(Versão em Português do original em Esperanto)
© Copyright 1997 Evaldo Pauli
CAP. 7
ESCOLA ATOMISTA. 0335y686.
- Como Pensavam os Primeiros Filósofos -
687. Introdução. A importância dos atomistas se encontra no fato de haverem estes filósofos da Grécia clássica se antecipado em vários pontos às teorias atômicas modernas. Ainda outras idéias tem apresentado a escola, porquanto alguns dos seus representantes foram de vasto saber.
A escola atomista é representada por Leucipo (nascido entre c. 490 e 460, falecido c. 420 a.C.) e Demócrito (c. 460-370 a.C.- c. 370 a.C.).
Cronologicamente se situam, pois, os primeiros atomistas no final do período pré-socrático e início do socrático. Desenvolvendo-se em Ábdera, cidade representativa da Trácia (norte da Grécia), alcançou, ao tempo de Aristóteles, uma repercussão considerável, e que mantém ressonância na escola de Epicuro, do período pós-socrático.
688. Ordenamente didático. Se conhecêssemos suficientemente as diferenças entre as doutrinas de Leucipo, mais antigo, e de Demócrito, mais recente, deveríamos tratar o primeiro como um pré-socrático e o segundo como um socrático. Entretanto, as notícias que nos chegaram da escola atomista tratam suas doutrinas como um corpus, atribuído globalmente aos seus dois primeiros representantes, sem muito distinguir entre um e outro.
Perderam-se as obras destes seus autores, de sorte a ser impossível uma análise da evolução interna exaustiva dos mesmos. Presume-se que os aspectos peculiares à atomística sejam posteriores e por isso mais peculiares a Demócrito. Mas, aquilo que é essencial à escola, o atomismo, se deve em primeiro lugar a Leucipo, do qual Demócrito terá sido o continuador e aperfeiçoador.
Com referência aos livros atribuídos a Demócrito, alguns talvez já viessem do mesmo Leucipo. Hoje, estando todos perdidos, já não resta possibilidade de verificação. É lamentável que esta perda ocorresse, porquanto, ao lado da obra de Platão, a dos atomistas terá sido a única dos tempos anteriores capaz de lhe ser comparada, tanto pelo valor, como pelo número de tratados.
"A perda dessas obras é um dos fatos mais lamentáveis para ao estudo das fontes da filosofia antiga" (Windelband, Hist. da filosofia antiga, n.31, p.158).
Alguns autores como Windelband, tentaram a exposição em separado, de Leucipo e Demócrito, mas sem maiores resultados.
Contudo, a história deve perseguir este objetivo, separando o mais que puder os distintos tempos cronológicos do mesmo atomismo. Sem este esforço, se terá a impressão de que Leucipo não passaria de uma introdução ao seu sucessor. Na verdade, porém, Leucipo, que talvez precede em 40 anos a Demócrito, é o autor do essencial da escola. O mesmo Demócrito citou o sistema cósmico de Leucipo, dizendo-o 9 X ( " H * 4 V 6 @ F : @ H (= Grande sistema cósmico). E depois de ambos os mestres, ocorrem ainda os sucessores, do atomismo. Estes atomistas posteriores já se situam no período socrático e pós-socrático.
Resulta, pois, o seguinte quadro didático para a história do atomismo:
Leucipo (vd 0335y690);
Demócrito (vd 0335y705);
Atomistas posteriores (vd 0335y730).
ART. 1O - LEUCIPO DE ABDERA. 0335y690.
691. Ainda que pouco se possa dizer sobre Leucipo, os problemas que o assunto oferece podem contudo alongar o texto, o qual por isso mesmo admite a distribuição didática em dois parágrafos:
- Vida e obras de Leucipo (vd 693);
- Doutrinas de Leucipo (vd 699).
§ 1. Vida e obras de Leucipo. 0335y693.
694. Leucipo (7 , b 6 4 B B @ H ) de Ábdera (nascido entre c. 490 e 460, falecido c. 420 a.C.) é o primeiro filósofo da escola atomista.
É dito de Ábdera, talvez porque ali houvesse nascido, mas sobretudo porque ali floresceu.
A informação vem de Diógenes Laércio. Este deu também outras possíveis procedências, como se lê em seu breve texto :
"Leucipo, de Elea, mas outros dizem de Ábdera, e outros de Mileto" (D. L., IX, 30).
695. O situamento de Leucipo (n. entre 490 e 460 - c. 420 a.C.), no quadro geral dos filósofos de seu tempo, ainda que parcamente conhecido, se consegue estabelecer através da convergência de várias pequenas informações. Dado uma vez como discípulo de Zenão (este nascido cerca de 490 a. C.) , e como anterior a Demócrito (este nascido cerca de 460 a. C.), infere-se tranquilamente que Leucipo teria nascido entre 490 e 460 a. C., o que significa na década de 470 a. C.
No quadro geral dos filósofos do seu século, Leucipo está assim posicionado:
- é mais jovem que Parmênides (c.540 a. C.- c. 479 a. C.), Zenão de Elea (c. 490-c. 430 a. C.), Anaxágoras (c. 500-c. 428 a.C.).
- é contemporâneo de Empédocles (c. 490-435 a.C.), Sócrates (469-399 a.C.), e dos sofistas Protágoras (c. 481-411 a. C.), Górgias de Leôncio (c. 483-c. 375 a. C.).
- é mais velho, que Demócrito (c. 460-c. 370 a.C.),
- bem mais velho que Platão (427-347 a. C.).
696. Passamos ao elenco das várias pequenas informações que levaram ao quadro apresentado.
Diógenes Laércio, acrescentou ao informe sobre o nascimento:
"Ele foi discípulo de Zenão" (D. L., IX, 30).
Mais adiante, o mesmo Diógenes Laércio, já situado no texto sobre Demócrito:
"... Magos e caldeus foram os mestres de Demócrito... sendo criança... Mais tarde recebeu lições de Leucipo" (D. L., IX 34).
Voltando Diógenes a mencionar uma terceira vez a, ainda que passageiramente, a Leucipo, - desta vez ao escrever sobre Epicuro, - declara que este contestava o saber de Leucipo:
"Negava o título de filósofo a Leucipo, mestre de Demócrito, como dizem Apolodoro e outros autores" (D. L., X,13).
De qualquer maneira, esta afirmação denota haver deixado Leucipo elementos que o fizessem ser conhecido e discutido.
Qualificado por Aristóteles como companheiro (© J " Ã D @ H ) de Demócrito, esta condição afasta qualquer dúvida com referência ao relacionamento de Leucipo com o referido Demócrito e a cidade de Ábdera, ainda que pudesse ter vindo de outra parte, como de Eléa ou de Mileto. Não deixa de haver sentido no relacionamento com outras cidades, porque efetivamente o atomismo é influenciado pelo imutabilismo eleático e pela física jônica.
Importante é a mencionada informação vinda de Aristóteles, que situa Leucipo em primeiro lugar, atribuindo a Demócrito a posição de companheiro, ou adepto (é como se pode traduzir (© J " Ã D @ H ). "Leucipo e seu companheiro (ou adepto) Demócrito..." (Metafísica, 985b 4).
Esta maneira muito simples de se referir aos atomistas, para a seguir tratar globalmente da doutrina atomista, significa a aceitação de que Leucipo não era figura insignificante.
Em mais lugares cita Aristóteles a ambos os atomistas, com alternância:
"Leucipo e Demócrito..." (Da geração e corrupção 324, 35);
"Demócrito e Leucipo..." (Ibidem, 314a 21).
A mesma alternância se repete em Do céu.
Simplício, comentador de Aristóteles, também conexiona a Leucipo com a escola eleática.
Em Clemente de Alexandria igualmente se encontra a informação que relaciona Leucipo a Zenão, e com isso à escola eleática, mencionando inclusive a todos os seus representantes, desde o início:
"Xenófanes tem por ouvinte Parmênides, ao qual sucederam Zenão, depois Leucipo, depois Demócrito" (Strômata, 64).
Praticamente se sabe apenas isto da vida pessoal do fundador do atomismo, colocado em relacionamento, de um lado com a escola de Elea, e de outro com Demócrito de Ábdera, de quem teria sido companheiro mais velho.
697. Mégas diakosmos. Sobre as obras de Leucipo as informações são muito fragmentárias e mal documentadas.
Escreveu um livro, cujo título é retomado por Demócrito para um seu outro texto, o que fez confundir provavelmente as informações.
Tácio Aquiles (3-o. séc.) em seu Introdução aos ‘Fenômenos’ de Arato, I, 13 (Diels-Kranz 67 B 1) atribui a Demócrito livro com o título 9 X ( " H * 4 V 6 @ F : @ H (= Grande sistema cósmico, traduzível também por Grande ordem do mundo).
No Papiro Herculano 1788 (Diels-Kranz 67 B 1a) se acusa a Demócrito de haver plagiado a obra de Leucipo.
Com referência ao Grande sistema cósmico (= Mégas diákosmos), Teofrasto discorda de alguns autores e o atribui a Leucipo.
Sobre o espírito é citado por Aécio (I, 24, 4; DK 67 B 2), como obra de Leucipo, ao transcrever uma frase (Frag. 2).
Esta obra é interpretável como sendo apenas a citação de parte da primeira, ou seja , do 9 X ( " H * 4 V 6 @ F : @ H .
§ 2. Doutrinas de Leucipo. 0335y699.
700. Atomismo. Em princípio todas as doutrinas pré-socráticas sobre a natureza são de caráter atomista, porque se imaginam elementos iniciais, de que as coisas se formam por composição progressiva, ao mesmo tempo que podendo retornar aos elementos originários.
Entretanto o atomismo de Leucipo e Demócrito, inaugura um tratamento novo dado ao tema, que destaca nos elementos o seu caráter inicial insecável (– J @ : @ H , -@ < ). São os átomos partículas homogêneas quanto ao conteúdo, ficando a diversificação por conta da figura dos mesmos e dos arranjos atômicos.
Alguns dos aspectos do atomismo foram confirmados pela física moderna, e se citam neste sentido as descobertas de John Dalton (1766-1844), inglês criador da química atômica, e Amadeo Avogadro (1776-1856), físico e químico italiano, com trabalhos sobre o número de átomos e moléculas, sobretudo em massas gasosas.
O que entretanto o atomismo antigo esteve longe de prever foi a atuação das forças, que então se consideravam meramente mecânicas.
Além disto, o atomismo clássico supõe a existência do vácuo (6 , < ` < ) como um espaço simplesmente vazio. Isto não parece fazer sentido, sobretudo se através deste suposto vácuo, como hoje se acredita, atuam forças de atração e repulsão. Por isso, a transformação final do atomismo clássico deverá seguir para a efetiva substancialização do vácuo, fazendo-o um campo de forças e não apenas um vazio.
Mas ainda sobre o vácuo não sabemos com toda a precisão como o entendiam os atomistas, porquanto nos faltam informações. Por isso, não podemos reduzir o atomismo clássico ao atomismo ingênuo daqueles modernos que simplesmente equacionam a realidade como átomos no vazio absoluto.
701. O primeiro informante sobre o atomismo de Leucipo é Aristóteles, que o equaciona juntamente com Demócrito.
"Leucipo e Demócrito explicam todas as coisas por uma só maneira, por um princípio primeiro por natureza" (Geração e corrupção I. 8. 325 a 3 ss.).
Também se refere a ambos o texto de Metafísica I, 4. 985 b 4 - 20 em que se definem o átomo e o vazio, as mudanças pela mistura, as diferenças dos átomos pela sua forma ou figura, como A de N; pela ordem como AN de NA; pela posição, como N e Z (N é um Z deitado).
"Leucipo e seu companheiro (© J " Ã D @ H ) Demócrito tomam como elemento o pleno e o vazio, que eles chamam respectivamente o ser e não-ser. Destes princípios, o pleno e o sólido é o ente: o vazio e o raro, o não-ser (é porque, na sentido deles o não-ser não tem menos existência que o ser, o vazio não existindo menos que os corpos. Estas são as causas dos seres, no sentido de causa material.
E tal como aqueles que admitem a unidade da substância tomada como material engendram todas as outras coisas por meio de modificações desta substância, colocando o raro e o denso como princípios de modificação, estes filósofos pretendem que as diferenças nos elementos são as causas de todas as demais qualidades.
Estas diferenças são, segundo eles, somente em número de três: a figura, a ordem, a mudança. As diferenças do ser, dizem eles, não vêm senão da proporção (D L F : ` H ), do contato (* 4 " 2 4 ( Z ), do deslocamento (J D @ B Z ). Ora a proporção é a figura, o contato é a ordem, e o deslocamento é a posição. Assim A difere de N pela figura, AN de NA pela ordem, e Z de N pela posição.
Quanto ao problema do movimento: de onde e como os seres o possuem, estes filósofos o têm, como os outros, negligentemente passado em silêncio" (Metafísica, 985b 4-20).
Prenuncia-se aqui o moderno sistema dos elementos, até porque Demócrito usou a linguagem das letras.
"E como os corpos diferem pelas formas, e são infinitas as formas, dizem que também os corpos simples são infinitos" (Aristóteles, Do céu III, 4.303).
"Assim como Leucipo, também Demócrito, seu discípulo, dizia que o cheio e o vazio são os princípios, sendo um existente, e o outro não-existente. Pois os átomos são a matéria das coisas, e todo o resto se segue de suas diferenças. Estas são três: forma, movimento e ordem" (Simplício, Física, 28,15).
Ainda sobre o movimento, informou Aristóteles:
"Alguns filósofos, como Leucipo e Platão, consideram que o ato é eterno, porquanto afirmam que o movimento existe sempre. Não obstante, não explicam, nem a natureza do movimento e nem a causa do movimento eterno" (Metafísica XII, 6. 1071 b 32-33) (vd 710).
Em Cícero:
"Ista enim flagitia, Democriti, sive etiam ante Leucipi, esse corpuscula quaedam levia... (De deorum natura, I, 24, 66).
702. Diógenes Laércio informa sobre o pensamento de Leucipo, primeiramente em geral, depois entrando em alguns detalhes sobre o atomismo, finalmente sobre sua cosmogonia e astronomia.
"Admitia a pluralidade absoluta dos seres e suas transformações recíprocas, e ainda a existência simultânea do vazio e do cheio no universo.
Os mundos, diz ele, são formados quando os átomos caem no vazio e ali se aglomeram. Estes corpos, acrescidos de sucessivas adições, formam os astros. O sol, colocado mais além da Lua, percorre um círculo maior.
A Terra, situada no centro, está sujeita a um movimento circular. Sua forma é a de um tambor.
Foi [Leucipo] o primeiro a estabelecer os átomos como princípios das coisas (B D ä J @ H J , • J @ : @ L H • D P V H ß B , D F J Z F " J @ ).
Estas é uma exposição geral de seus pontos de vista. Os detalhes são como seguem:
Ele declara que o todo é ilimitado, como já disse. Mas, o todo parte é cheio [matéria, átomos], parte é vazio [espaço]. Ambos estes elementos são infinitos, como também os mundos que produzem e que neles se resolvem.
Os mundos se formam desta maneira:
Grande número de corpos separados do infinito e afetando todas as formas possíveis, se movem na imensidade do vazio; de seu conjunto resulta um redemoinho único, de onde, arrastados circularmente, entrechocam uns com os outros e acabam por desfazer-se, de tal sorte, que se reúnem os que são semelhantes.
Mas, como todas as partículas não podem, por causa de sua multiplicidade, seguir uniformemente o movimento do torvelinho, as mais ligeiras são lançadas para o vazio exterior.
As outras permanecem e, abraçadas no mesmo movimento, se enlaçam e formam uma espécie de contínuo, um primeiro conglomerado esférico, uma membrana que envolve corpos de toda espécie.
Depois, a continuidade do movimento circular, unida à resistência do núcleo central, faz que os corpos sejam levados incessantemente para o centro, chegando a ser cada vez menos densa a membrana exterior; uma vez no centro, permanecem unidos nele, e se forma a terra.
Por outra parte, se produz no espaço outro conglomerado que se acrescenta constantemente pela arribação de corpos exteriores e que, animado o mesmo de um movimento circular, arrasta e leva consigo tudo o que encontra.
Alguns dos corpos assim agrupados se reúnem, e formam compostos primeiramente úmidos e lamacentos; despejados seguidamente e arrastados pelo movimento universal do torvelinho circular, se inflamam e constituem as substâncias dos astros" (D. Laércio, IX, 33).
703. Astronomia de Leucipo. É possível considerar em separado de sua cosmogonia, a astronomia. Já inicialmente o texto de Diógenes Laércio coloca alguns elementos neste sentido:
"O sol, colocado mais além da Lua, percorre um círculo maior.
A Terra, situada no centro, está sujeita a um movimento circular. Sua forma é a de um tambor" (D. L., IX, 20
Prossegue o restante texto de D. Laércio:
"A órbita do sol é a mais afastada, a da Lua é a mais próxima à Terra; entre os dois estão as órbitas dos outros corpos celestes.
Todas estrelas se inflamam por causa da rapidez do movimento; o calor do Sol é ajudado também pelas outras estrelas; a Lua só é iluminada debilmente. O Sol e a Lua são eclipsados [quando... ] (uma provável lacuna do texto).
[ ... mas a obliquidade do círculo do Zodíaco é devida], à que a Terra está inclinada ao meio dia (Sul).
Às regiões árticas estão nevadas, são extremamente frias e geladas. Os eclipses do Sol são raros. A frequência dos da Lua se devem à desigualdades das órbitas destes astros.
A produção dos mundos, seu desenvolvimento e declínio se devem a certa necessidade, cuja natureza ele não especifica" (D. Laércio, IX, 31-33).
ART. 2O - DEMÓCRITO DE ÁBDERA. 0335y705.
706. Introdução. As notícias sobre Demócrito o apresentam com uma das mais representativas figuras do pensamento antigo. Emerge desde logo como mais importante que Leucipo, e de fato o foi.
Didaticamente:
- Vida e obras (vd 708);
- Doutrinas (vd 720).
§ 1. Vida e Obras. 0335y708.
709. Demócrito () 0 : ` 6 D 4 J @ H ) nasceu em Ábdera (norte da Grécia) (c. 460-370 a.C.- c. 370 a.C.).
Mesmo que alguns o façam haver nascido em Mileto (Jônia, Ásia Menor), seu lugar de atuação foi no meio abderitano, então muito ativo, resultância aliás do desenvolvimento macedônio recente.
"Demócrito, - filho de Hegesistrato, segundo outros de Atenócrito, ou ainda de Damasipo, - é de Ábdera; e conforme alguns, é de Mileto" (D. Laércio, IX,34).
710. Cronologicamente, a posição de Demócrito é clara, em vista de mais informações transmitidas por Diógenes Laércio:
"Quanto ao tempo, ele mesmo diz em Micro Diacosmos, que era jovem quando Anaxágoras era velho e que tinha 40 anos menos que ele. Nos dá a conhecer também que havia escrito seu Micro Diacosmos 737 anos depois da conquista de Tróia.
Apolodoro, na Crônicas, coloca seu nascimento na 80a Olimpíada. Trásilo, porém, em sua obra Preparação para a leitura dos escritos de Demócrito, o faz nascer no 3o ano da 77a Olimpíada, um ano antes que Sócrates. Segundo este cálculo, foi contemporâneo de Arquelau, discípulo de Anaxágoras e Enópidas aos quais cita em vários lugares de seus escritos" (D. L., IX, 41).
Quanto à data do nascimento de Demócrito, ela se fixa com facilidade. Tendo Demócrito 40 anos menos que Anaxágoras e, nascendo este na 77a olimpíada (500-497), infere-se que Demócrito nasceu pelo ano 460 a.C.
Foi Demócrito chamado por Aristóteles como o companheiro (© J " Ã D @ H ) de Leucipo (vd 696), num contexto que se deve entender como partidário das mesmas idéias, ainda que em idade estivessem distanciados de algumas décadas.
711. Com referência aos seus estudos e contatos de Demócrito, diz a informação de Diógenes Laércio:
"Conta Heródoto que, havendo Xerxes recebido hospitalidade em casa de seu pai, deixou nela magos e caldeus que foram os mestres de Demócrito. Deles aprendeu, sendo menino, teologia e astronomia; mais tarde recebeu lições de Leucipo e também, segundo alguns autores, de Anaxágoras, quarenta anos mais velho" (D. L., IX, 34).
Quanto a Xerxes (rei da Pérsia de 485-465 a.C.), logo de início invadiu a Grécia pelo norte e foi quando transitou pela Macedônia. Os magos e caldeus, que então teriam vindo com o rei, tomam contato com o meio científico de Ábdera. Este meio já era ativo e nele existiam elementos como o atomista Leucipo e o sofista Protágoras, este último mais jovem. Para que os magos fossem mestres do menino Demócrito, deverão ter permanecido na cidade, porquanto o nosso atomista ao tempo de Xerxes ainda não fora nascido.
Não obstante, Demócrito superou aos seus mestres, encaminhando-se para um monismo sistemático. Sobretudo não manteve o misticismo dos magos e nem o dualismo do bem e do mal da filosofia persa em geral, e que então se expandia no Ocidente sob a forma do orfismo e do pitagorismo. Desenvolveu o atomismo de Leucipo. Eliminou elementos racionalistas das homeomerias e do Nous, de Anaxágoras.
Deste poderia ter sido discípulo, mesmo para depois contrariá-lo:
"Criticava seu si (de Anaxágoras) sobre a organização do mundo e sobre a inteligência; enfim, tinha contra ele sentimentos hostis, porque o não admitira em suas conversações.
Como poderia pretender-se que fora seu discípulo?" (D. Laércio, citando Favorino, IX,35).
712. Tomou seus haveres e se foi viajar.
"Tinha dois irmãos maiores, com os quais compartilhou a herança paterna. A maior parte dos autores estão conformes em reconhecer que ele tomou dinheiro para cobrir os gastos de suas viagens, porém que só se reservou uma pequena parte de sua herança, o que não o garantiu, contudo, contra as suspeitas de seus irmãos maiores. Pretende Demétrio que sua parte se elevava a mais de cem talentos e que os gastou inteiramente" (D. L., IX, 35-36).
Suas viagens teriam alcançado a Pérsia, o Egito. A possibilidade de ir tão longe acontecia porque a este tempo uma parte do mundo grego (a Jônia) já se encontrava integrada ao mundo persa, o mesmo acontecendo com o Egito anteriormente conquistado por Cambises e desde muito antes aberto aos gregos. Mais difícil talvez fosse haver ido até a Índia.
"Demétrio, nos Homônimos, e Antístenes, nas Sucessões, asseguravam que viajou ao Egito para aprender Geometria com os sacerdotes e que foi também às nações dos Caldeus e dos Persas, e até o mar Vermelho. Alguns autores são de parecer que também manteve conversações com os gimnosofistas da Índia e que percorreu a Etiópia (D. L., IX, 35).
Em Atenas, onde também esteve, não estabeleceu relações. Parece haver assim acontecido em vista de serem suas preocupações pessoais a filosofia da natureza, ao passo que a dos atenienses a sofística e a política. Observe-se que já ali estivera Anaxágoras, de 460 a 430 a. C. (tempo de Péricles), sendo forçado a abandonar a cidade por causa de suas idéias avançadas sobre a natureza e os deuses.
Não teve contato com Sócrates, ao que parece, do qual não apresenta qualquer influência. Mesmo mais tarde, não parece que Platão o conhecesse com profundidade, pois jamais o cita pelo nome em qualquer dos seus diálogos.
Apenas ao tempo de Aristóteles o atomismo será objeto de discussão, em Atenas. "Conta também Demétrio que foi a Atenas e que, pouco cuidadoso da glória, não intentou dar-se a conhecer; ele conheceu a Sócrates, porém sem ser conhecido por este:
"Vindo a Atenas, - disse, - ninguém me conheceu" (D. L., IX,36).
"Demétrio de Falera diz na Apologia de Sócrates que ele não veio jamais a Atenas. Se assim for, o desdém que mostra por tal cidade, deve fazê-lo aparecer-nos maior todavia; porque, em vez de dever sua glória ao lugar que habitava, preferia enobrecê-lo com sua presença" (D. L., IX, 37).
713. Retornou finalmente Demócrito à cidade natal. Para um homem de ciência, não fora sem sentido manter-se ali, porquanto em Ábdera se desenvolvia, desde Leucipo, uma sociedade de avançado saber. Agora, ele mesmo, seria um dos seus mais representativos mestres.
Não restam dados para determinar quando teria ocorrido o retorno de Demócrito à sua cidade natal de Ábdera. Poderia ter acontecido antes de sua plena maturidade, por conseguinte pela volta de 420 a.C.
Os longos anos que depois viveu, lhe deram tempo para criar um grande número de tratados. Estes demonstram que devia haver em Ábdera uma escola, para os quais serviam.
Paralelamente atuava em Atenas, ainda por algum tempo, Sócrates (falecido em 399 a. C.). Platão criaria em 387 a. C.) a Academia, portanto, ainda em vida de Demócrito, cuja longevidade o levará até o ano 370 a. C.
714. Perfil do sábio de Ábdera. Pelos seus hábitos de recolhimento, solidão e estudiosidade , o filósofo atomista Demócrito despertou a admiração dos seus contemporâneos:
"Antístenes no-lo mostra na soledade e retirado entre as tumbas, a fim de poder meditar desembaraçadamente e exercitar livremente sua inteligência. Segundo o mesmo autor, gastou toda sua fortuna em viagens e regressou em completa nudez, tanto que seu irmão Dámaso se viu obrigado a mantê-lo.
Haver feito uma predição, que o cumprimento confirmou, lhe valeu porém o título de divino.
Sabendo, disse Antístenes, que uma lei proibia enterrar em sua pátria àquele que houvesse gasto seu patrimônio, e, não querendo dar razão aos invejosos e caluniadores, leu [Demócrito] a seus concidadãos seu Megas Diacosmos, sem dúvida a melhor de todas as suas obras. Foi tal o entusiasmo que, não contentes com um obséquio de 500 talentos, lhe levantaram estátuas.
Quando morreu, foi enterrado a expensas do público. Havia vivido cerca de cem anos" (D. L., IX,38-39).
Outros informes falam em morte aos 109 anos (D.L., IX,43).
Acredita-se que teve alguns contatos com Hipócrates (469-399 a.C.) médico com atuação em Atenas e que por último viveu em Larrisa, da Tessália. Suas observações físicas e fisiológicas terão aproveitado muito a Demócrito, exatamente seu contemporâneo.
"Conta Atenodoro, no livro VIII de seus Passeios, que tendo sido procurado por Hipócrates, mandou-lhe Demócrito trazer leite e que, ao vê-lo declarou que aquele leite procedia de uma cabra negra que não houvera parido não mais que uma vez. Isto fez Hipócrates admirar-se de sua aguçada penetração.
Hipócrates havia levado consigo uma jovem; no primeiro dia lhe disse Demócrito, - Salve Jovem! No dia seguinte, porém, disse, - Salve, jovem mulher! Ela havia efetivamente coabitado naquela noite" (D. L., IX, 42).
As relações entre Demócrito e Hipócrates deram lugar a uma correspondência, hoje considerada apócrifa.
715. O silêncio absoluto de Platão sobre Demócrito, seu laborioso contemporâneo, já era comentado na antiguidade, porquanto é difícil entendê-lo, visto que aquele atomista era mais velho 30 anos e possuía uma obra, mais antiga que a dele e certamente mais erudita sobre o estudo da natureza.
Relata Diógenes Laércio:
"Aristoxeno, em seus Comentários históricos, que Platão desejou queimar todos os escritos de Demócrito que ele pôde coletar, mas que os pitagóricos Amiclas e Clínias o impediram, dizendo que não era vantagem fazê-lo, porque os livros já se achavam muito difundidos.
Este relato se confirma no fato segundo o qual Platão, que menciona quase todos os filósofos antigos, nenhuma alusão faz a Demócrito, nem mesmo onde fora necessário combatê-lo, obviamente porque sabia ter contra si o melhor dos filósofos de quem Timon fez o seguinte elogio:
Tal é o sábio Demócrito, guardião do discurso, hábil disputador, o melhor dentre os que li" (D. L., IX, 40).
Referiu-se Platão várias vezes ao materialismo (Sofista, 246 a; Teeteto 155 e; Fedon, 79ss.), mas sem que isto se fizesse referir especialmente ao atomismo.
Hoje mostram-se alguns sinais de Demócrito na ética e na metafísica de Platão.
Na ética de Platão os sinais de Demócrito foram apontados primeiramente por R. Hirzel (Untersuchung zu Ciceros philos. Schriften, I, 141 ss), em Filebo (43 ss) e em Republica (583 ss).
Referências metafísicas, quer positivas, quer negativas, se pode acreditar haver em Filebo (28 ss) e referências físicas em Timeu, em conexão com o anterior.
É difícil acreditar que Platão se omitisse por um eventual ódio a Demócrito, de sorte se ter de dar como invenção a história relatada por Aristoxeno e retransmitida por Diógenes Laércio, sobre a intenção de queimar os livros do grande abderita.
Entretanto não basta como esclarecimento, que os temas de Platão fossem humanos, enquanto que os de Demócrito físicos. Não poderia Platão se ter omitido de abordar sem motivo o atomismo em Sofista e em Parmênides, porquanto estes diálogos se propuseram tratar do ser, do uno e do múltiplo.
De outra parte, fora Demócrito um pensador enciclopédico, não se havendo restringido apenas ao mundo físico.
Poderia haver acontecido que ao tempo de Platão ainda não houvesse uma atenção maior para o que em geral acontecia em Ábdera. Esta alegação é um começo de explicação para o silêncio de Platão sobre Demócrito, mas não explica tudo.
716. Obras. Muito escreveu Demócrito. Ultrapassa o número dos seus títulos aos de Platão.
Usou Demócrito o método didático, de sorte a ter dito talvez muito mais em seus textos, do que Platão no seu estilo dialogal. De outra parte, porém, o caráter literário do texto de Platão contribuiu para a conservação dos seus livros.
Ainda que se houvessem perdido todas as obras de Demócrito, esta perda só foi acontecer alguns séculos depois. Infere-se, por conseguinte, que várias gerações aprenderam nos livros do sábio de Ábdera. A prova disto está no fato de que restaram mais de 300 fragmentos, cerca de 15 páginas de texto, em autores que citaram a Demócrito.
Pouco se pode decidir hoje sobre a autenticidade de cada título atribuído a Demócrito, porquanto já não restam os livros para um exame direto.
Mas, todos pertencem ao círculo do atomismo, e que Demócrito comandava (vd 702).
Com rigor, pode-se tomar como certamente autênticas as obras seguintes:
Pequeno sistema cósmico (9 4 6 D Î H * 4 V 6 @ F : @ H );
Sobre a paz interior (A , D Â , Û 2 4 : \ " H ).
Com referência ao título 9 X ( " H * 4 V 6 @ F : @ H (= Grande sistema cósmico, traduzível também por Grande ordem do mundo), Teofrasto, que é um informante mais antigo, discorda de alguns autores e o atribui a Leucipo (vd 697). Esta discordância de Teofrasto foi anotada por Diógenes Laércio, no curso mesmo da lista que apresentou das obras de Demócrito (IX, 46).
Os fragmentos éticos, que haviam sido postos em dúvida, foram restabelecidos em sua autenticidade e importância por Paul Natorp (Die Ethik des Demokritos, Marburgo, 1893).
717. O ordenamento em 15 tetralogias. A grande lista das obras de Demócrito, que chegou até nós através de Diógenes Laércio (IX, 47), foi ordenada pelo gramático romano Trásilo, ao tempo do Imperador Tibério (14-37), quando ainda a podia verificar sobre os livros subsistentes. À semelhança do que o mesmo Trásilo já fizera com os livros de Platão, distribuiu as obras de Demócrito em 15 tetralogias, além da disposição em 4 classes.
A tradução dos títulos é muitas vezes aproximativa, por causa da alteração semântica dos termos gregos. Em alguns casos precisaríamos o conteúdo das obras desaparecidas para decidir sobre o contexto de seus títulos. Para assegurar a separação dos títulos, colocamos ponto após cada um deles, e damos início com linha nova e hífen ao título imediato.
"Trásilo deixou um catálogo metódico de suas obras, ordenando-as como as de Platão quatro classes (6 " J J , J D " 8 @ ( \ " < ).
AS OBRAS ÉTICAS são as seguintes:
I.
- Pitágoras.
- Disposição do Sábio.
- Dos Infernos.
- Tritogenia (assim denominada porque dela, Minerva, procedem três coisas, nas quais se resume todo o homem, raciocinar bem, expressar bem o pensamento e obrar bem).
II.
- Da probidade ou da virtude.
- O corno de Amaltea (Cornucópia da Abundância).
- Sobre a paz interior (A , D Â , Û 2 4 : \ " H ).
- Comentários morais: a obra sobre O bem estar não mais se encontra.
Tais foram as obras éticas.
AS OBRAS FÍSICAS são as seguintes:
III .
- Grande organização do mundo (que a escola de Teofrasto atribui a Leucipo).
- Pequeno sistema cósmico (9 4 6 D Î H * 4 V 6 @ F : @ H );
- Descrição do mundo (5 @ F : @ ( D " N \ 0 ).
- Sobre os planetas.
IV.
- Da natureza, primeiro tratado.
- Da natureza do homem (ou da carne), dois livros.
- Da inteligência.
- Dos sentidos (alguns editores reúnem as duas últimas obras sob o título de Tratado da alma).
V.
- Dos humores.
- Das cores.
- Das diferentes figuras.
Da mutação das figuras;
VI.
- Confirmações (complemento das obras precedentes).
- Das imagens ou das previsões.
- Da lógica, ou critérios do pensamento, em 3 livros.
- Problemas.
Tais foram as obras sobre a física.
Não classificadas:
- Causas dos fenômenos celestes.
- Das pestes ou das enfermidades pestilenciais, 3 livros;
- Causas dos fenômenos do ar.
- Causas da face terrestre.
- Causas do fogo e das coisas ao fogo.
- Causas referentes ao som.
- Causas relativas aos germes, às plantas e às frutas.
- Causas relativas aos animais, em 3 livros.
- Causas diversas [ou Miscelânea de causas].
- A respeito do magnete.
Estas obras não foram classificadas.
AS OBRAS MATEMÁTICAS são as seguintes:
VII.
- Da diferença em um ângulo, ou da tangência do círculo e da esfera.
- Sobre a geometria.
- Geométrica [ou Das coisas da geometria].
- Dos números.
VIII.
- Das linhas incomensuráveis e dos sólidos;
- Explicações [Extensões, projeções].
- Calendário ou Tábua astronômica;
- Discussão sobre a clepsidra [relógio de água].
IX.
- Uranografia [Descrição do céu].
- Geografia.
- Descrição do Polo.
- Actinografia [Descrição dos raios da luz).
Estas foram as obras de matemática.
AS OBRAS DE MÚSICA [literárias e musicais ] são as seguintes:
X.
- Sobre o ritmo e da harmonia.
- Sobre a poesia.
- Da beleza dos versos.
- Das letras eufônicas e cacofônicas [bem ou mal sonantes].
XI.
- Sobre Homero, ou da boa pronúncia e dos dialetos.
- Do Canto.
- Dos Nomes.
Estas foram as obras sobre música e poesia.
AS OBRAS SOBRE AS ARTES são as seguintes:
XII.
- Prognósticos.
- Sobre a dieta e a dietética.
- Diagnóstico médico.
- Causas favoráveis e desfavoráveis.
XIII.
- Da Agricultura, ou agrimensura.
- Da Pintura.
- Tratado sobre a Tática, e
- Sobre a arte militar.
Tais foram suas obras.
Alguns autores incluem à suas obras, títulos em separado, tomados às suas notas:
- Sobre os escritos sagrados de Babilônia.
- Sobre os [escritos sagrados] em Meroe.
- Uma viagem em torno do Oceano.
- Sobre [o reto uso da] a história..
- Um tratado caldeu.
- Um tratado frígio.
- Da febre e daqueles cuja doença os faz tossir.
- Dos selos.
- Problemas.
Atribuem-se-lhe ainda outros tratados; estes são porém, ou extraídos de seus livros, ou obras evidentemente não genuínas.
Estes foram os livros que ele escreveu e seu número" (D. Laércio, IX, 45-49).
702. Diante da lista de obras de Demócrito, apresentada por Trásilo e retransmitida por Diógenes Laércio, tem-se a viva sensação de se estar diante de um grande corpus de escritos, sem precedentes até ao tempo de seu autor, cobrindo praticamente todos os assuntos naturais, com a respectiva ponderação filosófica.
Ainda que se queira atribuir a grande lista de obras mencionada à escola de Ábdera, operando pelo mestres, o mentor de toda esta criação terá sido aquele que acima de tudo criou o movimento. Foi a ele, o mestre inteligente e de longa vida, Demócrito, a quem finalmente foi atribuído o mérito de todo o conjunto.
É evidente que alguns tratados deverão ter sido de Leucipo, como diz claramente Teofrasto a respeito de Grande organização do mundo. E outras deveriam ter sido preparados pelos demais professores.
A escola de Ábdera tem continuidade após a morte de seu grande representante Demócrito, alcançando os tempos de Aristóteles e Epicuro. Seus grandes continuadores foram Metrodoro de Quios (vd 732), Anaxarco (vd 734), Nausífanes (vd 735) e outros.
§ 2. Doutrinas de Demócrito. 0335y720.
721. O atomismo é o destaque principal de Demócrito. Para apreendê-lo adequadamente precisamos atender em separado primeiramente à natureza dos átomos e do vazio; depois, ao peso, divisão e movimento dos átomos; por último, às misturas resultantes.
Esta distribuição se fará apenas na medida do possível, porque os textos não o permitem por vezes. Tomado o atomismo de Demócrito ao de Leucipo, embora acrescido de inovações, impossível expô-lo sem alguma repetitividade, porque algumas das informações não distinguem o que foi de um, e o que de outro.
Apesar de haver frequentado aos magos e logosofistas, bem como aos demais filósofos jônicos, Demócrito se livra de influencias misticistas e antropomórficas, desenvolvendo um materialismo puramente mecanicista. Somente há o pleno e o vazio, movimentando-se os átomos no espaço constituído pelo vazio.
Diógenes Laércio diz em seu informe sobre o atomismo de Demócrito:
"Opinou o seguinte: o princípio de todas as coisas são os átomos e o vazio (• D P H , É < " 4 J ä < Ô 8 T < • J ` : @ L H 6 " Ã 6 , < ` < ); tudo o mais é opinião (J J * – 8 8 " B V < J " < , < @ : \ F 2 " 4 ).
Os cosmos [ou mundos]são ilimitados; surgem e se decompõem. Nada pode vir à existência a partir do não existente; nada do que é, passa ao que não existe. E os átomos são ilimitados em tamanho e multidão (6 " Ã J H • J ` : @ L H • B , \ D @ L H J , , É < " 4 6 " J : X ( , 2 @ H 6 " Â B 8 2 @ H ).
Movem-se em vórtice em todo o universo, e geram todas as coisas compostas - fogo, água, ar, terra; pois todas estas coisas são conglomerados de átomos, sendo estas pela sua solidez impassíveis e inalteráveis.
O sol e a lua são compostas de tais polidas e esféricas massas, e assim também a alma, a qual, ele diz, ser idêntica com a razão.
Nós vemos em virtude do impacto das imagens (, Æ * f 8 T < ) sobre nossos olhos.
Todas as coisas acontecem pela força da necessidade, sendo o vórtice a causa da criação de todas as coisas, e isto ele chama necessidade.
O final da ação é a tranquilidade, que não é idêntica com o prazer, como uma falsa interpretação entendeu, mas um estado em que a alma se encontra continuamente calma e firme, sem ser perturbada por qualquer superstição ou qualquer emoção. Isto ele chama de bem-estar e com vários outros nomes.
As qualidades das coisas existem por convenção; na natureza não há senão átomos e vazio. Tais são suas opiniões" (D. Laércio, IX, 44-45).
Aristóteles, que por primeiro se ocupou amplamente de Demócrito, quase sempre o cita juntamente com Leucipo, razão porque se torna repetitivo se fizermos um estudo em separado sobre ambos. Seja o seguinte texto, em que se define o átomo e depois também o vazio:
"Leucipo e Demócrito explicam todas as coisas por uma só maneira, por um princípio primeiro por natureza...", em Geração e corrupção I.8. 325 a 3 ss.
Também se refere Aristóteles a ambos os atomistas conjuntamente, em Metafísica I, 4. 985 b 4 - 20 (vd 701 texto completo), onde se destaca o seguinte sobre como se dão as diferenças das coisas:
" Segundo eles, estas diferenças são somente em número de três: a figura, a ordem, o deslocamento. As diferenças do ser, dizem eles, não vêm senão da proporção (D L F : ` H ), do contato (* 4 " 2 4 ( Z ), do deslocamento (J D @ B Z ). Ora a proporção é a figura (Æ * X " ) , o contato é a ordem (J V > 4 H ), e o deslocamento é a posição (2 X F 4 H ). Assim A difere de N pela figura, AN de NA pela ordem, e Z de N pela posição [N é um Z deitado]" (Arist., Metaf'. 985b 15).
Prenuncia-se aqui o moderno sistema dos elementos, até porque Demócrito usou a linguagem das letras.
Anota-se o uso da palavra idéia no sentido de figura ou forma, para um aspecto concreto da coisa, ou seja, do átomo. Este uso da palavra ocorre também em Anaxágoras, finalmente porque Platão podia falar em idéias reais, situadas no transcendente e que vão tornar-se as formas modelares das coisas contingentes.
Um dos livros de Demócrito se intitula Sobre as formas (A , D Â Æ * , ä < ), anotado por Sexto Empírico, Contra os matemáticos VII, 137) e que se deve referir às formas dos átomos.
722. Pertencem ao vocabulário técnico de Demócrito as palavras do texto citado e que dizem proporção, contato e deslocamento (D L F : ` H , * 4 " 2 4 ( Z , J D @ B Z ), de que resultam as diferenças dos seres, a que se refere o texto mencionado de Aristóteles e de seus comentadores (Ascl. 33,26).
Sobre a natureza dos átomos ainda informou Aristóteles:
"Em geral, admitir como um princípio de explicação suficiente o fato, de que algo é e acontece sempre assim, não é fazer uma suposição correta. Contudo, a isto reduz Demócrito as causas naturais: porque assim aconteceu anteriormente; e não crê dever procurar o princípio deste sempre; tem ele razão em tal ou tal caso, mas não se trata de todos. Com efeito, no triângulo, os seus ângulos são sempre iguais a dois retos, mas a causa de tal eternidade é outra; os princípios, contudo, não têm, além de próprios, outra causa de sua eternidade" (Aristóteles, Física VIII, 1.262 a).
"E como os corpos diferem pelas formas, e são infinitas as formas, dizem que também os corpos simples são infinitos" (Aristóteles, Do céu III, 4.303).
Simplício, ao comentar um texto de Aristóteles, expôs com detalhes a doutrina de Demócrito sobre os átomos:
"Poucas notas marginais da obra de Aristóteles De Demócrito mostrarão a opinião destes homens.
Demócrito julga que a natureza das coisas eternas são pequenas substâncias infinitas e em grande quantidade.
Para estas admite um outro lugar infinito em grandeza. E chama ao lugar com estes nomes vazio, nada, infinito, e à cada uma das substâncias como os nomes algo, sólido, ser.
E julga que as substâncias são tão pequenas que fogem às nossas percepções. E lhes são inerentes formas de toda espécie, figuras de toda espécie, e diferenças em grandeza.
Destas, pois, como de elementos, [Demócrito] engendra e combina todos os volumes visíveis e perceptíveis. E estas substâncias se agitam e são arrebatadas no vazio por causa da dissemelhança e das outras diferenças mencionadas; e, arrebatadas, tombam e se enlaçam num entrelaçamento tal, que faz com que elas se toquem e estejam próximas umas das outras, e são todavia uma só natureza a partir delas verdadeiramente. Elas não engendram qualquer uma, pois é deveras ingênuo que o duplo ou múltiplo se tornem um.
E a causa de se coordenarem as substâncias umas com as outras até certo ponto, ele [Demócrito] atribui aos ajustes e correspondências dos corpos. Pois alguns deles são oblíquos, outros em forma de anzol, oco, curvos, e mais outros de inúmeras diferenças.
Julga, portanto, que se mantêm a si mesmas e se coordenam até que alguma mais forte por uma necessidade surgindo do ambiente as agite e disperse. E afirma que a geração e a separação que lhe é contrária se processam não apenas com animais mas também com plantas, com mundos e, em suma com todos os corpos sensíveis. Se, efetivamente, a geração é uma combinação dos átomos, a concepção é uma separação, e, conforme Demócrito, a geração seria uma alteração" (Simplício, Do céu, p.294,33 Heib.).
"Assim como Leucipo, também Demócrito, seu discípulo, dizia que o cheio e o vazio são os princípios, sendo um existente, e o outro não-existente. Pois os átomos são a matéria das coisas, e todo o resto se segue de suas diferenças. Estas são três: forma, movimento e ordem" (Simplício, Física, 28,15).
Também Aécio se ocupa da natureza dos átomos:
"Os princípios são o cheio e o vazio" (Aécio I,3,16).
"Os átomos têm grandeza e forma, às quais Epicuro acrescenta o peso, porque os corpos, dizia, ele, movem-se pela ação do peso" (Aécio I,3,18).
"Os átomos não são divisíveis, e não há divisão até o ilimitado" (Aécio I,16,2).
723. O vazio (ou vácuo), como parte do todo, e dentro do qual se move o átomo, constitui a originalidade principal do sistema atomista e, ao mesmo tempo, seu lado frágil. A fim de ser compreendido como um espaço, o vazio é algo; ainda que seja descrito como um não-ser, o atomismo não está dizendo, que ele seja um nada simplesmente.
Com referência ao espaço, também não parece possível conceituá-lo senão como fazendo parte integrante do próprio corpo do átomo. O espaço pertence ao corpo em si mesmo; cada corpo carrega consigo o seu espaço; o corpo é seu espaço e não existe outro espaço que este do corpo, de tal maneira que, aniquilado o corpo, com ele se aniquila o espaço; sendo o espaço uma determinação do mesmo corpo, somente se pode conceber a separação de corpo e espaço mediante uma abstração mental e a imaginação, criando então o assim chamado espaço imaginário, e dito também espaço matemático.
A concepção do espaço como determinação do corpo substancial será desenvolvida por Aristóteles; ele também conceberá assim o tempo, que portanto se confunde com a mesma permanência ou duração do existir, do ser. Assim espaço e tempo se unem, conforme figurativamente se diz que são terceira e quarta dimensão das cosias. Há, pois, uma oposição manifesta e radical entre o atomismo de Leucipo e Demócrito, de um lado, e a concepção aristotélica de corpo.
Certamente a tese de Aristóteles apresenta muitas dificuldades para explicar o movimento, porquanto os corpos, ao se movimentarem, como que deverão carregar consigo o seu espaço. Entretanto, o que importa aqui destacar é a origem de uma discussão, que teve começo com os atomistas, por sua vez influenciados pelo eleaticismo, do qual entretanto discordavam no que se refere ao vazio. Todavia o problema não recebeu tratamento mais profundo, ou pelo menos não restaram notícias claras a respeito.
Plutarco fez uma referência ao nada dos atomistas:
"Colotes diz contra Demócrito que ele, afirmando que cada uma das coisas não é mais assim do que assim, confunde a vida. Mas Demócrito está tão longe de pensar, que cada uma das coisas não é mais assim do que assim, confunde a vida. Mas Demócrito está tão longe de
pensar que cada uma das coisas não é mais assim, que lutou contra Protágoras, autor de tal afirmação; e contra ele escreveu obras numerosas e convincentes. Não tendo conhecimento dessas obras nem em sonho, Colotes errou sobre o enunciado do homem (isto é, de Demócrito), no qual há uma definição: o ada não existe mais que o nada, chamando de ada o corpo e de nada o vazio, já que este também é uma certa natureza e substância própria" (Plutarco, Contra Colotes 4, p.1108 F.).
O atomismo de Descartes excluiu o vácuo. Depois, Newton voltou ao espaço físico vazio.
O que a teoria atômica denomina vácuo não pode ser necessariamente um vazio. O mais que poderá dizer é que nada detecta ali. Hoje já não pode dizer que pelo suposto vácuo atuam forças da gravidade.
724. Peso e dureza. O atomismo clássico relacionou com o vazio o peso e a dureza. Uma vez considerados compostos de muitos átomos. Imaginou que, havendo mais corpúsculos neste vazio, o todo se torna mais pesado e duro; havendo menos, e sendo então em maior número os espaços vazios, o corpo também se apresenta mais leve e mole.
Surge aqui uma teoria, que tem o mérito de avançar uma explicação para fenômenos físicos importantes. Mas ainda estabelece que o corpúsculo individualmente maior, também é de maior peso.
A informação veio através de Aristóteles:
"Na verdade diz Demócrito que cada um dos elementos indivisíveis é tanto mais pesado quanto maior" (Da geração e corrupção I,8. 326 a 9).
Com referência aos espaços menos e mais vazios a influenciarem o peso, contestou Aristóteles a teoria, ao mesmo tempo que deu esta informação:
"Para os que dizem sólidos os primeiros elementos é mais admissível que o maior é o mais pesado deles. E dos compostos, já que cada um deles não parece assim, mas ao contrário observamos que muitos, menores em volume, são mais pesados, como por exemplo, o bronze em relação ao algodão, alguns afirmam e julgam que a causa é outra.
Pois dizem que o vazio, encerrado nos corpos, torna-os mais leves, e faz com que os maiores apresentem menos peso; pois têm maior número de vácuos. Falam, portanto deste modo, mas é preciso acrescentar aos que assim discorrem, que um corpo, quando mais leve, não apenas tem mais espaços vazios, mas também é menos sólido; pois, se o sólido exceder a proporção do vazio, o corpo não será mais leve. Por isso, dizem que o fogo é o mais leve dos corpos, por ser o mais vazio.
Poderá acontecer, por conseguinte, que uma grande quantidade de ouro, com maior número de vazios do que uma pequena quantidade de fogo, seja mais leve, se não tiver o sólido tantas vezes mais. E sendo a matéria uma oposição, como os que a fazem vazia e plena, não será possível saber por que causa os intermediários entre os absolutamente pesados e os absolutamente leves são mais pesados e mais leves em relação uns aos outros e em relação aos simples.
O definir por grandeza e por pequenez se parece mais com uma ficção do que as definições anteriores. Nem há nada absolutamente leve nem absolutamente em ascensão senão por consequência ou por impulso e muitas coisas pequenas são mais pesadas que poucas grandes" (Do céu, IV, 2. 309a 1 ss.).
Continua ainda hoje coisa mal esclarecida o que seja a propriedade do peso, ou gravidade, dos corpos.
Sobre a questão informou também Teofrasto, referindo-se ao mesmo tempo ao pesado e leve, duro e mole:
"Quantos aos corpos compostos, o mais leve assim é por conter mais vácuo, o mais pesado menos. Semelhantemente diz do duro e do mole; duro é o denso, mole o rarefeito, com variação na proporção.
Também diferem a posição e a distribuição dos vazios, no duro e no mole, no pesado e ao leve. Por este modo, o ferro é mais duro e o chumbo mais pesado; o ferro tem contextura desigual, mais vazios e mais estes mais consideráveis... o chumbo menos vazios, e contextura mais uniforme" (Teofrasto, Dos sentidos 61-62).
725. A divisibilidade ou não divisibilidade do ser é uma questão que opõe fundamentalmente eleatas (Xenófanes, Parmênides, Zenão) e neo-eleatas (Empédocles, Anaxágoras, atomistas).
Para Leucipo e Demócrito o vácuo entre as partículas faculta a divisão do ser em átomos. Seria mesmo possível esta divisão do ser?
Depois Aristóteles distinguirá entre a divisão por abstração, como na matemática, a qual poderá ser conduzida ao infinito, e a divisão em partes efetivas, que, segundo ele, não vai além de certo nível de grandezas. Discutiu a questão citando Demócrito.
"Ao que parece, Demócrito persuadiu-se com argumentos próprios da Física, conforme passamos a esclarecer. Pois há dificuldade em admitir esta possibilidade, se se puser um corpo, uma grandeza de todo divisível. Pois que será o que escapa à divisão? Se o corpo fosse de todo divisível, e isso fosse possível, resultaria que, ao mesmo tempo, poderia ser dividido inteiramente, sem que efetivamente não chegue a ser dividido. Nesta hipótese, o nada seria impossível. Assim também aconteceria se sujeitássemos a metade à divisão em relação à metade..." (Da geração e corrupção, I,2. 316a 13 ss).
Continua Aristóteles examinando longamente as mais diversas alternativas, mostrando que, se a grandeza fosse divisível ao infinito, ao ponto da sem-grandeza, dever-se-ia admitir que, a grandeza se compõe do que não tem grandeza, - o que é impossível. "Logo é impossível à grandeza constitui-se de pontos. É necessário que haja corpos e grandezas indivisíveis" (Idem).
710. O movimento. No contexto do atomismo apresenta-se difícil esclarecer a origem do movimento. Foi entretanto um dos objetivo do atomismo esclarecer o movimento, ainda que tenha sido explicado de maneira bastante simplista.
Afirmado o movimento por Heráclito, pela conversão do ser em um geral vir à ser, e negado pelos eleatas, como impossível ao conceito mesmo de ser, é agora readmitido pelos atomistas. Ainda que os átomos em si mesmos fossem considerados imutáveis, sempre atuais, são ditos contudo como se movendo no vácuo.
Este movimento se daria sem implicar em uma alteração do mesmo átomo, e de outra parte o vácuo não é parte do mesmos átomo.
"Diz Demócrito que os átomos são imóveis por natureza, movendo-se tão só por um impulso" (Simplício, Física 42,10).
Aristóteles, ao abordar a questão do movimento, diz que os atomistas não explicam a origem do movimento. Não apelou Demócrito a uma alma, definida como capacidade de se mover por si (Pitágoras, Platão); nem a uma entidade superior, que se chamasse Inteligência (Anaxágoras), ou como Primeiro Motor Imóvel (Aristóteles).
Mas informou Aristóteles que os atomistas atribuíam a origem do movimento local ao efeito do peso em direção do vácuo. Efetivamente, a possibilidade de se moverem os átomos, não quer dizer ainda que de fato se movam. Se um átomo entra a mover-se por ter sido chocado por outro, - de onde este outro recebeu por sua vez o movimento?
"Afirmam que o movimento se dá por causa do vazio; para este se deslocam os corpos naturais e elementares ao modo de movimento local; porque o movimento devido ao vazio é um transporte, como em um lugar. Os movimentos não pertencem aos corpos elementares. Eles se movimentam localmente pelos peso havido neles, por causa do vazio que cede lugar. e não resiste. Pois são agitados em círculo. Estes movimentos são os primeiros, e únicos. Afirmam que os corpos crescem e se desfazem, mudam e perecem por causa da combinação e separação dos elementos insecáveis" (Física VIII, 9. 265 b 24 ss).
"... tudo acontece pelo destino, trazendo este destino consigo a força da necessidade. Esta opinião defendiam Demócrito, Heráclito, Empédocles e outros" (Cícero, De Fato 17,39).
"Leucipo e Demócrito dizem que os átomos se movem chocando-se uns com os outros, e se repelindo mutuamente. Entretanto, nada dizem sobre onde está o princípio do movimento atribuído à natureza. Ora, sendo recebido o movimento por força de um choque, é posterior ao que é natural" (Alexandre, Metafísica I, 47).
"Demócrito tinha a opinião de que os átomos se movem eternamente em um espaço vazio. Há inumeráveis mundos, que se distinguem pelo seu tamanho" (Hipólito I, 13,2).
Um texto de Aristóteles, que se refere a Leucipo e Platão, curiosamente não inclui o de Demócrito, mas que talvez possa incluir-se:
"Alguns filósofos, como Leucipo e Platão, consideram que o ato é eterno, porquanto afirmam que o movimento existe sempre. Não obstante, não explicam, nem a natureza do movimento e nem a causa do movimento eterno" (Metafísica XII, 6. 1071 b 32-33).
711. Advertiu ainda Aristóteles que no espaço infinito o "para cima" (– < T ) e o "para baixo" (6 V J T ) do movimento não tem significado (Metaf. 985 b 20) e que no váculo não há efetivamente diferença de velocidades na queda dos corpos (Física IV,8).
Entretanto, para compreender a linguagem usada por Demócrito, precisa-se ter em conta sua concepção cosmogônica; é possível que movimento para cima e para baixo signifique apenas a oposição entre direção centrífuga da terra, que sensivelmente é o movimento para cima, e direção centrípeta, que é o movimento para baixo (Windelband, H. da Filosofia antiga, n.32, p.163).
A velocidade e gravidade estão em função ao tamanho. Quanto aos compostos (: 4 6 J ) são mais pesados ou mais leves segundo a quantidade de vazio contida; hoje sabemos que esta é só uma questão de porosidade (nos casos comuns) ou de peso específico, mas que no vácuo caem em igual velocidade.
Diz ainda o velho atomismo que os átomos toscos se movimentam com maior dificuldade; no torvelinho se orientam para o centro, ao passo que os menores e ágeis são expulsos para a periferia.
712. O determinismo das forças físicas, sobretudo do movimento mecânico, sem qualquer finalismo, ou teleologia, é uma das mais significativas características do sistema de Demócrito, e talvez por isso não viesse a ser aceito em Atenas, e olvidado propositadamente por Platão. A necessidade (• < V ( 6 0 ) não é o simples acaso ou fortuna (J b P 0 ), e sim uma lei da natureza.
Ainda que Lactâncio (Divinae institutiones I, 2) chame a Demócrito de adepto do azar, porque o reduz ao esquema de Epicuro, esta interpretação é apenas generalizante e não diz a verdade com precisão.
Em consequência do seu determinismo as coisas são o que são, porque assim acontecem, e não porque se encaminham teleologicamente assim. Está ali a maneira moderna de conceber o mundo, e foi a razão porque Demócrito foi represtigiado pelo pensamento moderno.
713. O monismo é uma constante na interpretação geral da realidade, oferecida pelo atomismo de Demócrito. O ser é pleno e não requer mais do que ele é, conforme a doutrina dos eleatas. Não há como postular um ser exterior ao mundo e que tenha a posição de causa primeira e suficiente. A divindade de que fala Demócrito não é senão a hipótese das forças da natureza, como se depreende de Sexto Empírico (IX, 24).
Um fragmento de Demócrito, citado pelo cristão Clemente de Alexandria, também destaca o seu pensamento monístico, ainda que, quem o citou não o tenha percebido:
"Dos homens sábios poucos estenderam as mãos em direção ao lugar que hoje nós helenos chamamos ar, e disseram:
Tudo Zeus fala e tudo ele sabe, dá e tira, e é ele rei de todas as coisas" ([Frag. 30], em Protréptico, 68).
O mesmo Clemente de Alexandria, não se advertindo do sentido monístico do atomismo, interpretou equivocadamente a citação, atribuindo a ela um significado teísta dualista.
Apesar do seu monoteísmo, parece contudo que Demócrito não se evadiu inteiramente da influência mitológica, aceitando divindades de natureza secundária e que deveriam constituir-se apenas de modo mais perfeito que as demais coisas geradas.
Entretanto, libertou-se do temor supersticioso aos deuses e do além, advertindo:
"Os deuses só dão o bem, não o prejudicial" [Frag. 24].
"Só o temor à morte cria às falsas legendas sobre o estado de depois da morte" [Frag. 92].
714. A cosmogonia de Demócrito é apenas conhecida em suas linhas gerais, tendo por base o movimento dos átomos, enquanto progressivamente se agregam, construindo astros e mundos.
Conforme Diógenes Laércio, já citado "Os cosmos são ilimitados; surgem e se decompõem..." (D., L., IX, 44).
Diversos mundos podem resultar de torvelinhos de origem distinta, e mundos menores poderão tornar-se tributários de outros maiores, e assim por diante, até formar todo o céu astronômico.
O mundo universo está suspenso no vazio como uma esfera.
O envoltório exterior está constituído de átomos mais solidamente encaixados.
No interior está o ar. No centro, como um disco, encontra-se a terra. Os astros são corpos semelhantes à terra e de grande dimensão, havendo montanhas na lua.
Integrou, portanto, Demócrito a concepção antiga do mundo no seu sistema atomista.
715. A importância dada ao fogo coloca aos atomistas em afinidade com Heráclito, que no fogo via o elemento primordial.
Considerando o fogo uma organização atômica mais peculiar, e projetado para o mundo exterior, onde se acredita estarem os deuses, coerentemente dele se formaram estes deuses.
"Demócrito crê que com o fogo restante no alto surgiram os deuses" (Tertuliano, Ad nationes II, 2).
Na elaboração atômica dos primeiros elementos, é o fogo o mais importante, mais perfeito, porque o mais móvel.
Certamente por falta de recursos experimentais, - porque a tão só especulação pouco resolve no caso, - não conseguiram os atomistas formular uma doutrina acabada dos elementos. Refere Aristóteles:
"De que espécie e qual é a figura de cada um dos elementos, é o que eles não têm jamais explicado em detalhe, com exceção apenas do fogo, ao qual eles atribuem a figura esférica. Quanto ao ar, a água e aos outros elementos, eles os diferenciavam pela grandeza ou pela pequenez dos seus átomos" (Do céu, 303 a 14).
Mas, ao passo que progride a explicação atomista do mundo, o fogo, em virtude de suas peculiaridades de movimentação, vai exercendo funções cada vez mais específicas, até dar lugar à vida orgânica.
Passa, então, o fogo exercer funções semelhantes ao Nous de Anaxágoras. É, portanto, o fogo um átomo, ou uma composição atômica superior, capaz de atuar sobre um conjunto, provocando o fenômeno chamado vida.
Passamos assim à psicologia materialista de Demócrito, tentando por esta via sistemática explicar a vida e o conhecimento.
716. A vida e o espírito. Envolve o problema da vida primeiramente a questão do movimento do ser vivo. Destaca Aristóteles que uns definem a alma antes de tudo em função ao movimento próprio e coloca neste plano Demócrito, ao passo que outros a vêem mais através da função do conhecimento.
A concepção de Demócrito sobre a alma é desde logo monista, sem a divisão a divisão radical entre corpo e alma. A vida e o espírito pertencem desde logo ao mesmo corpo material. Não estabeleceu pois um ser específico como causa dos fenômenos psíquicos. Não é a alma senão um organização superior da matéria, cujo estágio supõe ser o fogo, pela sua capacidade de movimento e subtilidade.
Informou Aristóteles:
"O animado difere do inanimado por dois caracteres principais: o movimento e a sensação. Estas são também, aproximadamente, as duas concepções que nos foram transmitidas por nossos predecessores a respeito da alma.
Alguns dentre eles, com efeito, dizem que a alma é por excelência e primordialmente o motor. E pensando que o que não se move por si mesmo é incapaz de mover outra coisa, eles acreditaram que a alma pertence à classe das coisas em movimento.
Dali vem que Demócrito assevera que a alma é uma espécie de fogo e de calor. Suas figuras ou átomos são, com efeito, infinitos (em número), e aqueles que têm a forma esférica, ele chama de fogo ou alma. Eles podem ser comparados ao que se chama poeira do ar, que aparecem nos raios solares através das janelas. Dessas figuras da universal panspermia se constitui, segundo ele, toda a natureza (A mesma é a teoria de Leucipo).
E aqueles dentre estes átomos que se constituem de forma esférica são identificados com a alma, porquanto as figuras deste gênero são as mais aptas para penetrar através de todas as coisas e movimentar o resto, visto que elas mesmas estão em movimento; e estes filósofos são de opinião que é a alma aquilo que imprime o movimento aos animais. É também porque a respiração é a característica essencial da vida" (Da alma I,2. 403 b 24-404 a 9).
Informa também Aécio:
"Demócrito e Epicuro - a alma é perecível e desaparece com o corpo" (Aécio IV, 7,4). "Demócrito, Epicuro - alma é dupla; tem uma parte racional, instalada no peito, e outra irracional distribuída em toda a substância do corpo" (Aécio IV,4,6).
717. A doutrina do conhecimento do atomismo, conhecida sobretudo a partir de Demócrito, tem como base a objetividade dos átomos e a subjetividade das qualidades.
Diógenes Laércio:
"As qualidades das coisas existem por convenção; na natureza há senão átomos e vazio" (D. L., IX, 45).
Os átomos de fogo, ou os átomos psíquicos, espalhados por todo o corpo, exercem em diferentes lugares funções específicas: no cérebro, o pensamento, (< ` 0 F 4 H ) nos órgãos sensoriais, a percepção (" Ç F 2 0 F 4 H ) no coração, a excitação do sentimento (Ï D ( Z ), no fígado, o apetite sensual.
Distinguem-se, pois, as faculdades ou funções, embora sem sair do esquema atomista materialista. Em princípio todo o processo se realiza mecanicamente, isto é, por contatos e choques. O sentido fundamental fica sendo, pois, o tato (Arist. De sens 442a 29).
Para a realização de qualquer conhecimento se faz necessário que emanem partículas das coisas e penetrem nos órgãos. Estas partículas desprendidas das coisas se apresentam como fantasmas, ou imagens (, Ç * T 8 " ); este nome, até mesmo por causa de sua etimologia, lembra principalmente as impressões visuais. São as imagens recebidas pelos átomos psíquicos, de gogo, que reagem de modo mecânico.
Os órgãos da sensação (" Ç F 2 0 F 4 H ) são capazes apenas de perceber as determinações secundárias, como o calor, o sabor, a cor, enfim, aquilo que se apresenta como qualitativo.
O pensamento (< ` 0 F 4 H ) percebe os mesmos átomos e o vazio. Dali se infere que as imagens (, Ç * T 8 " ) que atuam de modo a produzir a intelecção, isto é, a percepção do átomo e do vazio, são mais perfeitas e subtis, de sorte a produzirem a verdadeira configuração do referido átomo e vazio. Pensar é, pois, ter a intuição da realidade tal qual é, a saber, constituída de átomos e de vazio.
A maioria dos homens não se adverte destas imagens e fica apenas nas impressões rudes dos órgãos sensitivos.
Discorda Aristóteles na redução de todos os sentidos a um fundamental, o tato. "Demócrito e a maior parte dos fisiológos que falam das sensações, estabelecem algo de totalmente absurdo, pois reduzem todos os sentidos ao tato, a despeito de que seria bem claro, se assim fosse, que cada uma das outras sensações seria uma espécie de tato" (De sens. 4, 442).
Aécio:
"Leucipo e Demócrito explicam a percepção e o pensamento como modificações do corpo" (Aécio IV, 7, 4).
"Leucipo, Demócrito e Epicuro são de opinião que a percepção sensível e o pensamento acontecem em consequência de imagens que nos vêm de fora" (Aécio IV,8,10).
Considerando que o conhecimento é uma atividade qualitativamente distinta do movimento, importa ao átomo de Demócrito conter esta qualidade como sua propriedade. Como o ser de Demócrito se reduz ao átomos, que é material, isto é, corporal, deveu coerentemente ter admitido que ele é também ser pensante.
A alma segundo ele é átomo: como átomo, portanto, é pensante. Sua alma não é um ser especificamente distinto injetado no átomo, conforme o orfismo e as doutrinas dualistas em geral. O atomismo é, pois, um materialismo espiritualista, ou seja, um reducionismo em que matéria e espírito são duas faces da mesma realidade.
718. A gênese do conhecimento é examinada por Demócrito com detalhes fisiológicos, psicológicos e até criteriológicos (ou gnosiológicos), dos quais o informante principal é Teofrasto.
"Segundo Demócrito, a visão se produz pela imagem; sobre esta, contudo, tem uma opinião particular, porque não diz que se produz imediatamente sobre a pupila, mas o ar, entre o olho e o objeto visto e daquele que vê: pois todas as coisas emitem constantemente um certo eflúvio.
Então este ar, tendo tomado uma forma sólida e uma cor diferente, forma a imagem nos olhos úmidos, portanto, são melhores para ver do que os endurecidos; a membrana exterior deve ser fina e tão densa quanto possível, e as partes interiores dos olhos muito porosas sem carne espessa e densa, mas com uma umidade e gordurosa; as veias nos olhos devem ser retas e vazias, de maneira a poderem tomar uma forma semelhante à imagem, pois cada coisa é sobretudo conhecida pela sua semelhante (Dos sentidos, 50).
719. Subjetividade das qualidades sensíveis. Algumas qualidades dos corpos são objetivas como o peso e a leveza, o mole e o duro, que são explicados pela maior e menor quantidade de átomos e espaços vazios (vd 724).
Depois desta explicação, Teofrasto prossegue, advertindo para uma importante constatação gnosiológica, a da subjetividade das qualidades sensíveis. Está evidentemente sob influência eleática. Todavia os eleatas negam a objetividade de todos os fenômenos sensíveis, ao passo que Demócrito se limita a negar aqueles que mais obviamente o são:
"Quanto às demais qualidades sensíveis, não têm realidade objetiva; são afecções da sensação. Nem frio e nem o calor são objetivos, e se produzem pela transformação da forma e da maneira nos diversos animais. O que é doce para nós, é, para outros, amargo, ou ácido, o mesmo acontecendo como as demais qualidades. Os mesmos indivíduos mudam de temperamento, com a idade e a experiência. É evidente, pois, que a disposição é causa da representação" (Teofrasto, Dos sentidos, 63-64).
Como se sabe, modernamente, já desde Descartes, se tem distinguido entre qualidades primárias, consideradas objetivas, e qualidades secundárias, consideradas subjetivas. Estas doutrina, como se viu, já se encontra bastante clara em Demócrito.
720. Não obstante o caráter subjetivo das qualidades secundárias, admitiu Demócrito um fundamento objetivo para as mesmas. A subjetividade estaria apenas nas peculiaridades da resposta gnosiológica, - continua informando Teofrasto:
"Como todos os outros, também [Demócrito] reduz estas (qualidades sensíveis) às formas (do átomo), ainda que não saiba determinar todas as formas. Reduzindo a representação ao homem, conseguiu estabelecer as formas atômicas dos sabores e das cores. O ácido tem forma angulosa, tendo muitas causas, sendo pequeno e sutil. Diversamente, o doce tem formas redondas e não muito pequenas. O adstringido se compõe de formas grandes, muito angulosas. O amargo, pequenas, lisas e redondas. O salgado, grandes, redondas, com algumas escalenas. O ardente, arredondadas, com ângulos, não todavia os escalenos.
E assim também atribui formas atômicas às demais propriedades das coisas. Não se encontram nas coisas forma pura e sem mistura com outras. Em todas, se encontram formas de variadas espécies, contendo a mesma coisa o liso, o áspero, o redondo, o agudo e assim por diante, sendo o efeito decisivo na sensação provocada por aquela de maior quantidade, nisto influindo também a disposição subjetiva de quem a sente. Isto já produz bastantes diferenças.
Da mesma coisa se podem obter efeitos até contrários, e coisas contrárias dão o mesmo efeito" (Teofrasto, Dos sentidos, 64-67).
Não deixou Teofrasto, logo a seguir, de manifestar sua estranheza diante da afirmação de que a diversidade das qualidades dependesse tanto das formas atômicas, como da subjetividade dos sentidos (Ibidem, 64-67).
"Demócrito diz que em realidade não há cores. Pois o cheio e o vazio, os átomos, são desprovidos de qualidades. Contudo, as composições dos átomos, consequentes de sua ordem, forma e de seu movimento, são coloridas" (Aécio I, 15,8).
Admitindo Demócrito a possibilidade de se alterarem as imagens enquanto marcham através do ar até a inteligência, deu base para um ceticismo virtual. Coincide, neste particular, com o sofista Protágoras, seu conterrâneo e contemporâneo, o qual dizia que "o homem é a medida de todas as coisas".
Sexto Empírico, em virtude de suas preocupações gnosiológicas e ceticistas atendeu ao lado gnosiológico de Demócrito, transferindo-nos algumas informações.
"Baseado no fato de que o mel é amargo para uns e doce para outros, ensinava Demócrito que não existe o amargo e o doce em si" (Sexto, Hipotiposes pirronianas II,63).
"Por convenção (< ` : @ H ) existe o doce e por convenção o amargo, por convenção o quente, por convenção o frio, por convenção a cor; na realidade porém os átomos e o vazio... Nós, porém, realmente nada de preciso apreendemos, mas em mudança, segundo a disposição do corpo e das coisas que nele penetram e chocam" (Sexto, Contra os matemáticos VII, 135-136) [Frag. 9].
"E diz novamente: Que na realidade não compreendemos como cada coisa é ou não é, ficou muitas vezes demonstrado" (Ibidem, 136) [Frag. 10].
"Há duas espécies de conhecimento, um genuíno, outro obscuro.
Ao conhecimento obscuro pertencem, no seu conjunto, vista, audição, olfato, paladar e tato.
Quando o obscuro não pode ver com maior minúcia, nem ouvir, nem sentir cheiro e sabor, nem perceber pelo tato, - e sendo então preciso procurar mais finamente, - apresenta-se o genuíno que possui um órgão de conhecimento mais fino" (Ibidem VII, 138) [Frag. 11].
721. A linguagem. Ocupou-se Demócrito também com a língua, a qual considerou de origem convencional. Vem de Proclo a informação:
"Demócrito afirmava que os nomes têm origem no acaso e construiu quatro provas. Chamou a primeira prova polissemia, à segunda equilíbrio, à terceira metonímia, e à quarta anonímia" (Proclo, comentário ao Crátilo 16, p.5, 25).
Também do poesia cuidou Demócrito. Neste sentido também informou Proclo, comentando que equilíbrio em Demócrito equivale a homonímia.
"Muitas vezes ouvi dizer que não pode existir (afirmação atribuída a Demócrito e Platão) nenhum bom poeta sem entusiasmo da alma e sem um sopro como que de loucura" Arte divinatória, I,38,80.
"Pois Demócrito diz que nenhum poeta pode ser grande sem loucura, afirmação idêntica a de Platão" (Horácio, Arte poética, 295.
"Demócrito acreditou que o gênio é mais fecundo que uma arte pobre e excluiu do Helicão os poetas saudáveis" (Cícero, Sobre o orador, II,46,194).
722. A ética de Demócrito é pragmatista. Encontra-se em seus escritos, em forma de sentenças numerosas. Estas estão desvinculadas de princípios mais fundamentais, em que talvez se fundavam.
A fonte da ética pragmática de Demócrito terá sido em primeiro lugar a experiência de sua vida moderada e dedicada ao estudo sério da natureza. Também o senso comum e a sabedoria popular terão introduzido nas suas sentenças muito do que elas contêm, inclusive aparentes incoerências com o seu sistema naturalista.
Dado o caráter do sistema atomista, a referida ética de Demócrito deverá ter sido mais uma regra racional de vida, formada em coerência com os fatos, do que a resultância de um princípio metafísico. Trata-se, pois, de uma sabedoria, a conduzir a vida a um bom resultado, afastando o que não resulta para o bem do homem. Esta prudência de vida a enuncia Demócrito ao insistir na medida do que se quer (vd 725).
"O prazer e a dor são o critério do útil e do prejudicial" (Stobeu III,1,46) [Frag.188].
Também há alternativas:
"Quem escolhe os bens da alma, escolhe os divinos; quem escolhe os do corpo, escolhe os humanos" [Frag. 35] (Sentenças de Demócrates, 1).
As chamadas Sentenças de Demócrates, que constituem os fragmentos que na coleção de Diels vão do número 35 a 115, contém alguma sistemática, mas a nível quase sempre de atitudes concretas.
De quando em quando porém afloram princípios mais gerais. Por exemplo, "Não por medo, mas por dever, evitai os erros" [Frag. 41] (Demócrates, 7).
Ou esta outra, que parece conter elementos da moral autônoma: "Há que se envergonhar antes de tudo diante de si mesmo e gravar esta lei na própria alma, para não fazer nada de inconveniente [Frag. 43] (Demócrates, 43,9). Não obstante a moral de Demócrito é normativista, ainda que relativista, enquanto atenta à natureza e seus sucessos.
"O fim da ação é a tranquilidade (, Û 2 L : \ " ) que não é idêntica com o prazer (º * @ < Z ), como uma falsa interpretação entendeu, mas um estado em que a alma se encontra continuamente calma e firme, sem ser perturbada por qualquer superstição ou qualquer emoção. Isto ele chama de bem-estar, prosperidade (, Û , F J f ) e com vários outros nomes" (D. L., IX, 45).
Os termos usados por Demócrito em diferentes oportunidades para indicar o fim são paz (º F L P \ " ), tranquilidade ou paz interior (, Û 2 L : \ " ), impassibilidade (• B V 2 , 4 " ), harmonia ( D : @ < \ " ), equilíbrio (• J " D " > \ " , • 2 " L : " F \ " , > L : , J D \ " ).
723. A verdadeira felicidade. Na maneira de se encontrar a felicidade, encontra-se a ética de Demócrito em dependência de sua psicologia atomista. Assim como os conhecimentos sensitivos não são exatos, mas só os do entendimento, que configuram os átomos, os gozos dos sentidos enganam e só os do espírito são verdadeiros.
Por hábito mal formado muitos dão alto valor ao prazer sensível, o que não acontece com o sábio. Os movimentos excitados dos sentidos só perturbam o equilíbrio da alma, ou seja dos átomos de fogo. Se produzem prazer, é uma aparência momentânea apenas; na realidade porém, conduzem à dor.
O verdadeiro prazer resulta do movimento suave e exato da atividade pensante:
"A paz interior surge nos homens na medida do prazer e do equilíbrio na vida, pois as deficiências e os excessos tendem transtornar a alma e produzem nela grandes agitações" (Frag. 52, Diels). Distinguindo assim entre o prazer sensível e o espiritual, a ética de Demócrito se ergue ao nível da de Sócrates, apesar da diferença que o dualismo este introduz com o espírito a ser preparado para depois se separar.
725. A medida no prazer. Do objeto capaz de produzir a felicidade, diz Demócrito, que não basta ele em si mesmo, porém mas de sua medida:
"A felicidade e a infelicidade da alma não estão na posse de gado e de ouro" (Frag. 171).
"A felicidade decorre da medida no prazer e da proporção da vivência; a falta ou excesso mudam para pior e causam movimentos na alma" (Frag. 191).
"É preciso que aquele que quer sentir-se bem não faça muitas coisas, nem particular e nem publicamente, e que aquilo que faz não assuma além de sua força a natureza. Ao contrário, é preciso que, mesmo que a sorte lhe seja hostil e, pela aparência, o leve pouco a pouco ao excesso, tenha cuidado bastante para renunciar e não procurar mais que suas forças permitem, pois uma plenitude razoável é coisa mais segura que uma superplenitude" (em Plutarco, Da tranquilidade da alma, 2p. 465 C) [Frag.3].
Neste bom resultado, o prazer é a medida.
"Pois o prazer e o desprazer são o limite (das coisas vantajosas e desvantajosas)" (em Clemente de Alexandria, Stromata II,130) [Frag. 4].
726. As relações entre o bem moral e a intenção, ou conhecimento, são abordadas sob diversas perspectivas por Demócrito.
A moralidade pressupõe a intenção, ou o conhecimento. "Bem não é o não fazer a injustiça, mas o não querer praticá-la" [Frag. 62].
727. Ainda outras perspectivas de ordem geral foram abordadas por Demócrito, sobre as quais restam sábias sentenças.
Sobre a virtude:
"Combater o próprio coração, é árduo; vencê-lo é próprio do homem que raciocina bem" [Frag. 23-b].
"Como a medicina cura os males do corpo, a sabedoria liberta a alma das paixões" [Frag. 31].
"Quem comete a injustiça é mais infeliz, que quem a padece" [Frag. 48, em Demócrates, Sentenças].
"Bom, não é o não ser injusto, mas o não querer sê-lo" [Frag. 38, em Demócrates, Sentenças].
"Coisa grande é, mesmo no infortúnio, pensar naquilo que é preciso" [Frag. 38, em Demócrates, Sentenças).
"Muitos eruditos não têm inteligência"[Frag. 64, em Demócrates, Sentenças].
"Belo é o justo em cada coisa" [Frag. 110, em Demócrates, Sentenças].
ART. 3O - ATOMISTAS POSTERIORES. 0335y730.
731. A escola atomista de Ábdera teve além de seus dois primeiros representantes, - Leucipo e Demócrito, - continuadores significativos em diferentes cidades da Grécia. Teve, além disto, a expressiva adesão da escola de Epicuro, porquanto este adotou a teoria atomista e sua ética pragmatista.
Foram continuadores imediatos do atomismo, dos quais há ainda a tratar::
- Metrodoro de Quios, que voltou à idéia de Heráclito de que o sol se apaga e volta a acender-se todos os dias;
- Anaxarco de Ábdera, que acompanhou a Alexandre na expedição à Ásia;
- Nausífanes de Teos que foi um dos mestres de Epicuro, herdeiro final da escola atomista.
732. Metrodoro [9 , J D @ * f D @ H ] de Quios (5o - 4o a.C.) é filósofo atomista grego, de Quios (ilha da costa jônica, Ásia Menor). Foi discípulo de Demócrito, diretamente, ou por intermédio de Nessos de Quios (vd. Diels-Kranz, Vorz. N. 69).
É considerado o mais importante atomista após Demócrito, apesar de não ter conseguido maiores projeções para a escola a que pertenceu
Desenvolveu temas gnosiológicos e que foram aproveitados pelo ceticismo pirrônico. Do livro de Metrodoro Sobre a natureza restam fragmentos e que são citados neste sentido.
733. Como atomista, retomou Metrodoro as proposições de Demócrito: a realidade constituída por átomos e vazio; átomos em número infinito; o espaço também infinito, bem como um número infinito de mundos.
Voltou Metrodoro à idéia de Heráclito, de que o sol e as estrelas se apagam e volvem a acender todos dias a partir da água atmosférica sob os efeitos do calor (Pseudo-Plutarco, Stromáteis 11; Doxogr. 582). Nesta explicação não fica claro como os planetas poderiam receber sua luz do sol (Doxogr. 346).
O ceticismo já implícito em Demócrito se explicitou mais em Metrodoro. Tendo o anterior feito reservas à capacidade dos sentidos para aprenderem a verdade sobre os átomos, aos quais somente a inteligência alcançaria, passou Metrodoro a pôr dúvida também no resultado colhido pela inteligência.
Declara no começo do seu livro Sobre a natureza, aqui citado por Cícero:
"Digo que nós não sabemos, se sabemos algo, ou se nada sabemos; que não sabemos sequer o que é saber, ou não é saber; que não sabemos absolutamente se existe alguma coisa, ou se nada existe" (Pr. Acad., II, 23, 73).
734. Anaxarco (! < " > V D 6 @ H ) de Ábdera (4o século a.C.) é filósofo da escola atomista posterior, importante por causa de sua convivência com Pirro (D. L., IX, 63), ao qual transferiu a mentalidade de sua escola, quanto aos átomos e à tranquilidade como objetivo moral.
Na informação de Diógenes Laércio, "nasceu em Ábdera, estudando sob Diógenes de Esmirna; outros dizem sob Metrodoro de Quios" (D. L., IX, 58).
Anota-se com destaque sua presença na corte de Alexandre e seus envolvimentos com um tirano de Chipre . Este o levou finalmente a um trucidamento cruel, durante o qual manteve a tranquilidade pregada por sua filosofia.
"Conviveu Anaxarco com Alexandre e floresceu na 110a Olimpíada. Tornou-se inimigo de Nicocreon, tirano de Chipre. Certa vez, durante um banquete, perguntado por Alexandre, se estava gostando da festa, respondeu:
Tudo, ó grande rei, está magnífico; somente falta uma coisa, a de que a cabeça de um sátrapa seja servida sobre a mesa, - diz voltado para Nicocreon, que nunca o esqueceu.
Quando, depois da morte do rei Anaxarco, teve de aportar, contra sua vontade em Chipre, ele o capturou e colocando-o num almofariz, ordenando que fosse amassado até a morte com a mão de pilão. Mas ele, sem se perturbar com o suplício, disse as conhecidas palavras:
- bate, bate o invólucro contendo Anaxarco; não bates Anaxarco.
E quando Nicocreon mandou que lhe cortassem a língua, diz-se que a mordeu cuspindo-a contra ele" (D. Laércio, IX, 59).
A ação pessoal de Anaxarco era notável e notada.
"Por sua fortaleza e contentamento de vida, era chamado Felizardo (+ Û * " 4 : @ < 4 6 ` H ), por causa de seu caráter impassível e tranquilidade de alma.
Tinha por demais a capacidade de trazer alguém à correção. Os orgulhosos encontravam nele um censor cheio de sagacidade e delicadeza. Por exemplo, um dia deu uma lição indireta a Alexandre que se tinha por um Deus: vendo fluir sangue de uma ferimento que Ele se tinha feito, a apontou, dizendo:
Este é verdadeiro sangue; não é aquele licor celestial que circula pelas veias dos Deuses [Homero, Ilíada, V, 340].
Plutarco diz que isto foi relatado por Alexandre aos seus amigos.
Numa outra ocasião, passou a Alexandre a taça na qual acabava de beber, dizendo-lhe:
- Um Deus será afligido pela mão de um mortal (Euripedes, Orestes, V, 265)" (D. Laércio, IX, 60).
735. Nausífanes (; " L F \ N " < 0 H ) de Teos (fim do 4o século a.C.) é filósofo grego da escola atomista, lembrado por ter sido discípulo de Pirro e mestre de Epicuro. Este último, por seu através, se ligou ao atomismo, e por Pirro ao ceticismo.
As informações sobre Nausífanes nos são dadas por isso mesmo em função à biografias de Pirro e Epicuro da autoria de Diógenes Laércio.
Cronologicamente, Nausífanes é jovem em relação a Pirro, do qual , como se disse, foi discípulo (D. L., IX, 69). Admirava-o pelo modo de conduzir as discussões e que por ter privado de sua companhia, pudera depois informar a Epicuro, quando este perguntava a respeito de Pirro (D. L., IX, 64).
Na declaração de que Nausífanes foi discípulo de Pirro, acrescenta-se que por sua vez Nausífanes foi mestre de Epicuro:
"Entre os discípulos de Pirro se incluem Hecateu de Ábdera, Timon de Flius, e também Nausífanes de Teos, dito por alguns ter sido o mestre de Epicuro" (D. L., IX, 69).
Na biografia de Epicuro, entretanto, se mostra haver ocorrido um certo deterioramento nas relações do mestre com o discípulo, o que talvez tenha ocorrido por causa da vida dissipada deste. Citando a Timócrates, diz Diógenes Laércio:
"Epicuro em seus 37 livros Sobre a natureza é repetitivo e escreve contra os demais filósofos, especialmente contra Nausífanes, e aqui estão suas próprias palavras: teve este, mais que outros, jactância sofística, tal como a dos escravos. Além disto, dizia em suas cartas, que Nausífanes se excedera, dizendo ter sido seu mestre. Chama-o ainda de estúpido, iletrado, prostituta" (D. L., IX, 7-8).
Citando já outra fonte:
"Apolodoro em sua Cronologia nos diz, que nosso filósofo (Epicuro) foi discípulo de Nausífanes e Praxífanes; mas em sua carta a Euríloco o mesmo Epicuro o nega e diz que aprendi por mim mesmo" (D. L., X, 13).
O certo é que Nausífanes viveu no círculo em que se encontrava Epicuro, o qual terá conhecido o atomismo, que adota, através deste atomista.
Escreveu Nausífanes obras que se perderam. Ao se dizer que Pirro nada escreveu, mas que seus discípulos o fizeram, é lembrado Nausífanes, juntamente com Timo, Enesidemo, Numênio (DL IX, 102).
Sua obra intitula-se Trípode, conforme informação de Diógenes Laércio:
"Ariston diz em sua Vida de Epicuro que ele redigiu sua obra O cânon, derivando-a de Trípode de Nausífanes, de quem tinha sido discípulo, como também do platônico Pânfilo em Samos" (D. L., X, 14).
740. Conclusão sobre como pensavam os primeiros filósofos. Em tudo há um começo, e ter começado bem já é um bom caminho andado.
Haverem deixado o pensamento mítico e ingressado no pensamento crítico foi o bom caminho por onde entraram os primeiros filósofos, e que por isso mesmo puderam ser chamados assim.
Uma vez lançado o debate, não mais parou a discussão. Eis porque a história da filosofia se tornou uma constante.
Não há hoje, como conhecer a história do debate filosófico, sem voltar aos tempos da Grécia clássica, quando surgiram os primeiros filósofos, de cujo pensamento acabamos de tratar.
Já então havia homens eruditos, mas sobretudo inteligentes.
Evaldo Pauli, ano 1999.