ENCICLOPÉDIA    SIMPOZIO

(Versão em Português do original em Esperanto)

© Copyright 1997 Evaldo Pauli


CAP. 4

SOCRÁTICOS MENORES. 8310y190.


- A Sabedoria no tempo dos sofistas e Socrátes -

 

 

 

191. Introdução. Dada a força de sua personalidade, Sócrates deixou influenciado ao seu meio, razão porque a filosofia ganhou especial impulso.

Além de influenciar a Platão, - o maior dos seus discípulos, e que criou destacado movimento próprio, de que a Academia, inaugurada em 387 a. C., foi o principal instrumento, - marcou Sócrates também a outros pensadores renomados, cujas escolas passaram a se fazer conhecidas como Socráticas menores.

A este tempo, a filosofia grega já tinha um passado de quase dois séculos. Era natural que as escolas mais antigas, denominadas pré-socráticas, viessem penetrando o novo tempo, com uma plêiade de figuras de valor, e que estas fossem influenciadas por Sócrates, evidentemente umas em maior grau e outras menos.

Por isso importa subdistinguir entre as escolas socráticas menores (mais influenciadas por Sócrates), - de que se passa a tratar agora, - e as escolas pré-socráticas remanescentes (menos influenciadas por Sócrates).

Estes últimos – os remanescentes - continuaram diretamente a linha de seus mestres, dos quais são epígonos. Dentre estes epígonos se destacaram Diógenes de Apolônia (renovador da Anaxímenes, da escola jônica antiga), Critolão (continuador de Heráclito, da escola jônica nova), Hípasos de Metaponte, Ecfanto, Clínias de Tarento, Álcmeon de Crotona, Árquitas de Tarento (continuadores da escola pitagórica).

 

192. São escolas pré-socráticas menores:

- escola de Mégara, com Euclides (vd 8310y193);

- escola cínica, com Antístenes de Atenas (vd 8310y263);

- escola cirenaica, com Aristipo de Cirene (vd 8310y312).

 

Megáricos:

Euclides de Mégara (entre 450-380 a.C.) (vd 196);

Eubúlides de Mileto (no curso do 4-a século a.C.) (vd 222);

Diodoro Cronos (final do 4-o. século) (vd 233);

Stilpon (século 4-o. a. C.) (vd 240).

Reduzem-se a esta lista dos megáricos, os nomes:

Fedon de Elis (fim do 5-o. e começo do 4-o.) (vd 250);

e Menedemo de Eretria (c. 350-276 a.C.) (vd 255).

 

Cínicos:

Antístenes de Atenas (c. 440-360 a. Cr.) (vd 270);

Por afinidade são ainda da Escola cínica:

Diógenes de Sínope (c. 413-323 a.C.) (vd 286);

Crates de Tebas (séc. 3-o) (vd 300);

Hiparquia (esposa de Crates de Tebas).

Cirenaicos:

Aristipo de Cirene (entre 455 e 355 a. C.) (vd 316);

Hegésias (começo do séc. 3-o a.C.) (vd 315);

Teodoro de Cirene (4-o e 3-o séc. a. C.) (vd 330);

Aniceris (4-o. e 3-o. séc. a. C.) (vd 335).

 

 

193. Como se adiantou, as escolas socráticas menores – megárica, cínica, cirenaica - representam substancialmente uma continuação das linhas do pensamento pré-socrático, ao qual acresceram a preocupação humanística de Sócrates.

Apesar de não haverem alcançado o nível da Academia de Platão e do Liceu de Aristóteles, participaram amplamente na formação do pensamento grego do período. Tiveram também continuidade no pensamento pós-socrático, como no cético, no estóico e no epicurista.

 

 

194. Avaliação. As escolas socráticas menores têm em si mesmas escasso valor, por que adiantaram a filosofia em mui poucas questões.

Ocorre todavia outra conveniência que nos leva a estudá-las, pois nos apresentam o ambiente em que viveram Platão e Aristóteles. Muitas das grandes soluções dadas por Aristóteles não foram senão respostas inteligentes aos problemas agitados pelos pequenos mestres; embora estes não conseguissem resolvê-los, souberam pelo menos ergue-los, sugerindo assim ao mais sábio um questionário maior.

Outra razão que move a inquirir sobre as escolas socráticas menores é a continuidade histórica das correntes filosóficas, - como já foi advertido, - os megáricos se relacionarão com os futuros céticos; os cínicos, com os futuros estóicos; os cirenaicos com os futuros epicuristas.

   

 

 

§ 1. Escola de Mégara, ou de Euclides. 8310y196.

 

 

197. A característica doutrinária dos megáricos é determinada pela sua origem eleática e seu posterior deslocamento no ceticismo pirrônico, ao mesmo tempo que aceitavam a moral socrática. Isto aconteceu porque seu fundador Euclides de Mégara fora amigo de Sócrates, ao mesmo tempo que possuía o inteiro domínio da ontologia unicista de Parmênides de Elea.

Fundada por Euclides, como já se disse, a escola de Mégara teve como sucessores Euclides de Mileto, adversário de Aristóteles, Diodoro Kronos, também contemporâneo de Aristóteles sobrevivendo-o; por último dirigiu a escola Stilpon de Mégara.

 

Chamaram-se primeiramente megáricos depois erísticos (de Eris, deusa da discórdia) e também dialéticos, por causa das disputas que os caracterizavam.

Em função às doutrinas, atribuiu-se também aos megáricos a denominação de céticos, porquanto afiançavam a unidade eleática do ser, em consequência do que negavam a veracidade dos sentidos. Efetivamente, diziam que, embora a inteligência apreendesse ao ser como uno, os sentidos apresentavam ilusoriamente as coisas como se fossem múltiplas.

 

 

198. De futuro os megáricos fundam a escola élico-erétrica, com orientação similar. Fundada primeiramente por Fedon, em Elis, foi levada depois, por Menedemo, para Eretria. Sua orientação eleática inicial, se inclinou depois para o cinismo.

Megáricos e erétricos se extinguem como escola no 3-o século a. C.

 

 

199. Lógica megárica. Já se manifestando rudimentarmente em Zenão de Elea, com novos desenvolvimentos nos sofistas e em Sócrates, continuou a lógica a prosperar com os megáricos. Mas, como se sabe, o desenvolvimento pleno acontecia com o contemporâneo Aristóteles (384-322 a.C.).

Os megáricos, em função ao seu unicismo do ser, criaram o argumento por redução ao absurdo, para recuar da conclusão, em vista dos resultados impossíveis de aceitar. Neste sentido informou depois Diógenes Laércio:

"Na argumentação, em lugar de atacar diretamente os princípios de seus adversários, os refutam pelas consequências que deles se derivam. Repudiam todo o arrazoado fundado em uma comparação, e o arrazoavam dizendo que se a comparação convém ao objeto, seria melhor raciocinar sobre o objeto mesmo, do que sobre o análogo" (D. L., II, 107).

 

 

200. Ontologia megárica. A unidade do ser, tomada dos eleatas, inspira as doutrinas de Euclides e discípulos.

Terão repetido os argumentos de Parmênides de Elea, particularmente os de Zenão de Elea, visto que seguem o método da redução da tese contrária ao absurdo.

Sabe-se que Diodoro Cronos, discípulo de Eubúlides, acrescentou mesmo outros argumentos mais contra o movimento, e que foram conservados por Sexto Empírico (X, 85 ss.). Mais complexos, se inspiram na impossibilidade de construir a constante por meio de soma de grandezas discretas.

Associada com a mesma doutrina da unidade do ser vinha a da ilusão dos sentidos, portanto de um ceticismo latente.

 

 

201. Nos estudo do ser conduziram os megáricos as consequências do seu unicismo eleático ao ponto de negarem o possível.

"Há alguns, os megáricos por exemplo, que dizem que uma coisa tem potência unicamente, quando atua, e que, quando não atua, não tem potência: Assim, aquele, que não constrói não tem potência de construir, mas somente aquele que constrói no momento em que constrói" (Aristóteles, Metafísica 1046 b 29).

Afirmação semelhante a dos megáricos se encontra em Cícero:

"Id solum fieri posse aut verum sit aut verum futurum sit" (De fato 17).

E em Epiteto:

"O possível não é nada, pois não é, nem será verdadeiro" (Dis. II, 19,1).

 

Como não tivessem os megáricos resolvido a questão do possível, mas o fato de a haverem suscitado, deu lugar a que Aristóteles retomasse a questão e a aprofundasse, como se vê em sua Metafísica (L., IX, c. 3), de onde decorre a sua teoria ato e potência.

Passava a filosofia grega a investigar a essência mesma da dinâmica, pois nada é e nada se faz, sem que seja antes de tudo possível.

 

 

202. Ética megárica. A novidade dos megáricos foi a criação de uma ética dentro do esquema eleático, a que foram levados pela tendência eticista inaugurada por Sócrates. Aplicaram a unidade do ser à moral e "diziam que o bem é um só, porém, que se o designa com nomes diversos: sabedoria, Deus, espírito, etc... Enquanto ao oposto do bem, o suprime e negam que tenha alguma realidade" (D. L., II, 106).

 

O caminho eleático da ética não parece ter logrado fecundidade; assim é que Estilpon, sucessor de Euclides, passa a inspirar sua ética nos cínicos.

 

 

 

I – Euclides de Mégara. 8310y204.

 

 

205. Euclides (+ Û 6 8 , \ * 0 H ) de Megara, contemporâneo e amigo do Sócrates, ao qual sobreviveu, terá vivido entre 450-380 a.C. destacando-se como fundador da escola da Mégara, nas imediações de Atenas, com orientação eleática e influência da moral do referido Sócrates.

 

Sua biografia se conservou através Diógenes Laércio:

"Nasceu Euclides em Mégara, vila próxima ao istmo, ou em Gela, como atesta entre outros Alexandre em Sucessões.

Consagrou-se principalmente às obras de Parmênides (de Elea). Seus discípulos chamaram-se primeiramente megáricos, depois erísticos e ultimamente dialéticos. Este último qualificativo deveu-se a Dionísio de Cartago, porque escreviam suas obras em perguntas e respostas.

Conta Hermodoro que, depois da morte de Sócrates, Platão e outros discípulos se refugiaram ao lado de Euclides, para escapar à crueldade dos tiranos" (D. L., II, 106).

 

 

206. Contemporâneo de Sócrates, mais novo do que este, admite-se que houvesse Euclides sido seu discípulo e não apenas um amigo.

Aulu-Gelle (4, 10) transmite o episódio, provavelmente anedótico, de que , por ocasião do rompimento de Atenas com Mégara, Euclides, continuou a visitar Sócrates à noite, fantasiado de mulher.

Euclides é também um dos amigos que continuaram a visitar Sócrates quando este se encontrava na prisão (Fedon, 59 c). Isto coere, com a informação de que acolhera logo a seguir em Mégara a Platão e mais discípulos de Sócrates.

 

Certamente na oportunidade Euclides transferiu ao grupo influências eleáticas, porquanto o pensamento platônico se orientou para a metafísica. Também depois disto Platão virá ao Ocidente, onde contata sobretudo aos pitagóricos, que o influenciaram também na direção racionalista.

O espírito humanitário de Euclides é mais uma vez destacado, - ainda que o fato possa não ser histórico, - quando, segundo o diálogo platônico Teeteto, atendeu a Teeteto, que estava a morte e era transportado para Atenas, depois da batalha de Corinto (369 a.C.).

Do contato de Euclides com Sócrates resta o episódio seguinte sobre uma avaliação deste:

"Observando a Euclides dedicar-se com ardor à dialética, lhe ponderou: Querido Euclides, tu poderás suceder-te bem para formar sofistas, mas não homens. Porque ele [Sócrates] desprezava todo este palavreado inútil, como diz Platão em Eutidemo" (D. L., II, 30).

 

 

207. Dos escritos de Euclides resta somente a informação dos títulos de seis diálogos: Lâmprias, Ésquines, Fenix, Criton, Alcibiades, Enamorado (D. L., II, 107).

Nenhum fragmento se conservou em eventuais citações que se fizessem.

 

 

208. A dialética de Euclides, fundada em Parmênides, deverá ter tomado também elementos de Górgias, então em destaque, em virtude de sua presença pessoal, visto que viveu até 375 a.C.

Aristóteles o chamará de fundador da dialética e Platão lhe dedicará o nome de um dos seus diálogos.

Não obstante, o mesmo Euclides é poupado nos diálogos platônicos. Isto terá acontecido não apenas porque fora acolhido por ele em Mégara, como porque efetivamente houvesse tido moderação no seu eleaticismo, até mesmo porque Platão também seguiu alguns dos seus caminhos.

As informações sobre a dialética de Euclides são genéricas, e ditas a propósito dos eleatas em geral. Primeiramente destacam o uso do argumento pela redução ao absurdo:

"Na argumentação, em lugar de atacar diretamente os princípios de seus adversários, os refutam pelas consequências que deles derivam" (D. L., II, 107).

Os argumentos por analogia são rejeitados pelos eleatas:

"Rechaçam todo o arrazoado fundado em comparação, e alegavam dizendo que se a comparação convém ao objeto, seria melhor arrazoar sobre o objeto mesmo que sobre o semelhante" (D. L., II, 107).

 

 

220. Euclides mesmo terá feito a aplicação do unicismo eleático aos conceitos os mais diversos da moral socrática, aplicação que é dada como característica dos megáricos:

"Diziam que o bem é um só, porém, que se o designa por diversos nomes, como sabedoria, Deus, espírito, etc... Enquanto ao oposto ao bem, o suprimem, e negam que tenha realidade alguma" (D. L., II, 106).

 

 

II – Eubúlides de Mileto (megárico). 8310y222.

 

 

223. Eubúlides (+ Û $ @ L 8 \ * 0 H ) de Mileto, filósofo grego da escola socrática menor de Mégara, viveu no curso do 4-o século a.C., quando foi contemporâneo de Platão e Aristóteles, sendo adversário deste.

Criada a escola de Mégara por Euclides, que fora amigo de Sócrates, ao mesmo tempo que seguidor das doutrinas unicistas dos eleatas, Eubulides foi seu sucessor na chefia da instituição e principal representante da geração seguinte.

 

As poucas informações a seu respeito foram transmitidas por Diógenes Laércio, que aliás informa também sobre os demais representantes da referida escola:

"A Euclides sucedeu Eubúlides de Mileto, autor de grande número de argumentos sofísticos, como o mentiroso, o escondido, o Electra, o velado, o sorites, o calvo, o cornudo.

De Eubúlides disse um poeta cômico:

"O raciocinador Eubúlides, o moinho de palavras, o rival das conversas de Demóstenes, marchou levando consigo seus argumentos cornudos e a facúndia sofística com que deslumbra aos retóricos".

Diz-se que foi mestre de Demóstenes, a quem corrigia de um defeito de Pronúncia da letra "r".

Eubúlides era inimigo de Aristóteles, a quem frequentemente atacava.

Cita-se entre os seus sucessores Alexino de Elis" (D. L., II 108).

 

224. A dialética dos sofistas tem aqui uma primeira informação de suas diferentes formas argumentivas.

Aristóteles, ao desenvolver sistematicamente e amplamente a lógica do raciocínio, poderá ter provocado atritos neste campo com as demais escolas filosóficas. Trata dos problemas erguidos por Eubúlides, mas sem citar seu nome, talvez porque estivessem conflitados (Refutações sofísticas, 179a 23; 180a 24-b 2).

  Não foi Eubúlides um dialético ao modo dos chamados sofistas, e sim um dialético nos termos eleáticos da escola de Mégara. Estabelecido o ser como uno, porque no fundo de todas as coisas a inteligência percebe sempre o mesmo ser, a diversidade percebida pelos sentidos passa a ser considerada ilusória.

A dialética tem de mostrar isto, e foi a partir disto que ela se desenvolveu, sobretudo com Zenão de Elea, e agora também com o unicismo dos megáricos.

O interesse permanecerá através da história não só dos lógicos e epistemólogos, inclusive dos gramáticos e linguistas, porque a expressão oral poderá facilitar a apreensão correta do pensamento.

  Uma longa história acompanhará através dos tempos os argumentos sofísticos, os quais são em maior número de modalidades que os apresentados a propósito de Eubúlides. Estes passaram a ter exemplos que se tornaram clássicos e que inclusive inspiraram os nomes que receberam.

 

225. O argumento do mentiroso fez-se conhecido pelo seguinte exemplo:

Aquele que diz, que mente, seria um mentiroso?

A resposta afirmativa resulta em que não mentiu (diz a verdade, afirmando que mente).

Ora, isto é falso.

Se a resposta é negativa (que não mente), ela também é falsa (efetivamente mente).

Resta, pois um paradoxo, favorável ao eleatismo, pois se não houvesse diversidades, não se criaria o paradoxo.

Uma resposta não eleática é a da Aristóteles (Refutações sofísticas, 179a 23; 180a 34 – b). Na verdade, o sofisma inclui na conclusão elementos excessivos, que a observação não distingue suficientemente de primeiro intuito. Mas se na afirmação inicial não se incluíam, não poderão ser incluídos na conclusão. Na conclusão de argumento só poderá explicitar-se o que era virtualmente contido no antecedente.

 

 

226. O argumento escondido não distingue entre dois tempos em que o objeto é considerado.

Conheces o que está escondido?

Não.

Ora, escondido está este homem (ou teu pai).

Portanto não conheces a teu pai.

 

227. O argumento Electra tem estrutura similar e supõe a distinção entre o fato de a personagem Electra (da Tragédia de Eurípedes) saber que Orestes é seu irmão, mas não sabia que Orestes era aquele que estava em sua frente. Portanto, conhecia a Orestes e não conhecia a Orestes. Perguntada, se a conhecia disse que o conhecia e ao mesmo tempo não o conhecia.

 

 

228. O argumento velado é similar ao encoberto, substituído é termo.

 

229. O argumento sorites, derivado de F T D ` H (= montão) pode significar um silogismo normal, em que os termos médios se encadeiam, sem nunca saírem de sua extensão e compreensão adequadas. Como sofisma, esta alteração acontece.

 

O sofisma do sorites se apresenta assim:

Dois grãos de trigo não são um montão (ou dois carneiros não fazem um rebanho).

Um terceiro grão não fará o monte, e assim por diante, nem o quarto, nem o quinto, porque o seguinte não tem mais força que o precedente.

Logo, um montão de grãos de trigo não é um montão...

 

O paradoxo se dissolve, se considerarmos, que desde o início o monte já acontece, e que apenas vai aumentando.

 

 

230. O argumento calvo é similar ao sórites:

Se se arranca um cabelo da cabeça, ninguém será calvo por isso.

Assim por diante, os cabelos seguintes, arrancados um a um, não tornarão a ninguém calvo, por isso.

Logo, arrancados os cabelos um a um, ninguém é calvo.

A solução do paradoxo é idêntica ao sofisma do sorites, porquanto a calvície efetivamente já iniciava com o primeiro cabelo arrancado, progredindo a seguir.

 

 

231. O argumento cornudo se funda-se na dupla possibilidade de ter (e de não ter) o que se não perdeu:

Tu tens o que não perdeste;

Ora, tu não perdeste os cornos;

Logo, tu tens cornos (és cornudo).

 

 

III – Diodoro Cronos. 8310y232.

 

 

232. Diodoro Cronos () 4 ` * T D @ H Ò 5 D ` < @ H ) (final do 4-o. século) figura como um dos últimos representantes da escola socrática menor de Mégara. Foi discípulo de Apolônio Cronos, que por sua vez o foi de Eubúlides, e este de Euclides, o fundador da Escola.

As notícias chegaram através de Diógenes Laércio:

"Ainda houve outros discípulos de Eubúlides, entre eles Apolônio, chamado Cronos. Teve como discípulo a Diodoro, filho de Ameinías de Iasos, também apelidado Cronos.

Deste último Calímaco tem dito em seus Epigramas:

O mesmo Mono escreveu sobre as muralhas - Kronos és um sábio" (D. L., II, III) .

 

Prosseguiu Diodoro Cronos no desenvolvimento da dialética que caracterizou os filósofos do unicismo eleático. Por causa deste relacionamento, apesar das aproximações com o socratismo, não avançou em doutrinas éticas.

"Era versado em dialética e alguns autores o consideram autor dos argumentos chamados escondido e cornudo" (D. L., II, 111), que outros atribuem à Eubúlides.

 

Foi em torno de um episódio motivado na dialética, que se narra a respeito de sua presença na corte de Ptolomeu Soter (Rei do Egito de 323-285 a.C.) e de sua morte depois, narrativa que, entretanto, apresenta algo de lendário:

"E, estando na corte de Ptolomeu Soter, propôs-lhe Estilpon algumas dificuldades dialéticas, que não pode solucionar no momento.

O rei lhe dirigiu por este motivo alguns sarcasmos e o chamou festivamente Cronos [ palavra que contém Ð < @ H = asno]. Irritado, Diodoro se afastou da mesa e se pôs a escrever a proposição de Estilpon, e abstendo-se o seu animo, morreu.

E eu compus o seguinte epigrama: Diodoro Cronos, que espírito maligno te inspirou este miserável despeito? Tu precipitaste a ti mesmo no Tártaro, por não haver podido adivinhar um enigma de Estilpon. Kronos tu eras realmente o que significa teu nome, se se suprimem Cr" (D. L., II, 111 - 112).

 

Diante das observações transmitidas admite-se que o apodo de Kronos fosse pejorativo; entretanto poderá não ter sido senão uma exploração posterior sobre o que o nome permite sugerir através da supressão das iniciais.

 

Os novos argumentos dialéticos de Diodoro Kronos não são mais importantes do que os que até ali já haviam sido propostos. Mas certamente são melhor trabalhados, como se pode observar no texto de Sexto Empírico, que os menciona (X, 85).

 

 

233. A lógica de Diodoro segue um caminho diferente daquele de seu contemporâneo Aristóteles, e exerceu mesmo influência nas escolas de Alexandria (vd Sexto Empírico, Adversus Mathematicos, I, 309 ss), que então se havia tornado a segunda Atenas.

Tratou da implicação lógica entre o antecedente e o consequente na argumentação, bem como do argumento dominador, sendo elogiado sobretudo por causa deste último.

 

Ergueu a questão da implicação a propósito do condicional, sobre o qual seu discípulo Philon havia emitido uma opinião, que ele reforça. O assunto terá novos desdobramentos com os estóicos.

Segundo Diodoro, "Um condicional é verdadeiro se ele jamais tem sido possível, nem se é possível que seu antecedente seja verdadeiro e seu consequente falso" (Sexto Empírico, Adv. Math., VIII, 115).

 

Desta forma Diodoro quis estabelecer uma conexão necessária entre o antecedente e o consequente. Para este fim recorreu ao tempo e à divisão, colocando de uma parte o passado, de outra o presente e o futuro, dentro de uma concepção descontinuista do tempo.

Nesta condição descontinuista parece não sobrevir qualquer dificuldade, porque o possível é então definido como aquilo que é verdadeiro ou será verdadeiro". Não interfere aqui a idéia aristotélica de potencialidade.

 

Na lógica de Diodoro a proposição faz referência ao momento quando é enunciada, sendo de acordo com este momento verdadeira ou falsa.

A lógica deverá atender a esta condição material das coisas (implicação material), pela qual a verdade da proposição está em função do momento quando é enunciada, porquanto o estado do mundo é variável. Conforme o exemplo condicional citado por Sexto Empírico: "Se é dia, eu discuto", a consequência implicada cessa a partir do momento em que a discussão cessou.

 

O destaque do presente na lógica de Diodoro, resulta em uma tabela de proposições modais diferentes da de Aristóteles:

- possível, o que é verdadeiro ou será verdadeiro;

- impossível, o que é falso e não será jamais verdadeiro;

- necessário, o que é verdadeiro e não será jamais falso;

- não-necessário, o que é falso ou será falso (veja-se Boécio In. Herm, 9: Alexandre de Afrodísias in An. pr. I, 15).

Diferentemente, em Aristóteles o contigente é a contraditória do necessário e do impossível, diferentemente que em Diodoro, de acordo com o qual o possível se distingue do não necessário a maneira de subcontrárias, que podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.

 

 

234. Um atomismo sem vácuo. A física de Diodoro ofereceu algumas novidades frente aos seus antecessores de escola.

Primeiramente estabeleceu que os corpos são constituídos de pequenas partículas indivisíveis.

 

Neste particular informou Sexto Empírico, depois de uma sequência de muitas opiniões, também sobre a do representante da escola megárica", ainda que brevemente:

"Os princípios são..., para Diodoro Cronos, corpos muito pequenos indivisíveis" (Hypotyposes pyrronianas, III, 32).

Situou-se, portanto, próximo ao atomismo de Demócrito, todavia negando a existência do vácuo (Sexto Empírico, Adv. Math., VIII, 333).

 

 

235. Fiel ao ponto de vista unicista e estaticista da escola eleática, concebeu o tempo e o movimento de maneira descontínua, de sorte a não haver um devir propriamente dito. Diodoro negou a existência do movimento atual, bem como a possibilidade (ou potencialidade).

Acrescentou mesmo outros argumentos mais contra o movimento, e que foram conservados por Sexto Empírico (X, 85 ss.). Mais complexos, se inspiram na impossibilidade de construir a constante por meio de soma de grandezas discretas.

Com referência ao movimento, disse que a coisa deveria mover-se ou onde está, ou para onde ainda não está; não acontecendo nem uma nem outra das alternativas, o movimento de fato não acontece.

"Se uma coisa se move, ela se movimenta lá onde ela está ou lá onde não está.

Não onde ela está: porque ali ela permanece imóvel, se precisamente ela está neste lugar;

Não onde ela não está, porque uma coisa nada pode fazer ou sofrer lá, onde ela não está. Portanto, nada se move. Tal é o arrazoado de Diodoro Cronos" (Sexto, Hyppotyposes Pyrronianas III, 71).

Depois desta informação sobre a impossibilidade do movimento, Sexto apresenta ainda as contestações de Aristóteles ao argumento do megárico. Comenta-se mais ainda em Sexto Empírico (Adv. math., X, 87; X, 48).

Nos argumentos de Diodoro é invocada também a impossibilidade de construir com quantidades discretas as quantidades constantes.

 

 

237. Não há potência, somente ato. Aristóteles ocupou-se com a alegação dos megáricos contra a possibilidade (ou a potencialidade, no sentido de algo ainda não real) sem todavia mencionar diretamente a Diodoro. Mas ao referir-se especialmente aos megáricos e esta questão, terá pensado em Diodoro; sendo ele posteriormente o principal citado por Sexto Empírico, este fato confirma a hipótese de que visava em primeira mão a Diodoro.

Abordando Aristóteles a questão da potência e do ato, diz que para alguns filósofos a potencialidade não existe; sendo senão o ato que se realiza, somente há ato e não potência.

"Há filósofos, os megáricos por exemplo, que pretendem que não há potência quando acontece o ato, e quando não há ato, não há potência: Assim, aquele que não constrói, não tem a potência de construir, mas somente aquele que constrói, no momento quando constrói, e assim por diante (Aristóteles, Metafísica 1046b 28-30).

 

Depois de contestar argumentando contra, acrescentou:

"A argumentação dos megáricos deriva pois na anulação do movimento e do devir, o ser em pé sempre de pé, o ser assentado sempre assentado" (Metafísica 1047a 13-15).

 

 

238. Movimento imaginativo. Contudo Diodoro admitiu algum movimento, explicado todavia sem ferir os seus pontos de vista básicos contrários à divisão do movimento em partes. O movimento não poderia ser um deslocamento progressivo como o conceituava Aristóteles, mas instantâneo.

 

O que Diodoro propunha é também novo em relação aos eleatas e aos primeiros megáricos. Em vez de um movimento em andamento, haveria apenas um movimento já de todo realizado desde o inicio da nova colocação da coisa movida.

Não haveria uma divisibilidade indefinida de partes, mas as mudanças de lugar seriam indivisíveis; cada mudança seria em si mesma indivisível. A continuidade do movimento seria apenas imaginativa. Uma coisa, por conseguinte, não está em movimento, mas se moveu simplesmente.

"Ele (Diodoro) estabeleceu que não é verdadeiro que uma coisa está em movimento, mas que ela esteve em movimento. E o fato que nada está em movimento segue de sua hipótese dos indivisíveis.

Porque o corpo indivisível deve estar contido em um lugar indivisível e portanto não deve mover-se nem neste lugar..., nem no lugar onde ele não está... Em consequência ele não está em movimento.

Entretanto, para a razão, ele está em movimento, porque aquilo que foi anteriormente observado neste lugar é agora observado em um outro lugar, o que não se poderia produzir, se ele não tivesse estado em movimento" (Sexto Empírico, Adv. math. X, 85-86).

A proposição de Diodoro sobre o movimento implica em considerações de base, e da qual decorrem. Nos argumentos eleáticos e também de Diodoro invoca-se a impossibilidade de construir com quantidades discretas quantidades constantes. O movimento de um lugar para outro implica em um conceito sobre o lugar em si mesmo: ou este é separado da coisa que se move, ou é uma determinação intrínseca da coisa em si mesma, como seria possível um movimento, senão como o queria Diodoro?

Entretanto, a explicação de Diodoro sobre o movimento parece conflitar com o fato mesmo do movimento de lugar para lugar. E sempre houve resistência à sua concepção. No século XIX Charles Renouvier (Logique génerale et logique formelle) aderiu contudo a tese da descontinuidade do movimento e do tempo.

Um episódio narrado por Sexto Empírico relata a observação de um médico sobre a costela deslocada de Diodoro, a qual deveria ser transportada em bloco ao passado.

 

"Cita-se uma passagem graciosa do médico Herófilo. Ele era contemporâneo de Diodor, que, durante uma animada dialética, expunha argumentos sofísticos, entre outras contra o movimento. Foi assim que Diodoro, tendo deslocado uma costela, foi encontrar Herófilo para ter seus cuidados.

Este motejou nos seguintes termos: vossa costela se deslocou lá onde ela estava, ou lá onde não estava. Ora, ela não está nem lá onde ela estava, nem lá onde não estava. Portanto, ela não está deslocada.

Em consequência, o sofista lhe pediu deixar tais argumentos e de lhe aplicar um tratamento adequado" (Hyppotyposes pyrrohonianas, II, 245).

 

 

IV - Stilpon e Mégara. 8310y240.

 

  

241. Stilpon (E J \ 8 B T < ) (entre sec. IV e III a.C. ), filósofo grego da escola de Mégara, da qual foi um dos últimos chefes, situa-se na época em que seus representantes faziam o trânsito para a escola cínica.

 

Diógenes Laércio informou com algum detalhe:

"Stilpon de Mégara, da Grécia, teve por mestres a alguns dos discípulos de Euclides; diz-se também que escutou a Euclides. Heráclides diz que também assistiu a lições de Trasímaco de Corinto, amigo de "Íctias" (D., L., II, 113).

Com referência a Euclides, fundador da escola, de Mégara, morrera pelo ano 380 a.C.; sendo improvável que já tivesse a Stilpon por seu aluno.

 

 

242. Foi Stilpon de uma notável projeção em seu tempo, continua informando Diogenes Laércio:

"Os infinitos recursos do seu espírito e sua eloquência brilhante o elevaram de tal modo sobre os demais filósofos, que pouco faltou para que toda a Grécia, atenta às suas lições, se megarizasse com ele".

 

Felipe de Megara, falando de sua eloquência disse:

"Arrancou da escola de Teofrasto a Metrodoro, o teoremático, e a Timágoras de Gela, da de Aristóteles Cirenaico a Clitarco e Símias; da dos dialéticos tirou a Peônio; da escola de Aristóteles, a Disfino do Bósforo e Mirmex, filho de Exenete, discípulos de Eufanto. Estes dois últimos foram para arguir Stilpon e se converteram em seus aficcionados discípulos".

Atraiu também a Tracidemo, peripatético e físico hábil, e a Alcino, o mais hábil orador grego de seu tempo. Atraiu também a Crates, com outros muitos, e a Zenão de Fenícia" (D. L., II, 113 - 114).

"Horaclides diz que Zenão, autor da série estóica, foi discípulo de Stilpon" (D. L., II).

 

 

243. Ainda que de estilo e usos elegantes, Stilpon apresenta aspectos similares aos da sabedoria de Sócrates frente aos episódios, aos quais interpreta com dizeres espirituosos e por vezes morais.

Como Sócrates, teve duas mulheres.

"Conta Onetor que, depois de se haver casado, tinha uma outra companheira chamada Necarete.

Teve uma filha de pouca virtude, que se casou com um dos seus discípulos, Simias de Siracusa. Como não vivesse muito recatada e dizendo alguém a Stilpon que sua filha lhe servia de opróbrio, respondeu:

Não me será ela de tanto opróbrio a mim, quanto eu de honra para ela" (D. L., II, 114).

 

"Diz-se que durante sua permanência em Atenas, atraiu de tal modo aos homens que estes, deixando suas oficinas, corriam a vê-lo. A alguém que lhe disse ‘Ó Stilpon, admiram-se de vê-lo como a um animal’ respondeu:

‘Não é assim, mas de ver um verdadeiro homem" (D. L., II, 119).

 

Stilpon reuniu bens com vistas a viver livre de afazeres materiais, com paz e tranquilidade, como informa Plutarco.

Era também relacionado politicamente com os reis helênicos da época, com o do Egito, que o pleiteava para Alexandria, e depois com o da Macedônia, que teve o domínio político sobre Mégara a partir de 308 (a. C.). Neste contexto se encontram dois episódios narrados por Diógenes Laércio:

"Dizem que Ptolomeo Soter o tinha em grande estima, que, quando se apoderou de Mégara, lhe deu dinheiro, instando que o acompanhasse ao Egito; aceitou Stilpon somente uma parte, menos a referente à viagem, retirando-se para Egina, até que Ptolomeu reembarcasse de volta.

Quando Demétrio, filho de Antígono, se apoderou de Mégara, ordenou respeitar a casa de Stilpon do saque, e que lhe fosse restituído tudo o que se lhe havia roubado. Mas ele contestou:

‘Nada perdi, porque ninguém me tirou minha ciência, e possuo ainda toda minha eloquência e erudição" (D. L., II, 115).

 

 

244. Persistiam, como ao tempo de Anaxágoras, Sócrates, Diógenes de Apolônia, as susceptibilidades religiosas contra o racionalismo dos filósofos.

"Refere-se que vendo uma estátua de Minerva executada por Fídias, fez a alguém a pergunta:

Minerva, filha de Júpiter, é Deus?

E dizendo-se lhe que sim, respondeu:

Porém esta não é filha de Júpiter e sim de Fídias.

Assim é, concordou o perguntado.

Logo esta, retrucou Stilpon, não é Deus.

Havendo sido por isso conduzido ao Areópago, dizem que não se retratou, mas sustentou haver falado a verdade, pois Minerva não é Deus, mas deusa e os homens não são fêmeas.

Não obstante, foi condenado a retirar-se imediatamente da cidade" (D. L., II, 116).

O problema dos deuses continuou ocupando aos gregos, citando-se a Teodoro imediatamente na continuação do episódio anterior, sem estar claro se ele era areopagita.

"E Teodoro, cognominado Deus, lhe disse a este propósito: como sabia Stilpon que Minerva é uma fêmea? Ter-lhe-ia levantado a roupa?

Era efetivamente Teodoro muito atrevido na linguagem, enquanto Stilpon muito elegante.

Havendo lhe Crates inquirido, se os deuses se alegravam ao serem venerados e suplicados, - dizem ter respondido:

Não me perguntes isto na rua, mas quando estamos sós.

Atribui-se a Bias uma resposta semelhante, ao ser perguntado sobre se existem os deuses, quando responde analogamente: afastai de nós a multidão, velho desgraçado" (D. L., II, 116).

 

245. Perderam-se as obras de Stilpon, das quais restam mínimos fragmentos e informações em Diógenes Laércio, o qual também transmitiu os títulos.

"Conservam dele nove diálogos. Bastante frios: Mosco, Aristipo, Cálias, Ptolomeo, Querecrates, Metrocles, Anaxímenes, Epigenes, À sua filha, Aristóteles" (D. L., II, 120).

 

246. Como todos os megáricos, Stilpon refuta o pluralismo ontológico pela sua redução ao absurdo. Ficando só com a razão ou logos (8 ` ( @ H ), que apresenta o ser como um e imutável, rejeita a diversidade e o movimento como aparência sem realidade. Negava as espécies em geral, discordando por conseguinte de Platão, que fazia ver nas idéias (8 ` ( @ 4 ) as coisas (Fedon, 99).

"Nas suas discussões subtis suprimiu as noções gerais, afirmando que o que se dizia do homem em geral, não se dizia de nenhum em particular; por que se haveria de dizer deste e não daquele? Logo, nem deste, do mesmo modo, o legume em geral não é aquele se me mostra, pois o legume já existia há mais de mil anos" (D. L., II, 119).

Dentro deste contexto está também o episódio apresentando imediatamente após:

"Diz-se que, estando conversando com Crates, cortou a conversa para ir comprar pescado. Ao adverti-lo Crates, "Tu rompes o fio do discurso " lhe replicou:

Não é assim. Comigo guardo o discurso. Tu és que o deixas. A matéria do nosso discurso permanece, porém as provisões vendem-se e são levadas" (D. L., II, 119.).

 

 

247. Ética da auto-suficiência e impassibilidade. Foi Stilpon o primeiro megárico a dar algum desenvolvimento à ética, derivando para o cinismo. Colocou o ideal do sábio na impassibilidade , ou seja na calma, na insensibilidade, na apatia (• B V 2 , 4 " ).

Não tem o sábio necessidade de amigos, porque se basta a si mesmo.

 

A impassibilidade da conduta de Stilpon é decorrência de sua concepção ontológica e ética unicista. A irrealidade de tudo o que não é estável na unidade não afeta ao sábio. Não tem a combater o mal, ele simplesmente não existe. A independência (" Û J V D 6 , 4 " ) e a impassibilidade, ou apatia (• B V 2 , 4 " ) constituem o seu estado normal.

 

 

V – Fedon de Élis. 8310y250.

 

 

251. Fedon (M " \ * T < ) de Elis (fim do 5-o e começo do 4-o), filósofo grego, foi discípulo de Sócrates, no quadro da escola de Mégara (Euclides). Fez-se finalmente conhecido pela escola que pessoalmente fundou em sua cidade natal de Elis, na península do Peloponeso.

Em vista de haver sido sucedido na instituição por Menedeno de Eretria, veio a ser referida historicamente como escola elico-erétrica, que subsistiu até o começo do 3-o século.

Além das informações de Diógenes Laércio, o nome de Fedon se fez também conhecido como título de um diálogo de Platão, motivado no mesmo personagem. Sócrates é um dos dialogantes e está à morte, sendo pois o tema a alma, o bem, as idéias.

 

 

252. A primeira parte da vida de Fédon fora atribulada, havendo contudo conseguir emergir dela como filósofo.

Em consequência das guerras do Peloponeso e conquista de Elis pelos Atenienses, Fédon, de família nobre, fora reduzido a escravidão em Atenas.

 

"Fédon de Elis, descendente de nobre família, foi reduzido à escravidão, quando sua pátria foi conquistada e forçado a prostituir-se em uma casa de má fama.

 

Fechava algumas vezes sua porta, e ia escutar a Sócrates, até que este enfim o resgatou. A partir deste momento se dedicou inteiramente aos estudos filosóficos. Jerônimo consigna em Suspensão do juízo, que houvera sido escravo" (D. L., II, 103).

 

253. Dos seus diálogos não restaram senão os títulos, dos quais alguns são de autenticidade duvidosa, pois já na antiguidade foram contestados por Panécio.

"Deixou diálogos: Zopiro e Símon são genuínos. Nícias é duvidoso. Medo é atribuído também a Ésquines e a Polieno. Antímaco ou Anciões é também duvidoso. Curtidores é também atribuído por alguns a Ésquines" (D. L., II, 105).

Pouco sabemos do pensamento de Fedon, e de sua escola, senão que ela mais ou menos coincidia com a anterior de Mégara, e que teve alguns desdobramentos, ao ser transferida para Eretria por Menedemo (vd 255), onde veio finalmente a desaparecer.

"A Fédon sucedeu Plístenes e a este Menedemo de Eretria (vd) e Asclepíades de Flionte, que haviam deixado as lições de Estilpon pelas suas" (D. L., II, 105).

 

 

 

VI – Menedemo de Eretria. 8310y255.

 

 

 

256. Menedeno de Eretria (c. 350-276 a.C.) filósofo grego, que se celebrizou como chefe da escola de Élis, como sucessor de Plístenes, que o fora por sua vez de Fedon, o fundador; e depois ainda como chefe da escola de Eretria, para onde transferira a anterior.

Alongou-se Diógenes Laércio em detalhes biográficos sobre Menedemo de Eretria, bem como sobre seu caráter severo e linguagem sentenciosa.

Era Menedermo natural de Eretria, próspera cidade portuária da ilha de Eubea. Ainda que de descendência ilustre, teve trabalhar penosamente em atividades várias, antes que se realizasse como mestre-escola.

"Era da família dos Teoprápides, por parte de seu pai Clístenes, de ilustre nascimento. Mas teve de praticar por necessidade a profissão de arquiteto. Acrescentam alguns autores que também se ocupou em costurar tendas, e que combinou esta outra profissão com a de arquiteto.

Conta-se a este respeito, que um discípulo de Alexino, aludindo à sua antiga profissão, lhe disse ironicamente em ocasião, quando propunha um decreto:

Não assenta bem ao sábio fazer tendas, nem decretos!" D. Laércio, II, 125).

 

 

257. Fez parte da guarnição enviada pelos eretrianos à Mégara, junto de Atenas. Foi quando, por diferentes caminhos, alcançou o sucesso na filosofia.

"Menedemo fez parte da guarnição enviada pelos eretrianos à Mégara. Visitando a Platão na Academia, e seduzido por ele, deixou o exercício das armas.

Asclepíades de Flionte o levou à Megara e os dois escutaram as lições de Stílpon.

Dali se transferiram para Élis, onde se relacionaram com Anquipilo e com Mosco, partidários de Fédon.

Até então a escola de Fédon se chamava elíaca, como dissemos ao tratar daquele filósofo. A partir de Menedemo tomou o nome de eretríaca, porquanto Menedemo era de Eretria" (D. L., II, 126).

Foi homem de costumes rijos, aspecto destacado pela longa biografia que dele fez Diógenes Laércio:

"Como alguém lhe perguntasse, se a um sábio convinha casar-se, Menedemo replicou:

Tu me consideras um sábio?

Sem dúvida, disse-lhe o perguntador.

Pois bem, eu estou casado" (D. L., II, 123).

 

 

258. Transportou a escola de Élis para Eretria,- como já se adiantou. Ali a escola se manteve pelo menos até cerca do ano 260 a. C., quando ainda é mencionada por um escrito do estóico Sphairos contra a mesma.

"No principio os eretrianos desprezavam a Menedeno e o chamavam de cão e visionário; mas logo passaram a admirá-lo e lhe entregaram o governo da cidade.

Foi enviado como embaixador a Ptolomeo e Lísimaco, e por todas as partes recebia o mesmo testemunho de apreço.

Também foi enviado para junto de Demétrio [rei da Macedônia], e fez baixar cincoenta talentos dos duzentos que a cidade havia destinado para esta missão.

Acusado ante Demétrio, de que desejava entregar a cidade a Ptolomeu [de Alexandria], se justificou em uma carta..." (D. L., II, 140).

 

Os envolvimentos de Menedemo na política da época são narrados difusamente por Diógenes Laércio, e mostram que no final dos seus anos o filósofo de Eretria era ao mesmo tempo um mestre e um homem público. Ainda quando assumiu o novo rei, Antígono Gonatas, filho do precedente, em 277 a.C., também deste foi amigo.

"Morreu [Menedemo] à idade de setenta e quatro anos" (D. L., II, 144).

 

 

259. Nada deixou escrito Menedemo, ao que parece. Entretanto, como um Sócrates, foi um expositor eficaz e de grande capacidade de comunicação, com influência sobre seu meio.

"Antígono de Caristo diz que Menedemo não havia escrito nada, e que não tinha opinião definitiva sobre nenhuma doutrina.

Acrescenta também que era tão ardente na discussão, que muitas saía à rua com o rosto afogueado. Entretanto, apesar desta aspereza na disputa era um homem de trato suave" (D. L., II, 136).

 

 

260. O pensamento de Eudemo de Eretria, no contexto de sua escola socrática, se entrevê nas informações de Diógenes Laércio:

"Seus discursos eram de difícil compreensão, cuidados de maneira a não serem facilmente contraditados. Era capaz de novas frases e dizeres.

Antístenes, em Sucessões elogia sua subtilidade.

Urgia com estas perguntas:

uma coisa se diferencia de outra? Certamente pois o útil se diferencia do bom.

Assim é: logo, o bom não é útil.

Diz-se que não admitia as proposições negativas, e as que punha eram sempre afirmativas; ainda entre estas aprovava as simples e reprovava as complexas, dizendo-as intrincadas.

Heráclides diz que [Menedemo] seguia as doutrinas de Platão e que não admitia a dialética. A este respeito, perguntando-lhe Alexino, se há não havia deixado de ferir a seu pai, respondeu:

Não o tenho ferido, nem deixado de ferir (ou nem comecei, nem cessei de ferir).

Alexino replica:

seria necessário esclarecer a ambiguidade, dizendo sim, ou não.

A isto retrucou: Seria ridículo seguir as vossas leis, quando se as pode dispensar" (D. L., II, 134-135).

O contexto da escola de Eretria é o mesmo da escola megárica, a que se reduz. Destaca o atual e afasta o potencial, com ênfase posta no afirmativo. Lembra também o estoicismo de Zenão (D. L., VII, 16).

 

 

261. As doutrinas morais de Menedeno seguem o mesmo caminho dos megáricos, para os quais o bem é somente um.

Para Menedeno a virtude também é una, ainda que sob vários nomes.

Cícero refere que os eretrianos "colocam todo o bem na inteligência e por seu através discerne a verdade" (Acadêmica, II, 42. 129).

 

 

 

§2. Escola cínica, ou de Antístenes. 8310y263.

 

 

264. A constelação dos filósofos cínicos se fez bem conhecida:

Antístenes de Atenas (c. 440-360 a. Cr.) (vd 270);

Diógenes de Sínope (c. 413-323 a.C.) (vd 286);

Crates de Tebas (séc. 3-o) (vd 300);

Hiparquia (esposa de Crates de Tebas).

 

 

265. Cínico traduz o adjetivo grego 6 L < 4 6 ` H (= canino), derivado de 6 b T < (= cão), 6 L < ` H (= do cão).

O significado de cínico se formou no contexto criado pelo Ginásio Cinosargo, - nome significando (= cão simples), por composição dos termos 6 b T < (= cão) e • D ( ` H (= simples, manso), - e que ficava nas proximidades de Atenas, e onde ensinava Antístenes (vd 270), fundador da escola.

Tinha o ginásio também o nome de Aplokyon (= cão manso), formado por – B 8 @ L H (= simples, manso) e 6 b T < (= cão) (vd 272).

O nome cínico indicava portanto o ideal de vida dos frequentadores do ginásio esportivo cinosargo e depois também dos frequentadores da escola de Antístenes, portanto conforme a simplicidade informal da vida animal. Hoje se aproxima aos diferentes significados de naturista, nudista, ecologista, vegetariano. Considere-se que os gregos praticavam a ginástica nus.

 

266. Definida pela origem, a escola cínica procede da ação demolidora dos sofistas, estes de inspiração eleática (como do sofista Górgias) , para passar à influência socrática e finalmente derivar para o estoicismo.

A fisionomia ideológica movente da escola cínica aconteceu, porque Antístenes de Atenas, formado antes por Górgias, passou a admirar e assumir o pensamento de Sócrates (+ 399 a.C.), para finalmente estabelecer uma escola própria.

Nela cultivou Antístenes ambas as inspirações, eleático-sofista e socrática, resultando numa nova síntese, que perdurou até o século 3-o. (a. C.), quando a escola cínica derivou, como já se disse, para o estoicismo.

 

267. Recebeu a escola imediatamente o prestígio e popularidade com o radicalismo e extravagância de Diógenes de Sínope (vd 286), conhecido por isso como Diógenes o Cínico.

Massificando-se o movimento cínico, cresceu mais em extensão, que em profundidade.

Fizeram-se conhecidos como discípulos imediatos de Diógenes: Mónino (escravo), Onesícrito, Crates de Tebas e sua mulher Hiparquia.

 

268. No segundo século a. C. o cinismo mantém-se ainda vivo, apesar de derivações que se fizeram para o estoicismo. Agora é mais eclético e literário, como se verifica na obra de Bion de Borístenes. Deste modelo era também Menipo, de origem fenícia.

Ocorrem influências sobre os romanos, de Bion sobre Horácio, de Menipo sobre Varrão.

 

 

I – Antístenes de Atenas. 8310y270.

 

 

271. Antístenes ! < J 4 F 2 X < 0 H ) de Atenas (c. 440-360 a.C.), filósofo grego fundador da escola cínica, que deu destaque à rigidez moral, todavia com simplicidade.

Seu informante principal foi Diógenes Laércio, com um texto excepcionalmente longo. Nele se diz haver nascido em Atenas, porém de mãe trácia, e que seus mestres foram o sofista Górgias e depois também Sócrates, que o marcaram portanto.

"Antístenes, filho de Antístenes, era ateniense. Diz-se contudo que sua mãe era estrangeira. Como por esta causa se lhe fez um reparo, contestou:

A mãe dos deuses era também frígia [Ásia Menor]. Isto fez a Sócrates dizer, quando se destacou no combate em Tanagra, que não havia podido demonstrar mais valor, ainda que tivesse nascido de pai e mãe atenienses.

Ele mofava também do orgulho dos atenienses, por causa de sua condição de indígenas, e dizia que isto eles tinham de comum com os caracóis e a lagostas.

 

Górgias o retórico foi seu primeiro mestre e disto vem porque o estilo de seus diálogos é retórico, especialmente os intitulados A verdade e Exortação

Conta Hermipo que tinha o propósito de fazer o elogio e a crítica dos cidadãos de Atenas, Tebas e Lacedemônia, nas Assembléias da Grécia, quando dos jogos ístmicos. Desistiu porém quando se deu conta de que os espectadores que haviam concorrido das três cidades eram numerosos.

Finalmente passou a assistir às lições de Sócrates, e tomou tamanho proveito, que aconselhou a seus próprios discípulos que também as assistissem.

 

Morando no Pireu, precisava percorrer todos os dias um caminho de 40 estádios [8 quilômetros] para ouvir a Sócrates. Deste aprendeu a ser paciente e ânimo forte. Desejando emular sua serenidade de alma, fundou a escola cínica e proclamou que o trabalho é um grande bem, tomando por modelo o grande Hércules, entre os gregos, e a Ciro, entre os bárbaros" (D. L., VI, 1-2).

 

"Diz Xenofonte, que sua conversação era encantadora e que tinha um domínio absoluto sobre si mesmo" (D. L., VI, 15).

 

 

272. A data da fundação da escola cínica, no Cinosargo, ter-se-á dado pela volta dos anos 400 a. C. , antes da Academia platônica, ocorrida esta pelo ano 387 a.C., também num ginásio, o de Academo.

"Antístenes ensinava no ginásio Cinosargo, um pouco afastado das portas da cidade, ao qual, segundo alguns deve a seita dos cínicos seu nome. Também se lhe deu o nome de Aplokyon (= cão manso), formado por –B8@LH (= simples, manso) e 6bT< (= cão)" (vd 265).

" É o primeiro, segundo Diocles, que leva alegre, como toda vestimenta, um manto um manto dobrado, e que mais um bastão e sacola. Diferentemente, Sosícrates diz que foi Diodoro de Aspendo o primeiro que deixou crescer sua barba e que usou o bastão e mais o alforje" (D. L., VI, 14)

Tornaram-se o manto exclusivo, bastão e sacola uma característica exterior dos cínicos.

 

 

273. "Morreu de enfermidade. Entretanto Diógenes, falou ao doente:

- Precisas de um amigo.

Havendo entrado já antes com um punhal, e ao dizer-lhe Antístenes. - Quem me livrará destes males?, - respondeu Diógenes mostrando o punhal:

- Este.

Replicou-lhe Antístenes:

- Dos males, digo, não da vida.

Parece que o desejo de viver o fazia sofrer a enfermidade com maior suavidade" (D. L., VI, 18).

 

 

276. Obras. Antístenes escreveu muito e sobre os mais variados assuntos, que foram reunidos em volumes, cada qual com a média de 5 a 7 títulos de obras autônomas, perfazendo um total de 65.

A conservação dos títulos abre uma janela sobre os temas de que tratou Antístenes.

Conservados todavia por muitos séculos, os escritos de Antístenes alimentaram os leitores da antiguidade, sobretudo havendo marcado o estoicismo, e que vão desde as considerações mitológicas e históricas, até os temas morais.

Desta grande produção, restaram só fragmentos (Veja-se, Antistheni fragmenta, texto grego e notas, Milão, F.D. Caizzi, 1966).

Repercutiram suas doutrinas em Platão (Teeteto) Aristóteles (Metafísica IV e Tópicos, I), os quais o citam algumas vezes.

 

277. O listão das obras de Antístenes nos veio através de Diógenes Laércio, que ainda as conheceu seis séculos depois:

"Seus escritos se conservaram em dez volumes:

1-o. volume, com [6 escritos]: Da dicção ou Elocução; Ajax, ou Discursos de Ajax; Ulisses, ou Sobre Ulisses; Apologia de Orestes, ou Os advogados; Isógrafo, ou Lísias e Issócrates; Contra a obra de Issócrates, intitulada da Ausência das testemunhas.
2-o. volume, com [5 escritos): Natureza dos animais; Da procriação dos filhos, ou Tratado erótico a respeito do matrimônio; Dos sofistas; Exortação a respeito da justiça e fortaleza, em três livros.
3-o. volume, com (9 escritos): Do bem; Da fortaleza; Da lei da República; Da lei ou do honesto e justo; Da liberdade e da escravidão; Da boa fé; Do tutor; ou Da submissão; Sobre a vitória; Sobre a economia.
4-o. volume (2 escritos): Ciro; O grande Hércules, ou Sobre a força;
5-o. volume (2 escritos): Ciro ou Sobre a Realeza; Aspásia.
6-o. volume (4 escritos): Sobre a verdade; Sobre a discussão; Satho, ou Sobre a contradição, em três livros ; Sobre a linguagem.
7) volume (11 escritos): Sobre a educação, ou dos nomes, em cinco livros; Sobre o uso dos nomes; Sobre perguntas e respostas; Sobre opinião e saber; Sobre a morte; Sobre a vida e a morte; Sobre os infernos; Sobre a natureza, em dois livros; Um problema referente à natureza, em dois livros; Opiniões ou o Erístico; Problemas sobre o estudo.
8-o. volume (7escritos): Sobre a música; Sobre os comentaristas; Sobre Homero; Sobre a injustiça e a impiedade; Sobre Calcante; Sobre o espião; Sobre o prazer.
9-o. volume (10 escritos): Sobre a Odisséia; Sobre a vara; Minerva, ou Sobre Telémaco I; Sobre Helena, ou Penélope; Sobre Proteu; O Cíclope, ou Sobre Ulisses; Sobre o uso do vinho, ou Sobre a embriaguez, ou também de Cíclope; Sobre Circe; Sobre Anfiarau; Sobre Ulisses, Penélope, e o cachorro [de Ulisses].
10-o. volume (7 escritos): Hércules, ou Midas; Hércules, ou a prudência e as forças; Ciro o amado; Ciro e os espias; Menéxenes ou o do mandato; Alcibíades; Arquelau ou da realiza.

Tais são as obras de Antístenes. Timon zomba da multidão de suas produções e o chama inesgotável palrador de ninharias" (D. L., VI, 15-19).

 

 

280. Doutrinas de Antístenes. Conhecem-se alguns elementos da lógica e teoria do conhecimento de Antístenes.

Mas restaram sobretudo elementos de sua ética, estes mais fáceis de haverem sido conservados em vista de apreciado caráter sentencioso de que se revestiram.

 

 

281. Com Antístenes, conforme já vinha ocorrendo com os sofistas, prossegue o desenvolvimento da lógica.

"Foi o primeiro que deu o conceito de definição, - o conceito é expressão do que era ou é (8 ` ( @ H ¦ F J Â < Ò J Î J \ ΅ < ³ § F J 4 * 0 8 ä < )" (D. L., VI, 3).

Diz portanto, que uma proposição nos dá a conhecer a essência da coisa.

 

Mas, ao mesmo tempo, que Antístenes definia a definição, ou conceito da coisa definida, tomava posição por uma doutrina, à qual se opôs Aristóteles. Este, depois de várias considerações, veio a mencionar Antístenes, seu contemporâneo mais velho:

"A enunciação falsa, em sentido estrito, é enunciação de nada. Estas considerações mostram; a ingenuidade da doutrina de Antístenes, o qual pensava que nada pode ser atribuído a um ser, senão que sua enunciação própria, sendo um só predicado afirmado de um só sujeito; dali concluiu que não há contradição, e que nada há de falso" (Arist., Metafísica, 1024 b 32).

Considerando que a cópula "é" do juízo pode exprimir não só a identidade (como acontece apenas na doutrina de Antístenes) e que assim acontece na definição essencial, mas também uma atribuição acidental, Aristóteles defende uma posição diferente (Cf. também Arist. Argumentos sofísticos, 5; 166b 28-36).

 

 

282. A ética é um dos principais objetos da doutrinação de Antístenes, como será a dos cínicos em geral, cuja austeridade e informalidade se tornou notória. Veio por este lado a influência de Sócrates sobre Antístenes. Informações colhidas por Diógenes Laércio dizem:

"Parece ter sido o fundador da austera filosofia estóica... Antístenes preparou o caminho a Diógenes (O cínico) para seu sistema da impassividade; a Crates para o da continência; a Zenão para a paciência. Lançou os fundamentos de todo este edifício (D. L., VI, 14).

Era Antístenes corajoso e sentencioso na crítica social, bem como às pessoas. A crítica estava dentro do espírito moralista de sua filosofia cínica

Aconselhando aos atenienses que por decreto fizessem aos asnos serem cavalos, e como lhe dissessem que isto era um absurdo, replicou:

Vós criais generais de exércitos que nada estudaram, e não têm outro título que a nomeação" (D. L., VI, 7).

Compartilhando com Sócrates, mesmo a ele advertiu, ao vê-lo certo dia com o manto expondo propositalmente os buracos rasgados:

"Vejo no teu manto tua grande sede de glória" (D. L., VI, 8).

 

Tendo vindo visitar a Platão enfermo, e observando a vasilha na qual houvera vomitado, disse:

"Vejo aqui a bílis, o orgulho porém não o vejo" (D. L., VI, 7).

"Foi Antístenes o único filósofo socrático, que louvou a Teofrasto [ companheiro de Aristóteles]; louvava a sua habilidade e o encanto irresistível de sua palavra" (D. L., VI, 14).

 

 

283. Dizeres de Antístenes. Diógenes Laércio apresentou em resumo as teses da doutrina moral de Antístenes, em forma de dizeres, em que alguns são teses doutrinárias, outros resultantes da experiência da vida humana.

"Seus temas favoritos são:

- que a virtude se pode aprender.

- Que a nobreza é o mesmo que a virtude.

- Que a virtude basta para a felicidade, não necessitando nada mais que a fortaleza de Sócrates.

- Que a virtude é a cerca das operações e não necessita de muitas palavras para ser aprendida.

- Que o sábio basta a si mesmo, porquanto todas as coisas alheias são também as suas.

- Que a vida obscura é um bem, mais do que isso é penoso.

- Que o sábio em seus atos públicos não guiará segundo a lei da virtude.

- Que se deve casar para criar filhos e com mulheres fecundas.

- Que importa amar e só o sábio sabe quem é digno de amor" (D. L. VI, 11)..

 

 

 

284. Mais outros dizeres sentenciosos de Antístenes foram anotados:

 

"Diocles recordou os seguintes dizeres seus:
 
- Para o sábio nenhuma coisa é estranha ou impraticável.
- O homem bom é digno de ser estimado.
- As pessoas de bem são nossas amigas.
- Tomemos por aliados os que são valentes e justos.
- A virtude é uma arma da qual não podemos privar-nos.
- É preferível com um pequeno número de pessoas do bem, contra um grande número de maus, do que com uma multidão de maus contra uns poucos bons.
- Acautelai-vos contra os vossos inimigos, pois serão os primeiros a notar vossos defeitos.
- Fazei mais caso de um homem justo, que de um parente.
- A virtude é a mesma para o homem, que para a mulher.
- São belas as boas ações, feias as más.
- Considerai estranho todo o vício.
- A sabedoria é mais segura que todas as muralhas, pois não pode ser derrubada, nem tomada por traição. Devemos construir com nossos pensamentos um baluarte inexpugnável" (D. L., VI, 13-14).

 

 

 

II - Diógenes de Sínope, o Cínico. 8310y286.

 

 

287. Diógenes () 4 @ ( X < 0 H ) de Sínope (c. 413-323 a.C.) mais conhecido como Diógenes o Cínico, viveu desde jovem em Atenas e Corinto, sendo notado pela radicalização com que cumpria os princípios da escola socrática menor, fundada por Antístenes no Cinosargo.

O principal informante sobre Diógenes o Cínico foi o seu homônimo Diógenes Laércio, do 3-o. século, qual lhe dedicou uma biografia notoriamente longa, - dez espessas páginas, - o dobro da de Antístenes, que já era considerável.

Nasceu em Sínope, próspera colônia grega estabelecida no Ponto (à margem do Mar Negro, hoje Turquia). Ali seu pai fora rico banqueiro, mas que teve que fugir, depois de haver sido acusado de falsificador de moedas. Em consequência, Diógenes acabou vindo para Atenas, onde viveu pobre, e com a função de educador.

 

"Diógenes, filho do banqueiro Icésio, nasceu em Sínope. Diocles afirma que seu pai tinha banca pública e falsificou moeda, motivo porque Diógenes fugiu. Contrariamente a esta opinião, sustenta Eubúlides no seu livro sobre Diógenes, que este fora pessoalmente culpado e que fora condenado juntamente com o pai.

Diógenes se acusou efetivamente a si mesmo, em seu livro Pordalos, de haver falsificado a moeda.

Contam alguns autores que, havendo sido nomeado chefe da casa da moeda, deu ouvido às sugestões de obreiros e foi a Delfos, ou a Delos, para consultar ao oráculo, se devia, ou não, fazer em sua pátria, aquilo que se o aconselhava. A resposta foi favorável. Não tendo compreendido Diógenes, que a frase mude a moeda podia aplicar-se segundo os usos e costumes, alterou a lei da prata. Tendo sido descoberto, foi, - segundo uns, - desterrado; segundo outros, exilou-se voluntariamente, por temor de outro castigo mais grave.

Há uma outra versão, segundo a qual alterou a prata que houvera recebido de seu pai. Este morreu na prisão; ele, porém fugiu, e foi consultar a Delfos, não se devia falsificar a moeda, mas qual seria o melhor meio para adquirir celebridade, havendo então recebido a resposta, de que temos falado" (D. L., VI, 20-21).

 

 

288. Servo em Atenas. Chegou Diógenes ao seu novo destino como servo posto à venda. Foi primeiramente comprado por Xeníades, que o adquiriu para ser educador de seus filhos:

"Quando foi posto à venda deu provas de sua nobre resignação. Foi transportado à Egina, depois que os piratas, mandados por Ercíparo, o fizeram prisioneiro, o levaram a Creta e o puseram à venda. Perguntado pelo pregoeiro, que é que sabia fazer, respondeu:

Mandar aos homens.

E, mostrando um corintio vestido com elegância (era Xeniades, de Corinto, cidade portuária próxima de Atenas), acrescentou:

Vende-me a este, porque tem necessidade de um amo.

 

Xeníades o comprou e efetivamente levou para Corinto, onde confiou a ele a educação dos filhos e a direção da casa.

Cumpriu tão fielmente suas diversas funções, que Xeniades usava dizer: um bom gênio entrou em minha casa.

Conta Cleômenes no livro entitulado Pedagogia que os amigos de Diógenes queriam resgatá-lo, porém, que ele os tratou de néscios e lhes disse:

- Os leões não são escravos daqueles que lhe dão de comer; os verdadeiros escravos são os amos dos leões, porque o temor é próprio do escravo e as bestas selvagens se fazem temer pelos homens" (D. L., VI, 74).

 

"Quando Xeníades o comprou, disse-lhe Diógenes:

Cuide fazer o que eu lhe mandar. Para que isto não lhe pudesse parecer como se mandasse aos rios correr para cima, esclareceu:

Se, se estando enfermo, houveras comprado um médico, não o obedecerias? Não lhe dirias que os rios correm para cima?" (D. L., VI, 36).

 

Ainda sobre a redução de Diógenes à servidão:

"Conta Menipo em Venda de Diógenes, que tendo sido feito prisioneiro e posto à venda, e como lhe perguntassem, que é que sabia fazer? Respondeu:

Sei mandar aos homens.

Ao pregoeiro disse:

Pergunta, se alguém quer comprar um amo.

Sendo-lhe vedado sentar-se, retrucou:

Não importa; os peixes, qualquer seja o modo que estejam, se vendem.

Dizia que admirava, de que se não se comprava sequer uma panela, ou um prato sem examiná-la bem. Comprava-se um homem contentando-se com sua aparência.

A Xeníades, que o comprou, dizia, que este devia obedecê-lo, por mais que fosse seu escravo, do mesmo modo como se obedecia a um médico e a um piloto sem preocupar-se se são escravos" (D. L., VI, 29-30).

"De tal maneira os atenienses estimavam a Diógenes, que havendo um rapaz destroçado seu tonel, eles lhe construíram outro"(D. L., VI, 43).

 

 

289. Discípulo de Antístenes. "Chegado [Diógenes] a Atenas, procurou a Antístenes, que lhe respondeu com o pretexto de que não queria receber discípulo algum . Mas acabou por aceitá-lo, em vista de sua grande insistência.

Certa vez quando Antístenes o ameaçou com uma vara, inclinou a cabeça, dizendo:

Descarrega, mas não encontrarás lenho suficientemente duro para me afastar de ti, que tens algo a me dizer" (D. L., VI, 21).

Ingresso na escola frugal dos cínicos, a tornou ainda mais popular e famosa, dada sua conduta pessoal informal e seus dizeres sentenciosos.

"À pergunta, que havia ganho com o estudo da filosofia, respondeu:

Ainda que não lhe devesse; outra coisa, lhe devo estar preparado para todos os acontecimentos" (D. L., VI, 63).

 

 

290. Também foi mestre. No curso de sua longa vida não foi apenas servo pedagogo da família de Xeníades. Ensinou a muitos com sua arte de persuadir com a palavra.

"Possuía em grau supremo a arte de persuadir e não havia quem pudesse resistir ao encanto de sua palavra. A este propósito se conta o seguinte:

Um tal Anesícrito de Egina havia enviado a ;Atenas ao mais jovem de seus filhos, chamado Andróstine, que se deixou seduzir pelos discursos de Diógenes e ficou com ele. Em seguida o pai enviou o irmão maior, Filisco, citado em outro lugar, e este também se uniu a Diógenes. Por último, chegou o mesmo Anesícrito, e se juntou a seus filhos para seguir as lições de filosofia, - tal era o encanto das palavras de Diógenes.

Teve por discípulos a Fócion, apodado o Bom, a Stilpon de Mégara, e muitos outros que desempenharam importante papel político" (D. L. VI, 75 -76).

 

Foi bem relacionado, não só com Platão, mas até com Alexandre Magno, com o qual teve um incidente que se tornou famoso.

"Certa vez tomava sol em Cránion (ginásio de Corinto), e se colocou Alexandre diante e lhe disse:

- Pede-me o que quiseres.

- Replicou-lhe Diógenes:

- Não me retires o sol" (D. L., VI, 39).

 

 

291. "Diz-se que morreu aos 90 anos" (D. L., VI, 76).

Conta Demétrio nos Homônimos que Alexandre morreu em Babilônia no mesmo dia que Diógenes em Corinto, O certo é que na 113-a olimpíada era já velho" (D. L., VI, 76). Ora, Alexandre Magno morria em 323 a.C., um ano antes de Aristóteles, falecido em 322 a.C.

A partir dali se estabelecem os extremos da vida de Diógenes de Sínope (c. 413-323 a.C.).

Assim sendo, o longevo Diógenes foi mais novo que Platão (427-347 a.C.), sendo o seu contemporâneo e com ele tendo convivido.

Foi 30 anos mais velho que Aristóteles (384-322 a.C.), e teria vindo a morrer um ano antes deste.

 

 

292. Dos escritos de Diógenes restam apenas fragmentos e referências doxográficas, destacando-se a longa informação dada por seu homônimo Diogenes Laércio.

Aceita-se a autenticidade dos seus escritos, ainda que outros tenham já em tempos remotos posto dúvidas sobre alguns destes.

"Atribuem-se-lhe as seguintes obras: Cefalion, Ictias, Grajo, Leopardo, o povo ateniense, a república, arte moral, a riqueza, o enamorado, Teodoro, Hipsias, Aristarco, Da morte, Cartas, Sete tragédias, Elena, Tieste, Hércules, Aquiles, Medea, Crisipo, Édipo (D. L., VI, 80)

 

 

293. O pensamento geral de Diógenes de Sínope está na mesma linha do empirismo de seu mestre Antístenes, fundador da escola Cínica. Em função do empirismo não há objetos abstratos atingidos apenas pela razão. Não há sobretudo aqueles arquétipos denominados idéias reais, conforme defendia Platão.

 

A este propósito deu-se um incidente curioso entre Diógenes e o Mestre da Academia:

"Falando; um dia Platão sobre as idéias, exemplificou sobre as idéias de mesa e vaso.

Diógenes o interrompeu:

Querido Platão, eu vejo a mesa e o vaso, porém não vejo as respectivas idéias.

Replicou-lhe Platão:

Dizes bem, pois tens olhos que vêem a mesa e o vaso; não tens o que nos descobre as idéias, a inteligência" (D. L., VI, 53).

 

Num outro episódio:

" Platão havia definido ao homem como um animal de dois pés e sem plumas. Agradando-se dessa definição, Diógenes tomou um galo e lhe retirando as penas, levou-o a Academia do Filósofo, dizendo:

Eis aqui o homem de Platão. E assim se acrescentou à definição, com unhas largas" (D. L., VI).

Advertindo para a presença geral de Deus:

"Conta Zoilo de Pérgamo, tendo visto a uma mulher prostrada em um postura indecente e querendo corrigir sua superstição, a censurou dizendo:

Não temes que haja algum Deus atrás de ti (porque os deuses enchem tudo) e que tua postura seja uma injúria para eles?" (D. L., VI).

 

 

294. A vida moral segue os caminhos da natureza. Para bem viver importa a reta razão, evitando pois as perversões sociais: A busca desmesurada das honras, das riquezas, dos prazeres, dos formalismos e coisas desta ordem.

O que nos foi transmitido do pensamento de Diógenes Laércio a este respeito limita-se a algumas de suas sentenças e ao modo pessoal de viver coerente com o que pregava.

Através do espelho da sua vida transparece o seu pensamento moral, apesar de se haverem perdido os textos. Ultrapassam a ironia socrática, o seu estilo e humor, o impacto das atitudes, em que a radicalização resulta em forte comunicação.

O que importava era a natureza, o exercício, a liberdade e para a sociedade a lei.

 

 

295. Os episódios pitorescos que se narram da vida de Diógenes o Cínico talvez nem todos sejam autênticos, mas coerem com o seu tipo de vida informal e mestre cínico.

"Conduzido a uma casa esplendida, o dono lhe pediu para cuspir, porém, ele lhe cuspiu no rosto, dizendo que não havia encontrado lugar mais sujo" (DL VI, 32).

"Em certa ocasião em pleno, acendeu uma lanterna e saiu gritando: busco a um homem" (D. L., VI, 41). De tal maneira estimavam os atenienses a Diógenes que, tendo um rapaz destruído, seu tonel, eles lho reconstruíram" (DL VI). Vários dos episódios contém uma bem definida moral e por isso também podem ser referidos a respeito desta conforme adiante faremos.

 

 

296. Era um pregar audaz do naturismo, como decorrência do informalismo cínico.

"Costumava fazer todas as coisas em público, tanto as de Ceres, como as de Vênus, valendo-se desses argumentos:

Se o comer não é absurdo algum, tão pouco o será comer em público.

Executando frequentemente com as mãos operações impudicas, a vista de todas as pessoas, dizia:

Oxalá, que, esfregando o ventre, cessasse de ter fome" (D. L., VI, 69).

 

297. Sobre a liberdade e o sábio:

"Dizia que sua vida era conforme a de Hércules e considerava a liberdade como o primeiro dos dons. Dizia que tudo pertence aos sábios. E o provava com o raciocínio, que apresentamos em outro lugar:

Tudo pertence aos deuses;

os deuses são amigos dos sábios;

tudo é comum entre os amigos;

logo, tudo pertence aos sábios" (D. L., VI, 72).

 

 

298. A favor do governo e do cosmopolitismo. Ponderou, que a republica supõe as leis

"Provava também que sem lei não há governo possível; uma sociedade é a ordem; sem leis não é possível a sociedade; logo a ordem é a lei.

Sem sociedade não há ordem possível; uma sociedade é a ordem; sem leis não é possível a sociedade; logo a ordem é a lei" (D. L., VI, 72).

Zombava da nobreza, da glória e distinções análogas, que qualificava como adornos do vício. Afirmava que havia somente um governo regular, o do mundo"(D. L., VI, 72).

O sentimento cosmopolita de Diógenes de Sínope é evidente:

 

"Como alguém lhe perguntasse de onde era, respondeu:

Eu sou um cidadão do mundo (¦ D T J 0 2 , Â H B ` 2 , < § 0 , 6 @ F : @ B @ 8 \ J 0 H § N 0 )" (D. L., VI, 63).

 

299. Sobre a família e a mulher Diógenes aceitou a opinião de Platão:

"Partidário da comunidade de mulheres, dizia que o matrimônio nada significa; e que não devia existir outra condição para a união dos sexos, que o consentimento mútuo; admitia portanto a comunidade dos filhos" (D. L., VI, 73).

 

300. Sobre a educação valha saber primeiramente como formou os filhos de Xeniádes:

"Conta Eubulo, em seu livro A venda de Diógenes, como este educou aos filhos de Xeniádes: Além dos exercícios literários, os ensinou a montar a cavalo, a disparar o arco, atirar com a funda e a arrojar dardos.

Depois que os levava às palestras, cuidava que os instrutores não os induzissem a serem atletas, mas somente que adquirissem boa cor e saúde.

Fazia-os aprender de cor sentenças dos poetas, de outros escritores e do mesmo Diógenes.

Para que melhor aprendessem, ensinava todas as coisas com sumários. Ensinava-lhes também o serviço doméstico, a serem frugais e a beber água. Fazia-os aparar os cabelos, levava-os pelas ruas, sem adornos, sem túnica, pés descalços, em silêncio, os olhos olhando apenas a ele.

Levava-os também para casa. Eles, de sua parte, cuidavam dele e o recomendavam a seu pai" (D. L., VI, 30).

 

Sobre a criação dos hábitos:

"Segundo ele, a alma e o corpo reclamam serem exercitados. A frequente repetição dos mesmos atos, os fazem serem mais familiares, sempre presentes, e facilitam a prática das ações virtuosas.

Qualquer dessas modalidades de exercícios é imperfeita sem a outra, porquanto a saúde e o vigor necessários à prática do bem, dependem igualmente da alma e do corpo.

Como prova da facilidade que dá o exercício para virtude, aduzia que nos mecânicos e nos outros artistas o tato adquire, pela prática, extraordinária delicadeza, e que os esforços pessoais e a perseverança dão notável superioridade aos músicos e aos atletas.

Acrescentava que se estes ainda houvessem exercido a alma, seus esforços não se teriam perdido.

Defendia que nada absolutamente se pode fazer na vida, sem uma aplicação ininterrupta, e que esta alcança tudo. É pois necessário para bem viver, deixar de lado os trabalhos inúteis, e aplicar-se a aqueles que são conformes à natureza; somos infelizes por própria ignorância.

O desprezo do deleite poderá ser agradável, uma vez que acostumados. Tal como os acostumados a viver voluptuosamente, com dificuldade passam ao inverso, os que se exercerem contra os deleites facilmente os desprezam. Estas coisas as dizia, e as praticava abertamente" (D. L., VI, 70).

 

III - Crates de Tebas e outros cínicos.

(vd Fil. individualmente)

8319y302.

 

 

303. Crates de Tebas (séc. 4-o. a.C.). Originário de Tebas, veio para Atenas. Aqui teve como discípulo a Zenão de Cítio, criador da escola estóica.

Crátes e sua esposa Hipárquia herdaram a informalidade extravagante da escola cínica a que pertenceram, transferindo-as para os estóicos.

 

 

305. Hiparquia 3 B " D P \ " ), a cínica (4-o. séc. a.C.). Esposa de Crates de Tebas, o cínico, e originária de rica família da Trácia.

A posteridade a destacou por haver sido uma das primeiras mulheres dedicadas à filosofia.

O informante é Diógenes Laércio, que lhe dedicou meia página:

"Também Hiparquia, irmã de Metocles, se deixou levar pelos discursos de Crates. Ambos eram naturais de Maronea [cidade da Trácia]. Agradou-se de tal modo da vida e conversação de Crates, que, sem considerar sua pessoal beleza, riqueza e nobreza, recusou seus outros pretendentes, pois Crates era todas aquelas coisas para ela.

Ameaçou ainda seus pais de se suicidar, caso não a casassem com ele. Finalmente, como seus pais pedissem ao mesmo Crates, que a demovesse de seu propósito, este fez quanto pôde, mas sem o conseguir. Por último colocou todos os seus móveis na presença dela, e lhe disse:

Este é o seu esposo e estes os seus bens. Raciocina contigo mesma, pois não poderás ser minha esposa, sem abraçar o gênero de vida de minha instituição.

Elegeu-o naquele momento, e tomando o seu modo de vestir-se, andava com Crates, usando publicamente do matrimônio, e participando com ele nos festins" (D. L., VI, 96).

 

 

 

306. Um sofisma de mulher. A dialética de Hiparquia chegou a ser subtil, todavia certa vez foi invertida contra ela, quando contudo aceitou a brincadeira, que a deixou desvestida no curso de um banquete:

"Aconteceu que, por ocasião de um convite de Lisímaco, em que também estava Teodoro o Ateu, apresentou [Hioparquia] a este o seguinte argumento [ou sofisma]:

O que é permitido a Teodoro, também o é para Hipárquia;

a Teodoro é permitido tocar a si mesmo;

Logo, também Hipárquia pode tocar a Teodoro.

Nada opôs Teodoro a isto, contentando-se de levantar-lhe a roupa, deixando-a nua.

Hiparquia, ainda que mulher, não se assustou e nem se perturbou. Como Teodoro lhe dissesse:

És a que deixaste a roca e a lançadeira (versos de Eurípides),

ela lhe respondeu prontamente:

Eu sou esta mulher. Mas, crês, por ventura, que tenha olhado pouco por mim, ao dar às ciências o tempo que haveria de gastar tecendo?

Estas e outras muitas coisas se referem desta filósofa" (D. L.,VI, 97-98).

 

Do seu pensamento individual nada se conhece, senão a montagem do sofisma citado por Diógenes Laércio e a disposição de acompanhar a escola cínica, tal como fizera também seu irmão Metocles e seu marido.

Como cínica apelou implicitamente à libertação social da mulher. Afeiçoou-se de tal modo ao cínico Crates, que passou a viver informalmente, como no caso de se deixar desnudar jocosamente em decorrência de um sofisma, por ela montado no festim a que comparecera Teodoro. Este, aceitando a consequência, subtilmente a descarregou sobre a inteligente mulher filósofa.

 

307. Outros filósofos cínicos são ainda citados por Diógenes Laércio, e biografados: Mônimo, Onesicrito, Metrocles, Menipo, Monodoo (D. L., VI).

 

 

§3. Escola cirenaica, de Aristipo e seus discípulos. 8310y312.

 

 

 

313. Fizeram-se conhecer como Cirenaicos, os socráticos menores:

 

Aristipo de Cirene (entre 455 e 355 a. C.) (vd 8310y316);

Hegésias (começo do séc. 3-o a.C.) (vd 8310y315);

Teodoro de Cirene (4-o e 3-o séc. a. C.) (vd 8310y330);

Aniceris (4-o. e 3-o. séc. a. C.) (vd 8310y335).

 

 

314. A escola cirenaica, do grupo das escolas socráticas menores, define-se pelos seus antecedentes heraclíteos (ou jônicos), de natureza materialista e positivista, contrários ao racionalismo eleático e megárico.

Define-se ainda a escola cirenaica pelas derivações futuras para o epicurismo, como paralelamente os megáricos derivaram para o estoicismo.

Inclui ainda a definição da escola cirenaica a influência humanística de Sócrates, convertida entretanto numa suavização hedonista, em que a felicidade adverte para um equilibrado prazer corporal.

Embora seu fundador Aristipo fosse nascido na longínqua colônia grega de Cirene, na costa Norte da África, no outro lado do Mediterrâneo, situava-se a escola cirenaica em Atenas, onde se encontrava o chefe, ainda que houvesse depois uma equivalente na sua cidade de origem.

 

 

315. Subsistiu a escola cirenaica mais de um século.

Algumas variações de diretriz fez aos cirenaicos ser chamados também em função aos seus mentores:

Hegesianos, referência a Hegésias;

Anicérios, referência a Aniceris;

Teodorianos, referência à Teodoro.

 

À margem das diferenças progressivas dos grupos, menciona-se um elenco de discípulos diretos de Aristipo de Cirene:

Arétea, filha do mesmo Aristipo;

Aristipo o Jovem (filho de Arétea), e outros.

 

"Aristipo teve por discípulos a sua filha Aretéa, a etíope, natural de Ptolomaida, e Antípatro de Cirene.

Arétea teve por discípulo a Aristipo de Metrodidacto, seu filho.

Este a Teodoro chamado Átheos (= ateu, e depois Theós (= Deus).

Antípater foi mestre de Epitímedes de Cirene; este de Parebates; este teve como discípulos Hegésias, que persuadir a morrer (B , 4 F 4 J V < " 2 @ H ), e Anicereis, que resgatou a Platão" (D. L.,II, 86).

 

 

I – Aristipo de Cirene. 8310y316.

 

 

317. Aristipo ! D \ F J 4 B B @ H ) de Cirene (entre 435-355 a.C.), filósofo grego, fundador em Atenas, da escola socrática menor conhecida como cirenaica, que prosseguiu, - como já se informou, - a tendência empirista jônica, ao mesmo tempo que se deixando influir pelo moralismo socrático, todavia amenizado por um equilibrado hedonismo.

"Era natural de Cirene, de onde veio para Atenas, atraído pela fama de Sócrates, como diz Ésquines.

Uma vez em Atenas, se dedicou ao ensino assalariado, o que até então havia feito nenhum dos discípulos de Sócrates, segundo diz o peripatético Fânias Erésio. Tendo uma vez mandado dez minas a Sócrates para o auxiliar, estes as devolveu dizendo, que seu Demônio não permitia recebê-las" (D. L., II, 66).

 

Não se possui indicativo mais preciso de sua data de nascimento, como também não de sua morte. Pelas circunstâncias em que viveu, foi mais jovem que Sócrates (nascido em 469 a.C.) e mais velho que Platão (nascido em 427 a.C.). Assim é que se calcula ter vivido cerca de 435 a cerca de 355 a. C.

 

 

318. Viagens. Aristipo parece haver sido algo errante, em busca de prazeres. Sua presença em diferentes regiões, do então esparso mundo grego, revelam que houvesse viajado com frequência, talvez mesmo em função à sua atividade docente e remunerada.

Depois de sua estadia em Atenas, estabelecido com escola, foi passar algum tempo no Ocidente, na corte de Dionísio, de Siracusa. Já ali teria conhecido a Platão.

 

Também foi para a banda do Oriente.

"Durante uma excursão que fez à Ásia, foi tomado pelo sátrapa Artafernes. Como alguém advertisse a sua tranquilidade de ânimo, lhe disse:

Como, estás tranquilo?

Ah! Replicou. Quando mais necessitarei da tranquilidade, que no momento de comparecer ante Artafernes?" (D. L., II, 79).

Depois de tanto viajar, teria retornado à Cirene, na costa mediterrânea da África, e onde teria fundado também uma escola. Parece que a iniciativa a teria tomado nos seus últimos anos, porque os frequentadores conhecidos da mesma são bastante jovens em relação a ele mesmo. Por isso mesmo, acreditam alguns que fosse criação de um homônimo, o seu neto.

 

 

319. Da vasta produção literária de Aristipo restam os títulos, que revelam os temas tratados, e os fragmentos, conservados em citações feitas por outros autores.

"Os escritos que se atribuem a Aristipo são:

três livros da História bíblica, que enviou a Dionísio;

um livro, que contém 25 Diálogos, escritos uns em dialeto dórico, sendo eles: Artábaze; Náufragos; Fugitivos; Mendigo; Lais; Porus; Espelho de Lais; O sonho; Hérmias; Copeiro; Filomelo; Servos; Aos censurados porque usam vinho velho e mulheres I; Carta a filha Areta; A um atleta que se exercitava nos jogos olímpicos; Dois livros de questões; Três livros de Apotegmas (dedicado a Dionísio, outro intitulado A estátua, e o último dedicado à filha de Dionísio; A um homem que se acreditava desprezado; O conselheiro.

Alguns autores lhe atribuem também seis livros de dissertações. Porém outros, particularmente Sosícrates de Roes, o negam.

Sócion em seu segundo livro, e Panécio lhe atribuem as obras seguintes: Da educação (A , D Â B " 4 * , \ " H ) Da virtude; Exortações; Artábaze; Os náufragos; Seis livros de dissertações; três de escritos ocasionais; A Lais; A Poros; A Sócrates; Sobre a fortuna [sorte]΄ (D. L., II, 84).

 

 

320. O pensamento de Aristipo apresenta algumas características pessoais peculiares aos sofistas, tanto pela sua profissão de mestre assalariado, como pela sua mentalidade sensista. Este caráter poderia ter-se acentuado depois da morte de Sócrates. Em consequência, houve os que lhe resistiram.

É possível distinguir temas centrais nas ponderações de Aristipo, com as respectivas posições assumidas: a gnosiologia sensista e o materialismo decorrente, o destaque ao prazer com a consequente ética hedonista.

 

 

321. A base gnosiológica do pensamento de Aristipo é sensista, por conseguinte contrária ao racionalismo.

Historicamente as raízes doutrinárias do mestre cirenaico derivam do sofista Protágoras e do jônico Heráclito de Éfeso. Acredita-se que o elemento de ligação entre os; jônicos e Aristipo; tenha sido o ;matemático Teodoro, este como está descrito no Teeteto de Platão.

Destacou Aristipo alguns aspectos subjetivos da sensação e dos estados psíquicos resultantes.

Distingue a afecção (B V 2 0 ), que é o estado psíquico resultante, e a coisa que produz a afecção (J  B , B @ 4 0 6 ` J " J  B V 2 0 ). O que nós verdadeiramente conhecemos, são as modificações destas afecções, e não aquilo que está fora de nós, apesar de neste exterior encontrar-se a causa. Mas o que importa são as afecções. Acontece assim que temos certeza do que; em nós acontece. Isso lembra Protágoras, que faz ao homem ser a medida de todas as coisas.

"Dizem [Aristipo e seus discípulos], que as sensações são conhecidas claramente e somente elas, porquanto não o são suas causas. Não se ocupam, pois, das coisas físicas, por serem; incompreensíveis.

Estudam porém a lógica, por causa do seu uso frequente.

Meleagro, no livro 2-o. de Opiniões filosóficas, e Clitômaco, no livro 1-o. das Seitas, assevera, que tinham por inúteis a física e a dialética, porque, quem tiver aprendido o bem e o mal, consegue falar com elegância, estar livre de superstições e evitar o medo da morte" (D. L., II, 92).

 

"É possível o progresso da filosofia e das demais ciências. A dor aflige mais a uns que a outros. Os sentidos muitas vezes nos enganam" (D. L., II, 93).

 

 

322. Análise do prazer e da dor como estados psíquicos. Subtilizaram-se os cirenaicos na observação dos estados psíquicos, e se admira como em decorrência chegaram a advertências sábias sobre como adequadamente viver.

Esta parte da filosofia cirenaica se conservou através de um longo texto doxográfico de Diógenes Laércio:

"Os que seguem as doutrinas de Aristipo, chamados cirenaicos, têm as seguintes opiniões:

Apresentam duas classes de estados psíquicos – dor (B ` < @ H ) e prazer (Ί * @ < Z ), chamando ao deleite movimento suave (8 , \ " 6 \ < 0 F 4 H )

E à dor movimento violento (J D " P , Ã " 6 \ < 0 F 4 H ).

Não há diferença de um prazer e outro; nem uma coisa é mais deleitável que outra.

Todos os animais buscam o prazer e fogem da dor.

Panécio, no Tratado sobre as seitas diz que por prazer entendem o corporal, ao qual estabelecem como fim último do homem. Não o entendem como Epicuro, que se refere ao prazer permanente do corpo humano e carência da dor, que nos retira todas as perturbações, ao qual chamou fim último.

São de parecer estes filósofos, que este fim se diferencia da vida feliz, pois dizem que o fim é um prazer particular, enquanto que a vida feliz é um agregado de todos os prazeres particulares, inclusive do passado e do futuro.

O prazer particular é desejável por si mesmo; a felicidade porém não por si mesma, senão pelos deleites particulares que contém.

Prova-se que o prazer é o fim último do homem pela infância que passamos sem refletir; e, quando o gozamos, não desejamos outra coisa, fugindo naturalmente do seu contrário, a dor.

O prazer é um bem, ainda que proceda de atos desonestos, segundo refere Hióboto no Tratado sobre as seitas, pois ainda que a ação seja indecente, se desfruta seu prazer, que é bom.

Não interpretam como um deleite a privação da dor, como Epicuro; nem como dor a privação do prazer. Ambas as afecções se apoiam no movimento; mas não são movimento nem a privação da dor, nem a do prazer, e sim um estado de como quem dorme.

Alguns, por terem transformado a razão, podem não apetecer o prazer.

Nem todos os prazeres e dores da alma se originam nas dores e prazeres do corpo, porquanto ocorre também a alegria por causa de qualquer prosperidade da pátria e mesmo de cada pessoa. Dizem, porém, que nem a memória, nem a esperança dos bens pode ser um prazer perfeito; pois, como Epicuro, dizem que o movimento da alma se extingue com o tempo. Da simples vista ou ouvido não se produzem prazeres, pois ouvimos sem pena dos que imitam ais e lamentos; temos porém desgosto, quando há os que realmente se lamentam.

Ao estado médio entre o prazer e a dor chamavam privação do prazer e indolência.

Os prazeres do corpo são muito superiores aos da alma, e muito inferiores as aflições do corpo às da alma, por cuja causa são castigados nele os delinquentes.

Mais se acomoda à nossa natureza o prazer que a dor, e por isso temos mais cuidado de um que de outro.

Ainda que o prazer seja desejável por si mesmo, reconhecem que as causas que o produzem são frequentes vezes dolorosas; dali deduzem que é muito difícil aquele complexo de prazeres que constituem a felicidade.

Nem o sábio vive sempre com o prazer, nem o ignorante sempre com a dor; porém sim a maior parte do tempo. Um só prazer que se repete frequentemente, basta.

A sabedoria não é um bem por si mesmo, mas pelos resultados que dela derivam. A amizade não tem valor, senão pela utilidade que dela resulta, como acontece com os membros do corpo.

Nos ignorantes há também algumas virtudes. O exercício corporal conduz a recobrar a virtude. O sábio não é invejoso, nem se inclina às más paixões, nem é supersticioso, pois estes vícios não trazem senão vãs preocupações; mas apesar disto é acessível à dor e ao temor.

As riquezas não se devem buscar em si mesmas, mas como produtivas do prazer" (D. L., II, 86-91).

 

 

323. A ética de Aristipo. Tudo leva a crer, que a tendência pessoal do mesmo Aristipo para os prazeres da vida, o levaram a conceituar definitivamente sua moral hedonista.

 

"Ele estabeleceu como finalidade o movimento agradável, acompanhado de sensação (I X 8 @ H * z • B X N " 4 < , J Z < 8 , \ " < 6 \ < 0 F 4 < , Ç H " Ç 2 0 F 4 < • < " * 4 * @ : X < 0 < )" (D. L., II, 85).

 

Desde Aristipo se polarizaram as duas posições como ideal de vida, - prazer sensível e prazer inteletivo.

"Xenofonte foi contrário a Aristipo, e publicou um diálogo condenando o prazer por ele proposto, colocando a Sócrates como árbitro da discussão.

Teodoro também o repudia no Tratado sobre as seitas.

Platão fez o mesmo no Tratado da alma [Fedon], como o referimos em outro lugar.

 

Seu gênio acomodava-se ao lugar, ao tempo e às pessoas, atento às conveniências pessoais. Por isso dava especial atenção a Dionísio [de Siracusa]. Em todas as ocasiões sabia como aferir vantagens, experimentando prazer no que se oferecia, deixando de lado o que não dava prazer.

Diógenes [o Cínico] o chamava por isso cão real.

Timon o moteja numa comparação semelhante ao delicado e efeminado Aristipo, que no só tocar uma coisa, percebe, se é boa ou má.

Contam que, em certa ocasião, pagou 50 dragmas por uma perdiz. Havendo-o alguém reprovado por isso, retrucou:

Não a comprarias tu por um esmola?

Ao receber a resposta, que sim, recolocou Aristipo:

Pois isto vale, para mim, apenas 50 dragmas.

 

Para que escolhesse a que lhe agradasse, mandou Dionísio, que lhe levassem ao seu quarto três lindas mulheres. Ele despediu todas as três, alegando:

Nem Paris teria eleito bem.

Tanta era a facilidade em gozar intensamente o prazer, como em não o gozar!. Por esta razão Estratão, ou – segundo outros, - Platão, ponderaram:

Ninguém tão preparado para levar, ora a púrpura, ora os farrapos.

 

Havendo-o cuspido Dionísio, não se alterou. Havendo-o alguém censurado por isso, respondeu:

Ora, se os pescadores se molham no mar para pescar um [peixinho, não me deixaria eu salpicar de saliva para colher uma baleia?

 

Passeava, em certa ocasião, no lugar onde Diógenes lavava seus legumes, quando este lhe falou:

Se houvesses aprendido a preparar estas comidas, não esmolarias nos palácios dos tiranos.

E tu, se soubesses falar com os homens, não estarias lavando legumes" (D. L., 66-67).

E assim outros e outros episódios foram retransmitidos por Diógenes Laércio sobre o fundador da escola cirenaica, ilustrando a sua ética hedonista.

 

 

324. Relativismo ético. A ética de Aristipo é relativista, porque os valores são subjetivos, determinados pelos homens independentemente das coisas. Referindo-se a Aristipo, continua o informe de Diógenes Laércio:

"Dizem que nada há em si mesmo justo, honesto ou vergonhoso, senão em consequência da lei e dos costume. O sábio porém os respeita em deferência à opinião e temor ao castigo" (D. L., II, 93).

 

A virtude na ética hedonista cirenaica é o hábito de bem gozar o prazer. É primeiramente a sabedoria ou a prudência para conduzir adequadamente todo o processo.

"A prudência não é um bem em si mesmo, mas pelos resultados que dela derivam" (D. L., II, 91).

A expressão usada é (N D ` < 0 F 4 H ) e não sabedoria (F @ N \ " ), ainda que, dentro de contexto se possa traduzir uma pela outra. Em frônesis se destaca a inteligência como prudência e conhecimento adquirido no curso da experiência da vida. Por isso, o sábio, em virtude de sua prudência, tem mais prazer que o ignorante.

A sabedoria capacita ao homem dominar seu ambiente, colocando as coisas de acordo com os seus desejos. Enquanto o cínico se liberta pela renúncia ao mundo, o hedonista o coloca a seu serviço, gozando racionalmente os prazeres da vida, e não de maneira impensada.

A serenidade e o domínio de si mesmo também são previstas na ética do bem viver do hedonismo cirenaico. Por isso, - segundo Eliano, - Aristipo evitava a preocupação com algo já passado e com um perigo eminente, situando-se com serenidade. Praticando sua doutrina ele mesmo, era capaz de usar tanto a púrpura, como o farrapo; de receber o cuspe no rosto, como o elogio; de escolher uma entre três lindas mulheres para gozar, como de deixar a todas elas. Importava conduzir a relatividade ética ao meio termo do sereno oportunismo.

 

II – Hegésias. 8310y325.

 

 

326. Hegésias / ( Z F 4 " H ) (começo do séc. 3-o. a.C.), filósofo tardio da escola socrática menor cirenaica, foi contemporâneo do rei de Alexandria Ptolomeu (305-283 a.C.), quando ali alcançava plena maturidade a sabedoria grega.

No quadro de sua escola cirenaica, foi discípulo de Parebates e este, por sua vez de Epitímides, o qual o foi de Antípatro de Cirene, filho de Aretea, filha de Aristipo de Cirene, o remoto fundador da Escola.

 

Havia deixado a moral hedonista de Aristipo de Cirene algumas interrogações, das quais partiu Hegésias para novas soluções ponderações, em que foi sensível sobretudo aos males que afligem o ser humano.

Se o prazer houvera de ser o valor principal da vida, e não sendo ele atingível adequadamente pela grande massa, não restava senão, - se mantida a tese, - aceitar o pessimismo e desejar a morte, como término de todos os sofrimentos.

O sábio procura antes evitar os males, ficando indiferente à causas do prazer" (• * 4 N @ D \ " B , D  J  B @ 4 0 J 4 6  J ­ H Ί * @ < ­ H ) (D. L., II, 95).

Acontece neste pessimismo uma aproximação do hedonismo cirenaico com o desinteresse dos bens praticado pelo cinismo. Hegésias, como também Bíon e Menipo farão esta síntese.

 

327. Persuasão ao suicídio. A circunstância de haver Hegésias aconselhado o suicídio, o fez ser apelidado persuasor da morte (B , 4 F 4 2 V < " 2 @ H ).

Escreveu um livro Apocarteron, apresentando um herói, que se deixa morrer de fome.

Aos amigos que o dissuadiam, Hegésias enumerava os males da existência. O rei Ptolomeu o obrigou a mudar de assunto, pois em consequência de sua pregação, alguns dos ouvintes já se haviam dado a morte.

 

Diógenes Laércio, ao concluir a exposição das doutrinas de Aristipo e fiéis seguidores, prosseguiu imediatamente sobre o pensamento do grupo de Hegésias, demorando-se sobre algumas de suas subtis observações:

 

"Os chamados hegesíacos são da mesma opinião no que se refere ao prazer e à dor. Dizem que nem o favor, nem a amizade, nem a benevolência, são em si coisas de importância, pois não as apreciamos em si mesmas, senão em razão de sua utilidade, e cessada esta se desvanecem.

Uma vida de todo feliz é impossível, porque o corpo é acometido de mil afecções, e a alma padece com ele e com ele se tumultua; a fortuna nos impede de muitas coisas que esperamos. Esta a razão porque não se dá a vida feliz, e tanto que a morte é preferível a uma tal vida.

Por natureza nada é agradável e desagradável, senão a raridade ou a novidade das coisas. A pobreza e a riqueza nada importam à essência do prazer, porquanto este não é mais intenso nos ricos que nos pobres. Para o grau de prazer em nada se diferenciam o escravo e o livre, o nobre e o plebeu, o honrado e o desonrado. Para o ignorante a vida é um bem; para o sábio é indiferente. O sábio tem a si mesmo em mira, porque é superior a todos os outros homens; e os bens que deles possa receber, por; maiores que sejam, não valem o que ele lhes dá em recompensa.

Tão pouco admitiam os sentidos, porque não nos dão conhecimento seguro das coisas, mas que devemos fazer aquilo que pareça conforme à razão.

Diziam que é preciso ser indulgente com as faltas dos homens, pois não as cometem voluntariamente, senão coagidos por alguma paixão.

Não se deve odiar as pessoas, mas instruí-las. O sábio deve, não tanto procurar a aquisição dos bens, mas fugir dos males, pondo seu fim em viver sem trabalho e sem dor, o que é conseguido por aqueles que ficam indiferentes às causas do prazer" (D. L., II, 94-95).

 

 

III – Teodoro de Cirene. 8310y330.

 

 

331. Teodoro (1 , ` * T D @ H ) (4-o. e 3-o. a. C.), filósofo da escola socrática menor cirenaica, na qual foi chefe do subgrupo dos teodorianos.

Uma notícia refere, que Teodoro foi discípulo de Aristipo o Jovem, filho de Aretea; e neto de Aristipo de Cirene, o fundador da Escola Cirenaica, tanto em Atenas, como em Cirene (D. L., II, 86).

Outra diz: " Foi Teodoro discípulo de Aniceris e de Dionísio o Dialético, segundo Antístenes em Sucessões dos filósofos" (D. L., II, 97)

Sabe-se que foi enviado como embaixador do Rei Ptolomeu Soter, rei do Egito (305-283 a. C.) a Lisímacro, rei da Trácia, este falecido em 281 a.C. (D. L., II, 100).

 

Teodoro atuou algum tempo em Atenas, onde seu agnosticismo declarado sobre os deuses lhe custou quase a condenação à morte (D. L., II, 100).

"Narra-se que, tendo ido a Corinto, acompanhado de um grande número de discípulos, disse-lhe Metocles o Cínico, este levando legumes:

Não terias necessidade de tantos discípulos, se te alimentasse com legumes.

E tu, replicou Teodoro, não comerias legumes, se soubesses tratar com os homens" (D. L., II, 101). Sabe-se que semelhante incidente foi narrado também a propósito de Diógenes e Aristipo (vd).

 

No final da vida retornou à cidade natal:

" Por último se retirou à Cirene, onde vivida na intimidade de Mago, com muitas honras. Conta-se, quando foi despedido, lhe disse esta frase:

Vós não pensais nisto. Vós me desterrais da Líbia para a Grécia!" (D. L., II, 102).

 

 

332. Escreveu Teodoro sobre a questão dos deuses, assunto de sua preferência.

"Teodoro dizia que devíamos renunciar completamente à crença sobre os Deuses. Encontrei uma obra sua intitulada Sobre os Deuses, obra notável, da qual se diz que Epicuro tudo o que havia dito sobre o assunto" (D. L., II, 97).

Perdeu-se a obra, dela contudo sobrando a notícia, bem como as informações doxográficas, sobretudo através de Diógenes Laércio.

 

 

334. Sobre a psicologia do prazer e sua ética, alterou Teodoro algumas colocações de Aristipo, amenizando umas, radicalizando outras.

Não mais situou o bem nos prazeres sensíveis singulares dependentes de circunstâncias exteriores, mas nas disposições psíquicas internas, como a alegria (P " D V ), em que a inteligência tem uma participação importante. De outra parte acentuou o subjetivismo, excluindo qualquer princípio intrínseco do mal, que não existiria, por exemplo, no roubo.

 

Sobre o prazer e a dor, como parâmetros do bem e do mal:

"São princípios da ação o prazer e a dor. Que aquele dimana da sabedoria e esta da ignorância.

São verdadeiros bens a prudência e a justiça; os males são disposições contrárias. O prazer e a dor são estados intermediário entre o bem e o mal.

 

Suprime a amizade, sob pretexto de que não se encontra, nem entre os sábios, nem entre os ignorantes.

Entre estes últimos só dura o tempo em que tarda em nascer o interesse.

Quanto aos sábios, bastam-se a si mesmos, não precisando de amigos. Dizia ser muito conforme à razão, que o sábio não se sacrifique pela pátria. Seria sacrificar a sabedoria pelos ignorantes. A pátria é o mundo.

 

Dada a ocasião, o sábio pode permitir-se o roubo, o adultério, o sacrilégio, porque cada uma dessas ações não é má em si mesma, senão que se consideram más para conter o vulgo, que já está habituada a considerá-las assim. O sábio pode dedicar-se publicamente e sem nenhuma vergonha aos prazeres do amor.

Sobre este ponto raciocinava assim:

Pode servir-se de uma mulher sábia, enquanto seja sábia? Sim!

Pode servir-se de um menino e de um jovem, enquanto são sábios? Sim!

Pode servir-se de uma mulher bela, de um menino formoso e de um jovem formoso, enquanto são formosos? Sim!

Pode servir-se deles para o fim para o qual são formosos? Sim!

Logo, podem servir para os prazeres do amor!

Tudo concedido, acrescentava:

Se se recorre, não se comete nenhuma falta; o mesmo, se se servir da beleza enquanto esta é útil.

Com argumentos semelhantes a estes surpreendia o assentimento do auditório " (D. L., II, 97-98).

Pelo visto, a doutrina moral de Teodoro e dos teodorianos era bastante livre, pelo menos como foi exposta no texto de Diógenes Laércio. Não se tem outros informes para um julgamento definitivo. De qualquer maneira, as discussões revelam que o pensamento crítico dos pensadores gregos ia à avaliação de todas as alternativas.

 

334. Sobre Deus a versatilidade dialética de Teodoro também foi comentada, e inclusive se fez referência em um sofisma ao significado etimológico de seu próprio nome. O texto anterior de Diógenes Laércio sobre a ética do prazer, prossegue, agora sobre o tema da divindade.

"Eis a ocasião em que se lhe deu o nome de Deus (1 , ` H ). Stilpon lhe disse um dia:

Teodoro, és o que teu nome significa?

Sim!

Teu nome quer dizer Deus?

Sem dúvida!

Logo, tu és Deus?

Rindo-se, Teodoro tomando o assunto jocosamente, disse:

Meu querido, tu demonstrarias por este raciocínio, que tu és uma gralha ou um outro animal do gênero"(D. L., II, 100).

Segue a narrativa sobre o atrito com o chefe religioso, o hierofonte, presidente dos ritos religiosos do tempo, chamados mistérios (sacramentos, entre os latinos), e que resultou numa quase interferência do Areópago, tribunal ateniense de justiça.

"Estando um dia sentado junto ao hierofonte Euríclides, falou-lhe:

Diga-me, Euríclides, quem são aqueles que se chamam ímpios com referência aos mistérios?

Aqueles que os revelam aos profanos.

Logo, tu és um ímpio, - replicou Teodoro, - porque és tu que inicias aos profanos.

Pouco faltou para que fosse citado a comparecer ante o Areópago. Demétrio de Falera o salvou do tropeço.

Anfícrates, diz, não obstante, em Biografias de homens ilustres, que foi condenado a beber a cicuta" (D. L., II, 101).

 

Enfim, sobre Deus em si mesmo, que teria dito em seu livro? Uma vez perdido o livro, somente resta a informação, já citada:

"Teodoro dizia que devíamos renunciar completamente à crença sobre os Deuses" (³ < * r Ò 1 , ` * @ D @ H B " < J V B " F 4 < • < " 4 D ä < J  H B , D  1 , ä < ) (D. L., II, 97).

 

IV – Aniceris. 8310y335.

 

 

336. Aniceris ! < < 4 6 X D 4 H ) (4-o. e 3.o. séc. a.C.) é filósofo da escola socrática menor cirenaica, chefe do subgrupo denominado dos anicérios, em contraste com hegesianos e teodorianos.

Conhece-se ainda linha de seus antecessores ideológicos. Como Hegésias, foi discípulo de Parebates, por sua vez discípulo de Epitímides, que já o foi de Antipatro, o qual o foi finalmente de Aristipo o Jovem, filho de Aretea, filha de Aristipo de Cirene, fundador remoto da escola cirenaica.

Sabendo-se que foi colega discípulo de Hegésias, e que este frequentara a corte do rei Ptolomeu I (rei em Alexandria do Egito, de 305 a 283 a.C.), decorre que Aniceris se situa no final do 4-o e começo do 3-o séc. a. C.

Entretanto, este Aniceris cirenaico não terá sido o mesmo que resgatou a Platão (cerca do ano 387 a.C.), apesar de o haver dito Diógenes Laércio (D. L., II, 86), porque este episódio se situa cerca de 80 anos antes. É possível mesmo que a afirmativa fosse uma intercalação posterior no texto original.

 

 

337. A ética de Aniceris ultrapassa o valor meramente utilitário de doutrina hedonista de Aristipo, porque destaca o prazer de índole espiritual, diferentemente da ética cirenaica anterior, do prazer sensível e singular.

A nova ética espiritualizante de Aniceris é também mais otimista que a de Hegésias. No amor aos amigos não prevalece apenas a utilidade, mas um valor mais alto, inerente ao amor e à benevolência.

 

Depois de haver exposto sobre Aristipo e Hegésias, continua Diógenes Laércio:

"Os anicérios admitem a maior parte destes princípio, porém cultivam as amizades, o favor, a honra aos pais, bem como algum serviço à pátria. Ainda que isto moleste, viverá todavia feliz, mesmo que consiga pouco prazer. Mas a felicidade do amigo considera em si mesma é indiferente para nós, já que não podemos senti-la. Não se deve ter excessiva confiança na própria razão, nem se deve desdenhar das opiniões recebidas. Não se há de receber ao amigo apenas pela sua utilidade; nem se deve abandoná-lo se esta faltar; por causa dela se hão de aceitar até trabalhos por amor e benevolência"(D. L., II, 96).

 

 

338. Concluindo sobre a sabedoria no tempo dos sofistas e de Sócrates, a impressão que se tem, é a de uma grande efervescência mental até então nunca vista na humanidade.

Nascida a filosofia com as escolas pré-socráticas, - quando surgiram os primeiros pensadores capazes de pensar com espírito crítico, superando sobretudo o pensamento mágico e as fantasias dos visionários, - agora ela passou a uma consideração temática mais ampla, estendendo-se aos variados temas humanos, e sobre eles considerando as mais variadas alternativas.

Esta vozeria geral de opiniões formou o clima, sem o qual não se teriam aguçado os grandes espíritos de Platão e Aristóteles, em busca de sínteses crescentemente melhores. Sem os pré-socráticos, sem os sofistas, sem Sócrates, sem os socráticas menores, - seja dita a verdade, - Platão e Aristóteles não teriam tido a oportunidade de emergir sobre o horizonte universal da história da filosofia.

 

Evaldo Pauli.