(Versão em Português do original em Esperanto)
© Copyright 1997 Evaldo Pauli
CAP. 6
NEOPITAGORISMO E PLATONISMO PITAGORIZANTE.
2642y390.
- LEGADO FILOSÓFICO HELÊNICO-ROMANO -
391. Introdução. A generalização da filosofia provocou também uma racionalização da religião, que passaram inclusive a um procedimento ideológico proselitista.
Assim foi que, paralelamente ao naturalismo racionalista de várias filosofias da época helênico-romana, formularam-se também movimentos de fundo filosófico e religioso.
Estes movimento se polarizaram principalmente em Alexandria, mas tiveram suas fontes de inspiração em todo o Império Romano, agora dilatado ao próximo Oriente.
O fenômeno filosófico e religioso é tratado sob o título de Neopitagorismo e platonismo pitagorizante, porque se deram sobretudo na linha do pensamento pitagórico e platônico.
Todas estas filosofias neopitagóricas e pitagorizantes são consideradas precursoras do neoplatonismo alexandrino, sobretudo plotiniano (vd
2642y462), o que já representa um outro momento do processo evolutivo das idéias religiosas. Dali a sequência de dois capítulos, os quais se diferenciam ligeiramente no conteúdo e se distanciam cronologicamente.Neste complexo movimento se afirmaram forças místicas de variadas procedências filosóficas neo-platônicas e neopitagóricas, combinadas com a influência externa das religiões do tempo. Também se nota a ação judaica e logo também cristã.
O que une todos estes pensadores é, de um lado, seu fundo místico proveniente da religião vigente, e de outro lado, sua afinidade com Platão, cujas teses espiritualistas favoreciam aquele fundo religioso, permitindo racionalizá-lo.
A afirmação expressa de Platão sobre a superioridade da alma, - com vida autônoma, nobre, elevada, aspiração à perfeição, purificação da matéria, - o fizeram preferido pelas religiões vigentes, em detrimento de Aristóteles.
Mais reservado e cuidadoso, não chegara Aristóteles a declarações tão expressas e otimistas, embora sua filosofia moderada a elas também conduzisse e talvez até com mais segurança.
Cessam paulatinamente os primitivismos das velhas religiões, por influência da filosofia, que as conduz a um processo de racionalização e a uma filosofia de apoio. Possivelmente nenhuma das novas religiões seja inteiramente nova, - como elas mesmas pensam ao se considerarem reveladas, - mas apenas uma transformação cultural do tempo vivido. Embora cada uma atribua a si uma origem sobrenatural, importa considerar primeiramente se efetivamente elas não passam de um produto normal das transformações racionalizantes da época.
Notam-se 3 correntes vagamente distintas nas filosofias de fundo religioso, e que servem para ordenamento didático:
- O neopitagorismo propriamente dito (vd
- O platonismo pitagorizante (
2642y415);- o platonismo pitagorizante judaico-cristão (vd
2642y432).
ART. 1o. NEOPITAGORISMO PROPRIAMENTE DITO.
2642y392.
393. Introdução. A presença da filosofia no ambiente em que atuavam as religiões passou a influenciar os meios pensantes. Em consequência se formaram várias correntes pensantes racionalizadoras, dentre as quais uma primeira veio a ser denominada neopitagorismo, por causa de sua presumível ligação com os antigos pitagóricos.
Com referência ao neopitagorismo em espécie, admite-se a disposição didática em dois planos:
- Principais representantes neopitagóricos (vd
- Doutrinas neopitagóricas em geral (vd
2642y408)
§ 1-o. Principais representantes do neopitagorismo.
2642y394.
395. Introdução. Não há notícias claras para estabelecer quais são os primeiros neopitagóricos. Para citar nomes, não se sabe bem por onde começar. É possível mesmo que tenham atrás de si uma tradição que os conecte com a velha liga secreta dos pitagóricos da Itália, a qual tinha extensões para todo o mundo helênico-romano.
São numerosos os neopitagóricos, e não há como claramente defini-los, porque tendem para um certo ecletismo.
É possível destacar primeiramente os mais definidamente neopitagóricos, e depois os mais ecléticos, como Máximo de Tiro, Ático, Gaio, Albino.
Também é preciso distinguir entre os que neopitagóricos surgidos mais cedo (antes do ano 200) e os que vieram depois, como Numênio e Hipácia.
Mas todos são representativos de uma generalizada mentalidade neopitagórica, em que a religião se racionaliza à base de elementos vindos dos antigo pitagorismo e do platonismo.
Deve-se notar ainda uma analogia e relacionamento do neopitagorismo propriamente dito com a religião judaica e cristã. Ainda que se diferenciando em detalhes, operam sobre um fundo comum de racionalização sob influência pitagórica. Este fundo comum era, entre outros detalhes, a altíssima transcendência de Deus, do qual procediam os intermediários, até a baixa matéria.
396. Nigídio Figulo – Publius Nigidius Figulus(+ 45 a.C.). Foi pretor romano em 58. É conhecido como primeiro neopitagórico claramente denominável. É dito também simplesmente precursor do neopitagorismo.
Foi amigo de Cícero (106-43 a. C), pelo dizer deste, fato que ajuda imaginar o contexto em que viveu.
Escreveu a obra Sobre os deuses (De Diis), de que sobram fragmentos eruditos. Título impresso: P. Nigidii Figuli operum reliquiae (Ed. A. Svoboda, Praga, 1889).
O contexto do que revelam os escritos restantes é o de um pensador místico, fundo em crenças da astrologia e magia.
397. Sócion, o Neopitagórico. Ligado ao estoicismo e ao neopitagorismo ao mesmo tempo, foi Sócion, mestre de Sêneca e da escola dos Séxtios de Roma.
Distingue-se de Sócion, o Peripatético.
398. Moderado de Gades (1-o. séc.). Filósofo de expressão grega, oriundo de Gades (Cádiz). Neopitagórico. Contemporâneo de Nero e dos Flávios.
Dos seus escritos restam menções, feitas, em Vida de Pitágoras por Porfírio o Fenício (vd
538).Ocupou-se, à semelhança de Nicômaco de Gerasa (vd
400), com o significado simbólico dos números pitagóricos. Seriam os números como princípios, de cuja composição resultam as coisas, algo semelhante como as letras compõem a palavra. Assim sendo, a partir dos números se obtêm o sentido das coisas.Assim é que o uno se diz da divindade, da inteligência, da alma, e a díade da matéria.
O Primeiro Uno, o mais elevado, está acima do ser e da essência, conforme a doutrina platônica da extrema transcendência divina. Abaixo dele vêm o Segundo Uno, correspondendo ao mundo inteligível e às formas, e o Terceiro Uno, o da alma. Por último vem a natureza sensível, a díade.
399. Apolônio de Tiana (1-o séc.). Viveu no tempo de Nero (Imperador de 54-68). Mago, teósofo e filósofo, da Ásia Menor. Foi pregador errante, com fama de taumaturgo e profeta, ocupado em fundar uma nova religião, cujo lastro era todavia o neopitagorismo.
No 3-o. século, a pedido da Imperatriz Júlia Domna, escreveu Filóstrato uma Vida de Apolônio de Tiana, que o apresentou como um santo, mas cujos detalhes se apresentam lendários.
Restam fragmentos atribuídos a Apolônio por Jâmblico (vd) e pelo autor cristão Eusébio (Praeparatio evang., IV, 13, e Demonst. Evang. III,2), de uma obra
A , D Â N L F 4 ä < .
400. Nicômaco de Gerasa (c. 150 d.C.)
Filósofo neopitagórico, da região Árabe, do qual se conservam escritos poéticos, sobre música e matemática.
Destacou-se: Introdução à Aritmética (
!D42:0J6Z ,ÆF"(T(Z). Já na antiguidade fora traduzida ao latim por Apuleu e por Boécio. Edição moderna Nicomachi Geraseni Pythagorei Introductionis arithmeticae libri II, ed. R. Hochem Laipzig, 1866.Os números constituem a realidade das idéias, e estas estão na mente de Deus. O uno é a divindade. A díade é a matéria.
401. Nicostrato (2-o séc.). Platônico relativamente ortodoxo, quando no seu tempo o platonismo tendia para o ecletismo.
Comentou minuciosamente as Categorias de Aristóteles, texto de que se valeram Plotino e Porfírio. Sobretudo Simplício se apoiou nestes comentários, e são dele os principais fragmentos que ainda hoje restam do texto original, o qual se perdeu.
402. Celso (séc. 2-o). Filósofo erudito e que se colocou em defesa da religião vigente (que mais tarde viria a ser dita pagã).
Escreveu pelo ano 178 Discurso verdadeiro (
! 8 0 J Z H 8 ` ( @ H ), em que expõe sobre a religião pagã e reage ao messianismo judaico e cristão.O prevalecimento posterior do cristianismo fez desaparecer o livro, mas é possível reconstrui-lo em suas grandes linhas, com as citações que foram feitas pelos que, como Orígenes, o tentaram refutar. A resposta de Origenes se fez tardiamente entre 245 e 250, sob o título Contra Celso, em 8 partes, seguindo passo a passo ao texto (Ed. Padres Gregos, 11,641-1632).
Dividia-se o Discurso verdadeiro de Celso em 4 partes: na 1-a mostra que os cristãos mudaram a natureza da idéia messiânica; na 2-a. aponta para a falsidade do messianismo judaico; na 3-a. critica a fé e a moral cristãs; na 4-a. disserta em favor da religião pagã vigente e defendida por Celso.
É significativo que, embora se oponham os contendores, eles se situam em um campo comum, o caráter neopitagórico da religião de ambos os lados.
403. Numênio de Apamea (do fim do 2-o. século). Procedente da Síria, da localidade de Apamea (hoje Qal`at el Moudiq), sobre o rio Orontes.
Pouco dele se sabe. É dado, sobretudo pelos informantes cristãos, como um neopitagórico: Clemente de Alexandria (Stromáteis), Orígenes (Contra Celso), Eusébio, Calcídio).
Escreveu diálogos. Restam sobretudo fragmentos dos seus tratados: Sobre o bem; Sobre a incorruptibilidade da alma; Sobre as doutrinas secretas de Platão; Sobre os números de outros. Os fragmentos se encontram sobretudo em Orígenes e Eusébio.
Atuou consideravelmente na difusão do pensamento neopitagórico, ao mesmo tempo que platônico em geral, com particularidades típicas da religião de seu tempo, em busca de uma racionalização.
Numênio já se encontra sob a influência de Filon (vd
441). Tem-se buscado ver em Numênio um precursor do neoplatonismo de Alexandria (Plotino), por causa do seu desenvolvimento da doutrina sobre a emanação e do procedimento trinitário.
Apresentou Numênio uma doutrina trinitária da divindade, de certo modo três deuses em um: o supremo supra-sensível, o demiurgo que põe forma na matéria, o universo que se formou.
404. Máximo de Tiro (2-o séc.). Ao tempo do neopitagorismo se citam vários nomes de tipo eclético, - como Máximo de Tiro, Ático, Gaio, Albino de Esmirna, os quais não se sabe bem se são ou pitagóricos platonizantes ou platônicos pitagorizantes (vd).
Foi Máximo de Tiro mestre de Retórica e autor de 41 discursos, com o caráter da diatribe, e que restam fragmentariamente (textos de Máximo, em ed. H. Hobein, Philosophoumena, 1910).
Os discursos de Máximo difundiram e popularizaram o dualismo pitagórico e platônico. Advertiu para a transcendência de Deus e sua extrema oposição com a matéria. Pelo meio, na forma de derivações sucessivas ocorrem as outras realidades, ou seja, toda uma demonologia, frequente em sua época.
Havendo operado elementos aristotélicos, estóicos e cínicos, ao mesmo tempo que platônicos, caracterizou-se como um eclético.
405. Gaio (com atividade no fim do 1-o. e falecido c. 150). Lecionou em Atenas. Havendo formado um grupo, em que o principal foi Albino, fez poder-se falar em escola de Gaio. Ao grupo se tem reduzido também o latino Lúcio Apuleu (c.124- c.180), que igualmente estudou em Atenas.
As lições de Gaio foram publicadas por Albino, em 9 livros, sob o título Explanações platônicas (
A , D Â J ä < A 8 V J T < 4 • D , F 6 ` < J T < ). A obra influenciou ao grupo da escola de Gaio e depois também sobre Proclo e Prisciano (vd 552).Além disto, o pensamento de Gaio se retransmitiu em exposições interpretativas feitas por Albino, em Prólogo aos diálogos platônicos e em um Epítome, chamado Didascálico. Neste esforço explicativo surgem elementos ecléticos os quais, ao mesmo tempo, procedem do platonismo, aristotelismo e estoicismo, conservado porém o fundo místico e religioso dos neopitagóricos.
406. Albino de Esmirna (c.100 - c. 180), filósofo grego, estudou em Atenas, como discípulo de Gaio, com o qual passou a agir em conjunto. Lecionou em Esmirna, porquanto ali, em 151-152, o ouviu Cláudio Galeno (129-201).
É assunto praticamente pacífico, que um certo Alkinoos (também do 2-o século) seja o mesmo Albino; a distinção dos nomes teria ocorrido apenas por uma corruptela; paleográfica (V. J. Freudenthal, Der platoniker Albinus und der falsche Alkinoos, Berlin, 1870).
Escreveu Albino dois textos principais:
Introdução aos diálogos de Platão (
+ Æ F " ( T ( Z , Æ H J ¬ < J @ Ø A 8 V J T < @ H $ \ $ 8 @ < ), também citado simplesmente como Prólogo de Albino (! 8 $ \ < @ L A D ` 8 @ ( @ H );Epítome (
+ B 4 J @ : Z J ä < A 8 V J T < @ H * @ ( : V J T < ), também chamado Didascálico () 4 * " F 6 " 8 4 6 Î H J ä < A 8 V J T < @ H * @ ( : V J T < ), em que expõe suas doutrinas.Além disso, publicou, - como já se adiantou (vd
405) -, as lições de Gaio.
A tendência de Albino foi sistematizadora. Distribuiu a filosofia em teórica e prática. Sob a teórica situou a teologia, a física, a matemática. Sob a prática situou a ética, a economia, a política.
A teologia de Albino desenvolveu opiniões que terão desdobramentos no neopolatonismo posterior e nas idéias trinitárias da divindade. Há formas puras, que são as idéias, e que servem de modelos arquétipos, e matéria, a qual se organiza pelos modelos arquétipos indicados. As Idéias são pensamentos identificados com a inteligência de Deus.
A divindade está dividida em três deuses, dos quais um é o principal, que se move sem ser movido, estando os outros dois subordinados a ele. Os três deuses são ditos hipóstases. Há uma separação entre Inteligência e Alma.
A física de Albino revela a presença constante de Aristóteles e do estoicismo na explicação da natureza. Contestou ao estoicismo que somente o corpóreo age, advertindo que, pelo contrário, os corpos são passivos, e que as causas eficientes são incorpóreas.
Destacou, ao modo pitagórico, o caráter superior e catártico da matemática, como acontecerá também com o platônico pitagorizante Teo de Esmirna (vd
425).
407. Uma série de pseudos, embora atribuídos ao remotos Pitágoras e Árquitas, são do período adentrado helênico-romano, em vista do conteúdo que oferecem (Ch. Fragmenta, de Mullach; De pythagoreorum reliquiis, de Beckmann, Berlim 1844/50; a compilação de Schulte, tesis Marburgo 1906).
Entre os neopitagóricos se alinham de certo modo também os essênios (vd
433), uma seita judia, já conhecida por informes antigos, mas cujos escritos reencontrado em grutas perto do Mar Morto causaram sensação entre os estudiosos da Bíblia.
Observa-se a influência dos escritos neopitagóricos no cristão Eusébio de Cesareia (sec. IV) em sua Preparatio evangelica.
408. Hipácia (depois de 350 – 415) também é dada como neopitagórica, em tempo tardio, com referência aos autores antes citados. Foi seu discípulo Sinésio de Cirene (n. 370, depois cristão e feito bispo de Ptolemaida, em 309.
Entre as primeiras mulheres dedicadas à filosofia, cita-se Hiparquia, que se unira ao filósofo cínico Crates (vd), também do período helênico-romano. Agora, Hipácia aparece como a mais brilhante.
Seja lembrado também o nome de Catarina de Alexandria, dada igualmente como filósofa brilhante; este nome todavia parece lendário, pois não é citado sequer pelo historiador cristão contemporâneo, Eusébio de Alexandria, e dela somente se vai narrar de maneira altissonante vários séculos depois no Martiriológio Romano.
A infeliz Hipácia foi morta em 415, apedrejada pelos cristãos de Alexandria Este fato mostra que o confronto entre cristãos e neopitagóricos era efetivo, com tensões em ambas as partes, até porque ideologicamente havia bases neopitagóricas comuns, e que diferenciam nos detalhes. Quando os grupos religiosos se encontram entre si próximos, os conflitos se dão mais facilmente.
Uma versão diz que Hipácia houvera acusado ao bispo Cirilo de Alexandria junto ao Prefeito. De outra parte o neoplatônico Damáscio diz que a acusação contra Hipácia era infundada, - dito em seu livro Vida de Isidoro, o filósofo. O seu discípulo, agora bispo de Ptolemaida, também se referiu emocionado à mestra trucidada.
Três teriam sido as obras escritas por Hipácia, segundo a informação transmitida por Suídas, versando matemática e astronomia. Estas obras desapareceram, como era de se supor, pudesse logo acontecer, por ação dos que a apedrejaram. Nelas teria, ao modo neopitagórico neoplatônico da escola de Alexandria, valorizado o simbolismo dos números e as virtudes teúrgicas. (Vd K. Praechter, em Pauly-Wissova).
§ 2-o. Doutrina neopitagórica
. 2642y410.
411. Sem insistir no lado especulativo da doutrina dos números como haviam conduzido o tema Filolau e outros clássicos do pitagorismo, - mas retornando ao fundo órfico do mesmo Pitágoras, emerge um movimento místico e religioso bem caracterizado nos séculos 1-o. a.C., e prosseguindo nos imediatos, que leva o nome de neopitagorismo.
Não se trata, pois, de uma simples renovação pitagórica, mas de um movimento de inspiração nova e intensamente religiosa, dentro das novas categorias de interesse. Não aconteceu uma revogação pura e simples da especulação. Mas a especulação passou a servir à racionalização das religiões preexistentes.
A racionalização religiosa mais próxima do velho pitagorismo, deu o neopitagorismo simplesmente.
As outras racionalizações figuram como variantes de fundo neopitagórico, e são o platonismo pitagorizante (vd
2642y415) e o platonismo pitagorizante judaico-cristão (vd 2642y432).
É difícil avaliar as feições exatas do neopitagorismo. Ele teve infiltrações em todas as escolas, sobretudo platônicas. Envolve-se com todas as religiões da época, influenciando sobretudo as novas formas, inclusive dos essênios e através destes do cristianismo.
Querem uns que o movimento tenha sido homogêneo, outros não.
Por sua doutrina não é efetivamente mais do que um ramo especial de ecletismo de caráter dogmático, em que prevaleceu, - e certamente em sua forma positiva, - o platonismo combinado com alguns elementos tomados ao estoicismo. Mas o platonismo é sobretudo aquele do dualismo, que já vinha do anterior pitagorismo religioso.
412. Importa atender a tendências internas, que subdividem aos neopitagóricos entre si.
"A. Schmekel, fundando-se na distinção que faz Sexto Empírico (X, 281) entre duas tendências neopitagóricas (
F J V F , 4 H ), tem descoberto com rigorosa argumentação que, em realidade, no I século a.C., guando surge de novo o pitagorismo, se manifestam, já desde o principio e simultaneamente duas linhas divergentes:uma platônico-peripatética, dualista, ligada a Panécio e Antíoco,
e outra platônico-estóica, monística, cujo pai espiritual era Possidônio.
Ainda que não esteja tudo esclarecido com referência à separação estrita entre ambas as direções e a adscrição dos diferentes filósofos a uma ou outra delas, e ainda que Filon o judeu não sela meramente o filósofo de matiz estóico que Schmekel põe especialmente de relevo, senão que também podem demonstrar os demais traços pitagóricos, é um grande mérito o haver indicado essas diferenças, que indubitavelmente existem, e o haver aberto novas perspectivas para a exploração mais exata do neoplatonismo que, segundo mostra Schmekel influiu também em Varão e outros...
H. V. Armim adota nesta questão uma posição intermediária, reconhece a distinção, mas não lhe dá importância" (Windelband, Hist. da Fil. Ant. nr. 50 pag. 379-380).
414. Dualismo. O ponto de partida do neopitagorismo, como já se adiantou, é o dualismo, - de espirito e matéria, - em que um é exaltado e o outro é repudiado, conforme atitude que já vem de Orfeu, Pitágoras e Platão, e que agora mais ainda que antes é proposto. O motivo desta posição deriva dos sentimentos de elevação e miséria que a alma, sente a um só tempo, como algo de elevado, mas afundando na matéria enervante, da qual deve procurar se desprender.
Acreditavam os neopitagóricos numa espécie de intuição direta do inteligível (
< @ 0 J ` < ) como objeto distinto do conhecimento discursivo do entendimento (* 4 V < @ 4 " ), da opinião (* ` > " ) e sensação (" Ç F 2 0 F 4 H ). A doutrina pura é própria apenas dos indivíduos mais santos, que são tocados por ela como por uma graça. Isto se afirmava de Pitágoras e Numênio, aos quais a divindade se teria revelado.415. Revelação. "O neopitagorismo, na opinião de W. Windelband, é o primeiro sistema que formula o principio de autoridade em forma de revelação divina, iniciando assim, contra o sensualismo e o racionalismo, a tendência mística do pensamento antigo" (Hist. da Fil. Ant., 50, p. 382).
A crença em revelações existe ao longo de toda a história, porque os visionários sempre existiram e sempre conseguiram fazer-se crer pela multidão incapaz de interpretar este fenômeno psíquico.
A novidade agora acontecida é a sistematização do que os visionários oferecem como revelação. Passa a ser criada uma teologia sobrenatural, em que a revelação divina é invocada como princípio de autoridade doutrinária. Os neopitagóricos são os pioneiros deste tipo de saber, ou pelo menos os que melhor conduzem este modelo de ciência. Depois também nas demais religiões crescerá teologia da revelação divina. Ou pelo menos evoluirá a partir do que já havia sido desenvolvido pelos seus teólogos.
416. Purificação pelo sofrimento e pelos ritos. A purificação da alma, segundo o neopitagorismo, se processa pela repressão da sensualidade. Estimula-se a purificação com o esclarecimento que procede pela revelação divina.
Neste esforço cooperam ainda os espíritos intermediários, que os neopitagóricos acreditavam haver entre o homem e Deus.
O principal rito do neopitagorismo sempre foi o batismo, e que até hoje se conserva uma prática em muitas religiões. O termo grego para os ritos é mistérios; para o latim é sacramentos. O efeito não depende da intenção, mas simplesmente da ação ritual.
417. Deus na concepção neopitagórica, é o lugar das idéias (e números ). Deus é uma unidade anterior, na qual se situam as idéias. Não são, pois, reais as idéias (como havia proposto Platão), mas pensamentos apenas, ainda que arquétipos do que se vá criar.
Firmou-se no neopitagorismo o exemplarismo arquétipo do platonismo e neoplatonismo. No mesmo sentido foi retomado o principio aristotélico de que Deus é pensamento de pensamento (
< ` 0 F 4 H < @ Z F , T H ).
Concebido como ser sem matéria, por não comportar sua perfeição qualquer mancha e mal, Deus não pode exercer qualquer contato com o mundo material. Em consequência necessita de intermediários. Assim já acontecia com o Demiurgo de Platão, colocado entre as idéias reais e o mundo material. O mesmo acontecia na mitologia grega, que teve Hermes como mensageiro de Zeus. No zoroastrismo persa, também os anjos são mensageiros de Deus, o qual fica distante no alto.
Em ultima instancia, porém, a demonologia não parte senão de uma superficialidade especulativa, incapaz de atingir o conceito de intensivamente infinito.
Importavam os intermediários, para esclarecer o episodismo típico das religiões tradicionais.
No neopitagorismo e platonismo pitagorizante Deus é transcendente, porque não pode tocar a matéria má. Eis outro antropomorfismo. Na verdade, Deus não se macularia tocando na matéria; quando Deus a criou, ficou ela e toda a criação dentro do mesmo Deus, porquanto nada pode estar fora dele. Além disto, se Deus tocasse a matéria, não seria por um toque de caráter mecânico. Já explicava Aristóteles que Deus era um motor imóvel.
418. Deram os neopitagóricos e os teólogos da religião de Mitra um feitio cosmogônico às diferentes camadas de ser estabelecidas entre a matéria e Deus.
A alma em ascensão possui, portanto, uma topografia astronômica para atravessar. As imagens místicas de Platão, encontradas em Fedro, Fédon, e República, em que se põe a alma e viajar através do mundo, pelas abóbadas celestes, são interpretadas à letra e enriquecidas de novas circunstâncias. Convertido o mundo em teatro do destino humano, completava-se o fundo religioso dos próprios estudos físicos.
419. Acreditavam os adoradores de Mitra que a alma dos mortos, depois do julgamento favorável, se elevava ao céu astronômico. Este era dividido em sete esferas, que correspondiam aos sete planetas. Cada um dos céus se penetrava através de uma porta, cujo anjo abria senão aos iniciados, instruídos com fórmulas especiais e um cerimonial.
Ante cada passagem despe-se a alma, como que de vestes sucessivas, das funções tipicamente humanas ou materiais.
À porta da esfera da lua despojava-se da faculdade nutritiva. À porta da esfera de Mercúrio, da concupiscência. À de Vênus, dos desejos eróticos. À de Marte, do ímpeto guerreiro. À da de Júpiter, da ambição. À da de Saturno, da preguiça.
Chegada a alma, ao oitavo céu, sem impureza, passa ali a viver a felicidade beatífica sem fim.
Preparando a alma para a viagem, os iniciados vestiam vertes simbólicas, que iam trocando.
O purgatório foi uma idéia sempre presente no mundo neopitagórico e que persistiu em várias religiões, sob as mais diversas formas.
420. De modo semelhante, para o neopitagórico Numênio de Apamea, os planetas são o "lugar subterrâneo em que se castigam as almas. O trópico do Câncer é a 'boca do céu" por onde descem as almas na hora do nascimento dos corpos vivos,. O capricórnio é o lugar por onde sobem quando retornam. O céu platônico encontra-se na esfera das estrelas fixas (Cf. Proclo, In Respublicam, ed, Kroll, II, 96, 11).
Na doutrina do despojamento sucessivo das funções orgânicas da alma após a morte se dá evidentemente uma especulação superficial. Tais funções, uma vez dependentes da matéria, cessarão por isso mesmo com a própria morte. Fica pois sem sentido toda a doutrina dos teólogos de Mitra e as formulações análogas dos neopitagóricos, bem das religiões que imaginam coisas similares.
ART. 2o. PLATONISMO PITAGORIZANTE.
2642y422.
423. São citados como platônicos pitagorizantes alguns dos representantes do platonismo médio: Trásilo, Plutarco de Queroneia (45 - 125 d.C.)., Téon de Esmirna, Apuleu de Madaura. Dá-se esta condição também ao simplesmente neopitagórico Moderado de Gades (vd
398).
424. Trásilo foi astrólogo da corte de Tibério, Imperador de 14 a 37. Criou a agrupação tetralógica (em grupos de 4) dos diálogos de Platão.
425.Téon de Esmirna, atuou ao tempo do Imperador Adriano (117-138).
Escreveu uma Introdução matemática a Platão.
426. Apuleu (n. cerca do ano 125). Autor de De Deo Socratis; De Platone et ejus dogmate.
429. Plutarco de Queroneia(c. 46 – c. 120), produtor de uma literatura inteligente e de variada erudição, merece uma digressão, por suas tendências, quer neopitagóricas, quer neoplatônicas, contrárias ao epicurismo, como no texto Contra Colotes (vd
259) , e ao estoicismo, como em muitos outros textos.Nasceu na Grécia, em Queroneia (hoje Kaprena), Beócia, de onde veio para Atenas, ali havendo feito estudado. Esteve em Alexandria, no Egito. Passou na Itália, de 75 a 95. Em Roma, parece que em escola, lecionou filosofia durante o reinado de Domiciano (Imperador de 81 a 96). Foi preceptor de Adriano (que será imperador de 117-138) e gozou de excelentes relações com as pessoas ligadas aos grandes ofícios do Império. Viajou também pela Ásia e Egito. De regresso à Queroneia, foi eleito arconte, e ali escreveu a maior parte de suas obras.
Distingue-se do neoplatônico Plutarco o Grande (vd
554) que se encontra na origem da futura escola neoplatônica de Atenas, ou de Proclo.Produziu muito, havendo lhe sido atribuídos 227 títulos, dos quais se conservou parte considerável. Fizeram-se conhecidos pelo nome de duas:
Vida de homens ilustres da Grécia e de Roma (denominada também Vidas paralelas, ao todo 64 biografias de homens notáveis gregos e romanos, de que restaram 50, tratadas aos pares, a fim de estabelecer a comparação);
Obras morais (título posterior, que reúne 65 escritos os mais diversos de filosofia, literatura, moral, história).
Foram editadas por Duebner, Paris 1841, novamente por G. N. Bernardakis, Leipzig 1888-1896
430. Foi Plutarco um humanista sereno e equilibrado, atuando com civismo e fé na cultura do seu tempo. Monoteísta, mas com divindades intermédias, o que permitiu aceitar os muitos deuses da antiga religião. Até o século 19 foi um dos autores antigos mais lidos, e foi muito citado, por exemplo, por Montesquieu e Rousseau. O estilo é o de um clássico puro.
A escassa originalidade de Plutarco é evidente, cabendo-lhe a posição de neoplatônico e neopitagórico eclético, não sem influências dos estóicos e epicureus, que combatia.
Se se puder garantir a autenticidade das obras que se lhe atribuem e designadas De communibus notionibus adversus stoicos e De repugnantiis stoicis, pouco serenas, é de se acreditar que fosse inicialmente um neo-acadêmico cético. Depois teria passado a uma posição platônico eclética, em que associou inclusive o estoicismo, como se pode observar em seus ensaios De ira cohibenda, De sera numinis vindicta.
O conteúdo moral e a preocupação religiosa dos escritos de Plutarco, valeram-lhe uma notável influência no mundo pagão. Defendeu o dualismo do Bem e do Mal, com uma serie considerável de intermediários, que lhe possibilitou dar lugar às divindades ocidentais e orientais.
Foi do círculo platônico da Academia Média, com tendência para o ecletismo; dominantemente platônico, assumiu também idéias e explicações científicas de Aristóteles. Assistemático, não chegou por isso a se definir como filósofo. Opõe-se aos epicuristas e estóicos, todavia, - como já se advertiu, - não sem se aproximar deles em alguns pontos.
ART. 3o. O PLATONISMO PITAGORIZANTE
JUDAICO-CRISTÃO.
2642y432.
433. Introdução. Tem despertado bastante interesse a fusão do platonismo e judaísmo ocorrida nos intelectuais judeus de Alexandria, como Aristóbulo, Filon, e outros. Trata-se de um fenômeno similar ao de outras religiões orientais ao entrarem em contato com a filosofia grega.
Neste sincretismo ocorre também uma penetração neopitagórica, marcada sobretudo pela admissão da revelação e prática de rituais. Destacou-se a seita dos judeus essênios (vd
435), e logo também o grupo cristão, os quais logo conseguiram irradiar-se o mundo exterior da judeidade.Didaticamente importa atender em separado:
- primeiros sinais do platonismo pitagorizante judaico (vd
- Destaque de Filon (vd
2642y441);- O platonismo-pitogorizante do essenismo e cristianismo (vd
2642y454).
I –Primeiros sinais do platonismo pitagorizante judaico.
2642y435.
436. Alexandria, pela sua proximidade e oportunidade de negócios, foi a porta principal de contato judeu com o grande mundo civilizado.
Embora o monoteísmo judaico seja uma das coisas mais admiráveis do mundo antigo, a cultura deste povo não chegara a um nível satisfatório e capaz de ser comparado ao da especulação filosófica gregos.
Apesar da exaltação bíblica em torno da suntuosidade do templo, - imitação aliás dos templos dos países vizinhos, - talvez nem este, a única coisa de grande que Jerusalém possuía, fosse um valor artístico de maior expressão. Os adjetivos do autor sagrado são relativos e devem ser entendidos dentro de sua rude conceituação judaica.
A psalmódica, bela na elevação de espirito, é de valor literário acanhado e de pouca delicadeza de sentimentos e de expressões. A filosofia simplesmente não existiu na Jerusalém de Salomão e dos profetas, revelando-se apenas nos ditos morais á maneira dos provérbios populares.
A influência da filosofia grega sobre o pensamento judaico principia em meados do 2-o. século a.C., quando se reflete nos trabalhos de exegese bíblica, notando-se a filtração de conceitos platônicos, aristotélicos e estóicos.
Os livros dêutero-canônicos do Antigo Testamento e escritos em grego são de Alexandria. Refletem o conceito do Lógos (= Sabedoria) peculiar à filosofia neopitagórica e neoplatônica do tempo.
437. Aristóbulo, que uns põem a nascer pelo ano 200 a.C. e outros 100 a.C. é o mais antigo judeu filosofo e peripatético. É conhecido apenas através dos fragmentos deixados por Clemente de Alexandria e Eusébio.
Ensinou a transcendência da divindade. Deus exerce a força à maneira da imanência estóica.
Admitiu a ocorrência de seres intermediários entre Deus e o mundo, o que o relaciona com os neopitagóricos, aceitando como eles a revelação divina à personalidade mais purificadas e santas.
Defendeu ainda a tese original que faz a filosofia dos gentios depender da revelação judaica e que reaparece em Filon e em patrísticos como S. Justino e Clemente de Alexandria. Por esta razão passara Platão a ser levado em alta consideração.
438. Aristeas (2-o século a. C.). Com Aristóbulo foi mais um judeu de idéias influenciadas pelos gregos.
Teria sido autor de uma carta de cerca do ano 100 a.C., mas que pode ser espúria, embora deste tempo, retratando as circunstâncias em que se dera a tradução da Bíblia hebraica ao grego, e que se fez conhecer como Septuaginta.
Arísteas teria sido enviado pelo rei Ptolomeu Filadelfo ao Sumo Sacerdote Eleazar de Jerusalém, no sentido de promover a tradução da Bíblia ao Grego.
A narrativa assevera que, havendo sido cada sábio confinado em casa diferente para fazer a versão, eles foram de tal maneira inspirados, que as versões coincidiram entre si.
439. O pequeno Livro da Sabedoria, de autor desconhecido, redigido em grego, e considerado aparenta haver sido elaborado por um piedoso judeu alexandrino, influenciado pela filosofia grega. Não é admitido pelo cânon judeu e nem pelo protestante.
Denota conceitos estóicos como emanação (
• B ` D D @ 4 " ), sopro inteligente que atravessa por todas as coisas (B < , Ø : " < @ , D Î < * 4 6 @ < * 4 Ź B V < J T < ).
Assim ainda se pode falar a respeito do IV livro dos Macabeus, em que a superação das paixões é tratada em termos estóicos; este livro "não é outra, coisa que uma diatribe filosófica da teologia judaica" (Windelband, H. da Fil. Antiga nr. 50 pag. 384).
II – Destaque de Filon de Alexandria.
2642y441.
442. Vida. Aponta-se para Filon como tendo sido o maior representante da filosofia neoplatônica pitagorizante judaica. Viveu entre os anos 20 a.C. até 40 depois, tendo exercido sua influência exatamente quando pregavam Jesus e seus Apóstolos.
Dele escreveu encomiasticamente Eusébio de Cesareia (c. 265 – 340) primeiro historiador da Igreja cristã:
"Nos tempos deste Imperador (Tibério) floresceu Filon, varão tido em máxima estima, não somente por muitos dos nossos, senão também dos gentios. Era hebreu de nascimento, não cedendo a nenhum em Alexandria pelo esplendor e dignidade de sua linhagem. A realidade o pôs em evidência quando trabalhou nas disciplinas divinas e pátrias.
Foi notável em filosofia e letras humanas; refere-se que, tendo cultivado principalmente as filosofias platônica e pitagórica, superou a todos os do seu tempo" (Eusebio, História eclesiástica, II, 5).
Alcançou elevada consideração por parte da colônia judaica de Alexandria. Dadas as restrições que esta sofria, chefiou uma delegação ao Imperador Calígula, enviada a Roma pelo ano 40. Esta movimentação significa que se tratava de um filósofo judeu viajado, bem informado e ainda de prestígio social.
443. Obras. Conservam-se de Filon vários escritos: figura entre as melhores edições a de Cohn - Wendland, Philonis opera, 7 vols. 1896 ss.. O tratado, que lhe é atribuído, Sobre a incorruptibilidade do mundo (A , D Â • N 2 " D F \ " H 6 @ F : @ Ø ).
Contava Filon com uma fonte nova e original para a filosofia, a Bíblia, que haveria muito especialmente de lhe garantir uma noção peculiar de Deus.
444. Nova exegese. Para interpretá-la, adotou o método alegórico, que seria também o de Orígenes. Já os estóicos haviam dado a religião popular uma interpretação alegórica. Acreditava por isso e por outras razões Filon que os antigos filósofos gregos tivessem tido conhecimento da Bíblia, razão porque punha em Moisés a origem da filosofia. Zenão, diz ele, teria inspirado o seu estoicismo na legislação judia (Quo omnis probus liber 8 II 953 M).
Mas era o contrário que ocorria; o mesmo Filon canalizou para o judaísmo o estoicismo de Zenão, a sua concepção do Logos a atuar sobre a matéria e sua moral rija. A austeridade bíblica não tem o mesmo sentido; dá-a agora Filon.
445. Teologia negativa. Deus para Filon, é o inefável, o inexprimível, o absolutamente transcendente; é possível concebê-lo e expressá-lo apenas de maneira negativa; dele se negam todas as qualidades empíricas (– B @ 4 @ H = sem qualidade); exprime-se, pois, em termos totalmente abstratos como quando se considera em abstrato o ser (J Î Ð < ); é essa via da excelência elevada ao máximo (J Î ( , < < 4 6 f J < J @ < ).
Cultiva, portanto, Filon uma Teologia negativa, procurando saber aquilo que Deus não é. Mantém o ponto de vista neopitagórico de que a divindade não pode tomar contato direto com a matéria. Esta também é eterna. Entretanto, pretende Filon manter a tese bíblica da criação do mundo. A criação consistiria na organização da matéria, a saber na conversão do caos em um mundo organizado, ou seja no cosmos.
446. A atuação de Deus, não podendo ser direta, se efetua através do Logos (7 ` ( @ H ), que é o termo com que Filon, designa as forças (* L < V : , 4 H ) intermediárias entre Deus e a matéria. Estas forças intermediárias se afiguram, ora como propriedades de Deus, isto é, como idéias e pensamentos, ora como mensageiros e demônios (anjos) que executam as ordens divinas.
Impessoal, o Logos coincide, ao que parece, com a sabedoria e a inteligência de Deus, concebida como algo um tanto separada dele, quase como um segundo Deus. Filon compara o Logos, à palavra; tem esta, num só tempo, um lado sensível e uma significação de ordem inteligível; assim o Logos divino tem contato simultâneo com Deus e com a matéria (Vita Mos., II, 127). Enquanto é sentido da idéia arquética é (8 ` ( @ H ¦ < * 4 V 2 , J @ H ) e enquanto ser divino no mundo é idéia manifestada (8 ` ( @ H B D @ N @ D 4 6 ` H ).
447. As forças (* L < V : , 4 H ), de que trata Filon, têm uma evidente afinidade com as idéias arquétipas de Platão, que se refletem sobre a matéria do mundo e lhe dão forma; a mesma afinidade tem com a força imanente que os estóicos punham no mundo com a função de organizá-lo, que chamavam de sopro (B < , Ø : " ), providencia (B D ` < @ 4 " ), fato (, Æ D : " D : Z < 0 ), lei universal (< ` : @ H ), razão universal (8 ` ( @ H ), razão seminal (8 ` ( @ 4 F B , D : " J 4 6 @ \ ).
A diferença ocorrida porque os estóicos não admitiam senão este principio, imanente, sendo, pois monistas, quando Filon punha acima dele a divindade transcendente. Parece também que Filon dava lugar a que se interpretassem os anjos da religião judaica como manifestações do Logos.
Coere a doutrina de Filon com um dos dizeres iniciais da Bíblia:
"O Espírito de Deus pairava sobre as águas"(Gen., 1, 2).
Este Espírito de Deus não é a pessoa do próprio Deus, mas o sopro divino como um poder atuante.
Não custa entender, que a partir de tais enunciados e das doutrina dos platônicos pitagorizantes pudessem formar-se doutrinas multiplicadoras das pessoas divinas, como finalmente ocorre na doutrina cristã da Trindade.
O Espírito Santo, entendido como pessoa, aparece a primeira vez, com este sentido evidente, nas expressões de Jesus: "Ensinai a todas as nações; batizai-as em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo" (Mateus, 28, 20).
448. A matéria é o principio do mal e a causa de pecado. Está a alma, - de origem divina e de natureza imaterial, - presa ao corpo material por sua própria culpa.
Não consegue desfazer-se por si só da matéria, senão com ajuda divina.
O conhecimento é a virtude própria da alma, e por meio dele se encaminha para a união mística com Deus.
O homem perfeito poderá chegar a um estado, que ultrapassa a própria consciência, quando recebe revelação e graça especial da divindade; é o que se chama êxtase (§ 6 F J " F 4 H ).
449. As revelações da divindade, opinou Filon, podem ter ocorrido não somente aos judeus, mas também aos filósofos gregos.
Não importa discutir primeiramente o sentido da afirmação de Filon. Ela implica em aceitar a revelação como um estagio final a que se encaminha ordinariamente a alma em ascensão.
Não seria, pois, a revelação um dom gratuito especial conferido por Deus excepcionalmente e não um acontecimento natural. Diferentemente, dirão depois algumas teologias, como por exemplo a católica, que a revelação é um acontecimento inteiramente sobrenatural. A teologia cristã dirá ainda que a revelação pública se teria dado apenas no circulo judaico, e que as demais, possíveis em qualquer época e nação, se poderão dar em qualquer tempo; mas sempre milagrosamente, sem mérito resultante da perfeição que a criatura porventura alcance.
450. Com referência à parte afetiva da alma, segundo Filon, toda ela é intrinsecamente má, porque presa à matéria. O apaziguamento e a educação dos afetos não resolve a questão, portanto. Importa desfazer-se dos afetos, destruindo-os.
Este é o lado eminentemente estóico do neoplatonismo e que Filon acentuou. Se Platão admitia, como Sócrates, a hierarquia dos valores, agora se estabelece a oposição do espirito e da matéria como bem e mal simplesmente.
"Filon se mostra quase totalmente estóico na ética... é certamente um estóico da mais estrita observância... Mais ainda, muitas doutrinas estóicas se entendem cabalmente só graças à exposição e comentário que delas faz a fundo Filon" (Windelband, Hist. da fil. ant. nr. 50, pag. 385).
Adotou Filon o princípio estóico fundamental da impassibilidade (• B V 2 , 4 " ) e que nos traria a felicidade.
451. Aparece também em Filon a distinção estóica entre obrigação (6 " 2 6 @ < ) e ação reta (6 " J ` D 2 T : " ); esta seria a ação do sábio, conhecedor dos fins em que se enquadra, podendo então agir a partir da equidade; aquela seria a obrigação como poderia ser cumprida mesmo pelo ignorante, que atende à obrigação legal.
III – O platonismo-pitogorizante do essenismo e cristianismo.
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455. O fenômeno essênio. Com aspecto neopitagórico, ao mesmo tempo que neoplatônico, os essênios surgiram no 1-o. século a.C., com difusão pela zona rural da palestina. Ao tempo de Jesus foi João Batista um representante típico do grupo.
Praticavam a purificação pelo batismo, o que os mostra como tipicamente pitagóricos. Curavam, ungindo aos doentes. Esta prática ritual dos pitagóricos chegou aos cristãos através dos essênios, como também o batismo e a ceia do pão bento.
A crença escatológica do fim do mundo relaciona aos essênios com o zoroastrismo persa, que de longa data influenciava todo Oriente Médio. Por isso tinham razões para não casar, praticando o celibato. Viviam em grupo de 12 e praticavam a bênção do pão como ceia sagrada da páscoa.
Foi evidente a influência dos essênios sobre a formação do cristianismo. Mas este perdurou e passou a ter a influência também dos neoplatônicos.
457. A patrística cristã. Como já se advertiu na Introdução ao período helênico-romano (vd
22), a filosofia cristã começou singelamente, havendo surgido na segunda fase deste período, fazendo-se didaticamente conhecida nestes primeiros séculos como patrologia, ou patrística.Ordinariamente a patrística é dada como iniciando com os padres da Igreja desde os tempos dos Apóstolos de Jesus, até já depois do fim do período helênico-romano, aos tempos, no Ocidente, de Gregório Magno (+ 604), Isidoro de Sevilha (c. 560-636), no Oriente, de João Damasceno (c. 675-749).
No decorrer da patrística atuaram algumas grandes figuras, como Clemente Alexandrino (c. 150-216), Orígenes (c.185-c.255), Tertuliano (c. 160-c.240), Lactâncio (c.250-320), Agostinho (354-430), Pseudo-Dionísio (entre secs. 5-o e 6-o.), Cassiodoro (468-575), Severino Boécio (c.470-520).
458. Quer apenas como filosofia, quer também como dogmática, a patrística pode ser isolada didaticamente para tratamento à parte.
É o que efetivamente se faz no conjunto Mega filosofia, onde seu exame aparece como parte inicial do título Mil anos da filosofia cristã (vd
4251y000). Ali se encontra reunido num todo a patrologia e a escolástica inicial da Idade Média, até o fim do século 12, quando tem; começo a Escolástica de ouro (vd ).459. A questão do cristianismo como fenômeno meramente cultural. Como se sabe foram os visionários (e não os filósofos) os criadores da religiões populares, as quais depois se desenvolveram com a capacidade de interação racionalizadora da filosofia ambiente.
A patrologia costuma ser demarcada como sendo o estudo não somente histórico-filosófico, mas também histórico-dogmático. Neste trabalho importa destacar que não pode passar muito depressa do histórico-filosófico ao histórico-dogmático.
Há que se examinar se as idéias apresentadas como dogmáticas não passam de algo preexistente na filosofia do tempo. Apenas depois de descartar esta colocação cultural é que se poderá falar em fato doutrinário inteiramente novo, e tentar atribui-lo a uma efetiva revelação divina.
E ainda este fato novo, antes de ser atribuído a uma revelação efetiva procedente de Deus, importa determinar se o propagador é um visionário apenas, ou se efetivamente teve uma revelação divina.
Ora, tudo isto não é fácil de determinar, até mesmo por falta de documentos que não chegaram até nós.
É muito difícil obstruir a possibilidade que todo o cristianismo não passe de um fenômeno cultural como as demais religiões do período helênico-romano.
O pensamento deve ser crítico, examinando todas as alternativas. Para garantir a validade sobrenatural do cristianismo, importa descartar, com provas históricas suficientes, que não teve origem em idéias preexistentes; e igualmente importa descartar, de novo com provas históricas suficientes, que a novidade não passa de produto de simples visionários, mesmo quando estes se apresentam bondosos e admiráveis.