Descartes - índicesCAP. 1

(Versão em Português do original em Esperanto)
© Copyright 1997 Evaldo Pauli

DESCARTES,
FUNDADOR DA FILOSOFIA MODERNA.

 
APRESENTAÇÃO TÉCNICA DO TEXTO. 3686y003.

 

4. No quadro geral da Enciclopédia Simpozio, Descartes pai da filosofia moderna é um texto da Enciclopédia subordinada 2 - história da filosofia.

Como estudo histórico sobre o início da filosofia moderna, se fixa no século 17, quando ocorreu o fenômeno da filosofia cartesiana.

Os epígonos desta filosofia adentraram o século seguinte, e são também aqui tratados.
 
 

5. O texto presente se encontra em forma hyper e dimensão mega.

Em função à forma híper, o texto sobre a filosofia cartesiana reúne em um tratado único os artigos atômicos, que sob outra forma tratam do mesmo assunto.

Respectivamente, em função à dimensão mega, o texto em questão desenvolveu em tamanho maior, o tema que, em tamanho menor, se encontra na Microhistória da filosofia (vd 2216y544).

Considere-se ainda que Descartes pai da filosofia moderna está coordenado no conjunto de ensaios denominado Mega história da filosofia.
 
 

6. A numeração do texto Descartes pai da filosofia moderna apresenta 8 dígitos, organizados em dois campos, divididos pela letra y (característica dos textos híper).

As cifras do primeiro campo conectam o tratado com o artigo KARTEZIISMO (= CARTESIANISMO) , de igual número, da Enciclopédia subordinada 1 – de filosofia.

As cifras do segundo campo operam como números divisionários, e que podem funcionar em separado nas citações internas ao presente texto.


 


INTRODUÇÃO À FILOSOFIA MODERNA E A DESCARTES. 3686y007.

 
 

8. Uma introdução à filosofia moderna e a Descartes primeiramente define o tema, descrevendo-o pelas suas características mais essenciais, e depois o ordena didaticamente.

Situados em Descartes como fundador da filosofia moderna, temos pois em vista sobretudo caracterizar a filosofia moderna em seu instante de processo em estado de fundação e ainda mostrar mais detalhadamente o que foi o fenômeno do cartesianismo situado no início deste processo de modernização do pensamento filosófico.
 
Tudo isto é de difícil compreensão, e por isso importa em uma disposição didática. Por isso temos que, em um procedimento meramente formal, num segundo item desta introdução, eleger um procedimento de abordagem, distribuindo o tema em títulos de capítulos, artigos, parágrafos.

Com o resultado da introdução da introdução, vai ser possível ingressar mais espontaneamente no desenvolvimento pleno do tema proposto, - Descartes, fundador da filosofia moderna.

I – Características da filosofia moderna. 3686y010.

 

11. A filosofia moderna se manifestou inicialmente como Renascença (vd), pela retomada do que de melhor havia na antiguidade grega e na Idade Média dos escolásticos.

Este quadro foi subitamente abalado por dois pensadores, - o francês René Descartes (1596-1650), como filósofo racionalista, e o inglês Francisco Bacon (1561-1626), como empirista, - ambos destacando a questão do método e chegando a resultados opostos em teoria do conhecimento.
 

Em síntese, o panorama da fase de fundação filosofia moderna apresenta duas tendências, que separam seus leitos desde o fundamento gnosiológico da mesma filosofia. Elas são:

- o Racionalismo cartesiano, denominado pelo nome de seu fundador René Descartes,
- e o Empirismo baconiano, assim denominado em função ao seu implantador Francisco Bacon.
Ligeiramente mais novo que Bacon, foi entretanto, Descartes que conseguiu maior impacto, sendo por isso considerado o pai da filosofia moderna.
 
Fazendo esta abordagem a Descartes como fundador da filosofia moderna, fazemos ao mesmo tempo uma introdução à filosofia moderna em geral.

Com Emanuel Kant, a filosofia moderna sofreu novas profundas transformações. Termina então o período cartesiano, para ter início o kantiano, o que se dá pela volta de 1770.

 
Descartes é pois, ao mesmo tempo, um sistema pessoal e um inspirador de sistemas similares. Ainda que hoje ninguém siga tal qual qualquer desses sistemas, - nem o de Descartes e nem os de seus seguidores imediatos, - constituem eles todavia um ponto de partida de muitas idéias posteriores. Esses sistemas representam, portanto, a fundação da filosofia moderna.

Ainda que o empirismo por vezes signifique a principal modernidade em filosofia, também ele se aprimorou em contato com o racionalismo.

Para todos os efeitos, Descartes é o grande nome a partir do qual se determina o marco de um novo tempo em filosofia. Haver Descartes feito discípulos, isto prova que venceu. Se a partir de todos eles, - cartesianos e não cartesianos, - se verteu finalmente a filosofia moderna para novos rumos, significa que a semente produziu frutos.
 
Evidentemente, que mais admiram a Descartes os que se puseram mais ou menos em sua mesma vereda. Por isso Hegel, ao saudá-lo como inaugurador da cultura dos tempos modernos, o apresentou aos seus leitores:

"Aqui já nos podemos sentir em nossa própria casa e clamar, por fim, como o navegador depois de longa e aventurosa travessia por mares turbulentos: Terra!"
 

 
12. São características da filosofia moderna, sobretudo ao tempo de sua fundação:

a ) sistematicidade metodológica;

b) conteúdo novo, sobretudo gnosiológico, que, para uns, estava em ser racionalista (como no caso de Descartes), para outros, empirista (como para Bacon);

c) acontecer cronologicamente em tempo próprio, definido por situações externas peculiares, tanto no mesmo plano da filosofia, como em outros planos culturais, sociais, políticos, religiosos, etc.

 
Este grupo de condicionantes estruturais determinou a especificidade do período inicial da filosofia moderna, a qual, em conseqüência, assumiu uma fisionomia própria.
 

 
13. Sistematicidade. A filosofia moderna principiou com uma fisionomia nitidamente sistemática, destacando o método, e em que o mérito de Descartes foi notório. A frouxidão da filosofia do Renascimento desapareceu e um novo vigor se apresentou. A sistemática que caracterizou o novo tempo certamente nasceu do espírito crítico que a crescente liberdade de pensar gerou, apesar das reações.

Bacon e Descartes solidificaram duas tendências, que sempre existiram, mas que tomam feições novas.

Uma das tendências valorizou a experiência, de onde veio o empirismo e posteriormente o positivismo;

Outra, enfatizando a autonomia da razão, dali decorrendo o racionalismo radical, dispensando a experiência para a descoberta dos universais.
 
Não se trata em primeiro lugar de advertir para esta distinção radicalizada entre racionalismo e empirismo, mas para o fato de haver sido feita com sistematicidade metodológica. Foi, pois, a sistematicidade, sobretudo no campo da crítico da gnosiologia, a primeira característica da filosofia moderna.
 

 
14. Conteúdo novo, sobretudo o gnosiológico. Uma divisão separou verticalmente a filosofia moderna, sobretudo em seu primeiro período, em dois fluxos ideológicos, a partir da fundamentação gnosiológica. Esses dois direcionamentos gnosiológicos em teoria do conhecimento já vinham da Renascença mas somente se definiram claramente na entrada do século 17. Se a fase anterior era de formação, a dessa época foi de verdadeira fundação da filosofia moderna.

Ocorrendo já na antiguidade a distinção entre empirismo e racionalismo, por sua vez modalidades radicais e menos radicais, já se vê, que a novidade do empirismo e do racionalismo ao tempo da fundação da filosofia moderna não representava tanta inovação. Todavia agora acontecia mais insistência sobre a importância destes temas gnosiológicos, havendo ganho novos desenvolvimentos.

Deu-se, pois, como segunda característica da filosofia moderna a inovação de novos conteúdos, e estes sobretudo no campo da teoria do conhecimento, ou gnosiologia.
 
Se a novidade, na filosofia moderna em estado de fundação, se revelou nas posições assumidas em teoria do conhecimento, outra vez foi Descartes, - independentemente da posição assumida, - quem mais impulsionou esta virada para a discussão dos problemas gnosiológicos.

Voltando a insistir, o empirismo buscou valorizar a experiência, portanto, as relações extrínsecas, mais do que as noções meramente especulativas da razão. Esta maneira de pensar era inovadora, com raras manifestações na filosofia imediatamente anterior.

O racionalismo, de outra parte, - e que era o plano em que se situava Descartes, - também inovou, porque se radicalizou na subjetividade da inteligência. Em termos gerais, os antigos já eram racionalistas, porquanto admitiam a especulação a penetrar na forma intrínseca das coisas. O novo racionalismo afastou a importância do objetivo; não somente pensava objetos independentemente da experiência, mas ainda se concentrou no Eu como criador do objeto, quando não no todo, ao menos em parte.
 
Anote-se que a direção racionalista se subdivide em:

 
Entre os novos conteúdos gnosiológicos teve destaque também a questão do realismo versus idealismo. A importância que os antigos davam ao objeto , pouco o examinando gnosiologicamente, conduzia ao realismo. Esse, o realismo, passou a declinar, em muitos aspectos, em favor de um crescente idealismo do objeto mental, e de um sensismo do objeto dos sentidos.

No racionalismo, o objeto se tornou cada vez mais racional, de sorte que a radicalização do racionalismo aumentou a inteligibilidade do objeto, porque ele poderia ser uma criação da razão. Até onde isto poderia ser verdade, deu lugar a formulação de um leque de racionalismos, e que constituem diferentes sistemas modernos.

No empirismo, o objeto também é crescentemente absorvido na subjetividade e se converte crescentemente em simples representação. Outra vez aqui um leque de sistemas empiristas se formou.
 

 
15. Um novo tempo cronológico. A filosofia moderna, que se fundou no século 17, tendo como referencial o Discurso do método, de 1637, encontra-se num quadro de condicionamentos, aos quais importa atender introdutoriamente.

Mesmo quando nada muda, o tempo escorre e se diferencia ao menos cronologicamente do anterior. Mas, a época moderna, - por causa do seu tempo político e por causa da personalidade dos seus filósofos, - muito tem para diferenciar-se concretamente da anterior.

Advertimos, pois, para dois fatores: o tempo político e a personalidade dos seus filósofos.
 

Resultou a época moderna de uma transformação generalizada, para a qual se tomou como data principal a queda de Constantinopla, em 1453, quando foi tomada pelos turcos, e que destruíam desta forma o Império bizantino.

A estes fatores políticos diferenciadores, embora por ação externa, da filosofia moderna, se acrescenta ainda, - como advertimos, - a característica pessoal dos filósofos que lhe deram o impulso inicial.
 

 
16. Do ponto de vista cronológico, começamos portanto por atender à peculiar situação político-militar ao tempo em que Bacon e Descartes fundaram definitivamente a filosofia moderna.

Com as rapinas praticadas pelo colonialismo europeu em outros continentes, e ainda pelo esforço da dinâmica interna dos colonizadores, cresceram sobretudo em poder, a França, a Holanda e a Inglaterra. Estes países cresceram sobretudo, porque suas populações foram capazes de transformar artesanalmente e industrialmente as matérias primas, para consumo próprio e para reexportação.

O colonialismo da Espanha e Portugal, entretanto parou no tempo, porque se limitou quase só à economia predatória e mercantil. Suas populações se manifestaram incapazes para o transformismo industrial, permanecendo no artesanato obsoleto. Seus impérios coloniais foram por isso mais cedo desmontados, e convertidos em países independentes, os quais por sua vez, em consequência da herança, se mantiveram em nível secundário de desenvolvimento.
 

A Itália continuou dividida. Sobretudo os Estados Pontifícios não prosperavam.

O sul permaneceu no feudalismo rural.

O Norte prosperou, e por isso foi capaz de finalmente unificar a península.

A Alemanha sofreu os efeitos da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), terminada enfim com o Tratado de paz de Westfália (1v48).

O Império da Áustria, depois do Tratado de Westfália, perdeu paulatinamente sua hegemonia, embora ainda tivesse momentos de glória depois da derrota de Napoleão.

A França, onde nasceu Descartes, saiu do Renascimento com o rei Henrique IV (1589-1610), o qual foi casado com Maria de Médici. Seguiram-se três governos de infantes: Luiz XIII (1610-1643), que assumiu aos nove anos; Luiz XIV (1643-1715), aos 7 anos, seguidos pelos homônimos Luiz XV (1715-1774) e Luiz XVI (1774-1793).

A tumultuada política dos regentes e ministros levou a França ao apogeu na Europa, como ainda ao poder absolutista com privilégio de classes: nobres, clero, burgueses. Esta divisão em Três Estados se manteve até 1789, com a vitória dos burgueses, ou seja, do Terceiro Estado.

O Duque e Cardeal Richelieu, desde 1624 ministro de Luiz XIII, deu início ao desenvolvimento do poder, em detrimento da nobreza. Com o fim de diminuir a casa da Áustria, aliou-se, ao rei Gustavo Adolfo da Suécia (+1632), estabelecendo-se assim as bases para o resultado final da guerra que terminou com o Tratado de Westfália (1648).

Em consequência do referido Tratado autonomizaram-se os assim chamados Estados Alemães em relação ao Imperador da Áustria, que futuramente se unirão para formar o Estado da Alemanha (1870). Estes acontecimentos fizeram crescer a França, mas não a Europa, cada vez mais dividida e se autodestruindo.

Os sucessos do Tratado de Westfália encaminhou também a prosperidade cultural da França.

Entretanto, a perseguição católica aos protestantes, fez a França perder muitos intelectuais, ou porque fossem mortos, ou porque fossem exilados, havendo muitos deles se acolhido sob o rei da Prússia. O Edito de Nantes, de 1598, garantia aos protestantes (huguenotes) a igualdade civil. Revogado em 1685, foi o Edito restabelecido em 1787, quase às vésperas da Revolução Francesa, devolvendo definitivamente aos franceses o direito à liberdade religiosa, ou seja, de pensamento. Esta conquista influirá paulatinamente outros países.

A Holanda, país da preferência de Descartes, consolidava-se como protestante, na modalidade calvinista, e se encontrava no final de sua luta de emancipação contra a Espanha (católica e aliada à Áustria). Nasceu Descartes quando ainda era rei da Espanha, Felipe II (1527-1598), o qual por todos os modos havia patrocinado os interesses católicos; havia ganho em 1571 a batalha naval de Lepanto sobre os turcos, mas havia perdido sua Armada Invencível em 1588, quando se propunha invadir a Inglaterra. Foi quando a Holanda conseguiu respirar.
 

Eis o tempo que Descartes vive ao ingressar no exército. Sem deixar sua religião, alistou-se em 1617 no exército protestante da Holanda, sob o poder do príncipe Maurício de Nassau. Este era filho de Guilherme de Orange, o Taciturno, de quem fora o sucessor na luta de emancipação, a qual foi reconhecida oficialmente, enfim, na Paz de Westfália.

Descartes viu mesmo o andamento da já mencionada Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), num jogo de dois grupos antagônicos, os quais não punham em cheque apenas os interesses religiosos, mas sobretudo os políticos da Europa dividida.
 

A Inglaterra, - onde nunca esteve Descartes, - participava contudo, de algum modo do seu contexto político e filosófico, este principalmente por contraste com o empirismo. Não raro foi a Holanda refúgio de políticos e pensadores ingleses.

O absolutismo, por algum tempo dominante nas Ilhas Britânicas, era a teoria do poder conferido por Deus, sem restrição, nada cabendo à vontade política dos cidadãos.

De 1558 a 1603, se instalou o reino enérgico de Elizabeth, a qual derrotou a Invencível Armada, expandiu a colonização, solidificou o protestantismo anglicano, desenvolveu as letras e as artes.

Jaime I, de 1603 a 1625, consagrou a doutrina do poder divino dos reis. Seguiu-se o reino infeliz de Carlos I, de 1625 a 1649, tendo governado uma grande parte do seu reinado sem parlamento, sendo finalmente executado. Restaurou a ordem Oliver Gromwel, que em 1653 foi designado Protetor, vindo a falecer em 1658.

Após curto intervalo, assumiu o rei Carlos II, que conduziu a Inglaterra atribuladamente de 1651 a 1685.

Jaime II , de 1685 a 1701, fez concessões aos católicos e assinou a Declaration of Indulgence em 1687.

Nisso irrompeu a Revolução, em 1688, de Guilherme de Orange (rei de 1689 a 1702), o qual restabeleceu os poderes do parlamento e deu início a um novo tempo: o Século das Luzes.

Entretanto, a Inglaterra não conseguiu , nos séculos seguintes, desvencilhar-se, nem dos nobres, nem do esnobismo, nem do protestantismo oficial, nem mesmo das dificuldades decorrentes de diferenciações étnicas. Tal situação se refletiu no modo peculiar com que os pensadores ingleses se referem à filosofia da liberdade e democracia.

A filosofia inglesa se desenvolveu com certa liberdade, mas não total, frente ao poder político e religioso. Discutiu a liberdade. Derivando os ingleses para o empirismo com Bacon, Hobbes, Locke, Hume, impuseram um cerco ao racionalismo cartesiano; finalmente o empirismo inglês derivou para a França, onde, sob a forma do enciclopediamo, determinou a derrota do cartesianismo até então invencível.
 

Mas, dentro das mesmas Ilhas Britânicas se estabeleceram reações, entre elas a chamada Escola Escocesa de Reid.

Como linha do equilíbrio, se estabeleceu o deísmo, que aceitava a divindade, sem os dogmas. O deísmo inglês tornou-se a filosofia da maçonaria, - uma combinatória litúrgica do simbolismo antigo, com a moderação laicista moderna, e que prosperou também na França e depois em todo o mundo.
 

 
17. Grandes homens também influenciam cronologicamente a filosofia. Neste sentido o novo tempo cronológico novo no plano da filosofia, que se tornou moderna, foi marcado pela atitude pessoal de dois homens significativos, René Descartes e a Francis Bacon.

Na mente de Descartes, a nova filosofia teve começo ao retirar-se, em 1617, da França para a Holanda, desiludido das velhas conceituações e passando então a atender às ciências físicas e às matemáticas.

Ele mesmo disse que, em 1619, já no Sul da Alemanha, descobriu um método de trabalho. Convencido da integração geral das ciências, caminhou também para a filosofia, até que, em 1637, publicou o Discurso do Método, como manifestação definitiva do seu novo pensamento.
 

 
18. Com referência aos trabalhos de Francisco Bacon (1561-1626), tiveram eles início mais cedo. Todavia, demoram mais para influir. Não , todavia, que se coloque a data da fundação da filosofia moderna já no primeiro quartel do século 17.

Não resta dúvida que, do ponto de vista cronológico, o empirismo de Bacon foi anterior ao racionalismo de Descartes. O The Proficience and Advancement of Learning e o Novum Organum, de Bacon, foram respectivamente de 1605 e de 1620, tendo falecido o autor em 1626. Já o Discurso do Método, de Descartes, foi apenas de 1637, vivendo ainda o autor até 1650.

 

19. Todavia, o impacto de Descartes foi de maior grandeza e imediata repercussão. Bacon ofereceu uma diretiva menos convincente e de efeito tardio. Basta examinar os filósofos seus contemporâneos para observar esta ausência de liderança ideológica imediata. Nenhuma lógica nova surgiu em decorrência do Novum Organum de Bacon.

Nem contou Bacon com as circunstâncias peculiares do mundo francês de Descartes, além do mais relacionado pessoalmente com a Holanda, Alemanha, Suécia, Itália, por onde transitou e onde mesmo residiu.

Sobretudo, contou Descartes com maior preparo científico e matemático, circunstância esta que o credenciava enormemente, ao passo que Bacon desconhecia as sutilezas da Matemática e não aderira sequer às doutrinas avançadas como a do sistema de Copérnico.

A fase de fundação definitiva da filosofia moderna tem, por conseguinte,

como seu pai maior, Descartes, ainda que irmão mais novo de outro pai, o menos erudito Bacon. Dali também, porque, na hipótese de se batizar o tempo pelo nome de um seu representante principal, deve-se denominá-lo de período cartesiano.
 

 

II - Disposição didática do tema proposto. 3686y020.

 

21. Eleito Descartes para ser tratado aqui como fundador da filosofia moderna, a distribuição do tema poderá obedecer a sequência seguinte:

- capítulo sobre a vida e obras de Descartes (vd 3686y020);
- capítulo sobre o que mais o preocupou, o método e a teoria do conhecimento (vd 3686y );
- capítulo sobre sua filosofia geral (vd 3686y217), que aborda a ontologia, que se estende à existência e natureza de Deus;
- capítulo sobre filosofia natural, psicologia, finalmente filosofia moral, de que se ocupou também, ainda que parcamente (vd 3686y ).
 
Dado que Descartes teve imediatamente seguidores, - os cartesianos, - deve-se atender também complementarmente a estes. Trata-se tanto de apreciar a importância do mesmo Descartes, bem como a filosofia desses mesmos continuadores. Em consequência se deverão tratar ainda os capítulos:
- primeiras filosofias racionalistas cartesianas, ditas puras (vd 3686y );
- ocasionalismo de Geulicx e Malebranche (vd 3686y );
- panteísmo de Spinoza (vd 3686y );
- filosofia cartesiana alemã, de Leibnitz até as inovações de Kant (vd 3686y ).
 


Descartes - índicesCAP. 1