
3. Foi João
da Cruz e Sousa poeta de temática universal.
Teve dores pessoais; sobre estas
não chorou, como faz uma notável quantidade de poetas.
Tratou da dor como situação universal, que atinge a todos os seres, emparedando-os inexoravelmente.
É notável que Cruz e Sousa aspirasse também o universal na cultura. Primeiramente a humanidade. Depois a nacionalidade. Sempre depois da globalidade, e somente depois importava a ele a etnia, ou o que quer que fosse. Neste sentido, Cruz e Sousa será o poeta do terceiro milênio, cujo universalismo já se encontra em andamento.
Foi Cruz e Sousa um perfeccionista da forma, e por isso não poderia deixar de tomar aos parnasianos, o que tinham de melhor.
Ultrapassando aos parnasianos, foi Cruz e Sousa ainda ser um simbolista, explorando portanto também o poder dos símbolos, a força das analogias, as sugestões poderosas, que pudessem conduzir mais além, como queria também a filosofia de muitos dos luminares de seu tempo.
Apesar de nascido em berço de ouro, sob a proteção de um nobre Marechal, na encantadora Ilha de Santa Catarina, foi lhe a vida curta e finalmente atribulada. Ainda que morresse na metade do curso de sua vida, foi, mesmo assim, nosso Cruz e Souza capaz de criar obra poética suficientemente grande, que surgiu como montanha entre as outras grandes obras do seu tempo. Imagine-se, quanto seria gigantesco, se houvesse vivido uma vida inteira!
4. - Que é poesia? Dizer a palavra "violão", de tal maneira que ela faça pensar objetivamente só no objeto, ainda não é criar poesia. Está-se ainda no âmbito da prosa.
Quando a palavra é pronunciada em circunstâncias, as quais são capazes de excitar imagens, cintilando evocações, associando estados de alma, ela ultrapassa a objetividade da expressão em prosa e alcança o clima poético.
Eis
a transfiguração que a linguagem assume no poeta simbolista João
da Cruz e Sousa, no poema Violões que choram...
Noites de além,
remotas, que eu recordo.
Noites de solidão,
noites remotas
que nos azuis da Fantasia
bordo,
vou constelando de visões
ignotas.
Sutis palpitações
à luz da lua,
anseio dos momentos mais
saudosos,
quando lá choram
na deserta rua
as cordas dos violões
chorosos.
A grande poesia, como a de João da Cruz e Sousa, é a que sabe estabelecer as evocações mais intensas e institui os recursos surpreendentes de inspiração.
O que acontece com os instrumentos mais ricos de evocação, também sucede com os temas. Na grande poesia, os temas superam o cotidiano. Os decadentes franceses, depois conhecidos por simbolistas, experimentaram esta saída para novas objetos, com recursos extraordinários, conflitando, com o naturalismo parnasiano das formas perfeitas da realidade positiva.
Já antes que o simbolismo se instalasse no Brasil em 1887, a versificação de Cruz e Sousa apresentava uma tendência para a temática ultra-significativa, com recursos que transcendiam ao extraordinário. Com a publicação de Missal (em prosa) e Broquéis (em poesia), ambos no decorrer de 1893, já era apontado como uma das principais expressões desta maneira de ver e exercer a arte.
Depois,
já próximo do final do século, ao compor seus versos de
Violões que choram..., publicados em 1897, o simbolismo brasileiro
alcançava um dos seus instantes mais convincentes.
5.- Esta história. O apelo à expressão poética tem história, da qual recortamos um pedaço, aquele que diz respeito a João da Cruz e Souza e ao movimento simbolista ao qual pertenceu sobretudo nos seus últimos anos.
No decurso milenar de suas manifestações, vários foram os estilos de manifestação poética, oscilando em geral entre o equilíbrio clássico e a tensão das formas intensivas, como do romantismo, simbolismo, modernismo.
Com vistas ao simbolismo brasileiro (1897-1917), seguido do modernismo de que é um dos precursores, os estudiosos concentram suas atenções em Cruz e Sousa.
Não obstante figurar como uma fase cronológica, Cruz e Sousa é um personagem com validade absoluta, o mesmo se podendo dizer de sua obra.
Divisão. No primeiro capítulo destacaremos o lado episódico do poeta, que sempre é importante para apreensão da expressão evocativa.
No segundo abordaremos em abstrato a forma artística de sua obra, o conteúdo ideológico e filosófico, em especial suas teorias estéticas.
Fontes de informação. A documentação e bibliografia é relativamente abundante sobre a obra de Cruz e Sousa.
Obtém-se em parte nos jornais e revistas daquela época. Embora em números raros, os órgãos de imprensa do final da Província ou do Império, bem como do início da República, quase todos subsistem.
Os jornais e revistas em que Cruz e Sousa escreveu se encontram nas coleções da Biblioteca Pública do Estado de Santa Catarina. Também se encontram na Biblioteca Central da Universidade Federal de Santa Catarina em Florianópolis, em parte provenientes do espólio de Lucas Boiteux). Finalmente se encontram também na Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, onde também se acham volumes das primeiras edições dos livros do poeta.
Destacam-se os seguintes jornais:
de Florianópolis, - A Regeneração; Despertador; jornal do Comércio; Poliantea; Colombo; Moleque; O Artista;
do Rio de Janeiro, - Debate; Novidades; Ilustração Brasileira; República; o Pais; O Tempo; Cidade do Rio, sendo este o jornal em que inicialmente trabalhou Cruz e Sousa ao se transpor, definitivamente, para a Capital da República em fins de 1890.
A bibliografia, ou escritos sobre Cruz e Sousa, é abundante. A edição do centenário, 1961, arrolou 81 títulos, que até então haviam tratado do poeta. Depois surgiram outros de excelente qualidade.
São importantes os relatos contemporâneos de Cruz como os de Virgílio Várzea (Impressões da Província, em Correio da Manhã, RJ, 1907) ; de Araújo de Figueiredo (No caminho do destino, memórias deixadas inéditas, com versão A e versão B, que chegaram às mãos de R. Magalhães Júnior, o qual as estudou em Poesia e Vida de Cruz e Sousa, 3. ed., 1971); de Nestor Vitor (Introdução, de quase 60 páginas, que abre a 1? edição de Obras Completas de Cruz e Sousa, em 1923). Similar é o trabalho de Andrade Muricy, editor da edição do centenário, com respectiva Introdução(1961).
Ainda representam informação direta sobre Cruz e Sousa os seus mesmos textos. Como a Platão, que melhor se conhece pelos escritos do que pelos comentadores, a Cruz e Sousa mais se descobre pela inteligente leitura dos seus versos e de sua prosa, do que pelas informações externas.
Havendo assinado seu nome com data e lugar em muitas de suas poesias, este fato permite acompanhar o roteiro do poeta, que percorreu o país do Sul ao Amazonas, e determinar detalhes sobre os elementos que o inspiraram.
Combinando
as informações com os textos, chegamos a este ensaio, sem outra
pretensão que a de ter tido o prazer de haver meditado sobre um poeta,
que muito tem de afim com a ocupação dos filósofos.