Cap. 5Índices

ENCICLOPÉDIA    SIMPOZIO

(Versão em Português do original em Esperanto)
© Copyright 1997 Evaldo Pauli

ESCOLÁSTICA DE OURO

CAP. 6
ESCOLÁSTICA LATINA DO FIM DA IDADE MÉDIA. 8171y459.

 

460. Introdução. Dividida a escolástica latina medieval em 3 períodos, o último é aquele que vai do século 14 ao fim da Idade Média, marcado pelo ano de 1453, quando a queda de Constantinopla se refletia sobre o Ocidente, acontecimento que, somado a outros fenômenos sociais e culturais, pôs fim a uma época de mil anos. A escolástica de ouro ingressa por este período a dentro.

 

Quanto à mesma Idade Média, seu terceiro e último período, embora ocupe praticamente todo o século 14, ele se caracteriza como diferente sobretudo a partir de 1325.

Evidentemente que os períodos da história não se determinam por séculos redondos, mas se situam parte em um, parte em outro, sendo pois necessário determiná-los também por elementos objetivos, sobretudo pelos fatores que neles operaram.

 

As características do século treze, todo ele situado no segundo período da filosofia escolástica, dita sobretudo então escolástica de ouro, se estenderam ao primeiro quartel do século imediato, sobretudo até pelos anos 1305, com dilatações até pelo menos os anos 1325. O tema que agora se propõe, - e dito escolástica latina do fim da Idade Média, - ocupa o século 14 a partir sobretudo do ano 1325, e demora até meados do século 15, quando da citada queda de Constantinopla, 1453.

 

Sob alguns aspectos apontado como um período de declínio, não se lhe pode tirar todo o mérito. Apesar de agitado pela Guerra dos Cem Anos e pelas lutas do Papado empenhado em manter suas anteriores prerrogativas, o período final da Idade Média evoluiu sob muitos outros aspectos, e ainda preparou a Idade moderna.

 

A Escolástica de ouro se estendeu, portanto, até o fim da Idade Média, seja com brilho, seja sem brilho.

 

461. Didaticamente é possível tratar da escolástica latina do período final da Idade Média, pela seguinte ordem de títulos:

- Visão geral da Escolástica latina do período final da Idade Média (Art. 1-o) (vd 171y463);
- Mestres nominalistas, em especial Ockham e a corrente científica (Art. 2-o) (vd 8171y476);
- Mestres escotistas do fim da Idade Média (Art. 3-o) (vd 8171y545);
- Mestres tomistas do fim da Idade Média (Art. 4-o) (vd 8171y557);
- Místicos do fim da Idade Média, com destaque para Eckhart e Nicolau de Cusa (vd 8171y567).
 
 


ART. 1-o. VISÃO GERAL DA ESCOLÁSTICA LATINA
DO PERÍODO FINAL DA IDADE MÉDIA. 8171y463.


 

464. Como sempre, é preciso distinguir entre condicionantes extrínsecas e condicionantes intrínsecas ao mesmo desenvolvimento deste pensamento.

Como fatores extrínsecos, capazes de influir nos resultados da investigação filosófica, novas situações políticas e sociais em geral passaram a operar no período final da Idade Média, e que importa determinar.

O mesmo acontece com os fatores intrínsecos, até porque o último período herdava do anterior (século 13) os resultados de uma grande efervescência mental do anterior, e dispôs também de notáveis pensadores, todavia de outra feição mental.

§1. Condicionantes extrínsecas da escolástica do fim da Idade Média. 8171y465.

 
 

466. As universidades se multiplicaram no fim da Idade Média, de onde várias mudanças de ordem geral.

Em princípio a multiplicação das universidades diminuiu a importância relativa da de Paris, como também da de Oxford, embora não declinassem de seu valor absoluto.

Em decorrência da multiplicação das universidades, cresceram as oportunidades para o nível de preparo das elites.

 

Novas áreas geográficas eram conquistadas para a cultura, como resultado da distribuição das universidades pelas mais diversas cidades, ao mesmo tempo que estas cresciam em um mundo cada vez menos feudal.

No espaço do Império germânico e arredores surgiram universidades em: Heidelberg, em 1316; Praga, em 1348; Viena, em 1365; Colônia, 1389; Erfurt, 1392; Cracóvia, 1397; Lovaina, 1425.

Na península ibérica tomou impulso a universidade de Salamanca, já fundada em 1248; e se criaram outras mais em Bourges, Valência, Coimbra (Portugal).

 

Ainda que a multiplicação das universidades permitisse perceber a baixa de nível em algumas, o fato não pesou no todo, porque nada impedia que outras se destacassem.

A multiplicação das universidades permitiu que algumas mais facilmente se evadissem ao controle ideológico, tanto eclesiástico como político, mais fácil de acontecer ao tempo que tais instituições eram poucas, como acontecia no século anterior.

O nível cultural do fim da Idade Média fora certamente progressivo, e preparou a vastidão crescente da civilização européia, que passará a se estender também à burguesia em formação.

 

467. O poder político nos séculos 14 e 15. É muito relativo falar-se em decadência política no fim da Idade Média do Ocidente.

Já iam então florescendo as repúblicas italianas, as cidades livre da Alemanha. Espanha e Portugal iam se libertando paulatinamente do domínio árabe, então de caráter islâmico. O feudalismo declinava, enquanto a burguesia prosperava.

 

As grandes complicações se davam na França, Inglaterra e Roma. Evidentemente, foi tudo se refletindo nas respectivas universidades.

Novas idéias políticas comandam os povos europeus no final da Idade Média, devendo-se neste particular advertir para as relações entre a Igreja e o Estado.

Governou a França neste tempo, Felipe IV (1285-1314), o Belo, que pela primeira vez convocou os Estados Gerais e criou o Ministério Público; na Alemanha, Luiz IV da Baviera, rei a partir de 1314 e depois imperador (1283-1347), conflitado com o Papa.

 

Foram Papas, na transição para o novo período, Bonifácio VIII (1294-1303), Clemente V (1305-1314), João XII (1316-1334). Anti-Papa Nicolau V (1328-1330).

Desde 1309 passou o papa a residir em Avignon (Sul da França), o que aprofundou a influência francesa sobre o Pontificado.

Esforçou-se a Igreja em manter o velho esquema do Sacerdotium et Imperium. Atribuía-se a Igreja o direito de julgar sobre interesses políticos e até de depor príncipes e mesmo o Imperador. Este, presuntivamente o Imperador da Alemanha (depois com sede em Viena, Áustria), seria o sucessor de uma linha ininterrupta, desde o Império Romano-cristão, fundado por Constantino. Eis um mito, que foi sendo minado no final da Idade Média, havendo perdurado contudo até o século 19, quando ainda influenciou os atritos entre Napoleão e o Imperador da Áustria.

Felipe o Belo, da França, se abalançou a lançar tributos sobre a poderosa classe do clero. Bonifácio VIII declarou ilegal o dispositivo do rei, emitindo a Bula Clericis laicos, de 1296.

 

Divididas as opiniões, dali resultou uma vasta literatura crítica, com oportunidade para a uma filosofia política específica.

A favor do poder pontifício, se destacou Egídio Colonna (Gil de Roma), autor de De ecclesiastica potestate, 1302. Contra, por sua vez, se destacou o dominicano francês, João de Paris (vd ), De potestate regia et papale (1302-1302). Também contra, mas menos incisivo, escreveu o franciscano inglês, Guilherme de Ockham.

Ainda sobre o assunto, concluiu em 1324, Marsílio de Pádua, seu famoso Defensor Pacis, em que a atuação do Pontífice Romano, o Papa, foi descrita como perturbadora da harmonia européia.

468. Situação do Papado no fim da Idade Média. Despedaçou-se no fim da Idade Média parte do rijo controle eclesiástico sobre o pensamento, já que o papa perdeu em importância ao se deslocar para Avignon, em 1309, onde os sucessores permaneceram até 1376. Dividiram-se mesmo os seus eleitores cardinalícios, em consequência do que houve em certos momentos até três papas, apoiados por diferentes partidos, sobretudo na França, Alemanha, Itália. Mesmo depois continuou a haver aqueles ao quais se denominou antipapas.

Bonifácio VIII (1294-1303), apesar de haver sido ainda um grande Papa, no estilo do século 13, não teve a suficiente habilidade de encaminhar os interesses em declínio, da Igreja, num momento em que declinava o poder autocrático da Igreja sobre assuntos civis. Sua intervenção na França, contra Felipe IV, o Belo, não teve os resultados pretendidos.

O rei da França logrou ainda, à época do Concílio de Viena, 1311, a condenação da Ordem dos Templários, conseguindo assim para as arcas reais ainda mais rendimentos.

 

Ao passar o Papa a residir em 1309 em Avignon, parecia encerrado o poder papal, que Gregório VII havia estabelecido em 1085, quando a criação de um poderoso Colégio Cardinalício houvera substituído a influência do Imperador na eleição dos papas. De outra parte, em consequência do Colégio Cardinalício, eletizou-se a cúpula da Igreja.

Avignon, onde os papas permaneceram quase 70 anos, até 1377, foi taxada, por isso mesmo, o "cativeiro de Avignon", referência aos 70 anos do cativeiro judeu em Babilônia.

 

A influência francesa sobre os destinos da Igreja não agradou na Alemanha, e a ela resistiu o afoito Luiz da Baviera (+ 1347). Mas também este se comportou como se a jurisdição papal fosse algo a restaurar. Acolheu em seu território aqueles que buscavam moderar as prerrogativas pleiteadas pelos Papas, e eram por isso perseguidos, - Guilherme de Ockham, Marcílio Ficino, Nicolau d’Autrecourt.

Mesmo na ausência do Papa, Luiz da Baviera fez-se coroar Imperador, em Roma, 1328. Quem o coroou foi o Capitão do Povo, conforme a teoria de que o poder procede do povo. E como atribuía ao povo a derivação do poder eclesiástico, depôs o Papa João XXII (ausente em Avignon), substituindo por Nicolau V. De outra parte, João XXII excomungou ao Imperador Luiz da Baviera.

Em 1356, as disposições dos Eleitores do Império, simplesmente omitiram a confirmação do novo Imperador pelo Papa.

 

A decadência do anterior poder do papado sobre o poder civil se precipitou depois de 1377, quando o papa Gregório IX decidira retornar à velha cidade Romana. Havendo falecido logo no ano seguinte, formaram-se dois conclaves, um em Roma, outro em Avignon, elegendo-se em consequência dois papas. Dali resultou o assim chamado Grande Cisma do Ocidente, 1378-417. Não demorou, e já eram três os papas, ditos um obediente à Roma, outro à Avignon, e outro ainda à Pisa.

Em 1409 ocorrera o ruidoso e agitado Concílio de Pisa, sem que houvesse chegado a resolver o grave e escandaloso conflito, porque eram fortes as ambições, quer dos eclesiásticos, quer dos governos nacionais.

Em 1414 se reuniu mais outro Concílio, desta vez em Constança, na fronteira alemã, convocado por João XIII, papa obediente à Pisa, sob o empenho do Imperador Segismundo. Compareceram 29 cardeais, 32 arcebispos, 150 bispos, e delegados dos demais papas, Gregório XII e Bento XIII.

As dificuldades começaram a ser superadas em 1417, com a renúncia de Gregório XII. Quanto à Bento XIII, foi deposto pelos conciliares, como herege e cismático. João XXIII, ainda que considerado verdadeiro papa no referido Concílio, também renunciou. Elegeu-se como novo papa a Martinho V.

A igreja Romana, já não era a mesma do século treze. Continuou sem o anterior prestígio, e após mais cem anos, em 1517, aconteceria a Reforma Protestante. Mas agora já se está para mais além do fim da Idade Média.


 

469. A revolta dos fraticelos, ou espirituais, com base em doutrinas já dos séculos anteriores, sobre o reino do Espírito Santo, caracteriza também o fim da Idade Média.

O abade italiano cisterciense Joaquim de Flora (+1202) divulgara a doutrina, condenada depois pela Igreja. Aderiram religiosos, sobretudo franciscanos, como Pedro Olivi, Miguel de Cezena, Guilherme de Ockham. Os espirituais abstinham-se de qualquer propriedade.

O Papa Celestino V permitiu em 1294 a separação dos espirituais de sua respectiva Ordem, quando se retiraram para uma Ilha do Mar Egeu (Grécia). Os Papas seguintes, Bonifácio VIII e Clemente V, ordenaram a reintegração na Ordem. Os que resistem são justiçados pela Inquisição. João XXII, em 1223, condenou a tese da necessidade de pobreza total.

Diferentes formas da devoção medieval ao Espirito Santo, com coroa e bandeira, atravessaram os tempos, conservando-se em algumas periferias culturais da Europa, como Portugal e Açores, de onde se estenderam inclusive para o Brasil.

§2. Condicionantes intrínsecas da escolástica do fim da Idade Média. 8171y471.

 

472. Apesar de tudo escolástica evolutiva. É assaz relativo designar a filosofia escolástica do século XIV e XV, como decadente. Efetivamente é decadente em relação à algumas posições abandonadas. Mas nem estas o foram totalmente.

Para os que aderem aos novos pontos de vista, ocorreu o progresso, a modernização.

Como revelam os resultados da moderna história da filosofia, que levantou e publicou as obras dos pensadores do fim da Idade Média, muitos são os méritos. Lá se encontram algumas raízes do pensamento moderno, o qual se formulou paulatinamente já a partir de então.

473. Um tendência evidente para a especialização, ocorreu no final da Idade Média, semelhante à aquela que se dera no pensamento pós-socrático, ou helênico-romano. A experimentação e a matemática foram crescentemente prestigiadas.

Na especialização se arrola também a ocupação com a arte, quer de expressão, quer de construção, que logo irrompeu nos sucessos do Renascimento.

Quanto à tendência de tratar a filosofia em separado da Fé, este particular se tornou crescente, em contraste ao século 13. Duns Scoto, na transição de um período para o outro, surpreendeu com a dimensão dada à filosofia.

 

No plano da filosofia política acentuou-se a preocupação em determinar as relações entre o temporal e religioso. Não somente ocorreram os conflitos (vd 469), como se geraram estudos teóricos sobre o tema.

Os problemas do conhecimento diversificaram as soluções, desde as mais extremistas dos nominalistas, até o apuro das formulações tradicionais.

 

474. Correntes de pensamento do fim da Idade Média. A divisão, ou distribuição didática (vd 462) dos movimentos filosóficos no Ocidente europeu, no decurso do período final da Idade Média, usa advertir em primeiro lugar para a novidade gnosiológica principal, - o nominalismo, cujo inspirador foi o inglês Guilherme de Ockham.

Segue-se depois para as filosofias remanescentes, como o tomismo, escotismo, o misticismo, que neste período final da Idade Média contaram com expressivos representantes. Embora as filosofias remanescentes não despertem a mesma atenção que as inovadoras, podem contudo oferecer melhor qualidade.

No espaço de 1320 a 1453, - termino da Idade Média, - ocorrem importantes mestres tomistas, com destaque João Capréolo (1380-1444), autor aliás do Libri defensionum, dirigido contra as novas correntes escolásticas de seu tempo.

 

O platonismo cusano, de Nicolau de Cusa (+ 1464), de alguma influência, ligado ao movimento misticista, pode também ser transferido ao temário da filosofia da Renascença, e portanto aos tempos modernos.

No século 16, particularmente os tomistas, voltam a ganhar terreno, e de que os autores do século 15, são o ponto de partida.

Tem o nominalismo, frente às outras denominações remanescentes o caráter de ser uma escolástica dissidente. Não é a escolástica dissidente daquele último período da Idade Média mais uma corrente ao lado das que denominamos. Se é que alguns são mais pronunciadamente dissidentes, como por exemplo, Nicolau d’Autrecourt, eles são nada mais que uma modalidade de nominalistas. Ou estão pelo menos na mesma tradição geral platônica, como é o caso de Nicolau de Cusa.


ART. 2-o. MESTRES NOMINALISTAS DO FIM DA IDADE MÉDIA. 8171y476.


 
 

477. Didaticamente, importa considerar primeiramente o nominalismo em geral e tratar mesmo de seus precursores. A seguir, cabe tratar de Guilherme de Ockham muito em especial. Finalmente, dos demais mestres nominalistas.

§1. Do nominalismo em geral. 8171y479.

 

480. Havendo surgido nos círculo agostiniano, o nominalismo reduz as idéias universais a termos que indicam as coisas, ao modo como as palavras também as indicam. Apenas o conhecimento singular nos diz algo.

As idéias universais, antes interpretadas pelos racionalistas como representando alguma realidade, passam agora a ser apenas conceitos vazios. Já dizia anteriormente Roscelino, que tudo era senão sopro de voz (flatus vocis).

Faltava apenas criar um sistema para tudo isto. Foi o que fez Ockham, enfatizando o conhecimento singular, e reduzindo o resto a tão só uma linguagem da mente.

Foi Ockham avaliado pelos historiadores como precursor do empirismo moderno, ao mesmo tempo que do racionalismo kantiano.

481. Precursores do nominalismo de Ockham. Não surgiu o nominalismo como inovação de Guilherme de Ockham, o qual foi todavia seu principal sintetizador, havendo operado de 1318 a 1347.

Desde o século 12 a questão dos universais despertou as mais variadas respostas sobre o valor do conhecimento. Enquanto uns defendiam o realismo dos universais, conservando por conseguinte a linha racionalista radical de Platão, derivaram outros para a posição moderada de Aristóteles, e finalmente outros para a interpretação dos conceitos como sendo simplesmente nomes mentais das coisas.

482. O dominicano Durando de Saint-Pourçain (+1334) (vd ...), pelo lado do tomismo, já havia derivado para um nominalismo crescente. No seu Comentário das Sentenças defendeu a intelecção direta dos objetos singulares e atribuiu ao inteleto a criação do universal: "universale vel conditio universalis non praecedit actum intelligenti, imo fit per actum inteligenti... Esse universalis est denominatio objecti ab actu sic intelligendi" (Super Sententias II, dist. 3, p. 7, fol. 107, 1, Paris, 1539).

Além disto, defendeu as teses agostinianas e escotistas da matéria determinada, a exclusão das espécies, a haecdeidade ou a individuação independente da matéria.

 

O mesmo caráter de precursor do nominalismo acontece com Pedro de Auréolo (+1322).

 

483. Praticaram o nominalismo (vd 514):

William Ockham (c. 1280 - c. 1349), franciscano (vd );

João Buridano (c. 1300 - c.1358), reitor duas vezes em Paris;

Guilherme de Heytesbury;

Gregório de Rimini (+ 1358), Geral dos Agostinianos;

João de Mirecourt (c. 1345);

Nicolau de Autrecourt (c. 1300 - + após 1350), mestre em Paris;

Nicolau de Oresme (1310-1382), mestre em Paris, bispo;

Alberto de Saxônia (c. 1316-1390), por último foi bispo;

Gabriel Biel (1430-1495);

Marsilio de Inghen (c. 1330-1396), reitor em Paris e Heidelberg;

Henrique von Heinbuch (c. 1340-1397), mestre em Paris, reitor em Viena;

E assim outros e outros, ninguém rigorosamente igual ao primeiro mestre.

§2-o. William de Ockham, em especial. 8171y484.

 

485. Apresenta-se Guilherme de Ockham ao mesmo tempo como figura singular e como figura típica do seu tempo de transição. Teve sua brilhante carreira inicial cortada pelas intrigas dos que sabem menos e querem governar os que são mais eruditos e capazes. Não obstante conseguiu ser suficientemente grande para ter criado um pensamento apreciável.

Dele há a destacar a vida e obras; a seguir suas doutrinas.

 

I - Vida e obras de William de Ockham. 8171y486.

 

487. William of Ockham (ou Guilherme de...), (c.1280 -c.1349), filósofo escolástico inglês, nasceu em Ockham (grafado também Ockam, ou ainda Ockham), do distrito de Surrey, sul em relação a Londres. Ficou conhecido simplesmente pelo nome de sua localidade natal.

Se for ele o Guilherme de Ockham, frade menor, dito haver sido ordenado subdiácono em Southuvard, a 26 de fevereiro de 1306, pode-se estabelecer seu nascimento pela volta de 1280. Entretanto, a identificação não se consegue fazer por si só, com base no nome, porque William é muito frequente na Inglaterra, como também eram várias as vilas com o nome de Ockham.

Certamente não se trata do Guilherme de Ockham de que fala uma carta pontifícia de 1308, que o suporia clérigo secular.

O primeiro detalhe cronológico seguro sobre W. Ockham é de 1323, quando já lecionava em Oxford. Nesta condição foi acusado, em 1323, de incurso em heresia pelo chanceler da Universidade, João Lutterell, e chamado para a corte pontifícia, então em Avignon, Sul da França, onde chegou em 1324.

Já franciscano, deveria ter ingressado anteriormente na ordem, fazendo nesta condição seus estudos em Oxford, os quais conforme se conjetura, teriam acontecido de 1312 a 1318. Bartolomeu de Pisa, que escreveu entre 1380 e 1389, o chamou Abacharel formado em Oxford".

Quem teriam sido os mestres de Guilherme de Ockam? A afirmativa de que teria sido aluno de Duns Scoto aparte mui tardiamente em 1494, com Trithéme, para se lhe dar valor. Considere-se que Duns Scoto havia deixado a Inglaterra em 1304 definitivamente. Mas, pela sua obra escrita, Guilherme aspirou o ar dos anti-tomistas. Assim também poderá ter lido a Summula logicales de Espanha.

 

Concluídos seus primeiros estudos superiores, Guilherme de Ockham terá passado imediatamente a lecionar como bacharel (inceptor). Em tal condição teria lido e comentado as Sentenças de Pedro Lombardo. Seu magistério se desenvolveu até 1324, quando veio a ser acusado. Não parece que tenha tido a oportunidade de até este tempo adquirir a gradução oficial de Mestre.

A interrupção inquisitorial do magistério de uma operosa inteligência foi certamente um grande mal para Oxford, como para o tempo a que pertenceu.

488. Em Avignon Guilherme de Ockam ficou retido 4 anos, no convento que ali tinham os frades franciscanos, conforme ele mesmo referiu em carta dirigida ao Capítulo Franciscano de Assís.

Enquanto o processo se arrastava, William se envolveu também com a questão dos Aespirituais", pronunciando-se contra estes, contra o papa, tal como o Superior Geral da Ordem Franciscana.

Finalmente fugiram o Superior e Guilherme de Ockham. Burlando aos perseguidores, e tomando um barco em trânsito, alcançaram a Itália, onde seguem para Pisa, alcançada em 9 de junho de 1328. São acolhidos pelo Imperador Luiz da Baviera, então ali com a corte.

 

Ao seguir o Imperador em 11 de abril de 1329 de retorno à Alemanha, o acompanhou Guilherme de Ockham, lá chegando em fevereiro de1530. Agora estabelecido no convento de Munich, sustentou ali; uma luta de cerca de vinte anos, contra as diretrizes de João XXII e seus sucessores Bento XII e Clemente VI.

Teria dito Guilherme de Ockham ao Imperador:

Defenda-me com a espada, eu te defenderei com a pena".

Esta afirmação se encontra num crônica do mesmo século. Mas, é discutível.

Num tempo em que o Imperador buscava fazer reconhecido um outro Papa, esforçava-se Guilherme de Ockham em provar que João XXII, de Avinhon, era um herético, como ainda analisava os conceitos de heresia, poder temporal e poder espiritual. Reuniu tais idéias no texto Dialogo entre o mestre e o discípulo sobre o poder do Imperador e dos Pontífices.

Tentando Luiz da Baviera uma conciliação, primeiramente em 1335, quando apenas se havia eleito em dezembro do ano anterior o Papa Bento XII, manteve-se Guilherme de Ockam contrário à idéia.

Falecido o Imperador em 11 de outubro de 1347, passou William a ter reentendimentos com as instâncias de Avignon. Não se sabe, se por efetiva mudança de opinião, ou se pelo receio de ser entregue pelo novo soberano Eduardo III. Não se sabe a que resultados se chegou.

Mas fora a 8 de junho de 1349 autorizado Farinier para absolver a Guilherme e seus companheiros, dos quais alguns já eram mortos. Ficara Guilherme dispensado, a seu pedido, de ir a Avignon pessoalmente para assinar a fórmula de submissão. Este detalhe parece dizer que teria assinado a reconciliação. E se não assinou, teria sido porque houvesse falecido antes. O fato mesmo de o texto da reconciliação envolver assuntos apenas político-eclesiásticos, e não os doutrinários, também teria facilitado a assinatura do documento.

Tem-se de Ockham a última notícia pelo documento pontifício de 8 de junho de 1349, ano em que a peste negra assolou a região. Ganhou sepultura em um templo franciscano.

489. Obras. Não restam elementos para estabelecer uma disposição cronologica firme para os escritos de Guilherme de Ockham. Há razões para se supor que houvesse iniciado com a Expositio aurea, na qual comentou a Porfírio e o Órganon de Aristóteles. Valendo-se ainda da Summulae logicales, criou um texto apreciável. O título entretanto lhe foi aplicado por um editor posterior.

Mais sistemática, e por isso mesmo apreciável, é a Summa logicae. Iniciada embora em Oxford, acredita-se que fosse terminada em Avignon.

Os Comentários sobre as Sentenças de Pedro Lombardo, poderão ter sido dos anos 1319-1320, não sem possibilidade de haverem sido a primeira obra de Guilherme de Ockham. Além disto, são estes comentários citados por dois títulos sucessivos, - Ordinatio, - comentário ao primeiro livro das Sentenças; - Reportatio, - questões sobre os seguintes três livros das Sentenças (edição de Lyon, 1495);

 
Ainda de Oxford são os textos:

Quodlibeta, em número de 7 (Edição de Strasburgo, 1491);

Centiloquium theologicum (Colóquios theologicos), apresentando 100 proposições de teologia positiva, considerado expúrio;

as notas, - De motu, loco, tempore, ratione, praedestinatione et praescientia Dei (Do movimento, lugar, tempo, razão, predestinação e presciência de Deus).

Sabemos ainda que, durante sua grande atividade inicial, realizou os comentários à Física de Aristóteles, em várias forma:

Quaestiones in octro libros physicorum;

Summulae in libros PhysicorumI;

Expositio in Physicam.

490. Depois de acusado de heresia, passou Guilherme de Ockam a cuidar de questões dogmáticas. Alguns dos escritos ocasionais de então retratam situações típicas de um tempo de transformações de mentalidade. Desta fase polêmica são:

De sacramento altaris (data do início da luta);

Allegatione virorum religiosorum (em coautoria, 1329);

Oppus nonaginta dierum (1533);

Diálogo, em sua primeira parte versando doutrinas sociais, relações entre a o Estado e a Igreja, com críticas a Marsilio de Pádua (1533-1334);

De dogmatibus Johannis XXII Papae (1334);

Compendium errorum Papae Johannis XXII (1335-1338);

Defensorium contra Johannes XXII (entre 1335-1338);

Epistola (1534);

Tractatus de potestate imperiali (1339-1342);

Dialogus inter magistrum et discipulum de Imperatorum et Pontificum potestate (entre 1334-1339);

De electione Caroli IV (1348).

Quaestiones octo de potestate papae (8 questões sobre o poder do papa).

Uma edição completa foi iniciada em 1967, pelo Franciscan Institute, St. Bonaventure, Nova Iorque). Reúne numa primeira sequência de títulos, reunidos em 7 vols., sob o título genérico Opera philosophica: depois outra sequência, em vols, sob Opera theologica).

 

II - Doutrinas gnosiológicas de Ockam. 8171y492.

 
 

493. Em resumo Ockham defendeu:

- a apreensão inteletual do ser singular (tese retomada de Duns Scoto);
- negou o inteleto agente e estabeleceu o caráter conceptualista dos conceitos universais;
- mostrou as consequências agnósticas de uma tal metafísica do conhecimento, porque por ela nem Deus é cognoscível, senão pela fé.
 

Diz mais, no plano da ontologia:

- ocorre apenas uma distinção meramente lógica entre existência e essência, entre o ser e os seus atributos, entre a substância e os acidentes;
- negadas as distinções formais a parte rei, são mantidas apenas as distinções indicadoras de uma efetiva separabilidade;
- retomou a tese do voluntarismo escotista.
 

494. A intuição inteletual do singular. Como já Escoto, Ockham acentuou a importância do singular, todavia com maior ênfase ainda. Como Escoto, a inteligência apreende diretamente o ser singular das coisas.

Mais do que Scoto, extraiu Ockam as consequências nominalistas desta posição. A inteligência em função não vai por primeiro e diretamente à essência necessária, mas apreende a existência, tal como ocorre na coisa sensível, isto é, uma existência contingente. Em virtude deste conhecimento intuitivo, ela chega a saber se a coisa existe ou não existe (Sentent., Prol. P.1).

 

Ao lado, portanto, do conhecimento sensível dos seres singulares, se processa ainda o conhecimento inteleto intuitivo, partindo do sensível. Por conseguinte, o objeto específico da inteligência é o existencial. Declara-o Ockham expressamente:

"A notícia intuitiva é aquela em virtude da qual se pode saber se a coisa existe ou não; se existe a coisa, prontamente o inteleto julga que a coisa existe, e evidentemente conclui que ela existe" (Quod.I, q.15).

Estende-se este conhecimento inteletivo à outras verdades singulares:

"Semelhantemente a notícia intuitiva é tal que ao se conhecer que uma coisa inere em outro, ou que dista de outro lugar, ou de outro modo se diz de outro, prontamente em virtude destas notícias incomplexas de tais coisas, sabe se inere ou não inere, se dista ou não dista, e assim de outras verdades contingentes... Se Sócrates na verdade é branco, aquela notícia de Sócrates e da brancura em virtude da qual se pode conhecer evidentemente que Sócrates é branco, se diz notícia intuitiva. E de modo geral, toda a notícia incomplexa do termo e dos termos, seja da coisa ou das coisas, em virtude da qual se pode evidentemente conhecer alguma verdade contingente, maximamente do presente, é notícia intuitiva" (Sent. I Prol., q. I, let. Z).

 

O mesmo conhecimento singular ocorre a respeito dos atos internos:

"Também se apresenta manifesto que o nosso inteleto, no estado presente, não só conhece as coisas sensíveis, mas ainda em particular e intuitivamente conhece alguns inteligíveis (aliqua inteligibilia), que de nenhum modo caem sob o entedio, e que são as intelecções, os atos da vontade, o deleite, a tristeza e semelhantes, que o homem pode experimentar encontrar-se dentro de si, que entretanto não nos são sensíveis e nem caem sob algum sentido" (Sent., Prol., q. I, let. H).

Ao seguir para os detalhes sobre a função cognitiva, aboliu Ockham a doutrina das species.

  

495. Ao conhecimento inteletual intuitivo singular se sucede o conhecimento abstrativo.

"A notícia abstrativa se forma mediante a intuitiva" (Quodl. I, q. 13).

Resulta, portanto, o conhecimento abstrativo de uma reelaboração das notícias individuais. Todavia de maneira diferente do modo aristotélico e tomista.

"Os universais ... são causados naturalmente, sem a atividade do inteleto e da vontade [portanto, sem o inteleto agente], tirados das notícias incomplexas, por esta via: primeiramente conheço algumas coisas singulares em particular intuitiva e abstrativamente [fazendo abstração da existência e não existência], e isto é causado pelo objeto vel habitu derelicto ex primo actu; e tida a notícia de pronto com sua presença segue naturalmente outro ato distinto do primeiro, terminado em um tal ser objetivo [ser objetivado na inteligência] ao qual primeiramente viu como ser subjetivo [objetivado fora do pensamento]. E aquele ato segundo produz os universais e as intenções segundas [gênero, espécie] e não as pressupõe. Exemplo: alguém vendo o branco ou dois objetos brancos, abstrai deles a brancura comum como é a espécie; e não é outra coisa senão que aquelas duas notícias terminadas incomplexamente no branco singular, quer intuitivamente quer abstractivamente, causam naturalmente, como o fogo o calor, uma terceira notícia ..." (Sent. III, q. 25, let. O).

496. Uma primeira avaliação. Não parece que Ockham esteja suficientemente atento à proporção entre causa e efeito na formação dos universais. O inteleto agente, a que outros apelam, é nada mais que o poder de abstração, de que a mente precisa de dispor, para dar o passo seguinte no processo cognoscitivo.

Para Ockham as idéias surgem por uma eflorescência espontânea, naturalmente (naturaliter).

De outra parte, Ockham não atribui o mesmo conteúdo à idéia universal (vd...), hipótese esta, que não postula tanta causação. Mesmo ainda assim, a eflorescência natural das idéias, como as entende Ockham, exigem uma causa adequada, porque efetivamente são de outra espécie que as singulares intuitivas. Não podem as suas idéias universais simplesmente derivar do que é especificamente diferente.

497. Conceptualismo nominalista. Colocada a distinção entre o conhecimento do singular e o universal, pergunta-se pela validade na ordem real, de um e outro.

Conserva Ockham uma interpretação realista do conhecimento inteletual, quando se trata de apreender o ser singular; este se exprime efetivamente no conceito, como ser real, o qual existe pelo lado de fora do processo cognoscente.

Diferente diz do dos conceitos universais, os quais não encontram seu correspondente na realidade extra-mental, nem sequer fundamento. Discorda portanto de todos os realismos, tanto do realismo total de Platão (os universais tem um objeto real num outro mundo), quanto do realismo moderado de Aristóteles (os universais representam apenas um aspecto do real, do qual são abstraídos).

Os conceitos universais se reduzem a termos mentais puros, mais ou menos como quererão os modernos. Para Descartes a idéia é um fenômeno, eventualmente representativo do objeto real. Para Kant os conceitos simplesmente estão desvinculados, como forma a priori, de todo e qualquer objeto.

O termo mental, - como se exprime Ockham, - significa simbolicamente todo um grupo de indivíduos.

Só há coisas individuais. Aos conceitos estão no lugar das coisas, as quais são individuais" - Conceptus supponunt pro rebus quae sunt individuas.

 

Havendo chamado aos universais termini suppositales, a teoria de Ockham sobre o conhecimento passou a ser veiculada sob a sigla de terminismo.

 

Portanto, para o terminismo, o universal, entendido pela mente, só existe nesta mente. Não existe como realidade separada (platonismo), nem como realidade nas coisas singulares, de onde seria abstraído (aristotelismo). O universal existe, mas apenas como conceito da mente, portanto como nome mental do tema que significa; eis o nominalismo, no qual consequentemente a ciência dos universais não é ciência da realidade. Os universais constituem-se apenas uma ciência de sinais e símbolos.

Algo similar ocorre na arte por convenção, em que as palavras não expressam as coisas por semelhança natural, e sim apenas convencionalmente, como quem diz, faça de conta que.

 

Por consequência ainda ficam sem sentido todas as distinções atribuídas conceptualmente ao ser das coisas. Tem validade as distinções, apenas quando o que significam pelo lado das coisas são ali realmente separáveis. Com isto rejeitou todo as distinções de formas, de que fala o escotismo. Existem Pedro e Paulo, e não a humanidade. En concreto Paulo e humanidade são a mesma coisa.

 

O conceito universal é signo natural, apenas enquanto nossa natureza o fornece. Assim também é natural a palavra. Mas não quer dizer que o signo mental efetivamente represente as coisas. Se se entendesse o conceito universal como sinal a representar efetivamente a coisa, então este universal teria um correspondente universal real. O conceito é apenas um símbolo, como hoje se criam símbolos na logística, para substituir os conceitos. O conceito símbolo é apenas uma fórmula para significar conjuntos maiores de indivíduos.

498. Como se prova o nominalismo terminista de Ockham? É preciso, que se prove ser o terminismo o efetivo sistema da mente. Neste sentido importa mostrar que o terminismo seja em princípio um sistema possível, e a seguir, por exclusão, importa ainda proceder por exclusão, eliminando a possibilidade dos demais.

 

Em princípio, o terminismo parece um sistema possível, tanto assim, que a linguagem falada obedece a este modelo. Mas, não se deve esquecer que a linguagem precisa de uma interpretação inteligente. Sem esta competência, a linguagem não ultrapassaria o nível de um sistema de reflexos condicionados, como acontece nos animais. Estes não entendem a linguagem como símbolo.

Ora, como saberíamos que os conceitos universais são apenas termos mentais? Ora, desde o início os usamos como se não fossem apenas termos mentais. Sequer poderíamos levantar a teoria do terminismo, sem negar de fato o próprio terminismo. Assim não é possível dizer que a linguagem é apenas reflexo condicionado (teoria do behaviorismo), se estamos a fazer desde logo uma interpretação (o que é mais do que o reflexo condicionado).

 

Ockham, ao estabelecer o terminismo, procede principalmente por via de exclusão.

A debilidade da ponderação de Ockham, pela via da exclusão, está em considerar somente duas hipóteses, - a platônica, da subsistência universal como tal nas coisas (Log. I, c.15) e a escotística, do formalismo a parte rei (Log. I, c. 16). Na verdade, se somente se tratasse de excluir estas duas hipóteses, tudo estaria favorável para Ockham. Mas não é o que parece ocorrer. Uma terceira hipótese poderá haver, e que não seja atingida pelos seus argumentos.

 

Fácil era a Ockham eliminar o realismo radical de Platão. Neste mesmo sentido já trabalhavam muitos outros. E ele era agora mais um.

 

Quanto a Duns Scoto, opunha-lhe a dificuldade de admitir a formalidade a parte rei, um elemento entre o ser o não-ser. Contra o escotismo não está Ockham sozinho, quando diz:

"Parece a alguns que o universal está de algum modo fora da alma e nos indivíduos, não distinto deste realmente, mas só formalmente. Por isso dizem que em Sócrates está a natureza humana, que é contraída para Sócrates por meio de uma diferença individual que não se distingue daquela natureza realmente mas formalmente. Daí não serem duas coisas; mas uma não é formalmente a outra.

Mas esta opinião parece ser irracional. Nas criaturas não pode haver qualquer distinção fora (extra) da alma, senão onde as coisas são distintas; se pois entre aquela natureza e aquela diferença há qualquer distinção, faz-se necessário que sejam coisas realmente distintas" (Log. I, c.16).

 

E teria Ockham examinado suficientemente a teoria do universal, oferecida pelo aristotelismo e tomismo, com vistas a excluí-la também? Não parece que o tenha feito. A noção de ser, de acordo com esta outra posição, inclui formalmente seus inferiores, mas apenas implicitamente. Isto quer dizer que, na ordem concreta, coincide o ser real ;com o que implicitamente contém. Daí não serem duas coisas, e não haver ali distinção real. Na ordem mental, o conceito de ser prescinde daquilo que implicitamente continha, para enunciar apenas o expressamente enunciado.

III - Agnosticismo e fideismo de Ockham. 8171y500.

 

501. A experiência direta com o individual e apenas com o individual, não permite coerentemente ir mais longe por meio de raciocínios, os quais precisariam de universais, como premissas.

Importa examinar primeiramente as consequências deste ponto de partida sobre a metafísica em geral, e depois sobre a filosofia da natureza e da filosofia moral.

Este questionamento continua sendo gnosiológico, ainda que formando gnosiologias especiais.

 

502. A redução do conhecimento inteletual objetivamente válido ao singular, destrói a filosofia do ser como tal. Resta somente uma limitada metafísica do indivíduo.

Afastada a validade do conceito universal do ser, o qual era visto como tendo uma unidade ainda que analógica, não há como passar de um indivíduo para outro, por conta daquela universalidade analógica. Tolhido o singular em seu próprio círculo, o que é válido nele, não pode ser considerado válido universalmente, porque esta universalidade não passa de uma suposição peculiar à linguagem da mente.

Assim, por exemplo, existem universais nas provas da existência de Deus, mas nada provam efetivamente, porque são apenas linguagem. Compromete, pois, o nominalismo qualquer doutrina sobre a existência de Deus.

503. O princípio de causalidade fica seriamente comprometido no terminismo nominalista, porque coisas vindas umas depois das outras não se manifestam claramente como sendo as anteriores causa das seguintes.

Ockham tinha alguma consciência disto, porque tratou com cautela a noção de causa primeira:

"Não se pode provar pela razão natural que Deus é a causa eficiente de algum efeito; pois não se pode provar suficientemente que há coisas factíveis (effectibilia) além das gerais e corruptíveis, cujas causas suficientes são os corpos; naturais inferiores e corpos celestes; pois não se pode provar suficientemente que qualquer substância separada, nem algum corpo celeste, é causado por algum eficiente (ab aliquo efficiente)" (Quodl. II, q.1).
 

 
504. Deus no terminismo. Abalado o princípio de causalidade, ruem os grandes argumentos da existência de Deus.

Aliás, Duns Scoto, embora por outras razões, já havia posto reparos contra a prova da existência de Deus pela via do movimento (a prova de Aristóteles e posicionada como primeira via, por Tomás de Aquino). Ockham também afasta a prova da existência de Deus pela via da finalidade, ou ordem do universo (5-a via de Tomás de Aquino), com a advertência:

"Não se pode provar que tal agente age, por causa de um fim" (Quodl. IV, q. 6). E assim também pôs restrições à via da eminência dos graus, tipicamente platônica (4-a via de Tomás de Aquino).

Dali a enfática atese inicial de Ockam:

"Não se pode saber com evidência, se Deus existe" (Quodl. I, q.1).

 

Embora desde a base o terminismo tendesse a aluir os desenvolvimentos maiores da metafísica, tentou ainda, como se veio mostrando, afastar diretamente cada argumento da existência de Deus, tentando explicar os fatos alegados não levam a Deus, ou até mostrando que eles podem ter outra explicação.

505. Fideismo. De outra parte, qualquer proposição destituída de base na razão, poderá estabelecer-se pela via da crença. Somente assim se chegará ao conhecimento da existência de Deus.

Este fideísmo também completará os conhecimentos sobre a alma e a moral.

506. Matéria e forma se distinguem realmente, e não se reduzem, para Ockham, à meras formulações lógicas.

São os constitutivos de todos os seres contingentes, e não apenas dos corpos. Eis uma tese agostiniana, conservada por Ockham.

IV - Sobre a alma. 8171y507.

 

508. Existem pensamentos, mas não existe a alma, senão como generalização daqueles.

"Se a alma sensitiva e a inteletiva se distinguem realmente no homem... Sobre esta questão digo, que sim; mas é difícil prová-lo... A (Quodl. II, q. 10).

 

Outras tantas dificuldades, são finalmente transmitidas à fé decidir. Tal é a situação das teses sobre a alma como forma imaterial, sobre sua incorruptibilidade, sobre sua presença em toda e qualquer parte do corpo, sobre as quais declarou:

"Mas estas três coisas mantemos somente pela fé" (Quodl. I, q. 10).

V - O moral e o social. 8171y510.

 

511. Também as normas morais ficaram sem fundamento ontológico no sistema nominalista de Ockham. Adquirem obrigatoriedade apenas por força de um disposição livre da vontade de Deus. Eis um voluntarismo, que já vinha de Duns Scoto, mas neste com fundamento mais claro na ontologia, ao passo que o de Ockham se funda mais na fé.

512. Os poderes temporal e espiritual. O conflito entre o Papa João XXII e Luiz da Baviera, semelhante ao anterior de Bonifácio VIII com Filipe IV, o Belo, da França, deram oportunidade a Ockham para questionar a natureza dos poderes temporal e espiritual. O mesmo faziam então Marcílio de Pádua, João de Paris, Pedro Olivi e outros.

Novas idéias vinham surgindo neste campo desde quando se havia traduzido para o latim a Política de Aristóteles e ainda porque os juristas passaram a discutir mais amplamente os textos do Direito Romano.

 

Envolvido, como os de sua ordem franciscana, com a questão dos fraticeli, ou espirituais, abordou mais uma vez questão dos poderes do Papa. Seu posicionamento teórico coere com a situação histórica do declínio do prestígio papal neste final de Idade Média.

 

§3-o. O nominalismo depois de Ockam. 8171y514.

 

515. Afastado Ockham do magistério já em 1324, suas idéias continuaram vivas, e passaram de Oxford para o Continente, ganhando corpo sobretudo na Faculdade das Artes, de Paris. Era praticado especialmente em grupos, que se fizeram conhecer como conventicula, com reuniões privativas. Não era ainda morto Guilherme de Ockam, sua doutrina era condenada em 25 de setembro de 1339. Nova condenação acontecia em 29 de dezembro de 1340.

Observam-se traços de nominalismo em Adam Wodham (+1358).

Mais evidente é a filiação ockhamista de Jean Mirecourt , cistercience que comentou as Sentenças em Paris em 1345, e que teve condenadas 40 teses em 1347.

O mesmo aconteceu com o dominicano Roberto Holcot (+1349).

Destacam-se especialmente alguns nomes (vd 484), de que se tratará a seguir, os quais também se caracterizam pela sua orientação para as ciências experimentais.

Mas não foram apenas os nominalistas os interessados nas ciências positivas. Elas são do espírito do último período da Idade Média. Importa mesmo dizer que a progressão das ciências experimentais vinha ocorrendo paulatinamente desde os séculos imediatamente anteriores. Por exemplo, em 1269 Guilherme de Moerbeke já realizava a primeira tradução de Arquimedes.

516. Nicolau d’Autrecourt (latinizado Altricúria) (c.1300 - depois de 1350). Filósofo francês, clérigo secular originário de Autricourt, do Meuse, então da diocese de Verdun. Lecionou em Paris, na Sorbone, de 1320 a 1327, ou mesmo depois, até quando suas teses nominalistas foram denunciadas.

Citado diante da Cúria Romana, sob Bento XII, pelas suas proposições consideradas perigosas, retratou-se em 1340. Mais 61 proposições lhe foram condenadas em 1346, por Clemente VI (1342-1352). Refugiou-se então na corte do Imperador Luiz da Baviera, como já o fizera Ockham (vd 488). Finalmente retratou-se novamente.

Escreveu Satis exigit ordo executionis (ed. moderna, em 1939), de Medieval studies, t. I, q. 179-280).

Suas doutrinas ainda se conhecem por cartas do mesmo Nicolau d'Autrecourt a Bernardo d’Arezzo, e de outros elementos que sobraram dos processos de condenação de suas doutrinas.

517. É Nicolau d’Autrecourt o Hume da Idade Média, conforme já se adiantou, na expressão de Hastings Bashdall (Nicolau dÁutricourtm a medial Hume, 1907).

A comparação se deve aplicar todavia com alguma reserva, fazendo-a valer antes de tudo para o espírito eminentemente crítico do mestre de Paris. Nicolau estabelecia como conhecimentos absolutamente certos apenas os imediatamente evidentes. Só a experiência nos permite afirmar algo em definitivo, e o princípio de identidade, pela afirmação do que é, é o que é, e não é outro (Chart. II, 583, 63).

Dali resultam principia per se nota (princípios por si conhecidos) e per experientia nota (conhecidos pela experiência).

Explica então com preocupada coerência as diretivas fundamentais tomadas. Chega a aproximar-se de Hume, porque as aplicações de sua doutrina fundamental resultam em ter como apenas simplesmente possíveis certas conclusões. Não é seguro passar do efeito para a causa (vd 519). Nem é seguro o conhecimento da substância.

Admitiu Nicolau d'Autrecourt como unicamente válido para a argumentação, o princípio de contradição (vd 518). A causa e efeito apenas se observam empiricamente, não sendo um princípio válido. Com esta redução a crítica posterior viu nele uma espécie de Hume medieval.

A ciência não se desenvolve pela autoridade, seja de Aristóteles, seja da Igreja, mas unicamente pela observação das coisas, apreendidas pelos sentidos a experiência interna. Não se conhece a substância, senão o eu. A natureza é constituída de átomos e movimentos mecânicos; afasta o hilemorfismo de Aristóteles. Num jogo dialético afirma que Deus é, e Deus não é, significam quase o mesmo, ainda que de outro modo, porquanto coisas entre contraditórias significam o mesmo. Há nisto certamente a influência da doutrina das duas verdades de Averróis, então influente em Paris. Seus escritos foram reunidos em obras que tratam do autor globalmente.

 

518. Do princípio de identidade, ou de não contradição, extraiu Nicolau diferentes corolários sobre a demonstração.

Toda a certeza fundada neste princípio, - o da identidade, - é absoluta, pois o princípio não permite afirmar o contrário.

Não há grau de certeza; ela existe, ou não existe; fora dela; somente ocorre a opinião provável, sujeita à revisão.

Somente é certa a demonstração que se reduz ao primeiro princípio. Não se pode com uma evidência redutível ao primeiro princípio, concluir de uma coisa para outra. Tal conclusão não tem nenhum caráter de necessidade; se ela é outra, não pode ser identificada com a primeira, pois a atribuição de um predicado a um sujeito diferente deste predicado contradiz o princípio de identidade (Quod ex eo quod; una res est non potest evidenter, evidentia deducta ex primo principio, inferri quod alia res; sitI" (Chart. II, p. 576,5).

519. O princípio de causalidade de o da substância receberam sérias restrições de Nicolau d’Autricourt.

Mudam, pois, as regras tradicionais da causalidade. A inferência do efeito para a causa, bem como do acidente para a substância, constituem mera possibilidade.

Não negou simplesmente Nicolau d’Autricourt, nem o efeito, nem a substância; negou apenas que o caminho não era o de certa espécie de argumentação, a saber, a que procedia demonstrando por inferência de um para o outro. Restava, por exemplo, a certeza por meio da fé.

O que efetivamente Nicolau d’Autricourt negava era a descoberta analítica da causa, como fez Aristóteles, o qual partia do princípio de identidade. Mais tarde, advertirá Kant, que este princípio era alcançado apenas por uma síntese.

 

Também a substância, no entender de Nicolau d’Aurillac, não se faz conhecer por análise dos efeitos e nem se faz conhecer intuitivamente. Portanto, pode dar-se o caso que, colocados nós diante da aparência por exemplo das árvores, e não haver ali nenhuma substância correspondente. Considera também possível que uma causa primeira absolutamente arbitrária produza os fenômenos que se nos apresentam.

 

519. Reintroduziu Nicolau d’Autrecourt o atomismo.

Neste sentido lançou uma objeção ao argumento aristotélico da geração e mudança substancial. Em lugar de uma corrupção, que se supõe ocorrer, é possível que apenas se processe uma simples desagregação de grupos de partículas, tão pequenas, que escapam aos nossos sentidos.

Sua nova conclusão se apresenta apenas provável, mas advertiu Nicolau, que a de Aristóteles é ainda menos provável.

 

Afiança também que a eternidade do mundo e das coisas se apresente mais plausível que a criação no tempo.

Mas esta conclusão é apenas provável, e que só é contrariada porque a fé revela o contrário (Satis exigit, ed. O. Donnell, p. 204).

520. Guilherme de Heytesbury (Hentisberus). Escolástico, que em 1330 é encontrado lecionando em Oxford, com influência que se estende à Alemanha. Nominalista, com interesse também em física matemática e mecânica.

521. Gregório de Rimini (+1358). Filósofo e teólogo italiano (?), com estudos em Paris, onde também lecionou. Ingressou na ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, a que pertenceu Gilles de Roma (+1316). Superior Geral desta ordem, a partir de 1357.

Os escritos foram modernamente impressos sob o título Leitura de Gregório ariminense do primeiro e segundo livro das Sentenças (Gregorii Arimiensis lectura super primum et secundum Sententiarum), Berlim-New York, 1979-1982.

 

522. De inspiração agostiniana, Gregório de Rimini foi nominalista. Continuou o exame de Ockham sobre o futuro contingente, tendo por princípio que as coisas contingentes do passado são necessárias. Deus conhece intuitivamente o futuro, não sabendo como explicar estas modalidade de conhecimento.

Tratou também da semântica das proposições, onde despertou a atenção de Husserl, Frege, Wittgenstein.

523. João Buridano (c.1300-c.1358, ou c. 1366). Filósofo escolástico francês, de língua latina. Nasceu provavelmente em Bhéthune, do departamento Pas-de-Calais. Mestre em artes, Paris. De grande valor pessoal, foi Reitor da Universidade de Paris, em 1327. Participou de um grupo de mestres que assinou um decreto, em 29 de dezembro de 1340, no seu segundo reitorado, proibindo o ensino de várias teses de Guilherme de Ockham. Cônego de Arras em 1342. Encontra-se em atividade ainda em 1358, e possivelmente ainda em 1366, quando desaparecem as notícias a seu respeito.

 

Obras de João Buridano:

Compêndio utilíssimo de lógica, ou Súmula da dialética (Compendium perutilis Logicae, ou Summula de dialectica);

Comentário e questões sobre os 8 livros de Física de Aristóteles (Commentum et quaestiones super octo physicorum libros Aristotelis);

Comentário e questões sobre os livros metafísicos de Aristóteles (Commentum et quaestiones in Aristotelis libros Metaphysicorum);

Questões sobre os dez livros da Ética de Aristóteles (Quaestiones de Aristotelis ethicorum libris decem);

Questões sobre os oito livros da Política de Aristóteles (Quaestiones super octo libros Politicorum Aristotelis).

 

524. Seguiu João Buridano moderadamente ao nominalismo de Guilherme de Occam. Dentro deste contexto, abordou a lógica e a gramática.

O termo é uma palavra que no discurso estará no lugar do objeto (supponit pro).

Manteve a distinção essencial entre os signos das coisas, e que chamou conceitos primeiros e os signos dos signos, conceitos segundos.

Nomen primae intentionis é um nome que significa um ser real, e não uma simples noção do inteleto; homem, cavalo, Sócrates, diz Buridano, são de "primeira intenção".

Tomado um nome enquanto representa a indiferença da atribuição a muitos sujeitos individuais, não se refere mais ele a este objeto concreto, mas a uma espécie ou gênero.

A lógica versa sobre conceitos de segunda intenção, conceitos de conceitos.

As demais ciências se orientam para o objeto da primeira intenção, para as coisas concretas. Os conceitos ou categorias não são senão aspectos de uma só realidade concreta. As indicações "Sócrates existe", "Sócrates é pai", "Sócrates é semelhantes à Platão", concretamente se realizam num só indivíduo.

As palavras não exprimem imediatamente as coisas, mas os conceitos. A linguagem é convencional (vd Logos).
 

 
525. Defendeu o determinismo psicológico, no sentido de que a escolha se faz pelo melhor. A liberdade consiste no poder de suspender uma resolução, com vistas ao reexame dos motivos.

A anedota do Asno de Buridano, que ilustraria o seu determinismo psicológico, - porque apresenta o asno a morrer de fome, quando situado entre dois feixes de feno com igual atração, - não se encontra em seus escritos, ainda que a ele coerentemente atribuída.

Também lhe foi atribuída a figura de um tetragrama, denominada a Pons asinorum, referente a descoberta do termo médio entre os extremos dos silogismo; também esta referência não se encontra em seus escritos, cabendo melhor a Pedro Tartareto, reitor em 1t90 (vd 8171y552).
 

 
526. Como já outros do seu tempo, advertiu para a importância da ciência experimental.

Ofereceu ainda uma explicação para o movimento através da teoria do ímpeto (impetus), de João Filipono, substituindo a aristotélica dos lugares naturais aos quais as coisas tenderiam a voltar.

Segundo Aristóteles todo o movimento supunha um motor distinto do corpo em movimento. Neste caso não se compreende que, cessa a ação da mão que jogou a pedra, continue a pedra o seu movimento. Já Aristóteles percebia esta dificuldade, e por isso apelava ao movimento do ar em torno também impulsionado pela mão, e assim a pedra prosseguia para a frente graças ao ar. No século 6-o João Filopono abandonava a explicação, introduzindo a teoria do ímpeto.

Advertiu Buridano, que do só contato do ar não pode resultar movimento. O ar nada explica. Uma roda continua a mover-se sem o ar. Um corpo se move, enquanto está em movimento, precisamente porque ele mesmo está em movimento, e não porque haja um motor distinto. E diminui o ímpeto, apenas quando há alguma resistência. Eis o princípio da inércia, - uma vez existente o movimento, ele se conserva.

O impetus, que o motor transfere ao móvel no momento do impulso, se conserva. Proporcional o impulso quantidade da matéria, explica-se porque diverge o impetus no corpo leve e no corpo pesado.

Visto tudo sob o novo prisma, se tornam desnecessárias as inteligências que movem os astros, pois basta, que estes, no momento da criação, tivessem recebido o impetus.

Recusou Buridano a teoria da rotação da terra sobre um seu próprio eixo.

528. Nicole de Oresme (c.1310-1382). Filósofo e teólogo escolástico francês, nascido próximo de Caen, diocese de Bayeux, Normandia. Em 1348 seu nome é encontrado entre os estudantes de teologia em Paris, do Colégio de Navarre, obtendo o título de Mestre. Em 1362 professor de teologia em Paris, no mesmo colégio, então muito conceituado. Arquidiácono em Bayeux, cônego e deão do Capítulo de Rouen. Preceptor, a partir de 1360, do delfim (filho do rei), futuro Carlos VI da França. Finalmente, em 1377 bispo de Lisieux.

 
Obras, em latim, algumas em francês, publicadas em partes maiores ou menores pelos editores, desde a invenção da imprensa:

Tractatus de configurationibus formarum;

De uniformitate et difformitate intentionum;

Quaestiones super geometriam Euclides;

De velocitate motus alterationis;

De proportionibus proportionum;

Quaestiones super de caelo;

De mutationes monetarum, em latim (citado abreviadamente De moneta), e em francês De l’origine, nature et mutation des monnaies), a pedido de Carlos V, em que discorre sobre fatores sociológicos no campo da economia;

Livre des divinacions;

Comentários à Ethica Nicomachea;

Traité du ciel et du monde (Tratado do céu e do mundo), em francês, com razões prováveis para aceitar o movimento diurno da terra.

Deixou ainda sermões.

Traduziu do grego para o francês, por solicitação do rei Carlos V, a Ética, Política e Economia, de Aristóteles: Aristotelis Politica et Oeconomica cum glossemantibus gallice versa. Voltaram estas traduções a ser publicadas por A. J. Menut, 1930.

 

530. Ocupou-se universalmente dos mais variados temas, ficando a filosofia com um espaço pouco considerável na lista de suas obras.

Advertiu para a importância das ciências experimentais, como em seu tempo já vinham fazendo Buridano e Alberto de Saxônia. Dedicou-se também pessoalmente a elas, assim havendo contribuído para o desenvolvimento da matemática, física e astronomia.

 

531. Três coisas viu claro Nicolau de Oresme: A lei da queda dos corpos; o movimento diurno da terra; as coordenadas da geometria.

Foi, por conseguinte, a um tempo, precursor de Galileu, no que se refere a queda dos corpos; precursor de Copérnico, com respeito à revolução do planeta Terra; de Descartes, no atinente à geometria analítica.

 

O espaço percorrido por um corpo, em um movimento uniformemente variado, é proporcional ao tempo, - advertiu Nicolau de Oresme, nisto avançando um pouco mais sobre o que dissera Buridano sobre o impetus. O tema será retomado por Alberto de Saxe e finalmente chegará, numa tradição científica em progressão, até Galileu. Antecipou-se, portanto, Nicolau de Oresme a Galileu na lei da queda dos corpos, ainda que não a desenvolvesse tanto quanto ele.

 

Também propôs Nicolau de Oresme alguns aspecto da teoria heliocêntrica, antecipando-se em algo a Copérnico. Sustentou que Anão se pode provar por qualquer experiência, que o céu seja movido por movimento diurno e a terra não".

Já então era corrente na Faculdade das Artes de Paris a tese do movimento da Terra, - o que entretanto punha em preocupações os exegetas do texto bíblico.

Alberto de Saxe (+ 1390), atribuía esta doutrina a um de seus mestres.

Francisco de Meyronnes (vd ), escotista do início do século 14, referia-se a opinião de um certo doutor, o qual afirmava que, se a terra se movesse e o céu repousasse, tal disposição seria melhor.

Agora Nicolau de Oresme, partindo de sugestões preexistentes, buscou melhorar sua justificação, do mesmo modo como depois continuarão neste propósito Copérnico e Galileu.

 

Precursor da geometria analítica, antecipou-se Nicolau de Oresme a Descartes na teoria das coordenadas, útil para a representação gráfica das variações de intensidade, registrando graficamente, pois, a quantidade e a qualidade do movimento.

532. Alberto de Saxe (ou de Saxônia, ou de Helmsted, ou de Biemestorp, ou ainda Albertus Parvus, ou Albertolus, ou mesmo Albertutius, em contraste com Alberto Magno) (c.1316-1390).

Filósofo escolástico alemão, nascido em Rickmerdorf, Baixa Saxônia. Estudou na Universidade de Paris. Ali foi aluno de Buridano, o qual explicava o movimento como um ímpeto aplicado ao móvel (contra a teoria aristotélica dos lugares naturais). Mestre também em Paris na Faculdade das Artes, de 1351 a 1362). Ainda Reitor da universidade em 1353-1357

Primeiro Reitor da nova Universidade de Viena, criada em 1365, e que ajudara a fundar. Por último foi designado bispo de Albertstadt, 1366, onde viveu longevo, até 1390.

 

Obras: algumas com títulos atribuídos pelos editores futuros, outras redivididas em novos títulos, algumas desde logo impressas, outras ainda no aguardo de impressão no final do século vinte. Alcançou Alberto os primeiros anos da invenção da imprensa, e em função a ela se faz a cronologia de suas obras:

Sophismata Alberti de Saxonia nuper emendata, 1480;

Subtilissimae quaestiones in libros de coelo et mundo), 1481, em que se refere a erosão, a formação dos continentes, aos fósseis;

Tractatus obligationum, Paris, 1490;

Insolubilia, Paris, 1495;

Quaestiones super artem veterem (impressa com o livro de Ockam, Expositio aurea), Paris, 1496;

Quaestiones subtilissimae super libros posteriorum, Veneza, 1497;

Quaestiones in libros de Generatione, cuja edição de Veneza, 1504, também incluiu comentários de Egídio Romano e de Marsilio de Inghen à mesma obra de Aristóteles;

Quaestiones et decisiones physicales, 1516;

Quaestiones super sphaeram Johannis de Sacrobosco;

Quaestiones meteorum;

Expositio decem librorum Ethicorum Aristotelis;

Demonstratio de quadratura circuli;

 

São escritos orientados para a lógica, já citado:

Quaestiones super artem veterem;

Quaestiones subtilissimae super libros posteriorum (comentário aos Segundos Analíticos, de Aristóteles), também já citado;

Opúsculos - Obligationes, Insolubilia, Sophismata, Paralogismi.

É duvidosa a autenticidade da Quaestio de proportione dyametri ad costam eiusdem.
 
 

533. Situado no contexto do nominalismo, sem ser radical, foi um pensador eminentemente original, em física, lógica, ética, e dos mais representativos do terceiro e último período da filosofia medieval. Entretanto, teve em Buridano e Nicolau de Erasmo, predecessores de suas melhores idéias, quais deu continuidade e novo desenvolvimento. Prestigiou o estudo das ciências empíricas, uma tendência em crescimento no final da Idade Média.

Continuou os estudos já bastante adiantados da lógica clássica, como se vinham desenvolvendo na Idade Média, atento às observações feitas pouco antes por William Ockham e Walter Burleigh: os termos sincategoremáticos, a suposição dos termos, as consequências.

534. Em física e filosofia natural, Alberto de Saxe, como Buridano, abandonou a explicação aristotélica do movimento pela inclinação aos lugares naturais, para explicá-la pelo impetus pelo qual os corpos se movem, por uma propriedade inata, sem que lhes importe uma referência exterior natural.

Destacou-se Alberto de Saxe pelas suas idéias inovadoras sobre a gravitação universal.

Tendem todos os corpos para um centro comum do universo. Mas, o centro de gravitacional não coincide necessariamente com o centro da Terra. Os corpos ponderáveis do universo tendem a estabelecer um centro universal de gravitação.

Também observou que a velocidade da queda dos corpos aumenta com o espaço percorrido, sem que ainda chegasse às demonstrações precisas de Galileu dois séculos depois.

 

535. As doutrinas sobre moral, de Alberto de Saxe, encontradas em Expositio decem librorum ethicorum Aristotelis, inspira-se em Grosseteste, e parece as haver tomado de Walter Burleigh..
 
 
 
536. Pedro de Aylly (ou Pedro de Alliaco) (1350-1420). Filósofo e teólogo escolástico francês, nascido em Aylly. Em Paris estudou no Colégio Navarre e na Universidade. Doutor pela Sorbone em 1381. Mestre em Paris. Chanceler da Universidade de Paris, 1389-1395.

Tornou-se importante figura eclesiástica. Bispo de Puy en Velay, 1395. Em 1396 bispo de Cambray. Cardeal em 1411, pelo Papa da obediência de Pisa.

Esforçou-se pela reunificação da Igreja, favorável todavia ao Papa sediado em Avignon. Teve participação assinalada no Concílio de Constanza (1414-1418), quando se chegou a resolver o cisma do Ocidente. Faleceu pouco depois, em Avignon.

 

Obras:

Da reforma da Igreja (De reformatione Ecclesiae), de futuro citado em seu favor pelos protestantes;

Questões sobre o primeiro, terceiro e quarto das Sentenças (Quaestiones super primum, tertium et quartum Sententiarum, impresso em 1474, reimpresso em 1478, 1490, 1500);

Imagem do mundo (Imago mundi, impresso em 1480);

Vinte elocuções sobre a concordância das verdades da astronomia com a teologia (Vigintiloquium de concordia astronmica veritates cum theologia, impresso em 1494);

Tratado ... (Tractatus disponibilium, impresso em 1494);

Tratado sobre os livros dos meteoros e das impressões do ar (Tractatus super libros meterorum et de impressionibus aeris, impresso em 1504;

Sobre a alma (De anima, impresso em 1505);

Tratado e sermões (Tractatus et sermones, impresso em 1634, incluindo De anima).

 

537. Foi Pedro d’Ailly nominalista de tendência pronunciadamente cética. As percepções sensíveis podem ocorrer mesmo sem a presença de objetos reais externos.

Voluntarista, admitiu a potência divina acima do que a compreensão humana considera racional.

Definiu a Igreja de forma bastante liberal, como o fará também em seu tempo Jean Gerson (vd 585). Não é a Igreja como uma monarquia, mas como uma aristocracia. O concílio é superior ao Papa, podendo-o julgar e depô-lo se for incorrigível. O Pontífice não é necessariamente o bispo de Roma.

O Papa não é infalível. Somente é infalível a Igreja Universal. Em consequência é possível, em princípio, uma queda geral do clero, enquanto o depósito da revelação permanece na Igreja, ainda que composta de almas simples, leigos piedosos.
 
Por ocasião do movimento da Reforma eclodido no século 16, foi, - como já se adiantou, - o tratado de Pedro d’Ailly Sobre a reforma da Igreja, bastante apreciado, o que mais uma vez comprova a importância contemporâneo de sua personalidade.

539. Henrique von Heinbuch, dito também de Langestein (c. 1340-1397). Nascido em Heinbuch, perto de Langestein, Hesse. Estudou e lecionou filosofia em Paris. Mais tarde, 1363, passou também a lecionar teologia. Depois de 1384 lecionou em Viena, de cuja universidade foi Reitor em 1393.

Obras:

De cometa, 1369;

Contra astrólogos, 1374;

De habitudine causarum;

Comentários às Sentenças;

Comentários ao Gênesis;

Espelho da alma (escrito místico);

e ainda alguns tratados jurídicos.

Praticou o nominalismo.

540. Marsílio de Inghen (c. 1330-1396). Nascido em Inghen, província de Gueldre, cerca de 1330. Estudou em Paris, onde ensinou desde antes de 1362. Foi Reitor em 1367 e 1371. Por último foi primeiro Reitor da nova Universidade de Heidelberg. Faleceu em 1396.

Obras:

Quaestiones super quatuor libros Sententiarum;

Textus dialecticus se suppositionibus, ampliationibus (editado com as Summulae, de Pedro Hispano).

Comentários a Aristóteles:

Expositio super libros Analyticorum priorum;

Quaestiones in De generatione et corruptione;

De generatione et interitu, um resumo da Física de Aristóteles.

Quaestiones subtilissimas super VIII libros physicorum secundum nominalium viam (editadas no vol. II, das Obras completas de Duns Escoto, Lion,1639, pags. 188-194).

Comentou Ars Vetus et Nova.

 

541. Nominalista, dentro destas limitações defendeu a impossibilidade de uma prova racional em favor de uma criação a partir do nada, ex nihilo.

Desenvolveu também as novas idéias então em desenvolvimento sobre o movimento com base na teoria do impetus.

542. Gabriel Biel (c. 1425-1495). Filósofo escolástico alemão, nascido em Speyer. Da Congregação dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho, ditos também Irmãos da Vida Comum. Vigário de Mayence (Mainz). Pregador destacado. Professor em Tübingen, onde também foi fundador da Faculdade de Teologia. Já ultrapassa o ano limite, - 1453, - que dividem a Idade Média e a Moderna.

Obras:

Epítome e Coletânea (Epitome et Colletorium ex Occamo super quatuor libros Sententiarum, com impressões em 1495, 1501, 1512, 1514, 1521, e, adicionado com o Suplementum Gabrielis Biel, em 1568, 1574);

Sermões (Sermones dominicales de tempore, 1499, 1510)

Comentário às Sentenças de Pedro Lombardo;

Defensorium oboedientiae apostolicae, Tractatus de potestate et utilitate monetarum, 1542, 1605.

Expositio canonis Missae.

 

Expositor do nominalismo de Ockam, de cujo pensamento foi um continuador, todavia arrolando-se entre os discípulos moderados do franciscano inglês. Defendeu o voluntarismo, da absoluta vontade de Deus. A graça de Deus é exclusiva para decidir a salvação.

Biel influenciou o pensamento de Lutero.

543. É ainda nominalista Durand de Saint-Pouçain (+1334), dominicano, tendo se oposto ao tomismo de seu colega na Ordem, Durandus d’Aurillac (vd).

Atravessará o nominalismo todo o período final da Idade Média como um dos fatores mais estimulantes, quer para a mesma filosofia, mantendo aos representantes da filosofia tradicional sob constante provocação, quer animando à interpretação científica, quer ainda levando às artes a inovação pela criatividade livre.


 


ART. 3-o. ESCOTISMO NO FINAL DA IDADE MÉDIA. 8171y545.


 
 

546. Praticaram os escotismo no século 14 alguns mestres franciscanos de valor, enquanto outros simpatizaram com o nominalismo de Guilherme de Ockham. Não tinham ainda na Idade Média os franciscanos eleito um chefe de escola, o que aconteceria apenas em 1593, quando o Capítulo Geral reunido em Valadolid determinou a doutrina de Duns Scotus como ensinamento.

Citam-se como escotistas do século 14:

Antônio Andrea (+1320) (vd );

Pedro Auriol (c.280-1322) (vd );

F. de Marchia (sec. 14) (vd );

Francisco de Mayronnes (+ 1325, ou 1327) (vd);

Pedro de Áquila (+1348) (vd);

Pedro Tartareto ( ) (vd);

Pedro de Cândia (c. 1340-1410).

 

547. Antônio Andrea (+ 1320). Obra: Expositio in metaphysicam, que fora por muito tempo atribuída a Duns Scoto.


 

548. Pedro Auriol (ou de Aurilac, Auréolo, Aureolus, Auréoli) (c. 1280 - 1322). Doctor Facundus. Filósofo e teólogo francês. Franciscano. Discípulo de Duns Scoto em Paris, onde se formou mestre em teologia. Provincial da Ordem em Aquitânia. Em 1321 arcebispo de Aix-en-Provence, vindo a falecer no ano seguinte..

Escolástico contrário ao ponto de vista de Tomás de Aquino. Divergiu também de Duns Scotus, então já considerado mestre de sua Ordem. Encontra-se na direção que levará a Guilherme de Ockham. O universal é uma criação conceptual da mente, sem corresponder a algo por parte dos indivíduos.

 

549. F. de Marchia (sec. 14). Teoria do impetus.

550. Francisco de Mayronnes, dito também Mayronis (+ 1325, ou 1327), Magister acutissimus. Também Magister acutus abstractionum. Escotista, adeto da distinção formal.

Obra: Conflatus, comentário sobre as Sentenças, esteve amplamente difundido e apreciado.

 

551. Pedro de Áquila ( - 1347) (Cayré diz 1348). Filósofo escolástico franciscano. Autor de um Compendium.

Escotista. Pela sua fidelidade ao pensamento de Duns Scotus foi apelidado Scotelus.

Obra: Compêndio (Compendium).
 

 
552. Pedro Tartareto (+1394). Filósofo e teólogo francês. Mestre em Paris na década de 1380. Reitor da Universidade em 1490.

Obras, em forma de comentários:

Comentário aos Quodlibet Scoto (Commento quodlibeta Scoti, impresso posteriormente em Paris, 1519);

Comentário ao Opus Oxoniense;.

Elucidações ao Comentário de Scoto às Sentenças (Elucidationes in Comentaria Sententiarum Scoti, Veneza, 1583);

Comentários à Aristóteles - ao Organon (Paris, 1494); à Física, 1503 ; à Metafísica, 1503 ; à Ética Nicomaquéia, 1513;

Comentário à Eisagogé de Porfírio (Friburgo, 1494);

Comentário às Sumulae logicales de Pedro Hispano (Friburgo, 1494).

Foi Tartareto o primeiro grande comentarista de Duns Scoto e ainda seguidor do escotismo.

Versátil em lógica modal e lógica das consequências.

Criou o tetragrama denominado Ponte dos Asnos, expressão com que se referiu ao termo médio, que une aos extremos do silogismo, conforme ele mesmo esclarece:

"A fim de que a arte de encontrar o termo médio seja fácil, simples e claro para todo o mundo, se começa por expor a seguinte figura que se chama Ponte dos Asnos, por causa de sua aparente dificuldade, ainda que uma vez entendido o que significa seja suficiente para que possa fazer-se familiar e para que todos a compreendam" (citado por Prantl, Gesch. der Logik, IV, 206).
 

 
554. Pedro de Cândia (c. 1340-1410). Nascido em Cândia, Creta (Grécia). Parece ter sido inicialmente mendigo. Ingresso na Ordem dos franciscanos, estudou em Oxford e Paris. Mestre em Paris, cerca de 1381.

Bispo em 1386 na Itália, primeiramente de Piacenza, depois de Vicenza, arcebispo de Milão e cardeal.

Finalmente, no Concílio de Pisa, eleito Papa em 1409, Alexandre V, como um dos três que pleiteavam a legitimidade, sendo os outros dois respectivamente de Roma e de Avignon.
 

Obras: Comentário aos Quatro livros das Sentenças (Comentarium in IV Libri Sententiarum), de Pedro Lombardo).
 

No quadro geral do escotismo, integra-se na tradição realista resistente à tendência nominalista, mas não sem alguma tolerância. Na Introdução a cada um dos livros comentados insiste que as divergências entre as escolas poderão vir tão só em função aos pontos de vista considerados e métodos adotados.


 


ART. 4-o. TOMISMO DO FINAL DA IDADE MÉDIA. 8171y557.


 

558. A escola tomista se conservou bastante estável no decurso do terceiro e último período da Idade Média, sobretudo dentro da Ordem dos Domicanos, à qual pertencera Tomás de Aquino (+ 1274). Conseguira superar o impacto das condenações de 1277 (vd). O Capítulo da Ordem, reunido em Milão, 1278, manifestara-se favorável ao tomismo, o qual, apesar de continuar com resistências dentro da mesma, se estabilizou.

Em 1309 o tomismo foi introduzido no ensino de Saragosa, Espanha.

O Capítulo da Ordem, em 1314, determinou que se façam comentários às obras de Tomás de Aquino nas lições.

Finalmente o dominicano João Capréolo (1380-1444) (vd ) introduz por primeiro a "leitura" da Summa theologica, em vez das Sentenças de Pedro Lombardo.

O tomismo predominou na Ordem dominicana.

 

Apresenta nomes consideráveis e penetra linearmente na época seguinte, com grandes nomes.
 

Citam-se grandes mestres:

Hervé de Nédellec (+1323) (vd);

Thomas de Sutton (c.1250-1320) (vd );

Durandus d’Aurillac, ou Durandelus ( c.1300-1380) (vd );

Herveu de Queue (c. 1350- ) (vd );

João Capréolo (1380-1444), o mais destacado (vd );

Santo Antonino, de Florença (1389-1459) (vd );

Denys le Chartreux (+1471) (vd ), místico tomista.

Dentre os místicos, geralmente tratados sob este outro título, há-os também afins ao tomismo, como acontece com Mestre Eckhart (1260-1327) (vd).

559. Hervé de Nédellec, ou Hervaeus Natalis, ou ainda Noel (+1323). Francês. Dominicano. Geral da Ordem em 1318 Mestre Geral da Ordem dominicana. Tratou da canonização de Tomás de Aquino.

Obras:

Comentários sobre as Sentenças;

Defensio doctrinae fratris Thomae, contra os ataques de Henrique de Gand e Durando de Saint Pourçain.

560. Thomas de Sutton (c 1250- falecido depois de 1320). Filósofo escolástico inglês, nascido em Sutton, perto de Cambridge. Ingresso na ordem dos dominicanos. Mestre em Oxford, entre 1300-1315.

Difundiu o tomismo na Inglaterra, ao mesmo tempo que o defendeu contra os reparos de Duns Escoto.

Obras:

Comentários aos quatro livros das Sentenças (Commentaria in quatuor libros Sententiarum, obra principal;

Tratado da pobreza (Tractatus de paupertate et usu paupere);

Questões disputadas da Imaculada Conceição.

Autor provável do Liber propugnatorius contrra Johannem Scotum.

561. Durandus d’Aurillac, ou Durandelus (c. 1300-1380). Filósofo e teólogo escolástico medieval, francês.

Religioso da ordem dominicana. Defensor do tomismo, tendo tido dentro de sua ordem a oposição do nominalista Durando de Saint-Pourçain (vd 482).

  

562. Herveu de la Queue (c.1350-60). É autor da primeira lista conhecida das obras de Tomás de Aquino.

  

563. Capréolo. João (c.1380-1444), cognominado Princeps thomistarum. Teólogo e filósofo francês, nascido em Rodez, Languedoc. Ingresso na ordem dos dominicanos. Atuou, por algum tempo, no magistério em Paris, 1408-1411, e em Toulouse, 1412-1426. Viveu a maior parte de sua vida no convento de Rodez, onde veio finalmente a falecer aos 64 anos.

Procurou restabelecer o tomismo em sua pureza, mostrando os desvios dos próprios tomistas, como ainda defendendo-o contra os adversários contemporâneos e do passado (Scoto, Durandus, Henrique de Gand). Substituiu o comentário às Sentenças pelo à Suma thelogica de Tomás de Aquino, mantendo de certo modo o mesmo sistema didático.

Com Cajetano e Silvestre de Ferrara, forma o trio dos três primeiros grandes; comentadores de São Tomás.

Obras:

Defesas da teologia do divo Tomás de Aquino (Defensiones theologii divi Thomae), obra principal. Impresso sob o título Quatro livros das defesas do doutor Tomás de Aquino (Libri quatuor Defensionum theologiae divi doctoris Thomae de Aquino), 1483, 1514, 1519, 1589; em edição mais recente, 7 volumes, edição Paban et Pègues, Tours 1899 - 1908.

564. Santo Antonino (1389-1459). Dominicano, de Florença. Nomeado arcebispo em 1446, da mesma cidade.

Obra: Suma theologica moralis, 4 vols.., tratando sucessivamente Da alma, dos pecados, dos estados e vida e penas, das virtudes.

Além da diretriz tomista, o escrito de Santo Antonino, pela sua natureza prática, foi bastante lido.

 

565. O tomismo passa em ascensão, do último período da Idade Média, para o início dos tempos modernos.

Efetivamente Capréolo (1380-1444), o grande nome com que o tomismo finaliza a Idade Média, é logo seguido por nomes igualmente grandes como Silvestre de Ferrara (1474-1526) (vd) e Cardeal Cajetano (1468-1534) (vd), ambos já modernos.

 

 


ART. 5-o. MISTICISMO DO FIM DA IDADE MÉDIA. 8171y567.


 

568. O misticismo no período final da Idade Média, com raízes nos períodos anteriores, ganha especiais manifestações no final desta época de mil anos. Surgem agora:

Meister Eckhart (1260-1327);

João Ruysbroeck (1293-1381);

João Tauler (c. 1300-1361);

Henrique Suso (1300- 1365);

Jean Gerson (1364-1429);

Tomás de Kempis (1379-1471);

Nicolau de Cusa (1401-1464);

Dionísio Cartusiano (1402-1471).

 

Os místicos conduzem avante as tendências panteístas do neoplatonismo e de Scoto Erígena. A tendência panteísta acontece também em Mestre Eckhart, apesar de seu fundo tomista.

 

569. Agora, no período final da Idade Média, as limitações criadas pelo vácuo aberto pelo nominalismo de Ockham tendem a ser preenchidas pelo elan profundo da intuição em que acreditam os místicos, e que interpretam assim também, até certo modo, a revelação. Mesmo Eckhart, que não é nominalista, mas tomista, parte de uma limitação, ou seja, da teologia negativa, a qual apenas conheceria a Deus pela negação dos defeitos das criaturas. Mas busca expediente positivo na mística.

A afinidade, que a história do misticismo tem com as filosofias limitadoras da inteligência, torna difícil situar certas figuras, as quais pertencem a ambos os movimentos. Seja, por exemplo, Nicolau de Cusa. Encontra-se ao mesmo tempo na linha ockhamista e mística. Além disto, Nicolau de Cusa penetra ligeiramente no espaço cronológico moderno. Não obstante, há também místicos, cuja fonte é o tomismo, de que Eckhardt é um exemplo.
 


 

I - Os chartrenses, ou cartusianos. 8171y571.

 
 

572. Foi fundada a Ordem dos Chartrenses, ou cartusianos, por São Bruno (1030-1101). Dedicada à vida interior, passou depois também a se manifestar pelos seus escritos. Primeiramente se destacou Ludolfo de Saxe (1300-1370), depois sobretudo Dionísio.
 

 
573. Dionísio Cartusiano, ou de Rijkel (1402-1471, em Roermund). Dito Doctor extaticus. Da Ordem dos Chartrenses, ou cartusianos.

E ainda se notabilizou pelos seus escritos místicos.

 
Obras:

De fonte lucis et seminis vitae;

De contemplatione:

De discretione spirituum;

De perfectione caritatis dialogus

Autor também de um comentário sobre as Sentenças.

Coletou Dionínio informações sobre a escolástica do século 13, 14 e 15, até seu mesmo tempo.
 
 

II - Escola dionisiana. 8171y575.

 

576. Mestre Eckhart (c. 1260-1328). Filósofo escolástico alemão, nascido em Hochheim, perto de Gotha. De família nobre, ingressou na Ordem dos dominicanos, 1275. Estudou em Paris, 1293 - 1294, tornando-se bacharel sentenciário. Prior do convento de Erfurt, 1294 - 1298. Mestre de sagrada teologia, em Colônia, 1302.
 

Em Paris lecionou, por duas ocasiões, 1302-1303; e 1511. Na Alemanha foi Provincial de sua Ordem em Saxe. Vigário Geral da Boêmia. Provincial das Alta Alemanha, a partir de 1314. Lecionou teologia no Studium Generale de Colônia, a partir de 1320.

No curso de suas diferentes funções teve a oportunidade de pronunciar sermões, os quais escreveu e se conservaram, tornando-o muito apreciado

Encontrou resistências dentro de sua Ordem e na dos franciscanos. Em 1326 o arcebispo de Colônia, um franciscano, levantou a suspeita sobre a ortodoxia de Eckhart. Mas em 1327 faleceu o suspeito. O processo todavia continuou, até 27 de março de 1329, quando a bula condenatória do papa João XXII, de Avignon, declarou 17 proposições como heréticas e 11 como suspeitas.
 
Escreveu em latim e também em médio alto alemão (Hochmitteldeutsch), depois convertido ao alemão moderno. Seus escritos foram mal conservados, até mesmo porque o autor era oficialmente combatido. De qualquer forma, os textos em alemão vieram a contribuir para a fixação da língua, bem como de sua terminologia filosófica e teológica.

577. Obras:

Sermões (Predigten), em número de 110, e em alemão;

Sermões em latim;

Tratados (Traktate), em vários volumes, e em alemão;

Obra tripartite (Opus tripartitum), principal tratado, fragmentário, com as seguintes partes:

- Obra das questões (Opus quaestionum), uma suma teológica;

- Obra das proposições (Opus propositionum), tratados de ontologia;

- Obra das exposições (Opus expositionum), sermões, comentários;

Questões parisienses (Quaestiones parisienses), obra de destaque.

Comentários bíblicos.
 
Fizeram-se várias edições modernas, das obras latinas e alemãs, bem como traduções para outras línguas.

578. Radical transcendência de Deus. Depois de uma crítica fortemente restritiva às possibilidades da ontologia, no que se refere aos seus recursos de ascensão a Deus, Eckhart destacou a sua suma transcendência, sublimidade inefável. Deus não se reduz a nenhuma categoria, como fazem os que o conceituam superficialmente.

 

579. Deus se faz conhecer em função ao conceito de conhecer, e não do ser. É próprio da criatura haver-se tornado ser.

Deus é em substância o mesmo conhecimento. Advertiu Eckhart: Deus não conhece, porque é; mas é, porque conhece. Em termos latinos:

"Non ita videtur mihi modo, ut quia sit intelligat, sed quia intelligit, ideo est, ita quod Deus est intellectus et intelligere, et est ipsum intelligere; fundamentum ipsius esse". Este pensamento está calcado no dizer inicial do Evangelho de João "No princípio era o Verbo (Logos)".

Não é que Deus não seja ser, mas nele tudo é diferente, tudo é a negação do que é o ser limitado da criatura. Por ali em diante, vai Eckhart, de negação em negação, tentando estabelecer o que é Deus.

De um lado o absoluto, a transcendência de Deus. De outro lado, a nulidade da criatura, que nada é, nada sabe, nada quer. Ao reconhecer-se, contudo, imagem de Deus, gera a Deus.
 
No fundo da alma, diz Eckhart, há uma centelha da alma (Selenfuenklein), com a qual vemos a Deus, dispensando de imagens. Esta expressão poderá ser vista apenas como a face superior da razão humana, a qual dispõe de recursos para a capacidade metafísica de alcançar Deus.

Tem aqui Eckhart em mente a doutrina agostiniana da iluminação divino-natural.

580. O sentido geral da criatura é o retorno a Deus, praticado pela alma.

O retorno a Deus dá-se por duas vias, - a via negativa da pobreza e a via positiva da divinização. Uma encaminha a outra.

 
Pela via negativa da pobreza, a alma se afasta das criaturas, que em si mesmas nada são, pois o que são, o são somente por Deus. Na medida que a alma se apega a si mesma, se afasta de Deus. Despojando-se de si mesma, a alma entra no estado de perfeita pobreza.

 
Pela via positiva da divinização a alma passa a receber a graça. Não mais opera somente a alma, e sim também a ação de Deus, ou seja, do Espírito Santo (no contexto da Trindade Cristã).

Nesta via positiva da divinização ocorrem elementos teológicos, onde podem diferir as opiniões, sem que as divergência afetem a filosofia. Mas, do ponto de vista meramente epistemológico, poderá o filósofo advertir para o rigor das argumentações, sem as quais tudo dispara no mundo da fantasia.

 

581. Hoje se é menos severo com Eckhart. Exprimiu-se com símbolos, o que resulta em enfatizar certos pontos de vista, sem que devam ser interpretados como radicalização.

Quanto à via negativa da pobreza, pode ela ser reavaliada dentro do conceito de que cabe à criatura ver a si mesma como tendo finalidade interna e finalidade externa. Então, a finalidade interna poderá ser apreciada como prevista pelo criador; em consequência a expressão "pobreza" fica inadequada, ainda que utilizável com as devidas cautelas.

E a finalidade externa, dita a glória de Deus, poderá ser senão a finalidade interna vista pela sua outra face; quanto mais se realiza a finalidade interna, mais se efetiva a externa. Esta finalidade externa, em que a criatura se diz a glória de Deus, é senão a via positiva da divinização.

 

Algumas das expressões Eckhart são efetivamente apropriadas para o monismo panteísta, razão porque continuam no apreço dos pensadores livres de condicionamentos oficiais, e convencidos, da superioridade do monismo.

 

Eckhart partiu de idéias, as quais já têm origem no neoplatonismo e no agostinianismo, e que agora estão em contato com o pensamento aristotélico de Tomás de Aquino. Sua doutrina sobre Deus é globalmente tomista, acentuando todavia a teologia negativa, tomou este negativo como ponto de partida do acesso supra conceptual e místico da alma ao Uno primitivo, Deus.

 

Foi também interpretado como precursor de idéias modernas, quanto aos limites da ontologia.

582. Johan van Ruysbroeck (ou Ruusbroec) (1293-1381). Místico belga, de expressão flamenga, nascido em (de onde recebeu o nome), nas proximidades de Bruxelas.

Depois de estudos em Bruxelas, Johan van Ruysbroeck foi ordenado sacerdote em 1317. Ali permaneceu a serviço da catedral de Saint-Gudule. Pela volta dos seus 50 anos se retirou para o convento de Groenendael, dos Cônegos de Santo Agostinho, alternando a oração com o trabalho. Ao ser organizada a comunidade em mosteiro regular, foi seu primeiro Prior, em 1349, fato que gerou ao mesmo tempo sua geral influência.
 

Obras (cerca de 12):

O adorno das bodas espirituais (De Chierheit der geesteleker brulocht), em três livros, respectivamente sobre as formas da vida ativa, vida interior, e vida contemplativa;

O livro de quatro encantos (Het Boeck van vier bekoringen);

Da fé cristã (Van den kerstenen ghelove);

O espelho da salvação eterna (De Spieghel der ewigher salicheit), em que a alma se espelha como imagem de Deus;

Ensino da Bíblia sobre Cristo (Bibelns lara om Kristus);

O tabernáculo, imaginando sete moradas no interior da alma;

O reino dos amantes de Deus, sobre os dons do Espírito Santo;

O livro da mais alta verdade, explicando os dons a que se refere o anterior;

O livro dos sete claustros, ou sete renúncias;

As doze virtudes, as virtudes que servem de meios para atingir a contemplação);

Quatro tentações, em que, entre outros temas, é refutado o panteísmo dos "irmãos do livre espírito".

 
Edição em Flamengo: Werken, R-Genootschap, 4 vol., Antuérpia, 1932.

Tradução das obras de Ruysbroek ao latim, em 1549, por Surius. Mais recentemente ao Francês, Inglês e outras línguas européias.

Merece menção ainda bem sucedida peça teatral Qualquer um (Elckerlyc)escrita um século depois, por Petrus Dorland, com base no texto O espelho da salvação eterna (De Spieghel der ewigher salicheit).
 
 

583. Nos seus escritos Ruysbroek expôs uma espiritualidade que abandona o formalismo inteletualista da escolástica de até então, enveredando por um misticismo mais acentuado e por uma linguagem simbólica.

Classifica-se Ruysbroek, como Tauler e Gerson, entre os místicos ortodoxos, diferentes do modelo, por exemplo de Eckhart, mais próximo do panteísmo e da tradição neoplatônica derivada através de Pseudo Dionísio e de Escoto Erígena. Contudo se mantém próximo a estes outros.

Os textos de Ruysbroeck, que usa o flamengo, se destinam ao leitor simples, de sorte a não oferecerem grande profundidade. Mas inspiraram outros e outros autores, tanto do mesmo flamengo, como de outras línguas para as quais se operou tradução. Caracterizam-se pelo uso de imagens sensíveis, através das quais Ruysbroeck busca mostrar uma verdade mais ao fundo.

584. João Tauler (c. 1300-1361). Místico alsaciano, nascido em Strasburgo. Ingresso na ordem dominicana, fez estudos no Studium Generale de Colônia, sob o Mestre Eckhart. Reconhecido como grande pregador. Faleceu em Strasburgo.

Obra:

Sermões. Deles restam 83, várias vezes reeditados durante a Renascença, e também modernamente, dado apreço que têm merecido.

Ocorre ainda, sob seu nome, um escrito denominado Intituições, que sintetiza a sua doutrina.

Tradução dos sermões ao latim, por Surius, Colônia, 1603. Edição em Francês, de acordo com Surius, Noel, 8 vols., Paris, 1912-1913.

 

585. A mística de Tauler se manteve na linha da de Eckhart, mesmo depois da condenação de várias proposições deste, 1329. Obedece uma linha tomista, mas com ressonâncias do neoplatonismo de Porfírio e Proclo. Mística orientada para a Ética.

586. Jean de Gerson (1363-1429), Doctor christianissimus. Religioso e teólogo francês. Estudou na Universidade de Paris, onde fora discípulo do nominalista, então Chanceler, depois cardeal, Pedro d’Ailly (1350-1420). Também Gerson chegará a ser chanceler da Universidade de Paris, a partir de 1395.

As obras de Jean Gerson se ordenam em três grupos de textos:

Sermões, cerca de 60, em francês;

Comentários, sobretudo às Sentenças e à mística de Pseudo-Dionísio;

Opúsculos diversos, versando de preferencia temas de perfeição espiritual.

 

587. Contestou a tendência tecnicista e sofisticada da teologia especulativa dos seus mestres. Isto não lhe fora difícil, quando se dedicava a temas de ocasião, e até porque não foi de grande produção literária. Esta atitude mental o fez escrever mais sobre teologia, que sobre filosofia.
 

Não escrevendo ao modo tecnicista vigente dos autores escolásticos, passou por vezes a um estilo similar ao dos patrísticos, ainda que também ele escrevesse comentários às Sentenças.

Escreveu uma Consolatio theologica, similar ao texto de Boécio De Consolatione Philosophiae, transpondo para o plano teológico um tema filosófico.

Experimentou o diálogo, que fora um método frequente na filosofia grega e que no curso da Renascença fora retomado por muitos.
 
 

588. Havendo feito restrições ao uso da especulação filosófica na teologia, - como já se adiantou, - preferindo a experiência religiosa direta e a verdade revelada, na qual, aliás, até seu tempo, se acreditava espontaneamente. Propôs mesmo que a teologia escolástica fosse completada pela teologia mística.

Como místico, Gerson situou-se na linha agostiniana dos vitorinos e São Boaventura. Opôs-se, entretanto, neste campo à mística de van Ruysbroeck (vd 578).

Acentuou a liberdade de Deus na criação.

 

590. Uma visão mais democrática da Igreja também se fez notar em Gerson, tal como já acontecia ao seu mestre Pierre d’Aylly.

O Papa é inferior ao Concílio, que o pode julgar, condenar e depor. Mais, no concílio têm direito a voto, também os curas e qualquer fiel. Aliás, os Concílios ecumênicos, a partir do de Nicéia, em 325, atribuiram excepcional importância ao voto dos bispos. Depois em Roma cresceu a autoridade autocrática dos Pontífices, o qual, por sua vez ficou sendo o produto de uma elite, o Colégio cardinalício.

Agora, no curso do Concílio de Constança, pouca fora a autoridade dos papas, porquanto eram vários a pleitearem legitimidade. Em consequência passaram a ocorrer doutrinas revisionistas, entre as quais as de Pierre d’Aylly e Jean Gerson.

591. Nicolau de Cusa (Nikolaus Krebs) (entre agosto de 1400 a agosto de 1401-1464). Iniciou estudos em Deventer, no Instituto dos Irmãos da Vida Comum, a ordem de Tomás de Kempis, marcada pelo misticismo, e que caracterizará também o pensamento de Nicolau.

Continuou estudos em Heidelberg, 1416, onde conheceu o nominalismo de Ockham e as últimas novidades científicas. Em outubro de 1417 iniciou direito em Pádua, onde contactou o aristotelismo averroista e o Renascimento Italiano, além de estudar física e matemática. Doutor em 1425, esteve no mesmo ano em Roma.

Depois de perder seu primeiro processo advocatício, orientou-se para a teologia, que estudou em Colônia, onde a tendência então era neoplatônica. Também em Colônia foi ordenado sacerdote do clero secular, em 1430.

Participou em 1432 do Concílio de Basiléia, que tratou da união da cristandade, então dividida. No mesmo sentido, integrou em 1438 uma embaixada à corte imperial bizantina.

Legado pontifício nas dietas de Mogúncia, Nüremberg, Frankfurt. Cardeal em 1448. Dois anos depois, bispo de Brescia (Brixen, hoje no Tirol italiano). Visitador e reformador dos conventos alemães. Papa em potencial, faleceu em Todi (Úmbria), antes que isto acontecesse.

592. As obras de Nicolau de Cusa se constitui de ensaios consistentes e opúsculos específicos, os quais reunidos, estruturam um sistema doutrinário consistente.

Da douta ignorância (De docta ignorantia, 1440), seu livro mais conhecido, em que propõe o início da investigação pela dúvida universal;

Das conjeturas (De conjecturis), da mesma data e continuação do anterior;

Apologia da douta ignorância (Apologiae doctae ignorantiae, 1449), em que respondeu aos ataques de João Wenck, reitor da universidade de Heidelberg;

O profano (Idiota, 1450);

Sobre a visão (De visione, 1453);

Sobre o berilo, ou sobre os óculos (De beryllo, 1454);

Sobre a perfeição matemática (De perfectione mathematica, 1458);

Sobre o Poder ser (De possest, 1460), referente a Deus, cujo caráter indizível o fez refletir na composição bárbara do verbo para significar posse fieri;

Peneirando o alcorão (De cribatione Alchorani, 1461);

Sobre não o outro (De non alliud, 1462);

Da figura do mundo (De figura mundi, 1462?);

Sobre a caça ao saber (De venatione sapientiae, 1463);

Do jogo de bolas (De ludo globi, 1464);

Compendio (Compendium, 1464).

Divulgados seus livros em impressões várias ao longo dos primeiros séculos da imprensa, foram finalmente reunidos em Edição completa de 22 volumes, na década de 1970.
 
 

593. Sensível ao seu tempo, Nicolau de Cusa foi um grande nome para encerrar o último período da Igreja. Sua influência inicial foi principalmente religiosa.

A filosofia foi ganhando terreno, a seu modo, através de Bruno, Paracelso, Leibniz, Bobillus, Sanchez, Gassendi.

594. Doutrinas. Contestou, Nicolau de Cusa, aos que simplesmente repetem os conhecimentos de sua escola, sem um exame crítico mais profundo. Não sabem o suficiente para defender estes seus pontos de vista, e os podem estar defendendo mesmo quando estejam errados.
 
O conceito de douta ignorância equivale à expressão de Sócrates, o qual dizia saber que não sabe. Há aqueles que não sabem, e todavia não sabem, que não sabem. O cego, depois de ouvir falar sobre o Sol, sabe que não sabe do Sol como ele é visto pelos que efetivamente o vêem; diferentemente, o cego que nunca ouviu falar sobre o Sol, simplesmente não sabe que não sabe.

 

595. Trouxe Nicolau de Cusa do passado o platonismo do feitio de Proclus e de pseudo-Dionísio, filtrado através do espírito crítico do nominalismo em vigor no final da Idade Média.
 
Admitiu duas modalidades de conhecimento, o da pura inteligência, ou inteleto, que nos confere a noção mística mais exata de Deus; e o conhecimento raciocinativo, ou razão, que nasce da ordem sensível, procedendo por conceitos e análise.

Este dualismo das fonte de conhecimento, peculiar aos místicos, é o fundo platônico do Cusano, e lembra os pensadores agostinianos.

 

596. A visão sintética do mundo e de Deus oferecida por Nicolau de Cusa, lhe trouxe a acusação de monista panteísta. Todavia jamais asseverou que Deus e o mundo fossem parte do mesmo todo.
 


 
 
600. Conclusão sobre a Escolástica de Ouro. No Ocidente fechou a Idade Média, em 1453, já com os humanistas e helenizantes do Renascimento. Os representantes da Escolástica de Ouro, que tiveram seus principais representantes no século 13 e início do século 14, cedem lugar aos pensadores de Renascença, ainda que não se extinguindo.

Alguns dos renascentistas entram em cena, como que antes do tempo: Lourenço Valla (1407-1457); Jorge Ghemistos, também denominado Plethon (1370-1452), vindo do Oriente para Florença.

Passou a cultura a se desenvolver com quadros mais amplos da sociedade, e também das artes, surgindo agora grandes literatos. Foi a oportunidade de Petrarca (1304-1374) e de Boccacio (1313-1375). Também a pintura se humaniza paulatinamente a partir de Giotto (1266-1337), cujas tintas foram apagando a fisionomia dura do ascetismo medieval.

Não desapareceu a Escolástica latina. Passou a um novo tempo. Não será mais de ouro, todavia de prata (vd 0481y000).
 


 Cap. 5Índices