(Versão em Português do original em Esperanto)
© Copyright 1997 Evaldo Pauli
CAP. 5
A NOVA ACADEMIA
- Ecletismo neo-acadêmico -
2642y370.
- LEGADO FILOSÓFICO HELÊNICO-ROMANO -
371. Introdução geral. A Nova Academia, - denominação por contraste com a Academia Média, - foi marcada pelos nomes de Filon de Larissa (c. 160-80 a.C.) e Antíoco de Ascalon. Este teve como continuadores os alexandrinos Eudoro, Arío Didimo e Potamón.
No Ocidente ocorreu o ramo latino dos neo-acadêmicos, com os nomes de Cícero, Marcos Terêncio Varão, Quinto Séxtio.
Em decorrência a exposição didática se bifurca, em:
- Neo-acadêmicos gregos (vd
- Neo-acadêmicos latinos, ou romanos (vd
2642y376).
I – Neo-acadêmicos gregos
. 2642y372.
373. Ocorreu nos últimos tempos da antiga era uma geral aproximação de espíritos. Como já se adiantou, esta orientação teve seus primeiros sinais no pórtico médio (vd
096), com Boetos de Sidon o Estóico, Panécio e Possidônio, em virtude de suas aproximações aristotélicas e platônicas.Também na Academia ocorreu o abandono das posições céticas extremistas em troca de um ecleticismo que aceita pontos de vista do Pórtico médio.
Como se sabe, a Academia Platônica se havia tornado ceticista sob Arcesilao (315-240 a.C.) e Carnêades (c. 219-129 a.C.), fundadores da Academia Média (vd
305). Muda mais uma vez a diretriz gnosiológica, da velha instituição criada por Platão, e que agora passa a ser conhecida como Nova Academia, e outra vez, mais dogmática, ainda que conciliadora e ecleticista.
No que concerne a Cícero (106-43 a.C.) aderiu (vd
377) à Nova Academia na parte referente à gnosiologia semi-ceticista, sendo admirador e seguidor de Filon e Antíoco; em ética e religião se filiou ao pórtico médio de Panécio e Possidônio. Foi, portanto, mais eclético do que os mesmos neo-acadêmicos .
O ceticismo foi parcialmente abandonado pela Nova Academia com aceitação da evidência das percepções (
X<VD(,4" Jã< B"20:VJT<).
374. Filon de Larissa (c. 145- c.85 a.C.). Veio para Atenas onde liderou a Academia, retirando-a da anterior tendência cética. Expulso bandeou-se em 88 a.C. para; Roma, onde iniciou a Cícero nas doutrinas dialéticas dos neo-acadêmicos.
Orientou-se para um dogmatismo que estabelecia a evidência das percepções (
X<VD(,4" Jã< B"20:VJT<), de modo a esteiar na convicção dos dados sensíveis a certeza do restante conhecimento.
Filon foi superado em importância e influência por Antíoco de Ascalon, a que ouvira Cícero em 79 a.C. em Atenas.
Contra Antíoco sustentou Filon uma polemica. Mais dogmático, alegava Antíoco, para defender-se de sua aproximação à Academia (ou Panécio), que o sistema platônico e aristotélico se encontravam no estoicismo, e que as diferenças eram quase somente de terminologia. Esta arrumação contém algo de superficialidade e ecletismo.
II - Ecletismo romano. 2642y376.
377. Desenvolveu-se a começar do 1-o. século a. C. um movimento filosófico romano com base na nova academia de Filon de Larissa e Antíoco de Ascalon.
Como se sabe, moderaram estes o ceticismo da Academia Média e tomaram alguns elementos aos estóicos Panécio e Possidônio.
O sincretismo, que não é, nem bem ceticismo, nem bem estoicismo, mas ecletismo inconsciente e superficial, conseguiu agregar em Roma uma série de nomes ilustres, quer pela sua posição na vida política e social, quer pelas qualidades literárias, quer porque fossem os melhores num ambiente ainda em formação. A partir deles se faz compreender o espírito e a mentalidade intelectual dos romanos.
Dada a afinidade dos neo-acadêmicos romanos com os estóicos, faz-se necessário mantê-los em conexão com um outro grupo de filósofos romanos, que professou o estoicismo mais definidamente, como Sêneca e Marco Aurélio.
378. Marco Túlio Cícero (Marcus Tullius Cicero) (106-43 a.C.). Em termos gerais, foi orador e estadista romano. Sufocou a conspiração de Catilina. Optou por Pompeu, contra César. Foi pela manutenção da República, depois da morte deste. Finalmente, por ordem de Antônio, foi assassinado.
Nasceu perto de Arpinum em 106 a.C. Seu mestre Elius Stilon era adepto do estoicismo (Brutus, 56, 205, 206). Foi assim que, estudando linguagem e história, desde logo se imbuiu de princípios filosóficos definidos. Confiado pelo pai aos jurisconsulto Scevola, para a aprendizagem jurídica e política, entrou novamente para um círculo de estóicos. Um deles, Scevola l'Augure, genro de Lelius, conheceu mesmo e ouviu Panécio, o estóico do Pórtico Médio que trouxe tal filosofia para Roma (De orat., I, 11,45; 17, 75; Lel., 1,1). Mas, na mesma ocasião conheceu igualmente o epicureu Phedro (Ad. Famil., XIII, 1,2). O contato com os neo-acadêmicos ocorre também na própria Roma. Expulso de Atenas em 88 a.C., Filon de Larissa, havia se refugiado na capital da república romana. Ingressou na escola do novo mestre com o objetivo de praticar a retórica, mas logo se deixa prender também pelos temas filosóficos (Brutus 89, 306). Instalou além disto em sua casa o filósofo estóico Diodote (Brutus 89, 309).
Em 79. A.C., Cícero foi fazer um estágio de 6 meses em Atenas, onde ouviu Antíoco de Ascalon, outro neo-acadêmico, embora em discordância com Filon. Tomou contato também com os epicureus de Atenas. Fez longa estada em rodes, neste tempo, grande centro de cultura e que contava com o estóico Possidônio. Por 10 anos, dos 18 aos 28 anos, frequentou Cícero os grandes mestres da filosofia da época, e que ouvia em grego (De Offic. I, 1,1).
Assumindo funções públicas e de advogado em Roma, a filosofia foi passada a segundo plano, mas não ao esquecimento.
Atuou em Roma e em diferentes regiões do mundo romano. Havendo ganho no foro uma causa contra Sila, atraiu contra si a perseguição deste. Ficou longe do ditador ao ir passar dois anos em Atenas, onde estudou e absorveu a filosofia grega, da qual se tornou um tradutor para a língua latina.
Morto o ditador em 77 a.C. retornou a Roma. Foi questor em 76, na Sicília. Pretor em 66 e cônsul em 63. Denunciou a conspiração de Catilina contra a república. Fez executar seus cúmplices, o que lhe valeu o título de Pai da pátria.
Ao tempo, em que foi aliado de Pompeu, foi procônsul na Silícia, Síria, no Oriente. Reconciliado com César, mas assassinado este, e subindo Marco Antônio, combateu a este e lhe opôs Otávio. Foram sistematicamente sacrificados os oponentes de Antônio, que ele atacara nas Filípicas. Cícero ainda tentou fugir, quando foi morto (43 a.C.), as mãos e a cabeça decepadas.
379. As obras de Cícero se encontram sob a influência didática dos estóicos, sobretudo do pórtico médio, tendo por modelo livros estóicos já desaparecidos. Por exemplo, seu tratado De oficiis está calcado sobre um correspondente de Panécio.
Não se ocupam os textos de Cícero exclusivamente de filosofia. Na sua primeira fase intelectual escreveu duas obras sociais, que marcam mesmo a vida pública de Cícero e sua preocupação de transportar para o mundo romano as teorias políticas dos gregos:
- Da República (De republica, libri VI, cerca dos anos de 54 a 51 a.C.), de que se conserva apenas pequena parte;
- Sobre as leis (De legibus, libri III, c. do ano 52 a.C.), inacabada.
Por último escreveu:
- Paradoxos (Paradoxa, c. de 46 a.C.);
- Sobre a consolação (De consolatione, c. de 45 a.C.), opúsculo perdido;
- Hortensio (Hortensius, c. 45 a.C.) conservada uma página por Sto. Agostinho;
- Assuntos acadêmicos (Academica, c. 45 a.C.), eram primeiramente dois livros, depois ampliados para quatro; conservou-se a Academica priora e parte de Academica posteriora;
- Sobre os fins das boas e más ações (De finibus bonorum et malorum, V, 45 a.C.), expõe as filosofias morais dos epicureus, estóicos, peripatéticos, acadêmicos inclusive de Antíoco de Ascalon;
- Disputas tusculanas (Tusculanae disputationum, libri V, 45 a.C.) sobre a dor, a morte e a virtude;
- Sobre a natureza dos deuses (De natura deorum, libri III, concluído 45 a.C., editado em 44 a.C.)
- Catão o Velho, ou sobre a velhice (Cato maior, sive de senectute, 44 a.C.)
- Sobre a adivinhação (De divinatione, libri II, 44 a.C.)
- Sobre a amizade (De Amititia, 44 a.C.)
- Sobre os deveres (De officiis, 44 a.C.)
- Sobre o destino (De fato, 44 a.C.)
- Sobre a glória (De gloria, libri II, 44 a.C.)
- Sobre as virtudes (De virtutibus, 44 a.C.), perdido.
380. O preparo latino, de uma parte, e a assimilação grega, de outra, fizeram de Cícero um perfeito vaso comunicante de uma cultura para a outra. Em excelente exposição, pôs a sabedoria helênica ao alcance de toda a latinidade. Agostinho de Hipona (354-430) conhecerá os neo-acadêmicos através de Cícero.
Imprimiu o filósofo latino à filosofia grega o cunho prático dos romanos. Dada a necessidade de uma orientação ética geral para a latinidade que se formava, a obra de Cícero veio muito a propósito. Esta assimilação, que vinha demorando por causa da repugnância inicial contra os vencidos, como mostra o caso da expulsão dos filósofos e retóricos, em 161 a.C., foi agora superada, e o romano passou a ter uma nova concepção de vida, de nível cultural superior às tradições simplistas dos primeiros dias de Roma.
Neste sentido também contribuíram a riqueza da imaginação de Cícero, graça a sedução de estilo, habilidade dialética, equilíbrio de idéias, eloquência e poder de convicção.
381. Pensamento de Cícero. Sob o ponto de vista gnosiológico, faz parte do grupo da nova academia. Ao mesmo tempo esteve sob a influência do Pórtico médio, aluno que foi de mestres estóicos. Como se disse, esteve 6 meses em Atenas, onde contatou vários mestres. Mais tarde ainda encontrou em Rodes a Possidônio. Inclinou-se bastante para o probabilismo da Academia.
Ocupou-se da filosofia quase apenas adicionalmente, enquanto esta lhe prestava apoio nos seus debates e ideais de homem público. Foi um eclético, com a característica principal de filósofo neo-acadêmico; isto significava um platônico com elementos céticos e estóicos.
Defendeu a existência de uma lei natural, interpretada como a razão divina a governar o mundo, este de acordo com a concepção estóica, isto é, de um monismo constituído de um logos a reger a matéria, como um todo monístico.
Cícero não apresentou nada de original, tendo não obstante excelentes exposições. O fato de não se haver prendido a nenhum outro filósofo, não significou que tomasse posição própria, mas porque se manteve criticamente indeciso. Nisto também se valeu do espírito eminentemente prático dos romanos, optando pelo mais provável e de acordo com o senso comum.
Inclinaram-se as suas simpatias, como se disse, para o ceticismo acadêmico e para o estoicismo. Alias, a nova academia de Filon de Larissa e de Antíoco de Ascalon, ambos contemporâneos de Cícero, propugnavam esta simbiose. Tratava-se, pois, de um ceticismo moderado e que partia da evidência das percepções sensíveis (
X<VD(,4" Jã< B"20:VJT<).
Com referência aos estóicos, os nomes consultados por Cícero, como também se advertiu, foram Panécio e Possidônio, um pouco mais antigos. Como se observa, não saiu Marco Túlio Cícero de seu ambiente contemporâneo. Embora houvesse tido contato com a literatura do período áureo de Aristóteles e Platão, não fora a filosofia deles que lhe interessou.
Portanto, Cícero, enquanto homem que pretendia verter a cultura de uma língua para outra, não foi inteiramente feliz na seleção das obras e dos autores. Ou melhor, não teve o senso filosófico suficiente para a empresa que se propunha. E mesmo quando, pretendendo guiar-se pelo senso comum, para a escolha de posições, não contava com a potência filosófica necessária para a percepção de sutilezas decisivas no julgamento.
382. Textos de Cícero: Sobre a lei natural:
"Existe uma verdadeira lei, conforme à natureza, gravada em todos os corações, imutável, eterna; sua voz ensina e preserva o bem; suas proibições afastam o mal. Ora com seus mandatos, ora com suas proibições, jamais se dirige inutilmente aos bons, nem fica impotente ante os maus.
Essa lei não pode ser contestada, nem anulada, nem alterada em parte. Nem o povo, nem o senado podem dispensar-nos de seu cumprimento; não há que procurar para ela outro comentador nem intérprete, não é uma a lei em Roma, e outra em Atenas, uma agora, e outra depois, senão uma lei única, eterna e imutável, que obriga entre todas os povos e em todas os tempos; um só será sempre o seu imperador e mestre, Deus, seu inventor, sancionador e publicador, não podendo o homem desconhecê-lo sem renegar-se a si mesmo, sem despojar-se de seu caráter humano e sem deixar de atrair sobre si as penas máximas, ainda que tenha conseguido evitar os demais suplícios" (Cícero, República, Livro III, 17).
Não obstante, Cícero era aristocrata, ainda que na forma republicana. É que defendia a igualdade da natureza no sentido mais geral, da capacidade; efetivamente, porém, estabelecia-se a diferença por causa da depravação, ignorância e desacerto das opiniões. Isto deixou claro neste outro texto:
"De tudo aquilo sobre que versam as discussões dos filósofos, nada tem mais valor que a plena inteligência de que nascemos para a justiça e de que o direito não se baseia na opinião, senão na natureza. Isto é evidente se se considera a sociedade e a união dos homens entre si. Pois nada é tão igual, tão semelhante a outra coisa, como cada um de nós aos demais. Por isso se a depravação dos costumes, a vanidade das opiniões e a estupidez dos ânimos não retorcesse as almas dos débeis e as fizesse gerar em qualquer direção, nada seria tão semelhante a si mesmo como cada um dos homens a todos os demais" (Cícero, As Leis, Livro I, 10, 28-29).
383. Marcos Terêncio Varrão (Marcus Terentius Varro, 116-27 a.C.). Filósofo romano de expressão latina, nascido em Rieti, Itália. Estudou em Roma.
Perdidas suas obras, conhece-se o seu pensamento através de Cícero. É possível encontrar também algo em Sto. Agostinho (De civitate Dei, VI, 5).
Talvez nada houvesse de original em Varrão, exercendo sua pessoa apenas a função de transportar, como Cícero, a filosofia grega para o mundo latino.
384. Quinto Séxtio, coetâneo de Augusto, é fundador da escola dos Séxtios, que também não parece oferecer originalidades, restrita à função de formar o espírito romano, na filosofia grega.
As assim chamadas Sentenças de Sexto não pertencem aos séxtios. Afigura-se como uma ramo do estoicismo com propensão cética e pitagórica. Contam-se os seguintes nomes: Sexto (pai e filho), Socion (mestre de Sêneca), Corn. Celso, L. Crasitio, Papírio Fabiano.
386. Para a formação da latinidade não se pode esquecer ainda que na corte de Roma se estabelecera o médico e filósofo grego Cláudio Galeno (c. 200 a.C.). Predominantemente peripatético, era contrário ao estoicismo, sem entretanto, ter escapado às suas influências.
Assim também Plotino, o neoplatônico, bem como Porfírio, passaram anos de magistério na cidade dos Césares. Desenvolvia-se pois em Roma uma regular vida intelectual e filosófica, apesar de todas as deficiências que se lhe possam apontar.