ENCICLOPÉDIA    SIMPOZIO

(Versão em Português do original em Esperanto)

© Copyright 1997 Evaldo Pauli


CAP. 2

SOFISTAS MENORES. 8310y076.


- A Sabedoria no tempo dos sofistas e Socrátes -

 

 

77. A existência dos assim chamados sofistas menores, ou pequenos sofistas, denota haverem os dois grandes, - Protágoras e Górgias -, feito escola.

São de diretriz sofista:

Pródicos de Ceos (a partir de cerca de 470 a.C.) (vd 8310y078);

Hípias de Élis (mais novo que Protágoras) (vd 8310y085).

Crítias (8310y092);

Trasímaco de Calcedônia (vd 8310y095),

Cálicles (vd 8310y096);

Polo (vd 8310y096).

Ménon.

Praticamente todos os sofistas conhecidos circularam por Atenas.

 

 

 

§ 1. Pródicos de Ceos. 8310y078.

 

 

79. Pródicos de Ceos, nascido entre 470-460 a.C., assim denominado porque nascido na pequena ilha de Ceos, das Cíclades, ou de Juli cidade de Ceos. Destacou-se Pródicos de Ceos pela pureza dos seus costumes e já em sua cidade parece que se apresentava como professor de virtude (ou moral). É concidadão dos poetas Simônides e Baquilides.

A circunstância de pertencer a ilha de Ceos ao controle de Atenas, facilitou a Pródicos frequentes viagens a esta cidade e mesmo a se estabelecer ali como embaixador de sua ilha natal. Finalmente foi ali que se destacou como sofista. Apenas notícias posteriores lhe atribuem um comportamento licencioso, o que não parece corresponder a verdade.

 

 

80. Dos escritos de Pródicos restam senão fragmentos, notícias incompletas e imitações. Os discursos se perderam.

Sua grande obra intitulava-se As Horas (ò D " 4 ), constituída possivelmente de duas partes: a primeira sobre a natureza a que teria pertencido um dos fragmentos restantes; a segunda sobre o homem também com um fragmento sobrante.

A narrativa A escolha de Héracles é um escrito perdido, mas sobra na redação segundo a qual a reproduziu Xenofante em Memoráveis de Sócrates Frag. B2) (Frag. 1 Diels). Refere-se a Hércules (Héracles, na forma grega) que se encontra com a Virtude e a Depravação exortando-o a Virtude e também a depravação; elegeu Hércules a via apontada pela Virtude, preferindo os suores desta aos prazeres passageiros daquela. O escrito talvez integrasse a segunda parte de As Horas.

 

 

81. A doutrina de Pródicos concentrou-se no ensino da virtude; foi por isso muito apreciado por aqueles que não eram indulgente com a sofistica. É preciso agora desligar-se do conceito negativo que os autores racionalistas (Sócrates, Platão, Aristóteles) criaram do sofistica, para atender à linha moderna que eles representavam, - o estudo do homem e a remuneração do ensino, além da orientação empirista da filosofia

Ensinando a virtude, Pródico preparava o homem positivamente e não negativamente. A escolha de Hércules pela virtude, em vez do vício oferece uma imagem construtiva para o homem grego. Apresenta a virtude como condição (ou mesmo mandato divino) para a obtenção dos bens da vida. Descrevendo o valor e o bom êxito da virtude, lamenta a vida dissipada e o gozo sensível. Diz que a posse da riqueza ainda não é em si um lema, mas o uso bom que dela se fizer. Para o indivíduo incorreto é um mal que possua meios para satisfazer suas paixões. Não coloca, portanto, em dúvida total os velhos princípios morais, mas antes os exalta

A morte diz em um discurso, é redentora dos males da vida. Refreia os temores da morte, advertindo que não afeta aos vivos, nem aos defuntos. Aos primeiros porque apesar de tudo ainda vivem, aos últimos porque já não existem.

 

 

82. Rejeitando a crença popular dos deuses, mostra como eles surgiram de uma falsa interpretação das forças da natureza. A informação nos veio através de Sexto Empírico:

"Os antigos consideravam deuses, por causa da utilidade que deles derivam, o sol, a lua, os raios, as fontes, as coisas que servem à nossa vida, por exemplo o Nilo para os egípcios. Por isso, o pão é Demeter, o vinho Dionísio, a água Posseidon, o fogo Efaistos, e assim cada bem útil (Adversus Mathaseos, IX, 18).

E Cícero:

"Prodicus Cius, qui ea, quae prodesset hominum vitae deorum in numero habita esse dixit, quam tandem religionem reliquit " (De natura Deorum) (Frag., Diels, 25).

A reinterpretação dos deuses gregos valeu a Prodicos a fama de ateu. Mas esta atribuição não lhe cabe necessariamente, ainda que a Crítias (ateu) e a Protágoras (agnóstico).

A sistemática do assunto tratado possivelmente começa com a pergunta pelos primeiros elementos, com o que teria iniciado o livro As horas. Talvez apresentasse como primeiros elementos a terra, o ar, o fogo e o ar, como Empedocles de Agrigento (filósofo da escola jônica nova). A estes elementos Pródicos chamou deuses.

A vida e os seres resultam dos primeiros elementos, por ação da Lua e do Sol. O homem, que surgiu frágil, fez descobertas e aqueles que as fizeram foram elevados ao nível de divindades, como Deméter e Dionísios, conforme informação vinda através Minúcio Felix (Frag. 5).

Progressivamente o homem desenvolveu-se até atingir o estágio da vida regrada pela lei.

 

 

83. A língua mereceu também os cuidados de Pródicos, como anteriormente já o fizera também o sofista Protágoras. Tratou dos sinônimos, ou palavras afins. Não criou talvez ensaio próprio para o tema, que terá tratado como um item de As horas. O mestre neste particular influenciou ao historiador Tucídides.

 

 

 

§2. Hípias de Élis. 8310y085.

 

  

86. Hípias de Elis, eruditíssimo sofista grego natural de Elis (do Peloponoso), não tem data conhecida do nascimento. Os diálogos de Platão o dizem mais novo que Protágoras e que participou da vida cultural de Atenas em 399 a.C., quando ocorreu a condenação de Sócrates. É homônimo de Hípias, tirano de Atenas, com o qual pois não deve ser confundido Hipias de Élis, o sofista. Casado teve 3 filhos.

Como também acontecia a outros sofistas, sua habilidade retórica, o fez ser embaixador de Elis em outras cidades importantes, o que lhe facultou estadias na Sicília, Atenas e principalmente em Esparta.

Nestas oportunidades praticava o ensino e se vangloriava de haver ganho nele grandes somas. Na Sicília teria lucrado mais que dois sofistas reunidos (Hípias maior 282 d-e). Em Esparta teria ensinado história e ciência da Educação (285 d- 286 b).

Exerceu também o artesanato, como o descreveu Platão em Hipias Menor. Não era rico mas obtinha recursos facilmente, de sorte que o autor dos diálogos, como de costume, o ironiza. Em Atenas foi do partido democrático.

 

 

87. Escreveu Hípias de Élis sobre variados temas. Compôs poemas elegíacos e peças de teatro, bem como ensaios sobre matemática, história, língua.

De seus discursos restam fragmentos, dos quais entretanto poucos se relacionam com a filosofia.

Restam fragmentos do Diálogo troiano, em que Nestor e Neoptoleme dialogam sobre educação.

Menciona-se dele uma Lista dos vencedores nos jogos olímpicos.

Escreveu também Nomes dos povos.

  A crítica especializada de Untersteiner procura lhe atribuir também o texto Anônimo de Jâmblico. Ainda um texto sobre os acontecimentos de Corcira, inserido em Guerra do Peloponeso (III, 84), de Tucídades, mas provavelmente inautêntico. Também o prólogo de Caracteres de Teofrasto (a este respeito com mais discordância por parte de outros críticos).

Quanto a Discursos duplos, ainda que reflitam exatamente o pensamento de Hipias, é obra de um discípulo do mesmo Hípias de Élis.

 

 

88. A natureza como um todo (ou lei natural) é destacada por Hípias de Élis contra a sem-significação das leis (humanas).

Já os pré-socráticos haviam mostrado a integração do todo, mas sem o destaque antropológico, segundo o qual agora Hipias vê romper-se a linha divisória das cidades-estados, para evidenciar a natureza cosmopolita da sociedade humana.

Com isto se antecipou ao ponto de vista estóico do direito natural dos povos (ou direito das gentes).

 

 

89. A origem popular de Hipias e a oportunidade de viajar, que suas qualidades de orador e erudito lhe facultavam, tornou-o sagaz também nas observações das diferenças de lei que regulavam as diversas cidades-estados. Isto o fez destacar a validade maior do que era natural (lei natural) e a sem importância das leis dos homens.

A diferença entre a natureza (N b F 4 H ) e a lei (< ` : @ H ) é o tema predileto de Hipias e assim se apresenta na longa discussão mantida com Sócrates sobre o assunto, conforme testemunha Xenofonte ( Ditos Memoráveis).

As verdadeiras leis são somente as da natureza:

"São válidas em cada país e do mesmo modo".

 

As outras leis não têm uniformidade, nem estabilidade, porque derrogadas por vezes pelos próprios que as fizeram.

A lei natural é uma "Lei não escrita" ( ( D " N @ L H < ` : @ L H ) e não depende da fantasia dos homens. Atribuiu a lei natural ao ser mesmo da natureza, e não a faz simplesmente uma vontade divina.

Para conhecer as leis naturais importa conhecer a natureza, ainda que seja um saber enciclopédico. Hipias cuidou na verdade deste saber sobre todas as coisas, inclusive das técnicas artesanais.

 

Destacou-se como matemático inventando a chamada "quadratriz de Hípias".

Conhece também astronomia, música e pintura, além da política e da educação. Apesar de ironizá-lo, Platão confirma esta competência pela boca de Sócrates:

"Diga-me, Hipias, não tens tu uma competência incontestável em matéria de cálculo e na ciência do cálculo?

Hipias: Uma competência superior a de toda a gente, Sócrates" (Hipias Menor 266 c.).

 

 

90. Um conceito do belo é defendido por Hípias no decorrer do diálogo platônico Hípias Maior, contrariando ao ponto de vista de Sócrates.

"Que é o belo?" (I Â § F J 4 J Î 6 " 8 ` < ), - pergunta Hípias. Para Sócrates (ou Platão), há uma idéias do belo em si. Esta não é senão a doutrina de Platão sobre o belo em si, como arquétipo transcendente, idéia real modeladora das coisas belas do mundo, e que são belas na medida que o imitam.

Contrapôs Hípias que o belo não é algo em separado da coisa que se diz bela.

Anotou Hípias que o método do seu dialogante, Sócrates, era excessivamente abstrato.

 

Também tratou da língua, ao que parece apenas sob o ponto de vista da medida das sílabas e eufonia, e não como categorias de significação e significados sinonímicos, conforme o fizeram Protágoras e Pródicos de Ceos.

 

 

 

§3. Crítias e demais sofistas. 8310y092.

 

 

93. Crítias fez-se mais conhecido como um dos oligarcas atenienses. Tio de Platão, que o cita e o fez participante do diálogo Protágoras 336 d. Não apresenta a fisionomia social do sofista mestre profissional; todavia é um sofista pela sua mentalidade.

Foi ateu declarado e não apenas agnóstico como Protágoras.

 

" Parece-me ( primeiramente), que certo prudente varão e sábio espírito inventou para os homens o temor (aos deuses), a fim de que os maus sentissem algum medo" (Fr. 25 Diels, Sexto IX 24) ( J 0 < 4 6 " Ø J : @ 4 * @ 6 , Ã (B D ä J @ < ) B L 6 < Î H J 4 H 6 " Â F @ N Î H ( < f : 0 < < ¬ D (1 , ä < ) * X @ H 2 < 0 J @ Ã F 4 < ¦ > , L D , Ã < , ò B T H , Ç 0 J 4 * , Ã : " J @ Ã H 6 " 6 @ Ã F 4 ).

 

 

95. Trasimaco de Calcedônia, mestre de retórica. Descreveu-o Platão como um presunçoso, por causa da fanfarronice com que falava ao público.

Trasimaco é interlocutor de Sócrates em República de Platão.

Defendeu, que governantes convertem em lei o que lhes aproveita. O direito não é senão a vantagem dos que detêm o poder. Só os néscios e os fracos se supõem verdadeiramente subordinados a estas leis.

 

Declarou:

"Minha doutrina é que a justiça é simplesmente o interesse do mais forte" (República, I, 338ss).

 

96. Cálicles, sofista de Atenas, figura a par com Polo (outro sofista) como interlocutor no Górgias (447 a).. Assevera que a natureza e a tradição estão em luta. Em consequência toda lei jurídica é uma limitação injusta à liberdade humana.

O direito natural é nada mais que o direito dos mais fortes (Górgias, 482). Todavia os mais débeis julgaram vantagem proteger-se dos mais fortes mediante a igualdade de direitos. Os mais fortes, todavia seguem em qualquer hipótese a verdadeira lei natural, ou seja a sua própria vantagem.

 

 

97. Polo de Agrigento, discípulo de Górgias, depois deste é o maior retórico siciliano da antiguidade clássica.

Foi citado também como filósofo sofista, como Protarco, nos diálogos platônicos Górgias e Filebo.

 

98. Protarco é sofista da escola de Górgias.

Aparece no diálogo platônico Filebo.

 

 

100. Outros e outros nomes de sofistas é possível arrolar, como Menon, Eutidemo e Dionisodoro, Licofron, Alcidamas, Xeníades de Corinto, Antimero de Mende, Antifon e que giram em torno de sofistas maiores. Uns estão mais próximos de Protágoras (vd 39), outros mais de Górgias (vd 62).

Alguns dentre os sofistas se aproximaram de outras diretrizes, como de Sócrates ou de representantes das escolas socráticas menores (vd).

 

 

101. O conhecimento mais abrangente de fenômeno sofístico impede que se mantenha hoje aquela opinião negativa que dela haviam feito historiadores do passado, os sofistas constituem o desenvolvimento crítico do pensamento grego em vias de amadurecimento. Eles são o caminho de uma nova síntese. Sem eles não teriam existido Sócrates e Platão ao nível que alcançaram ser.