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ENCICLOPÉDIA    SIMPOZIO

(Versão em Português do original em Esperanto)
© Copyright 1997 Evaldo Pauli

INTERPRETAÇÃO SOCIOLÓGICA

DO CATARINENSE


Autor:
Evaldo Pauli
Prof. da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC.
Membro: da Academia Brasileira de Filosofia, RJ.
do Instituto Histório e Geográfico de SC.
da Academia Catarinense de Letras.

        

645. A deturpação da literatura sobre os alemães em Santa Catarina foi mais um dos males da assimilação linguística sob perseguição. Por causa da mentalidade oficial, fizeram-se publicar ensaios sociológicos, ou melhor capítulos sociológicos inseridos nas publicações, de sabor manifestamente apologético, sem serenidade e denegrindo a belíssima colonização alemã pela redução da mesma a uma patologia.
            Por vezes se têm culpado aos próprios alemães o retardamento da nacionalização da língua. Mas, a bem da verdade, ainda se deve informar que eles, através de seus chefes, trataram convenientemente o assunto. Tiveram também os alemães governadores saídos de suas fileiras e que foram dos melhores brasileiros: Lauro Müller, Frederico Schmidt, Adolfo  Konder, Irineu Bornhausen.
            Eis um texto de uma memória enviada ao Congresso, pelo Dr. Felipe Schmidt, Governador do Estado de Santa Catarina, por duas vezes:
            “O problema do ensino da língua nacional nos núcleos de população estrangeira, ou de origem estrangeira, é de capital importância. Por um largo espaço de tempo deixamos cada um desses núcleos entregues a si mesmos, de modo que o colono, não tendo escolas nacionais, educava o filho no conhecimento exclusivo da própria língua. Hoje um tardio patriotismo, injustamente alarmado, ao invés de procurar as causas do mal em nossa própria e proverbial incúria, que outras não são que os próprios colonos e os seus descendentes, aos quais o desconhecimento da língua do país traz embaraço de toda a ordem, impedindo-os até de colaborar na vida nacional. Dá-se com a instrução pública o mesmo que se dá com o problema de saneamento, com a questão de limites, com o  problema de viação do Estado e com o regimen de trabalho e de vida de nossas populações: somos vítimas dos erros e da incúria dos antepassados, de forma que a missão dos governos de hoje é árdua e complexa, porque assuntos há na administração pública em que tudo está por fazer” (citado por Heráclito Ribeiro, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico  de SC, 1918, 3-o semestre pg. 247).

            É notável a expressão de Lauro Müller:
Quem nasceu no Brasil, ou é Brasileiro ou é traidor”.
E Lauro Müller foi dos maiores dentre os políticos catarinenses, apesar de ser alemão de origem.

No referente à assimilação, dos sentimentos de pátria nova quando em 1822 se estabelecia a independência do Brasil, - foram raros os incidentes criados em Santa Catarina.
Bem diversa se apresenta a questão com referência aos imigrantes posteriores, sobretudo daqueles que procediam de pátrias de expressão política e cultural então superior ao Brasil. O Povo Alemão se tem manifestado sempre de grande expressão, o que recomendava o seu imigrante.
A posição geográfica da Alemanha atrás dos países ocidentais da Europa, - a colocação do Brasil no outro extremo destes, e sem recurso de independência total, - fizeram com que fosse ligado aos blocos militarmente adversos à referida Alemanha.
Por isso, por ocasião de cada choque internacional, principalmente os das guerras mundiais, de 1914 a 1918 e de 1939 a 1943, ficaram os imigrantes alemães de todo o continente americano numa situação delicada.

Todavia, muito antes, as dificuldades mencionadas não existiam nos primeiros dias das imigrações. Os imigrantes alemães serviram até mesmo no exército de D. Pedro I, no curso da Guerra Cisplatina, 1924-1928. Mais tarde Santa Catarina enviava soldados louros à guerra do  Paraguai (1866).

Em 1848 o Dr. Blumenau apresentou-se ao Governador da Província como procurador da “Sociedade de Proteção aos Imigrantes Alemães no Brasil, com um requerimento, para obter terras onde fundar uma colônia, que o presidente faria passar na  Assembléia Legislativa. “Este requerimento, - afirma J. Ferreira da Silva - é um atestado magnífico de que os propósitos de Blumenau eram bem diferentes daqueles que certos indivíduos, sem conhecimentos de causa e num condenável ímpeto antipatriótico, insistem em atribuir-lhe” (J. Ferreira da Silva – em Anuário Catarinense. 1950, pg. 106).
Depois da introdução sobre a idoneidade da Sociedade de Proteção aos imigrantes alemães no Brasil expõe os motivos que o levaram a  estabelecer mais colonos no país, razões que consistem, principalmente, em “remediar” uma das mais urgentes necessidades deste vasto Império (a falta de braços) e amplificar as relações amigáveis e comerciais que unem para mútua utilidade a Alemanha ao Brasil”. Refere ainda mais.
 “A companhia não pretende chamar a sua obra em questão puramente filantrópica, contudo espera aliviar as tristes circunstâncias de  muitas famílias honestas, mas indigentes da Alemanha, porém, repudia ao mesmo tempo energicamente, a imputação de perseguir uma mera  especulação pecuniária para enriquecer-se a custa do Império e dos emigrados tem a circunstância de ter estabelecido as suas propostas nos  princípios da mais estrita e pura retidão e equidade. Não estando no caso de poder inteiramente renunciar a um benefício proporcionado aos  seus trabalhos e às grandes despesas com a colonização, a Companhia todavia não se ocupava com estas empresas para fazer lucros no tempo mais breve possível, mas para encaminhar uma nova das relações industriais e comerciais entre a Alemanha e o Brasil, países estes que devem completar-se mutuamente e são aliados naturais pelo destino, achando o Brasil para seus produtos o mercado mais desembaraçado e lucrativo na Alemanha que não possui colônias próprias, e recebendo dela os braços laboriosos e as manufaturas de que carece” (citado por J. Ferreira da  Silva, Armário Catarinense, 1950, pg. 106).

Na verdade, esta foi a preocupação durante o período de imigração: enviar produtos à Alemanha e de lá receber máquinas e novos imigrantes.
O requerimento de Dr. Blumenau, trazia um item interessante e altamente brasileiro:
“artigo 5-o - os colonos, logo que entrarem na posse de qualquer porção de terras que lhes foram destinadas por distribuição ou por compra que fizerem à Companhia, serão ipso facto considerados cidadãos brasileiros naturalizados” (Ibidem pg. 106).

O Governo brasileiro só podia aceitar estas condições e promover a nacionalização dentro da mentalidade proposta pelo ilustre fundador de Blumenau.
Não se deve esquecer como nota interessante dos sentimentos de pátria nova dos primeiros imigrantes, a sua participação na Guerra do Paraguai. Foram 120 homens, dos quais 5 eram oficiais, 67 soldados de  Blumenau, 5 de Teresópolis, 23 de Brusque, 20 de Joinville. Ficaram 23  no campo da luta.
Entre os oficiais alemães seguidos para a Guerra do Paraguai, figurou o afamado engenheiro Emílio Odebrecht. Havendo sido atacado pelas febres palustres do Paraguai, retornou, para ainda em 1867 chefiar a bandeira que perfuraria a primeira vez a picada entre Lages e Blumenau. 

O outros oficiais seguidos para a Guerra foram: C. Wilhelm Friedereich (exilado político alemão pertencente aos primeiros 17 companheiros do Dr. Blumenau em 1850), Von Gilsa, Sametzki, Von Seckendorf (Cfr. Revista O Vale do Itajaí, setembro de 1950).
Em 1900 já decorridos 50 anos depois da fundação, Blumenau era ainda uma pequena cidade de 1500 habitantes, todavia industrial.
Então se destacava como Político Christian Pedro Federsen (1897-1947), nascido na Alemanha e naturalizado brasileiro, Conselheiro Municipal, Presidente do Conselho, deputado estadual diversas vezes. Nos seus discursos se referiu à  nacionalização dos sentimentos de pátria.

Por ocasião do cinquentenário da fundação da Colônia, expressava-se o superintendente municipal Dr. José Bonifácio da Cunha (1898-1902), que dominava o idioma alemão em artigo na Imprensa, aqui citado em parte:
“Blumenau, com o concurso dos elementos que o compõem pode e deve neste meio século de existência profícua, entre as alegrias da festa, mostrar que correspondera aos intentos dos que aqui lançaram o gérmen proveitoso e útil; que seu fim de paz e de progresso se traduz incontestável no acordo unânime que a comemoração de agora representa.
Que sirva ela para içar bem alto, à vista de todos, a flâmula de paz, da harmonia que reina entre os que a atividade da vida aqui juntou, sem distinção de raças, sem preconceitos nativistas. Congregados no labor intenso do engrandecimento da pátria brasileira, espontaneamente aceita pela maioria, tem a sua guarda imposta pelos mais rudimentares elementos de lealdade. 
Que esta data que passa, na qual Blumenau pode condensar na  solenidade de agora a imagem do que ela há, afugente os temores dos  sinceramente escrupulosos, e já este esforço de hoje terá uma recompensa valiosa.
Blumenau mostra agora como em 50 anos a fantasiada base de operações já é um exército considerável, mas conquistador da terra pela enxada e a charrua, pela cultura do solo, pelo labor diário, econômico e pacífico.
Blumenau é brasileiro de sentimento, sincero, essencialmente respeitador da soberania e integridade da Nação que a considerável maioria dos seus munícipes aceitou gostosamente como pátria e transmite com satisfação a seus filhos. - Dr. José Bonifácio da Cunha, superintendente municipal (Cfr. Vale do Itajaí, setembro 1950).
 
Porém quando as colônias alemãs principiaram a festejar seus centenários, a começar de 1929 em São Pedro de Alcântara, ocorreu o perigo por causa da propaganda nazista, que tomava corpo em 1933 quando Hitler tomava o poder na Alemanha.
No Brasil a crise econômica internacional gerou a revolução getulista de 1930, que no país depunha o Presidente e em Santa Catarina o Governador eleito.  O longo período presidencial de Getúlio Vargas (1930-1945) correspondem aqui no Estado, a  uma série inicial inconsistente de Interventores (General Ptolomeu de Assis Brasil, Coronel Luiz Carlos de Moraes, Manoel Pedro de da Silveira, Cândido Ramos, Major Rui Zubaran, Coronel Aristiliano Ramos.
Eleito Governador Nereu Ramos, em 1935, passou em 1937 a ser o Interventor da ditadura de Vargas, que demorou até depois da Guerra, 1945, quando ocorreu o retorno ao sistema democrático.

 “O Estado de Santa Catarina, um dos que receberam grandes correntes migratórias procedentes da Alemanha, e da Áustria viu o seu território, a começar de 1929, invadido por uma verdadeira onda frenética de partidários do Alemão, os quais iniciaram desde logo a fundação de núcleo hitleristas que foram crescendo, sucessivamente, a medida que lhes era permitido propagar as suas idéias entre as  populações de sangue germânico...
Em 1933, após o acesso de Hitler ao poder, os núcleos hitleristas foram radicalmente transformados, passando então, a constituir de fato, círculo, grupos, pontos de apoio, blocos e células da “Organização do  Exterior” do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP).
Foi, pois, verdadeiramente, de 1933 a 1938, que mais sentimos a  ação desagregadora e corrosiva dos nazistas neste Estado” (Cap. Antônio de Lara Ribas, delegado de Ordem política e social - Punhal Nazista no Coração do Brasil, Fpolis, 1943, pg. 20).

A reação nacionalizante do Governo brasileiro se deu confusamente contra a língua alemã e contra os nazistas. Não era possível impor aos teuto-brasileiros um sentimento de pátria ao modo luso-brasileiro, afro-brasileiro, italo-brasileiro, etc...a um descendente de imigrantes alemães, o nome da pátria dos avós soa de modo caro e legítimo. Anormalidade fora pedir o contrário. A brasilidade é um somatório em que as raízes étnicas também contam pontos, mas por igual para todas as etnias. 

CAPÍTULO 3-o.

 

PROCESSOS DE INFLUÊNCIA E IMITAÇÃO EM SANTA CATARINA.
94sc1651.

            652. Generalidades sobre influência e imitação. Os seres humanos influem uns sobre os outros, num processo denominado interação social.
Nesta interação o mais costuma impor-se sobre o menos. Mas também ocorre a interação pela reequilibrada participação das partes. E assim, enquanto  uns indivíduos influem e outros imitam, todos participam proporcionalmente ao seu modo.

Mais influem os fortes, os ágeis, os equiparados, os profissionais, os cultos, os virtuosos, os inventores, os industriosos, os esforçados, e até aqueles que chegaram por primeiro na fundação de um povoado.
A imitação é própria dos subdesenvolvidos e os menos evoluídos, todavia não sem dar a sua contribuição no resultado final.
Também operam os mais fortes intermediários. Estes intermediários costumam ser a maioria, sendo por isso importantes na interação social.
No plano do saber os que sabem muito não costumam ser maioria, nem pertencem ao grupo intermediário, sendo minoria.
Na sociedade os que sabem pouco, mal têm condições de seguir aos intermediários, que sabem apenas um pouco mais, e não aos que sabem muito.
Dali a frequência da regra da sociedade sobre os que sabem, - os que sabem menos mandam, os que sabem mais são rejeitados pelos que sabem menos e são esquecidos pelos que sabem muito pouco.
 Mais especificamente, em tudo que se refere à religião, - mandam os que sabem menos, e são chamados herejes os que sabem mais.

Contudo, precisam os que sabem mais, valer-se de muita pedagogia, didática e esforço para inverter paulatinamente a situação. Nesta direção opera o ensino superior.
 
            Há, no fundo destes dois processos de influência e imitação, uma afinidade com o processo de assimilação, antes tratado (vd 652).
Mas, na assimilação é imitado aquele que o é de direito, embora menos expressivo, como é o caso de lusos e alemães do Brasil no referente ao idioma, em que entra em jogo um patrimônio nacional em situação contraditória.
Isto, porém, não sucede nas situações de oposição de contrariedade, - entre o mais e o menos, -  pois a questão entre mais e menos é muito diversa da existente entre sim e não. Neste outro plano de mais e menos intensidade é que ocorrem as influências e imitações.

            A influência e imitação no plano internacional podem ocorrer de longe, por via da imprensa, do rádio, dos estudos em colégios estrangeiros. Desta forma se imitam os americanos, os ingleses, os franceses. Tal influência e imitação de ordem internacional ocorre também através de visitantes e imigrantes.
A influência e imitação por efeito de imigração é digna de ser estudada principalmente com referência às colonizações alemãs e italianas em Santa Catarina, -  primeiramente dos imigrantes sobre os lusos, depois dos lusos sobre os imigrantes e sobre os negros.
            Ainda se podem fazer considerações sobre o prestígio e a moda.
            E nisto tudo, - o que é a mídia? E o que é o folclore?

            653. A influência  econômica dos alemães em Santa Catarina. A influência da imigração alemã se fez sentir imediatamente no setor econômico, depois também no religioso (vd 656) e cultural (vd 659).
            Com a imigração alemã prosperou o cultivo intensivo das terras, introduziram-se novas atividades industriais (tecidos em fábricas modernas, cerveja, seda, charutos, ferragens, máquinas, indústrias químicas). Criaram-se mesmo novos hábitos econômicos.

            Afirmou um perito norte-americano:
            “Em todos os ramos da vida econômica do país encontramos traços da influência do estrangeiro.
            Mais importante ainda, porém, do que a sua atividade direta, fez-se sentir a influência de seu trabalho, de seus métodos e sistemas, na  população já existente.
            A influência alemã tornou-se forte qualitativamente, porque os alemães permaneceram vivendo em massas reunidas, transferindo os costumes e hábitos de seu país, aplicando a sua experiência européia e constituindo por essa forma fazendas modelos, que  serviam como uma  demonstração de melhores sistemas de produção. Os grupos de alemães, especialmente no sul do Brasil, - no Rio Grande do Sul e Santa Catarina -, europeizaram a atmosfera colonial. Trouxeram ao mesmo tempo as suas relações pessoais de ultramar com a mãe pátria” (J.  F. Normano - Evolução Econômica do Brasil, trad. Bras. Vol. 152 S. Paulo pg. 10).

            Entre os alemães, cada agricultor, o pobre ou menos pobre, ou rico - costuma ser proprietário de uma pequena fazenda sobre a qual constrói para si um pequeno mundo. Começa por abrir roças e pastagens até o máximo do alcance do seu esforço pessoal.
Criadas estas fontes de renda, vai aperfeiçoando os cercados, os instrumentos agrícolas, o engenho de beneficiamento, a casa, a condução própria para a família, a roupa consistente e boa.
Depois sai ainda a cooperar nos serviços coletivos da  localidade, como em estradas, pontes, escolas, igrejas.
E tudo isto ele mesmo vai fazendo com perfeição e estabilidade. O roçado é bem capinado, as pastagens são bem limpas e cercadas. O engenho é fortemente construído. O beneficiamento dos produtos é caprichoso. Destaca-se a casa construída em condições para chegar às gerações seguintes. O jardim apresenta-se  cuidado, convertendo a bela residência em palacete de um homem livre.
           
            Com o caldeamento não se perdem os empreendimentos alemães, há uma influência real deles sobre as outras etnias, - no caso catarinense, em especial sobre os lusos.
             A influência ainda se processa pela imitação simples, como quem aprende a maneira de discípulo. Os lusos também sabem aprender e já aprenderam muito dos alemães e italianos localizados entre eles.
            A influência mais frequente se verifica através do emprego. O agricultor alemão, ao manter empregados, os influencia. O mesmo acontece com o profissional alemão, - pedreiro, marceneiro, ferreiro, - quando mantém empregados.
            Conta-se de um moço luso que evoluiu, porque se empregou a um mestre ferreiro alemão, que o fez tomar lombrigueira e outros remédios, deu-lhe de comer melhor e ensinou a profissão. Depois se tornou independente e melhorou a oficina pela instalação de força motorizada.

Também através do sistema de influência e imitação começaram a receber as localidades lusas melhores pedreiros e carpinteiros, para construir melhores habitações e melhores engenhos.

            A influência alemã e italiana é menor quando os núcleos da outra etnia estão isolados e sem comunicação.
Era o que acontecia na década de 1950 com no interior do município de Laguna, pelo outro lado da Lagoa, então ainda sem estradas de acesso à Parobé, Ribeirão Pequeno, Ribeirão Grande. Os acidentes do terreno não facilitaram por algum tempo a construção de uma estrada, mas que não era impossível, até a Estrada de Ferro em Laranjeiras. A população se distribuía metade por metade entre a pesca e a agricultura.
             Havia então um engenho em Ribeirão Grande, de um senhor de 60 anos, o qual dizia ter pertencido o engenho ao seu avô. O aparelho era tão primário que surpreendia. Forneava-se à braço, movimentando para lá, e para cá, o aparelho que agitava a farinha. Ocupava assim constantemente dois homens, a se revezarem.
Um dispositivo mais funcional possibilitaria a mecânica de uma pá giratória.
A mandioca se raspava também à mão, munida de faca.

Os demais engenhos eram igualmente primitivos e velhos. Não havia carpinteiros que soubessem construir melhores. Mas, toda a gente comentava que um certo italiano viera de Tubarão e instalara dispositivos mais modernos em Parobé. Falava-se com admiração dos italianos e de sua capacidade de trabalho. Dizia-se que Ribeirão pouco progredira porque aquela gente apenas agora estava a penetrar ali.

Também, no Oeste Catarinense a influência econômica dos germanos e ítalos sobre os hábitos econômicos dos lusos, se tem manifestado sobretudo em certos núcleos recentes, como em Piratuba, Concórdia e Chapecó. Ali o caboclo  agricultor aprendeu com os colonos de origem teuta, - uns vindos da região alemã e italiana de Santa Catarina, outros do Rio Grande do Sul. Assim passaram, - por influência e imitação, à métodos racionais de trabalho e de vida, amor ao trabalho e ideais de prosperidade. Passara, assim também, a desfrutar boa situação econômica, porque donos de propriedades agora bem administradas, com engenhos, atafonas, belas residências.
           
            Deriva também dos alemães importante rede rodoviária em Santa Catarina e o uso de pontes cobertas, por promoção das administrações próprias e autônomas das colônias de Blumenau e Joinville, que contavam com engenheiros e construtores europeus. Depois as estradas foram  se distendendo, sem abandonar as experiências anteriores

            Confirma o geógrafo catarinense Victor Peluso Junior:
 “Na paisagem do território catarinense, os telhados das pontes, que se encontram nas estradas de rodagem, constituem uma das mais interessantes sobrevivências de antigas tradições, que são apoiadas por motivos de clima. Nesta caso, o clima não explica a ocorrência do fenômeno, mas atua no sentido de justificar, tecnicamente, uma  prática antiga de uso na Europa.
As pontes cobertas são numerosas em Santa Catarina, - alonga-se Victor Peluso Júnior. A maior parte delas são de madeira, havendo também algumas pontes metálicas com a mesma cobertura.
            Deve-se aos alemães, que colonizaram os núcleos de Blumenau e Joinville a introdução das pontes cobertas em Santa Catarina. Durante o Império, a primeira rede rodoviária no território catarinense surgiu nessas colônias, que possuindo administrações próprias, contavam com engenheiros e construtores alemães na execução de obras de interesse geral.
            O desenvolvimento da técnica rodoviária no Estado valeu-se da experiência adquirida nas colônias. As pontes cobertas, que se justificavam em virtude do clima úmido do litoral, foi adotada sem se perceber que os alemães as construíram por tradição, ainda que fundamentassem seu uso na conveniência de proteger a madeira da ação da intempérie.
            A ponte coberta é encontrada em todo o mundo. Sua origem, porém, é referida à Suíça e à Alemanha. Pierre Deffointaine atribui esse uso à  defesa da madeira contra a umidade (Pierre Deffontainese -  L’ homme et la  foret - Librairie Gallimard - Paris 1933, p. 131). Mas outros geógrafos reconhecem que, através da história, cobriram-se pontes por motivos variados. Elas foram dotadas de cobertura, no passado, para abrigar os viajantes; para estabelecimento de vendedores, ou ainda para defesa contra ataque de inimigos (Fred Kuiffen - The American covered bridge - In Geographical Review - January, 1951, p. 118).
Atualmente as pontes cobertas são justificadas exclusivamente pelo clima, a fim de se evitar que a madeira seja deteriorada, mas a  difusão desse tipo, nas regiões povoadas por alemães, vem mostrar que a  razão íntima está na tradição desse grupo étnico” (Dr. A Vitor Peluso -  Geografia e Folclore, - in IBECC  Comissão Catarinense de Folclore, Boletim trimestral, set. dezembro, de 1951, nr. 9 e 10 pg. 120 e 124).
 
            Não só as rodovias, mas também os meios de transporte populares evoluíram sob a influência alemã. Ali estavam  carroças coloniais que diariamente se dirigiam ao mercado de Florianópolis, trazidas ao nosso Estado pelos imigrantes.
Os antigos meios de transporte adotados pelos portugueses e espanhóis eram a tropa e o carro de  boi, que não exigiam estradas de terra melhorada. A carroça alemã é de roda fina, raios e buzina justa ao eixo, puxada por cavalos que, em estrada de terra melhorada conseguem avançar em ligeiro trote, perfazendo 6 até 10 Km horários em estrada de terra melhorada.  Entretanto, o carro de boi, em qualquer estrada perfaz apenas 3 ou 4 quilômetros horários. A introdução de carreta colonial forçou o melhoramento de todas as estradas dos interiores dos municípios.
            A carreta veio vindo do Norte do Estado. Por  muito tempo eram encomendadas diretamente de Brusque e Blumenau, até que  os ferreiros de Biguaçu, São José e outros lugares, geralmente os ferreiros de ascendência alemã, passassem também a fabricar estas caprichosas viaturas.
Contava-se que, - quando chegou a primeira carroça em Alto-Biguaçu (depois Município de Antônio Carlos) pela volta de 1920, - a gente saiu à estrada para apreciar o fenômeno. José Müller, seu dono, então residente em Alto Biguaçu, a havia encomendado em Brusque. O herói da primeira carroça de Antônio Carlos, depois se transferiu para a cidade de Biguaçu, havendo sido sempre o mais progressista de sua geração.
           
656. A influência religiosa dos primeiros alemães em SC. A religiosidade dos lusos era diferente da dos alemães imigrantes. Eis onde mais uma vez se operaram influências místicas. Por sua vez os alemães se distinguiam em católicos e protestantes.
            Os protestantes não encontraram no Brasil companheiros, e por isso nem estímulos. Pelo contrário, vieram chocar-se um tanto com uma orientação política católica.
A colônia de Blumenau, inicialmente particular e dominantemente evangélica, deveu depois receber imigrantes católicos. O senador Taunay e outros trabalharam no sentido de favorecer a estes.

O protestantismo diminuiu em certos grupos e até desapareceu. Diluiu-se nos núcleos alemães sobre o Rio Mampituba, de São Pedro de Alcântara e Antônio Carlos. Em 1950 havia 100 mil protestantes em S. Catarina, numa população de milhão e meio.
            De outra parte, os alemães católicos vieram de um país dominantemente protestante para uma pátria nova, oficialmente católica. Traziam de sua parte maior organização confessional do que os católicos brasileiros. A confluência de ambos estabeleceu um dinamismo peculiar no Sul do Brasil.
Quem se der ao trabalho de ler os relatórios de Presidentes de Província de SC, do século 19, observará quanto era dizimado o clero lusitano catarinense e como era mal preparado, intelectual e moralmente.

            Com a República, ampliaram-se as possibilidades de Progresso, no Brasil, tanto de católicos, como de protestantes.
Criaram-se novos bispados católicos. Em 27 de abril de 1892 se estabeleceu o Bispado do Paraná e Santa Catarina, com sede em Curitiba. Aquele Estado até então pertencera à Diocese de São Paulo e o de Santa Catarina à Diocese do Rio de Janeiro.
Os dois bispos que se sucederam em Curitiba, - Dom Camargo de Barros e D. Leopoldo Duarte e Silva, - operaram intensamente sobre SC,  aproveitando sobretudo o clero Alemão, Italiano e Polonês.
Fez-se notar sobretudo a ação de Dom Camargo de Barros, que despertou simpatia popular e foi mesmo favorável ao bom relacionamento com os protestantes.

            Em 1908, criava-se em Florianópolis, o bispado de SC. O patrimônio exigido para a nova diocese foi agendado sobretudo pelo alemão Pe. Francisco Xavier Topp (vigário de Florianópolis). Vinha o primeiro bispo, do contexto colonial do Rio Grande do Sul, o dinâmico alemão, naturalizado brasileiro, Dom João Becker, com ação de 1908 a 1912, quando foi transferido como Arcebispo de Porto Alegre.

            Na Primeira República o clero estrangeiro ocupou situação privilegiada, determinando a influência definitiva da religiosidade alemã em Santa Catarina. Havendo os imigrantes chegado com um melhor índice de movimento religioso, e melhor servido pelos sacerdotes de origem colonial, nascidos no Brasil, superando cedo o numerário dos puramente lusos.
Desta forma, os alemães, como também os italianos vieram trazer poderoso contribuinte à formação religiosa de Santa Catarina, dando-lhe um lugar de destaque dentro do quadro estatístico religioso do Brasil.

            Apesar de muito solicitados pela população, e seus bispos, os sacerdotes estrangeiros, foram subordinados a certas condições de ingresso pelas leis diocesanas e mesmo da Sé Romana.
            As intenções de Roma,  que já datavam do Império, se reformavam em 1890 e em 1903.
            No Sínodo de Florianópolis, de 1910, se estabeleciam normas especiais para nosso clero estrangeiro, de Santa Catarina.
Em 1915 eram as ditas normas aproveitadas na Pastoral Coletiva do Episcopado Brasileiro.
O Cardeal Arcoverde, do Rio de Janeiro, advertiu:  “O pároco precisa de uma formação especial tendo em vista as  necessidades do nosso país e do nosso povo; e para isso é mister conhecer-se a índole, os costumes, as boas e as más qualidades, seu caráter e sua tendências. Estas coisas não as conhecem os congregados Estrangeiros Religiosos que geralmente dirigem os nosso seminários e preparam os nossos seminaristas, que não chegarão nunca a ser os párocos de que precisam nossas paróquias, quer das cidades, quer do campo” (Cfr. Manuel Barbosa - A Igreja no Brasil, Rio 1945, pg. 153).

            Mas, antes que este novo clero se formasse foi preciso ficar com o que se recebia de fora, para formar o nacional. Acontecera já o mesmo com a escola. Sem escola nacional, fora preciso que os imigrantes apelassem à sua escola alemã, sem a qual ficariam analfabetos.
            Já nos primeiros anos da imigração, iniciada em 1829, em São Pedro de Alcântara, e intensificada com a criação das Colônias de Blumenau em 1850 e de Joinville em 1851, vieram alguns sacerdotes alemães, acompanhando os seus irmãos de nacionalidade.

Entre eles se destacam o Padre Carlos Boegershausen de Joinville, e o Padre Jacobs, de Blumenau. Tendo ambos vindo um pouco depois da metade do século, para as duas colônias alemãs mais significativas de Santa Catarina, influíram notoriamente sobre vasta região catarinense, direta e indiretamente.
Particularmente depois de 1889, com a vinda do Padre Francisco Topp, vigário das colônias alemãs do Sul, de Tubarão e de Florianópolis, é que uma plêiade operosa de padres alemães passou a atuar no Estado de Santa Catarina. Padre Topp, vindo primeiramente para São Ludgero, dali passou para Tubarão e finalmente para Florianópolis, onde atuou amplamente de 1896 até 1924, quando faleceu.
            Para avaliar-se o valor exata destes sacerdotes, é necessário conhecer do ambiente de onde vinham. Embora a situação religiosa da Alemanha de então fosse agitada, era, porém, de renovação viva e forte. No início do século dezenove a Igreja se encontrava bastante  enfraquecida em todas as suas províncias. Pela metade daquele século,  porém, começou a restabelecer-se vigorosamente. Foi neste tempo que aportaram em massa os imigrantes alemães em Santa Catarina. Os católicos vinham bem instruídos e com uma fé mais forte, e com um culto mais desenvolvido que o das populações lusas do Brasil. Os sacerdotes traziam a mesma superioridade.
            Também no Brasil desta época se esboçava um movimento de renovação católico. Quando de 1850 a 1870 florescia rapidamente o catolicismo alemão, no Brasil se marchava ainda para a degeneração.  Só alguns bispos ensaiavam os primeiros passos de recuperação. Como se sabe, Dom Frei Vital e Dom Macedo Costa, deram em 1873 início à reação contra o absolutismo galicano do Imperador, quando se deu o que veio a ser conhecido por “questão dos bispos”.

            Depois da vitória da Prússia sobre a França e que  deu lugar a unificação da Alemanha, tentou Bismark uma repressão à Igreja através do Kulturakampf, pressionando diretamente Jerarquia Eclesiástica, no sentido de impor um critério nacionalista.
            A igreja supôs-se forte para enfrentar a nova situação, e os bispos continuaram a nomear como antes os sacerdotes para os seus cargos, sem atender às injunções. Houve condenações de multas, cárcere, expatriação, sendo os jesuítas todos expulsos em 1872.
Também houve na Alemanha uma resistência eleitoral através do partido dos católicos, cujos deputados foram crescendo em número e alegando justos direitos. Lentamente, o alto governo foi cedendo, e, em 1890, se isentava o clero do serviço militar ativo, e logo a seguir Bismark era demitido pelo Kaiser. Este em 1893 visita o Papa Leão XIII, notável pela sua liberalidade.
            Foi durante este período de luta na Alemanha, que se formaram os sacerdotes que no fim do Século 19 vieram para  Santa Catarina. Eram padres seculares, entre os quais se sobressaiu Padre Francisco Xavier Topp. Eram franciscanos que se fizeram presentes em todo o Estado de Santa Catarina até  Chapecó e Palmas.  Eram Jesuítas, os quais por primeiro se estabeleceram no Rio Grande do Sul, de onde vieram em 1906, para fundar o Colégio Catarinense, de Florianópolis. Alguns destes sacerdotes haviam sido afugentados mesmo pelo Kulturkampf de Bismark. Muitos dos que vieram depois, vinham a convite dos precedentes.
           
            659. A influência cultural dos alemães em SC, foi também um fato. Deu-se a influência no ensino primário e secundário principalmente.
Algum tanto também se deu a influência alemã no folclore, como no Clube de danças, bolão, tiro ao alvo, festa de outubro (Oktoberfest).

            No ensino primário e secundário a influência alemã se deu já porque os próprios alemães generalizadamente promovem a alfabetização generalizada dos filhos, promovendo a escola, que finalmente vai beneficiar a todos.
Os municípios mais alfabetizados de Santa Catarina são aqueles em que predomina o elemento germânico. Em 1940, de pessoas que sabiam ler, possuía Blumenau 85, 1%, Jaraguá 84, 3%, Joinville 79, 4%, Serra Alta 78, 3%, entretanto, havia em Florianópolis, Capital privilegiada, apenas  64, 9%, São Francisco 59, 8%, Lages 46, 8%,  Imaruí, em último lugar entre os 31 municípios.
             
O ensino secundário, masculino e feminino foi desenvolvido principalmente pelas Ordens religiosas, e estas em geral procediam do país dos imigrantes, e por intercessão e apoio destes em geral.
Com referência à cultura superior, os alemães fizeram superar o plano puramente histórico, jurídico, comercial e militar, e foram também ao estudo da agronomia, da indústria, da química  e da botânica e das ciências naturais em geral.
Influências culturais de aspecto vário se podem observar ainda  em particularidade como de estilo de igrejas e de casa.

661. Influências italianas. Os italianos de Santa Catarina, imigrados a partir da Itália do Norte, trouxeram novidades consideráveis, inclusive da cozinha, onde se destacam a polenta e o macarrão.
Saul Ulisséia, falando dos imigrantes desembarcados no porto de Laguna, informava assim:
“Faziam suas refeições, no local, e os italianos preparavam a polenta em um grande caldeirão que era mexido com uma acha de lenha” (Cfr. Saul Ulisséia, A Laguna de 1880, Pg. ==).
Destacam-se os italianos como cantores.

664.  Projeções culturais dos lusos. A influência dos lusos sobre os alemães se deu em vários aspectos.
Nos alimentos o lusos receberam anteriormente dos índios, a mandioca, juntamente com os beijus e cuscus, passando-os depois aos imirantes alemães e italianos.
O processo de influência foi mais vagaroso em algumas regiões. Na volta de 1950, um agricultor luso de Araranguá narrou como um casal alemão chegou a conhecer o beijú. Vinha do Litoral do Rio Grande do Sul, em carro de boi, para se estabelecer em Tubarão. Pedindo hospedagem, o marido foi logo examinando as originalidades do engenho de farinha do hospedeiro, e foi quando viu colocar coisas na fornalha.
- Estes bolinhos estão sendo feitos de farinha?
- Não. Eles são feitos de “massa”.
- E são bons?
- Sim...
E o luso lhe ofereceu uns bolos já aprontados. Gostou tanto, que no dia imediato levou alguns para a viagem no vagaroso carro de  boi, afirmando que também iria fazê-los.
Na região de Florianópolis a assimilação da cozinha luso-brasileira ocorreu mais rapidamente enriquecendo sobretudo o café dos alemães, na  época da farinhada. Mas o beiju, o cuscu, e a rapadura não chegaram a ser comestível de luxo, e nem entre  os lusos o são.

O gambá e o camarão foi sendo adotado já mais cedo na região de  Florianópolis. Certo estudante de internato de ginásio narrou a um  grupo de colegas alemães do Sul do Estado, uma caçada de gambá, e como resultara o bicho em belo jantar. O estranho do caso lhe fez sofrer muitas referências por parte daqueles colegas de uma zona em que o gambá ainda era considerado entre os animais impuros e excomungados.

O luso não tinha coisas expressivas para oferecer de acréscimo aos alemães. Sua principal influência foi a alteração de pátria e língua, mas que não se define bem como influência e sim como processo de assimilação a uma situação legal. 
Muitas vezes a influência lusa ia dar na propagação de defeitos, como analfabetismo, credulidade, superstições, vezo de chamar nomes feios.
Onde os alemães se disseminaram entre os lusos, - que aconteceu? Em alguns casos os alemães de tornaram mesmo analfabetos, como ocorreu com os alemães ascendentes do Rio Grande do Sul, na região do Rio Mampituba (vd). ==

665. Os italianos também herdaram dos lusos, não raro algumas superstições.
Em Nova Veneza e Turvo adotaram o uso de espalhar as cascas do amendoim no encruzo da Estrada para crescer melhor a semente e produzir mais (vd).

666. A influência no contexto negro. Foi o habitate negro influenciado pelos lusos.
Com referência à contra-influência cultural do preto sobre os lusos catarinenses ela também aconteceu.
Ocorreram adesões de brancos ao folclore africano e à Umbanda. Notou-se a influência dos negros sobre divertimentos carnavalescos e o folclore do Boi-de-Mamão.

Em Santa Catarina a influência cultural dos negros foi sempre muito limitada, em vista da exiguidade numérica dos mesmos.
Todavia não há tanto a escrever porque uma cultura inferior pouco se reflete sobre outra superior, e tende ela mesma a desaparecer.

667. O que veio dos eslavos, poloneses, ucrainos e russos. Também os polonos, ucrainos e russos tiveram onde deixar sua influência.
No passado, quem percorria o Planalto e algumas zonas do litoral, com acesso para a serra como Itapocu e Cubatão, observava grandes carroções, frequentes sobretudo outrora quando as estradas inferiores e a exiguidade dos caminhões, exigia o recurso da tração animal. Por volta de 1940 talvez houvesse 400 mil destes carroções tirados por 4 até 6 cavalos, em todo o estado de S. Catarina, Paraná e norte do Rio Grande do Sul.
Este tipo de carroças procedia remotamente dos campos da Polônia e Rússia, havendo penetrado no Sul do Brasil na segunda metade do século 19, com a vinda dos imigrantes daquelas nacionalidades. Adequando-se às circunstâncias do país, desenvolveram-se rapidamente e foram aceitos por lusos e alemães. (cfr. Tipoj kaj Aspektoj de Brazilo - Inst. Brasileiro de Geografia e Estatística).

O Carroção distingue-se das demais carretinhas pelas suas dimensões: rodas altas e grossas, caixa enorme, toldo equivalente a uma  barraca e tudo isto puxado por duas ou três parelhas de cavalos.
O  carroção do passado tinha ao lado, presa na grande caixa, uma luz de querosene.
Usualmente leva consigo um coxo, com vistas a tratar cerca de 4 ou 5 cavalos, por ocasião das  paradas.
De início os carroceiros eram em geral só os poloneses, os que trouxeram o sistema dos carroções. Refere Crispim Mira, muito pitorescamente, que “o desvelo com que cuidam dos seus animais é tal que se costuma dizer terem eles mais amor pelos cavalos do que pelas  próprias mulheres” (C. Mira, Terra Catarinense, Fpolis, 1920, pg. 111).
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668. Ainda outros processos de influência e imitação.

a) O Prestígio eis o que todos desejam ter, para si e para suas coisas. O encanto do prestígio resulta na aceitação perante o público.
A propaganda comercial bem dirigida produziu verdadeiros milagres no gênero da aceitação, mesmo de artigos inferiores.
No plano político, o prestígio ainda é mais desconcertante pelos seus efeitos de aceitação. Os grandes ditadores souberam guiar as multidões de tal modo a se verem endeusados por elas. Enquanto isso, outros, tecnicamente mais preparados, todavia não dotados de influência, ficaram fora dos palácios do poder,  fora das assembléias legislativas. 
Bem conhecem os Partidos políticos estes casos, e em suas chapas eleitorais figuram sempre dois tipos: os cabeças de chapa e os técnicos. Quase sempre necessitam destes últimos, mas não entram sem serem acompanhados dos primeiros.

O clero também goza de real prestígio diante da população, geralmente pelo carisma do falar e até pela exterioridade folclórica do vestido litúrgico, mas poucas vezes pela profundidade da formação doutrinária.
As religiões exploram com excessiva facilidade os tumultos psíquicos, interpretando-os como efetivas aparições, revelações, milagres.

b) A Moda diz respeito ao modo como se traçam as vestes em uma época determinada, e que, - para variações menores, - se redivide em estações.
A preocupação do vestuário é ser artístico e de chamar a atenção. A variação oferece constante novidade de apreciação.
 
A diversidade dos temperamentos, o isolamento de certos grupos, a escassez do recurso financeiro e a facilidade de outros, retenção de vestuários antigos, pode resultar em Modos regionais.
Temo-los também em Santa Catarina. Habitualmente, - e acontecia sobretudo no passado, - os agricultores vêm com as modas em atraso.
A rapidez das comunicações estabelecida  após a Segunda Guerra Mundial sincronizou as modas.

670. Conclusão, a globalização em todo o sentido. Na medida que ocorre a interação, se caminha para uma geral homogeneidade no mundo.
É próprio do sobretudo do ser humano agir sobre as coisas, e mesmo em entrar em diálogo com elas, principalmente com as outras pessoas.
O ecológico de uns trata de obter as vantagens do ecológico dos outros.
O psicológico de uns também trata de conseguir as vantagens  do psicológico dos outros.
Finalmente, o cultural de uns quer também alcançar o nível do cultural de todos os outros.
Talvez nunca se chegue ao resultado total da globalização, mas é a direção aspirada. O finito só tem um sentido, - aspirar o infinito, - participando dele de algum modo, e da melhor maneira possível. Outro lugar não nos resta, visto que a geral antitipia nos retém pelo lado de fora do infinito.
Evaldo Pauli, 28 de Maio, 2006.

 


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