CAP. 3CAP. 5

(Versão em Português do original em Esperanto)
© Copyright 1997 Evaldo Pauli

DESCARTES,
FUNDADOR DA FILOSOFIA MODERNA.

Cap. 4
FILOSOFIA CARTESIANA
DA NATUREZA, ALMA E MORAL.
3686y066.

 
 

251. Introdução. No plano da filosofia do ser particularizado, inovou Descartes um dualismo de várias irredutibilidades mais.

Em resumo, asseverou haver somente duas espécies de substâncias criadas: extensão e pensamento, porque na análise dos objetos pensados restam apenas estas duas noções, como as mais simples e irredutíveis entre si.

Dada a diretriz dualista tomada, a cosmologia cartesiana se desenvolveu em plano rijamente separado do da psicologia, opondo claramente corpo (como extensão) e alma (como pensamento
 

Com referência a alma, sua essência seria o pensamento; este não seria apenas uma operação de uma faculdade, a qual, por sua vez, fosse sustentada por uma substância. As sensações seriam apenas pensamentos confusos.

Quanto aos animais, uma vez considerados como não tendo pensamento e por isso não tendo alma, não passariam de máquinas bem construídas.

As relações causais entre alma e corpo são as de duas substâncias completas (conforme Platão). De natureza irredutível e especificamente distintas, Descartes não encontrava explicação clara para esclarecer como a alma podia agir sobre o corpo, e, vice-versa, o corpo sobre a alma; a partir dali surgiriam novas explicações futuras criadas pelos ocasionalistas e ontologistas.

 

252. Do ponto de vista metodológico, Descartes deixou-se conduzir pela idéia geral, de que as ciências se entrelaçam, por princípios cada vez mais gerais, de tal maneira que, a partir dos princípios gerais se pode, inversamente, descer paulatinamente para cada uma das ciências particulares.

Se primeiramente Descartes era um físico, depois um matemático, sua elevação ao plano das preocupações filosóficas se dava precisamente em função a este empenho pela síntese total. Recrimina a Galileu, porque permaneceu num plano isolado, particular, como a da física e matemática.

A concatenação dos princípios, por todos aliás admitida, assume em Descartes uma fisionomia radical. Deduz a física simplesmente da metafísica, o mesmo fazendo a propósito da psicologia.

Diferentemente, a escolástica de tipo aristotélico caminha do ser particular para o geral. Também o empirismo de Francisco Bacon insiste que a essência, ou forma, ou natureza dos seres de certa área particular não se pode descobrir a partir de noções gerais, de onde ser necessária a experiência. Descartes deduz da imutabilidade divina a conservação quantitativa do movimento; mais peculiarmente ainda, deduz do geral as leis muito mais particulares da inércia (Princípios, II, 37), da propagação do movimento em linha reta (Princípios, II, 39).

 

253. Nas sua deduções do geral, para o particular, criam-se de pronto duas direções irredutíveis, a do corpo e a do espírito. Dali nasce uma cosmologia (ou física) e uma psicologia (entenda-se psicologia racional), como partes da filosofia natural.

Para precisar as noções de corpo e espírito reduz Descartes a essência de uma coisa ao seu atributo fundamental. Entre atributo fundamental e substância não ocorre senão uma distinção de razão. Foi Descartes analisando e afastando tudo, pela dúvida, até chegar ao atributo que, se também for destruído, redundará na eliminação do todo. Deste modo chega a descobrir na alma, como atributo fundamental, o pensamento, que fica sendo a sua essência, e no corpo a extensão que fica sendo também a sua essência.

 

254. Sobre estes atributos fundamentais, portanto essenciais, reconstrói os demais, dedutivamente, ou seja, na direção da particularização.

"Mas ainda que todo o atributo seja suficiente para fazer conhecer a substância, há todavia um em cada substância que constitui sua natureza ou sua essência e de que todos os outros dependem. A saber: a extensão em longitude, largura e profundidade constitui a natureza da substância corpórea; e o pensamento constitui a natureza da substância que pensa".


ART 1o. COSMOLOGIA CARTESIANA (a nova física). 3686y256.


 
 

257. Dada a diretriz dualista tomada, a cosmologia cartesiana se desenvolveu em plano rijamente separado do da psicologia, opondo claramente corpo (como extensão) e alma (como pensamento
 

A cosmologia cartesiana apresenta colocações originais, pelo menos diversas das concepções correntes na escolástica.

Em síntese: estabeleceu, conforme já adiantado, a essência dos corpos como substancialmente extensão.

O tema ganha logo uma divisão clara, porque distingue entre atributo fundamental, - a extensão, - e atributos secundários decorrentes, - figura, divisibilidade, movimento.

Importa a extensão, porque foi dada como substância dos corpos, e o movimento, porque funda o sistema mecanicista da natureza segundo Descartes.

 
Dali decorre a divisão didática:

§1. Natureza do corpo como extensão substancial. 3686y259.

 

260. A natureza do corpo é a mesma extensão que este apresenta. A extensão é um atributo que não se reduz a outros, o mesmo que acontece com o pensamento irredutível; por isso se diz substância.

Ocorre uma matematização dos corpos, desde que coincidam com a extensão, que por sua vez é tratada como espaço.

Esta restrição da substância corpórea à extensão espacial, resulta imediatamente em restrições as concepções anteriores. É que, pelo método cartesiano da idéia clara e distinta de espaço não se encontram certas peculiaridades que anteriormente se atribuíam aos corpos.

"A natureza do corpo não consiste no peso, na dureza, na cor ou em qualidades semelhantes senão na só extensão

Quanto à dureza, a sensação não nos indica a seu respeito, senão que as partes dos corpos duros resistem ao movimento de nossas mãos, quando chocam contra elas... E de nenhuma maneira se pode conceber que os corpos que assim se retiram terão de perder por isso a natureza de corpo; por isso, ela não pode consistir na dureza.

Do mesmo modo pode demonstrar-se que tanto o peso, como as cores, como todas as outras qualidades análogas, que se sentem na matéria corpórea, podem retirar-se dela, mantendo-se esta íntegra; dali se segue que sua natureza não depende de nenhuma delas" (Princípios de filosofia, II, 4).

 
Cuidando em distinguir corpo e alma, escreveu:

"No que se referia ao corpo, não duvidava de maneira alguma de sua natureza; pois pensava conhecê-la mui distintamente e, descrito desta maneira:

por corpo entendo tudo o que pode ser limitado por alguma figura;

que pode ser compreendido em qualquer lugar e preencher um espaço de tal sorte que todo outro corpo dele seja excluído;

que pode ser sentido ou pelo tato, ou pela visão, ou pela audição, ou pelo olfato;

que pode ser movido de muitas maneiras, não por si mesmo, mas por algo de alheio pelo qual seja tocado e do qual receba a impressão.

Pois não acreditava de modo algum que se devesse atribuir à natureza corpórea vantagens, como ter de si o poder de mover-se, de sentir e de pensar" (Med. Metaf., 2-a, 6).

 

261. Muito diferentemente, na concepção aristotélica a extensão é um acidente e agora em Descartes é uma substância. É que para Aristóteles a substância se diz em função ao sujeito, de sorte a ser substância o que em si possui seu sujeito; ora, neste sentido, a extensão é um determinador, que possui em outro o seu sujeito.

Descartes diz ser substância o atributo irredutível a outro e que em si mesmo já não se divide sem se destruir, de sorte a não precisar de outro, sob este ponto de vista, para existir.

Aliás, também em Aristóteles, a extensão é uma noção suprema e irredutível a outra. Por isso mesmo, em Aristóteles a extensão é uma categoria suprema. Nesta condição ofereceu uma lista de 10 categorias supremas. Se valesse a alegação de Descartes, que todo o irredutível é uma substância, elas deveriam ser em número de 10, na filosofia de Aristóteles.

Todavia, para Aristóteles esta condição de último atributo irredutível não perfaz ainda o conceito de substância.

Não há, pois, uma distinção pronunciada entre substância e acidente: a realidade se concentra e se converte numa só peça do pensamento, desdobrável apenas pelo sistema das idéias claras e distintas.

§2. Explicação mecanicista generalizada . 3686y263.

 
 

264. Depois de derivados da extensão substancializada o importante atributos do movimento, passou Descartes a uma explicação mecanicista generalizada (vd 3686 ). Ou seja, o mundo físico em toda a sua extensão é só espaço e movimento; até mesmo as qualidades secundárias dos corpos são subjetivas, o que neste particular é uma questão gnosiológica; o animal não é mais que simples máquina.

Identificada a substância dos corpos com sua extensão, a partir dali Descartes desenvolveu a idéia do atomismo e a teoria da formação do mundo mediante turbilhões.

265. Causas do movimento: no mundo e no homem. Removeu Descartes a causa final. Ressurge também aqui o voluntarismo a propósito do poder divino. Diz Descartes que não devemos alimentar a pretensão de penetrar os desígnios de Deus.

Contentou-se Descartes com a causa eficiente do movimento e suas leis. Dividiu a determinação das causas eficientes em duas considerações: a causa geral e as causas particulares.

A causa geral é tema filosófico. As particulares são estudadas pelos tratados científicos.

266. A causa geral de todos os movimentos do mundo não pode ser senão Deus. Não basta outra causa inferior. Para retirar a inércia da massa imensa do mundo se requer a criação do movimento, tirando-o do nada, o que faz necessário um poder infinito, - Deus. Eis-nos diante do raciocínio de Aristóteles ao tratar do primeiro motor.

A constância do movimento encontra sua explicação também em Deus. Sendo este imutável, conserva também imutavelmente o que produziu. A conservação de energia, que é uma das bases da ciência, encontra assim uma tentativa de explicação metafísica.

A explicação cartesiana é a priori baseada num princípio universal, ao passo que a ciência induz esta lei inferindo-a dos mesmos fatos da experiência.

É o movimento a única forma de energia aceita por Descartes. Diante disto, coincidem segundo ele a lei da "conservação da energia" e a da "conservação do movimento".

267. As causas particulares dos movimentos como ocorrem nos mais diversos seres vem dar lugar às obras científicas particulares.

E é aqui que se insere a física de Descartes. Aliás, para ele todas as alterações se reduzem a movimentos mecânicos.

Embora alheia à filosofia, não deixa a física cartesiana de despertar interesse pela sua originalidade.

268. Procurou Descartes estudar os fenômenos físicos, que reduzia exclusivamente ao movimento, no seu livro O Mundo de que editou apenas fragmentos, - A Dióptrica, Os Meteoros e A Geometria, - os quais têm aliás como introdução o Discurso do Método.

Desenvolveu ali a hipótese dos turbilhões, que suplanta as teorias de Aristóteles. Para Descartes o mundo girava em torno do sol, mas não em torno de si, arrastado apenas pelo turbilhão através do espaço.
 
Uma questão referente ao movimento particular, que interessa diretamente à filosofia, é a do movimento do corpo por ação da alma, e de que Descartes se ocupou em sua psicologia (vd).

269. Os detalhes sobre o mecanicismo animal em geral, inclusive humano, despertam interesse.

Separado o corpo e alma, não podendo nenhum movimento do vegetal, do animal e do homem provir por ação do princípio vital, deveu Descartes estabelecer uma explicação puramente mecânica para numerosos fenômenos naturais tidos até agora como atos de origem vital. Diversos temas da psicologia transformaram-se em capítulos de mecânica.

"Estas funções, diz Descartes procedem com toda a naturalidade desta máquina tão só da disposição dos seus órgãos, como os movimentos de um relógio, ou outro automático, cujo movimento depende apenas dos contrapesos e das rodas" (Traité de lhomme, ed. Cousin, IV p. 347-349).
 

Nos animais, que não têm "pensamento" (substância da alma), somente se pode encontrar extensão (substância do corpo) e movimento mecânico. Diante disto os animais irracionais são autômatos.

Se há alguma coisa que possa distinguir o homem de uma máquina que se fizesse, seria apenas o fato de estar o homem dotado de pensamento e com capacidade de falar com raciocínio.

Insiste Descartes, prevenindo-se contra a estranheza que a teoria poderia provocar:

"Não há de parecer isto de modo algum estranho aos que sabendo quantos autômatos diversos ou máquinas moventes pode fabricar a indústria dos homens, empregando apenas muito poucas peças, comparativamente ao grande número de ossos, músculos, nervos, artérias, veias e todas as outras partes que existem no corpo de cada animal, considerarem esse corpo como uma máquina que, tendo sido feita pelas mãos de Deus, é incomparavelmente mais bem arranjada, e tem em si movimentos mais admiráveis que qualquer das que possam ser inventadas pelos homens" (Descartes, Discurso do método, 5-a med.).

 

270. Todos os atributos ou propriedades mencionadas como decorrentes do atributo fundamental irredutível, - figura, divisibilidade e movimento, - são opostas às do pensamento. A ação mútua entre corpo e alma não tem cabimento, pois.

Diante disto, não podem ser produto da ação corpórea os nossos conhecimentos de cor e pensamento, de ordem afetiva, dor e alegria. Sem entretanto existem tais pensamentos, afetos e conhecimentos de qualidades sensitivas, são obra exclusiva da alma, que opera por ocasião da presença dos corpos. Mais tarde, Locke, empirista inglês e entusiasta do método cartesiano, determinará uma terminologia que ficará consagrada: as propriedades que são obra do espírito se denominam "qualidades segundas" em oposição às "qualidades primeiras", que são naturais.

Encontramos aqui uma solução cartesiana definitivamente idealista, porque cerca toda a ação por parte do objeto. Se o conceptualismo de Descartes conduziu de futuro ao idealismo, neste setor das qualidades secundárias, já o próprio autor chegou a ele. Pode-se comparar, ainda que não igualar, a doutrina cartesiana com aquela que, embora não admitindo a realidade formal das cores, contudo aceita a ação do objeto e não só a sua "ocasião" para a formação destas propriedades secundárias. Quanto à filosofia clássica, embora estabeleça a realidade das cores, e que faz objeto formal da vista, sabe contudo que a cor não é algo hipostasiado, é apenas determinação da substância. Certamente que a faculdade ainda algo muda, quando capta abstrativamente seu objeto. Já ocorre isto com a inteligência quando apreende o ser enquanto ser. O mesmo processo ocorre nas cores.

 

271. Percebeu desde logo Descartes a fecundidade da experiência. Chegou mesmo a menosprezar a parte especulativa do estudo da natureza, em favor do estudo experimental:

"Logo que adquiri algumas noções gerais a respeito da física, e que, começando a experimentá-las em diversas questões particulares, observei até onde podem conduzir e quanto elas diferem dos princípios utilizados até hoje, entendi que não podia conservá-las ocultas sem pecar gravemente contra a lei que nos obriga a promover tanto quanto cabe em nós o bem geral de todos os homens.

Com efeito, elas me fizeram ver que é possível alcançar conhecimentos que sejam utilíssimos para a vida; e que, em vez dessa filosofia especulativa que se ensina nas escolas, pode-se achar uma prática, pela qual conhecendo a força e as ações do fogo, da água, do ar, dos astros, dos céus e de todos os outros corpos que nos cercam, tão distintamente quanto conhecemos os diversos ofícios de novos operários, poderíamos do mesmo modo aplicá-lo a todos os usos a que se prestam e tornar-nos assim como que senhores e possuidores da natureza". (Discurso do Método, 6-a, med.).

 
Como se depreende da advertência do mesmo Descartes sobre a importância da ciência experimental, o método da idéia clara e distinta, não o retinha apenas no plano do seu racionalismo filosófico radical, caracterizado pelas idéias inatas e separação do corpo e do espírito.


ART. 2o. A NOVA PSICOLOGIA DE DESCARTES. 3686y274.


 
 

275. Ao examinar o mundo psíquico, manteve Descartes o dualismo tradicional, radicalizando a distinção entre corpo e alma, caracterizando ainda a esta como substância completa, espiritual, simples e imortal.

Classificou e caracterizou ainda as atividades da consciência.

Assim sendo, sua psicologia é abordável em dois parágrafos.
 

 

§1. Natureza da alma-pensamento. 3383y277.

 
 

278. O pensamento não é apenas uma operação de uma faculdade, mas é a substância mesma da alma.

Não é portanto para Descartes o pensamento a operação de uma faculdade, a qual, por sua vez, fosse sustentada por uma substância, finalmente denominada alma. Pensamento e alma são a mesma coisa.

A conclusão de Descartes se deveu ao método, em que seu princípio é o de que o último atributo irredutível é a mesma substância. Em sua análise o pensamento não se reduz a outra idéia mais simples; por isso não necessita de outra mais simples para existir.

Não há pois, distinção, senão de razão, entre pensamento e alma, porque um é efetivamente o outro, distinguindo-se apenas por perspectivas abstratas. A revelação da substância se faz pelos atributos; pensar é um atributo e o fundamental; sendo o atributo fundamental, coincide com a substância.

 
Duas considerações precisam desde logo ser feitas sobre a maneira de se conduzir da psicologia cartesiana.

Primeiramente, ela se prende à definição de substância como sendo a última noção irredutível. De tudo o que pensamos, desfeitas as complexidades, resta enfim o pensar simplesmente, como a mais simples noção neste gênero.

Coerentemente, se para Aristóteles são dez os gêneros supremos irredutíveis, entre as muitas noções de predicação unívoca, dez deveriam ser as substâncias. Em Descartes são apenas duas as noções irredutíveis: pensamento e extensão.

Em segundo lugar, não se pode admitir que o pensamento seja uma noção inteiramente irredutível à outra, como quis Descartes. Efetivamente, o pensamento é uma qualidade, mas não coincide com a qualidade em si mesma. Para Aristóteles uma das noções supremas irredutíveis é a qualidade, sob a qual se coloca o pensamento; seria, pois, o pensamento uma determinação que afeta um outro ser mais fundamental, à maneira de qualidade. Que é qualidade? É aquilo que faz uma coisa ser uma qual coisa.

Não andou mal Descartes ao estabelecer a extensão como suprema na sua ordem; efetivamente não se reduz a outra, figurando por isso na relação das dez categorias aristotélicas. Porém, não seguiu o mesmo bom caminho ao dar ao pensamento situação identicamente irredutível.

Depois de estabelecida a alma como pensamento, cuidou também Descartes em determinar seus principais atributos e suas relações com o corpo.
 

 

I Atributos da alma, - o caráter de substância completa,
simples, espiritual e imortal e livre da alma. 3383y279.

 

280. Quando Descartes determina ao pensamento como objeto da psicologia, este pensamento é analisado com um sentido mais amplo que o aristotélico, porque inclui todos os fatos de consciência. O esforço da psicologia cartesiana vai ser o de tentar reduzir a essência da alma ao pensamento e descrever os demais atributos, a saber a simplicidade, espiritualidade e imortalidade, a liberdade, a sensibilidade, como se também fossem pensamento.

A índole geral da psicologia cartesiana é anti-escolástica, porque obedece a conceituação metodológica da idéia clara e distinta, combinada com a conceituação geral de substância como o ser que não precisa de outro para suficiência de sua existência. É substância aquele atributo, que já não se reduz a outro, no que se refere a sua mesma noção; eis o que não é aristotélico, e funciona na psicologia cartesiana.

 

281 O dualismo radical. Para Descartes, ainda como decorrência do método da idéia clara e distinta, a alma humana é substância completa; não é portanto, a parte de um todo como se fosse a parte de uma substância que resultasse da composição da alma como forma do corpo. Encontramos aqui uma aproximação com Platão, que também juntava a alma e o corpo em uma união que não era essencial.

"... depreendi daí que eu era uma substância, cuja essência ou natureza toda não consiste senão em pensar, e que para existir não carece de nenhum lugar, nem depende de coisa alguma material; de sorte que eu, isto é, a alma, pela qual eu sou o que sou, é inteiramente distinta do corpo, e até mais fácil de conhecer que este, e que ainda que o corpo não existisse, ela não deixaria de ser tudo o que é" (Med. metafísicas, 2-a med.).

 
"Sou pois uma coisa que pensa. E que mais? Excitarei minha imaginação para ver se não sou mais alguma coisa ainda. Não sou este conjunto de membros chamado corpo humano; não sou um ar delicado e penetrante repartido por todos os membros; não sou um vento, um sopro; não sou nada de tudo isto que posso fingir e imaginar, já que tenho suposto que tudo isso nada é, e que sem alterar sua disposição, penso que não deixo de estar certo de que sou alguma coisa" (Med. metafísicas, 2-a med.).

 

282. A alma não se pode conceber senão como indivisível, isto é, simples. Este tributo, que representa uma especulação já mais adiantada, já não vinha demonstrado nas especulações sintéticas do Discurso do Método, mas em Meditações Metafísicas, em que o autor é sempre mais amplo.

"... não podemos conceber corpo algum que seja indivisível, enquanto que o espírito, ou a alma do homem, não pode ser concebido senão de modo total e definitivamente indivisível. De fato, não poderíamos imaginar meia alma, coisa que facilmente poderemos conceber com respeito ao corpo mais insignificante " (Discurso do Método, 4-a med.).

 

283. A conclusão cartesiana que a alma além de simples é também espiritual infere-se também de imediato. O corpo tem como essência a extensão. Diante disto, a alma, que não tem extensão, é essencialmente um elemento simples não extenso.

 

284. Induz enfim Descartes a imortalidade da alma, inferindo-a de seus atributos anteriormente estabelecidos. O espírito vê "clara e distintamente" que uma tal substância não pode ser senão imortal. A simplicidade a põe ao abrigo da dissolução (razão interna); de outra parte, não se vê como poderia a alteração material do corpo, por ocasião da morte, afetar essencialmente uma substância totalmente independente do corpo (razão extrínseca).

Observam-se ali as mesmas razões tradicionais, mas em cores cartesianas. A razão extrínseca até aparece com mais força, dada a distinção absoluta entre alma e corpo.

Eis a questão em palavras do autor: "... à corrupção do corpo não se segue a do espírito, ficando assim ao homem a esperança de uma outra vida após a morte, vida esta apenas espiritual" ( Descartes, Meditações Metafísicas, 2-a med. ed. port. p. 29).

Mas a incorruptibilidade como é apresentada é física, não metafísica. Por isso, aliás, acrescenta o mesmo Descartes, admitindo que resta ainda a vontade de Deus conservar, ou não, a alma, cabendo somente a ele responder sobre o que efetivamente vai acontecer:

"Sed si de absoluta Dei potestade quaeratur, an forte decreverit ut humanae animae ilisdem temporibus destruuntur, solius est Dei respondere" (Descartes, Rép. aux. 2-es. Obj.).
 

 

II - Relações da alma e do corpo. 3686y285.

 

286. Defende Descartes uma união entre a alma e o corpo maior do que a simples convivência, de modo a haver interação de movimentos:

"o que esta natureza me ensina de forma mais expressa e sensivelmente, é que tenho um corpo, o qual, quando sinto dor, está mal disposto e, quando tenho os sentimentos de fome ou sede, necessita comer ou beber, etc...

Não devo, portanto, duvidar de que há nisto um tanto de verdade. Por meio desses mesmos sentimentos de dor, de fome, sede, etc..., ensina-me a natureza que não estou tão estreitamente unido e confundido com ele, que ambos formamos como que um só todo uno e indivisível.

Se não fora assim eu não sentiria dor quando meu corpo está ferido, visto que eu sou apenas uma coisa que pensa; perceberia o ferimento por meio do entendimento, como um piloto percebe por meio de vista a rota do seu barco.

E quando meu corpo tivesse necessidade de alimento, eu teria um simples conhecimento dela sem que fossem precisos os sentimentos confusos da fome ou sede; concluímos, pois, que todos esses sentimentos de fome, sede, dor, etc., nada mais são que certos modos de pensar confusos que procedem e dependem da íntima união do espírito com o corpo" (Meditações met., 6-a med.).
 

A união, é, pois, tão íntima que a interação não se faz pelo entendimento que saísse a examinar seu edifício de moradia pelo lado de fora. Convivem não só juntos, mas como que ainda encostados, colados, embutidos, de tal sorte que a ação de um é referente sempre ao outro.

287. A união não chega a ser substancial. O corpo e a alma continuam duas substâncias completas e irredutivelmente opostas.

Diante desta oposição, a ação mútua não pode ser direta, por não haver adequação. O corpo não age diretamente sobre a alma e nem a alma diretamente sobre o corpo. Esta verificação cria graves dificuldades para manutenção do contato íntimo de alma e corpo.

288. Ensina ainda Descartes que a alma reside na glândula pineal, talvez para reduzir as dificuldades da união com o corpo. Teria ali contato com os espíritos animais.

Por espíritos animais entendia Descartes, - como outros do seu tempo, - uma espécie de fluído nervoso, um vento subtil, algo de muito puro e vivo como a chama ígnea. É mais ou menos o que hoje se entende por corrente elétrica nervosa. Produzidos pelo coração, os espíritos animais são transmitidos pelos nervos aos músculos para que dêem movimento aos membros.

A ação da alma para o corpo, embora não direta, é explicada por Descartes pela idéia de força. É uma noção primitiva que encontramos em nós, dada pela união mesma "como a força pela qual a alma age sobre o corpo".

Aparece assim a idéia de força como algo de específico destinado apenas para a função da união da alma e do corpo. Em tudo o mais fica inexplicável a referida união, conforme declara o mesmo Descartes, em virtude de não ser possível conceber como uma coisa é una quando efetivamente é dois, a saber alma e corpo.

"Não parece que o espírito humano seja capaz de distinguir bem distintamente, num só tempo a distinção entre alma e corpo e sua união porque para este fim necessário seria concebê-los como uma só coisa e ao mesmo tempo como duas, o que se contraria" (Descartes, Carta a Princesa).
 

 

§2. Atividades e fatos de consciência. 3686y290.

 

291. No sistema cartesiano podem-se distinguir três categoria de pensamento, ou de fatos de consciência: fatos puramente representativos, fatos puramente ativos, fatos a um tempo ativos e passivos.

Nesta distribuição se nota desde logo que o pensamento inclui não só a inteligência, mas também a vontade, porque, sendo o pensamento a essência da alma, tudo, efetivamente, se reduz ao pensamento.

"Com o nome de pensamento entendo tudo o que ocorre em nós estando conscientes... De maneira que não só compreender, querer imaginar, senão também sentir significam aqui o mesmo que pensar" (Princípios, I, 9).

292. Os fatos puramente representativos, - da primeira categoria de pensamento, - são uma imagem do objeto, "como se eu me represento um homem ou uma quimera, ou um céu, ou um anjo, ou um Deus mesmo" (Meditações metafísicas, 3-a med.).

A estas representações se reserva o título de idéias.

293. Os fatos puramente ativos, - da segunda categoria de pensamento, - se referem à vontade operativa do homem.

Dividem-se em dois grupos: os fatos ativos puramente eficientes da vontade e os fatos representativos pelas afeições como de prazer e de dor.

Observa-se aqui que Descartes não parece distinguir especificamente entre apetites dos sentidos (ou afeições) dos espirituais (ou vontades).

294. Os fatos a um tempo ativos e passivos, - da terceira categoria de pensamento, - são aqueles fatos inteletivos que contam com a moção da vontade.

Ora, segundo Descartes a atribuição de uma idéia a outra, como no juízo em que o predicado se atribui ao sujeito, é efetivada por meio da vontade livre.

Também a decisão se classifica aqui, como ato ativo e passivo.

Eis um texto cartesiano referente a esta divisão dos fatos de consciência:

"Entre meus pensamentos, uns são como que as imagens das coisas e só a estes convém propriamente o nome de idéia; como quando me represento um homem, uma quimera, o céu, ou mesmo Deus.

Outros têm algumas outras formas; como quando quero, temo, afirmo, nego, pois se bem concebo então alguma coisa como assunto ou tema (sujet) da ação de meu espírito, também aduzo algumas outras coisas, mediante esta ação, à idéia que tenho daquela; deste gênero de pensamentos, uns são chamados vontades ou afeições e outras juízos".

Nota-se mais uma vez como Descartes acentua a importância da vontade, o que concorda perfeitamente com o seu voluntarismo já adotado na Metafísica das essências sob a arbitrariedade de Deus (vd).

295. Intencionalista ou psicologista? A impressão deixada pelo objeto na faculdade cognoscente não é apenas um efeito ali colocado, à maneira de produto, afecção ou paixão. Seria então apenas como uma coisa.

Mas a impressão é também um sinal do objeto ao qual significa, do qual se diz agora ser uma expressão. Este duplo aspecto, - conhecido na escolástica pelos indicativos species impressas e species expressa, - não foi amplamente estudado por Descartes, o qual entretanto não ficou de todo alheio à diferença.

Esteve Descartes muito mais preocupado com o conhecimento como efeito na ordem da causa eficiente, - portanto como species impressa, ou paixão, como as vezes diz. Este é seu contexto quando discute se a imagem das idéias vem de Deus, ou de um gênio mau, ou efetivamente do objeto.

Do tema tratam, com o respectivo ponto de vista, a gnosiologia, cujo aspecto é o da validade da mensagem, e a psicologia, que adverte sobre a natureza meramente psíquica.
 
 

296. O que mais importa no processo do conhecimento é a causa formal e o respectivo efeito formal, como quando se constata que o semelhante (causa formal) acusa o assemelhado (efeito formal). Não importa em primeiro plano como o conhecimento surgiu na ordem da causa eficiente.

Como efeito formal, o assemelhado fica sendo o objeto referido pelo conhecimento, ao qual conduz. Agora o conhecimento, explicado pela mimese, provoca o fenômeno da intencionalidade, que lhe é essencial.
 

A natureza intencionalista é evidente na concepção cartesiana do conhecimento. Ainda que pareça situar-se num contexto psicologista, Descartes não considera as imagens do conhecimento apenas como uma coisa, como no psicologismo, mas essencialmente se referem intencionalisticamente a algo, como sendo seu objeto.

Diz Descartes em textos vários:

"... posto que as idéias são como imagens, não pode haver nenhuma que não pareça representar-nos algo" (3-a med. ).
 

" Entre a alma e; suas idéias não faço mais diferença que a que existe entre um pedaço de cera e as diversas figuras que pode receber. E como na cera não é não é precisamente uma ação, senão uma paixão o receber diversas figuras, parece-me que também na alma é uma paixão o receber tal ou qual idéia..."(Ao P. Mesland, 2 de maio de 1644).

"... todas as classes de percepções ou conhecimentos, que se encontrem em nós, se podem chamar, em geral, paixões [de nossa alma], porque a miúdo não é nossa alma quem as faz tais como são e porque sempre as recebe das coisas que representa" (3- med.).


Art. 3o. A MORAL CARTESIANA. 3686y298.


 

299. Pouco escreveu Descartes sobre moral. Para compreensão da ética de Descartes tem-se que levar em conta que no seu sistema o homem se encontra na mais completa dependência de Deus.

Ainda se deve considerar a separação substancial entre corpo e alma. O corpo obedece às leis da natureza sem que o espírito possa intervir naquela máquina.

Finalmente, a vontade e as paixões no sistema cartesiano se reduzem ao pensamento, essência da alma.

Os escritos de Descartes, em virtude de seu feitio muito pessoal, revelam cá e lá pequenos preceitos morais e que se coletam para auxiliar a construção de uma Ética cartesiana sistemática.

 

300. Ao estabelecer a dúvida metódica e universal, fixou Descartes três regras de uma moral provisória destinada a lhe garantir uma vida tranquila enquanto duvidava. Estas regras reencontraria depois, como dedução metódica das verdades que ia reconstruindo.

Resumem-se assim:

conformismo social, seguindo a religião de seu país;

constância da vontade;

moderação nos desejos.

 
Em número de seis são as paixões primitivas: admiração, amor, ódio, desejo, alegria, tristeza.

Estando o homem na mais completa dependência de Deus que é todo poderoso e bom, tudo o que nos ocorre é inevitável, mas nos sobrevem para nosso bem (conformismo com os acontecimentos).

O grande obstáculo das ações do homem é a irresolução. É irresoluto o homem que não se decide. Na falta de ver claramente que precisa fazer, acaba geralmente por se decidir ao azar.


 


CONCLUSÃO SOBRE A FILOSOFIA DE DESCARTES
E SOBRE SUA CONTINUIDADE. 3686y303.


 

304. O fundador da filosofia ;moderna impressionou e satisfez às exigências de seu tempo, e daí seu sucesso. Intentou uma solução crítica do pensamento humano em termos mais amplos. Sua solução agradou, já como simples tentativa, já porque vinha com uma nova proposta.

Descartes impressionou porque soube aplicar certa unidade interna a todo o seu sistema, pondo-o em termos mais ou menos coerentes com a nova solução, pelo menos de uma coerência satisfatória para os espíritos da época.

O ecletismo desagregante da maioria das filosofias "oficiais" das universidades de seu tempo cedeu quase espontaneamente a favor da inspiração nova de Descartes, como também à de Francisco Bacon.

 

305. A inspiração racionalista de Descartes comandará uma corrente considerável de inteligências até 1770, com o surgimento de Kant. Mas este embora podasse a árvore cartesiana quase por inteiro, conservou-lhe ainda as raízes, representadas pelo conceptualismo racionalista.

Descartes e Kant formam assim duas etapas sucessivas da direção conceptualista moderna, ao mesmo tempo o empirismo de Francisco Bacon comandava outro grupo, que finalmente se foi expressar no enciclopedismo e positivismo.

 
Os cartesianos seguidores de Descartes são sobretudo aqueles até Kant.

Fixado o que é especificamente cartesiano, notar-se-ão com precisão os novos desdobramentos realizados pelos seus discípulos.

Verificar-se-á uma diferença entre os primeiros cartesianos, e um grupo seguinte, caracterizado pelo ocasionalismo de Geulincx e Malebranche;.

Num terceiro tempo surgirá o monismo de Espinosa.

Num quarto tempo se manifestará o poderoso racionalismo (ainda cartesiano) de Wolff e Leibniz, da filosofia alemã, que, que finalmente derivou para o apriorismo de Kant.

Eis o roteiro de dois séculos e meio do cartesianismo, desfilando como principal corrente filosófica do primeiro período da filosofia moderna, com alguns brilhantes porta-bandeiras.

 


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