(Versão em Português do original em Esperanto)
© Copyright 1997 Evaldo Pauli
CAP. 7
NEOPLATONISMO ALEXANDRINO.
2642y462.- LEGADO FILOSÓFICO HELÊNICO-ROMANO -
463. Introdução geral. O neoplatonismo é um movimento tardio do segundo século d. C., mas que se cria dentro da mentalidade religiosa que desde antes passara a ter voga.
Tem como antecedentes imediatos os já citados platonismo místico-religioso do neopitagorismo (Nigídio Fígulo, Sócion, Moderado de Gades, Apolônio de Tiana, Nicômaco de Gerasa, Numênio de Apamea) (vd 392) e também do neoplatonismo da escola judaico-platônica de Alexandria (Filon) (vd 432).
E tem ainda no cristianismo um movimento paralelo, que então se manifesta na filosofia platônico-religiosa dos patrísticos (vd 457), que supera em parte ao neopitagorismo e se se desenvolve como neoplatonismo.
464. Embora seja difícil enquadrar a evolução do neoplatonismo dentro de um esquema cronológico de fases definidas, é possível identificar três fases principais, que correspondem a três escolas denominadas pelos seus principais núcleos:
- Alexandria, com os nomes de Amônio, Plotino, Amélio e Porfírio, com preocupação metafísica e ética;
- Siríaca, orientada por Jâmblico, com interesses na teologia politeísta;
- Ateniense, sistemática, de que Proclo, Simplício, Damáscio são os principais representantes.
Em torno dessas três escolas e respectivos nomes gravitam grupos e nomes menores, que por isso mesmo poderão adequadamente ser tratadas em função às três escolas mencionadas e seus representante principais.
Citam-se também como neoplatônicas:
- a escola de Pérgamo a que pertenceram os mestres de Juliano Apostata;
- a escola de Alexandria de Sinésio de Cirene, João Filipono, Asclépio, Olimpiodoro, Davi o Armênio;
- os neoplatônicos do ocidente latino, Macróbio, Calcídio, Mário Victurino, Agostinho Boécio.
465. Em Diógenes Laércio encontra-se a respeito dos neoplatônicos a lacônica notícia de que Potamon fundou "nos últimos tempos" uma escola em Alexandria.
A omissão se deve em parte ao fato de se ter restringido sobretudo aos filósofos que passaram pela Grécia.
Como não se sabe exatamente quando viveu Diógenes Laércio, pode-se supor que aqui se encontra a data limite do tempo em que viveu.
Entretanto não acontece uma lacuna nas informações sobre a escola neoplatônica de Alexandria, porque Profírio, o Fenício, biografou a Plotino, principal representante da referida escola e menciona muitos outros nomes, tudo isto completado ainda pelos livros que se conservaram e servem por isso mesmo como fonte direta.
466. O neoplatonismo gerou uma linguagem filosófica adequada para o tratamento racional das doutrinas religiosas. Desenvolveu-se rapidamente uma teologia em todas as religiões do período final do império romano pagão e que foi influenciar sobretudo o cristianismo oficial.
Nunca antes houvera tal zelo pelas particularidades doutrinárias ao ponto de se convocarem agora concílios, para neles se decidir por votação numérica assuntos teológicos. Passou-se assim ao estabelecimento de dogmas com efeito excomunicatório, eliminado do grupo os discordantes, dados como hereges.
A igreja cristã, que herdou desta fase neoplatônica-religiosa a tendência para as definições teológicas, fará desse dogmatismo uma de suas características mais odiosas, que perdurará até adentrados tempos da época moderna, quando cessou de queimar aos declarados hereges.
ART. 1-o. ESCOLA ALEXANDRINA - AMÔNIO, PLOTINO E OUTROS.
2642y468.
469. Introdução. Da escola neoplatônica de Alexandria se sabe, pouco de alguns e muito de outros, de sorte a desequilibrar-se a exposição didática. Entretanto, para manter a sucessão cronológica destes representantes de um vigoroso movimento de idéias, importa manter a ordem didática espontânea da cronologia:
- Amônio Sacas, fundador da escola neoplatônica alexandrina (vd
- Plotino, mestre principal da escola neoplatônica (vd
2642y476);- Porfírio e outros (vd
2642y534).
§ 1. Amônio Sacas, fundador da escola.
2642y471.
472. A doutrina neoplatônica teria sua origem em Amônio Sacas (175-242 d.C.), conforme refere a antiga tradição. Mas, quase nada se conhece dele, nem de suas doutrinas, para fazermos um juízo novo e crítico.
Era Amônio Sacas professor apreciado em Alexandria, como se depreende do entusiasmo de Plotino seu discípulo, que, após decepcionar-se com outros mestres, disse a propósito do novo: "Eis aqui o que eu procurava" (Porf., Vida de Plotino III); permaneceu com ele 11 anos.
473. Não se pode simplesmente inferir as doutrinas de Amônio pelas dos discípulos, porquanto estes diferem muito entre si. Mas devia ter qualquer coisa de oriental e pitagórico, porque Plotino pretendeu a seguir estudar os persas e hindus, e porque as doutrinas são conservadas em segredo.
"Erênio, Orígenes e Plotino se comprometeram a não divulgar as doutrinas secretas que Amônio lhes havia descoberto em suas conversações. Plotino permaneceu fiel a sua promessa; ele admitia, na verdade, alguns amigos em suas conversações, porém guardava religiosamente o segredo prometido às doutrinas de Amônio.
Erênio foi o primeiro a violar o pacto, e Orígenes o segundo.
Este último não escreveu senão o tratado Acerca dos Demônios (
A , D Â J ä < * " 4 : ` < T < ) e, no reinado de Galiano, um livro intitulado Que só o rei é criador (Poeta?) (_ J 4 : ` < @ H B @ 4 0 J Z H Ò $ " F 4 8 , b H ).Plotino durante muito tempo não escreveu absolutamente nada; contentava-se em tomar das doutrinas de Amônio o fundo de suas lições" (Porf., Vida de Plotino III).
Sabe-se que Amônio afirmava que Platão e Aristóteles coincidiam no essencial.
§ 2. Plotino, mestre principal do neoplatonismo.
2642y476.
477. Introdução. É possível ser vasto sobre Plotino, porque, segundo já adiantamos, dele se podem desenvolver muitos títulos, quer de sua vida e obras, quer de suas diferentes teses filosóficas.
I – Vida e obras de Plotino. 2642y479.
480. Nasceu Plotino (
A 8 T J \ < @ H ) em Licópolis (Egito) em 204/5, onde se dedicou à filosofia, seguindo depois para a Pérsia. Na volta ficou em Antioquia, da Síria. Por último, em 244, estabeleceu-se em Roma, com escola própria, vindo a falecer em 270 em Campânia.Porfírio escreveu-lhe a biografia, mas não é dele a referência que tenha nascido em Licópolis.
A mencionada biografia (
A @ D N b D 4 @ L B , D Â A 8 T J \ < @ L $ \ @ L ) era escrita cerca do ano 298, portanto, 28 anos após a morte de Plotino ; com este estivera Porfírio cinco anos, a começar de 263, quando o mestre já tinha 58 anos.Os dados que forneceu resultam, pois, de confidências do próprio mestre ao discípulo e que ele Plotino, raras vezes costumava dar.
"Não obstante o segredo com que ele rodeava seus primeiros anos, escutei de sua própria boca, em nossas conversações, os dados seguintes. À idade de 8 anos não havia ainda abandonado sua ama quando frequentava a escola de gramática, mamava com tanta avidez que lhe destroçava os peitos, até o dia em que, tendo ouvido dizer que era menino insuportável, teve vergonha e deixou de a importunar.
À idade de 28 anos se entregou ao estudo da filosofia, sob a direção dos mestres mais afamados então de Alexandria. Não satisfeito dos seus ensinamentos, abandonou-os; entristecido, contou-o a um dos seus amigos, que compreendendo suas disposições de alma, o conduziu a Amônio, que ele não conhecia ainda. Tendo-o apenas ouvido, comunicou a seu amigo, - Eis aqui o homem que eu procurava!
E a partir de então se manteve unido a Amônio. Fez com ele tais progressos na filosofia que sentiu a necessidade de ir mais longe e resolveu estudar as doutrinas dos persas e a filosofia dos hindus. Com este fito se incorporou à expedição de Górdio, que partia então numa expedição contra os persas.
Plotino tinha então 39 anos, e havia permanecido 11 anos inteiros ao lado de Amônio. Tendo, porém, sido morto Górdio, na Mesopotâmia, escapou com dificuldades para Antioquia.
No ano seguinte se trasladava para Roma, na idade de 40 anos, sob o reinado de Felipe" (Porf., Vida de Plotino, III).
481. Em Roma. Na cidade dos Césares formou Plotino um numero notável de admiradores, ouvintes e discípulos. De tal modo entusiasmou-se o Imperador Galiano, que acedeu a idéia de criar um Instituto especial de ensino chamado Platonópolis, na forma de uma cidade universitária:
"O Imperador Galiano e sua mulher Salamina testemunharam a Plotino sua estima e afeto. Confiado em sua amizade, pensava em restaurar uma cidade da campina, habitada antigamente por filósofos, conforme se dizia, e destruída depois. Ele queria que uma vez reedificada a cidade, lhe concedesse o território circundante, para impor ali as leis de Platão, e dar-lhe o nome de Platonópolis.
Ele se obrigava a instalar-se ali com seus companheiros, e facilmente teria realizado o seu projeto, se alguns dos familiares do Imperador não tivessem vindo a estorvá-lo, por inveja, ódio ou outro motivo" (Porf., Vida de Plotino, 12).
482. Celibatário e por vezes visionário, dedicou-se a uma vida morigerada e virtuosa, ensinando e vivendo sua filosofia. Recebia em sua casa, sob tutela, multidão de crianças que ensinava e educava. Vegetariano, comia só o estritamente necessário. Realizando sua própria filosofia, procurava desfazer-se da matéria e propender para o alto; chegou mesmo ao dom da união estática com a divindade, por quatro vezes, relata Porfírio.
Sua aversão pela matéria ia à extravagância delicada de não permitir retratar-se e nem falar de sua vida terrena.
"Plotino o filósofo, nosso contemporâneo, parecia envergonhar-se de ter um corpo, e, por disposição de espírito, não quis falar nunca de seu nascimento, nem de seus pais, nem de sua pátria. Jamais consentiu em colocar-se ante um pintor ou um escultor; pressionado por Amélio, para que consentisse em fazer-se um retrato, lhe disse:
- Isto não é bastante sem dúvida para este vão fantasma, com o qual a natureza rodeou nossa alma; querias tu que eu consentisse em deixar desta sombra outra sombra mais duradoura que a primeira, como se valesse que a gente a olhasse?
Recusou e não consentiu em posar. Desesperado de vencer suas negativas, Amélio pediu a um de seus amigos, Cartério, o melhor pintor de sua época, que o acompanhasse às lições de Plotino, as quais, quem quer que fosse podia assistir. Ele se habilitou assim a representar Plotino mais e mais nitidamente, graças à extrema, atenção com que o observava, chegando assim, graças ao seu gênio e às correções de Amélio, ignorando-o inteiramente Plotino, a reproduzir um retrato muito parecido" (Porf., Vida de Plotino.).
483. Atacado de angina aguda, "sua voz, tão clara e sonora, se apagou, sobrevindo a rouquidão e a afonia; suas mãos e pés se cobriram de úlceras. Seus amigos chegaram a evitar seu encontro; vendo isto, abandonou Roma e se retirou a Campânia, à casa de campo de Zeto, um dos seus antigos amigos, que já o precedera na tumba...
Quando esteve a ponto de morrer, Eustáquio, que residia então em Pouzzoles, chegou um pouco tarde ao lado de nosso mestre comum; apenas se deu conta Plotino de sua presença, lhe disse:
- Esperava-te; agora me esforço por juntar a Deus, o que há de divino em mim.
E ditas estas palavras morreu" (Porf., Vida de Plotino, 2).
Conserva-se no museu do Vaticano um busto que presumivelmente é o de Plotino. A cabeça, se apresenta com bastos cabelos, curtos de ambos os lados e barba bastante aparada.
484. Enéadas, a grande obra. Elaborou Plotino seus escritos em grego, ainda que em Roma, e depois dos seus 50 anos. Na proporção que iam sendo lavrados, eram passados a Porfírio, que os organizou em 6 partes, com 9 tratados cada um, donde o nome Enéadas, formado a partir de
¦ < < X " (= nove). Sabe-se que 21 tratados foram escritos dos anos 255 a 263, quando o conhece Porfiro; 23 de 163 a 268 durante a permanência de Porfírio, e 9 de 268 a 270 (Porf., Vida de Plotino, 4,5,6.).O agrupamento das partes obedece a uma ordem sistemática ascendente, de acordo com a mística plotiniana: a primeira parte, se refere ao homem e a moral, a segunda e terceira ao mundo sensível e à providência, a quarta à alma, a quinta à inteligência, a sexta, ao Uno e ao bem.
Esta disposição entretanto é de ordem geral, porque na verdade, a exposição de Plotino é dispersiva, tratando de todas as questões, sem atender a uma ordem sistemática e escolar, como fariam depois os escolarcas neoplatônicos, particularmente Proclus.
Mesmo ainda assim, a ordem vagamente encontrada, é disposição dada por Porfírio, e não pelo mestre. Vem isto dar lugar a que se possa criar outra disposição, como também a que se leia Plotino sem atender a ela.
485. Com referência à estrutura interna de cada tratado e sua índole, percebe-se vagamente a seguinte disposição metodológica:
- a aporia, ou seja a questão a resolver (Que é o homem? Como é possível a visão à distancia? Como se interpreta tal texto de Platão ou Aristóteles? etc.);
- a demonstração, que em Plotino tem o aparente feitio de diálogo com seus ouvintes e amigos; a persuasão que e um esforço para induzir à convicção;
- a exaltação final da inteligência ou do mundo inteligível a que se elevaram as mentes.
O estilo, as vezes incorreto e obscuro, outra vezes é brilhante e envolvido de imagens fulgurantes.
Parábolas ou comparações engenhosas sugerem a compreensão clarividente de elevadas idéias.
Admiráveis são por exemplo as parábolas do dono da casa (En. VI,7,85) e do grande rei (En. V, 5,3).
Mas, como já ocorria em Platão, o recurso às imagens literárias nem sempre favorece à clareza.
486. Relação dos tratados das Enéadas conforme Porfírio:
I - Enéada: 1) Que é o animal? 2) A virtude? 3) A dialética? 4) Da felicidade: 5) Se a felicidade se acresce com o tempo. 6) Do belo. 7) Do primeiro bem e dos outros bens. 8) Que é o mal e donde ele vem. 9) Do suicídio razoável.
II - Enéada: 1) Do mundo ou do céu. 2) Do movimento do céu ou movimento circular. 3) Da influência dos astros. 4) Das duas matérias. 5) Que quer dizer em potência e em ato. 6) Da qualidade e da forma. 7) Da mística total. 8) Porque os objetos vistos de longe parecem pequenos. 9) Contra os que dizem que o Demiurgo do mundo é maldoso e que o mundo é mau.
III - Enéada: 1) Do destino. 2) Da providência I. 3) Da providência II. 4) Do demônio que nos recebeu em partilha. 5) do amor. 6) Da impossibilidade das coisas incorporais. 7) Da eternidade e do tempo. 8) Da natureza, da contemplação e do Uno. 9) Considerações diversas.
IV - Enéada: 1) Da essência da alma I. 2) Da essência da alma II. 3) Dificuldades relativas à alma. 4) Dificuldades relativas à alma II. 5) Dificuldades relativas à alma III. 6) Da sensação e da memória. 7) Da imortalidade da alma. 8) Da descida da alma para dentro do corpo. 9) Reúnem-se todas as almas numa alma única?
V - Enéada: 1) Sobre as três hipóteses que são princípios. 2) Da geração e da ordem das coisas que vêm após a primeira. 3) Das hipóteses que conhecem. 4) Sobre o Uno. 5) Do Bem. 6) Do ser que não pensa, do primeiro e segundo que pensam. 7) Há idéias de coisas particulares. 8) Da beleza inteligível. 9) Sobre a inteligência, as idéias e o ser.
VI - Enéada: 1) Dos gêneros do ser, I. 2) Dos gêneros do ser, II. 3) Dos gêneros do ser, III. 4) Do Uno e idêntico, que está em toda a parte, I. 5) Ibidem II. 6) Dos números. 7) Como nasceu a multiplicidade das idéias: do Bem. 8) Da liberdade e da vontade do Uno. 9) Do bem e do Uno.
Com referência aos temas, a posição criteriológica de Plotino se encontra na Enéada V, capítulos 1 e 2.
A melhor exposição da doutrina plotiniana do Bem e do Uno se acha na VI Enéada, tratado 9. Nele se baseia a maior parte dos comentadores.
487. Traduções e edições. A obra de Plotino foi traduzida para o latim já na antiguidade romana por Marius Victorinus, o que lhe garantiu ampla influência. Seria nesta tradução que Agostinho o leria em Milão na fase final de sua conversão. A tradução clássica ao latim foi realizada no curso da Renascença por Marcílio Ficinus, 1492.
As edições modernas volumosas apresentam a obra completa em cerca de 3 tomos, e em maior número quando acompanhada de tradução, seja para o latim, seja para outra língua moderna.
II – Gnosiologia racionalista de Plotino
. 2642y489.
490. A gnosiologia plotiniana coincide fundamentalmente com a de Platão, porque mantém a distinção específica entre os sentidos e a inteligência, e sobretudo porque entende a atividade da inteligência como capaz de atingir objetos independentemente do ser inteligido nos sentidos.
Já no que se refere à questão dos inteligíveis num outro mundo, Platão e Plotino divergem. Enquanto Platão separa o Demiurgo e as idéias reais arquétipas, Plotino situa as idéias dentro do Uno. O assunto vai interferir na posterior determinação da natureza metafísica de Deus (vd).
491. A distinção de sentidos e inteligência era estabelecida por Plotino alegando o diferente modo de alcançar o objeto:
"O que é conhecido pelos sentidos não é senão uma imagem ou espécie da coisa e o sentido não atinge a coisa em si mesma; ela fica fora dele" (En. V, 5, 1, 15).
Além disto, os sentidos não possuem a verdade, recebem seu conhecimento de fora, razão porque podem errar e representam apenas uma opinião:
"Nas sensações não há verdade, mas somente opinião; é por ser receptiva, que ela é opinião" (
* ` > " ) (En. V, 5, 1, 15).
No horizonte de Plotino se encontra o princípio platônico dos graus de perfeição, que supõem sempre o grau máximo. Conhecidos os graus da natureza, eles nos levam ao grau máximo, o Uno, ou Deus.
492. Racionalismo radical. Repugna a Plotino que o inteligível venha de fora, e por isso se estabelece no racionalismo radical, como o de Platão, sem a necessidade de uma intuição do ser no mundo empírico ao modo do racionalismo moderado de Aristóteles.
Como platônico, esteve Plotino longe de admitir com Aristóteles que a inteligência intui o ser no fundo dos dados sensíveis. Estes, além de fornecerem uma imagem que não atinge a coisa em si mesma, não seriam seguros; embora pareçam evidentes, são susceptíveis de dúvida; para justificar-se necessitam mesmo, como critério, a inteligência e a reflexão. O racionalismo platônico inspirou a Plotino e a Agostinho, e assim ao agostinianismo vigente na Idade Média, até encontrar a reação de Tomás de Aquino.
"Os objetos da sensação que parecem revestir-se de um testemunho sobre si mesmos com a maior evidência, contudo nos deixam duvidar se eles têm uma existência aparente que estaria não na realidade mas nas afecções dos sentidos; e ele tem necessidade, como critério, da inteligência e da reflexão" (En. V, 5, 1, 10 - 15).
Nada significam estas ponderações de Plotino, porque elas não situam a questão de fundamento. Pôr dúvida sobre os sentidos, apesar de sua aparente evidência, é função própria da dúvida científica; põe-se a questão, a fim de se justificar a evidência natural.
Quanto à necessidade que se tem de usar a inteligência e a reflexão para justificar os sentidos, deve-se cuidar de ver ali duas operações distintas.
Os sentidos como função deverão depender de si mesmos e não da inteligência.
A parte da inteligência consiste apenas na curiosidade científica posterior. Nem, de outra parte, para se conhecer o valor da inteligência, há necessidade de examinar primeiro os sentidos, mas o ato cognitivo inteletivo em si mesmo.
Apurar que o ser, objeto da inteligência, é um ser que coincide com o ser sensível, é questão de ordem secundária, em relação às questões anteriores.
493. A inteligência é infalível, porque não recebe de fora o ser pensado, e tem mesmo o aspecto de ser o parte da luz divina.
"Poderia a inteligência, a real e verdadeira inteligência, enganar-se e possuir juízos falsos? Não, absolutamente. Como seria ela ainda inteligência, se lhe faltasse inteligência? É preciso, pois, que ela saiba sempre e não esqueça jamais; seu conhecimento não comporta nem conjectura, nem ambiguidade, nem informação por assim dizer. Ela não usa demonstração" (En. V, 5, 1, 6).
O argumento de Plotino é o de que a inteligência não seria inteligência, se lhe faltasse inteligência, se lhe fosse preciso procurar conhecer o que ignora.
Esta afirmação certamente é muito relativa e arbitrária. Confunde inteligência, com a inteligência. É necessário que uma inteligência perfeita tenha todo o conhecimento, de sorte a nada precisar receber de fora. Mas, uma inteligência limitada não requer pelo seu conceito mesmo, que possuía todo o conhecimento, nem deixa de ser inteligência por causa desta limitação.
A consequência da doutrina plotiniana é a de que a inteligência humana fica na dependência direta da inteligência perfeita; então, esta nossa inteligência seria inteligência como que por um reflexo. Portanto, dados todos os motivos expostos, incapacidade dos sentidos que só conhecem as coisas exteriormente e impossibilidade de receber os inteligíveis por impressão vinda de fora, nossa inteligência não é senão um traço e reflexo da verdadeira inteligência e que se encontra num mundo transcendente (En., V, 5, 1, 1 - 5).
Agostinho retomará de Plotino a imagem da inteligência como reflexo da luz divina e falará mesmo de uma iluminação divino-natural para explicar a existência dos conceitos universais.
493. Plotino passa a divergir com Platão apenas a meio curso. Para Platão as idéias universais são elas mesmas reais. Plotino as imagina situadas em Deus.
Porque não seriam reais? Não havia necessidade de estabelece-las como reais; esta qualidade Platão a acrescentou sem necessidade.
Em suas exposições tão frequentes sobres as idéias, descreve-as Plotino sempre como se efetivamente fossem de ordem ideal e não real. Elas são imagens por meio das quais a Inteligência (
< @ Ø H ) conhece a Divindade.Entretanto, em Deus, por causa de sua unidade, é problemático falar em idéias distintas de sua realidade. Deus é pensamento de pensamento, já advertira Aristóteles. Mas Plotino encara este problema pela introdução das sucessivas processões emanativas da divindade.
III - A metafísica emanatista de Plotino.
2642y495.
496. Tendo-se erguido ao mundo transcendente, em virtude de considerações gnosiológicas, tem agora Plotino diante de si fatos diversos a explicar, e que constituem a sua metafísica, a qual imprimirá uma feição emanatista e monista.
Se Platão estabeleceu um mundo trinitário, em que os termos eram mais ou menos autônomos, - as idéias reais, o Demiurgo, o mundo das almas e da matéria, - Plotino pôs nisto tudo uma dependência total, de sorte a proceder do outro. Introduziu ainda certas alterações, que, sob o ponto de vista emanatista, são secundárias, mas interessam em si mesmas.
Juntou no Uno (
I ` Ŗ < ), como já adiantamos, o Demiurgo e as idéias reais. A seguir procede a inteligência (7 ` ( @ H ) (; @ Ø H ) (vd 509), que é o princípio organizador e é quem possui as idéias. Por último se dá o mundo. Todos são eternos.
O Uno está acima da Inteligência. Este Uno é de natureza totalmente transcendente, com as propriedades de divindade.
A inteligência flui do Uno.
Desta, da inteligência, flui a Alma do mundo, princípio semelhante ao fogo racional (
B b D < @ , D ` < ) dos estóicos, e que contêm as almas individuais; por último, da alma flui a matéria. Como se vê, a preocupação de Plotino se fixa em torno das causas do ser.
497. Importa ainda examinar a validade de alguns detalhes referentes aos pontos de partida da metafísica de Plotino, os quais, se não forem legítimos, poderão viciar e comprometer toda a sua restante metafísica.
Havendo partido de noções gerais não bem definidas prejudicou os esforços tão bem intencionados de uma investigação que só ficou aproveitada em constantes partes isoladas.
Na determinação da causa dos seres não parece ter examinado suficientemente a possibilidade de uma causa primeira que pudesse atuar diretamente sobre cada ser, desde o mais elevado até os graus ínfimos. Mas fez os seres se causar sucessivamente, em descenso: o Uno causa a Inteligência, a Inteligência a Alma do Mundo, Alma do Mundo, as almas individuais; a matéria seria o plano inferior.
Também não chegou Plotino, como nem Orígenes, a compreender que a causa primeira pudesse ser livre na sua ação criadora; para ele toda a causa perfeita cria necessariamente; por isso a emanação do Uno é necessária e já ocorre desde toda a eternidade, razão porque o mundo, embora criado, ainda que por emanação, é necessário e eterno.
A vulnerabilidade do sistema metafísico plotiniano se manifesta particularmente na concepção do Uno. Não consegue concebe-lo como um verdadeiro Deus, isto é, como um ser que reuna em si, intensivamente, todas as possibilidades causais
A notória influência oriental e dualista, que Plotino retomou dos neopitagóricos e de Filon, fá-lo ainda pôr entre Deus e o mundo material uma séria de intermediários, que uma concepção mais intensiva de Deus dispensaria.
Partindo, portanto, de princípios fundamentais discutíveis, encaminhou-se Plotino fatalmente para um sistema comprometido, valorizado apenas pela beleza do seu estilo e a percunciência de análises de assuntos isolados.
498. Na especulação metafísica da realidade fundamental, a noção do Uno aparece de maneira distinta em Aristóteles e no grupo pitagórico, platônico, estóico, plotiniano.
Para Aristóteles toda a realidade de qualquer modo, sempre é ser; a unidade comparece apenas como uma de suas propriedades transcendentais, isto é, que sempre o acompanha em qualquer das categorias de ser. Por isso, o Uno e o ser se convertem; tudo que é ser, é Uno; tudo o que é Uno, é ser (cf. Metaf. 1054a 13 - 19; 998b 22).
Não é assim que os pitagóricos e Platão lançam a questão. Vêem no Uno, que é apenas uma propriedade da realidade primordial, a origem de todas as essências e existências.
De modo semelhante, os estóicos viam na alma do mundo um princípio imanente unificador a conter as partes.
Plotino ingressou pelo mesmo caminho, e achou que a primeira coisa que ocorre em toda e qualquer realidade é a unidade. Em cada ser há unidade; partido um ser, já não é o mesmo, tornou-se outro (En. VI, 9, 1).
Na base de todos os seres estaria aquilo que só é unidade, a saber o Uno (
I ` Ŗ < ); poder-se-ia dizer o Uno enquanto Uno, como um aristotélico diria o ser enquanto ser.
499. O importante é que Plotino não pretendeu colocar o uno em nenhuma categoria de ser. Não coincide com nenhum outro ser, nem sequer em aspectos particulares. Está mais além (
¦ B X 6 , 4 < " ) do ser:
"Ele é a realidade primeira, mas que não é inteligência por ser anterior à inteligência; pois a inteligência se conta entre as coisas existentes; ora, ele não é algo de existente, pois é anterior a tudo; nem é nenhum ser, porque o ser tem como forma a forma do ser; ora Deus é despido de qualquer formalidade. Como principalmente a essência da unidade é a produtora de todas as coisas, não é Deus nenhuma destas.
Portanto, nem é uma realidade determinada, nem nada de qualificativo ou quantitativo, nem espírito, nem alma. Nem é móvel, nem está em repouso, não está no espaço, nem no tempo, mas é uniforme como tal, ou antes, é sem forma, porque é anterior à toda forma, anterior ao movimento e ao repouso, que se atém ao ser e o multiplicam" (En., VI, 9, 3).
500. Tomou Plotino o Uno aos pitagóricos e a Platão, mas lhe aplicou a propriedade de realidade transcendente. Não é a mesma coisa transcendental e transcendente.
Transcendental é a propriedade que se estende através de todas as dez categorias do ser; neste sentido o Uno é transcendental, porque se pode dizer tanto da substância, como da quantidade, da qualidade de todos os seres acidentais enfim.
Transcendente é o que se distingue do mundo e o supera: não se coloca no mesmo plano o número, como se fosse mais uma coisa ao lado das que já existem.
A transcendência de Deus é uma doutrina que se enquadra especialmente bem no aristotelismo; Tomás de Aquino mostrará como Deus é a sua essência e a sua existência, portanto, totalmente simples, fundamentalmente distinto dos seres contingentes, porque estes são compostos de ato e potência. Deus pois transcende ao mundo, porque dele se distingue e o supera por efeito de sua mesma noção de ente simples em toda a sua totalidade.
Mas, Aristóteles, embora chegasse à noção de um Deus simples, não insistiu na explicitação da propriedade dali resultante, que é a de sua transcendência, pela qual ele se colocava num plano fundamentalmente diverso, parecido com o nosso apenas por analogia.
Plotino explicitará amplamente a doutrina da transcendência, até porque estava estimulado pelo neopitagorismo generalizado insistindo no lado religioso e místico da realidade total.
501. A transcendentalidade que Plotino atribui à noção de Deus não obedece porém ao tipo de ponderação aristotélico-escolástica.
O filósofo neoplatônico de Alexandria parte de uma consideração quase mecânica, antropomórfica e temporal de anterioridade e posterioridade, escapando-lhe a noção de simultaneidade. Assim, alega que Deus não é o ser, porque é anterior ao ser; não é o pensamento, porque lhe é anterior; Deus não é nada das coisas deste mundo, porque é anterior a todas elas. A transcendência plotiniana não tem, pois, o sentido que tem a mesma noção na filosofia aristotélica e no seu posterior desenvolvimento escolástico.
Nesta a simplicidade absoluta de Deus nada exclui, porque simplesmente funde as noções; por exemplo, a essência de Deus é a sua existência; o pensamento em Deus é ser pensamento; o ato em Deus é puro ato (ou ato puro); Deus é motor imóvel. Deus é pensamento, mas sem distinção de sujeito e objeto. Se houvéssemos de entender por pensamento a discursividade de sujeito e objeto, deveríamos dizer que Deus não tem pensamento. Efetivamente não é este o pensamento de Deus, e sim outro.
Por conseguinte, Deus não tem nenhum pensamento, nem consciência, enquanto tais funções representem dualidade de sujeito e objeto, mas é tudo de uma só vez.
Deus é querer e desejar, que quer e se compraz em si mesmo, sem tendência para um fim exterior, tudo isto de maneira imanente, sem dualidade, numa absoluta simplicidade.
503. A emanação. Do Uno, como força primeira (
B D f J 0 * b < " : 4 H ) emanam as demais coisas, por ordem.Primeiramente emana o espírito (
< @ Ø H ) cujo pensar se caracteriza por dividir-se em sujeito e objeto conhecido, como é próprio da inteligência; exerce a função de Demiurgo, isto é, organizador do mundo.Da inteligência emana, então, a alma do mundo, que é uma certa razão (
8 ` ( @ H ); nela vem encerradas as almas individuais. Por último ocorre a matéria do mundo sensível, como degradação final da emanação.
504. Importa considerar por primeiro o processo em si mesmo da emanação, somente depois a natureza de cada uma das emanações realizadas. Nem seriam os degraus emanativos que resolveriam o problema que a emanação em si mesma encerra; os degraus serviriam apenas para suavizar aparentemente a questão.
Já Aristóteles sentia a dificuldade; o primeiro motor imóvel, exatamente por ser imóvel, não tinha como mover mecanicamente; se não podia transmitir-se mecanicamente, como produziria então o movimento?
Como explicaria Plotino a emanação, ou a criação? Além disto, se o Uno é perfeito e suficiente, porque abandonou sua soledade e deu nascimento ao mundo?
Quase tudo o que Plotino refere sobre a função do Uno na emanação é de ordem restritiva e descritiva, e que portanto, nada explica quanto à função mesma. Tal ocorre com todas as comparações com os raios de luz, os efeitos do calor e do frio, a expansão dos olores, que Plotino supõe acontecer sem algo que deixe a fonte:
"Se há um segundo termo depois do Uno… de que maneira procede dele? É uma irradiação sua, dele, que permanece imóvel, como a resplandecente luz que circunda ao sol e nasce dele, ainda que o sol sempre se mantenha imóvel.
Todos os seres, além disso, enquanto existem, produzem a seu ao redor necessariamente, por sua própria essência, uma realidade que tende ao exterior e depende de seu poder; esta realidade é como uma imagem dos seres que a produzem; assim o fogo faz nascer de si o calor, e a neve não retém todo seu frio.
A melhor prova disto são os objetos olorosos… parte deles uma emanação, verdadeira realidade da que participa tudo quanto os rodeia" (En. V, 1, 6).
Estas comparações além de nada explicarem, se baseiam em falsas observações, porque hoje sabemos que o calor, o frio, a luz, o odor tem na sua origem causas mecânicas e que se transferem como algo que deixa a origem. Sabemos que o Sol, para iluminar, emite luz corpuscular, a qual é uma perda e diminuição dele mesmo.
505. Outras e outras comparações, como as referentes à origem dos raios e dos seres vivos, não explicam o processo emanativo em si mesmo:
"Imaginai-vos uma fonte que não tem origem. Entrega toda a sua água aos rios, e não se esgota por isso, e se mantém em seu mesmo nível. Os rios que dela partem confundem suas águas antes de tomar cada um seu curso particular" (En., V, 8, 10).
Esta outra:
"Desde que um ser chega a seu ponto de perfeição, vemos que procria; não suporta permanecer em si mesmo: cria outro ser. E isto é verdade não só para os seres inanimados que comunicam tudo o que podem de seu ser. por exemplo, o fogo aquece, a neve esfria, o veneno atua sobre outro ser.
Enfim, todas coisas na medida que lhes é possível, imitam ao princípio em eternidade e em bondade.
Como, pois, o ser mais perfeito, o bem, haveria de permanecer imóvel em si mesmo? Por gosto? Por impotência, ele, que é a potência de todas as coisas? Como poderia ser então o princípio?
É necessário, pois, que algo provenha dele" (En., V, 4, 1).
Devemos ainda esclarecer que, se os exemplos de Plotino algo explicassem, não chegariam senão a uma conclusão particular. Esta ficou dependente do arrolamento de apenas alguns fatos e que têm a desvantagem de serem mundanos e mal observados. Eles não conduzem ao Uno transcendente pretendido por Plotino.
506. A emanação da Inteligência. Plotino propôs como primeira emanação a inteligência (
< @ Ø H ). E tenta explicar o processo que a motiva e explica.Mas não se consegue compreender, porque seria necessário separar fisicamente o Uno e a Inteligência. Para Plotino emana-se a inteligência por causa da necessidade de conhecer; ora, o conhecer supõe a composição de sujeito e objeto; logo a Inteligência se distingue de Deus.
É vulnerável a ponderação plotiniana, porque se poderia cogitar uma inteligência sem a divisão de sujeito e objeto; Deus poderia ser o mesmo pensar; além disto, uma concepção exata da perfeição divina requer que Deus seja a mesma inteligência.
Mas não se apercebe Plotino dessas subtilezas. Para ele a Inteligência deriva do Uno "porque o múltiplo (emanado do Uno) se busca a si mesmo, aspira a concentrar-se (
F L < < , b , 4 < ) e a tomar consciência de si… O ato intelectual se produz, porque o Bem existe e move para si a inteligência, e porque, neste movimento, ela vê. Pensar é mover-se para o Bem e desejá-lo; o desejo engendra a Inteligência" (En., V, 6, 5).
Como se verifica, Plotino não foi capaz de se conceber um conhecimento senão por meio de dualidades reais.
V – A inteligência, segundo Plotino
. 2642y508.
509. A primeira emanação, verdadeiro efeito, mas ocorrido desde toda a eternidade, é chamado por Plotino de Inteligência (
< @ Ø H ). Algumas vezes diz Verbo (8 ` ( @ H ), como os estóicos e Filon:
"A alma é o logos e o ato da Inteligência como ela mesma é o logos e o ato do Uno" (En. V, 1, 6).
O Nous é a imagem (
, Æ 6 ä < ) do Uno. Tem pois, o outro e não a si mesmo como objeto. Ocorre nele, pois, uma dualidade intrínseca de sujeito e objeto. Insiste Plotino nesta dualidade ou diferença (© J , D ` J 0 H ), deixando claro que uma coisa é a forma do pensamento ou intelecção (< ` 0 F 4 H ) e outra o objeto ou matéria da intelecção (ß 8 0 < @ 0 J 4 6 Z ). E dali concluía para a inferiorização do produto da emanação.Entretanto, mesmo assim, o pensamento conserva ainda elevada categoria de perfeição, porque é a imagem perfeita do Uno:
"Beleza, primeira toda bela, não tem nenhuma parte em que sua beleza esteja falha" (En. V, 8, 8).
A inteligência, por ser inferior ao Uno, não pode apreende-lo de uma só vez. Multiplica-se sua contemplação numa multiplicidade de idéias. Coincidem estas idéias com as idéias transcendentes de Platão, com a diferença que Platão as fazia idéias reais ao passo que Plotino as retinha, no plano de idéias no sentido óbvio. Formam-se idéias sobre tudo e sobre todos, porque o Uno contém em potência a realidade total.
Outra diferença para Plotino é a introdução das idéias singulares (En., V, 7, 1-3); para Platão e Aristóteles a idéia é sempre universal, apenas o conhecimento sensível seria singular. Alegou Plotino, que negar a ocorrência de idéias singulares, é excluir a si mesmo do mundo inteligível.
Como se vê, não colocou Plotino as idéias arquétipas em Deus mesmo, mas em um ser intermediário. Neste particular divergirão o neoplatonismo de Agostinho de Hipona e de Scoto Erigena.
Ocorre ainda uma notável semelhança do
< @ Ø H de Plotino com o < @ Ø H de Anaxágoras (c. 500-428 a. C.). Ambos estão separados do mundo e ambos compõem a ordem do mundo.A diferença contudo ocorre, porque Plotino colocou acima do
< @ Ø H o Uno transcendente e pôs no < @ Ø H as idéias de Platão.O notável do sistema neoplatônico é que aproveita as mesmas noções dos antecessores para uma síntese nova, em que os termos ganham posições levemente diferentes, sem perder sua afinidade com as noções originais.
510. A inteligência (
< @ Ø H ) exerce ainda, como se adiantou, a função de Demiurgo, aproveitando-se das idéias para realizar os novos seres tendo-as como modelo. Não deixa o exemplarismo de ter agora sua explicação, porque tudo se encontra potencialmente no Uno, do qual as novas realidades vão emanando sem acréscimo, mas por imitação e diminuição.
V - A alma do mundo, segundo Plotino
. 2642y512.
513. Da Inteligência emana a Alma (
R L P Z ) do Mundo cuja natureza é semelhante ao logos imanente dos estóicos. O processo é semelhante àquele pelo qual a Inteligência emanou do Uno (En., V, 1, 6). Embora inferior, é eterno como a Inteligência (< @ Ø H ). Sua degradação não implica apenas a dualidade da Inteligência, mas uma multiplicidade considerável de princípios mediante os quais a alma toma contato com o mundo sensível. Estes princípios são descritos por Plotino como razões seminais (8 ` ( @ 4 F B , D : " J 4 6 @ 4 ) espécie de forças plásticas de que já falavam os estóicos. Em Aristóteles equivaleria às formas substanciais, que dão as determinação aos corpos ou à matéria. Para Plotino as forças seminais correspondem às almas individuais, incluindo mesmo à dos corpos, porque para ele todo corpo é animado, mesmo os sólidos.
Não ocorre, pois, a individualidade propriamente dita, mas princípios que se conjugam todos na Alma do Mundo. Todas as razões seminais, como almas individuais e demais formas, habitam na Alma do Mundo como as idéias múltiplas na Inteligência (
< @ Ø H ) que contempla o Uno. Não ocorre fragmentação, participando, portanto, ainda da Unidade:
"A Alma do Mundo se dá a ele em toda a sua extensão, tão grande quanto seja; todos os intervalos, grandes e pequenos, são animados. Muitos corpos não podem estar no mesmo lugar; um está aqui, outro lá, e estão separados um do outro… A alma não é assim; ela não se fragmenta para animar com cada uma de suas partes cada parte do corpo; mas todas as partes vivem pela alma toda inteira, ela está toda presente por toda a parte, semelhante, pela sua unidade e sua onipresença, ao Pai (a Inteligência) que a engendrou" (En. V, 1, 2, 25-33).
Esta descrição da onipresença da alma a aplicam os escolásticos a alma individual: presente toda inteira em cada parte em que se encontra. A partir dali; haveria; uma só alma em todo o corpo humano, apesar da multiplicidade das células. Este modo de pensar, que se encontra claramente em Plotino, é todavia de difícil sustentação.
Se Plotino a aplicava à Alma do Mundo a onipresença, não era difícil que também a quisesse fazer valer para a alma individual em relação ao seu corpo.
A hipótese da alma do mundo, como a apresentou Plotino, tende a destruir a alma do indivíduo, que contudo defendeu como individual.
Argumentou com exemplos, que, todavia, nada parecem provar. Alega Plotino que uma única ciência se desdobra em muitas conclusões; cada teorema contém em potência todos os outros (En. IV, 9, 5; V, 7).
Ou a hipótese é a Alma do Mundo, então não há indivíduos, mas partes apenas; ou a Alma do Mundo não é nenhuma hipótese, e então o indivíduo é hipótese autônoma e não simples parte.
514. A espiritualidade da alma foi estabelecida e analisada por Plotino (En. IV, 7, 1, -15). Neste sentido retomou as ponderações de Aristóteles (De anima I, c. 2 e 5) e as desenvolveu páginas de considerável valor, aproveitadas pelos espiritualistas de todos os tempos, sobretudo dos dualistas.
Opôs-se às explicações dos velhos fisicistas, como já fizera o estagirita, e desenvolveu novas ponderações contra os estóicos.
Organizou os argumentos numa ordem geral de alternativas:
Não pode a alma ser um corpo, - nem simples, nem uma combinação de corpos simples.
Os elementos conhecidos, quatro segundo Empédocles, cinco segundo Aristóteles, não possuem vida, de sorte que a nenhum deles se reduz a alma; nem seria a alma uma combinação deles, porque não pode provir a vida de uma mistura ao acaso, nem de uma mistura ordenada, porque a ordem seria então produto da alma e não sua causadora.
A afirmativa de que os elementos corpóreos não possuem vida é uma afirmativa não provada, e que já se encontra em Aristóteles. Não se pode definir abstratamente o corpo como não contendo a vida, para a seguir afastar dele o que não se provou. Os fenômenos físicos e psíquicos, poderão ser duas funções, ainda que específicas, com base numa só substância.
Quanto à hipótese de a alma resultar de um elemento simples, poderá este ser intrinsecamente simples, - somente forma, - ou intrinsecamente composto, - de forma e matéria. Defendeu Plotino que a alma é intrinsecamente simples, mas não corporal (material), como um dos quatro elementos, mas apenas espiritual.
Mostrou, então, porque a matéria não pode ter as propriedades da alma. Também não pode ser a alma um ser, embora simples, intrinsecamente composto.
Atacou aqui Plotino aos estóicos (En. IV, 2). Estes admitiam apenas o corpóreo, a saber a matéria, com uma alma do mundo a dar-lhe formas. Ora, se a matéria não tem qualidade, não pode a alma ser um sopro (
B < , Ø : " ) de caráter corpóreo, porque então as qualidades deste não procedem da matéria que não tem tais qualidades; logo, a forma é substância e não a matéria.
515. Da simplicidade da alma decorre sua imortalidade:
"Tudo o que para existir implica uma composição se decompõe naturalmente nos elementos de que se compõe; mas a alma é de natureza una, simples, e existe atualmente no fato da vida; por isso, não perecerá" (En. IV, 7, 12).
O pressuposto de Plotino somente vale no sentido de que o simples não tem as mesmas razões para se desvanecer, que o tem o composto. Mas o simples é imortal, se em si mesmo contiver razões para ser imortal, e se as não tiver, poderá ser mantido imortal por obra de um ser que o seja. Foi assim que Descartes advertiu que a alma, depois de separada do corpo, somente se manterá necessariamente se Deus o quiser.
516. Não pretendeu Plotino conceder à alma a função de forma do corpo, à maneira do hilemorfismo de Aristóteles (En. IV, 7, 8, 5). Achou que uma tal união não explicaria a oposição da razão e do desejo (12-14), o pensamento independente do corpo (14-18), a conservação de imagens independentemente das coisas sensíveis (19-23), o desejo do incorporal (23-25), sem contar outras dificuldades de menor monta a explicação do sono (9-11), a propagação da alma vegetativa duma planta a outra (25-35), conversão dos animais em outros animais.
Algumas destas observações, como da independência do pensamento e a multiplicação dos seres vivos alcançada pela segmentação, já eram consideradas por Aristóteles, mas sem que visse nelas dificuldade contra sua teoria da alma forma do corpo.
Postado agora do ponto de vista platônico, Plotino elabora uma psicologia e ética sem a matéria.
A alma, neste dualismo radical, é como o piloto em um navio; não perde nada de sua natureza, se o corpo se separar, como o piloto nada muda ao desembarcar.
VI - A matéria, segundo Plotino
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519. O último estágio do fluxo da emanação, no sistema de Plotino, é a matéria; é o último, porque é a maior indeterminação possível antes do nada.
Dois aspectos se podem considerar nesta questão:
- a origem emanativa da matéria;
- a natureza da matéria.
Quanto à origem emanativa ela é uma questão tipicamente plotiniana. Mas, a natureza da matéria, constitui uma indagação que já vem de Platão e Aristóteles e interessou sempre em filosofia.
520. É a alma que produz a matéria, fatalmente e cegamente. A nossa alma, feliz lá em cima, ou seja, antes de produzir a matéria, mergulha a seguir nela, como que em decadência.
Esta descida na matéria consiste em tornar-se a causa eficiente da mesma, pelo engendramento do corpo, organizando-o por meio de potências como as faculdades sensitivas e vegetativas.
521. Onde Plotino se aproximou de Aristóteles. A propósito da natureza da matéria, importa de imediato estabelecer, é se a matéria, apesar de indeterminada, contém algo mínimo de determinado (como em Platão, ou não (como em Aristóteles).
Alguns ramos de hilemorfismo, inspirados em Platão, como o de Duns Scoto, e Suarez, têm visto na matéria um fato imperfeito. Esta foi a tendência dos filósofos mais ligados a Platão que a Aristóteles. Na Idade Média continua ainda a subsistir em Alberto Magno, embora fosse um aristotélico, mas desaparece no aristotelismo bem assimilado de Santo Tomás.
A indeterminação de que falam os filósofos platônicos ao se referirem à matéria não chega a ser total. A admissão de matérias de diferentes espécies (En. II, 4, 3), implica em aceitar a ocorrência de determinações na própria matéria a fim de que se possam distinguir. Pelo contrário, na concepção aristotélica, as determinações só procedem pelo lado da forma, a qual por isso se encontra em íntima complementaridade com a matéria.
Plotino, entretanto, chegou a uma noção muito precisa e subtil da matéria. Neste particular foi um discípulo de Aristóteles, a quem analisou subtilmente e algumas vezes procurou aperfeiçoar. Suas exposições a propósito são exuberantes e de uma elaboração verdadeiramente escolástica.
522. A matéria é um princípio real, positivo, não mera privação, pura negação:
"O indeterminado consiste em qualquer coisa de positivo" (En. II, 4, 10).
Todas as descrições de Plotino dão este sentido à matéria, que se apresenta como uma derivação da emanação, como criação da alma. Portanto, não parece exato atribuir a Plotino, como faz Hirschberger:
"O último grau da emanação é a matéria que não é nada de positivo, mas pura negação" (H. da Fil. c. 3, 5b).
Portanto, a matéria, de certo modo é ser, se as metáforas e comparações de Plotino, parecem, por vezes, negar o ser à matéria, sua intenção não é senão de lhe diminuir o ser de reduzi-lo ao mínimo, a indeterminação e dependência total. Se ela é chamada o mal, é para dizer que sua indeterminação não tem a ordem, que pertence à forma; se é feia, é porque a beleza é da forma. Todas estas expressões equivalem a uma exposição especificada para esclarecer os conceitos gerais, de que a matéria é informe, isto é, que não tem forma, a saber, que não tem a forma do bem, a forma da ordem, a forma do belo.
Prova Plotino a existência de matéria nos corpos pelos mesmos argumentos de Aristóteles (Arist., Met. 1, 2), que são os da transformação e corrupção:
"A prova e a transformação dos elementos uns nos outros; a corrupção do elemento que se transforma não é uma descrição completa; uma substância não pode perecer e se aniquilar; inversamente, o elemento engendrado não pode passar do modo absoluto à existência ; toda transformação se opera de uma forma a uma outra; mas ela deixa subsistir um sujeito que recebe a nova forma e perde a antiga" (En. II, 4, 6).
Apela também à significação da corrupção:
"Uma outra prova é a corrupção; ela só atinge o ser composto; um ser que se corrompe é pois feito de matéria e forma" (En. II, 4, 6).
524. Uma vez declarada indeterminada a matéria, apercebe-se Plotino de um novo problema, o de como seria possível conhecer o indeterminado (En. II, 4, 10). Os futuros escolásticos efetivamente aceitam a incognoscibilidade do indeterminado; a matéria indeterminada seria, por isso, cognoscível apenas em função à forma. Também para Plotino a matéria é conhecida em função à forma, o que está muito certo, porque ela foi descrita como princípio essencialmente relativo, como aquilo que recebe a forma. Compara a inteligência, quando se põe a conhecer a matéria, com os olhos na escuridão, que, nada vendo, tem contudo uma espécie de visão. Assim a alma, ao pensar na matéria, não está como se nada pensasse.
"Quando ela (a alma) não pensa nada, ela nada enuncia; não tem a impressão de modo. Mas quando pensa na matéria, recebe em si mesma a impressão daquilo que é sem forma. Tão bem como quando ela pensa em objetos que têm uma forma ou uma grandeza, ela os concebe como a composição, como coisas coloridas ou providas de outras qualidades, e então pensa o todo, ela pensa também seus componentes; então um, o pensamento ou a sensação dos atributos, se apresenta claramente, enquanto que o outro, o conhecimento do sujeito sem a forma, permanece obscuro, porque não é uma forma. O que ela percebe no conjunto composto com os atributos, ela pode dissociar e separar dos atributos; depois, este resíduo da análise, ela o pensa obscuramente porque ele é obscuro; entenebrado por estas trevas, ela pensa sem pensar verdadeiramente" (En. II, 4, 10).
525. A ética de Plotino prendeu-se à sucessividade emanativa que caracteriza o seu sistema. O homem encontra-se preso pela Inteligência (
< @ Ø H ), no lado de cima; pela matéria do seu corpo, no lado debaixo.
Com referência ao corpo, não se prende a ele como forma; toda a ligação com ele é prejudicial, dada a sua degenerescência, conforme vimos; deve por isso, a alma procurar o caminho inverso. A emanação, ao passo que se afasta do Uno, decresce; seus estágios são mais perfeitos na região mais próxima do Uno. Entretanto, embora a aspiração da alma deva ser o retorno para o Uno, não é o que ela realiza espontaneamente. O Uno, dada a sua transcendência, é indeterminado (segundo o descreve Plotino), ao passo que o sensível é determinado; ora, a alma tende para o conhecimento do determinado" (En. VI, 9, 3).
O retorno, pois se processa apenas por um esforço especial da alma. Também Platão observava que a ascensão às Idéias transcendentais era difícil; em Plotino, ela tem de ir ainda mais longe, até o Uno. Este somente se alcança pela virtude da contemplação (
2 , T D \ " ).
Mas embora o retorno se processe por um esforço, ele se faz com base ontológica, porque a alma se liga a Deus pelo interior do processo emanativo, através da Inteligência. Por natureza a alma ama a Deus, a quem ela quer se unir, como uma virgem ama um pai honesto" (En. VI, 9,9 35).
Estabeleceu, portanto, Plotino a ocorrência de um desejo natural do efeito para com a causa (Lei do desejo). É a lei do retorno, do filho para o pai, da criatura para o criador.
526. Ocorrem distintas fases na ascensão da alma a Deus, que correspondem às três faculdades em questão: sensibilidade, raciocínio, intuição.
Preliminarmente deverá a alma desfazer-se das coisas materiais, consideradas prejudiciais. Trata-se de um esforço de abstração, que Plotino chamou de purificação (
6 V 2 " D F 4 H ), porque a imersão na matéria, em seu sistema, significa uma decadência, um pecado. Realizado este esforço, encontra-se a alma integrada na sua função raciocinativa, que lhe é especifica.
"Em que consiste a purificação, visto que a alma não sofreu nenhuma mancha? Que quer dizer separar a alma do corpo? A purificação consiste em isolar a alma, a não deixá-la unir-se a outras coisas; que ela não as olhe; que ela não tenha opiniões estranhas à sua natureza, como as opiniões que se chamam paixões; que não olhe seus fantasmas que produzem as paixões" (En. III, 6, 5).
As virtudes éticas, ou, como as chama Plotino, políticas, como a probidade cívica, afastam apenas da matéria de maneira relativa; mas, em última instancia, também dizem respeito ao mundo, portanto à matéria. Sua função é a de fase prévia para as virtudes subsequentes e superiores.
Plotino, que nunca demonstrou interesse pela política, ao contrario do que ocorria com Platão, certamente não pretendia com sua Platonópolis criar uma organização ideal de ordem política, mas um agrupamento de filósofos empenhados numa vida purgativa segundo os ditames da filosofia em questão.
527. Numa segunda fase, abandona a alma o processo raciocinativo, cuja deficiência são as inúmeras divisões, para juntar-se à Inteligência (
< @ Ø H ) cuja função cognitiva procede por via de intuição, capaz de atingir a verdade de um só relance (En. V, 3, 9).
528. Enfim, após o silêncio do raciocínio e da intuição, ocorre o êxtase, volta a identificação com o Uno.
Emanado do Uno, por apequenamento contínuo da perfeição, os poucos vestígios que do Uno restavam na alma, se avivam e possibilitam o retorno.
No êxtase brilha em nós o Uno, que se apodera de nós e nos arrebata. Trata-se de uma visão inefável, em que o sujeito não se distingue do objeto, dada a perfeição da união.
Para explicar este processo cognitivo recorre Plotino a um recurso que consiste em se conceber uma visão de luz sem objeto, como quem apertasse o olho e percebesse o brilho da luz que então se apresenta (En. V, 5, 7, 28).
"Da mesma maneira a inteligência, colocando um véu sobre os outros objetos, e se recolhendo em sua intimidade, não vê nenhum objeto; mas ela contempla então uma luz, que não está em outra coisa, mas que lhe apareceu subitamente só, pura, e existindo em si mesma" (En. V, 5, 7, 30ss).
Nisto tudo não há senão uma ilusão de Plotino. O que efetivamente, então, ocorre, não é nada mais e nada menos que uma atuação mais viva e percuciente da razão discursiva, que está a penetrar as razões mais intimas da realidade.
VIII - O belo, segundo Plotino.
2642y530.
531. Retoma Plotino amplamente a questão do belo, já tratada por Platão, a quem seguiu e desenvolveu, em Hípias Maior. Mas, o belo dos corpos, de que Platão tratou apenas vagamente, é tomado aos estóicos, que orientam assim a Plotino um pouco mais na direção do espírito aristotélico. É o que se observa logo de começo no seu célebre tratado:
"O belo se encontra sobretudo na vista; ele se encontra também no ouvido, na combinação das palavras e na música de todo o gênero; há também, passando da sensação a um domínio superior, ocupações, ações e maneiras de ser que são belas; há a beleza das ciências e das virtudes" (En. I, 5, 1, 1-5).
Mas, a origem do belo é a participação do belo como tal, que se reflete nos corpos e os organiza de acordo como a noção do mesmo belo.
"Certos seres são belos, como os corpos, não pela sua substância mesma, mas por participação… porque é manifesto que os mesmos corpos são ora belos, ora sem beleza, como se o ser do corpo fosse diferente do ser da beleza" (En. I, 6, 1, 14-16).
No conceito aristotélico a beleza é uma propriedade que converte com o ser, tão bem quanto o Uno, o bom, a verdade, isto é, como propriedades transcendentais.
Quanto ao conceito mesmo de belo:
"Todos, por assim dizer, afirmam que o belo visível é a simetria das partes, umas em relação às outras e em relação ao conjunto" (En. I, 6, 1, 20-22).
Este ponto de vista é o dos estóicos, como se vê em Cícero (Tuscul. IV. E, 31), mais antigo dois séculos que Plotino.
§ 3. Outros neoplatônicos alexandrinos, com destaque Porfírio
. 2642y534.
535. O neoplatônico Orígenes foi citado por Porfírio, como discípulo de Plotino. Importa não confundi-lo com o Padre da Igreja, de igual nome Orígenes (c. 185-c.255), Padre da Igreja. Neste equívoco incorreu G. Heizl (Der Bericht des Porphyrios úber O., Ratisbona 1835).
Estabeleceu o neoplatônico Orígenes a identidade do Deus Supremo como o formador do mundo (contra Numênio, talvez), como se vê na obra O supremo é o único senhor do mundo (grego).
536. Herênio, outro discípulo de Plotino, não parece ter deixado escritos. O compêndio de metafísica (
+ > Z ( 0 F 4 H , Æ H J ¸ : , J ¸ N L F 4 6 V ) é uma compilação apócrifa talvez do século XV.
537. Longino (213-273) lecionou em Atenas. Manteve o princípio platônico, contra Plotino, de que as idéias se encontravam fora da inteligência (
< @ Ø H ). Não parece sua a obra, por muito tempo lhe atribuída, Sobre o sublime (A , D Â à R @ L H ), de natureza retórica e estética.
538. Porfírio (
A @ D N b D 4 @ H ) o Fenício nasceu em Tiro (ou Batanea), Síria, 232 a.C. Filiou-se a Plotino em 263 d.C., quando, pela segunda vez vinha a Roma, onde ficou então seis anos.Plotino tinha neste tempo cerca de 59 anos e mal começara a escrever. Os tratados de Plotino já eram então em número de 21, dispondo-se Porfírio a ordená-los, incitando ao mestre a escrever mais.
Quando Porfírio se transporta para a Sicília, continuou Plotino a remeter-lhe novos tratados. Citando os nomes dos discípulos de Plotino, remata:
"Por último, também eu me contava no numero dos seus discípulos mais queridos, eu, Porfírio de Tiro, e foi a mim que confiou o cuidado de corrigir suas obras" (cf. Vida de Plotino 7).
Conservou-se a sua Vida de Plotino (
A @ D N b D 4 @ L B , D Â A 8 T J \ < @ L $ \ @ L ). Preciosa por ser a única a lançar luzes sobre a obra desordenada do Mestre.Também se conservou sua Introdução à categorias (
+ Æ F " ( T ( Z , Æ H J ¸ H 6 " J 0 ( @ D \ " H ); exerceu notável influência no estudo dos universais, na Idade média; foi editada por A. Busse em Comentários a Aristóteles (Academia de Berlim, 1887). Restou também Base para conhecimentos dos inteligíveis (• N @ D : " Ã B D Î J ¸ < @ 0 J V ).Ainda escreveu Porfírio Vida de Pitágoras, História dos Filósofos e um panfleto contra os cristãos, de que se conservaram algumas passagens em Eusébio de Cesárea.
539. A atividade literária de Porfírio se aplicou principalmente ao comentário das obras de Plotino, Platão e Aristóteles. Foi de uma notória subtilidade no tratamento das categorias e categoremas de Aristóteles. Neste plano foi criador do que levou seu nome, - a árvore de Porfírio.
Doutrinariamente Porfírio era ainda um anti-cristão.
ART. 2-o. NEOPLATONISMO SIRIACO, OU DE JÂMBLICO. 2642y542.
543. Introdução. Já ia avançado o neoplatonismo em Alexandria, com reflexos sobre Roma, quando surge a escola paralela do neoplatonismo síriaco, ou de Jâmblico no Oriente. Esteve praticamente reduzida apenas a este nome. Mas teve alguns discípulos, como Sópatro e Dexipo.
544. Jâmblico (c. 240-325) nasceu em Cálcis, Celessíria. Seus dados biográficos são imprecisos.
Terá conhecido o neoplatonismo através de Nicômaco de Gerasa (vd), talvez em Alexandria, o peripatetismo, com Anatólio (c. 240 –c. 325). Foi também discípulo de Porfírio o Fenício.
Lecionou Jâmblico em Apaméia. Diz-se que sucedeu à Porfírio na escola neoplatônica, e a transportou para Pérgamo e depois para Alexandria.
545. Obras. Um grupo principal dos livros de Jâmblico são intitulados em conjunto Coleção pitagórica (
E L 8 8 @ ( Z B L 2 " ( @ D 4 6 V ), e que são ditas também Resumo das doutrinas pitagóricas. Conservaram-se os livros I, II, III, IV, VII, citados com frequência isoladamente e pelos seus títulos latinos:I - De vita pithagorica liber (editado 1815-1816);
II - Adhortatio ad philosophiam (1937; 1850; 1937);
III - De communi mathematica scientia (1891);
IV - De Nicomachi aritmeticam introductio liber (1894);
VII - Theologoumena Arithmeticae (1817; 1922).
Outro livro de Jâmblico: De mysteriis liber (ed.1678;1857; 1922).
Opúsculos conservados fragmentariamente: De chaldaica perfectissima theologiae; De descensu animae; De diis; e outros.
E ainda comentários e notas aos Diálogos de Platão, editados sob o título latino In Platonis Dialogos commentatorium fragmenta (ed. 1973).
546. Conservando embora a estrutura geral do pensamento neoplatônico, desenvolveu Jâmblico de preferência os aspectos místicos, influenciado pelo pitagorismo e pelas fontes religiosas caldaicas. Situou-se no mesmo clima em que se desenvolveu o cristianismo, embora discordando dele nos detalhes.
Manteve a conceituação plotiniana do Uno supremo, destacando-o como sendo ainda mais absolutamente transcendente. Dele, de novo como em Plotino, decorrem por emanação, os diferentes estágios da realidade. Multiplicou Jâmblico estas estágios, multiplicando os seres intermediários, os quais derivam em sistema trinitário. Desta forma atendia à multiplicidade das divindades das crenças vigentes e das seitas gnósticas.
Por cima do próprio Uno (
© < ) foi tentado pôr o princípio absolutamente inefável (B V < J 0 ® – D D 0 J @ H • D P Z ), o que certamente não tem sentido depois de definida a transcendência do Uno. A tudo isto, - como já se adiantou, - acresceu o misticismo, ou seja a religião dos mistérios (ou sacramentos), como necessária ao homem.
547. Juliano o Apóstata, que por algum tempo fora cristão, e fora imperador romano de 361 a 363, deu importância à esta arrumação de Jâmblico, pretendendo-a introduzir no Império.
O entusiasmo passou-se cedo, em virtude da morte de Juliano e mesmo dada a fraqueza da estrutura deste tipo de sistemas. Juliano fora sobrinho do Constantino o Grande (Imperador único de 324 a 337), sendo que também este se ocupara de prestigiar uma nova religião, igualmente de fundo neopitagórico, o cristianismo.
548. A argumentação das filosofias neoplatônicas deste novo período não parece convincente. Alegam-se vagamente que a alma é ao mesmo tempo algo de elevado e de afundado na matéria. Posto o homem em uma situação, dada como anormal, deve por isso mesmo ser resgatado.
As doutrinas religiosas em vigor no oriente, de fundo órfico, com seus mistérios, ou ritos sacramentais, formavam as mentalidades de maneira a lhes ser fácil aceitar uma explicação filosófica vinda na mesma direção de pensamento. O neoplatonismo, sobretudo no modelo da escola síria de Jâmblico, se tornou, por isso, por excelência, a filosofia das religiões de caráter salvacionista. Mas os grupos religiosos, quanto mais próximos entre si, facilmente conflitam nos detalhes.
ART. 3-o. NEOPLATONISMO DE ATENAS, OU DE PROCLO
. 2642y552.
553. Introdução. Como sempre tem sido em Atenas, foi também brilhante a escola neoplatônica nela estabelecida a partir do século 4-o.
Iniciada por Plutarco o Grande e logo continuada por Siriano, teve em Proclo o seu mais destacada representante. Depois vieram Marino, Hérmias, Hamônio, Asclepiádoto, Isidoro, Hégias, Zenódoto, Damáscio, Simplício, estes últimos já atingidos pelo decreto de extinção das escolas de Atenas pelo Imperador de Constantinopla, agindo em favor dos cristãos.
554. Plutarco de Atenas, ou o Grande (+430), menos importante que seu homônimo de Plutarco de Queronea (c. 46-120) (vd
429), foi escolarca em Atenas e mestre de Siriano.Sua orientação nitidamente neoplatônica, gerou na academia uma nova diretriz, que a ligou à escola do mesmo nome de Alexandria, ou seja, de Plotino.
Dedicado às investigações de psicologia, Plutarco o Grande definiu a consciência como efeito da razão na percepção.
555. Siriano de Alexandria (c. 450). Estudou em Atenas, sob Plutarco o Grande. Como este, foi escolarca em Atenas e também mestre de Proclo
Foi comentador neoplatônico de Aristóteles. Conservam-se os comentários aos livros III, IV, XIII e XIV da Metafísica de Aristóteles, editados por Usener, na edição de Aristóteles da Academia de Berlim (Vol. V, 1870) e por W. Kroll (Syriani in Metaphyca conmentária, Berlim, Coll. Acad. VI,1,1902,).
Enquadrou a filosofia aristotélica como sendo um pórtico de entrada para a Platônica.
Combina o platonismo com as doutrinas órficas e os oráculos caldeus.
No seu emanatismo neoplatônio estabelece várias fases, com fases intermediárias, com os vai-e-vem de permanência, saída, regresso. Sobre esta diversificação trabalhará depois mais detalhadamente Proclo.
556. Proclo (Proklos) (410-485) é o último grande representante do platonismo e neoplatonismo pagão, pela sua capacidade de ordenamento interno das questões e encaminhamento das soluções. Foi posterior a Agostinho (+430) e contemporâneo mais velho de Boécio (+525); ambos estes cristãos eram neoplatônicos, mas somente Boécio tinha conhecimento do grego.
Conhece-se a vida de Proclo através de uma biografia que lhe escreveu um seu discípulo de nome Marino de Neápolis (vd
561). Nasceu em Constantinopla, formou-se em Alexandria com o peripatético Olimpiodoro, passando a seguir para Atenas, onde foi discípulo de Siriano e finalmente escolarca da Academia.557. Obras. Publicou um grande numero de pequenos tratados, os quais reunidos importam em um grosso volume. São classificáveis em comentários e tratados, estes sobre os mais diversos temos, inclusive contra os cristãos. Nota-se que são notoriamente sistemáticos. Foi, por isso, Proclo cognominado o escolástico do helenismo, prenunciando mesmo a escolástica medieval.
Citam-se particularmente:
Elementos de teologia (Institutio theologica,
E J @ 4 P , \ T F 4 H 2 , @ 8 @ ( 4 6 Z );Teologia platônicca (
A , D Â J H 6 " J ¸ B 8 " J ` < " 2 , @ 8 @ ( \ " H );Elementos de física (
G J @ 4 P , \ T F 4 H N L F 4 6 Z );Sobre o lugar;
Sobre as três mônadas
De decem dubitationibus circa providentiam;
De providenctia et fato;
De malorum subsistentia.
Os três últimos tratados já haviam sido traduzidos ao latim na Idade Média, por Guilherme de Moerbecke.
Notabilizou-se ainda Proclo como comentador de um número considerável de diálogos de Platão, mas dos quais restam somente alguns, a saber, Timeu, República, Parmênides, Crátilo, Alcibíades.
Perderam-se outras obras mais, cujos títulos pelo menos informam sobre os temas abordados: Teologia órfica; Harmonia de Orfeu, Pitágoras, Platão.
O Liber de causis, da autoria de Proclus, foi considerado na Idade Média como obra de Aristóteles, apesar dos elementos platônicos que contêm; não é senão uma parte do Institutio theologica de Proclo. O erro foi verificado ao ser procedida a tradução desta outra obra.
558. Emanação triádica. Proclo combinou a fantasmagoria mitológica grega e oriental com a conceptualização abundante e abstrata do neoplatonismo; fazia nova tentativa, após Jâmblico, de juntar os mitos ao sistema de Plotino.
Concebeu o realismo dos universais, à maneira platônica, o que lhe veio criar um mundo transcendente múltiplo, com lugar para deidades numerosas e hierarquizadas, desvestidas apenas dos antropomorfismos grosseiros.
O problema filosófico anteposto aos neoplatônicos é também o das demais filosofias, - como estruturar as diferentes hipóstases, uma vez que há uma suprema, o Uno, que não parece admitir a possibilidade das outras. Através da emanação se situam as demais e que tendem ao retorno.
A marcha emanativa de Plotino é promovida agora de maneira triádica, em que o primeiro momento é o repouso, ou o permanecer (
: @ < Z ); o segundo, que produz o múltiplo, é o andar, ou sair (B D ` @ * @ H ); o terceiro é a volta, ou o retorno (¦ B 4 F J D @ N Z ).Se em Hegel a marcha triádica era apenas uma relação de conceitos. No neoplatonismo a marcha triádica se dá entre realidades, embora idéias, que para os platônicos são reais e no caso de Proclus também mitológicas. Dentro deste esquema se movimenta e se cria a realidade.
No alto, ou seja no começo, está o Proto-Uno, o Proto-bem, a Proto-causa que transcende a todas as determinações, e não se pode chamar Uno (
© < ), bem, causa (" Ç J 4 @ < ). Aplicava-se, pois, uma pequena correção a Plotino, embora não pareça ter sentido.
Ainda antes da emanação da Inteligência (
< @ Ø H ), conforme Plotino, derivam-se as unidades (§ < " * , H ), espécie de números supraessenciais, supratemporais, que para Proclus são deidades inapreensíveis; tudo isto se torna fácil em seu sistema, dado o realismo que o platonismo atribui aos universais.
Emanada a Inteligência (
< @ Ø H ), esta se desdobra em Inteligível (< @ 0 J ` < ), Inteligível é inteligente (< @ 0 J ` < ˛ : " 6 " Â < @ , D ` < ), e o Inteligente (< @ , D ` < ). Hispotasiou, portanto, Proclus aspectos diferentes da faculdade e do seu ato.
Novos intermediários ocorrem antes de se realizar cada uma das fases triádicas da Inteligência. O Inteligível (
< @ 0 J ` < ) se subdivide na tríada limite (B X D " H ), ilimitado (– B , 4 D @ < ), mescla (: 4 6 J ` < ), que se complicam de maneira a criarem-se sempre novas hipóstases como pai (B " J Z D ), potência (* b < " : 4 H ), intelecção (< ` 0 F 4 H ), essência (@ Û F \ " ), existência (à B " D > 4 H ), vida (R T Z ), eternidade (" Æ f < ), etc. A matéria derivaria do infinito (– B , 4 D @ < ) e, não da alma, como em Plotino.O mesmo processo triádico se desenvolve com a segunda fase da Inteligência, o Inteligível – inteligente. Na terceira, no Inteligente, ocorrem até sete subdivisões, ou hebdômadas, de novo subdivididas, em infra- hebdômadas, onde já aparecem os deuses olímpicos. Como se vê, Proclus tentou classificar as idéias reais de Platão tendo como critério a emanação plotiniana e por objetivo identificar nelas os deuses da mitologia helênica, ainda que sem os antromorfismos mais grosseiros.
559. A ética de Proclo é a do retorno plotiniano, da purificação da alma afundada na matéria, que procurará elevar-se pelo conhecimento intelectual, no que ainda deverá ser auxiliada pela iluminação divina, até chegar ao êxtase (
: " < \ " ).
561. Marino de Neápolis (sec. 5-o). Nascido em Sichem (ou Siquem), Samaria. Discípulo de Proclo em Atenas, o sucedeu como escolarca da Academia.
Fez conhecer por uma Vida de Proclo, seu mestre, traduzida e editada sob o título Marini Vita Procli (Leipzig, 1814).
Teve especial interesse pela matemática, com vários escritos.
Desenvolvendo as teorias de Proclo, na biografia que lhe dedicou, explorou especialmente as virtudes, considerando supremas as virtudes teúrgicas.
562. Hérmias de Alexandria, com um comentário ao Fedro, que ainda se conserva.
563. Amônio Hermeiou, no sentido de filho de Hérmias, o precedente (vd
562). Realizou escritos bastante variados sobre Aristóteles e Porfírio, lógica, matemática, astronomia, o destino e outros temas.A história da lógica atravessa pelos comentários de Amônio neste campo, sobre as figuras e as categorias.
Edições: Ammonius in Porphyrii quinque voces (Ed. A. Busse, 1891); Commentaria in Aristotelem GraecaI, IV, 3); Amm. De interpretatione, ed. A. Busse, 1897); Amm. de Analytica priora (ed. M. Wallies, 1899)..
Sobre o destino (Ed. De fati -
A , D Â J H , Æ R " D : X < , H ).
564. Asclepiodoto de Alexandria (+ c. 450). Discípulo de Proclo. Espírito enciclopédico: filósofo, médico, matemático, astrônomo. De opiniões sóbrias em religião, admitiu todavia a possibilidade da manipulação mágica da natureza. Tem sido arrolado também como do Pórtico Médio (Bruegger).
Restam fragmentos de suas obras (Les manuscrits d’ Asclepiodote le philosophe, em Revue de Philologie, de littérature et d’ Histoire Ancienne, 60, ano 1943, 341-360).
566. Isidoro. Da escola neoplatônica de Atenas (de Proclo). Sobre ele uma biografia de Damascio, foi conservada em parte por Fócio. Distingue-se do homônimo Isidoro de Sevilha (último patrístico).
568. Hégias. Um dos muitos discípulos de Proclo.
570. Zenodoto. Também discípulo de Proclo, da Escola neoplatônica de Atenas.
571. Damáscio, oriundo de Damasco, estudou em Atenas e Alexandria. Passou a ser escolarca em Atenas. Em 529 foi atingido pelo edito do Imperador Justiniano, que fechou a Academia e demais escolas de Atenas, a título de não serem cristãs, confiscando os bens, dando em consequência término oficial à filosofia pagã.
Acompanhado de Simplício e outros inconformados, seguiu Damáscio para a Pérsia, de onde o grupo retornou, decepcionado.
Escreveu Sobre os primeiros princípios (
A , D Â J ä < B D f J T < • D P ä < ), que se conservou em parte até nós, e alguns comentários, de que se conserva o final sobre o Parmênides e fragmentos de outros.
572. Associou-se Simplício, da Cilicia, ao grupo que se orienta pela escola ateniense de Proclus. Fechada esta em 529, segue, com Damáscio para à Pérsia, onde não demora. Embora neoplatônico, é conhecido como o principal comentador de Aristóteles, depois de Alexandre Afrodísio. Conservam-se os comentários aos quatro primeiros livros da Física (Simpliciu in Aristotelis physicorum ligros quatuor priores commentária, H. Diels, Berlim, 1862-1895, Coll. Acad., IX), ao tratado do Céu (ed. J.L. Heiberg, 1894), ao da Alma (ed. M. Hayduck, 1882), às Categorias (ed. C. Kalbfleisch, 1907). Valioso é também um seu comentário ao Manual de Epicteto.
573. Olimpiodoro o Jovem (VI séc. d.C.), de Alexandria. Diz-se assim em contraste a Olimpiodoro, o Velho, do séc.5-o. a.C. (vd
50). Foi discípulo de Hamônio Hermeio. Por sua vez, Olimpiodoro foi ser professor de Proclus.Escreveu comentários a Platão, de que se conservaram: Górgias, Fedon e Primeiro Alcibiades (este com uma biografia do Mestre da Academia). Fizeram-se várias edições a partir do século 19.
Também comentou alguns livros de Aristóteles, a saber Categorias e Meteoros (ed. C. Stúve, 1900; A. Busse, 1902).
Com referência ao Filebo, que por algum tempo lhe fora atribuído, depois passou a ser considerado de Damáscio.
574. Asclépio (séc. VI) se destacou como autor de um comentário dos cinco primeiros livros da Metafísica de Aristóteles (ed. Hayduck, Berlim, 1888, Col. Acad., IV, 2).
575. Prisciano de Cesárea, Mauritânia (falecido c. do ano 500), mestre de gramática em Constantinopla. Foi mais gramático, do que filósofo, havendo sido do grupo neoplatônico dito alexandrino.
Autor de tratados vertidos depois ao latim: De figuris numerorum; De metris fabularum Terentii; Praeexercitamina; Institutiones grammaticae, ou Institutio de arte grammatica, esta em 18 livros, sua obra principal.
Subdivide-se esta Institutiones grammaticae em: Priscianus major, 16 livros sobre a oração; Priscianus minor, livros 17 e 18, todavia bastante extensos, sobre a sintaxe. Foram vastamente utilizados na Idade Média, destacando-se então o Commentum super Priscianum, de Pedro de Elias (Petrus Heliae) (+ 1150).
Eis pois um legado tipicamente helênico-romano, de uma época ricamente cultural e humanística.
Evaldo Pauli.