5-o. EDIÇÕES DA OBRA DE CRUZ E SOUSA. 978sc085. 

 

        85. - Por uma razão transcendental, Cruz e Sousa preocupava-se muito seriamente em que seus livros fossem publicados, como permanência do espírito após a morte. Este é o conteúdo de uma página de Missal, sob o título "Sugestão". Não se contentava só com o impressão em jornais.

        "Ora, jornais! Jornais só são papéis avulsos, vivem o curto espaço de um minuto ou de um segundo e, muitas vezes, sem os lermos com os mais resplandecentes pensamentos contidos em suas colunas, os deitamos pela janela fora. . .Um livro sintetiza qualquer individualidade".

        Assim é que alguns livros publicados eram um início de vitória para Cruz e Sousa. Mas a queria plena e se apavorava com a morte inesperada. Quando da doença, a preocupação fê-lo apelar aos amigos mais íntimos.

        Globalmente Cruz e Sousa produziu cerca de mil páginas, de que quase a metade foi em poesia.

        Conseguiu publicar, em vida, dois livros de prosa, BTropos e Fantasias (1885) e Missal (fevereiro de 1893). E um livro de poesias, B Broquéis (agosto de 1893).

        Deixou um terceiro livro de prosa ordenado para publicação; B Evocações, B editada postumamente por Saturnino Meireles, em 1898.

        Um segundo e terceiro livro de poesias foram editados de acordo, mais ou menos, com os projetos de Cruz e Sousa, B Faróis ( 1900) e Últimos sonetos ( 1905).

        O recolhimento dos escritos dispersos se procedeu da seguinte maneira: O Livro derradeiro reúne as restantes poesias dos mais diversos tempos, com estes subtítulos; Cambiantes, Outros sonetos, Campesinas e Dispersas.

        Outras Evocações arrola textos em prosa similares aos de Evocações.

        Finalmente Dispersos recolhe ensaios os mais variados, como abolicionismo, perfis de pessoas e escritores, inclusive cartas.

        86. - A publicação de Missal, em fevereiro de 1893, se deu graças a uma oportunidade feliz para o autor. A Editora Magalhães & Cia., além de lançar figuras do estilo tradicional, como Coelho Neto, experimenta o mercado do livro com produtos novos de Gonzaga Duque, Nestor Vitor, Rocha Pombo, Virgílio Várzea e assim também Cruz e Sousa.

        Aquela resenha crítica artificial que se monta ao sair um novo livro, não funcionou. Só paulatinamente surgiram as considerações analíticas, algumas de valor, como as de Araripe Júnior, que nos fala do negro "maravilhado" em um mundo de brancos, e de José Veríssimo, contra o livro e o movimento simbolista.

        Raimundo Magalhães Júnior, que se ocupou em colher os detalhes do episódio comenta: "Grave erro cometeu o editor, lançando, em primeiro lugar, o volume de prosa, sugestionado, talvez, pelo próprio autor, muito confiante na repercussão que teria o seu estranho Missal" (Poesia e Vida de C. e Sousa, 3.a ed. 1972, p, 103).

        O debate que se deu em torno das originalidades de Cruz e Sousa foi sendo o móvel, ainda que limitado, da venda do livro.

        Broquéis, volume de 54 poesias, aparece em 28 de agosto do mesmo ano. Foi bem recebido no grupo dos novos. Ainda não impressiona a grande massa de leitores, dominada pela publicidade parnasiana, seja dos franceses, como Leconte de Lisle, seja de fortes expressões nacionais, como O1avo Bilac.

        Vendeu-se melhor que Missal. Prova que João da Cruz e Sousa era mais um poeta, que um ensaísta. Representando embora uma real mudança na mentalidade da poesia brasileira, a transformação é antes genética ou germinal que um efeito imediato. O episódio do lançamento oferece muitas referências mais na imprensa, que os pesquisadores alinham (Cf. R. Magalhães Júnior, Ib., p. 109- l2l).

        Publicando Missal e Broquéis em 1893, assomou Cruz e Sousa imediatamente como uma das expressões mais representativas do movimento simbolista. Sem que fosse o coordenador e sem que propagasse a inovação em discursos retóricos nas reuniões, - porquanto Cruz e Sousa era modesto e pensativo, - passou a ser apontado como sendo aquele que melhor significava os ideais do movimento.

        Ficou sendo pois o ano de 1893 um ponto de referência do simbolismo brasileiro, cuja duração iria até pelos anos de 1917. "Cruz e Sousa tornou-se logo depois da publicação daqueles livros a figura mais forte e mais ilustre do movimento, e aquela publicação o primeiro grande acontecimento do simbolismo brasileiro. Mesmo depois de morto, foi em torno de sua obra que se polarizou o movimento" (Manuel Bandeira, em Poesia da fase simbolista, Antologia dos Poetas Brasileiros, 1967, Prefácio, p, 11 ).

        87, - Em 1897 estava pronto Evocações, o mais extenso dos livros de Cruz e Sousa, uma espécie de continuação mais profunda dos temas de Missal, acrescido de um timbre mais doloroso. A doença, que o acolhera e que progride rápida, levando-o ao túmulo já no início do ano seguinte, retarda a edição, que saiu póstuma, ainda em 1898, na tipografia Aldina, por iniciativa do poeta simbolista Saturnino de Meireles. Poucos foram os subscritores.

        Faróis é editado em 1900, por iniciativa de Nestor Vitor, a quem haviam sido confiados os versos pelo extinto. A edição foi particular e com auxílio de Gustavo Santiago e Oliveira Gomes, poetas simbolistas. Nestor Vitor escreveu em nota à esta primeira edição: "Guardo, além destas três obras, algumas peças de prosa e verso a mim confiadas pela piedosa viúva do poeta. Mas dessas, umas são trabalhos modernos, que, no entanto, ele retirou das coleções a que os destinava a princípio, outras são produções antigas, dos tempos de primeira formação do seu talento, completamente destoantes de sua obra definitiva. Conservo-as como documentos preciosos, mas me parece que deixando de publica-las como trabalhos de arte sou fiel às intenções do autor e correspondo melhor à confiança que ele em mim depositou".

        Últimos sonetos, num total de quase 100 unidades, recebeu este nome por uma indicação ocasional do Poeta e que foi aproveitada por Nestor Vitor. Residindo já este em Paris, consegue sua edição junto a Aillaud Frères, então associado com o editor brasileiro Francisco Alves, do Rio de Janeiro. No Prefácio, este livro foi dado por Nestor Vitor, como Livro derradeiro.

        As primeiras obras completas de Cruz e Sousa foram publicadas em 1923-1924, prefaciadas por Nestor Vitor, repetindo as edições dos livros anteriores.

        Até então se contava com publicações dispersas e repetidas pela imprensa e revistas, além das primeiras edições. "A razão de muitos moços mal conhecerem-no vem de que com exceção dos Últimos sonetos, publicados em 1905, e que se acharam à venda até há pouco, todos os seus livros anteriores são hoje de procura difícil, guardados como raridades em todo o Brasil por aqueles que os têm" (N. Vitor, Introdução, p. 7).

        88. - O Livro derradeiro, de 1945, foi preparado por Andrade Muricy, que tomou o título a uma expressão de Nestor Vitor, reunindo o que este deixara de publicar e tudo o mais até então se encontrava disperso pela imprensa Ou inédito em arquivos particulares. O mesmo Nestor Vitor esclarecera nas Obras Completas de 1923, que nada desejava acrescentar às edições anteriores.

        Andrade Murici, encarregado da edição Obras Poéticas de Cruz e Sousa, do Instituto Nacional do Livro, reformulou o modo de ver de Nestor Vitor e declara: "... examinando esse espólio, encontrei produções não inferiores em mérito às contidas em Broquéis e Faróis, e alguns sonetos que não enfeiariam aquele repositório de obras-primas da poesia em língua portuguesa e do Simbolismo universal, Últimos sonetos. Poemas como "Velho Vento", "Crianças Negras", "Mendigos", "Diante do Mar", e os sonetos "O Anjo da Redenção", "Vozinha", "A Freira Morta", "No Egito", "Requiescat", e outros, acrescentam em número, e não diminuem em qualidade, a parte definitiva e representativa da obra".

        Dali resulta Livro derradeiro, com 32 inéditos e 35 dispersos.

        Novas pesquisas para a edição do centenário (1961) a cargo do mesmo Andrade Muricy, complementaram as edições póstumas anteriores. "Esta edição acrescenta 87 poesias e 55 páginas de prova ao acervo contido lia edição de 1945, e esta por sua vez já inseria 70 poesias"!

        Só umas poucas criações escaparam à edição de 1961 (cf. 94).