ÍndicesCap. 1


ENCICLOPÉDIA    SIMPOZIO

(Versão em Português do original em Esperanto)

© Copyright 1997 Evaldo Pauli


A SABEDORIA

NO TEMPO DOS SOFISTAS E

SÓCRATES


 

APRESENTAÇÃO TÉCNICA DO TEXTO.

8310y003.

 

4. No quadro geral da Enciclopédia Simpozio A sabedoria no tempo dos sofistas e de Sócrates é um texto da Enciclopédia coordenada de História da filosofia, esta reconhecida pela cifra inicial 2.

Do ponto de vista da forma, trata-se de um texto hiper, reunindo os artigos relacionados com os sofistas, Sócrates e as escolas socráticas menores.

Do ponto de vista da dimensão, é um texto mega, e nesta condição é ainda parte do Conjunto denominado Mega história da filosofia.

 

 

5. A numeração foi tomada ao artigo atômico SOKRATISMO 8310 (versão em Esperanto), da Enciclopédia de Filosofia, em torno do qual os demais foram coordenados.

A numeração divisionária vem após a letra y.

Para citar internamente, basta o número divisionário, sem o básico.

 

 


INTRODUÇÃO AOS SOFISTAS E SÓCRATES. 8310y006.


 
 

7. O apogeu da filosofia grega coincide com a centralização da cultura em Atenas, depois que ela nascera e se desenvolvera nas cidades da periferia, sobretudo da Jônia (hoje espaço integrado no território da Turquia) e na Magna Grécia (hoje Sul da Itália).

Esta concentração correspondeu também por algum tempo ao poder político, sobretudo sob Péricles (+429 a.C.), o maior dos arcontes de Atenas.

Foi quando, do ponto de vista filosófico, por causa do destaque inicial de Sócrates, o período veio a ser denominado socrático.

Todavia as duas figuras máximas do período socrático foram Platão e Aristóteles. Surgidas sucessivamente no cenário, deste fato resultou na divisão do período em três fases: a de Sócrates (+399 a.C.), a de Platão (+347a.C.), a de Aristóteles (+322 a.C.) (vd 15).

O tema agora eleito se situa principalmente na primeira fase do período socrático, que foi vivida pelo mesmo Sócrates e que encontrou sem seu espaço principalmente os sofistas. Dali a escolha do título desta texto – A sabedoria no tempo dos sofistas e de Sócrates.

 

Demorando-nos ainda nesta preliminar introdutória, continuamos a caracterizar a fase filosófica dos sofistas e Sócrates (vd 8310y009), seguida de um proposta de disposição didática de abordagem do tema (vd 8310y018).

 

 

§1. Características do tempo dos sofistas e de Sócrates.

8310y009.

 

 

10. Coesão dos fatos culturais, sociais, políticos. Nada usa acontecer isoladamente. O amadurecimento filosófico ao tempo de Sócrates aconteceu juntamente com o das artes, da vida social e da política gregas, sobretudo da então Atenas. O fenômeno se fez conhecer pela denominação de ilustração grega.

A denominação todavia de ilustração grega foi atribuída pelos estudiosos ulteriores, por paralelismo com a ilustração que se dera no espaço moderno situado entre a Gloriosa revolução inglesa (1688) e a Revolução francesa (1789), em virtude de algumas semelhanças ocorridas.

Depois das lutas religiosas do início dos tempos modernos acontecera um novo progresso das ciências e da filosofia, bem como uma abertura dos espíritos em relação aos valores humanos, expressada nas artes e na vida social.

Ora, na antiguidade grega houvera pouco antes a vitória dos gregos sobre os persas invasores, seguida de uma prosperidade generalizada, ao mesmo tempo que um desabrochar de novo modo de conceber a vida.

 

Entretanto, - como se advertiu, - é certo que nada costuma acontecer isoladamente. Ora, na antiguidade houvera pouco antes a vitória dos gregos sobre os persas invasores (retidos nas batalhas decisivas de Maratona, em 490 a. C., e de Salamina, em 480 a. C.) , seguida de uma prosperidade generalizada, ao mesmo tempo que um desabrochar de um novo modo de conceber a vida.

 

11. Escolas filosóficas. O período pré-socrático está marcado por uma constelação de escolas filosóficas, situadas em diferentes regiões do mundo grego, então geograficamente mais vasto que o da Grécia atual.

A escola jônica antiga inaugura a própria filosofia com Tales de Mileto (624-546 a.C.), Anaximandro de Mileto (610-545 a.C.), Anaxímenes de Mileto (585-528 a.C.) que atuaram no curso do 6-o século a.C.

Na mesma região prosseguem os chamados jônicos novos: Heráclito (544-484 a.C. ), Anaxágoras (c. 500-428 a.C.) que cobrem o século 5-o. a.C.

Mas no Ocidente grego (Sul da Itália) anotam-se outras escolas mais. Teve destaque a escola de Pitágoras (c. 570-596 a.C.), com grandes nomes, como Filolau (c. de meados do 5-o. sec. a.C.), e Árquitas de Tarento.

A escola de Elea primou pela ontologia, com Xenófanes (c. 570-475 a.C.), Parmênides, Zenão, Melisso.

Notáveis foram os atomistas de Ábdera, já estes surgidos na periferia norte da Grécia continental: Leucipo, que floresceu pelo ano 420 a.C., e Demócrito (c. 460-360 a.C. ).

Estes últimos pré-socráticos já vivem os novos tempos que surgem pelos anos 440 a.C., quando entravam também em cena os sofistas e Sócrates, dos quais agora se trata.

Seja lembrado também que todas as anteriores escolas, - jônica, pitagórica, eleata, - continuam a ter seus epígonos, e geralmente afluindo para Atenas.

 

 

12. O desenvolvimento do pensamento grego teve reflexo na literatura. Um conhecimento preciso da época em que viveu Sócrates não poderia dispensar uma consideração neste sentido, destacando o período ático.

Neste sentido convém advertir que a literatura grega se divide em 6 períodos:

1) Literatura antiga, anterior aos anos de 475 a.C. Este é o tempo da literatura épica e lírica.

2) Literatura ática (referência à Ática, território de Atenas), a partir de cerca do ano 475 a.C., quando se dá a ilustração grega, com centro em Atenas, e ocorre o nascimento de Sócrates (469 a. C. ). Este período, que vem até o ano 300 a.C., é o tempo de preponderância da cultura ateniense, em que vivem também os dois grandes filósofos, Platão e Aristóteles. Tiveram então desenvolvimento o drama e a prosa.

3) Literatura Alexandrina, que cessa em 146 a.C. Centraliza-se em Alexandria. As obras, do mais diverso gênero, são produzidas, caracterizando-se por um certo artificialismo e eruditismo, mas é por causa deste eruditismo que muito se conservou dos tempos anteriores.

4) Literatura greco-romana, que alcança o ano 529 d.C., e cuja fisionomia é crítica e histórica;

5) Literatura bizantina, até 1453 (quando Constantinopla foi conquistada pelos turcos), de características escolásticas;

6) Literatura grega moderna, bastante diferenciada do idioma antigo, dito grego clássico, mas cultivando-o também.

 

 

13. Os poetas trágicos tiveram grande destaque no período ático. Suas peças, levadas aos grandes teatros de Atenas, catalizaram o pensamento religioso e político, filosófico e estético, tanto da massa como dos próprios pensadores.

Representam gerações sucessivas os três grandes trágicos:

Ésquilo (525-456 a.C.) autor de 82 apreciadas tragédias, de que chegaram até nós 7, que são Prometeo, As suplicantes, os sete contra Tebas, Os Persas, e a trilogia Orestiada;

Sófocles (496-406 a. C.) de suas clássicas 123 tragédias, restaram somente 7, que são Antígona, Édipo Rei, Electra, Filoctetes, Ajax, As traquinias, Edipo em Colonos, além dos fragmentos de um drama satírico;

Eurípedes (480-406 a. C. ), que introduziu nos diálogos dramáticos a casuística dos sofista, tendo sido conservadas 18 de suas peças, entre outras, Alcestes, Medea, Hipólito, Bacantes, Ifigênia em Táurida, Ifigênia em Áulida, Helena, Orestes, Electra, Andrômaca, Héracles, As mulheres de Troia, Íon, As fenícias, Cíclope, Heracléade, As suplicantes.

 

Ésquilo destacou a severa justiça divina e o destino inexorável, com os elementos todavia humanizantes, que marcam a divisa da época anterior com os novos tempos.

Eurípedes, ainda que não se afaste do equilíbrio clássico grego, reflete o pensamento cético dos sofistas e das eventualidades da vida humana, que para ele não anda dirigida tão de perto pela divindade ou pela lei natural. Mostra mesmo o inverossímil e repugnante dos mitos, renovando os seus significados. Fez do drama um crítica, prenunciando o teatro moderno.

Sófocles é o clássico, ao mesmo tempo que repete os conceitos do anterior. Com maior perfeição artística, maior animação do movimento dramático, definindo os caracteres e a psicologia dos personagens, segue os caminhos de uma ética natural, não tão dependente da vontade forte dos deuses. Ésquilo representa a concordância do dever e da liberdade, conforme o ideal grego.

Outros nomes da poesia gregos foram Epicarmo, Simônides, Pindaro, Baquilides, Aristófanes.

 

14. Os historiadores multiplicaram-se ao tempo da ilustração grega.

Heródoto de Halicarnasso (+ c. 425 a. C.), da Ásia Menor, pela qualidade dos seus relatos, fez-se conhecido como "Pai da História". Foi amigo de Sófocles. Narrou os acontecimentos dentro da imagem antiga da Providência divina (História III, 108).

Tucídides (c. 460 - c. 400 a.C.) se situa numa interpretação natural dos acontecimentos, como se depreende de sua História do Peloponeso. Pôs claro que ultimamente o egoísmo e a pouca rigidez moral dominaram os espíritos em Atenas.

Mas o desenvolvimento mental a que chegavam os gregos não permitia a manutenção pura e simples do passado. Um misto de desagregação, ao mesmo tempo que de esforço por um nova síntese ideológica, dominava as mentes. A tensão resultante criou novas filosofias de vida.

Ocorreram conflitos mentais, em que se envolveram também os sofistas e Sócrates. O mesmo Platão, ao expor suas idéias, não é um conservador, mas um progressista, por vezes utópico.

Pelo visto, a evolução da literatura grega deu-se num contexto mental, que é o mesmo do da filosofia. Esta, concentrada até aqui no estudo da natureza, passou ao estudo do homem Já este não é visto apenas como uma peça da natureza e do poder mágico dos deuses. O homem faz a história.

Em resumo, os gregos tornaram-se críticos, elaborando múltiplas maneiras de ver, ao mesmo tempo que discutindo todas as proposições.

 

 

15. O novo tema da filosofia do período socrático é o homem. Investiga a moral, a psicologia, a lógica, a linguagem, a arte.

Os estudos da natureza, peculiares ao período pré-socrático, ainda que não desapareçam, subordinam-se aos interesses do homem.

Sócrates praticamente ocupou-se apenas de assuntos éticos. Seu discípulo Platão já trata de todos os temas.

Em Aristóteles (384-322 a.C.) o estudo da natureza é assunto inteiramente pacífico, tão bem quanto o estudo do homem. Assim já viera fazendo o grande erudito Demócrito de Ábdera.

Progrediu a instituição da escola, com classes de alunos e professores, tendo tido destaque os sofistas, os primeiros a dar prosperidade ao ensino remunerado.

 

16. A diversidade de pensamento marcou o período socrático, ainda que alguns pensadores fossem extraordinariamente mais destacados. Este fenômeno estimulou o pensamento crítico.

Platão (428-348 a.C.) em seus diálogos põe frente a frente os representantes do pensamento de sua época brilhante.

Mas é possível notar mais no fundamento duas diretrizes gnosiológicas, que passariam a dominar as correntes filosóficas de todos os tempos.

Atuavam já ao tempo da ilustração grega, de um lado o racionalismo, representado por Sócrates, Platão Aristóteles; de outro lado o empirismo (positivismo), representado pelos sofistas, especialmente Protágoras.

É significativo que Platão desse a um dos seus diálogos, precisamente o título de Protágoras, em que o filósofo sofista se defronta com Sócrates.

 

Do ponto de vista da diretriz gnosiológica, - como já se acentuou, - o período socrático apresenta duas diretrizes, que marcarão para sempre a filosofia: o racionalismo e o positivismo.

Por sua vez o racionalismo ficará subdividido em racionalismo radical (patrocinado por Platão) e racionalismo moderado (desenvolvido por Aristóteles).

Os sofistas, - tendo à frente Protágoras e Górgias, - são os representantes do positivismo, dado o destaque que deram ao conhecimento empírico. Eles não acreditam em considerações da pura razão situada para além da experiência. Além disso, os sofistas são sensistas.

Sócrates é racionalista, admitindo portanto a pura especulação da inteligência, operando com princípios universais, como que firma sobretudo as leis morais. Em função ainda ao seu racionalismo argumentou em favor da existência de Deus.

 

A seguir, neste mesmo rumo racionalista seguirá Platão, o principal discípulo de Sócrates. Um pouco depois, também Aristóteles será racionalista, ainda que moderado.

O racionalismo radical de Platão opera independente da fonte empírica.

Já o racionalismo moderado de Aristóteles, mesmo ao tratar do ente em geral, raciocina apenas a partir do dado empírico, do qual o obtém por efeito de abstração.

A diretriz racionalista da filosofia já procede dos pré-socráticos do Ocidente, como Pitágoras e Parmênides.

Inovam sobretudo os anti-racionalistas ao reterem, como os sofistas, o saber na experiência; uma tendência da escola jônica, o empirismo teve agora seu desdobramento.

Por isso, no tempo de Sócrates a filosofia apresenta duas tendências radicalmente opostas: o racionalismo radical (de Sócrates) e o empirismo positivista (dos sofistas).

 

 

§2. Divisão didática da filosofia

ao tempo dos sofistas e de Sócrates.

8310y018.

 

19. Concentrados na primeira fase do período socrático (ainda sem Platão e sem Aristóteles), é possível um sequencial de quatro capítulos:

- Os grandes sofistas, Protágoras e Górgias (vd 8310y024);

- Os pequenos sofistas (vd 8310y076);

- Sócrates (vd 8310y103).

- Escolas socráticas menores, megárica, cínica, cirenaica (vd 8310y190).

 

Esta divisão é em parte cronológica, enquanto coloca em sucessão os grandes sofistas e os seus epígonos; Sócrates e as escolas que o sucederam. E é em parte uma divisão material, porque distingue, pelo seu conteúdo ou tema, entre empiristas (os sofistas) e racionalistas (os socráticos).

 

20. Principia-se, pois, o estudo do período socrático, pelos sofistas (vd 25), portanto por aqueles aos quais Sócrates passou a combater.

Os sofistas do período socrático nasceram algumas décadas antes de Sócrates, mas serão contemporâneos do mesmo. Esta ligeira anterioridade dos primeiros sofistas sobre Sócrates, faz com que se costume fazer da sofística uma escola pré-socrática. Entretanto, a sofística é típica do período socrático.

São principais nomes sofistas Protágoras (c. c. 481 – c. 311 a.C.) e Górgias (c. 483 – c. 374 a.C.).

Ainda são de diretriz sofista Pródicos (nascido cerca de 470 a. C.), Hípias, Crítias, Ménon, Polo, Trasímaco, Cálicles. Todos estes nomes deverão ser estudados em sequência (vd cap. 1-o 8310y024).

 

 

21. Do ponto de vista cronológico, ou seja temporal, ocorrem, - como já se adiantou, - 3 fases no período socrático, denominadas sucessivamente pela figuras principais do período - Sócrates (469-399 a. C.), Platão (427-347 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.).

As três fases tem como referencial nomes racionalistas, porque estes deram o destaque a cada uma delas, sem que fossem contudo representantes únicos da filosofia em cada uma das referidas fases.

Sócrates, ainda que nada houvesse escrito, merece consideração especial, porque inspirou a Platão e Aristóteles.

Dada a importância de Platão, tem-se-lhe dado um estudo a parte (vd O divino Platão 6316y000); o mesmo acontece com Aristóteles (vd O grande Aristóteles 0485y000).

 

 

22. Entre as diferentes escolas atuantes no período socrático importa subdistinguir entre as escolas socráticas menores e as escolas pré-socráticas remanescentes, as quais continuam na pessoa dos que são apenas epígonos das mesmas.

As escolas socráticas menores também procedem do período pré-socrático, todavia se inspirando agora em Sócrates, sobretudo no seu moralismo humanista.

 

Tais escolas pré-socráticas menores são:

- escola de Mégara, com Euclides de Mégara e Eubúlides de Mileto;

- escola cínica, com Antístenes de Atenas;

- escola cirenaica, com Aristipo de Cirene.

 

Diferentemente, as escolas pré-socráticas remanescentes, continuam diretamente o pensamento anterior, ainda que em forma evolutivas.

São apenas epígonos dos pré-socráticos, ou seja, pré-socráticos remanescentes, - Diógenes de Apolônia, Crátilo, Hipasos de Metaponte, Ecfanto, Clínias, Alcmeon, Árquitas.

 

 

 


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