(Versão em Português do original em Esperanto)
© Copyright 1997 Evaldo Pauli
CAP. 3
O EPICURISMO. 2642y205.
- LEGADO FILOSÓFICO HELÊNICO-ROMANO -
206. Introdução geral. O epicurismo é a junção, com algumas modificações, da lógica de Aristóteles 384-323 a.C.), da física atomista de Demócrito (c. 460-370 a.C.), da moral de Aristipo de Cirene (c. 435 – 355 a.C.), fundador, como se sabe, de uma das escolas socráticas menores.
Particularmente é o epicurismo a continuação da escola socrática menor deste último, com sua preocupação socrática pela moral e pela sua inclinação sensista.
Apareceu o epicurismo mais ou menos na mesma época do estoicismo, com o qual se manteve em polêmica permanente. Difere do estoicismo, porque este se filiava mais à física de Heráclito, que lhe emprestou o logos, e a moral severa dos cínicos. Diferentemente, o epicurismo adotava o atomismo dispersivo de Demócrito e a moral hedonista de Aristipo de Cirene, buscando um certo equilíbrio de índole humanista.
207. Em sua evolução o epicurismo sofreu menores mudanças que o estoicismo.
Epicuro se apresentou como o mestre perfeito com doutrina definitiva, ao passo que o estoicismo se movimentou em direções várias, com aproximações a correntes distanciadas.
O epicurismo, embora tenha um passado tomado a outros, manteve-se fechado sobre si mesmo, guardando ciosamente sua própria posição.
Didaticamente há a tratar com destaque:
Mestre Epicuro (vd
2642y209).Discípulos de Epicuro (vd
2642y252), entre outros Metrodoro de Lâmpsaco, Hermaco de Mitilene, Colotes de Lâmpsaco, Lucrécio Caro.
ART. 1o. MESTRE EPICURO. 2642y209.
210. Didaticamente, sobre Epicuro há desenvolver vida e obras, a seguir suas doutrinas.
§ 1. Vida e obras de Epicuro. 2642y211.
212. Epicuro (
+ B \ 6 @ L D @ H ) nasceu em 341, em Atenas, e foi criado em Samos. Outros o fizeram simplesmente ter nascido em Samos (D. Laércio, VIII, 1). Esteve em Atenas breve tempo em 323, "aos 18 anos, na época em que Xenócrates ensinava na Academia e Aristóteles na Cálcida (D. Laércio, VIII, 1).
Estabeleceu-se em Colófon, após a expulsão de seus pais de Samos. Aparenta ter sido um autodidata, mas influenciado pelos livros dos cirenaicos e do atomista Nausífanes de Teos. Fez discípulos de renome, Metrodoro, Poliano, Hemarco, com os quais se trasladou em 306 para Atenas. Estabeleceu sua escola num jardim, dali porque a escola se chamou jardim (
6 Z B @ H ) e os epicuristas, os do jardim (@ \ " B Î J ä < 6 Z B @ T < ).
Informa ainda Diógenes Laércio:
"Sua excessiva modéstia o impedia sempre de tomar parte no manejo dos assuntos públicos. Viveu nos tempos mais difíceis da Grécia sem abandoná-la jamais, fora de duas ou três viagens feitas à Jônia, junto a seus amigos. Estes, pelo contrário, acudiam de todas as partes, como diz Apolodoro, para vir a viver com ele no jardim em que havia estabelecido a sua escola e que havia comprado por oitenta minas.
Conta Diocles, no livro terceiro das Excursões, que sua vida era sóbria e de uma sensibilidade excessiva; uma pequena cotila (medida) de vinho lhe bastava; quanto à água, contentava-se com o primeiro trago. Acrescenta que Epicuro não aprovava a comunidade de bens, contra a opinião de Pitágoras, que queria tudo comum entre os amigos; dizia que isto era uma prova de desconfiança, incompatível com a amizade. Vê-se por suas cartas que se contentava com água e pão comum. Assim era o homem que fazia consistir o soberano bem na voluptuosidade" (D. Laércio, VII, 10-12).
213. Faleceu Epicuro em 270 a.C. rodeado pela admiração dos contemporâneos:
"Morreu à idade de setenta e dois anos, o segundo da 120Ŗ olimpíada, sob o arcontado de Pitarato" (D. Laércio, X).
214. Obras. Escreveu muitíssimo e bem, superando a Crísipo, autor estóico de nomeada:
"Nenhum escritor igualou a fecundidade de Epicuro, nem escreveu tão grande número de obras. Deixou mais de trezentos volumes de obras repletos de idéias próprias, sem nenhuma citação estranha. Crísipo se apressava em escrever outra; mas, por causa deste açodamento, suas obras estão cheias de repetições, de coisas aventuradas ao azar e mal digeridas" (D. Laércio, X).
Transmitiu Diógenes Laércio a lista dos principais títulos, mas perderam-se praticamente todas. Restam alguns fragmentos e algumas páginas, a que se acrescentam alguns livros reencontrados modernamente. Conservam-se dois livros, Sobre a natureza (
A , D Â N b F , T H ), que Diógenes Laércio diz compor-se de 37 ao todo, e que foram encontrados na Biblioteca de Herculano e editados pela primeira vez por J. Conr. Orelli (Leipzig, 1818).
Restam ainda, graças a Diógenes Laércio, os Axiomas principais (
6 b D 4 " 4 * ` > " 4 ). E três epístolas didáticas.
Uma carta a sua mãe, foi descoberta, além de outros fragmentos, na inscrição de Oinoanda, que realizada cerca do ano 200 d.C. em um pórtico por um epicureu (publicada por Cousin a primeira vez em 1892).
§ 2. Doutrinas de Epicuro. 2642y216.
217. Doutrina. O epicurismo, como o estoicismo, mantém a mesma divisão das ciências dada por Demócrates.
"Divide a filosofia em três partes: canônica, física e moral.
A canônica, que serve de preparação à ciência, está contida unicamente na obra entitulada Canon (regra)
A física contém toda a teoria sobre a natureza...
A moral trata do que devemos buscar e evitar...
Os epicureus rechaçam a dialética como inútil; dizem que a conformidade da linguagem com as coisas basta ao físico para adiantar-se com fruto no estudo da natureza" (D. Laércio, X).
Não se ocupou Epicuro com uma lógica propriamente dita: o Canon é antes uma psicologia.
I – A Canônica.
2642y219.
220. A gnosiologia de Epicuro é sensista; mas ocupou-se mais com o lado psicológico da questão, descrevendo suas teorias de fundo atomista do que com o problema gnosiológico entendido especificamente.
A alma, inicialmente tabula rasa, recebe apenas representações sensíveis. Mesmo estas são também concebidas segundo o mais grosseiro psicologismo, sem qualquer feição intencionalística
"Existem imagens (
, Æ * T 8 " ) parecidas em suas formas aos corpos sólidos que vemos, que diferem porém bastante destes pela subtilidade de sua substância" (carta I).
Os sentidos por si só não elaboram o seu mesmo conhecimento sensível:
"Os sentidos estão privados de razão; não são capazes de memória [isto quer dizer que nada acrescentam por efeito de raciocínio, explicamos nós]. Por si mesmos não são realmente causa de movimento algum e quando tem recebido uma impressão de um agente externo, eles não podem acrescentar e nem suprimir nada" (Epicuro, citado por D. Laércio X).
221. A elaboração das imagens sensíveis processa-se com etapa imediata e sem alçar-se ao nível especificamente supra-sensível:
"Todo o raciocínio tem a sensação por base... Toda noção deriva dos sentidos, quer diretamente, quer em virtude de uma proporção, de uma analogia, de uma composição; o raciocínio tem parte nestas últimas operações" (D. Laércio, X, citando Epicuro).
222. É original no epicurismo o conceito de prenoção (
B D ` 8 0 R 4 H ).
"Por prenoção entendem os epicureus uma espécie de concepção, uma verdadeira noção, uma opinião, uma idéia geral que subsiste em nós; em outros termos, a recordação de um objeto exterior, frequentemente percebido com anterioridade; tal, por exemplo, esta idéia: o homem é um ser de tal natureza.
Quando pronunciamos a palavra homem, concebemos imediatamente o tipo de homem, em virtude de uma prenoção que devemos aos dados anteriores dos sentidos. A noção primeira que desperta em nós cada palavra é, por conseguinte, verdadeira; não poderíamos, com efeito, buscar uma coisa se não possuíssemos previamente a idéia daquela. Para afirmar que o que vemos ao longe é um cavalo ou um boi, é preciso que em virtude de uma prenoção conheçamos com anterioridade a forma do cavalo e do boi.
Além disto, não poderíamos dar nome as coisas se não temos delas uma noção prévia" (D. Laércio, X).
Epicuro, citado por Sexto Empírico, diz taxativamente:
"Não é possível, nem procurar nem duvidar, sem uma prenoção" (Adv. Math. XI, 21).
223. A certeza. Ocupou-se Epicuro expressamente da certeza do conhecimento, tratando, com detalhes seu critério.
Não aceitou a prova silogística da certeza, mas estabeleceu a evidência imediata; o critério da certeza é, pois, a evidência imediata.
Considerou em primeiro lugar os sentidos, antes de qualquer elaboração e diz que "seus dados estão desprovidos de qualquer controle; porque uma sensação não pode julgar a outra semelhante a si mesma; as duas tem igual valor; não julga a uma sensação diferente; seus objetos não são os mesmos; em uma palavra, um sentido não controla ao outro, posto que os dados de todos se impõem a nós".
E acrescentou logo a seguir, que "tão pouco o raciocínio pode pronunciar-se sobre os sentidos, porque temos dito que todo o raciocínio tem a sensação por base" (D. Laércio, X, citando Epicuro).
A evidência por si só garante a veracidade das sensações:
"A realidade e a evidência da sensação estabelecem a certeza dos sentidos, porque as impressões da vista e do ouvido são tão reais, tão evidentes como a dor" (D. Laércio, X, citando Epicuro).
224. Ocorre certamente alguma imprecisão nas afirmações de Epicuro, visto que os sentidos, embora de evidência imediata, não conseguem por si sós a evidência imediata reflexa; a evidência, portanto, de que fala a gnosiologia epicuriana é antes a evidência do conhecimento inteletivo, tal como se apresenta no aristotelismo.
Promovida uma vez a justificação criteriológica da inteligência , por meio desta, se julga a seguir o valor da evidência direta dos sentidos; para Epicuro, tal não tem sentido, porque "tão pouco o raciocínio pode pronunciar-se sobre os sentidos por termos dito que todo o raciocínio tem a sensação por base" (D. Laércio, X, citando Epicuro).
Encontra-se, pois, Epicuro sem saída: de uma parte, os sentidos não podem inverter sua evidência direta em reflexa, e de outra parte não consegue apelar ao raciocínio, cujo caráter especificamente intelectual não admite. Mas tem o mérito de haver tratado o assunto mesmo assim, com bastante penetração.
225. O erro não ocorre nas sensações, que são de evidência imediata, mas nos juízos e opiniões (
* ` > " s ß B ` 8 0 R 4 H ). Também Aristóteles afastara a possibilidade do erro no conhecimento imediato; com referência ao conhecimento imediato, a criteriologia de base aristotélica tem apenas o cuidado de explicitar uma evidência direta que já é ingênita, tornando-a reflexa; há porém a anotar que estes, - os dados imediatos, - têm a forma de juízos. Para Epicuro não há erro nas sensações e nem sequer nas representações fantasiosas; também as "prenoções" (B D ` 8 0 R 4 H ) são certas em si mesmas:
"Não poderíamos dar nome às coisas se não tivéssemos delas uma noção prévia. Estas prenoções oferecem, portanto, completa certeza" (D. Laércio, citando Epicuro).
Para Epicuro o erro somente pode ocorrer no juízo, porque este se enuncia a maneira de hipótese, ou suposição, e que depende por isso de ato pessoal, pelo qual o indivíduo pode ultrapassar a representação efetiva; à percepção direta cabe confirmar o erro ou a verdade.
"Os epicureus dão também ao juízo o nome de suposição e dizem que pode ser verdadeiro ou falso. É verdadeiro se a evidência dos sentidos o confirma ou ao menos não o contradiz; é falso em caso contrário. Dali vem entre eles a expressão: suspensão do juízo; por exemplo, antes de pronunciar que tal objeto é uma torre, é preciso esperar para estar, de perto, e julgar depois a impressão que produz de perto: (D. Laércio, X).
"O erro, os falsos juízos, se devem sempre a que uma idéia preconcebida seja confirmada ou não pela experiência;
O erro não seria possível se não existisse um ato pessoal, uma de espécie de iniciativa da inteligência, ligada à representação direta, mas que vá mais além desta representação. Esta concepção, ligada à percepção direta que produz a representação e que vai mais longe, graças a um ato próprio do pensamento individual, produz o erro, quando a evidência não a confirma ou a contradiz; quando a evidência a confirma ou não a contradiz, temos a verdade" (Epicuro, I Carta).
II – A física de Epicuro.
2642y227.
228. O espaço real. Coincide a física de Epicuro com a filosofia natural, a saber a cosmologia e a psicologia, e mais todas as ciências naturais. É o tema que vem exposto em sua primeira Carta.
Renova e expõe amplamente o atomismo de Demócrito, não sem tentar uma justificação metafísica do materialismo, posto à base. Argumenta:
"Não há lugar, no universo, para o não ser; porque os sentidos nos atestam em todas as partes e sempre que os corpos existem realmente, e o testemunho dos sentidos deve ser, como temos dito, a regra de nossos raciocínios sobre o que temos percebido imediatamente.
Além disto, se o que temos chamado vazio, espaço, natureza intangível, não tivesse existência real, não existiria, coisa alguma na qual os corpos pudessem estar contidos, em cuja extensão pudessem mover-se, como vemos que se movem na realidade.
Acrescentemos a isto que não se pode conceber, nem em virtude da percepção, nem em virtude de uma analogia fundada na percepção, alguma qualidade geral, própria de todos os seres, que não seja atributo ou acidente do corpo ou do espaço" (I carta).
Observa-se que para Epicuro o espaço é uma entidade física, e não mera determinação do mesmo corpo, como expunha Aristóteles. Para os aristotélicos o vazio é um conceito negativo e não existe como realidade.
229. O atomismo. Retomou Epicuro quase integralmente o atomismo de Demócrito, que conheceu certamente através de seu mestre Nausífanes, também atomista. Admite, portanto, que a matéria do universo se componha de um número infinito de átomos, qualitativamente iguais no que se refere à extensão, diferenciados entre si pelas formas, movimentado-se no vazio.
Corrige, entretanto, a necessidade puramente mecânica de Demócrito, por uma inclinação (
B " D X ( 6 8 4 F 4 H ) dos átomos, de modo a, em seu movimento retilíneo, desviarem-se ligeiramente, sem causa, nem lei, espontaneamente, isto bastou para provocar os encontros e as combinações mais diversas, de onde resultou o mundo.Não se apercebeu Epicuro das dificuldades próprias do atomismo. Ao afirmar que os átomos são absolutamente cheios de elementos corpóreos indivisíveis (I. carta), não discute nem resolve os problemas que se erguem contra a hipótese da unicidade intrínseca do ser e da pluralidade numérica e que já preocupavam aos eleatas e a Aristóteles.
Nem parece que lhe foi dada a penetração de inteligência para se perceber da sem explicação e gratuidade da inclinação espontânea dos átomos.
III – Alma material.
2642y231.
232. Em virtude do princípio metafísico de que todo o ser é corpóreo enveredou a psicologia de Epicuro pelo materialismo puro, mais do que aquele dos estóicos.
Entretanto, não chegou Epicuro a propor um materialismo monista, no qual os fenômenos físicos e psíquicos fossem duas operações da mesma matéria. Para Epicuro há duas espécies de matéria, ou de ciroim. O corpo material da alma e o corpo matéria dos demais seres. Assim acontece, que a alma material habita no corpo, sem se confundir com ele.
Começa a argumentação de Epicuro, alegando que a alma não poderia ser algo incorpóreo como se pretendia.
"O termo incorpóreo se toma em sua verdadeira acepção para expressar o que em si é concebido como tal; ora, somente o vazio pode ser concebido em si como incorpóreo; mas o vazio não pode ser ativo e nem passivo; é somente a condição e o lugar do movimento; logo aqueles que dizem que a alma é incorpórea, pronunciam palavras vazias de sentido; porque, se ela tivesse este caráter, não poderia produzir, nem receber ação alguma, sendo assim que comprovamos o contrário; que tem esta dupla faculdade" (I. carta).
O defeito da argumentação de Epicuro está no modo como interpreta o incorpóreo e em reduzi-lo tão só ao vazio.
233. Qualificou Epicuro a alma como um composto de átomos:
"A alma é uma substância corporal, composta de partículas extremamente desligadas, espalhadas por todos os membros do corpo e oferecendo analogia como uma espécie de hábito misturado com calor, parecida enfim tanto com um, como com outro destes princípios" (o hábito e o calor) (I. carta).
Mas, Epicuro, acrescenta:
"que a alma é composta de átomos extremamente rápidos e redondos, completamente diferentes daqueles do fogo" (D. Laércio, X).
234. Parece, portanto, elevar-se Epicuro a um conceito mais elevado ao de Heráclito, embora sem sair do materialismo. Mas, não resta dúvida que a descrição da alma feita por Epicuro tem feições que superam o próprio materialismo. Talvez Epicuro se visse sob pressão dos platônicos e aristotélicos.
Prosseguiu, afirmando sobre a natureza da alma, distinguindo uma função racional (
8 @ ( 4 6 ` < ) e outra irracional (– 8 @ ( @ < ):
"Distingue nela a parte irracional, espalhada por todo o corpo, e a parte racional que tem sua sede no peito, como provam o temor e o gozo" (D. Laércio, X).
Faz-se a distinção não por obra de substância especificamente superior, porque fundamentalmente Epicuro é materialista, mas por efeito de sede e outras qualidades da matéria atômica.
Em outro lugar Epicuro parece apresentar uma doutrina diversa, quando diz que a alma se compõe de quatro diferentes substâncias, ígnea, aérea, ventosa e "innominada" (
V 6 " J @ ( ` : " J J @ < ), com funções distintas, cabendo à quarta produzir a sensação (" Ç F 2 0 F 4 H ). A oposição é aparente porque o quarto elemento se pode identificar com a parte antes chamada racional (8 @ ( 4 6 ` < ) e as outras três com a parte irracional (– 8 @ ( @ < ).
235. Não há lugar para a imortalidade da alma na psicologia de Epicuro, uma vez que a definiu como um composto de átomos; estes sim, os átomos, são eternos. Desfaz-se pois a alma quando se desagrega o corpo:
"quando todo o conjunto corporal se dissolve, a alma se desfaz" (I. carta).
236.As faculdades recebem de Epicuro interessantes observações em sua psicologia.
Os sentidos são declarados orgânicos, porque embora da alma, ocorrem em junção com o corpo:
"A alma é preferentemente o princípio da sensação; contudo, não possuiria ela esta faculdade se não estivesse envolta pelo resto do corpo… Desaparecida a alma, o corpo não possui sensação… de outra parte, a sensação não pode manifestar-se na alma senão por intermédio do corpo" (I. carta).
A explicação epicuriana em última instância é de caráter atomista e material.
IV - Psicologia do prazer. 2642y238.
239. Prazer em movimento e em repouso. Epicuro estabeleceu o prazer como fim principal do homem. Nestes termos o prazer é um tema ético. Mas, o prazer em si mesmo, como afecção da alma, é um tema de psicologia; também sob este angulo tem-no tratado Epicuro, analisando a noção de prazer e classificando suas diferentes espécies.
Fundamentalmente duas são as espécies, o prazer em movimento (
ŗ * @ < ¬ X L 6 4 < Z F , 4 ), já conhecido pelos cirenaicos, e que ocorre nos atos de comer e beber e na volúpia, e o prazer no repouso e sem dor. A este os filósofos do jardim propugnam como o mais perfeito e desejável, ao qual chamavam imperturbabilidade (• J " D " > \ " ).
"Não havia acordo entre os cirenaicos sobre a natureza do prazer. Estes não admitiam prazer em calma e repouso e o faziam constituir unicamente no movimento. Epicuro, pelo contrário, passou a sustentar que o prazer tem o duplo caráter de obrar na alma e no corpo, como ensina no tratado Daquilo que é preciso buscar e evitar, no tratado Do Fim, na carta aos filósofos de Metelin e no livro primeiro das Vidas.
Diógenes, no livro décimo sétimo de Opiniões escolhidas e Metrodoro em Tinócrates, se expressam igualmente nestes termos: existem duas espécies de prazeres, uns consistem no movimento e outros no repouso.
Epicuro diz todavia no tratado Acerca do que deve buscar: a ataraxia (
• J " D " > \ " ) e a ausência de dor são os prazeres em repouso; o gozo e o bem estar são prazeres ativos que provem do movimento.Também diferem os cirenaicos acerca de outro assunto; para eles os sofrimentos corporais são mais agudos que os da alma; querem portanto que sejam infligidos aos culpados.
Epicuro, pelo contrário, considera mais insuportáveis os da alma; o corpo, segundo ele, só sente os sofrimento atuais; a alma porém sofre os do passado, os do presente e os do futuro. Os prazeres da alma são também mais vivos. " (D.L. X).
O prazer em repouso passa a ser o prazer por antonomásia e o que se deve entender quando simplesmente se diz prazer.
Por isso escreve Epicuro:
"Entendemos por prazer a ausência de toda a dor corporal e toda a inquietude da alma. Não entendemos por prazer os grandes banquetes, o vinho, os prazeres amorosos" (III carta).
240. Pergunta-se, em que consiste, a rigor do prazer em repouso? Os epicureus dizem a respeito pouca coisa mais do que sua noção negativa, enquanto se distingue do prazer em movimento. Consiste dizem em evitar a dor e a tranquilidade da alma. (III carta).
Já em Demócrito de Ábdera, que só começou a ser conhecido em Atenas com Aristóteles, ocorreu o conceito de felicidade e prazer como paz (
ŗ J L 8 \ " ) da alma. O abderitano usa principalmente o termo paz interior (, ß 2 L : \ " ), mas também as expressões imperturbabilidade (• J " D " > \ " ), serenidade (• J " D " > \ " ), impassibilidade (¯ 2 " : $ \ " ), harmonia (¯ D : @ < \ " ), equilíbrio (> L : , J D \ " ), bem estar (, Û , J J V ), calma (do mar) (( " 8 Z < 0 ). É possível recuar até os pitagóricos aos quais eram comuns as noções de harmonia (¯ D : @ < \ " ) e equilíbrio (> L : , J D \ " ).
A característica epicuriana consiste em fazer deste tipo de paz e tranquilidade afetos sem movimento. Tratar-se-ia de um equívoco, ou seria efetivamente este afeto algo dotado de semelhante qualidade? Avaliando a questão pelo lado aristotélico, todas as potências tem como estado específico repousar no seu objeto, como um estado alcançado; o ato sempre é repouso; só há movimento quando a potência não está em ato. Por isso, o que efetivamente não existe é o prazer em movimento. Todo o prazer é ato. Epicuro o percebeu, mas apenas para o prazer de ordem superior. Na verdade no prazer de ordem superior o ato é maior. Por isso particularmente nele percebe o repouso. A intuição de Epicuro não deixava, portanto, de conter alguma verdade.
V – A Ética de Epicuro.
2646y243.
244. O ceticismo epicuriano, com ênfase na importância dada à ética, vem da tradição socrática, através das escolas socráticas menores. Algo similar acontecia com o ceticismo dos estóicos.
Acontecia, entretanto, uma diversidade de genealogia. A ética dos estóicos derivara através da escola socrática menor dos cínicos, constituída a linha genealógica da seguinte forma: Sócrates, Antístenes, Diogénes, o cínico, Crates de Tebas, que foi mestre de Zenão o estóico.
Diferentemente, a genealogia dos epicureus procede através da escola hedonista dos cirenaicos, e vem até Epicuro por uma linha de sucessões não bem conhecida. Epicuro era, ao que parece, um autodidata, e não deixou dito em que autores se abeberara. As noções de paz e imperturbabilidade (
• J " D " > \ " ) lhe vem de Demócrito, de quem recebeu também o atomismo.245. O fim (
J X 8 @ H ) da atividade humana é o prazer (Z * @ Z )."Consideramos o prazer como o princípio e o fim da felicidade; este é o primeiro bem que nós conhecemos, inerente à nossa natureza; é o princípio de todas as nossas determinações, de nossos desejos e de nossas aversões; é este para o qual aspiramos sem cessar, e em todas as coisas o sentimento é a regra que nos serve para medir o bem" (III carta).
Logo adiante diz:
"Todo o prazer, portanto, considerado em si mesmo e em sua natureza é um bem" (III carta).
"O que prova, que o prazer é o fim da vida, é que os animais, desde que nascem, são atraídos pelo prazer e repelem a dor, por puro instinto e sem nenhum raciocínio. Nós fugimos naturalmente do sofrimento, como Hércules, que, consumido pela túnica fatal, estremece…" (D. Laércio, X).
Sexto Empírico fez referência à mesma doutrina:
"Certos seguidores de Epicuro… tem o hábito de sustentar que o animal foge da dor e procura o prazer naturalmente e sem o haver aprendido; quando nasce e ainda não se sujeitou às opiniões, ele chora e grita toda vez que é atingido pelo frio desacostumado do ar. Se ele, pois, tem uma inclinação natural para o prazer e uma aversão para as penas, o sofrimento é uma coisa que ele evita naturalmente e o prazer uma coisa que ele deseja" (Adv. Math. IX, 96).
O fim (
J X 8 @ H ) dos epicureus, estabelecendo o prazer como norma, é mais restrito e concreto que o dos estóicos; estes estabeleciam como o fim a natureza, sendo que o prazer seria apenas um sentimento concomitante e "acessório" (D.L. VII). Também em Aristóteles prevalece a natureza como norma, de sorte a ser bom o que vem de conformidade com a natureza, sendo o prazer apenas como estado consequente.
246. Hierarquizou Epicuro as diferentes espécies de prazer, criando assim um conceito para a honestidade.
"Pela mesma razão que faz o prazer de todos os bens, o bem inato, não nos sujeitamos indiferentemente a toda classe de prazeres; deixamos o prazer de um lado, quando se lhe segue um mal. Muitos sofrimentos nos parecem preferíveis à voluptuosidade, quando estes sofrimentos, por muito tempo suportados, são recompensados com vantagem pelo prazer resultante. Todo o prazer, portanto, considerado em si mesmo e em sua natureza íntima, é um bem; nem todos, porém, devem ser igualmente buscados. Do mesmo modo também, todo sofrimento é um mal; nem todos porém devem por sua natureza ser evitados. Em uma palavra, é preciso examinar, pesar as vantagens e os inconvenientes, antes de pronunciar-se sobre o valor dos prazeres e das penas; porque um bem pode resultar-nos num mal, em certas circunstâncias, e reciprocamente um mal pode chegar a ser um bem" (III carta).
247. O exclusivismo eticista. Os epicureus deram à filosofia à função principal de investigação dos meios capazes de proporcionar a felicidade do indivíduo.
A ciência, portanto, não é destacada como apreciável em si mesma. Não se nota em Epicuro uma preocupação teórica especializada, como a erudição matemática, histórica, natural. Sua exposição física e astronômica está em função de sua concepção ética do mundo.
248. No plano do social e político, a amizade. Destacou o epicurismo, como acréscimo ao individualismo, a amizade, a partir de onde se forma a sociedade e finalmente o cosmopolitismo. Este, o cosmopolitismo foi aliás uma das características das filosofias pós socráticas.
Não obstante, na base se encontra sempre o individualismo. Não é aconselhável que o sábio estabeleça família, dadas as preocupações que pode originar.
249. A ética epicuriana recomenda o afastamento da vida política e social. Não existe sociedade natural.
"O poder e a realeza não são bens absolutos, pertencentes à ordem natural; bens enquanto nos põem ao abrigo dos malvados desígnios dos homens" (Epicuro em Axiomas fundamentais).
Efetivamente Epicuro e os epicureus andaram em geral afastados das lides políticas.
250. Com referência à exaltação do epicurismo a amizade como importante expediente de felicidade, se lê:
"De todas as fontes de felicidade que devemos à sabedoria, nenhuma tão abundante como a amizade. O que preferentemente deve confirmar-nos na esperança de que nenhum mal é eterno, nem tão pouco de grande duração, é o pensamento de que a amizade nos oferece recursos inesgotáveis, ainda durante o curto espaço da vida" (Epicuro em Axiomas fundamentais).
ART. 2o. DISCÍPULOS DE EPICURO. 2642y252.
253. Conhecem-se vários discípulos destacados de Epicuro, e que se encontram ao longo de toda a história da filosofia helênico-romana:
Metrodoro de Lâmpsaco( séc. 5-o a.C.) (vd
254);Hermaco de Mitilene (c. 325-250 a.C.) (vd
256);Temista e outros discípulos imediatos de Epicuro (vd
258);Colotes de Lâmpsaco, (vd
259);Lucrécio Caro (vd
265).
254. Metrodoro de Lâmpsaco, ou anaxagoriano (5-o. século a.C.). filósofo grego, discípulo de Epicuro, havendo morrido 7 anos antes do mestre, ao 53 anos (D.L. X). Conservaram-se os títulos de seus livros, mas não os textos, senão alguns fragmentos. Estes foram editados a primeira vez por H. H. Duening, Leipzig, 1870 De Metrodori Epicurei vita et seriptis.
Pregou o sensismo e hedonismo epicuriano. Fiel ao mestre, Cícero o chamou de "Segundo Epicuro". Os títulos dos seus escritos indicam a amplidão de suas polêmicas, pois estes dizem: Contra os médicos; Contra Timócrates; Contra os dialéticos; Contra Demócrito; Contra o Eutifron de Platão; Contra aqueles que dizem que a ciência da natureza produz bons oradores. Outros são temáticos: Das sensações; Da magnanimidade; Da doença de Epicuro; Do caminho que leva à sabedoria; Sobre os deuses; Sobre os poemas; Sobre a filosofia.
256. Hermaco de Mitilene, c. 325-250 a.C. Filósofo epicureu, de língua grega. Quando em 306 a.C. Epicuro transpôs sua escola para Atenas, depois de haver estado em Mitilene e Lâmpsaco, acompanhou Hermaco ao seu mestre.
Ensinando na mesma escola, sucedeu a Epicuro na sua direção, quando este falecia em 270 a.C.
257. Levou à discussão o direito de vida dos animais, mostrando a semelhança com o direito de vida dos seres humanos.
Argumentou ainda contra a prece: se a prece é necessária para todo o empreendimento, ela será necessária para a própria prece, e assim ao infinito, o que é absurdo; portanto, não é necessária.
Dos vários livros que escreveu somente restam fragmentos e referências.
258. Temista e outros discípulos imediatos de Epicuro são citados em um texto resumido de Diógenes Laércio:
"Vêm em seguida Temista, mulher de Leonte de Lâmpsaco, a qual Epicuro escreveu várias cartas, e ao mesmo Leonte; Colotes e Idomeneo, ambos de Lâmpsaco. Estes são os mais celebres.
Devem acrescentar-se ainda:
Polístrato, sucessor de Hermaco;
Dionísio e Basilides, que sucederam a Polístrato na chefia da escola de Epicuro;
Apolodoro, apelidado o Tirano do jardim, homem de mérito e autor de mais de quatrocentas obras;
Ptolomeu o Branco e Ptolomeu o Negro, ambos de Alexandria;
Zenão de Sidon, discípulo de Apolodoro e fecundo escritor;
Demetrio, apelidado Lacón;
Diógenes de Tarso, autor de Diálogos escolhidos;
Ario e muitos outros, a quem os verdadeiros epicureus qualificam de sofistas" (D. Laércio, X).
259. Colotes de Lâmpsaco (entre 4-o e 3-o. sec. a.C.). Filósofo grego, discípulo de Epicuro, havendo este ensinado em Lâmpsaco (do Helesponto), entre 306 e 310 a.C.
Escreveu, entre outros tratados, Não se consegue viver, seguindo a doutrina de outros filósofos; Contra Lysis; Contra Euthydemo, de Platão.. Perderam-se todos estes escritos.
O pensamento de Colotes de Lâmpsaco ficou todavia fortemente registrado, na oposição que lhe fez o platônico pitagorizante Plutarco de Queronea (c. 46 – c. 120) (vd
429), em livro intitulado Contra Colotes (na versão latina Adversus Colotem), defendendo aos filósofos atacados. Contrapôs-lhe Plutarco a afirmativa, - Não se consegue viver, seguindo a doutrina de Epicuro.Acusava-o Plutarco, de ignorante, de impiedade contra os deuses e de idolatria para com seu mestre (Epicuro).
260. Zenão de Sidon, viveu cerca do ano 100 a.C., e foi escolarca de importância.
261. Fedro foi um epicureu ao qual se reportou Cícero.
263. Epicureus romanos. Fizeram-se conhecidos como epicureus romanos, autores que escreveram em latim. Tal foram sobretudo C. Amafínio e o poeta Tito Lucrécio Caro (96-55 a.C.). Tiveram estes influências sobre o estoicismo eclético de Cícero, Horácio e Sêneca.
265. Lucrécio, Tito Caro (Titus Lucretius Carus) c. 98 ou 94-c.55 a.C. Poeta e filósofo latino, nascido provavelmente em Roma. Não se sabe nada de seguro sobre sua vida.
Ter-se-ia finalmente suicidado, razão de sua vida curta. Foi um contemplador materialista epicurista da natureza.
Escreveu em latim arcaico, ao mesmo tempo que fez de sua obra uma das mais modernas e originais da antiguidade, o magnífico poema didático que reúne todos os seus versos: Sobre a natureza das coisas (De rerum natura), em seis livros.
O poema de Lucréio, além de informar diretamente sobre suas mesmas idéias, constitui-se também em fonte de informação sobre o mesmo pitagorismo e sobre os autores mais antigos aos quais criticou.
Nos dois primeiros expõe e discorda das doutrinas de Heráclito, Empédocles, Anaxágoras, atacando também aos estóicos.
Depois desenvolveu, - sempre em verso, - as teorias atomistas de Demócrito e Epicuro.
No último livro trata do trovão e dos relâmpagos. Contrastando com a evocação de Vênus, na abertura, termina o poema com a peste que assolou Atenas.
266. A vida social sobrevêm à família, ponderou Lucrécio:
"Então também os vizinhos começaram a unir-se em amizade, desejosos de não sofrer, nem fazer-se mutuamente violências; e entre si recomendarem a seus filhos e mulheres, indicando torpemente com suas vozes e gestos ser de justiça que todos se apiadem dos débeis. Assim e não poderia ser geral este acordo, porém uma boa, uma grande parte observava os pactos com escrúpulo, se não, já então o gênero humano teria perecido por inteiro e sua descendência não haveria podido propagar-se ate nós" (De rerum natura, 1019-1027).
Depois de outros progressos vem a fundação das cidades, primeiramente governadas por reis, que querem tornar-se ilustres e poderosos, depois pela República ordenada pelas leis;
"E assim, graças ao fogo e a novos inventos, mostravam como podia melhorar-se sua vida anterior. Os que sobressaiam em engenho e prudência, começaram a fundar cidades e, como reis delas, a estabelecer cidadelas que asseguravam refúgio… Porém os homens quiseram fazer-se ilustres e poderosos, para assentar sua fortuna em uma sólida base e poder viver placidamente na opulência; tudo em vão, pois na contenda para escalar o cimo da honra encheram de perigos o caminho, e ainda chegam ao cume, a inveja os derruba de um golpe, como um raio, e os precipita ignominiosamente no Tártaro espantoso; pois a inveja, como o raio, abrasa de preferência os cumes e tudo o que se eleve por sobre o demais, desta sorte é muito melhor obedecer tranquilamente que ambicionar o império e a posse de um trono… " (De rerum natura 1105-1135).
267. A queda dos reis segue o governo do povo:
"Assim, caídos os reis, derribada até a primitiva majestade dos sólios e os cetros soberbos… Assim se caiu em um estado de estrema confusão e desordem, em que cada um pretende para si o poder e o domínio. Então houve alguns que ensinaram a eleger magistrados e fundar os princípios do direito, para induzi-los a usar das leis. Pois o gênero humano estava fatigado de viver entre violências e as inimizades e extenuavam, razão demais para que se submetesse de bom grado às leis e à estrita justiça. Com efeito, cada homem em sua ira se preparava a levar a sua vingança mais longe do que agora permitem as leis equitativas, e eis aqui porque se enfastiaram de passar a vida em violências…E não lhe é fácil viver com placidez e sossego ao que com atos viola o pacto da paz social. Ainda que escape à vista dos deuses e dos homens, deve em segredo desconfiar do que assim seja sempre; e de muitos se conta que falando em sonhos ou em delírio de uma enfermidade, tenham revelado e feito patentes delitos que tiveram ocultos" (De rerum natura 1136-1160).