o comércio e a navegação de cabotagem com vistas à exportação aos Estados vizinhos. Naturalizou-se  brasileiro em 9-11-1883. Eleito vereador, foi Presidente da Câmara Municipal de 1887 a 1888.
               É Benjamin Gallotti o patriarca da clã Gallotti em Santa Catarina. Consorciado em primeiras núpcias com Maria Vieira, teve cinco filhos, entre eles Dr. Odilon Gallotti (tradutor de obras de Stefan Zweig, do alemão para o português), e de Benjamin Gallotti Júnior (n. 15-12-1881), Prefeito de Tijucas e várias vezes Deputado Estadual e Constituinte em 1935.
Do segundo matrimônio, com Francisca Angeli, italiana procedente de Lucca (centro da Itália), teve dez outros filhos, entre os quais constam Luiz Gallotti (Ministro do Supremo Tribunal, n. 15-8-1890, + 24-10-1978), Francisco Benjamin Gallotti (Senador, como suplente de Nereu Ramos, n. 2-2-1895, + janeiro de 1961, antes do fim do mandato).
           
               370. Italianos em Florianópolis e outros municípios da região. Deu-se a polarização italiana  também para a Capital do Estado e adjacências (Cf. José Curi, Italianos em Florianópolis)..
               Nisto tudo influiu também a qualidade profissional dos Italianos.

             O Governador Hercílio Luz deu proveito ao Dr. Giovanni Rossi, agrônomo italiano, que teve passagem também na colônia italiana em torno de Curitiba e em Rodeio.

            
             Também aproveitou o Governador Hercílio Luz, profissionais italianos, de construção,- vindos do Uruguai, e que desde há alguns anos atuavam em Florianópolis, - para também reformar o antigo Palácio do Governo (depois, em 1979, Palácio Cruz e Sousa), à Praça XV de Novembro.
             Ainda aproveitou o Governador Hercílio Luz, como Secretário de Governo, a José Artur Boiteux (1865-1934), ascendente franco-suiço ligado à colônia italianas do Vale do Tijucas. Fundou Boiteux o Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina (1896) e a Academia Catarinense de Letras (1920), bem como ainda a Faculdade de Direito (1932), mais tarde integrada na Universidade Federal de Santa  Catarina.
            
             Foi notória a presença no meio social do grupo de irmãos bem sucedidos, Biase Faraco (médico, deputado estadual, professor universitário), Daniel Faraco (bancário, no Rio Grande do Sul Deputado Federal, depois Ministro da Economia), Giovani Faraco, organista da Catedral e acionador do Esperanto na década de 1940 e 1950).
             Em 20-9-1891 se deu em Florianópolis a fundação da  Associação Fratellanza Italiana, onde se fez presente a atividade social da família Faraco.
             Dr. Fúlvio Aducci destacou-se como político. Elegendo-se Governador do Estado em 1930, foi afastado pela violência dos getulistas e substuído por indivíduos do Rio Grande do Sul.
Mesmo no interior da Ilha a presença italiana se fez notar. Por exemplo, um italiano se instalou em Fazenda do Rio Tavares (Campeche), com o Supermercado Progresso.

 


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