(Versão em Português do original em Esperanto)
© Copyright 1997 Evaldo Pauli
CAP. 1
OS GRANDES SOFISTAS. 8310y024.
- A Sabedoria no tempo dos sofistas e Socrátes -
25. Introdução à sofística em geral. São grandes sofistas Protágoras (vd 30) e Górgias (vd 56).
Mas, antes de abordá-los, importa uma introdução à sofística em si mesmo, a que eles, aliás, deram começo.
No étimo grego F @ N ` H (= sábio) é o adjetivo que ordinariamente se usa para indicar a habilidade superior de quem mais sabe. Por sua vez o substantivo F @ N 4 F J Z H (= sábio) é a pessoa que sabe. Era assim que os sete sábios da Grécia foram denominados em sua língua como sendo os sete sofistas.
Antes que o termo tivesse transformações semânticas pejorativas, era o sofista descrito como um sábio, um cientista, um homem experiente, um cientista. Ao estabelecer-se o ensino remunerado, o sofista passou a ser sobretudo o mestre que ensina profissionalmente.
Doutrinariamente foram, entretanto, céticos, com nuances de probabilismo e relativismo. É evidente que o sofista não podia ser sábio sem espírito crítico, e por ter este espírito passava forçosamente por ser também um cético das mitologias e outras credulidades populares.
Mas, como os que se tinham na conta de sábios, nem sempre honravam o nome, os pitagóricos preferiram dizer-se amigos da sabedoria. Consequentemente as denominações de sofista e filósofo passaram a se distanciar, comprometendo o de sofista, que progressivamente passou a ter conotação negativa e polêmica, sobretudo, a partir de Sócrates e Platão (Protágoras 318 b). Assim permaneceu até hoje. Também passou a se instalar uma diferença entre F @ N \ " (= sabedoria) e N 4 8 @ F @ N \ " (= filosofia). Mas destas vez sabedoria manteve conotação positiva.
26. Doutrinariamente, os sofistas partem de uma doutrina gnosiológica de restrição aos resultados do conhecimento humano. Eram induzidos a esta posição frente às divergências da anterior filosofia da natureza.
Além disso tratando os sofistas de vulgarizar a cultura, como ainda de preparar oradores, inclinavam-se espontaneamente para o lado prático da vida, abandonando as minuciosas teorias especulativas sobre a natureza.
A teoria do discurso induziu aos sofistas a estudar o homem pelo lado psicológico, pela gênese de suas idéias e inclinações da vontade. Considerado em si mesmo, o novo tema - o homem - era dos mais importantes. Mas, foi levado para uma direção subjetivista e que caracterizou os sofistas como céticos, probabilistas, relativistas, subjetivistas, agnósticos.
Comparado Sócrates com os sofistas, as afinidades existem no que se refere ao estudo do homem; a distinção ocorre entretanto porque Sócrates reagiu contra o lado subjetivista, estabelecendo o valor dos conceitos racionalisticos da inteligência.
Ponderou Cícero (Tusculanas V, 4, 10) que Sócrates fez descer a filosofia do Céu às cidades e às casas; neste particular o mesmo deve-se dizer dos sofistas seus contemporâneos, visto que todos se ocuparam com estes assuntos antropológicos.
Comparados entre si, uns são consideradas sofistas maiores; estes são Protágoras (vd 30) e Górgias (vd 56), que, por sua vez, se subdistinguem pelo fato de Protágoras ter sido mais ligado à filosofia jônica, e Górgias mais à eleática.
Outros são denominados sofistas menores (vd 76) e de natureza mais popular, no sentido de difusão ao alcance de todos; entre os sofistas menores destacam-se Pródico, Hipas, sendo ambos mais jovens, que os sofistas maiores. Citam-se ainda entre os sofistas menores Ménon (tributário de Pródicos), Crítias, Polos, Trasimaco, Cálicles.
28. O fenômeno dos sofistas ocorreu num tempo especial, no século V a.C. quando a nação grega atingia o auge de sua prosperidade, fenômeno que gerou a demanda do ensino profissional, generalizando-se a instrução.
Multiplicam-se os mestres e a oportunidade do ensino remunerado, como de gramática, retórica, política, filosofia. Tornou-se o termo sofista, o equivalente grego de nossa expressão mestre.
Combatiam a remuneração dos sofistas os que reagiram aos seus exageros, como Sócrates (Xenofonte, Ditos Memoráveis), Platão (Górgias 420 c), Aristóteles (Ética a Nicomaco, 1164a 24).
Não obstante aos abusos, a posição dos sofistas era substancialmente certa, e marca na história o começo do ensino profissional generalizado. Platão, que tende a ridicularizar aqueles com os quais discorda, fornece nada menos de seis definições de sofista, todas desfavoráveis aos mesmos.
Concentraram-se os sofistas particularmente em Atenas, ainda que o fenômeno fosse generalizado. Antes dos sofistas as escolas filosóficas distribuem-se homogeneamente. Passa agora Atenas a ser como que a sede da filosofia, portanto também da sofistica.
Protágoras, vindo de Abdera, e Górgias de Leôncio, passaram períodos consideráveis em Atenas. Ali também se encontravam Hípias de Élida, Pródico de Ceos, Crítias, sendo estes últimos mais novos.
ART. 1o. PROTÁGORAS DE ÁBDERA.
8310y030.
32. Introdução didática. Conhecem-se de Protágoras a vida e as obras, bem como sua doutrina. O tema permite pois o desenvolvimento em dois parágrafos e vão revelar a não sem importância deste personagem da Grécia clássica.
§ 1. Vida e obras de Protágoras. 8310y033.
34. Protágoras (A D T J " ( ` D " H ) (c. 481-411 a.C.), filósofo grego de Abdera, foi o mais antigo e destacado dos sofistas. Extraordinariamente erudito, exerceu o magistério em várias cidades. Autor de muitas obras, todas entretanto se perderam.
Conhece-se o sábio de Abdera através das menções de Platão (em Sofista, Teeteto, Protágoras), de Aristóteles (em Metafísica), de Sexto Empírico ( em Hipotiposes pirronianas), de Diogenes Laércio (em Vida dos filósofos, com 2 páginas de informações.
35. Segundo a versão mais aceita, nasceu Protágoras em Ábdera, cidade de origem jônica, situada na Trácia, portanto ao Norte em relação a Atenas.
"Era Protágoras filho de Artemon ou de Meandro, segundo Apolodoro e Dinon em Os persas. Disse Heráclides do Ponto, no Tratado das leis, que era de Ábdera e que havia dado leis aos habitantes de Túrion. Eupolis, em seus Aduladores, o fez natural de Teos ao dizer: "aqui dentro está Protágoras de Teos" (D. Laércio, IX, 50).
Sobre seu nascimento e morte que se situam no espaço de 481 a 411 a. C. , encontram-se as seguintes versões:
"Filócoro diz que a embarcação que o levava à Sicília naufragou na travessia e que Eurípides fazia alusão a este fato em seu Ixion. Segundo outros autores, morreu durante a travessia, com a idade de noventa anos. Apolodoro assegura, sem embargo, que só viveu 60 anos, dos quais consagrou 40 à filosofia e que florescia até a 84-a olimpíada" (D. L., IX, 56).
Em relação aos atomistas de Ábdera, teria sido mais velho que Leucipo e mais novo que Demócrito. Todos os três, - Protágoras, Leucipo, Demócrito, - foram ligeiramente mais velhos que o contemporâneo Sócrates (469-399 a.C.).
"Foi Protágoras discípulo de Demócrito [atomista] e o chamavam Sabedoria, como diz Favorino em seu Histórias diversas (D. L., IX, 50).
Não faltou quem pusesse em dúvida que Protágoras houvesse sido suficientemente mais novo para ter sido discípulo de Demócrito, o atomista. Seria então preciso não lhe dar 90 anos como referem alguns autores, porque isto o recuaria no tempo, mas talvez somente 60, conforme lhe atribuiu Apolodoro.
No diálogo de Platão é dada a Protágoras alta idade, como se fosse o pai de todos os dialogantes. Como não temos informações suficientes para decidir, resta ironizar dizendo que sobre Protágoras tudo se pode defender, de acordo com o relativismo por ele mesmo defendido.
36. Protágoras e Pródico de Ceos foram os primeiros a se ocupar com o ensino público e dele fazer uma profissão. É o que decorre de uma informação de Diógenes Laércio:
"Este (Protágoras) e Pródico de Ceos eram leitores públicos mediante salário (8 ` ( @ L H • < " ( 4 < f F 6 @ < J , H º D " < \ . @ < J @ = liam publicamente com uma retribuição), e Platão, em seu Protágoras, diz que Pródico tinha uma voz grave" (D. L., IX, 50).
O certo é que havia aproximação entre as doutrinas dos sofistas e atomistas, porque ambos tinham seu ponto de partida no conhecimento sensível; não ultrapassando a linha permitida pelo empirismo (ou positivismo), faziam causa comum contra o universalismo dos racionalistas sobretudo eleata e pitagórico.
Protágoras foi o gerador principal do tipo social chamado sofista, que veio a ser definido nos diálogos platônicos: aquele que discute versatilmente, pede salário pelo ensino, exerce uma filosofia relativista com possibilidade de defender sentenças opostas. Mas é sempre um homem prudente, preferindo ser agnóstico, do que defensor de tese contra ou a favor.
37. Conceituando as necessidades de sua época, ao mesmo tempo que tratando operosamente de assuntos humanos, Protágoras tornou-se um cidadão destacado, que teve acesso não somente a outros intelectuais do seu tempo, como ainda aos políticos, em especial a Péricles (+ 429 a.C.).
A ascensão social e política de Protágoras principia pela volta do ano 443 a. C. Aproveitou-o então Péricles para dar uma constituição à colônia de Túrion (no golfo de Tarento, Magna Grécia, Itália do sul). Tal encomenda supõe um contexto em que Protágoras surge como conhecedor das leis e necessidades públicas.
Tratava-se da reconstrução da antiga Síbaris, destruída no começo daquele século pelos habitantes de Crotona. Urbanisticamente Túrion fora traçada pelo arquiteto Hipodamus de Mileto.
O envolvimento do sofista Protágoras permite especular sobre o caráter de suas doutrinas progressistas e empiristas, as quais se opunham certamente ao tradicionalismo racionalista vigente em Crotona, sob domínio dos pitagóricos.
A segunda estada do filósofo sofista em Atenas ter-se-ia dado pela volta dos anos 432 e 430 a. C. de acordo com o que Platão refere no diálogo, em que é situado frente a frente com Sócrates. Naturalmente nas colocações de Platão incluem-se ironias e que é preciso amenizar, a fim de definir através de tais notas a verdadeira fisionomia de Protágoras.
38. O final infeliz de Protágoras foi o resultado a que o levou sua filosofia agnóstica em relação aos deuses e à credulidade popular. Havendo Protágoras posto em dúvida aos deuses foi em 411 a.C., pelos atenienses. Tomados seus livros das mãos dos que os possuíam, foram queimados em lugar público (D., L., IX, 52), morrendo ele mesmo em naufrágio quando fugia para a Sicília.
A história deu conta de várias dessas reações do fanatismo contra os filósofos. Não somente aconteceu com Protágoras e pouco depois com Sócrates, porquanto ainda modernamente acontecerá com Bruno e Galileu.
O agnosticismo de Protágoras se relacionou certamente com aquele dos atomistas, especialmente o de Demócrito, com o qual parece as vezes confundir-se sua pessoa nas informações posteriores. Dali talvez porque foi considerado discípulo do referido Demócrito, sem que houvesse muita coerência cronológica para isto. As doutrinas sobre os deuses parecem também atribuídas ora a um, ora a outro.
Uma informação de Filostrato diz que Protágoras frequentara os magos persas. A informação, da qual se pode duvidar, explicaria porque como os magos, Protágoras houvera passado a discutir as representações antropomórficas da divindade.
"Quando de seus tratados começa [Protágoras] com estas palavras: sobre os Deuses não saberei dizer se existem, ou não; são muitas as razões que impedem de sabê-lo, quer a obscuridade do assunto, quer a brevidade da vida do homem. Por causa desta proposição foi desterrado pelos atenienses e seus livros foram recolhidos das mãos dos que os possuíam e queimados no foro" (D. L., IX, 52).
Mais adiante:
"O começo de seu livro sobre os deuses é aquele que apresentamos acima. Leu-o [como lição ao público] em Atenas, na casa de Eurípedes, ou segundo alguns, na Megáclides, ou mesmo, segundo outros, no Liceu, por meio do seu discípulo Arcágoras, filho de Teodoro. Foi acusado por Pitodoro, Filho de Policelo, um dos quatrocentos, ou segundo Aristóteles, por Euatlo" (D. L., IX, 55).
39. São considerados discípulos de Protágoras o matemático Teodoro (que aparece no diálogo Teeteto de Platão), Antimero de Mende, Arcágoras, Evatlo e de certo modo também Jeniade de Corinto. Estes discípulos não são necessariamente sofistas, mas ligados ao ensino do mestre.
40. As obras de Protágoras perderam-se, restando apenas fragmentos e referências.
Setecentos anos depois, Diógenes Laércio menciona, como então ainda existentes, doze títulos.
"Os livros que dele subsistem são:
Euristica (Ou Arte da discussão); Da luta; Da matemática ( ou Das Ciências); Da república (ou Do governo); Da ambição; Das virtudes; Do estado das coisas no princípio; Das coisas do Hades (ou Do Inferno); Das más ações dos homens; Dos preceitos; Defesa dos salários; Das contradições" (D. L., IX, 55).
O Tratado dos deuses, mencionado antes por Diógenes Laércio, não se encontra na lista de obras dadas por este como ainda subsistentes.
Platão cita como de Protágoras A Verdade, do que sobra um fragmento e que também não aparece na lista dos 12 títulos.
Sexto Empírico menciona mais um terceiro não alistado: Raciocínios demolidores.
Não é de todo impossível que alguns destes livros sejam mencionados na lista dos 12 títulos através de uma das outras denominações.
O título Das coisas do Hades de Protágoras pode ter relações com a obra de igual titulação atribuída a Demócrito.
A importância de Protágoras confirma-se no fato de haver Platão aproveitado o nome do Filósofo para título de um dos seus diálogos, Protágoras (309-362 a. C.) voltou a Protágoras em Teeteto (151 e). Ainda outros diálogos lembram aos sofistas: Pequeno Hipias; Grande Hipias; Górgias; Crítias, Sofista.
Também Aristóteles ocupou-se diretamente do relativismo sofístico, citando a Protágoras. E assim também Sexto Empírico.
§2. Doutrinas de Protágoras. 8310y042.
43. Os prelúdios da lógica encontram-se em parte na sofística de Protágoras.
É sabido que Aristóteles criou a lógica quase inteira. Mas teve seus precursores, conforme atestam algumas informações. E é mesmo razoável assim supor. Tal é o adiantamento que atingiu a lógica de Aristóteles, que não parece possível ser apenas sua a grande obra que apresentou.
As indicações históricas que nos restam são lacônicas, e parecem dizer que tais prelúdios foram significativos. Já Zenão de Elea (490-430 a.C.) praticou a dialética, havendo usado conscientemente os dilemas.
Os sofistas, que principiam sua ação já antes de Zenão, com Protágoras, continuaram a progredir depois destes dois mestres maiores, exercendo profissionalmente o discurso público, - propicio ao desenvolvimento da gramática e da lógica. Terão passado espontaneamente a considerar como se processa uma demonstração e uma refutação.
É expressiva a indicação de que "nada se pode contradizer", que podemos também traduzir "duas razões contrapostas entre si"...(vd 44). Talvez já indicassem aqui a essência das proposições contraditórias.
Entretanto, não parece que o sofista Protágoras ultrapasse de muito os primeiros rudimentos da lógica, pois o diálogo de Platão denominado Sofista, que é indicador da lógica platônica posterior a Protágoras, ainda se mantém muito aquém daquela de Aristóteles.
44. Dentro deste contexto importa apreciar a informação de Diógenes Laércio, que diz o seguinte a respeito de Protágoras:
"Instituiu as lutas oratórias e introduziu os sofismas, para os que apreciam tais argumentos, deixando as coisas para só aferrar-se às palavras, e que ainda perduram. Isto fez a Timon dizer: o insaciável Protágoras, este hábil discutidor.
Foi também o primeiro que usou o estilo socrático de falar e o primeiro que usou o argumento de Antístenes, como diz Platão em Eutidemo, pelo qual nada se pode contradizer (* b @ 8 ` ( @ 4 • < J 4 6 , \ : , < @ 4 • 8 8 Z 8 @ 4 H ).
Foi o primeiro que formou a argumentação para as teses, como o diz Artemidoro o Dialético em seu livro Contra Crispino.
Foi também o primeiro a dividir o discurso em quatro partes: a prece, a interrogação, a resposta, o preceito (, Û P T 8 Z < , ¦ D f J 0 F 4 < , • B ` 6 D 4 F 4 < , ¦ < J @ 8 Z < ).
Outros dizem que distinguia sete partes: narração (* 4 Z ( 0 F 4 < ), interrogação (¦ D f J 0 F 4 < ), resposta (• B ` 6 D 4 F 4 < ), preceito (¦ < J @ 8 Z < ), declaração (• B " ( ( , 8 \ " < ), prece (, Û P T 8 Z < ) e invocação(6 8 F 4 < ) chamando a estas partes de fundamento e raiz do discurso.
Alcidamas dizia serem quatro estas partes: afirmação (N V F 4 < ), negação (• B ` N " F 4 < ), interrogação (¦ D f J 0 F 4 < ) e apelação (B D @ F " ( ` D , L F 4 < )" (D. L., IX, 52).
É expressiva a indicação de que "nada se pode contradizer" (* b @ 8 ` ( @ 4 • < J 4 6 , \ : , < @ 4 • 8 8 Z 8 @ 4 H ), que podemos também traduzir "duas razões contrapostas entre si" (D. L., IX, 51).
Talvez Protágoras já indicasse aqui a essência das proposições contraditórias.
Entretanto, não parece que o sofista ultrapassasse de muito aos primeiros rudimentos da lógica, pois o diálogo de Platão denominado Sofista, que é o indicador da lógica platônica, e posterior a Protágoras, anda se mantém muito aquém da de Aristóteles.
45. A gnosiologia de Protágoras é sensista e relativista, com a exclusão portanto da especificidade da inteligência e da verdade absoluta.
Sobre o caráter sensível de todo o conhecimento, o primeiro informe sobre tal doutrina de Protágoras foi dado por Platão:
"O conhecimento não é outra coisa que a sensação" (Teeteto 151a).
Na informação transmitida por Diógenes Laércio, apoiando-se em Platão:
"Ele usava dizer que a alma não é nada além dos sentidos (: 0 * Z < , É < " 4 J ¬ < R L P ¬ < B " D J H " Æ F 2 Z F , 4 H ), conforme aprendemos em Platão " (D. Laércio, IX, 51).
Este sensismo de Protágoras, apoiado no fluir de Heráclito, contrariou o racionalismo dos eleatas e Pitagóricos.
Contrariou também Protágoras aos atomistas, porquanto estes alegavam que, embora os sentidos não percebessem os átomos, a inteligência provava sua existência.
Distanciou-se outrossim Protágoras dos filósofos eleatas, que, apesar de considerarem falazes os sentidos, admitiam a capacidade da inteligência para alcançar o ser.
O esforço de Sócrates contra o sensismo é o de provar a especificidade da inteligência, enquanto o de Protágoras era o de provar o contrário, a saber, que todo o conhecimento só era sensação.
Entretanto outro sofista, Górgias, apoiava-se nos eleatas, diferenciando-se pois de Protágoras.
46. O relativismo gnosiológico de Protágoras tem como fundamento o fluir de todas as coisas. Um primeiro conhecimento, não se repete no segundo. Nem sequer o mesmo sujeito, ao repetir o conhecimento anterior, continua sendo o mesmo indivíduo. E assim também, no instante seguinte, o objeto já não é o mesmo, que aquele objeto que produz o conhecimento.
Há uma causa ativa (objeto que se faz conhecer) e uma causa passiva (o sujeito que exerce o conhecimento). É o conhecimento o produto do encontro das duas causas. Este produto entre a causa-ação e a causa-paixão é um tertius, chamado conhecimento. Este conhecimento varia, em função ao fluxo constante das coisas; para cada qual, em consequência, poderá haver uma diferente verdade.
47. O primeiro vasto informe sobre o sensismo de Protágoras se encontra no Teeteto de Platão, já citado, e logo confirmado por Aristóteles (na Metafísica), séculos depois ainda por Sexto Empírico (em Hipotiposes pirronianas) e Diógenes Laércio.
A fonte informativa principal da gnosiologia de Protágoras é o diálogo platônico Teeteto, sobretudo de 151 até 160. Mas não se sabe com precisão até que ponto Platão tem sido fiel na exposição, que fez através da boca de Sócrates dialogando com Teeteto. O retrato que ali traçou do sofista Protágoras, não coincide inteiramente com aquele do diálogo denominado Protágoras, sobre assuntos morais, em que o sofista é apresentado como um tipo dogmático e convencido de si mesmo.
Não obstante, o relativismo exposto no Teeteto se confirma em Aristóteles e Sexto Empírico.
Com detalhe Platão desenvolveu a teoria da sensação de Protágoras em seu diálogo. Fundamentalmente, o olho emite raios e o objeto também. No encontro de ambas as emissões cria-se no ar o fenômeno da imagem visual. Portanto, a imagem não se forma sobre a retina ocular. De outra parte, ocorrendo a imagem como resultado deste encontro de ações, ela não é a imagem rigorosa do objeto simplesmente. Por isso, cada um tem a sua verdade.
Surpreendentemente, Teofrasto descreveu mais ou menos nos mesmos termos a teoria da visão apresentada por Demócrito, da escola atomista. Ao fazê-lo, não se refere ao sofista Protágoras; não diz que ambos tinham o mesmo modo de pensar sobre o assunto.
Com referência a Aristóteles atribuiu somente a Protágoras o relativismo; tal como Platão, deixa de atribuir a mesma teoria a Demócrito. Poderia ser a troca de um nome pelo outro; mas é possível também que de fato ambos desenvolvessem a mesma teoria.
48. No texto platônico do Teeteto figuram como dialogantes Sócrates, Teodoro e Teeteto. Depois do prólogo, propôs Sócrates a discussão do problema do conhecimento, cuja natureza o sofista Teeteto diz ser sensível. A propósito levanta Sócrates a teoria da sensação, segundo a propôs Protágoras. Depois os dialogantes passam a examiná-la criticamente.
Apenas colocada a definição do conhecimento como sensação, prossegue o diálogo, nos seguintes termos, introduzindo sem demora também o relativismo:
"Teeteto: O conhecimento não é outra coisa que a sensação.
Sócrates: realmente me parece que encontraste um conceito nada desprezível de conhecimento, que já fora antes formulado por Protágoras. Ele disse o mesmo que tu, ainda que com outras palavras. Disse em certo tópico que ‘o homem é a medida de todas as coisas, das que são enquanto o são, das que não são, enquanto não o são [Frag. 1, Diels]. Sem dúvida o terás lido?
T.: Sim, eu o li muitas vezes.
S.: Não disse, em verdade, que as coisas são para mim, tal como me aparecem e para ti, também tal como te aparecem, não obstante sermos homens, eu e tu?
T.: Disse isto exatamente.
S.: É natural que um homem sábio não faça afirmações gratuitas. Sigamos, por conseguinte, seu desenvolvimento. Não ocorre, às vezes, que o mesmo sopro de vento faz a um tiritar de frio e a outro não? Que a um acaricia ligeiramente e a outro de maneira pronunciada?
T.: De fato.
S.: Que será o vento em si mesmo? Diremos que é frio, ou que não é frio? Ou daremos a Protágoras, que é frio para aquele que tirita e que não é para o outro?
T.: Sim, logicamente.
S.: E nesta apar6encia consistirá o conhecimento?
T. : Claro que sim.
S.: Então aparência e sensação são uma mesmo coisa, para o calor como para os demais estados análogos. Porque as coisas parecem ser tal como cada um as sente.
T.: Assim parece.
S.: Só há, pois, sensação do que é, e sensação verídica do que constitui conhecimento.
T.: Não há dúvida" (Teeteto 151 e 152 e, trad. J. Paleikat).
No texto constata-se que, para Protágoras, o conhecimento é uma expressão fenomenal altamente subjetiva. Platão, ao introduzir sua exposição, citou três frases de Protágoras, que se tornaram famosas:
"O homem é a medida de todas as coisas, das que são, enquanto são, das que não são, enquanto não são" (Teeteto 152 a; Frag 1d);
"As coisas são para mim, tal como me aparecem, e para ti, tal como te aparecem" (Teeteto 152 a);
"O mesmo sopro de vento faz a um tiritar de frio, e a outro não" (Teeteto 152 b).
O primeiro texto repete-se em Aristóteles:
"Dizia Protágoras que o homem é a medida de todas as coisas, o que significa que o que parece a um, também o é para ele com certeza" (Metafísica. XI, 6. 1062b 12).
Mais tarde Sexto Empírico também faz eco:
"Por medida entende o critério do juízo; por causas, os fatos. Isto quer dizer que o homem é o meio do juízo de todos os fatos, dos que são enquanto o são e dos que não são, enquanto o não são. Admite em consequência, somente aquilo que parece a cada um, e assim introduz a relatividade" (Hypotiposes Pyrronianas, I, 216).
49. Depois de haver Platão encaminhado, através da boca de Sócrates o assunto da relatividade do conhecimento segundo Protágoras, passa a mostrar o porque desta relatividade, motivando-a no movimento geral das coisas. Em vista do mobilismo universal, nem mesmo as faculdades de conhecimento estão livres de sua consequência.
"Sócrates: Como o que é em si e por si nada é, não há coisa alguma que se possa expressar com exatidão.
Supõe, por exemplo, que tu consideras algo como grande, nada impedindo que apareça como pequena. Igualmente, coisa pesada, que se não mostre como leve. Em tudo ocorre exatamente isso, porque de nada se pode afirmar unidade nem qualidade individual alguma.
Tudo o que dizemos que é, é um resultado da transição da mescla e do movimento mútuos; resulta que nossa afirmação é falsa, porque jamais algo é, mas tudo está em devir.
Todos os sábios, uns depois dos outros, com exceção de Parmênides, chegaram a esta conclusão. Trata-se de Protágoras, Heráclito e Empedocles, e entre os poetas, os seus maiores representantes, Epicarmo, da comédia, Homero, da Tragédia.
Neste sentido seja lembrado o que disse Homero: O oceano , gerador dos deuses e sua mãe Thetis.
Isto prova que todas as coisas são produto da corrente e do movimento. Não acreditas que vem dar nisto?
Teeteto: Parece-me " (Teeteto 152 d-e).
Também Sexto Empírico aponta para a mobilidade como motivo do relativismo de Protágoras:
"Diz (Protágoras) que a matéria é um fluir. Fluindo, constantemente, ocorrem acréscimos e perdas. As sensações transformam-se e mudam com a idade e outras disposições dos corpos.
Diz também que os fenômenos têm sua razão na matéria e que esta pode parecer tais coisas.
Que os homens percebem, sucessivamente, ora esta, por aquela aparência, de acordo com as diversas situações. Aqueles que se encontram em situação naturais, os percebem em suas condições naturais. Os que se encontram anormais, os percebem anormalmente.
Expõe o mesmo, com relação à idade, o estado de sono e de vigília e de todas as demais condições.
Em consequência, o homem é o juiz da realidade das coisas. O que parece aos homens, é; o que não parece, não é " (Hypotyposes I, 217).
50. Continuando em aspectos da mesma consideração sobre o movimento, a exposição encaminha uma explicação mais profunda do conhecimento, como um terceiro fenômeno criado pelos dois termos anteriores, um ativo, outro passivo.
"Teeteto: Parece-me Sócrates, que tudo é como o explicas.
Sócrates: É assim, na verdade, que se devem considerar as coisas, querido amigo. Isto que, para os olhos, chamas cor branca, nem é cor branca em si, nem o é fora, nem diante de teus olhos, nem sequer em lugar algum. Se fosse deste modo, deveria ter seu posto e nele se manteria, e nem variaria continuadamente.
T.: Como explicas isto?
S.: A partir da razão exposta há pouco, admitindo portanto que não há nada em si nem por si, se comprova que a cor branca, como a negra, como qualquer outra, resulta da aproximação dos olhos à esta translação própria que lhes dá origem. Temos, então, que toda a cor existente não é o que se aplica, nem o que é aplicado, porém algo intermédio, adequado a cada um. Acaso poderias afirmar que a cor, tal como aparece a ti, também aparece a um cachorro ou a qualquer outro animal?
T.: Por Zeus, não é a minha opinião.
S.: Deveremos dizer, portanto, que não há semelhança alguma entre o que percebe outro e o que percebes tu? Acaso poderias mantê-lo com firmeza? Ou terias ainda que afirmar que nada é idêntico para ti, já que nem tu o eras contigo mesmo?
T.: Inclino-me para o último" (Teeteto 153 d-154 a).
Até Teeteto 160 e, vai o diálogo platônico refinando os detalhes da teoria relativista do conhecimento de Protágoras, inclusive envolvendo as noções de ação e paixão (agente e paciente) segundo as quais se relacionam o sujeito conhecedor e o objeto que se faz conhecer.
51. A tese da relatividade admite o passo para a identidade dos contrários e a identidade da verdade e falsidade. Percebeu-o Protágoras:
"Sobre cada argumento podem-se enunciar dois discursos com exata antítese entre si" (Frag. Encontrado em D.Laércio, IX, 51).
Do assunto ocupou-se também Aristóteles, para depois referir-se ao eminente sofista:
"É da mesma opinião que procede a concepção de Protágoras, - de que duas doutrinas devem ser igualmente verdadeiras e falsas.
Com efeito, de um lado se todas as opiniões e todas as impressões são verdadeiras, é necessário que tudo seja, ao mesmo tempo, verdadeiro e falso. Pois um grande número de homens têm concepções contrárias uns dos outros e cada um acredita que os que não participam de suas próprias opiniões encontram-se no erro; desta sorte, necessariamente, a mesma coisa deve, ao mesmo tempo, ser e não-ser.
De outra parte, se for assim, todas as opiniões devem ser verdadeiras, porque aqueles que estão no erro e aqueles que se encontram na verdade, têm opiniões opostas. Se pois as coisas, elas mesmas, se comportam de acordo com esta doutrina, elas estarão todas na verdade" (Aristóteles, Metafísica, IV, 5. 1009a 7-14).
52. Agnosticismo. Enquanto os filósofos pré-socráticos tendem para o monismo panteísta, Protágoras conduziu a questão para o agnosticismo. Limitado o conhecimento humano à subjetividade e ao relativismo, nada efetivamente poderia especular de válido em assuntos transcendentais sobre o todo como tal e portanto nada sobre Deus ou sobre um mundo elevado aos termos do monismo.
Sua conclusão, tornou famosa a frase conclusiva de Protágoras, já citada:
" Dos deuses nada posso dizer. Quanto à questão, se eles existem ou não, muitas razões impedem que se possa chegar a sabê-lo, entre outras a obscuridade da questão e a curta duração da vida" (A , D Â : ¥ < 1 , ä < @ Û 6 § P T , Æ * X < " 4 @ Ü 2 r ñ H , Æ F \ < @ Ü 2 r ñ H @ Û 6 , Æ F \ < B @ 8 8 ( D J 6 T 8 b @ < J " , Æ * X < " 4 » J r • * 0 8 ` J 0 H 6 " Â $ D " P × H ê < Ò $ \ @ H J @ Ø • < 2 D f B @ < ) [frag.4] (D. Laércio, IX, 52).
Esta doutrina, em função da qual não seriam deuses o sol e nenhum dos astros, valeu a Protágoras, como já se disse, a expulsão de Atenas (vd 38).
53. As idéias morais, políticas, sociais, culturais e educacionais de Protágoras fizeram-se conhecer através do excelente diálogo platônico denominado Protágoras. Nele comparece a figura idosa do grande sofista.
Platão, ao apresentar o mito do homem primitivo e seu posterior desenvolvimento, parece aproveitar a obra, depois perdida, intitulada Estado das coisas no princípio. Especula-se que ela seria paralela a de seu conterrâneo atomista Demócrito O grande sistema do mundo.
A partir do mito, Protágoras desenvolveu suas idéias, que mostram a necessidade da cultura, inclusive da ciência política, tendo em vista preparar cada qual, dentro de sua relatividade gnosiológica, a fim de, pelo melhor modo, desempenhar-se.
ART. 2o. GÓRGIAS DE LEÔNCIO. 8310y056.
57. Introdução didática. Do sofista Górgias se conhecem, como já de Protágoras, vida e obras, bem como suas doutrinas. Desta sorte, também Górgias surge como figura de primeira grandeza na brilhante sofística da Grécia clássica.
§ 1. Vida e obras de Górgias. 8310y059.
60. Górgias (' @ D ( \ " H ) (c. 483-375 a.C.), formou, ao lado de Protágoras, seu contemporâneo, a dupla dos maiores sofistas gregos. É nome, como aliás também Protágoras, de um importante diálogo platônico.
Foi Górgias discípulo do filósofo Empedocles de Clazomena, que da Jônia se houvera transferido para o Ocidente e fora também orador. Ainda que Diógenes Laércio não dedicasse a Górgias parágrafo especial em seu livro sobre os filósofos, não deixou de mencionar esta ligação com Empédocles de Clazomena. Ao tratar do mesmo Empédocles, disse:
"Era também Empédocles médico e excelente retórico; com efeito, teve como discípulo a Górgias de Leôncio, autor de um tratado de retórica e um dos homens mais adiantados nesta arte.
Viveu Górgias 109 anos; segundo as Crônicas de Apolodoro, e o contava ele mesmo como diz Sócrates, que havia conhecido a Empédocles exercendo a magia" (D. Laércio, VIII, 58).
Ainda referiu Diógenes Laércio mais o seguinte:
"Assegura Alcidamas, em Física, que Zenão e Empédocles haviam escutado ao mesmo tempo as lições de Parmênides, porém que após pouco tempo se retiraram. Zenão passa a filosofar em próprio nome, e Empédocles para seguir a Anaxágoras e Pitágoras. Segundo Aristóteles foi Empédocles o fundador da retórica e Zenão da dialética" (D. L., VIII, 7).
Também Hermipo e Clearco relataram a vida de Górgias em suas biografias (Athen., XI, 505, XII, 548 d).
61. Em Atenas. Até cerca de 55 anos atuou Górgias na região da Sicília, onde aliás se situa Leôncio a sua cidade de nascimento. Depois ocorreu a sua grande oportunidade, quando, pelo ano 427 a. C., foi enviado para Atenas, como chefe, juntamente com o reitor Tísias, de uma delegação. Pleiteava a delegação a aliança da então poderosa Atenas contra o expansionismo de Siracusa. Ocorrerá mais tarde uma ação de Atenas, mas sem resultado, até porque encontrou pela frente a resistência de Esparta, contra a qual sustentou a desastrosa guerra do Peloponeso.
Na oportunidade de sua vinda para Atenas, aproveitou Górgias atuar também como sofista. Platão já era então um jovem de 20 anos. Mais tarde este se reportará ao fato, em um dos seus diálogos, porém com alguma ironia, mas pela boca de Sócrates:
"É verdade que vossa arte progrediu no que se refere à capacidade de fazer andar juntos o interesse público e o particular.
Efetivamente, Górgias o famoso sofista de Leôncio, ao mesmo tempo que a título público viera aqui (Atenas), como embaixador enviado por seu país, - porque ele era, entre os leontinos, o mais capaz de bem servir ao interesse geral, - reuniu ao sucesso de sua eloquência na Assembléia do Povo a realização de gordos proveitos, que ele retirou desta cidade mesma, em organizando ali, a título privado, demonstrações de sua arte e conferências para a juventude" (Grande Hípias, 282 d.).
Era Górgias cerca de 25 anos mais velho que Sócrates (+399), a quem contatou, e também sobreviveu a este, graças à elevada idade que atingiu, havendo atingido o ano 375 a.C.
Contemporâneo do sofista Protágoras (+ 411 a. C.), também sobreviveu a ele em muito.
Não casou, circunstância esta que lhe facilitou movimentar-se por diferentes cidades. Depois de haver estado em Atenas, empreendeu uma série de viagens. Em Larissa (da Tessália) frequentou a corte dos Aleuades. Esteve na Beócia e em Argos, Delfos e Olimpia, em datas difíceis de determinar.
Sobre esta segunda fase da vida de Górgias na Grécia continental também se referiu Platão, mais uma vez com ironia e pela boca de Sócrates:
"Os tessálios, Menon, eram afamados e admirados entre os gregos por sua arte de montar e por sua riqueza, mas hoje, segundo me parece, o são também por sua sabedoria.
E nem estão em último lugar os larísseos, concidadãos de teu amigo Aristipo. Tal é o merecimento de Górgias. Quando este com efeito esteve em Larissa, conseguiu atrair para a sabedoria os mais nobres chefes dos Aleuades, a que pertence Aristipo, e outros tessálios. E vos acostumou assim, a responder corajosa e infalivelmente a qualquer pergunta que se vos faça, como aliás, é muito natural que aos sábios e a ele próprio. Permitia a cada grego que o interrogasse sobre o que quisesse, sem faltar com a resposta
Em nossa cidade, todavia, se passa justamente o contrário: como se aqui tivesse havido uma degeneração da sabedoria, e esta emigrasse da nossa terra para a vossa" (Menon, 70).
Nos seus diálogos, Platão colocou na boca de Sócrates a afirmação de que Górgias teria ganho muito dinheiro, quer em sua terra, quer nas cidades da Grécia, ensinando e declamando.
No diálogo platônico denominado Górgias, é apresentado como sumamente orgulhoso com a pretensão de tudo responder e jamais ter deixado de poder satisfazer a uma pergunta:
"Kaiferon: - É certo o que afirma Cálicles, de que tu [Górgias] és capaz de responder a todas as perguntas que te possam fazer?
Górgias: sim, Kaiferon, assim o tenho declarado faz poucos momentos, e acrescento que desde há muito anos ninguém me fez pergunta que me fosse desconhecida" (Górgias, 447-448).
Foi Górgias um dos fundadores da prosa artística grega. Conhecem-se cinco dos seus discursos, parte por informação, parte por fragmentos.
Também realizou Górgias experimentos no campo da ótica e do funcionamento de espelhos ustórios, provocando o fogo pela concentração dos raios.
Uma notícia de Plínio menciona a ereção de uma estátua de Górgias em ouro maciço em Olímpia, a famosa cidade do Peloponeso, onde realizavam os jogos olímpicos. A informação de que teria sido erigida no curso da 70-a olimpíada (509 a.C.) não coere todavia cronologicamente, porque no século anterior de sua atuação.
62. Mencionam-se discípulos e admiradores de Górgias o que mostra sua influência:
Crítias (tio de Platão) (vd 92), Alcibíades e o historiador Tucídides, - os três de Atenas; Menon (também nome de um diálogo de Platão), o orador Isocrates, ambos da Tessália; Proxeno, da Beócia, e amigo de Xenofonte.
Foram ao menos admiradores: Polos, sofista de Agrigento, Aspásia e Péricles, o socrático Ésquines, o poeta Agathon.
63. Sobre as obras, fragmentos e referências doxográficas. Da apreciável obra de Górgias somente restaram fragmentos e as referências doxográficas que Platão e outros mais fizeram.
Escreveu um Tratado de retórica, do qual parece haver reflexos no diálogo Górgias de Platão.
O Tratado do não-ser, com inspiração na dialética eleática, teria sido escrito no curso da 74-a olimpíada (444-441 a.C.), na informação dada por Olipiodoro.
Conservam-se fragmemtos de cinco discursos de Górgias:
Oração fúnebre, que terá sido composta depois da paz de Nicias (421 a.C.); Discurso olímpico, pelo ano 408 a. C., ou ainda mais tarde, pelo ano 392 a. C.; Elogio de Helena, talvez anterior às Troianas de Eurípedes (415 a.C.); Defesa de Palomede.
A tradução dos textos restantes, ainda que fragmentários, mal se aproxima da sonoridade empolgante da frase no original grego.
Do Sobre a natureza ou do não ser conserva-se um extrato do conteúdo deste livro em Adversus matheseos (VIII, 65-87) de Sexto Empírico.
Outro se conservou em De Milisso (c. 5a) de um Pseudo-aristóteles. Este último livro, cuja origem não se consegue determinar, é um ensaio tardio dos aristotélicos em que se trata também de Melisso e Xenófanes; no que se refere à Górgias parece merecer inteira fé, embora limitada por faltarem outros fragmentos para uma comparação (Gomperz, Pensadores Gregos III, 7 pag. 532, nota 2). O referido apócrifo foi publicado por Mullach (1845) depois por Apelt (1855) e Diels (1900).
64. O diálogo Platônico Górgias é uma importante referência doxográfica para o conhecimento da sofística de Górgias de Leôncio. Apresenta uma discussão não muito movimentada, em que participam, Górgias de Leôncio. Polos de Agrigento, Cálicles, de Atenas, todos sofistas frente a Sócrates e Kaiferon.
O objeto do diálogo platônico em questão, o Górgias, é a retórica, e que por isso recebeu subtítulo Da retórica.
Estendeu-se Górgias para temas éticos e políticos, porquanto trata do justo e do injusto, do belo e do feio, da impunidade, ou castigo e do bem, pois que estes elementos devem ocorrer também na retórica.
A ação do diálogo principia com o encontro de Sócrates e Kaiferon (este um personagem secundário) com Cálicles diante da casa deste e que, como sofista, hospedava a outros sofistas, Górgias e Polos, vindos de Sicília. Sócrates e Kaiferon revelam desejo de falar com os dois estrangeiros.
No encontro Górgias declara que nunca ficou sem poder dar resposta ao que tenha sido perguntado desde há muito anos. Pergunta Sócrates pela sua profissão e passa a determinar o objeto da retórica e a estudar os temas referentes à justiça, beleza, bondade etc. Sócrates discute primeiramente com Górgias, depois sucessivamente também com Polo e Cálicles.
Feito o balanço do que nos resta dos escritos e informações sobre Górgias, quase tudo se refere a sua retórica e quase nada à sua filosofia.
§ 2. Doutrinas de Górgias. 8310y066.
67. A gramática, a lógica, a retórica tiveram em Górgias, como em Protágoras, como nos sofistas em geral, os seus precursores; ainda que quase tudo se tenha perdido para nós, a atuação dos sofistas de fato aconteceu e se foi manifestar nos sucessores.
No diálogo platônico de nome Górgias pergunta Sócrates pela profissão do sofista seu interlocutor, para instigar a discussão. Diante disto a discussão passa a determinar o objeto da retórica.
Nas diversas respostas há uma tônica, fazendo a retórica uma arte de persuadir.
Mais tarde, retomando Aristóteles o tema, definirá a retórica como sendo fundamentalmente um argumento (ou silogismo), todavia dirigido ao público com maneiras adequadas. Mas Aristóteles desenvolveu mais o lado formal da retórica, - a argumentação, - ao passo que o diálogo Górgias de Platão se concentra no tema sobre o qual versa a persuasão a ser conseguida, por exemplo, a felicidade do povo no Estado.
O livro de Platão não tem por objetivo principal ao mesmo Górgias; por isso o diálogo, que principia com Górgias, continua com Polo e Cálicles, cabendo a Sócrates oferecer os pontos de vista dados por definitivos; no final expõe sozinho o tema. O ponto de vista de Sócrates é o de uma ética racional e finalista, diversa da do relativismo sofista.
Em decorrência do seu relativismo, Górgias de Leôncio empresta especial importância ao poder persuasivo da palavra. Seu contexto ideológico não é o moralismo finalistico de Sócrates e dos racionalistas em geral. Neste contexto de discurso persuasório, diz Górgias em seu Elogio de Helena:
"Seja porque tenha feito o que fez por amor, ou porque persuadida pela palavra, ou porque raptada pela violência, ou porque forçada pelos deuses, Helena em qualquer caso escapa à acusação" (Fragmento 11, 20).
O mesmo destaque é dado à persuasão da palavra, ao lado de outras influências importantes, logo a seguir:
"A decisão de Helena é originada pela força da persuasão e não é passível de censura, mas se manifesta com um poder que se identifica como o desta necessidade" (Fragmento 12).
O verdadeiro e o justo, - não dependendo de um critério objetivo, - condicionam-se à subjetividade, a qual, por sua vez, está sob a influência persuasiva da palavra do orador ou do interlocutor.
68. Do ponto de vista gnosiológico, procurou Górgias provar, tanto a inexatidão dos sentidos, como a falsidade da inteligência, que foi tema de seu tratado, depois perdido, Sobre a natureza, ou sobre o não ser, do qual, entretanto restou um extrato importante, citado por Sexto Empírico, em Adversus matheseos (VIII, 65-87).
Supôs consegui-lo provar através de uma ponderação em três etapas:
- O ser não existe.
- Mesmo que alguma coisa exista, não se pode conhecê-la.
- Ainda que se a conhecesse, o conhecimento seria incomunicável.
A conclusão é pois a impossibilidade do conhecimento verdadeiro, porque tudo o que apresenta é impossível. Nesta tentativa de Górgias para pulverizar tudo o que se afirma sobre o ser e o não-ser, utilizou a dialética eleática à semelhança de Zenão e Melisso.
Entretanto estes eleatas não quiseram senão provar a unidade e a imobilidade de tudo, enquanto Górgias foi à liquidação geral da certeza sobre algo absoluto, generalizando a incerteza e a relatividade do conhecimento.
Qualquer seja a validade do questionamento de Górgias, ele constitui parte importante no questionamento crítico sobre o pensamento. Para bem resolver as questões iniciais da gnosiologia, importa colocar ambas as alternativas, entre as quais eleger uma. A metafísica é a única ciência que tem de provar seu próprio objeto, porquanto ali começa todo o sistema do conhecimento humano. Ora, situou-se Górgias no início da metafísica do conhecimento, - o que é muito importante no campo da história da filosofia.
69. O ser não existe. Demonstra Górgias o primeiro item, - o ser não existe -, mostrando que não há o ser, nem o não-ser. Se o não ser existisse, ele seria ao mesmo tempo não ser e ser; ora isto é contraditório, de maneira que deve ser afastado o não-ser. O não ser é o não-ser, portanto o não-ser existe como ser.
Ora, o não-ser não existe. Logo, o ser, que coincide com o não-ser, não existe.
Além disso, se o ser existisse, teria de ser, - ou eterno ou gerado, ou eterno e gerado ao mesmo tempo. De novo, nada é possível de ser admitido.
Para ser eterno, deverá ser infinito; ora para ser infinito, não poderá estar em lugar nenhum, o que equivale a não existir de fato.
De outra parte, para ser gerado, terá de ser gerado, - ou pelo ser, ou pelo não-ser; ora, do não-ser nada nasce, e se nascer de outro ser, o ser já existe antes e não é gerado.
Portanto, o ser não é, nem eterno, nem gerado.
Resta, ser ao mesmo tempo eterno e gerado, - mas as duas alternativas se excluem.
Conclusão geral da primeira etapa, da prova da inexatidão dos sentidos e da falsidade da inteligência, - porque o ser não existe.
Que pensar destas ponderações sobre o primeiro item de Górgias? Em ambas as afirmativas a partícula é não comparece com a mesma função. Quando se diz, que o não-ser é o não-ser, a função da partícula é apenas a da afirmação lógica; os termos não-ser têm, além disto, a noção supositiva de entes de razão.
Para estabelecer que o não-ser existe, este existe já não comparece como partícula, pois podemos desdobrar o enunciado dizendo: o não-ser é um existente, ainda que nesta hipótese, o existente se conceba como ente de razão, e não existe como ente real.
Ainda que se devesse conceder que o não-existente é, não se deduziria de modo algum dali que o existente não é.
A inversão das proposições de identidade, sem atender à mudança de contexto da cópula, é uma inadvertência, e por vezes um abuso, peculiar ao sofisma, que tanto aparece no jogo de palavras dos sofistas, como inclusive nos diálogos de Platão.
70. Mesmo que alguma coisa exista, não se pode conhecê-la. Quanto à segunda etapa do argumento de Górgias, - em virtude do qual, mesmo que o ser exista, não é possível conhecê-lo, - processa a prova alegando que o ser de fato não pode ser pensado, em virtude da disparidade entre o conhecimento e o objeto. Eis uma questão gnosiológica subtil, que leva a questionar criticamente o verdadeiro conteúdo do conhecimento.
Efetivamente, não é o conhecimento algo da mesma natureza que o objeto, e por isso não pode dar uma noção proporcional ao mesmo nível do objeto. Advertiu Górgias que não ocorre a mesma natureza em ambos os lados, porque o conhecimento é estável e o objeto é transitório . Além disto, a inteligência cria noções de objetos impossíveis de se realizar; não há pois coincidência entre pensamento e realidade.
Para o sofista as coisas pensadas não existem, porque se existissem as coisas pensadas, existiriam todas as coisas inverossímeis ou absurdas simplesmente porque capazes de ser pensadas. Consequentemente, se as coisas pensadas não existem, aquilo que existe não é pensado.
Conclusão geral: se o ser existe, não é pensado; não é cognoscível.
Como julgar esta segunda sequência de ponderações desenvolvidas por Górgias? Conceda-se a ele, que todo o conhecimento se faz por uma certa semelhança, ou mimese. Isto se evidencia também na arte, a qual, imitando de algum modo aos objetos, de os exprime, de acordo com o princípio de que o semelhante leva ao assemelhado, porque o acusa através da semelhança.
De outra parte, não importa a identidade total entre o pensamento e a coisa pensada, quando se trata de abstrações. O absurdo nunca é pensado diretamente. As coisas imaginárias são pensadas a partir das coisas reais. Além disto, o pensamento não se constitui apenas de imagens conceituais, e sim principalmente de afirmações, como acontece no juízo.
71. Ainda que algo se conhecesse, este conhecimento é incomunicável. A ponderação de Górgias na terceira etapa de sua prova contra a validade do conhecimento, adverte que não é possível comunicar o que se pensa, porque a palavra não é o ser; comunicando palavras não comunicamos o ser. A palavra é fugidia e se destina ao ouvido,. enquanto que o objeto pensado poderá ser natural e estável e nada sonoro.
A observação a propósito do terceiro item envolve a teoria explicativa da expressão artística, à qual não ficou suficientemente atento Górgias.
Qualquer expressão indica diretamente o objeto, sobretudo quando pelo semelhante se expressa ao assemelhado. A linguagem, efetivamente, não é a expressão direta do pensamento, para só indiretamente expressar ao objeto pensado. Não há expressão de outra expressão, de sorte que a expressão da linguagem (que se exerce por equivalentes convencionais) não é a expressão do pensamento, mas do objeto exterior ao pensamento. A expressão direta do objeto se mostra bastante evidente nas artes por figuração natural, sobretudo na pintura e na escultura. As figurações da arte não expressam a idéia de um objeto, mas diretamente ao mesmo objeto.
Ainda que o objeto seja atingido primeiro pelo conhecimento , não é ao conhecimento que a linguagem e as demais artes por primeiro exprimem, mas ao objeto efetivo, ainda que este seja previamente alcançado pelo conhecimento efetivado pelos sentidos e pela inteligência.
As ponderações de Górgias, não obstante suas deficiências, contribuíram certamente para estimular a reflexão em torno do valor dos conteúdos de conhecimento.
72. A preocupação moral ou humana domina o pensamento sofista, não havendo sido o de Górgias uma exceção. Aliás, é peculiar do discurso tratar dos temas desta ordem, sobre eles procurando persuadir o auditório.
Em sua Oração fúnebre, aos guerreiros mortos, se refere ao cidadão ideal, evidentemente segundo a educação sofística.
Estabelece a virtude e a lei, temas que vão retornar no Político de Platão e na Ética à Nicômaco de Aristóteles.