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ENCICLOPÉDIA    SIMPOZIO

(Versão em Português do original em Esperanto)
© Copyright 1997 Evaldo Pauli

Via Internet:
Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC.
Propriedade literária:
Biblioteca Superior de Cultura Simpozio.
Redator chefe:
Evaldo Pauli.

TRIBUNA DE IDÉIAS E IMAGENS

 ANIVERSÁRIO. ANIVERSARIANTE . 0640.
(vd Ano). (vd festa).

1. Como termo composto, aniversário significa ano (que se completa) e passagem (ao curso do ano seguinte).
Ano se diz de uma certa medida do tempo. Mas não se mede o tempo diretamente, e sim pela duração das coisas que se movem (ou se alteram). Assim um ano é o tempo que demora a Terra para uma volta em torno do Sol. A partir deste padrão do tempo se fazem todas as demais referências.
Quantas voltas deu Fulano em torno do Sol? Tantos aniversários terá feito!
Em princípio, o aniversário comemora o que já foi, mas não só. O que verdadeiramente importa, no aniversário, é a entrada na continuidade, isto é, na chegada ao novo ano, que se abre como uma avenida futuro adentro. Eis o que mais importa comemorar. Eis a festa aniversariante, não só do ano que se completou na volta triunfal em torno do Sol, mas também da passagem ao curso de mais um ano, portanto de uma nova corrida no espaço almejando o aniversário seguinte (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. . "O que é, já foi, e o que foi será" (Um dizer).
3. “Para o preguiçoso [desidioso] sempre é festa”- Desidi semper fériae (Binder, 81).


ANJ0. ANGÉLICO. ANGELISMO. 0645.
(vd Espírito). (vd Mitologia).

1. O contexto em que se imaginam os anjos é simpático, ainda que pouco coerente com a idéia de um verdadeiro Deus.

a) Não se colhe nos livros do Velho e Novo Testamento bíblico uma noção clara sobre anjos, até porque dita noção se apresenta evolutiva sobre os mesmos.
No alto os anjos formariam uma espécie de corte divina, dando esplentor ao céu, mas desta corte celeste não têm uma noção clara.
Cá embaixo, os anjos seriam mensageiros das decisões de Deus para o mundo e ainda protetores dos seres humanos. Operariam por ocasião do fim do mundo, anunciando-o com o toque de cornetas.
Ora, se Deus é onipresente, e por igual por toda a parte, que sentido teria uma corte divina em determinado ponto do espaço, e porque haveria mensageiros do céu para a terra?!
Ao se proceder a tradução do texto original da Bíblia, o termo grego anggelos (= mensageiro) foi um arranjo para traduzir o correspondente hebraico mal’ak, que não lhe corresponde exatamente.
No texto inicial da Bíblia sobre a criação falta uma referência direta sobre quando Deus teria criado os anjos. A idéia dos anjos foi uma particularidade desenvolvida posteriormente, sobretudo quando a religião zoroástrica dos persas passou a influenciar o ideário judaico. Como se sabe, os judeus ficaram sob influência persa a partir 538 a.C., ao serem libertados do cativeiro de Babiblônia, mas conservados sob regime da Pérsia. A partir de agora, e também do mundo helênico e romano se desenvolveram novos elementos do imaginário sobre os anjos.

b). Ao tempo dos cristãos os anjos foram bastante invocados, desde a vida de Jesus. Já no seu nascimento o anjo Gabriel teria dito à Maria, que a concepção que estava tendo, não era a partir de um homem, mas a partir de Deus. Ocorre aqui a versão frequente na antiguidade, de que todos os nascidos importantes teriam sido por ação de alguma divindade, e Jesus não seria um exceção. Acreditava-se que os deuses e os anjos seduziam e fecundavam as mulheres.
Posteriormente a casa de Maria teria sido levada, até Roma, pelos anjos.
Também se disse que o corpo de Santa Catarina de Alexandria fora transportado pelos anjos ao Monte Sinai. Esta narrativa foi acolhida no imaginário cristão até os tempos modernos.
Os anjos perderam espaço com o aumento do panteão do santos cristãos.

c). Por analogia, as boas qualidades atribuídas aos anjos se atribuem a outros seres. Assim se têm dito que as crianças são anjos. Com frequência se diz também que as mulheres são anjos. Em casos especiais também se têm dito que há homens anjos (no bom sentido, pois imaginavam os antigos que também os anjos ludibriavam as mulheres e as fecundavam).
Angelismo se pode dizer da imagem fantasiosa que os seres humanos se fazem de si mesmos como elevados acima do plano geral dos demais seres vivos. Não teriam resultado por evolução progressiva, mas sido criados como obra especial e ainda com destinação superior.
Pensar algo sobre o ser humano é eventualmente estimulante. Mas é preciso provar.
Sobre o ser humano também é possível pensar alto sem angelismo (Evaldo Pauli, Ad hoc).

1. ==
2. ==
3. “O homem é gênio; a mulher anjo” (Victor Hugo, O homem e a mulher).
4. “O café deve estar quente como o inferno, ser negro como o diabo, puro como
um anjo e doce como o amor” (Dizer atribuído a Talleirand) (D C).
5. “A vida não passa de um cortejo lento e inexorável do berço à sepultura. Seria isso a vida? Uma celebração do útero à terra? Mas dizendo assim, tudo fica muito amargo, não é mesmo? Melhor é criar histórias, como a de um céu lindo, azul para sempre, anjos tocando flauta, essas bobagens que só na cabeça dos ingênuos poderiam achar morada. Ainda assim, eu sei que no fundo no fundo, os que dizem crer nisso, duvidam e... por duvidarem, tornam-se fanáticos, entendo-os. É muito desagradável alguém nos derrubar o castelinho de areia que construímos para abrigar as nossas crenças frágeis. Seja como for, todos temos que percorrer esse caminho pedregoso, esse calvário de que ninguém escapa” (Luiz Carlos Prates, em Diário Catarinense, Florianópolis, 17-6-2002).


ANO. ANOS. ANUAL. ANUAIS. ANO-NOVO. [CALENDÁRIO.]. 0650.
(vd Tempo). (vd Velhice). (vd Idade).

1. Ano é a medida de tempo, de 365 dias, quanto a Terra demora para girar em torno do Sol. Trata-se de um período homogêneo, de 4 estações, cada uma de três meses. A homogeneidade do ano, resultou em que passasse a ser a medida usual do tempo que vivem as pessoas. Acima do ano se prefere falar em séculos e milênios. Abaixo do ano, a redivisão em meses, semanas e dias.

Calendário se diz da organização do tempo ao longo do ano, em dias, semanas, meses, com indicação específica das fases da Lua, feriados e festas. O nome calendário deriva de Calendas, como na antiguidade os romanos (ou latinos) denominavam o primeiro dia de cada mês. O calendário solar dos romanos teve seus precedentes na antiguidade egípcia.
Paralelamente já existia também na remota antiguidade o Calendário Lunar. Quando os semitas de babilônia ainda não dominavam na antiga Mesopotâmia (Iraque), os sumeros, situados mais à foz do Rio Eufrates, já contavam os dias na forma de semanas, tendo por base os 7 dias de cada uma das 4 fazes mensais da Lua.
Só mais tarde o calendário lunar haveria de ser generalizadamente substituído pelo solar, por determinação de Júlio Cesar (101-44 a.C.), inteligente ditador romano, conquistador do Egito. Mas o tradicionalismo religioso de judeus e cristãos marca ainda hoje a festa da Páscoa pelo Calendário lunar, razão porque ela ocorre no primeiro Domingo depois de uma Lua cheia.

A atenção ao Calendário, no curso de todo um ano, e já aguardando o calendário seguinte, denota uso disciplinado do tempo disponível. O sinal exterior disto é ter afixado em alguma parede, - um Calendário bem visível (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Por muitos anos!”- Ad multos annos! (fórmula latina de brinde, de bons augúrios).
3. “Crescem os anos, decrescem as forças” – Crescunt anni, decrescunt vires (Dizer latino).
4. “Partiu pleno de anos, pleno de honras”- Plenus annis ábiit, plenus honóribus (Plínio,o Moço).
5. “Não digas mal do ano, até que ele esteja passado” (E. P.). [Não se apresse em julgar].
+ + +
6. “O ano acaba, não acabam as esperanças” (Luiz Carlos Prates, em Diário Catarinense, Florianópolis, 1-1-2002).
7. “Ano-novo. Todos nós vamos ganhar, novinhos em folha 365 dias... Quer dizer, todos partiremos do mesmo ponto.Vamos ter nova largada na corrida da vida. Os néscios largam sem qualquer projeto, e no fim do ano, como agora, com a língua de fora, se queixam da sorte. Os inteligentes fazem bons planos, e os executam. Sejam felizes e cheguem na frente” (Luiz Carlos Prates, Ibidem, 1-1-2003).


ANÔNIMO. ANÔNIMATO. ANÔNIMOS. 0655.
(vd Nome).

1. Anônimo se usa dizer de escrito sem assinatura, ou seja, sem nome subscrito. Por extensão, anônimo é toda a pessoa desconhecida. É mais especificamente anônimo aquele de quem não se conhece o nome.
Por extensão e analogia anonimato pode significar pouco conhecido, sem fama. Então o escritor sai do anonimato, se difundindo e ganhando leitores. Um prestador de serviços sai do anonimato, ao ser reconhecido pela qualidade dos serviços que oferece.

O anonimato pode criar problemas, sobretudo quando proposital e agressivo.
De outra parte, o anonimato é um direito, mas que deve ser regulamentado, com vistas a evitar o anonimato proposital agressivo.
Como ser associativo, o bom para o ser humano é ser conhecido e não um humilde anônimo em tudo (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “O vulgo sem nome[a multidão anônima]” – Sine nómine vulgus (Dizer latino).
3. “O azar é Deus atrás do anonimato” (Édouard Pailleron, Pensées, 245) (D C).


ÂNSIA. ANSIAR. ANSIEDADE. ANSIOSO. 0660.
(vd Angústia.). (vd Estresse).

1. Ânsia, palavra com a mesma origem etimológica latina que angústia, significa uma preocupação com efeitos que apertam o peito, e deixam a pessoa aflita, ante algo intensamente desejado. A ânsia costuma precipitar comportamentos, como o da pessoa angustiada, que chega antes da hora, dada a sua preocupação.

A ânsia pode ser também fisiológica, como em ânsia de vômito, e então muito desagradável,
Em vez da ânsia, que prejudica ao estado somático em geral, importa desenvolver a tranquilidade diante do que se espera (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Se sois pobre não acrescenteis à vossa miséria a ansiedade de contrair empréstimo, novas dívidas” (Amyot) ( D C).
3. “A aflição no coração do homem o deprime, uma boa palavra restitui-lhe a alegria” (Bíblia: Provérbios. 12, 25) em Weggeleit, 6 Fev.).

4. “A ansiedade é mãe zelosa da angústia e do filho irrequieto, o estresse. E esta senhora [Ansiedade] aparece sem bater na sua porta. Surge de repente. Exemplo? Toca o telefone na sua casa. Você sai correndo, como uma louca, ou vai devagar, para atender? Se a opção for a primeira, você é vítima da ansiedade, dos que vivem esperando pelo pior e, mais raramente pelo melhor. É indício de doença mental. Relaxe!” (Luiz Carlos Prates, em Diário Catarinense, Florianópolis, 15-1-2002).


ANTES. ANTERIOR. ANTERIORIDADE. 0665.
(vd Agora). (vd Depois).

1. Antes significa anterioridade, que pode ser, ou anterioridade no tempo, ou
anterioridade no espaço, ou anterioridade na ordem lógica.
Em princípio, a anterioridade é melhor que a posterioridade. Mas, nem sempre.
A anterioridade é melhor, quando ela persistir pelo menos tanto quanto a posterioridade (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “A opinião anteriormente formada prejudica a decisão” (Fedro, Epígrafe da Fábula, L. V) (D C).
3. “O dia posterior é discípulo do dia anterior”- Discipulus est prioris postérior dies (Publílio Siro, Senténtiae, 146) (Referência à experiência aos poucos adquirida).
4. “A necessidade é anterior à razão” - Necéssitas ante rationem est (Cúrcio Rufus, 7, 7, 10).
5. “É melhor não soltar rojão antes do tempo” (C. C.).


ANTIGO. ANTIGOS. ANTIGUIDADE. 0675.
(vd Histórico). (vd Saudade). (vd Velho). do p

1. Deus infinito é o mais antigo e continua como sempre foi. O outro antigo, como por exemplo o mundo dos astros, em parte se conserva e em parte costuma ter passado.
Se em torno de nós algo persiste, pode estar superado. Dele resta por vezes a saudade. E pode mesmo gerar uma síndrome de saudosismo, com atitudes não raro pouco racionais.
Antes da decisão pela conservação do antigo, como memória assado, avalie-se a validade do seu significado intrínseco.
Avaliem-se também aspectos extrínsecos da validade da conservação de coisas antigas. Efetivamente, há coisas que tumultuam por demais o presente, se forem conservadas. E há as que importam em excessiva despesa de manutenção. Finalmente há as que, passado mais algum tempo, se deterioram definitivamente.
Quando se trata já não de coisas antigas, mas do antigo pensamento e usos, mais difícil ainda se torna sua conservação. Convém, então, transformar sua memória no sentido de história, a qual nos mostrará como importa superar o atraso e evoluir (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “A história é testemunha dos tempos, luz da verdade, vida da memória, mestra da vida, mensageira da antiguidade”- História est testis témporum, lux veritatis, vita memóriae, magistra vitae, nuntia vetustatis (Cícero, De oratore, 2, 9, 36).
3. “Deus é o mais antigo dos seres, porque ele é por si mesmo” (Tales de Mileto, em Diógenes Laércio).
4. “Louvamos os antigos, porém vivemos a vida dos nossos tempos [Tanto os costumes antigos quanto os modernos são igualmente dignos de respeito]” - Laudamus véteres, sed nostris útimur annis, mos tamen est aeque dignus uterque coli (dizer latino).
5. “O amor antigo é como câncer”- Antiquus amor cancer est (Petrônio, 42).
6.“Azeite, vinho e amigo, o mais antigo” (E. P.).
Equivalente: “O vinho e o amigo, do mais antigo” (E. P.).
7. “Tudo o que é do tempo antigo, parece bom ou melhor. Não é bem assim. A comida da vovó era um grude danado! Há muito saudosismo e equívoco na nossa memória. Melhor é deixar o passado no passado. E viver na soma dos agoras” (Luiz Carlos Prates, Diário Catarinense, Florianópolis, 13-9-2002).


ANTROPÓIDE. ANTROPOCÊNTRICO. ANTROPÓLOGO. 0680
(vd Antropomorfismo). (vd Homem). (vd Pitecântropo).

1. Ser um antropóide é a posição do homem no quadro geral do reino animal. Este quadro geral ordena as categorias dos seres vivos em quadros cada mais restringentes, para chegar finalmente no gênero e na espécie. Não é o homem uma exceção na natureza. Está o homem no gênero dos primatas; são primatas os homens e os símios. Passando às espécies, o homem se separa como primata antropóide.
Importa ver sempre o homem dentro de sua verdade, - ainda que com algumas divergências, - definindo-o como sendo do gênero animal primata e finalmente como espécie primata antropóide, no sentido de que a derivação se deu a partir de um ancestral comum, em época mais antiga Ver integradamente toda a natureza, - eis a verdade a que chegou o estudo da realidade.
O velho angelismo apresentou o ser humano como criado em separado, e assim continuam ainda a insistir pregadores imaginosos. O verdadeiro triunfo do ser humano foi, - no que se refere à inteligência, - ter evoluído mais que os outros animais no percurso da competição.
Em outros aspectos, o ser humano não evoluiu tanto quanto alguns seus colegas animais, no sentir, no trepar, no correr e até no voar, bem como no viver muito.
A evolução poderá ir ainda mais longe, porque a evolução dos seres vivos ocorre como um processo contínuo, sempre em aberto para novos sucessos. A Olimpíada da Evolução poderá ter a duração de bilhões de anos. Não se prevê quais chegarão à frente, num evento que poderá não estar limitado a apenas uma região do Cosmos (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Ficou evidente que o homem evoluiu do macaco, como é evidente que agora já está voltando” (Millôr Fernandes, Rio de Janeiro).


ANTROPOMÓRFICO. ANTROPOMORFISMO. 0685.
(vd Deus). (vd Religião).

1. Antropomórfico se diz da maneira humana de sentir e conceituar as coisas, atribuindo-lhes caracteres que em si mesmos não têm.

a) Há um antromorfismo por simples desatenção, porque introjeta, por exemplo, nos seres não vivos a nossa maneira pessoal de ser vivos.
Outros antropomorfismos acontecem por causa de efetivas subjetividades de nosso próprio sentir e pensar. Para nossa vista o céu claro é azul e as folhas das árvores são verdes. Mas, para os olhos das aves o céu não é azul e as folhas das árvores não são verdes. Nós não temos razão, tratando-se de um antropomorfismo invencível. Nem têm razão as aves, sujeitos invencivelmente ao seu modo de ver.
Ainda que a verdade seja a proporção perfeita entre o conhecimento e a coisa em si, não é o que examente acontece no conhecimento humano, o qual ao menos parcialmente sofre de antropomorfismo natural invencível, do qual contudo nos podemos em parte defender por cálculo raciocinativo.
A desproporção entre a realidade e a idealidade no conhecimento humano é um dos muitos antropomorfismos humanos. Aqui a subjetividade do conhecimento é o maior deles, e é aquele que mais nos espanta.
Há o antropomorfismo crasso, por exemplo o do homem simples, que conceitua de maneira imaginativa os objeto metafísicos, ou o da criança que substitui as causas naturais por entidades mágicas.
Ocorre o antropomorfismo primário, muito frequentemente em assuntos religiosos, com os respectivos efeitos secundários de influir o comportamento humano em função ao inexistente. Este antropomorfismo crasso admite reformulação, porque é possível chegar finalmente a uma conceituação mais correta.
O antropomorfismo especificamente gnosiológico é aquele que resulta da incapacidade natural das faculdades de conhecimento de atingir seus objetos sem subjetivizá-los. É irrecuperável, todavia detectável, pela conscientização dele, e por isso mesmo controlável.

b). Efetivamente, não podemos evitar que possamos ver os objetos, senão como se fossem coloridos, apesar de o não serem. E assim também a subjetivização do próprio ente ao apresentar-se à inteligência como um certo tipo de ser, não temos como nos libertar desta deficiência antropomórfica.
Tecendo a realidade objetiva com a subjetividade, sem disto poder fugir, o fato não nos aflige. Vivemos naturalmente nosso destino de apreciadores de cores que não existem em si, de sons que na realidade inexistem, de perfumes, gostos e prazeres que igualmente inexistem em si.
Também somos pensadores de um ser que não é exatamente aquele da verdade objetiva integral da existência. Pensamos primeiramente a essência, que são modos da existência, e não a existência, a qual é o principal.
Do antropomorfismo gnosiológico não temos senão que nos acautelar, apenas nos conscientizando dele enquanto o vivemos.
O que importa evitar inteiramente é o antropomorfismo crasso e primário, dos que o vivem como se fosse a realidade efetiva (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Creio no Deus que fez os homens e não no Deus que os homens fizeram” (Karr) (S. F).
3. “Em geral, os crentes fazem Deus à sua imagem; os bons o fazem bom, os maus o fazem mau; os devotos, odientos e belicosos, não vêem senão o inferno, porque era seu desejo danar o mundo todo; as almas amantes e doces não crêem absolutamente nisso” (Jean-Jacques Rousseau, Confessions) (D C).

[ANZOL]. (vd Pescar).


APAGAR. APAGADO. APAGADOR. 0690.
(vd Luz). (vd Fogo).

1. Apagar se diz sobretudo do fazer cessar o fogo, a luz, o brilho. O sentido de apagar conserva ainda algo do sentido original do termo latino pacare (= pacificar). Estendeu-se o sentido para dizeres como apagar vestígios das pegadas dos pés, apagar a escrita, apagar apagar a memória, ou lembraça, de alguém.
Construam-se monumentos aos beneméritos da humanidade para que não se apague a memória do bem que fizeram (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Não é com palha que se apaga o fogo” (C. C.).
3. “Mais apaga boa palavra, que caldeira de água” (E. P.).
4. “A calúnia é como o carvão: aceso queima, apagado macula” (E. P.).
[APAIXONADO]. (vd Paixão).


APARÊNCIA. APARENTAR. APARENTE. 0700.
(vd Parecer). (vd Aparecer) (vd Conveniência). (vd Fingido).

1. As aparências sob as quais vivemos são muito maiores do que à primeira vista possamos nos imaginar. Vivemos numa admosfera transparente de ar, e por isso pensamos estar num grande vazio, dentro do qual nos movemos. Quando entramos por uma porta, pensamos entrar porque o espaço esteja vazio. Entretanto, o espaço estava cheio, sem que o pudéssemos ver. Em qualquer recinto que entremos, importa que saia o ar equivalente ao nosso corpo.
Para nós, uma vez no fundo das águas, tudo nos parece escuro. Mas o peixe, ao sair para o exterior, continua na escuridadão, pois seus olhos não são para ver o que é iluminado.
Quando olhamos para o sol, não vemos o sol deste instante, mas o sol de 8 minutos atrás, e que não existe mais. O céu estrelado que vemos à noite, não é o das estrelas de agora, mas o de muitos anos atrás, e nunca exatamente, porque a luz de umas é de percurso mais longo que o de outras.
As coisas se apresentam coloridas, mas a realidade verdadeira que vemos são ondas eletro- magnéticas, as quais não vemos tais como são. E assim por trás dos sons, dos odores, dos gostos, do tato a verdadeira realidade existe, mas não é exatamente o que atingimos.
Que dizer, então das aparências em tudo o mais? Que dizer do comportamento humano, e do que fica por trás das conveniências sociais? E que há de exata verdade no que nos ensinam a lógica e a metafísica, e do que recomenda a moral e nos advertem os melhores pregadores da religião?
A existência é antes de tudo Deus. Por superficialidade e desatenção deixamos de ver a Deus em tudo o que existe, e o fantasiamos como se ele fosse um espírito invisível.
Nossa inteligência percebe a partir da essência, e por isso não costuma ir à existência, que é uma só, e da qual apenas participamos.
Deus não é um espírito invisível. Ele é a existência, a qual temos de aprender a ver como sendo nosso Deus, do qual somos participantes, e apenas separados como modos de existir. Quem olha para as ondas do mar, não só vê as ondas; vê também o mar. Quem olha para a natureza, não só vê a natureza, mas vê também a Deus, do qual a natureza é um modo de existir, embora o ser divino seja muito mais do que a referida natureza.
Atentos aos modos limitados do existir, perdemo-nos nas aparências.
Guardeo-nos, pois, das aparências, para que a verdadeira realidade nos apareça, - o mais possível, - como efetivamente ela é.
Contudo não desprezemos as aparências, porque estas são exatamente a nossa essência. As aparências são o agitar da vida. O que importa é não confundir a aparência com a realidade, e a realidade com a aparência.
Por sua vez, as aparências (ou essências) apresentam graus. Umas são aparências de aparência, outras são aparências de maior validade. Certamente as aparências de maior realidade nos devem ocupar de preferência. O cínico é aquele que escarnece aos que super valorizam as aparências sociais efetivamente insignificantes.
Mesmo que nos ocupemos mais com as aparências de menor validade, - como as aparências da natureza, - elas não deixam de ter alguma validade. Elas são o caminho para a validade maior, - Deus (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “A barba não faz o filósofo”- Barba non facit philósophum (Plutarco, Disp. Coviv., 7, 6, 3). (Plutarco, 40-120 d. C., filósofo moralista e biógrafo, grego).
3. “O capuz não faz o monge”- Cúcullus non faci mónachum (Povérbio medieval).
4. “A primeira impressão engana a muitos”- Decipit frons multos (Fedro, Fabulae 4, 1, 16).
5. “Por seu canto se conhece o pássaro”- E cantu cognóscitur avis (dizer latino).
6. “Pela palha se deduz como é a espiga”- E culmo spica conícitur (dizer latino).
7. “Também um só cabelo tem sua sombra”- Etiam capillus unus habet umbram suam (Publílio Siro, Senténtiae).
8. “Pelas orelhas é que se conhece o asno”- Ex aurícula ásinum [cognoscere] (provérbio latino).
9. “Conhecer o leão pela pata [pegada]” – Ex ungue leonem [cognóscere] (dizer latino).
10. “O teu rosto revela os teus anos” – Fácies tua cómputat annos (Juvenal, Satirae, 6, 199).
11. “As aparências das coisas são enganosas”- Fallaces sunt rerum spécies (Sêneca, De beneficiis, 4, 34).
12. “A aparência engana” – Fálitur visus (dizer latino).
13. “Não se pode confiar na expressão do rosto”- Frontis nulla fides (dizer latino).
14. “O homem não pode ser julgado pela sua fisionomia”- Homo non est ex fronte diiudicandus (dizer latino).
15. “A sabedoria da mente não está na vestimenta”- In vestimentis non est sapiéntia mentis (dizer latino).
16. “Em veste vil ninguém é tratado com honradez”- In vili veste nemo tractatur honeste (Adágio latino medieval).
17. “Importa mais ser do que [a]parecer”- magis esse quam videri oportet (dizer latino).
18. “Ninguém pode usar a máscara por muito tempo” - Nemo potest personam diu ferre (Sêneca, De dementia, 1, 1).
19. “Não creias demasiadamente nas cores [cuidado com quem muda muito de cor – títulos, aparência, idéias, partidos]”- Nimium ne crede colori (Virgílio, Écloga, 2, 17).
20. “Nem sempre é cozinheiro, aquele que ostenta longa faca”- Non cóquus semper, cui longus culter adhaeret (dizer latino).
21. “Nem todo aquele que sopra num chifre é caçador”- Non est venator quivis per córnua flator (dizer latino).
22. “Rédeas de ouro não tornam melhor o cavalo” – Non facit meliorem équum áurei freni (Sêneca, Epistulae, 41, 6).
23. “Nem todos os que têm cítaras são citaristas”- Non omnes qui habent cítharam sunt citharoedi (Varrão, De re rústica, 2,1, 3) (advertência aos exibicionistas).
24. “As coisas não são sempre como [a]parecem” – Non semper ea sunt quae videntur (Fedro, Fabulae, IV, 2, 5).
25. “Quanta beleza! Mas não tem cérebro”- O quanta spécies!... cérebrum non habet (Fedro, Fábulae 1, 7) (Assim falou a lebre para a máscara, - no sentido de muito exibicionismo, pouco siso).
26. “O povo considera sábio um tolo bem vestido”- Plebs bene vestitum stultum putat esse peritum (Binder, p.149).
26. “As aves evitam as armadilhas muito vistosas”- Quae nimis apparente rétia vitat avis (Ovídio, Remédia amoris, 516).
27. Os homens que prometem fazer grandes coisas, são, com frequência, os que menos fazem”- Saepe minus fáciunt hómines qui magna minantur (dizer latino).
28. “A simulação da amizade é repugnante” – Simulátio amicítiae repugnat (Cícero, De Amicitia, 25,92).
29. “É néscio quem julga o homem ou por seu traje ou por condição” – Stultus est qui hominem aut ex veste aut ex conditione áestimat (dizer latino).
30. “Pelo andar revelou-se verdadeira Deusa” – Vera incessu pátuit Dea (Virgílio, Eneida, 1, 405.
31. “O hábito não faz o monge”- Vestimentum non facit mónachum (provérbio latino medieval). (E. P.). (R. B.).
32. “O traje faz o homem”- Vestis virum fácil (Erasmo, Adágios, 3,1,60).
33. “Toda a palavra que não ajuda a compreensão, nem serve de ornato, pode ser chamada aparente [supérflua] – Verbum omnium quod non intellectum ádiuvat, neque ornatum, visum dici potest (Quintiliano, Institutiones, 8, 3, 55).
34. “Não nos devemos iludir com as aparências: o tambor, apesar de todo o barulho que faz, está somente cheio de ar” (Zoroastro) (S. F.).
35.“Somos enganados pelas aparências da verdade” (Horácio, Epistola ad Pisones, v. 25) (D C).
36. “Não se deve julgar pelas aparências. Muitas vezes as aparências enganam. Anda em capa de letrado, muito asno disfarçado” (E. P.).
37. “Os homens são avaliados não pelo que são e sim pelo que aparentam” (Litton, Money, I, 1) (D. C.).
38. “Bons e maus são menos do que parecem” (S. T. Coleridge, Table Talk, 9-14-830) (D C).
39. “Nem tudo que reluz é ouro” (E. P.).
Equivalentes: “Nem tudo que brilha é diamante” (E. P.).
“Nem todo mato é oregão” (E. P.).
“Nem tudo o que é mole é mingau” (E. P.).
“Nem todo o branco é farinha” (E. P.).
“Barba não é documento” (E. P.).
40. “As aparências enganam. A mesma terra produz rosas e cardos” (E. P.).
41. “Guarda as aparências, eis a habilidade; o mundo acreditará no resto” (Charles Churchil, Night, v. 311) (D C).
42. “Uma boa aparência é uma carta de recomendação” (E. P.).
Pela inversa: “Quem não se enfeita, por si se enjeita” (E. P.).
43. “Não existe coisa mais próxima nem mais distante, mais oculta e mais visível do que Deus” (Frei Luis de Granada) (D C).

+ + +
44. "Parecer ser. Para que sejamos julgados mal, muito não é preciso. E não fiquemos alisando a barriga, e pensando que só os outros são vilões nos julgamentos que fazem, nós somos iguais. Vivemos botando o olho sobre os outros, gente que nunca vimos antes, e passamos sobre eles o carimbo dos conceitos apressados, muitos gravemente errados.
Se não é justo que julguemos pelas aparências, que outras bases serão tomadas para que nos julguem se antes nunca nos viram? É preciso ter cuidado com copos na mão, com as companhias que nos fazem sombra, com os lugares que frequentamos, com o dedo no nariz, com o tossir sem lenço, com o bocejar como um bicho na calçada, com isso, com aquilo, e até com o inocente pijama que, por desaviso, não tiramos para levar o filho ao colédgio, de carro.
É muito fácil ver arranhada una imagem, facílimo. Tê-la polida e preservada, ah, como é difícil. E sem essa de, para agradar os outros, pegar copos e ficar sorrindo sem graça fingindo beber. Ou bebendo em público, o que é pior. Esse caso, esse de ser visto em público segurando copo, faz lembrar a história do sujeito que nunca viu um porco. Será muito difícil fazê-lo crer que o focinho do bichinho não é tomada..." (Luiz Carlos Prates, Diário Catarinense, Florianópolis, 17-4-2004).

[APARTAMENTO]. (vd Casa).


APARIÇÃO. APARECER. 0705.
(vd Visão) (vd Visionário) (vd Parecer) (vd Assombração).

1. Aparição se diz não só do que do que à maneira de entidade aparece, - como da Lua que efetivamente faz sua aparição sobre o horizonte, - mas também se diz do que apenas aparece como imagem, mesmo que apareça como se fosse real.
No sonho a aparição dos objetos ocorre como se eles fossem reais, sem que efetivamente o sejam.
Na assombração também só acontece o aparecer da imagem, sem que ocorra uma realidade, senão como crença popular sem fundamento.

As religiões tradicionais acreditam facilmente em aparições. Seus livros sagrados estão plenos de tais narrativas.
Os cristãos, ainda nos tempos modernos continuam se destacando pela variedade das versões sobre aparições de Maria, Mãe de Jesus. O curioso é que em ditas aparições, a fisionomia das mesmas costuma ser da etnia e dos costumes da região em que a aparição acontece.
Os visionários efetivamente veem. Mas o que eles veem, podem ser apenas as imagens que eles mesmos guardam no subconsciente e que, em estados psíquicos especiais, projetam para fora, como fazem as máquinas de cinema. Importa examinar previamente o estado psicológico dos visionários, antes de passar ao exame do que viram. Mesmo o que dizem ter visto deve ser examinado, a fim de determinar sua coerência interna.
Em benefício da seriedade da religião, importa sempre muito cuidado em admitir como verdadeiros os relatos sobre aparições. O que importa mesmo apreciar em todo o momento é Deus, do qual nossa existência e essência são modos de participação dele, o Infinito, que é todo o tempo e todo o lugar (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “As coisas não são sempre como [a]parecem” – Non semper ea sunt quae videntur (Fedro, Fabulae, IV, 2, 5).
3. “Não existe coisa mais próxima nem mais distante, mais oculta e mais visível do que Deus” (Frei Luis de Granada) (D C).


APARTAR. APARTADO. 0710.
(vd Aparte). (vd Independente).

1. Apartar significa separar entre si pessoas, ou coisas, geralmente por alguma razão especial. Por exemplo, apartam-se pessoas em conflito, como atletas em luta, equipes de jogadores em atrito, casais em desinteligência, nações incapazes de homogeneidade de ação.
Apartado se diz também de lugar muito distante daquele em que nos encontramos.
Em qualquer conflito entre pessoas, é melhor apartar, e ganhar tempo, do que conflitar indefinidamente (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Deve-se manter a infância distante da adulação”- Longe ab assentatione puerítia removenda est (dizer latino).

APARTE. À PARTE. 0715.
(vd Parte) (vd Separado).

1.No contexto geral do verbo partir, que produz as partes, se permite ver as partes em separado e do verbo partir se formam diversas maneiras de falar.
À parte significa em separado.
Aparte se diz de um comentário com que se inerrompe a quem discursa.

O aparte pode ser meramente contestatório, se o discurso afirma algo inceitável. Entretanto, se o discurso for bom, o aparte ainda o pode tornar melhor (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Amigos, amigos, negócios à parte” (E. P.).


APEGADO. APEGAR-SE. APEGO. [DESAPEGO.]. 0720.
(vd Ciúme).

1. O apego é um sentimento de posse excessivamente possessivo, similar ao ciúme, para com pessoas e coisas. Tem o apego, como seu contrário, o desapego, ou desprendimento.
Há um apego moderado, suavemente afetivo, para com as coisas e as pessoas do nosso convívio. Este apego pode estar na medida certa.
Quando se rompe o contato com tais coisas e pessoas, passa-se a ter saudade, sempre que delas nos lembramos.
O apego moderado a coisas e pessoas é rompido, este rompimento não nos molesta. Quando passados a outras circunstâncias, estas formam substitutivos. As crianças têm mais dificuldade para estas mudanças. Com cuidado, também as crianças serão capazes para as mesmas mudanças.
A riqueza pode gerar apego muito grande, em vista das vantagens que oferece. Cura-se o apego excessivo à riqueza, - não pela renúncia à mesma, passando à pobreza, - mas pelo seu reto uso. Quanto mais rico se é, mais perfeito se é. A riqueza nos faz mais próximos do riquíssimo Deus.
Entretando, o apego possessivo nos pode tornar infelizes se os respectivos objetos ou coisas desaparecem, sem uma adequada substituição. Isto ocorre quando pessoas se afastam de nós.
Um doloroso afastamento das pessoas a que nos achamos intimamente ligados ocorre por efeito da morte. Requer-se então um forte esforço de racionalidade, com vistas a nos desligar simplesmente, o quanto nos for necessário, dos entes queridos que nos cercavam. Isto se faz, centrando-nos em nós mesmos, por termos ao menos o principal, a nossa vida. Fazendo assim, voltaremos a ser felizes.
Ricos, ou pobres, - o desapego é uma condição para viver muito e bem (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “E essa história de apegar-se a pessoa às superstições, que tanto podem ser a dos altares quanto a das magias, é perda de tempo. Todos os altares e todas as magias estão dentro de nós. Que vexame dizer isso" (Luiz Carlos Prates, Diário Catarinense, Florianópolis, 11-5-2004).


APELIDAR. APELIDO. 0730.
(vd Nome).

1. Apelido é um outro nome dado a uma pessoa ou a uma coisa, por alguma razão concreta, que poderá ser de carinho, como também de rejeição, ou ainda por uma característica rara e evidente.
Se várias pessoas têm o mesmo nome próprio, os apelidos servem como elemento de diferenciação.
Em geral os apelidos se situam em uma certa linha de tolerância e passam a ser admitidos na comunidade.
Se um apelido não nos honra, por ter algum fundamento moral, nos deve servir de advertência. Quanto aos demais apelidos, ou alcunhas, não nos importunemos muito, ainda que não fiquemos de todo desatentos (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Os nomes dos estultos estão escritos por toda a parte”- Nómina stultorum [scribuntur] ubique locorum (Adágio latino, medieval).
3. “Não passa de injustiça chamar ao dicionário de Amansa Burro. Na verdade, o dicionário é um amigão, amigão dos ávidos de saber, dos ambiciosos da correção. O apelido, aí sim, lhe foi dado por algum burro” (Luiz Carlos Prates, Ibidem, 17-8-2002).

[APERFEIÇOAR] (vd Perfeito).


APERTAR. APERTADO. APERTO. 0740.

1. Apertar se diz do comprimir algo, fazendo com que deixe de estar frouxo, como em apertar um vestido, apertar um cinto, apertar um parafuso.
Como termo, apertar derivou do latim appectorare (= levar ao peito). Havendo perdido a significação literal, resta traduzir o termo apertar reduplicando-o por Apertar contra o peito.
Foi portanto, por simples generalização, que o termo primitivo passou a significar o aperto do que está frouxo, como de um vestido frouxo, de um cinto frouxo, de um parafuso frouxo. Nesta simples generalização se inclui o aperto de mão para cumprimentar, o aperto das pessoas dentro de um ônibus superlotado, o aperto do botão de uma camisa. Depois da universal aplicação do uso dos instrumentos elétricos, mais uma vez se generalizou o aperto do botão, agora para ligar a corrente.

Por analogia o apertar físico passou também a significar os problemas em geral que apertam a vida humana. Em tal contexto se diz por exemplo, apertar o cinto (= fazer economia), apertar o passo (= andar mais depressa). No mesmo contexto analógico, se comenta que os baixos salários e os baixos rendimemtos dos produtos industriais apertam a vida do cidadão. Por analogia similar se diz das dificuldades do trânsito com o aperto da chuva. Também acontece por analogia falar do aperto das provas do ensino escolar.
Qualquer seja o sentido dos apertos da vida, - em sentido próprio de aperto ou em sentido analógico, - é preciso levar ao peito a todos eles (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Em pé de pobre é que o sapato aperta” (C. C.).
3. “O Brasil é como um parafuso enferrujado. Deve ser apertado de meia em meia volta e com muita paciência. Se o aperto for de volta inteira, ele quebra” (Ernesto Geisel, Presidente da República (Jornal de S.C., 31-7-1973).
4. “Na dança as mãos têm liberdade para tocar, os olhos para contemplar, e os braços para apertar” (George Gascoigne, 1525-1577,The grif of Joy) (D C).
5. “Roupas apertadas impedem a circulação. Mas, quanto mais apertadas as roupas de uma mulher, maior circulação terá” (Desconhecido).


APLAUDIR. APLAUSO. 0755.

1. Aplaudir (do latim applaudere) é louvar ostensivamente a quem se desempenha em grau ótimo numa função, de interesse geral, seja de arte, de administração, de política, de religião e similares.
Difere o conceito de aplaudir do de aclamar, visto ser este de ordem mais institucional, porque inclui a aceitação da pessoa colocada como mandante. A aproximação se dá porque se usa aclamar em uma função a quem nela demonstra ser capaz de se desempenhar em grau ótimo.
O aplaudir deve ser responsável, porque a partir del surge facilmente a aclamação para um posto administrativo (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Enquanto silenciam, clamam”- Cum tacent, clamant [ou Dum tacent, clamant] (Cícero, Catilinária, 1,8, 12) (Oxímoro latino, segundo o qual o silêncio pode ser eloquente).
3. “O populacho vaia-me. Mas eu me aplaudo” (Horácio, Sátiras, l.1.v.66) (D. C.).
4. “Aquele que conheceu o aplauso, não sabe resignar-se à obscuridade; esta é a parte cruel de toda proeminência baseada no capricho alheio ou em atitudes físicas transitórias” (José Ingenieros, El hombre medíocre, 83) (D C).

APOCALIPSE. APOCALÍTICO. 0770.
(vd Advento). (vd Adventista).

1. Como termo, Apocalipse (com a partícula inicial Apó- em sentido privativo), é um descobrir do que está coberto, sobre os próximos acontecimentos, em que acreditavam judeus e cristãos. Neste sentido, o termo Apocalipse equivale à revelação.
Nos dois séculos antes de Cristo, como no século depois, o quadro geral dos judeus foi difícil. Usava-se então o termo Apocalipse como título para os livros que se ocupavam em revelar como seria a sucessão dos fatos, descritos então de forma notavelmente imaginosa. Aliás este foi o contexto um tanto contestaório erevolucionário em que operou Jesus, que todavia nada escreveu pessoalmente sobre o que pregou.
Os Apocalipses também se ocuparam do próximo fim do mundo, - que afinal não veio. Nem por isso desapareceram o judaísmo e o cristianismo.
Um dos livros da apocalítica se encontra integrado como texto final da Bíblia cristã, e que leva o nome de Apocalipse de João. Restaram outros igualmente denominados pelos nomes dos seus autores.
Não há senão que admirar a leitura dos Apocalipses, como gênero literário único da história (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Revelação [Apocalipse] de Jesus Cristo que Deus lhe concedeu para descobrir aos seus servos o que dentro em pouco deve acontecer, e o fez conhecer por intermédio de um anjo enviado ao seu servo João. O qual deu testemunho à palavra de Deus, e o testemunho de Jesus Cristo, em todas as coisas que viu. Bemaventurado quem lê e ouve as palavras desta profecia; e guarda as coisas que nela estão escritas; porque o tempo está próximo”(João, 1, 1-3).
3. "Este Jesus que dentre vós foi assumido ao Céu virá do modo como o vistes subir" (Atos, 1, 11).
4. "E verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens, e cada olho o verá" (Apocalipse de João, 1, 7).
5. "E será pregado este evangelho do reino por todo o mundo, para testemunho a todas as nações. Então virá o fim" (Mateus, 24, 14).
6. "Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, senão o Pai" (Mateus, 34, 36).


APOLO. APOLÍNEO. 0780.
(vd Deuses). (vd Belo).

1. Apolo é o nome de um Deus da mitologia grega, do qual se conservam influências na linguagem. Foi considerado Filho de Zeus e de Leto, com nascimento na Ilha de Delos. Foi acreditado como Deus das artes e da luz.
Diz-se rosto apolíneo, quando é belo e encanta. O belo também está no céu da fantasia (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Conhece-te a ti mesmo” – Nosce te ipsum (tradução latina, da inscrição grega do templo de Apolo em Delfos – gnóti seautôn, - e que se tornou máxima favorita de Sócrates).
3. “Nem sempre Apolo mantém retesado seu arco”- Neque semprer arcum tendit Apollo (Horácio, Odes, 2, 7, 9) (Dito no contexto de que a inspiração também gosta de ambiente descontraído).
4. “Aprendei a ser justos com meu exemplo e a não desprezar os deuses”- Díscite iustítiam móniti et non témnere divos (Virgílio, Eneida, 6, 620) (Palavras colocadas por Virgílio na boca de Flégias, quando castigado por haver incendiado o templo de Apolo em Delfos).

5. “Sem dinheiro, emudece o oráculo de Apolo”- Absque aere mutum est Apóllinis oráculum (Binder 4).


APOLOGIA. APOLOGETA. APOLOGÉTICA.0790.
(vd Polêmica).

1. Apologia é um discurso a favor de algo, incluindo sua defesa.
O método apologético, ou de defesa, supõe que o adversário tenha uma posição própria inversa, que por isso mesmo também é questionada. Quando isto acontece, as posições ficam sendo alternativas, como um ou... ou...
A apologética religiosa foi sempre praticada, em vista importância intrínseca da questão. Mas o termo apologética foi introduzido só no século 18, pelo inglês Joseph Butler, em seus Quinze Sermões (1726).
Nos tempos modernos deu-se mais ordenamento à discussão apologética da religião. A apologética surgiu mesmo como disciplina escolar, preparando aos indivíduos para a defesa crítica de sua religião, que passou a ser menos folclórica, menos tipo rebanho.
Ainda que a apologética seja uma defesa, ela tem de ser objetiva, não podendo ser uma apologética tendenciosa, favorecendo propositadamente uma ideologia, uma religião, um grupo político, uma raça, uma nação (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Quem ignora que a primeira lei da história é que nada de falso se diga, nada de verdadeiro se ouse omitir, nada no texto dê lugar à suspeita de favorecimento ou de rejeição? – Qui nescit primam esse históriae legem, ne quid falsi dícere áudeat? Deinde ne quid veri non áudeat? Ne quae suspício grátiae sit in scribendo? Ne quae simultatis? (Cícero, De oratore, 2, 15, 68).


APONTAR. PONTARIA. 0795.
1. Apontar é fazer ponta em algo. Como termo, apontar se formou pela anteposição do prefixo ao substantivo ponta.
Numa primeira acepção, apontar significa fazer ponta, cortando e aparando adequadamente. Este é o procedimento dito apontar o lapis.
Por analogia com o direccionamento da ponta em uma de suas direções se diz que o dedo aponta a direção, que a flexa aponta a direção, que o Sol apota no horizonte, que a espécie de sinais apontam para a respectiva doença, que o tipo de rastro deixado no chão aponta se se trata de ataque de animais ou de bandidos.
Em se tratando de pontaria, sempre cuidado em ter alvo certo e tiro certeiro (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Falar sem pensar é atirar sem apontar” (C. C.).
3. “Apontar estrela com o dedo faz nascer verruga” (Karla Santos, Crendices no Brasil, em Diário Catarinense, Florianópolis, 1-8-2003).

[APÓS] (vd Depois).


APOSENTADO. APOSENTAR. APOSENTADORIA. 0800.
(vd Emprego).

1. Como termo, aposentar é uma das muitas variantes de pousar, pouso, repousar, repouso, aposento, que se formaram a partir do latim pausare (= parar, cessar, pausar, dar pausa).
Finalmente, aposentadoria passou a significar, - além do fato mesmo de uma situação de recuo no ativismo humano, - ainda a instituição previdenciária que apoia adequadamente a quilometragem final do percurso da vida.
Antes da aposentadoria importa aprender a gostar do que se faz. Depois, continue-se a fazer algo, de onde derive prazer. Não basta existir para que ocorra o prazer, importando a ação, pelo menos como no falar, no comer, no ouvir, no andar, no passear, no fazer coisas úteis.
Cabe ainda ao portador da aposentadoria aumentar seus cuidados com a saúde. O que já fazia antes por sua saúde, agora deverá aumentar. Inclusive deverá cuidar de sua memória, praticando-a, não se deixando ficar um desinformado e indiferente ao que acontece.
Os aposentados, como os idosos em geral, poderão ser úteis ao meio em que vivem, especialmente pela sua sabedoria e experiência (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Ócio [lazer] com dignidade”- Ótium cum dignitate (Cícero, De oratore, 1, 1). (Dito dos idosos, e hoje também dos aposentados).
3. “Ninguém é tão idoso, que julge não viver mais um ano”- Nemo enim est tam senex, qui se annum non putet vivere (Cícero, De senectute, 7).
4.“Nos jovens reside a força [potência], a prudência porém nos velhos [nos idosos] -
Poténtia est in iunióribus, prudéntia autem in senióribus (Aristóteles, Política, 7, na versão latina).
5. “A melhor provisão de jornada [viático] na velhice é a erudição” - Óptimum est viáticum in senectute erudítio (Erasmo, in Apophtegma).
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6. “Não é outra a razão da acelerada caducidade de muitos aposentados, - ‘por falta de uso a inteligência enferruja’ (Eugene Ionesco). É que abandonaram os exercícios da mente e matêm a cabeça abafada com bonés de feltro. A inteligência definha” (Luiz Carlos Prates, Diário Catarinense, Florianópolis, 31-1-2003).
7. "Carreira paralela, hoje mais do que nunca, faz-se objeto da educação por parte de pais a cada vez mais garroteado. O sujeito não pode passar a vida toda na perigosa dependência de carteira assinada, tem também que voar com as próprias asas, isto é, ter uma atividade que lhe possibilite trabalhar sem patrão. Esse preparo se deve começar cedo na vida. Essa carreira paralela tem que ser achada já aos 20 anos. Depois será muito difícil. E é indispensável ter essa segunda atividade" (Luiz Carlos Prates, Ibidem, 14-5-2004).


APOSTA. APOSTAR. APOSTADOR. 0805.
(vd Jogar). (vd Aposto).

1. Aposta é um acordo entre vários opinadores, de pagamento dos perdedores da opinão dada em favor dos ganhadores.
Variam os objetos de aposta. Em loteria, o objeto de opinar é altamente aleatório, o de simples sorteio de números. Numa competição esportiva (como futebol, corrida), a opinião busca prever os ganhadores. Num adivinhar o tempo admosférico, a opinião se divide entre sol e chuva. No resultado eleitoral a opinião busca antever o resultado da contagem dos votos.
A aposta é uma espécie de jogo, enquanto ocupa as pessoas à maneira de diversão agradável. Aproxima-se a aposta, quando altamenate aleatória, ao contexto de jogo de azar.
Embora direito individual do cidadão, a aposta e demais jogos, poderão ser regulamentados por Lei, prevenindo aos cidadãos de eventuais desvios (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Porfiar, mas não apostar” (E. P.).
3. "O jogo nunca vem sozinho; ele é sempre acompanhado de criminalidade, droga, alcoolismo, prostituição e corrupção" (Antônio Ermírio de Moraes, Empresário, S. P., em A Notícia, Joinvile, 22-2-2004).


APOSTASIA. APÓSTATA. APOSTATAR. 0808.
(vd Crença) (vd Fé).

1. Apostasia é o abandono de uma crença religiosa. No passado, o ativismo religioso dava combate aos que deixavam o grupo, de sorte a dar ao termo apostasia uma conotação fortemente negativa entre os que continuavam fiéis.
Não se desmoralize aos que de direito mudam de opinião, porque isto é um negar um direito e torna a você pior que eles, até porque os que mudam de opinião podem estar evoluindo (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “O homem só vale pelo que sabe” (Francis Bacon, Praice of knowledge) (D C).
3. “O homem é um animal essencialmente infiel” (Júlio Dantas).

APÓSTOLO. APOSTOLADO. APOSTÓLICO. 0812.
(vd Cristianismo). (vd Missionário). (vd Pregador). (vd Proselitista).

1. Apóstolo (do grego Apóstolos = enviado) se diz ordinariamente de cada um dos 12 enviados de Jesus, a pregar sua doutrina. Por extensão, Apóstolo se diz também de quem se dedica amplamente de uma doutrina e causa social.
O missionário de hoje, enviado e mantido por uma espécie de central religiosa, se assemelha ao antigo Apóstolo.
Há que admirar a dedicação de toda as espécies de apóstolos, mesmo quando não concordantes entre si na doutrina e objetivos, mas ao menos no seu esforço (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Finalmente apareceu [Jesus] aos onze, estando eles assentados juntamente, e lançou-lhes em rosto a sua incredulidade e dureza de coração, por não haverem crido nos que o tinham visto já ressuscitado. E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda a criatura. Quem crer e for batizado, será salvo. Mas quem não crer será condenado” (Marcos, 16, 14-16).

3. “Combati o bom combate, terminei a corrida, conservei a fé”- Bonum certámen certavi, cursum consummavi, fidem servavi” (São Paulo Apóstolo, 2Tim., 4,7).


APRENDER. APRENDIZADO. APRENDIZAGEM. APRENDIZ. 0820. . (vd Ensinar). (vd Estudar). (vd Memória). (vd Aluno). (vd Educar).

1. Aprender é alcançar o exercício do conhecer, agir, fazer. Quem aprende é a causa primeira e principal. Do aprendiz, portanto, depende fundamentalmente o sucesso.

a) Os insucedidos facilmente atribuem seus fracassos aos outros. Importa aos insucedidos que também aprendam isto, de que eles mesmos são sempre a causa principal do sucesso e eventual insucesso. Se ainda não chegaram lá, poderão tentar de novo. Em vez de, com mentiras, culparem as escolas e o modelo liberal da sociedade, culpem primeiramente suas precipitações pessoais, indisciplina e comodidades.
Todavia, embora secundariamente, o aprendizado muito depende do auxílio dos pais, dos mestres, do ambiente social. Importa destacar a importância dos outros, no aprendizado de cada um. Destina-se a sociedade política exatamente para isto, - defender o direito individual de todos os indivíduos e estimular ao progresso em geral. Nisto tudo, vai o direito do aprendizado coletivamente promovido, ainda que sem utopias.

b) Depende o aprendizado ainda do modo como se faz metodologicamente. Ensina-se com eficácia, através da prática e ainda despertando o interesse de quem se instrui.
Aprendizado significativo é aquele, segundo o interesse do aluno. Embora todos os conhecimentos interessem às pessoas, há os que as interessam mais. Os conhecimentos significativos são mais capazes de funcionar como motivos de aprendizado, e assim eles devem ser escolhidos pelos didatas e pedagogos.
Já na educação teórica acontece a possibilidade da aprendizagem significativa; mas esta ocorre mais frequentemente na educação prática. O conhecimento prévio teórico é mais abstrato e cansativo. A prática ocupa a pessoa toda, e por isso ela é capaz de lhe ser mais agradável do que a teoria.
A apresentação de um objeto de estudo em forma de problema pode despertar o interesse e criar o aprendizado significativo.
Embora seja algo dificilmente solucionável, a natureza do problema contém a necessidade de solução, e é por isso que os homens lógicos tentam solucioná-lo. Quando se consegue colocar o aluno diante dos problemas, ele também sente o ímpeto para solucioná-los.
Certamente, todo aluno tem problemas individuais e sociais, que podem ser pesquisados visando a sua educação.
O pensamento crítico apresenta os temas com duas ou mais alternativas de solução. Logo desperta o interesse por uma delas.
Ensinar pela apresentação de problemas e pelo pensamento crítico é usar a aprendizagem significativa, a mais eficiente. E que finalmente se torna uma educação prática. Fica a educação prática sendo um ajuste da educação teórica, pela qual o todo se torna a educação mais eficaz (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Não cesses de aprender”- Ne discere cesses (Catão, 3, 1).
3. “Não te envergonhes de querer aprender o que não sabes; é digno de louvor saber algo e é uma falta não querer saber nada”- Ne púdeat quae nescíeris te velle doceri: scire áliquid laus est, culpa est nihil díscere velle (Catão 4, 29).
4. “Aprender com os males alheios”- Alienis malis díscere (Dizer latino).
5. “Aprende ou desocupa o lugar”- Disce aut discede (Dizer latino).
6. “Ensinando aprendemos [Os homens”, enquanto ensinam, aprendem]”- Docendo díscimus. [Homines, dum docentem, discunt] (Sêneca, Epístulae, 7, 8).
7. “A correção é parte muito útil para o ensino e a aprendizagem”- Emendátio pars studiorum longe utilíssima (Quintiliano, De institutione oratória, 10, 4, 1).
8. “Errando, se aprende”- Errando discitur (Dizer latino).
Variante: “Errando é que se aprende” (C. C.).
9. “É lícito aprender inclusive com o inimigo”- Fas est et ab hoste doceri (Ovídio, Metamorphóseon, 4, 428).
10. “A repetição é a mãe dos estudos” - Repetitio est mater studiorum (Dizer latino).
11. “A inteligência humana se aprimora mediante o estudo”- Hóminis mens discendo álitur (Cícero, De officiis, 1, 30, 105).
13. “Tarde esquecemos aquilo que com esforço e longo estudo aprendemos” –Dediscit ánimus sero quod dídicit diu (Sêneca, Tróades, 633).
14. “Não aprendemos para a vida, mas para a escola”- Non vitae, sed scholae díscimus” (Sêneca, Epístulae, 106, numa advertência crítica).
Similar: “Não aprendemos para a escola, mas para a vida”- Non scholae sed vitae discimus (dizer latino) (em Sêneca, em Epistola 106, 12, tem a forma irônica invertida, criticando o imediatismo pedagógico dos mestres do seu tempo.
15. “Em nenhuma idade é tarde para aprender [Nunca é tarde para aprender]” – Nulla aetas ad discendum sera (Dizer latino).
16. “O que importa não é estudar, mas sim ter estudado”- Non oportet studere, sed studuisse (dizer latino, no contexto de que a ciência não é fruto de um esforço momentâneo, mas de estudo perseverante).
17. “Nunca é tarde para aprender [Em nenhuma idade é tarde para aprender]” –Nulla aetas ad discendum sera (Dizer latino).
18. “Não há ciência alguma que não se aprenda a partir de erros”- Nulla est disciplina, quae non peccando discatur (Dizer latino, enquadrado na teoria linguístico-pedagógica da aprendizagem através de ensaio - erro e resposta).
19. “Os homens, enquanto ensinam, aprendem”- Homines, dum docent, discunt (Sêneca, Epístulae, 7).
20. "Aprender é como remar contra a corrente; sempre que se pára, anda-se para trás" (Confúcio, 551-479 a. C., pensadsor chinês).
21. "Aquele que aprende mas não pensa está perdido; aquele que pensa mas não aprende está em perigo" (Confúcio).
22. "Ninguém é bom por acaso; a virtude deve ser aprendida" (Sêneca). (Vaet).
23. “Não se aprende bem, senão pela experiência” (Francis Bacon) (D C).
24. "Aquilo que deve ser feito, deve ser aprendido pela prática. Os artesãos não atrapalham seus alunos com teorias, mas no início eles os colocam em trabalhos práticos; eles aprendem a forjar, forjando; entalhar, entalhando; pintar, pintando, e dançar, dançando. Nas escolas, deixe portanto que os alunos aprendam a escrever, escrevendo; a falar, falando; a cantar, cantando, e a pensar, pensando" (Grande Didática, 343).
25. “Quanto mais se vive, mais se aprende” (C. C.).
Equivalente: “Aprende-se até morrer” (E. P.).
26. “Desde o berço até o túmulo, o homem está aprendendo a fazer o que ele vê os outros fazer” (Thomas Jefferson, em O pensamento vivo de Jefferson, p. 123).
27. “Nunca te julgues velho demais para aprender” (E. P.).
28. “Aprende-se imitando” (Aristóteles).
29. “As pessoas da sociedade supõem saber tudo sem nada ter aprendido” (Molière, Les precieuses ridicules) (D C).
30. “Burro velho não aprende” (C. C.).
31. “Ensinar é aprender duas vezes” (Joseph Joubert, Pensées, 68) (D C).
32. “Aprende e saberás” (E. P.).
33. “Aprende, e serás mestre” (E. P.).

[APRESSAR] (vd Pressa).


APTIDÃO. APTO. INAPTIDÃO. INÉPCIA. 0830.
(vd Preparado). (vd Adaptar).

1. Aptidão se diz do que alguém é capaz, suficientemente hábil e idôneo. Também os animais, plantas e objetos em geral apresentam algum aptidão.
Distinga-se entre aptidão e adaptar. É o adaptar um reajustamento eventual da aptidão geral.
Todos têm aptidões, ainda que não as mesmas. Cada qual aproveite suas aptidões e siga em frente, inclusive com adaptações à sua eventual profissão (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Quem não está preparado hoje, nem amanhã o será”- Qui non est hódie, cras minus aptus erit (dizer latino).


AR. ARES. AREJAR. 0835.
(vd Aéreo).

1. Ar se diz ordinariamente da admosfera do globo terrestre, nele ocorrendo como gás principal o oxigênio.
Sem o oxigênio do ar não se vive, asfixiando-se qualquer pessoa, inclusive animais e plantas.
Varia o ar, conforme as misturas que se fizerem, desde as mais inofensivas até ás mais venenosas.
O crescimento numérico da população humana e seus novos procedimentos técnicos podem interferir na qualidade do ar e do clima em geral.
Importa que a sabedoria humana se concentre em melhorar o clima, desde o seu fundamento, o ar (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “O ar natal é medicina universal”- Aer natalis, medicina universalis (Aforismo médico).
3. “Quem vai ao vento, perde o assento” (E. P.).
Equivalente: “Quem vai ao ar, perde o lugar” (E. P.).
4. “A fera num pulo enorme pareceu um trapo no ar...”.


ARCO. ARCADA. 0840.
(vd Cículo). (vd. Curva). (vd Linha).

1. O arco tem a forma curva, à maneira de parte de um círculo. Presta-se o arco na arquitetura como expediente de sustentação entre vãos maiores. Sem o arco, a arquitetura grega da antiguidade se caracterizou pela multiplidade das colunas.
Historicamente a arquitetura de arcos se desenvolveu com os romanos, o que facilitou a construção de pontes, aquedutos, além da cobertura de espaços maiores abobadados. Dali a expressão arco romano, estilo romano.
O arco gótico, em duas secções, gerou novas possibilidades de construção e estilo.
Modernamente, a invenção do Cimento Portland, combinado com o ferro, revolucionou mais uma vez a arquitetura, com novas dimensões de suas vigas mais longas e arcos imensos.
A civilização muito deve às vigas e arcos de sustentação. Assim não fosse, o mundo já não seria viável aos seres humanos. Não só de pão vive o homem, mas também de vigas e arcos (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2.“ Um monte de pedras deixa de ser um monte de pedras quando alguém o contempla e imagina uma catedral” (Antoine de Saint-Éxupéry, 1900-1904, escritor francês) ( em Diár. Catarinense,2-7-2002).
3. “Nem sempre Apolo mantém retesado seu arco”- Neque semprer arcum tendit Apollo (Horácio, Odes, 2, 7, 9) (Dito no contexto de que a inspiração também gosta de ambiente descontraído).

ARCO-IRIS. 0841.

1. O arco-íris é um fenômeno admosférico de várias cores, em momentos raros de sol e chuva, quando eventualmente raios solares, incidindo sobre gotículas de água, se desdobram segundo seus comprimentos de onda.
Efetivamente, o fenômeno do arco iris é o mesmo que ocorre no espectro, cujas cores ele contém. Dentre as sete cores do prisma três são as primárias (vermelho, amarelo, azul). As demais resultam da sobreposição das primárias.
O fenômeno do arco-iris sempre despertou a curiosidade e tem seus reflexos na mitologia e na linguagem.
Na mitologia do velho Egito, depois difundida na antiguidade grega e romana Isis (Ise) era mensageira da deusa Juno (da maternidade). Seu caminho era o vistoso arco-iris. Diferentemente os demais mensageiros celestes, - os anjos alados, - se supunha virem voando.
No texto da Bíblia também se faz referência ao arco-iris, sendo dado como aliança entre Deus e a humanidade após ocorrido o Dilúvio (Gênesis 9, 19).
Nós outros, ainda que interpretando aos fenômenos curiosos da natureza com menor ingenuidade que os antigos, continuemos a admirá-los, inclusive ao arco-iris (Evaldo Pauli, Ad hoc),

3. “Canção de servir:
A estrada
se deita debaixo dos pés,
para servir;
e o arco-iris
faz sobre ela um arco de triunfo no céu” (Tarcísio Marchiori, Vergot, pag. 75, Florianópolis, 1964).
4. “O voto é o temporal, que varre as iniquidades e os desvios de conduta, derruba os vícios e os privilégios para realizarem com o arco-íris dos novos tempos, o festival da esperança” (Luiz Henrique da Silveira, Governador de Santa Catarina, reeleito em 2006).


ÁRDUO. ARDOROSO. 0850.
(vd Difícil). (vd Sentimento).

1. Arduo é aquilo em que se gasta muita energia para levar a efeito.
Como sentimento, árduo é um gênero. Mas, discute-se quando se trata de classificar os sentimentos.
Numa classificação bastante aceita, árduo, como se adiantou, é um gênero de sentimentos, entre os vários gêneros de sentimentos, quando classificados do ponto de vista da forma.
Redividindo, o ponto de vista do árduo, ocorrem no gênero do árduo dois subgrupos.
O primeiro subgrupo é o árduo simplesmente e com ajuste, tendo as seguintes modalidades de sentimentos:
- a esperança, o árduo com ajuste, considerada a faculdade simplesmente;
- o temor, a marcha com o árduo e o ajuste.

O segundo subgrupo, o árduo, em desajuste com o objeto, resulta em:
- o desespero, no instante da apetição simplesmente;
- a audácia, quando caminha embora lutando com o desajuste;
- a ira, no momento máximo, em contato com o objeto conquistado e em desajuste.

Por ênfase, se diz árduo sobretudo para o sentimento que resulta de um maior esforço.
Considerando o esforço que a vida requer, importa que os viventes sejam efetivamente ardorosos. E o sejam com todas as modalidades, com esperança e temor, com e até com desespero, audácia e ira (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Nada é árduo [difícil] para os mortais” - Nihil mortálibus árduum est (Horácio, Odes, 1, 3, 37).
3. “Que é a morte, afinal, senão um agradável sono depois de um árduo e longo dia?” (Sócrates) (S. F.).
4. “Nada é árduo [difícil] para os mortais” - Nihil mortálibus árduum est (Horácio, Odes, 1, 3, 37).
5. “Nos casos árduos e dificultosos, devem andar unidos a ponderação e a operosidade” (Miguel de Cervantes, Perciles y Sigismundo, liv. 1-o) (D C).

ARGENTINA. ARGENTINO. 0855.

1. Argentina é um país da América do Sul, destacado pela grandeza territorial e população, desenvolvimento econômico e cultural.
Pelo nome, Argentina lembra a prata (argentum, no latim), como o do Brasil lembra o valioso Pau Brasil.
Fala a Argentina o Espanhol, enquanto o Brasil o Português. Dali nasceu o Por
tunhol.
A interação entre argentinos e Brasileiros se dá amplamente em virtude da proximidade, bem como pelo turismo de veraneio nos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.
Hermanos e Irmãos... (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. ==


ARGUMENTAR. ARGUMENTO. ARGUMENTADOR. 0860.
(vd Provar). (vd Silogismo).

1. Argumentar é provar, desdobrando a operação da prova.
Como termo, argumentar pertence ao grupo de palavras que têm na sua origem o radical indo-euopeu ARG, que expressa o brilho da clareza, a brancura. Tal é o contexto das palavras como argumento, argumentar, arguto, argúcia, argênteo (= brilhante), argila (= terra brilhante).
Também o pensar é uma espécie de luz interior. Com base nesta analogia, o termo argumentar significa um desdobramento maior das operações de iluminação interior da mente.

Saibamos argumentar. Isto se aprende na disciplina inicial da Filosofia, a Lógica. Trata a Lógica sistematicamente das operações mentais, mostrando como se desdobra o pensar em três operações fundamentais, - o conceito, o juízo, o raciocínio. Opera o argumento sobretudo no plano do raciocínio, mas sem desatender às conexões com os conceitos e os juízos. O bom argumentador é portanto um bom lógico (Evaldo Pauli, Ad hoc

2. “Argumento baculino [do bastão]” – Argumentum baculinum (Dizer latino, no contexto de quem usa a força, em vez de razões, para obrigar).
1. “A injúria é o argumento dos que não têm razão” (Rousseau) (S. F.).
4. “Usar, mas não abusar” - Uti, non abuti (Conselho latino de moderação).
5. “O abuso de uma coisa não é argumento contra o uso da mesma”- Ab abusu ad usum non valet consequéntia (Aforismo jurídico latino).

+ + +
6. “Frase de pé de jornal: ‘Os loucos abrem os caminhos que mais tarde serão percorridos pelos sábios’. Verdade! Sem loucuras a medicina estaria ainda de cócoras, e assim todas as artes e ciências. É preciso o louco para quebrar paradigmas e conceitos ‘acabados’. Nas religiões então nem se fala. Enlouqueça um pouco!” (Luiz Carlos Prates, em Diário Catarinense, Florianópolis, 11-7-2002).
7. “A ciência e o tempo tiram os véus. E também desmontam verdades religiosas” (Luiz Carlos Prates, Ibidem, 18-7-2002).


ARISTOCRACIA. ARISTOCRATA. ARISTOCRÁTICO. 0865.
(vd Democracia.). (vd Nobreza). (vd Feudalismo). (vd Plutocracia).

1. Com base no termo grego áristos (= o melhor), aristocracia (aristocratía) quer significar o governo dos melhores.
O problema está em determinar quem são os melhores, - se por nascimento, como supunham os ditos nobres, ou se por uma eleição a partir de todos, como se quer no sistema democrático.
Numa e noutra forma de governo ocorerem ainda as formas intermediárias.
Há que optar e lutar pela melhor forma de Governo (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Estas classes que levam o corpo em automóveis e o espírito em caminhões” (Miguel de Unamuno, conferência no teatro de Zarzuela, de Madrid, 252-1906). (D C).
3. “Concordo convosco em que há uma aristocracia natural entre os homens. As bases dela são as virtudes e o talento” (Thomas Jefferson, em O pensamento vivo de Jefferson, 80) (D C).
4. “Em todos os países, em todas as idades, os aristocratas sempre perseguiram os amigos do povo” (Mirabeau, Discurso em resposta ao clero e à nobreza, na Câmara, jan., 1789) (D C).
5. “Democracia significa governo pelos sem educação, enquanto que a aristocracia significa governo pelos mal educados” (C. K. Chesterton, N. York Times, 1-2-1931).
6. “A democracia pode ser turbulenta, mas tem entranhas; em contraposição, a aristocracia é fria e não perdoa nunca” (Atribuído a Napoleão Bonaparte) (D C).


ARISTÓTELES. ARISTOTÉLICO. ARISTOTELISMO. 0868.
(vd Sócrates) (vd Platão), (vd Escolástica).

1. Aristóteles, juntamente com Platão e Sócrates, figuram entre os filósofos mais significativos da antiguidade grega. Dentre os três foi o mais moderado e produtivo.
Fundou o Liceu, em 334 a. C., paralelo à Academia, esta criada já em 387 a. C., por Platão.
A linguagem primária inicial das religiões do Ocidente foi particularmente beneficiada pelas filosofias geradas por Platão e Aristóteles, bem como pelos seus grandes discípulos (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. Dizeres de Aristóteles, reunidos já na antiguidade por Diógenes Laércio, livro V, 17-21:

“I, 17. Contam-se dele [Aristóteles] muitas sentenças notáveis. Havendo-lhe alguém perguntado que ganhava o mentiroso, respondeu – ‘Não ser acreditado, quando diz a verdade’.
Como alguém o reprovasse, por haver dado esmola a um mau homem, replicou – ‘Tenho paixão do homem, e não do caráter’.
Dizia frequentemente a seus amigos e aos numerosos visitantes, que se acercavam ao arredor dele, em qualquer lugar que se encontrasse, que ‘a vista percebe a luz mediante o ar e a alma por meio das ciências’.
Também com frequência censurava aos atenienses, que havendo eles descoberto o trigo e as leis, utilizavam o trigo, porém não as leis’.

I,18. Dizia – ‘As raízes da instrução são amargas, porém seus frutos são doces’.
“Havendo lhe sido perguntado, que é o que mais rapidamente envelhece, respondeu, - ‘O agradecimento’, e à questão, que é a esperança, - ‘O sonho de um homem acordado’.
Havendo-lhe Diógenes [o Cínico] apresentado um figo, pensou que, se o recusasse, o cínico prepararia rapidamente uma frase burlesca, e optou por dizer ‘Diógenes perdeu ao mesmo tempo seu figo e sua frase’. Havendo-lhe dado Diógenes outro figo, Aristóteles o tomou, o levantou ao ar como os meninos, e exclamou – Oh, grande Diógenes, e o devolveu.
Dizia que a instrução supõe três coisas: um natural feliz, a educação e o exercício.

I,19. Informado de que alguém falara mal dele, contentou-se em dizer, - ‘Que me dê latidos, se quiser, em minha ausência’.
Dizia que ‘a beleza é a melhor de todas as recomendações’. Outros dizem que esta definição é de Diógenes, e que Aristóteles a definia’, - ‘a vantagem de um nobre exterior’. Sócrates a havia definido, - ‘uma tirania de pouca duração’. Platão, - ‘o privilégio da natureza’. Teofrasto, - ‘um engano mudo’. Teócrito, - ‘um mal reluzente’. Carnéades, - ‘uma realeza sem custódia”.
À pergunta, que diferença existia entre um instruído e um ignorante? Respondeu, - ‘a mesma entre um vivo e um morto’.
Dizia, - ‘A instrução é ornato na prosperidade e refúgio na adversidade’.
‘Os pais que instruem a seus filhos são mais estimados que os que somente lhes deram a vida; a estes se lhes deve apenas a vida; aos outros se lhes deve também a vantagem de viver bem’.

I, 20. Um homem se vangloriava diante dele, ser nascido em uma grande cidade. Disse, - ‘Isto não é digno de ser tomado em consideração; é preciso ver se é digno de uma pátria ilustre”.
Perguntado por alguém, que é um amigo, respondeu, - ‘Uma mesma alma em dois corpos’.
Dizia a respeito dos homens, que ‘uns economizam como se devessem viver eternamente, enquanto outros dilapidam seus bens como se não devessem viver mais que um instante’.
Perguntado por que estimava estar muito tempo em companhia da beleza, respondeu, - ‘Este é um questionamento de cego’.
Inquirido certa vez, sobre que vantagens lhe havia proporcionado a filosofia, respondeu, - ‘Eu devo fazer sem medo, aquilo que os outros fazem senão por medo da lei’.
À pergunta que deviam fazer os alunos, para obter proveito, replicou, - ‘Procurar alcançar aos que estão adiante, sem esperar aos que estão atrás’.

I, 21. Depois de o haver injuriado um charlatão, este ainda lhe falou, - ‘Afligi-lhe bastante agora? – respondeu, - ‘Não te tenho escutado’.
Reprovavam-lhe haver favorecido a um homem pouco estimado (há também outra versão), e ele disse, - ‘Não é ao homem a quem tenho tido ante meus olhos, mas a humanidade’.
Alguém lhe perguntou como se devia tratar aos amigos, e ele disse, - ‘como queríamos que eles nos tratassem a nós mesmos’.
Eis a definição que deu da justiça, - ‘Uma virtude que consiste em dar a cada um segundo seus merecimentos’. E dizia que a instrução é a melhor provisão para a velhice’.
Conta Favorino, no segundo livro dos seus Comentários, que exclamava frequentemente, - ‘Aqueles que têm amigos, podem não ter verdadeiro amigo’. Esta máxima se encontra efetivamente, no livro 7-o. de sua Ética.
Tais são os dizeres que se lhe atribuem” (Diógenes Laércio, Vidas V, 17-21).

3. “O pobre Aristóteles é forçado a andar a pé”- Pauper Aristóteles cógitur ire pedes (Aforismo latino medieval, significando que a renda que a filosofa gera não basta para pagar a carruagem).
4. “A natureza nada faz debalde, não falta no necessário nem excede no supérfluo” - Natura nihil facit frustra, nec déficit in necessáriis, nec abundat in supérfluis (Aristóteles, De ánima, 3, 45, em versão latina).
5.“Por natureza todos os homens desejam naturalmente saber”- Omnes hóminesnatura scire desíderant (Aristóteles, Metafísica, em tradução latina).
6. “A democracia teve sua origem na crença de que, sendo os homens iguais sob certo aspecto, o são em tudo” (Aristóteles, Política, c.I) (D C).
7. “Se ajudares alguém com algum benefício não solicitado, não o deves divulgar” (Aristóteles, Retórica, Liv. 29, c. 4) (D. C.).
11. “A natureza não faz saltos” - Natura non facit saltus (Afirmação de Aristóteles, na forma latina como foi divulgada por Leibniz, Novos Ensaios, 4, 16, e por Lineus, Philosophia botánica, 77).

ARITMÉTICA. ARITMÉTICO. 0875.
(vd Número) (vd Matemática).

1. Como termo, Aritmética deriva do grego Arithmós (= número). Tendo a ciência da matemática por objeto o estudo das medidas e grandezas, cabe à aritmética a parte referente aos números inteiros, em especial suas propriedades elementares e as operações fundamentais de somar (adição), diminuir (subtração), multiplicação, divisão.
Na Aritmética os números se apresentam com símbolos próprios, que foram aperfeiçoados na forma do assim chamado sistema decimal.
A Aritmética se distingue da álgebra que já lança mão de símbolos como letras, e da geometria, que põe destaque nas formas e figuras.
Aprenda-se a aritmética o mais cedo possível, não somente pela sua utilidade, como ainda porque versatiliza a mente (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “A gramática ensina a falar, a dialética a usar as palavras, a retórica a colorí-las, a música a cantar, a aritmética a fazer cálculos, a geometria a medir, a astronomia a estudar os astros” – Grammática lóquitur, dialética verba docet, rhetórica verba colorat, música canit, aritmética numerat, geometria pónderat, astronómia colit astra (referência medieval latina às ciências do Trívio e Quadrívio escolar).
2. O número 7 é o número da mentira.
3. “Os deuses se comprazem com o número ímpar” – Número Deus ímpari gaudet (Virgílio, Écloga, 8, 75).
4. “Do peso e do número [se extrai] a verdade”- Ex póndere et número véritas (Aforismo latino da ciência, enfatizando a medida estatística).


ARMA. ARMAS. ARMAR. ARMAMENTO. 0880.
(vd Armadilha). (vd Defesa). (Exército). (vd Tiro).

1. Arma é um arranjo com vistas ao ataque, ou à defesa. O termo conserva o sentido remoto da raiz AR- sugerindo um arranjo, como efetivamente acontece com qualquer arma.
Deve-se à agressividade dos seres vivos em geral a necessidade de termos armas de defesa, quer as usando individualmente, quer contribuindo para o sofisticado sistema de defesa da sociedade em geral. A educação preventiva muito pode, mas não deu ainda solução total ao problema da segurança.
Importa contribuir para a defesa geral pelas armas, ainda que este contributo nos aflija (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Entre as armas, emudecem as leis” [“Calam-se as leis entre as armas”- Inter arma silent leges [Silent leges inter arma] (Cícero, Pro Milone, 4, 10). (Duas versões de R. B.).
3. “O direito está nas armas [na força]” – Jus est in armis (Sêneca, Hércules furens, 2, 1, 48 – Conceito equivocado de Direito).
4. “Ao sábio é de bom alvitre experimentar todas as soluções antes de apelar para as armas”- Omnia prius experiri quam armis sapiente decet (Terêncio, Eunuchus, 789).
5. “O furor fornece armas”- Furor arma ministrat (Virgílio, Eneida, 1, 150).
6. “Preferiu as armas à toga, mas, armado, amou a paz”- Praetulit arma togae, sed pacem armatus amavit (Lucano, Pharsália, 9, 199, mencionando o elogio de Catão de Útica a Pompeu).
7. “Armas se rebatem [se rechaçam] com armas”- Arma armis propulsantur (Dizer latino).
8. “O direito não impede tomar armas contra os que estão armados”- Arma in armatos súmere iura sinunt (Ovídio, Ars amatória, 3, 492).


ARMADILHA. 0882.
(vd Atração).

1. Armadilha pode significar disfarce, ardil, expediente enganoso, isca, trapaça, insídia, para dominar seres vivos, quer homens, quer animais.
Uma atração pode ser honestamente aceita. Há todavia atrações maliciosamente criadas, com vistas ao mal.
Devem os humanos ser suficientemente cuidadosos e prudentes para não cair nas armadilhas dos mal intencionados (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Quem teme todas as insídias [emboscadas], não cai em nenhuma”- Qui omnes insídias timet, in nullas íncidit (Publílio Siro, Sententiae).
3. “As aves evitam as armadilhas muito vistosas”- Quae nimis apparente rétia vitat avis (Ovídio, Remédia amoris, 516).
4. "Macaco velho não mete mão em cambuca" (E. P.).
Pássaro velho não entra na gaiola" (E. P.).
5. “Raposa de muitos anos [velha] não se captura com laço [armadilha]” – Annosa vulpes non cápitur láqueo (Provérbio latino).

[AROMA]. (vd Perfume).


ARRANJAR. ARRANJ0. 0888.
(vd Arte).

1. Arranjo pertence à família de palavras, cuja raiz indo-européia ar- com o sentido básico de juntar, tendo em vista ordenar para alguma finalidade. A partir dali se desenvolveram, por vias as mais diversas, palavras como: arranjo, arma, arte, arteiro, artrite, articulação, armário, harmonia, aritmética, aristocrático, rito, ritual, etc.
Efetivamente, muitas coisas se fazem a partir de meros arranjos de elementos que são postos em composição, continuando no todo maior as partes algum tanto visíveis. Um vaso com flores mantém uma visível distinção entre o vaso e as flores. Aliás as coisas da natureza em geral são composições, mas que não se percebem tanto quanto os meros arranjos pelo ser humano. A água, por exemplo, é uma composição natural de moléculas
de hidrogêncio e oxigênio, que, entretanto, a nossa vista não conegue notar. Ter-se-ia que aumentar uma gota de água ao tamanho do globo terrestre para tornar visíveis as moléculas com os respectivos componentes.
Do ponto de vista estético, os arranjos costumam ser estéticos, exatamente porque as partes são visíveis. Mas nos arranjos acontecem as proporções que combinam melhor e são por isso de maior esteticidade.
Os arranjos também se fazem no plano social e político. Mas então eles já não se apresentam recomendáveis, senão quando provisoriamente solucionam problemas que, por outra forma, não se conseguem no momento alcançar.
Em tudo porém, qualquer seja o grau de qualidade dos arranjos, todos os graus são bons, ainda que o grau máximo seja o melhor (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Trabalhadores e patrões fizeram um arranjo para terminar a crise” (do noticiário comum em jornais).


ARREBENTAR. REBENTAR. REBENTO. 0895.
(vd Explodir).

1. Arrebentar é um executar com alguma violência, ou estourando e explodindo em partes, ou abrindo forçando, por exemplo uma porta. Quando a ação ocorre de ambas as partes, o arrebentar ocorre do lado mais fraco. Também se diz rebento, de novos brotos abertos no caule de uma planta.
A origem do termo arrebentar é obscura, talvez do latim vulgar repente.
A realidade é esta, a de que em situações especiais importa arrebentar, estourando, explodindo, forçando (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “A corda sempre arrebenta pelo lado mais fraco” (C. C.).
3. “Os homens são mais visuais, basta-lhes ver uma cena, uma foto, um filme e pronto, estão armados para o combate. Já as mulheres são um tanto diferentes, mais auditivas, gostam de ouvir sons menos agressivos. São também mais cinestésicas, um toque, a mão correndo amorosamente sobre a pele pode fazê-las explodir o Vesúvio dos melhores desejos. Enfim, diferenças” (Luiz Carlos Prates, Ibidem, 25-1-2003).


ARREPENDER-SE. ARREPENDIDO. ARREPENDIMENTO. [CONTRITO.]. 0900.
(vd Penitência). (Salvação).

1. Arrepender-se é um voltar atrás em uma decisão, seja de uma idéia, seja de uma decisão, seja de um ato exercido.
À possibilidade de um erro, que dá ocasião ao arrependimento, é o fato mesmo da complexidade das muitas ações a que é levado o ser humano.
Pensa-se, mas pensar é complexo, podendo ocasionar o erro, dando por isso lugar ao arrependimento.
Decide a vontade. Todavia podem todos os motivos não ser suficientemente avaliados, e novamente se dá vez ao arrependimento.
Também o exercício de um ato, por sua vez, ocorre em desacordo ao que foi pensado e decidido, motivando uma terceira espécie de arrependimento.
Assim, vai sendo a vida das pessoas um sequencial de três gêneros de erros, a que importam os respectivoa arrependimentos. Se estes arrependimentos não forem exercidos e com uma reformulação, haverá uma perda de tempo.
Por que não se arrepender? É do bom caráter arrepender-se de todo o erro e passar ao caminho melhor (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Evita iniciar algo de que possa se arrepender”- Cave quicquam incípias quod paeníteas póstea (Publílio Siro, Senténtiae).
3. “O arrependimento precede a virtude, como a aurora precede o dia” (J. B. Lacordaire, Pensées) (D C).
4. “Quem se arrepende de haver pecado, é quase inocente” (L. A. Sêneca, Agamenon, 2-a., 243) (D C).
5. “Amargos frutos colhe, quem tarde se arrepende” (Silva Alvarenga” (D C).
6. “É necessário envergonhar-se de cometer uma falta, mas não de repará-la”.
7. “Casarás, amansarás e te arrependerás” (C. C.).
+ + +
8. “A pior frase que um ser humano pode fazer é esta: Ah, se eu pudesse voltar atrás! Ou esta outra sua gêmea: Ah, como me arrependo do que fiz...” (Luiz Carlos Prates, Diário Catarinense, Florianópolis, 10-2-2003).


ARROGÂNCIA. ARROGANTE. 0910.
(vd Orgulho).

1. A arrogância é um sentimento de superioridade, com manifestações de empáfia, petulâcia e soberba, falando o que não deve.
O arrogante se encontra em um estado de excesso de auto-estima.
Deve o arrogante cuidar de pelo menos não extravasar suas manifestações, em indiscreções.
Procure o arrogante ganhar o equilíbrio do que ele tem de bom, a auto-estima (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “A avareza e a arrogância são os vícios principais dos poderosos” - Avarítia et arrogántia praecípua validiorum vítia (Tácito, História, 1, u1, 7).
+ + +
3. “Ah, eu faço, eu aconteço, eu sou isso, eu sou aquilo... Até dou de barato que você não fale assim, mas é perigosamente possível, sem se dar conta, aja assim. É possível; que entre na empresa onde trabalha, batendo a sola do sapato, pensando que é alguma coisa. Não acredito que você pense assim, salvo se for o dono da empresa. Mas o diabo é que o dono não age assim. Pelo contrário, os donos costumam ser discretos, podem ser durões, mas não entram derrubando tudo” (Luiz Carlos Prates, Diário Catarinense, Florianópolis, 4-9-2002).
4. “A arrogância usa botas com biqueiras. É moça frívola. Por onde ela anda, ruge, brame, troa. Todos a ouvem. A arrogância faz parte da orquestra dos grandes ruídos. Nada com ela é discreto” (Luiz Carlos Prates, Ibidem, 4-3-2003).


ARTE. ARTES. ARTISTA. 0915.
(vd Arranjo). (vd Artesanato). (vd Comunicação) (vd Linguagem).

1. A arte é expressão de algo em obra sensível, como em cor (pintura), forma (escultura), som (música).
Nesta definição há a considerar primeiramente o sentido meramente formal da definição dada, advertindo sobretudo para o significado da expressão.
Depois, cabe destacar detalhes significativos, - os materiais utilizados, para fundar a expressão (classificando as artes pelos recursos usados), os temas expressos (classificando de novo as artes pelo que dizem).
A ocupação com a arte é um quase nunca acabar, porque ela também oferece propriedades, como a esteticidade, marcada pelos estilos, e a utilidade. Como utilidade, se destaca a comunicação, que acontece especialmente na linguagem. Dali decorrem mais outras e outras questões a serem tratadas no estudo da arte.

a) Como expressão de algo, a arte se apresenta com dois momentos, - a expressão e o algo que ela exprime como seu tema.
A expressão se compõe de dois elementos, - a obra entitativa e a relação que, a partir das feições desta obra entitativa, noticia algo.
Note-se que, na expressão, o elemento principal é a relação noticiante e não a obra material portadora. Todavia ambos elementos são essenciais à expressão.
Contrasta a expressão artística (de ordem material sensível) com a expressão cognoscitiva (de ordem inteletiva). Ocorre, entretanto, uma afinidade entre ambas.
A expressão artística, como obra entitativa, é uma qualidade sensível. Pode ser uma forma plástica, uma cor, um som. Paralelamente, a expressão cognoscitiva se apoia em algo que se diz o ser da coisa.
A afinidade, entre a expressão artística e a expressão cognoscitiva se encontra nisto, que ambas operam pela relação de semelhança (ou seja, pela mimese). O semelhante acusa o assemelhado. Ocorre efetivamente, uma semelhança (de forma) entre a estátua e o objeto expresso, uma semelhança (de cor) entre a pintura e o seu respectivo objeto, uma semelhança (pelo menos sugestiva), entre o som musical e seu tema, e finalmente uma semelhança (de ordem inteletiva) entre o conhecimento e o que se faz conhecer.
Efetivamente, pois, a arte é uma expressão noticiante sensível exterior. A expressão noticiante é algo que, além do seu aspecto absoluto em si, é capaz de advertir a atenção para sobre algo outro. A arte exerce exatamente esta função, qual seja a de chamar a atenção sobre o que expressa. Apreciem-se os traços que imitam uma ponte. Estes traços, além de sua realidade física absoluta, remetem a atenção para a ponte que expressam. Tem os traços, portanto, a condição de expressão noticiante, constituindo-se por isso em uma obra de arte.
Há diversas modalidades de expressão. A expressão é imanente, quando se exerce no interior do ser; tal é o conhecimento intelectual e o sensível. A expressão é exterior, ou objetiva, quando ocorre nos seres, sem que estes se concientizem da mesma, podendo porém ser interpretada por quem a aprecia de fora. Esta é a expressão denominada arte. Dali decorre a definição de arte, oferecida acima, como expressão sensível e exterior.
O conhecimento oferecido pela arte é uma expressão objetiva, isto é, que se exerce sem consciência de si mesma, todavia o suficiente para poder ser interpretada a partir de fora, pelo seu apreciador. Bastaria que a obra de arte se conscientizasse de si mesma, para que fosse igual ao conhecimento imanente.
Em resumo, a obra de arte é uma expressão objetiva, que se concientiza na mente do seu apreciador. Este apreciador pode ser o artista que a criou. Ela tem a mesma condição diante de qualquer outro indivíduo que nela ponha sua atenção. Assim acontece porque a expressão objetiva está na obra, perceptível tanto do seu artista criador, como dos demais que a apreciam.
Costuma a arte ser bela. Por analogia chamam-se artísticas coisas criadas com beleza. Mas é preciso não confundir a arte propriamente dita como se fosse apenas uma coisa bela.
Verdadeiramente, a arte só tem uma razão essencial de ser, a de se exercer como expressão significante. A arte é um signo. Quem a cria, tem a este como objetivo principal. Sem ele não é praticada.
Mais amplamente todas as coisas criadas pelo homem, mesmo quando sem significado e de valor meramente entitativo, podem receber o nome de arte. Nesta acepção entitativa, ou meramente operacional, são artes todos os resultados da azáfama humana. É assim que se diz artes agrícolas, artes navais, artesanatos, indústrias, tecnologias. Diferem essencialmente da arte exercida como expressão intencionalística transportadora de conhecimentos.

b) Muito há a dizer sobre a obra material portadora da expressão artística. De dentro desta obra material brota, por efeito formal, a relação de semelhança com vistas a expressar intencionalisticamente o tema.
A infra-estrutura da obra de arte é sempre material, sensível e física. Este é o fato, que os sentidos percebem. Efetivamente, há coisas materiais sensíveis, que servem como veículos de expressão.
O que nisto mais importa entender é que tais coisas materiais sensíveis e físicas, exercem a expressão através de um só aspecto, - as qualidades.
São qualidades mais apreciáveis a forma (de que a figura é uma forma natural), a cor e o som. Estas formas, sob as mais variadas maneiras, exercem as expressões da escultura e arquitetura, pintura e música, linguagem e teatro, etc.
Mesmo no caso dos símbolos, como na linguagem, o que verdadeiramente se aproveita são as qualidades; diferenciadas, pelos seus muitos graus de variação, cada uma serve a um símbolo diferente.
Só as qualidades são capazes de exercer uma expressão. Primeiramente, as qualidades, enquanto qualidades, tornam as coisas uma tal e qual coisa; por este através, as coisas se diferenciam e se assemelham.
O movimento, o ritmo, as graduações, a simbolização aumentam o número de qualidades. Em decorrência da semelhança e diferenciação resulta haver os assemelhados e os diferenciados; nesta condição uns podem indicar, ou acusar, os outros. Eis o que é a expressão, por formas, expressando-as.
As cores imitam outras cores, expressando-as.
Os sons imitam outros sons, expressando-os.
Os símbolos imitam, por convenção, os objetos simbolizados, expressando-os.
Ali está todo o fundamento filosófico da arte.
As artes abstratas são possíveis, porque, analogicamente, as qualidades sensíveis conseguem advertir para objetos não sensíveis. Esta capacidade é aumentada pela simbolização. Por isso, a linguagem falada é a mais capaz, no plano das artes abstratas, em vista de ter recursos simbólicos e em grande número. Desta sorte há artes figurativas e artes abstratas.
Importa frisar de como se diversificam as artes. Materialmente se diversificam as artes pelos recursos com que operam. São tantas quantas forem as qualidades sensíveis.
São todavia mais destacados os seguintes quatro grandes gêneros artísticos:
Arte da forma,
Arte da cor,
Arte do som,
Arte dos símbolos.
Sob outra perspectiva classificatória, há artes mistas e artes puras, em função ao aproveitamento unidirecional ou múltiplo da matéria utilizada para a expressão.
Em concreto não há formas isoladas, sem cor ou sem som. Não há cor isolada da forma. Não há som sem ambiente. Não há símbolos, sem forma ou sem cor ou sem som. Por isso a estrutura material concreta de uma obra de arte é sempre um todo misto de qualidades sensíveis.
Na mesma obra de arte há formas, cores, sons, como bem se observa nas artes tipicamente mistas, como do teatro (explorando o literário, as formas, as cores), no canto (utilizando o texto literário e a música), na poesia literária (combinando a evocação do texto, com a evocação do ritmo sonoro, sobretudo da cadência), no balé (estruturando as formas humanas em movimento com a música pura).
É possível explorar apenas um recurso isoladamente, como o estatuário que atende apenas à forma, esquecendo a cor do material; ou como o pintor, quando se ocupa tão só da pictoricidade, abandonando as preocupações do espaço; ou do músico, ao se concentrar no poder expressivo dos sons, sem cuidar, por exemplo, do conteúdo literário do texto.
O múltiplo aproveitamento dos recursos da matéria faculta à arte mais recursos. Por isso as artes mistas são de alto efeito e muito apreciadas. De outra parte, o aproveitamento unidirecional consegue destacar sutilezas, também válidas. Um aficcionado da música pode apreciar a música pura, sem qualquer outra preocupação.

c) Aquilo que a arte expressa, noticiando e comunicando, é o seu tema, ou objetivo principal.
A capacidade temática de expressão da arte é universal, ainda que nem todos os temas sejam expressáveis com a mesma facilidade ou adequacidade pelas qualidades sensíveis.
Em função aos temas, a arte é figurativa, quando oferece o assunto na sua figuração concreta, como de uma planta, de um animal, de uma pessoa humana.
A arte é abstrata, quando expressa perspectivas, em vez do todo concreto.
É figurativo-abstrata, se, e, um pretexto concreto, exprime um conceito abstrato.
É abstrato-formal, quando o tema abstrato é buscado diretamente.
A arte é clássica, se oferece os objetos figurativos naturais, idealizados de acordo com o seu protótipo ideal (ou universal metafísico).
É romântica, se não atende ao ideal arquétipo, mas expressa atenta ao impulso espontâneo da sentimentalidade.
A partir das liberdades do romantismo se desenvolveu a arte moderna, cuja maneira de expressar os temas é muito variada. Mas, obedece a diretriz comum do anticlassicismo.
A arte é impressionista, se expressa o tema tal como se apresenta e não como é objetivamente.
É expressionista, se, se ocupa do mundo interior do individuo, restringindo-se a ver nos objetos exteriores reflexos da consciência.
A arte naturalista (realista), embora não subjetivize os objetos, não os apresenta idealizados pelo modelo arquétipo.
O certo é que nenhum objeto pode ser excluído de ser expresso. Ao homem interessa transferir à expressão sensível o que sua mente capta. Não tem, pois, sentido reter-se a arte ao classicismo dos modelos ideais, ainda que os prefira. Nem pode fechar-se no realismo naturalista. Deve-se expandir para todos os campos, seja dos objetos impressionísticos, seja dos expressionísticos, seja dos abstratos e metafísicos.
Sobretudo a linguagem falada se ocupa de objetos mentalizados. Expressa a filosofia, como também as superficialidades episódicas.
O grande artista descobre os temas verdadeiramente apreciáveis, e os expressa. Ainda que muitos objetos sejam dignos de serem expressos pela arte, só alguns são eminentemente dignos de o serem (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “O amor à arte jamais enriqueceu a alguém”- Amor ingénii néminem umquam ítem fecit (Petrônio, 83).
3. “A arte é êmula da natureza”- Ars aémula naturae (Apuléio, Methamorphóseon, 2, 4).
4. “Artifício se burla com artifício”- Ars delúditur arte (Catullus, I, 216).
5. “A arte consiste em velar a arte [A melhor arte é a que (a) parece mais natural]” (Ovídio, Ars amatória, 2, 313).
6. “A arte é o homem acrescido à natureza”- Ars est homo ádditus naturae (Francis Bacon de Verulamo, 1561-1626).
7. “A gramática [o artista] morre de fome, os decretos entumescem, a lei assegura o lucro”- Ars ésurit, decreta tument, lex lucrum ministrat (Aforismo latino escolástico).
8. “A graça da arte é a própria arte [a arte pela arte]”- Ars gratia artis (lema latino da empresa cinematográfica norte-americana Metro Goldween Mayer).
9. “A arte [ciência] é duradoura, a vida é breve”- Ars longa, vita brevis (extraído do primeiro aforismo de Hipócrates) (Sêneca, De brevitate vitae, 1, 1).
10. “A arte [ciência] não tem inimigo, senão o ignorante”- Ars non habet inimicum nisi ignorantem (dizer latino).
11. “A arte [habilidade] é porto [refúgio] da miséria [Quem tem ofício não morre de fome]”- Ars portus misériae (dizer latino).
12. “A arte é uma, suas manifestações são milhares” – Ars una spécies mille (dizer latino).
13. “Quem aprende um ofício raramente chega a ser pobre”- Artem qui séquitur, non raro pauper repéritur (dizer latino).
14. “As artes servem à vida; a sabedoria domina”- Artes sérviunt vitae; sapiéntia ímperat (Sêneca, Epístulae, 85, 32).
16. “É sumamente próprio da arte criar e produzir”- Artis máxime próprium est creare et gígnere (Cícero, De natura deorum, 2,22,57).
17. “A madrugada é favorável às musas [aos artistas]” – Aurora Musis amica (Erasmo, Da organização do Estado).
18. “Hora matinal tem ouro na boca” – Morgernstunde hat gold im Munde (dizer de língua alemão, equivalente ao anterior latino).
19. “Deve-se acreditar aos peritos em sua arte”- Cúilibet in arte sua perito est credendum [equivalente Peritis in arte credendum] (dizer latino).
20. “Acaba em [cauda de] de peixe”- Désinit in piscem (Alusão à passagem de Arte poética, 4, de Horácio, onde se compara uma obra de arte sem unidade com um elegante busto fenimino, terminando em cauda de peixe, em vez de apresentar a beleza total da mulher).
21. “As coisas belas são difíceis” – Difficília quae pulchra (Zenóbio e Platão).
22. “Os doutos compreendem a razão da arte; os não doutos, apenas o prazer que ela proporciona” – Docti rationem artis intéligunt, indocti voluptatem (Quintiliano, Institutiones oratóriae).
23. “A necessidade premente é mais eficaz do que qualquer arte” – Efficátior est omni arte íminens necéssitas (dizer latino).
24. “Aquele que sobressai na arte não deve morrer – Éxcelens in arte non debet mori (princípio latino alegado para a clemência em favor de homens de grande valor que hajam incidido em crime).
25. “O exercício faz nascer a arte” - Exercitátio arte parat (Tácito, Germánia, 24, 1).
26. “A fome é mestra das artes”- Fames ártium magíster (dizer latino).
27. “A necessidade é a mãe das artes [técnicas]”- Necessitas mater ártium (dizer latino).
28. “A honra alimenta as artes”- Honor alit artes (Cícero, Tusculanae disputationes, 1, 2, 4).
29. “Em meio à guerra silenciam as Musas”- Inter arma silent Musae (dizer latino).
30. “O louvor é o alimento das artes” – Laus alit artes (Sêneca, Epistulae, 102).
31. “A fome é mestra da arte e dispensadora de talento – Magister artis ingeniique largitor venter (Pérsico, Sátirae, 10).
32. “São melhores as coisas que a natureza tem produzido, do que as realizadas pela arte”- Meliora ea quae natura, quam illa quae arte perfecta sunt (Cícero, De natura deorum, 2, 34, 87).
33. “O trabalho superava a matéria”- Matériam superabat opus (Ovídio, Metamorphóseon, 2,5) (dito de obra artística maior que seu conteúdo).
34. “A natureza e a arte nada fazem em vão”- Natura et ares nihil agunt frustra (dizer latino).
35. “A Grécia vencida dominou o feroz vencedor e introduziu as artes no agreste Lácio” – Graecia capta ferum victorem cepit, et artes íntulit agresti Látio (Horácio, Epistulae, 1, 2, 156).
36. “Não é arte a que obtém efeito por acaso” – Non est ars quae ad effectum casu venit (Sêneca, Epistulae, 29, 3).
37. “Não morrerei de todo” – Non omnis móriar (Horácio, Odes, 3, 30, 6) (diz-se de quem garante imortalidade por haver produzido obra de arte).
38. “O estudo e a observação da natureza fizeram nascer a arte”- Notátio naturae et animadvérsio péperit artem (Cícero, Orator, 55, 183).
39. “Toda a arte é imitação da natureza” – Omnis ars imitátio est naturae (Lucius Annaeus Sêneca, Epistolae ad Lucilium, ep. 65, 3).
40. “A obra exalta o artífice”- Opus laudat artíficem (dizer latino).
41. “A pobreza é descobridora de todas as artes”- Paupertas ómnium ártium repertrix (Apuléio, Apologia, 16, 6).
42. “Que cada qual se exercite na arte que conhece”- Quam quisque norit artem, in hac se exerceat (Cícero, Tusculanae, 1, 18, 4).
43. “Aquele que progride nas artes e regride nos costumes, mais retrocede do que inova”- Qui proficit in ártibus e déficit in móribus, plus déficit quam próficit (tópico da época dos humanistas, do Renascimento).
44. “A arte, se está latente, traz proveito”- Se latet, ars prodest (Ovídio, Ars amatória, 313).
45. “Que haja Mecenas e não faltarão, ó Flaco, os Virgílios Marões”- Sint Maecenates; non deerunt, Flacce, Marones (Martial, 88, 55, 5) (expressa o sentido de que se houver patrocinadores, não faltarão artistas e cientistas).
46. “Se procurares um monumento, olha ao teu redor”- Si monumentum requiris, circúmspice (epitáfio em latim, do arquiteto C. Wren, na igreja de São Paulo, Londres).
47. “[A arte] supre as deficiências da natureza” – [Ars] suplet defectum naturae (Parecer de Tomás de Aquino, em Summa Contra Gentiles, 3, 22, aplicado à arte adotado pela Escolástica).
48. “Cada um é sábio em sua arte” – Unusquisque in arte sua sápiens (dizer latino).
49. “A poesia é como a pintura”- Ut pictura póesis (Horátio, Arte poética, 361) (afirmativa de que se valeram diferentes autores, para comparar a pintura e a poesia).
50. “A vida é breve, a arte é longa- Vita brevis, ars longa” (Aforismo de Hipócrates, 400 a. C., divulgado por Sêneca, 4-65 a.C.).
51. “O treinamento associado à experiência predomina nas artes”- Usus et experiéntia dominantur in ártibus (Columella, De re rústica, 1, 1).
52. “O homem complementa a natureza” – Homo ádditus naturae (Francis Bacon, dizendo que arte humana não é cópia da natureza, mas uma interpretação).
53. “A arte associa-se com a natureza para a saúde”- Ars cum natura ad salutem conspirans (Lema da Real Academia de Medicina de Madrid).
54. “A natureza tem horror ao vácuo” – Natura abhorret a vácuo (Dizer latino, sobre um tema abordado por Aristóteles, Descartes, Pascal).
55. “A iminente necessidade é mais eficaz do que qualquer arte”- Efficáciter est omni arte ímminens necéssitas (Q. Cúrcio, De rebus gestis Alex. Magni, 5).
56. “Muitas vezes, o uso contínuo, dedicado a uma só coisa, vence o talento e a arte”- Assíduus usus uni rei déditu et ingénium et artm saepe vincit (Cícero, Pro Balbo, 20).
57.“A obra superava a matéria”- Matériem superabat opus (Ovídio, Metamorphóseon, 2, 5).
58. “Aperfeiçoar a vida com as artes”- Vitam excoluere per artes (dizer latino).
59. “As artes são as mestras da virtude” (Cícero) (D C).
60. “A arte é difícil, e fugaz sua recompensa” (Fr. Von Schiller, Wollenstein, Prólogo, v. 40) (D C).
61. “A arte é, de certo modo, uma crítica da realidade” (Artur Graf, Ecce homo, 804) (D C).
62. “Materializar o espiritual até fazê-lo palpável; espiritualizar o material, até torná-lo invisível, eis o segredo de toda a arte” (Jacinto Benavente, La moral en el teatro) (D C).
63. “A arte é o sentimento de coisas humanas unido ao pressentrimento das coisas divinas” (D’Yzarn-Freniset).
64. “O fim último das ciências é a verdade; ao invés, o das artes é o prazer” (Lessing) (D. C.).
65. “A obra de arte é uma variedade do milagre” (Victor Hugo, William Shaskespeare, II, 6). (D C).
66. “O autor deve estar em sua obra, como Deus no universo: presente em todas as partes, mas, em nenhuma, visível” (G. Flaubert, Pensées, 211) (D C).
67. “A mais longa aprendizagem de todas as artes é aprender a ver” (J. de Goncourt, Journal III, 16) ( D C).
68. “Toda criança é artista. O problema é como permanecer artista depois de crescer” (Pablo Picasso, 1881-1973, pintor cubista) (Em Diário Catarinense, 24-7-2002).
69. “Para os artistas, o grande problema a resolver é o de se tornarem conhecidos” (Balzac, Os dois poetas) (D C).
70. “Um artista vive como quer, ou como pode” (H. Balzac, Tratado da vida elegante) (D C).
71. “Todos os artistas, os verdadeiros artistas, abominam a sujeição e adoram a independência” (H. Balzac, A prima Bol) (D C).
72. “Todo artista tem orgulho de suas faculdades, mas alguns há (dos piores), que consentem em renegar, adulando, para um êxito mais rápido, o gosto desta ou daquela parte do público” (Hanequin, A critica científica) (D C).


ARTESANATO. ARTESÃO. 0918.
(vd Indústria) (vd Arte).

1. O artesanato é a produção meramente manual a que se entregam os indivíduos, chamados artesões, em contraste com a produção industrial, de maior rendimento econômico.
Há um artesanato de mera ocupação lúdica e que por isso é justificável. Sobretudo este artesanato se justifica, vindo mesmo aliado ao gosto artístico. O lado menos frágil do artesanato é aquele com alguma qualidade artística. Além disto, o artesanato pode valer-se de recursos técnicos para manipular seus materiais.
De outra parte, não resta dúvida de que a produção industrial tanto não somente baixa os custos, como ainda pode melhorar o produto. Eis quando de outro lado os produtos artesanais vão sendo abandonados.
Nas regiões pobres do mundo o artesanato anacrônico é a principal característica do seu subdesenvolvimento, ainda que seja um modo eventual de subsistência. Em estágio intermediário se encontram os países em algum desenvolvimento, neles convivendo a produção artesanal e a industrial.
Em virtude da facilidade (tecnológica) dos transportes, passou o artesanato dos subdesenvolvidos a ser levado para outras regiões, e ali vendido. Mas o rendimento final de qualquer artesanato praticado em massa nunca obtém os resultados da indústria propriamente dita.
O artesanato continua válido, quando praticado pelo gosto artístico e criatividade estética, inclusive pelo que representa de passatempo e diversão (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. ==


ÁRVORE. ÁRVORES. ARVOREDO. 0923.
(vd Planta). (vd Floresta). (vd Lenha). (vd Madeira).

1. Árvore é uma planta, que se destaca por exibir um tronco forte, abrindo muitos ramos no espaço. Usualmente se multiplica mais que as palmeiras e as plantas em forma de baraços. Todas juntas formam finalmente a floresta.
A construção sistemática das casas tem resultado na extinção sistemática das árvores.
Uma lei poderia estabelecer que, - para cada construção de casa residencial ou prédio de outra função, - houvesse uma correspondente árvore símbolo, especialmente plantada num recanto do respectivo solo (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Deve-se avaliar a árvore pelos frutos e não pelas folhas”- Fructu, non fóliis, árborem áestima (dizer latino).
3. “Não se derruba uma árvore com qualquer primeiro golpe”- Arbor per primum quaevis non córruit ictum (Dizer latino, referente à constância, pertinácia e constância).
4.“A boa árvore dá bom fruto, logo pelo fruto se conhece a árvore” (Jesus, em Mateus, 8, 19-20).
5. “As árvores do campo, enroupadas de neve,
sob o látego atroz do inverno que corta,
são esqueletos que, de braços levantados,
vão pedindo socorro à primavera morta” (Francisca Júlia, Inverno) (D. C.).
6. “O incêndio... à instigação do vento,
rápido avança e envolve uma árvore mais perto,
que se abraça, e parece ardente leque aberto” (Antônio Sales, Minha terra) (D. C.).
7. “Na convulsão dos ramos recurvados,
as árvores, aos ventos desvairados,
trazem a trágica ilusão
de almas batidas ao destino,
lutando em vão, sofrendo em vão...” (Da Costa e Silva, A ventania) (D. C.).
8. “Quem come do fruto da árvore do conhecimento, será expulso de algum paraíso” (W. R. Ingo, citado por Marchant em Whit and wistom of Dean Inge) (D. C. ).
9. “A árvore da ciência não é a da vida” (Lord Byron, Manfred, ato 1, cena 1) (D.C.).
10. “A árvore da liberdade não poderia crescer se não fosse irrigada com o sangue dos reis” (Barrère de Vienzac, em 13-1-1893, justificando a condenação de Luiz XVI, em Le Moniteur, n. 20, p. 100) (D. C.).
11. "Da árvore caída todos fazem lenha" (E. P.).
+ + +
11. “Oração da árvore:
“Tu que passas e levantas contra mim teu braço, antes de fazer-me mal, olha-me bem.
Eu sou o calor do teu lar nas noites frias de inverno.
Eu sou a sombra amiga que te proteje do sol, meus frutos saciam tua fome e acalmam sede.
Eu sou a viga que suporta o teto de tua casa, a tábua de tua mesa, a cama em que descanças.
Sou o cabo de tuas ferramentas, a porta de tua casa.
Quando nasces, tenho madeira para teu berço; quando morres, em forma de ataúde, ainda te acompanho para o seio da terra.
Sou pão de bondade e flor de beleza. Se me amas como mereço, defende-me contra os insensatos” (D. F. S. No Almanaque do Correio do Povo, 1967).


ASA. ASAS. [ALADO.] 0927.
(vd Ave). (vd Pássaro). (vd Voar).

1. As asas, no corpo das aves, correspondem, em outros animais, aos membros dianteios, ou braços, desenvolvidos ao modo de lhes permitir o voo. O mesmo ocorre nos insetos, igualmente capacitados para o voo. Excepcionalmente, no caso dos animais mamíferos, o morcego também desenvolveu a capacidade de voar.
Asas também ocorrem no avião, veículo adatado para voar.
Explica-se o voo mediante asas, como um impulso a um plano inclinado contra a resistência do ar, ocorrendo então a tendência para o alto.
Analogicamente diz-se que a imaginação, o pensamento, o espírito voa para as alturas.
Boa coisa, voar, - seja de corpo em transporte rápido, seja de espírito e
imaginação, filosofando e divagando (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Cada ave, com asas estendidas, é um livro de duas folhas abertas no céu. Protejamos esse livro. E aumentemos com essa proteção a miúda biblioteca” (Humberto de Campos, Sombras que sofrem, 161) ( D C).
3 “Creio que, se sempre olhássemos o céu, acabaríamos por ter asas” (Gustave Flaubert, Pensées, 160 (D C).
4. “Mesmo quando uma ave anda, sente-se que tem asas” (Lamierre, Fastes, Canto 1) (D C).
5 “A ave canta, mesmo quando o galho começa a estalar, porque sabe o que são as suas asas” (Santos Chocano, Poesias) (D C).
6. “A águia, elevando a pálpebra dormente,
abriu as asas ao clarão nascente,
como as hastes de um leque iluminado... “ (Luiz Guimarães Junior, A morte da águia) (D C).


ASMA. ASMÁTICO. 0932.
(vd Respiração).

1. Asma é uma doença inflamatória grave das vias aéreas, dificultando a respiração. Ela atinge os brônquios, em consequência do aumento de células musculares dos referidos brônquios, com ataques respiratórios de dispnéia, falta de ar, chiado, tosse intensa e sensação de aperto no peito.
A doença já é referida pelo seu nome, - no grego ástma (= ar curto), pelo poeta grego Homero, quando se referiu à doença 700 anos antes de nossa era. Sabe-se ainda, pela forma como foi descrita, que 1500 a. C. a doença já ocorria no velho Egito, sendo então tratada com fezes de animais e hervas.
Uma parte da população, cerca de 10 por cento, está predisposta para a asma, devendo pois ter cuidados especiais contra os fatores que provocam seus incômodos.
O tratamento em casa importa em evitar a presença de fumantes. A presença do pólen, capaz de atacar aos asmáticos, pode obrigar mesmo ao fechamento das janelas.
Começando por casa, anote-se que no Brasil 21 de junho é o dia nacional do asmático, ocasião em que os jornais dirão mais sobre o assunto (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. ==

[ASNO] (vd Burro).

[ASPEREZA] (vd Agressão).


ASSALTO. ASSALTAR. ASSALTANTE. SALTEADOR. 0935.
(vd Latrocínio). (vd Roubar). (vd Saltar). (vd Atacar).

1. Assalto é o ataque de improviso, como que de um salto. Assim os soldados, como que de um salto, de improviso, atacam uma posição do inimigo; os ladrões, como que de um salto, atacam a vítima, tomando-lhe o dinheiro e objetos de valor; os esportistas, sejam do futebol, sejam do boxe, etc., como que de um salto, atacam o seu adversário.
Assaltar? Depende. Assaltar ao inimigo malfeitor, sempre! Mas prefira, quando possível, encaminhar o assunto da defesa à sociedade, - polícia, exército, promotor público, poder judiciário. Assaltar em exercício esportivo, - claro que sim, embora dentro da regulamentação do esporte (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Até quando os inteletuais deletérios vão dizer que a bandidagem é o resultado da pobreza? Pobreza não faz bandidos, faz trabalhadores. Os vagabundos sabem que é mais fácil assaltar” (Luiz Carlos Prates, em Diário Catarinense, Florianópolis, 17-6-2002).
3. “Quem ostenta a bolsa, quer perdê-la. A ocasião faz o ladrão” (E. P.).
4. “Ladrão que rouba ladrão, tem cem anos de perdão” (C.C.).
5. “Quem furta pouco é ladrão, quem furta muito é barão” (C. C.).
6. "Ladrão endinheirado, nunca morre enforcado"(E. P.).
7. “Feio é roubar e não poder carregar” (C. C.).

[ASSENTAR] (vd Sentar).
[ASSEVERAR] (vd Afirmar).


ASSIMILAR. ASSIMILAÇÃO. INASSIMILÁVEL. 0940.
(vd Semelhante).
1. Assimilar significa tornar similar, semelhante. Neste sentido os seres vivos animais assimilam os alimentos. Os estudantes assimilam ensinamentos. As populações se assimilam umas outras, tanto nos costumes, como na raça.
Até os bichos, convivendo, se assimilam algum tanto, fazendo-se mais mansos uns aos outros. Inclusive o cachorro se assimila ao dono, aceitando o seu comando.
Ser boa gente é ser pessoa integralmete assimilada ao meio ambiente, quer ao ambiente social humano, quer ao meio ambiente dos animais, plantas e coisas (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. Quando duas [pessoas] fazem a mesma coisa, esta nunca é a mesma” – Duo cum fáciunt idem, non est idem (Terêncio, Ândria, 823) (Referência à originalidade que em tudo resta).
3. “Faze semelhantemente” - Fac símile (Dizer latino, para uma reprodução exata).

4. “A natureza gerou iguais a todos os homens”- Natura omnes hómines aequales génuit (Dizer latino).
5. “Iguais com iguais facilmente se congregam” - Pares cum páribus facílime congregantur (Cícero, De senectute, 3, 7).
Outra tradução: "Os semelhantes se unem voluntariamente com os semelhantes" (Cícero) (Vaet).
6. “Os semelhantes são curados por [meios] semelhantes”- Simília simílibus curantur (enunciação latina do princípio da homeopatia, preconizada por Samuel Hahnemann, 1755-1843).


ASSINAR. ASSINATURA. ASSINANTE. 0944.
(vd Escrever). (vd Subscrever).

1. Assinar é escrever seu nome, como signo identificador da autoria do que foi subscrito.
Como termo, assinar se formou de signo.
Dependendo do conteúdo do texto subscrito, assinar envolve responsabilidade (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Preferiria não saber escrever”- Vellem nescire lítteras (Suetônio, Nero, 10,2) (Frase atribuída a Nero, ainda jovem, quando lhe trouxeram uma sentença para ser assinada).


ASSOMBRAÇÃO. ASSOMBRAR. ASSOMBROSO. ASSOMBRO. 0958.
(vd Aparição). (vd Terreor). (vd Visão).

1. Assombração, derivado de sombra, seria uma aparição que, pelo aspecto exterior, espanta e amedronta. Esta é a imagem que a crença popular atribui a uma alma do outro mundo, supondo-a poder aparecer. E assim haveria outras e outras assombrações, sempre algo obscuras.
Por semelhança, se diz assombro para o que espanta por sua grandeza e raridade.
Felizmente alguns assombros da fantasia popular não parecem verdadeiros. Não obstante, a natureza no espaço continua assombrosa, apesar da muita luz (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. Tirou o cachimbo da boca, para deixar lugar para o espanto” (John D. Shridan).
3. “Nem as contrariedades assustam [aterrorizam]”- Nec áspera terrent (dizer latino).
4. “Os vestígios [pegadas] aterrorizam [amedrontam]” –Vestígia terrent (Horácio, a partir de fábula de Esopo).
5. “Quem aterroriza, mais teme ele: esta sorte convém aos tiranos”- Qui terret, plus ipse timet: sors ista tyrannis cónvenit (Claudiano, IV Consulato Honorii).
6. “A razão afasta o terror [medo] dos prudentes”- Rátio terrorem prudéntibus éxcutit (Sêneca, Quaestiones naturales, 6, 2, 13).
6. "O temor sempre suspeita o pior" (E. P.).

[ASSUSTAR] (vd Susto).


ASTRO. ASTRÓLOGIA. ASTRÓLOGO ASTRONOMIA. ASTRÔNOMO. 0965.
(vd Astronáutica). (vd Estrela). (vd Sol). (vd Lua).

1. Astro se diz de um corpo celeste considerável. Diferentemente, asteróide se diz de um corpo celeste similar menor.
No grego clássico eram termos equivalentes astro e estrela, ocorrendo somente depois a diferenciação.
A curiosidade pelos astros desenvolveu já na antiguidade uma astrologia fantasiosa, mas que, - por mais fantasiosa que fosse, - nada tem de comparável com o que a moderna astronomia apresenta.
Com a astronomia moderma se veio a distinguir entre satélite (como a Lua) e planeta (como a Terra), entre planeta e estrela (como o Sol, em torno do qual giram planetas). Estrela passou a ser dito apenas dos astros mais luminosos.
Descobriu-se que as estrelas se organizam em todos sucessivos cada vez maiores. Num primeiro agrupamento as estrelas formam constelações. No agrupamento seguinte, as constelações formam galáxias, que são aos milhões.
Nós nos encontramos na galáxia de nome Via Láctea. Portanto, a constelação a que pertence a Estrela do Sol, é parte da Via Láctea. Também é parte da Via Láctea, a constelação bem característica denominada Cruzeiro do Sul.

O desastroso foi que as religiões tradicionais se comprometeram com a falsidade do saber antigo sobre os astros. O termo astrologia, embora formado corretamente pela sua terminação -logia (para significar ciência dos astros), teve que ser reinventado por uma outra via, dizendo-se então astronomia, a partir de nómos (= lei).
Já usando novos recursos, foi notável o desenvolvimento da astronomia, dado por Galileu Galilei (1564-1642), mas que por isso foi contestado pela Igreja Católica.
Em religião, - como se mostrou no episódio de Galileu, - é sempre desastroso que mandem os que sabem menos, porque acabam sendo proibidos de ensinar os que sabem mais.
O universo dos astros é de uma imensidade de pasmar. São milhões as galáxias. A nossa Via Láctea, - uma galáxia só, - mede 400 mil anos de Luz, sendo que num segundo a luz percorre 300 mil quilômetros. Se o céu dos justos (o chamado Terceireo Céu) for além das estrelas, conforme a crença dos antigos, será difícil chegar lá, sem reconceituar o que o dito céu verdadeiramente possa ser. Cuide-se primeiramente dos astros, porque depois se conseguirá melhor falar do verdadeiro céu (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Os astros dispõem, mas não impõem” – Astra inclinante, sed non cogunt (Dizer latino, escolástico, buscando conciliar a astronomia [astrologia] com a liberdade).
3. “Astros, gotas de luz, da etérea curvatura
pingavam, marchetando o céu calmo e profundo.” (Medeiros e Albuquerque, Palmares) (D C).
5. “Os astros sacudiam no vôo violento
a poeira que dormia no chão do firmamento” (Castro Alves, Boa Vista) (D C).
6. “Os astros sobre as nuvens revoltas,
rolam como pedras soltas
do teu colar desfeito...” (A estrela dos magos) (D C).
7. “Semelha o vasto céu, de exgremo a exrtremo,
chão juncado de flores chamejantes
para a passagem de algum Deus supremo” (Medeiros e Albuquerque, Viajantes) (D C).
8. “Conta-se que [Tales de Mileto, primeiro filósofo e astrônomo] havendo saído de sua casa, sob a direção de uma velha mulher, para observar os astros, caiu em uma vala, e como ele se molestasse, a velha lhe disse: - Oh, Tales, não vês tu o que está a teus pés e queres conhecer o que passa no céu!” (Dióg. Laércio, I, 33).
9. “Para as desditas é astrólogo o coração” (Francisco de Rojas Zorrillas, Procne e Filomena) (D C).
10. "Se não existe vida fora da terra, então o universo é um grande desperdício de espaço" (Carl Edward Sagan, 1934-1996, astrônomo e biólogo Norte-americano) (D. Catarinense, 24-5-2003).

ASTRONAUTA. ASTRONÁUTICA. ASTRONAVE. O968.
(vd Astro). (vd Aviação).
1. Astronauta se diz do navegador do espaço mais além da admosfera terrestre.
A conquista do espaço exterior da Terra pelo ser humano, além de despertar a admiração, também trouxe novos resultados para experimentos no mundo do imponderável.
Como não poderia deixar de ser, as viagens pelo espaço também quebraram tabus religiosos. Não faltou quem temesse um castigo, porque foram tentar descobrir os segredos de Deus na Lua. Houve ainda quem perguntasse aos primeiros astronautas como eram os anjos que teriam encontrado nos cimos do espaço.
E nós, sobre a exploração espacial? Agradeçamos aos intrépidos aventureiros do espaço astronômico, por nos haverem tornado melhor conhecido este mundo de Deus (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. "A terra é azul" (exclamação de Iuri Gagárin, astonauta russo, o primeiro homem a circular a terra em voo orbital, em lançamento de 12-4-1961).
3. "Um pequeno passo para o homem, um salto para a humanidade" (dito por Neil Alden Armstrong, astronauta norte-americano, primeiro homem a pisar na Lua, em 1969).


ASTÚCIA. ASTUCIOSO. 0971.
(vd Habilidade).

1. Astúcia se diz da habilidade de conseguir alguma coisa ou resultado, de preferência por vias mais fáceis e rápidas, mesmo que importe em alguma sagacidade e artimanha.
A astúcia é própria dos animais de inteligência superior, por exemplo, da raposa, dos santropoides. Mas é própria sobretudo do ser humano, todavia com muitas excepções.
Em princípio a astúcia não importa em seguir pela via da maldade enganosa, ainda que possa optar por este camiho.
És astucioso? Tens uma boa qualidade! Sê todavia suficientemente astucioso pela via do bem, para que não precises da via do mal (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “O caminho certo para ser-se enganado, é considerar-se mais astucioso do que os demais” (La Rochefoucauld, Maximes, 127) (D C).
3. “Podemos ser mais espertos do que alguns, porém não mais que todos” (La Rochefoucauld) (em S. F.).
4. “É próprio de todo imbecil, fazer-se passar por astucioso” (George Couteline, La philosophie de G. C.) (D C).
5. “Ludíbrio e astúcia são peculiares aos francos” (L. A. Sêneca, De quatuor virtutibus) (D C).
6. “Dizer astuto, equivale dizer medíocres” (Victor Hugo, Les misérables, IV-I-2).
7. “Nada mais prejudicial para um país que pessoas astutas passarem por inteligentes” (Francis Bacon, Essays, 22) (D C).
8. “Muito astuciosa é a raposa, mas a víbora é muito mais poderosa” (Aquíloco, Fragmenta, 118) (D. C.).


ATACAR. ATACANTE. 0974
(vd Agredir).

1. Atacar é um agredir pessoa ou coisa, com objetivo bastante explícito, de vencer.
Pessoas atacam pessoas. A polícia ataca aos bandidos. O exército aos revoltosos. Jogadores em competição atacam aos jogadores adversários.
Também animais atacam pessoas, ou coisas, como por exemplo gafanhotos atacam plantações, cupins atacam o madeirame da construção.
Na eficiência comercial, diz-se vender por atacado à operação da mercadoria em grande quantidade a um mesmo comerciante, o qual por sua vez a comercializa no varejo.
O caráter explícito do ataque também se dá no plano biológico. É quando se diz ataque cardíaco, ataque pulmonar, ataque de asma. Um dizer típico, - a presença do pólen, capaz de atacar aos asmáticos, pode obrigar mesmo ao fechamento das janelas.
Os bons são atacantes do bem, quando, em nome do bem, atacam ao mal. E os maus? São atacantes do mal, quando em nome do mal, atacam ao bem (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Comi língua canina [de cachorro]”- Línguam caninam comedi (Petrônio, Satyricon, 43). (No contexto agressivo e franco da escola cínica).
3. “Viver com alguém como o cão e o gato” (E. P.).
4. “Queres que te siga o cão, dá-lhe o pão” (E. P.).
5. “A agressão denota quase sempre em pobreza de argumentos” (Helder Câmara).


ATAR. DESATAR. REATAMENTO. REATAR. 977.
(vd Amarrar).

1. Atar é ligar algo a algo.
Como termo, atar leva no fundo a idéia de algo que se adata, conforme diz o étimo latino.
Contrastam entre si atar e amarrar. Enquanto atar é mais uma fixação por adatação, o amarrar é pode ser algo que é juntado à força, destacando-se então aquilo que se amarra.
Em reatar as boas relações, se diz mesmo que se procede a um reajustamento.
É mais gentil atar, que amarrar (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. ==


ATEÍSMO. ATEU. 0980.
(vd Agnosticismo). (vd Deus). (vd Teísmo).

1. O ateísmo de alguns pode ser senão a rejeição das falsas concepções que o vulgo tem de Deus. Assim colocada a questão, o ateísta se encontra mais perto de Deus, do que aquele que acredita num falso Deus.
Outras vezes, inadequadamente, tem-se denominado ateísmo, o que efetivamente se chama agnosticismo. Os agnósticos assim se dizem diante do racionalismo da metafísica.
Também se dizem ateus os que não admitem afirmações teológicas, fundadas numa revelação divina que os visionários afirmam ter recebido mas não parecem provar.
Contudo, apesar das teologias ineptas, é possível afastar também o ateismo.
Não há como entender a este nosso mundo, senão a partir de um ser infinito em todo o sentido, como um infinito no tempo e infinito no espaço. O ateísmo é inconsistente. E o ateu não sabe o que diz (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Os grandes crentes foram sempre considerados infiéis, pouco práticos, fantásticos, ateus, homens de pouca importância” (Ralph Aldo Emerson, O pensamento vivo de Emerson, 133) (D C).
3. “O ateísmo está mais na boca, que no coração do homem” (Francis Bacon”(Essays, 16).
4. “Senhor, não havia necessidade desta hipótese” (La Place, esclarecendo a Napoleão, porque não mencionara a Deus no seu Tratado da mecânica celeste) (D C).
5. “Se um Deus fez este mundo, eu não queria ser esse Deus; a miséreia do mundo destroçar-me-ia o coração” (Artur Schopenhauer, Aus A. Schopenhauer’s handschrifthichen Nachlass, p. 441. Leipzig, 1864) (D C).
6. “A falsa ciência cria ateus, a verdadeira inclina o homem diante da divindade” (Voltaire, Dialogues, 24, 10).
7. “Devoto é aquele que, sob um rei ateu, seria ateu” (La Bruyère, Les caractères des jugements, 57) (D C).
8. “Mais vale não ter nenhuma idéia da divindade, do que dela ter idéias grosseiras” (J. J. Rousseau, O pensamento vivo de Rousseau, 111) (D C).
9. “Vivo no meu tempo. É só este tempo. Acabou. Sou ateu. Acreditar em Deus é a mesma coisa que acreditar em Papai-Noel...” (Paulo Autran, citado por L. C. Prates, Diário Catarinense, 6-9-2007).
10. “O criador é, ao mesmo tempo o mais evidente e o mais arcano” (J. B. Lacordaire, Pensées) (D C).


ATENÇÃO. ATENDER. ÀTENDIMENTO. ATENTO. 0984.
(vd Conhecer). (vd Intencionalidade).

1. Atenção se diz do direcionamento da ação cognoscitiva para um objeto. Não há conhecimento sem um objeto para o qual se direcione. Este conhecer como um atender a objetos se chama intencionalidade. Portanto, o intencionalismo é essencial ao conhecimento.

a) A mente humana exerce espontaneamente duas atenções - a direta e a indireta (ou reflexa).
Pela atenção direta a mente vai em direção do objeto conhecido; está, pois, a atenção direta centrada no mesmo objeto conhecido.
Pela atenção indireta (ou reflexa), a pessoa observa a si mesma e seus atos.
Dotado destas duas espécies de atenção do curso do conhecimento, o ser humano sabe das coisas, e sabe que sabe. Também é capaz de agir, com controle simultâneo. inclusive para se educar.
b) As pessoas, em sendo capazes para duas espécies de atenção, - direta e reflexa, - podem educar-se a si mesmas.
Os educandos não só recebem educação, mas podem educar-se a si mesmos, reexaminando seus conhecimentos e ações. Ler e pesquisar é uma combinação de receber educação e de auto-educação.
Para o comportamento humano importa muito o fato de que a atenção se encontra sob controle da vontade da pessoa. Se quero conhecer, eu passo a atender ao objeto. Se não quero conhecer, me abstenho de atender.
Quando se adverte, que importa viver no presente, e não tanto no passado e nem no futuro, - a questão diz respeito à atenção, que se deve centrar no principal. Não conseguem efetivamente viver no presente os abúlicos, os distraídos, os preguiçosos, os indecisos, os que não sabem a que atender, enfim os desatentos. Estes todos incorrem em muitos defeitos, começando pela falta de atenção (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Nada tão fácil nem tão útil como escutar muito com atenção” (Luis Vives, Introductio ad sapientiam) (D C).
3. “O esforço para escutar, é o mais curto caminho para a ciência” (Luis Vives, Introductio ad sapientiam) (D C).
4. “Ver o que está à frente dos nossos olhos exige um esforço constante” (George Orwell, 1903-150, escritor britânico) (citado em Diário Catarinense, 24-10-2002).
5. “A verdadeira arte da memória não é outra coisa que senão a arte da atenção” (Samuel Johnson, The Adler, 74) (D C).
6. “Ver com muitos olhos” (E. P.).
7. “Não vê o que salta aos olhos” (E. P.).
8. “O espírito de observação eleva-nos sobre os outros homens de tal modo que nos transforma como que em juízes naturais” (Mme de Stael, Pensées) (D C).
9. “Desconfiai de uma mulher distraída: é um lince que vos observa” (Labouisse Rochefort, Pensées, observations, réflexions morales, 143) (D C).
10. “São os peixes que não vêem a água” (E. P.).
11. “Basta olhar alguma coisa com atenção para que se nos torne interessante” (Eugênio d’Ors, El nuevo glossário) (D C).

[ATENCIOSIDADE]. (vd Gentileza).

[ATIRAR]. (vd Tiro).


ATIVO. ATIVIDADE. ATIVISMO. INATIVIDADE. 0990.
(vd Ação). (vd Ato). (vd Trabalho). (vd Ociosidade). (vd Ginástica).

1. Ativo é o que exerce ação, qualquer seja ela.
Ativismo é o exercício habitual da ação.
Implica a atividade em um certo esforço, que por sua vez importa em cosumo de energia.
Mostra a experiência que a inatividade prejudica o todo de um, organismo.
Seja ativo, sempre fazendo alguma coisa. Você será visto como útil e verá também alongados os seus dias (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “A inatividade [inércia] embota o corpo, o trabalho o fortalece; uma lhe dá precoce envelhecimento; a outra lhe alonga a juventude”- Ignávia corpus hébetat, labor firmat; illam maturam senectutem, hic longam adolescéntiam reddit (Celso, De re médica, 1, 1).
3. “A atividade duplica a força” (E. P.).
4. “A atividade é a mãe da prosperidade” (E. P.).
5. “Se não conseguirem tempo para uma atividade física, então encontrem tempo para ficar doentes” (Kenneth Cooper, médico norte-americano, criador do assim chamado Teste Cooper, em entrevista à Veja. Em Diário Catarinense, 6-7-2003).


ATMOSFERA. ATMOSFÉRICO. 0994.
(vd Ar). (vd Ambiente).

1. Atmosfera se diz do meio ambiente, que pode ser variado, ou de ar, ou de outro ingrediente vaporoso qualquer.
O termo toma o seu significado principal de sua primeira parte, do grego atmos = gás, vapor. A atmosfera dos planetas varia, sendo o da Terra dominado pelo ar, com presença eventual dos vapores de água.
O calor influencia a atmosfera. Baixando a temperatura, os vapores de água se convertem no fenômeno da chuva.
Por analogia, atmosfera se diz também do estado de espírito de um grupo social, de uma assembleia política, de uma sala de aula.
Os bons contribuem sempre para uma boa atmosfera. O cuidado com o meio ambiente gera uma boa atmosfera física. A participação no bem comum gera uma boa atmosfera social (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “O homem contente e feliz terá nunca idéia de destruir o ambiente em que vive. Se alguém muda a sua posição é porque se achava mal na que ocupava até o momento da mudança. O descontentamento é, por conseguinte, causa de todo o progresso” (Max Nordau) (S. F.).


ATO. ATOS. 0998.
(vd Ação). (vd Atividade).

1. Ato é o resultado de uma ação. Usa-se dizer sobretudo da ação de um verbo ativo, como por exemplo do verbo agir.
Como uso particularizado do teatro, se dizem atos as divisões principais do enredo oferecido no palco.

Sob os mais diversos pontos de vista, é pelos seus atos que se avaliam as pessoas, seja na vida discreta de cada dia, seja nos dias de pompa na sociedade, seja enfim também no palco adrede anunciado (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “As palavras ensinam, os exemplos atraem” - Verba docent, exempla trahunt (Provérbio antigo, em forma latina).
3. “Faça tudo como se alguém o estivese observando”- Fac ómnia, tamquam spectet áliquis (Dizer latino).
4. “Quem furta pouco é ladrão, quem furta muito é barão” (C. C.).


ATOLAR. ATOLEIRO. 1002.
(vd Lama). (vd Pântano). (vd Banhado).

1. Atolar se diz de quem se afunda ao atravessar um lamaçal. Como termo, atolar é de origem controvertida, remontando ao século 15.
Os atoleiros costumam ocorrer nas estradas singelas de chão batido, em períodos de chuvas persistentes.
Quaisquer sejam as suas espécies, os atoleiros nunca são desejados, e podem mesmo significar deficiências do Serviço Público (Ad hoc).
Evaldo Pauli, Ad hoc)

2. “No duro ninguém se atola, nem faz poeira no mole” (C. C.).


ÁTOMO. ATÔMICO. ATOMISMO. ATOMISTA. [ÁTIMO.]. 1005.
(vd Partícula). (vd Gravidade). (vd Vácuo).

1. Como termo, átomo é de formação grega, a partir de a- (privativo) e de tomos (= parte, como em tomo). No sentido originário é o que não mais se redivide, e era portanto considerado elemento constitutivo inicial de um composto. Esta foi a acepção que deram os antigos filósofos gregos ao átomo.
Por analogia, se passou a dizer átimo no sentido de instante (ou momento), como em num átimo

a) Modernamente, átomo ficou denominando a menor quantidade estável da matéria. Por sua vez, de átomos se constitui a molécula (de moles = massa).

Encontram-se abaixo do átomo as partículas subatômicas, ou seja, - uma coroa de elétrons e um núcleo constituído de prótons e nêutrons.
A coroa externa de elétrons, pouco estável, gera o fenômeno da corrente elétrica, ao modo de uma sequencial de oscilações. Portanto, a corrente elétrica não é um fluxo de coisas, mas apenas um sequencial de oscilações, ao mesmo modo como a luz que também se propaga apenas oscilando.
De outra parte, o núcleo é energicamente estável. Todavia pode gerar o que se denomina explosão atômica.

b) Finalmente que pensar das partículas iniciais? Elas em si mesmas poderão ser tão só centros energéticos de furacões dentro da massa homogênea do espaço.
Numa tal hipótese não haveria, nem partículas absolutas, nem espaços vazios absolutos entre tais supostas partículas.
Para complicar ainda mais o problema da massa homogênea de fundamento, a partir de onde surgiriam as partículas atômicas, apresenta-se um outro problema, o da gravitação, que se manifesta em todo o universo conhecido. Também a gravitação parece explicar-se como um sequencial de ondas energéticas, agora ditas gravitacionais.
A teoria dos átomos, de tropeço em tropeço, foi levando de pouco em pouco, ao conhecimento da natureza básica do universo (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. "É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito" (Albert Einstein, 1879-1955).


ATOR. ATRIZ. 1008
(vd Artista). (vd Comédia). (vd Teatro).

1. Ator é dito primeiramente daquele que leva ao palco as figuras do teatro. Deve, pois, ter capacidade de personificar aquelas figuras.
Costumando o tema do teatro ser a vida humana, o ator a deve compreender e dela ser capaz de assumir a personificação.
Habitua-se o ator a ser apreciado e aplaudido. O efeito psicológico de um elogio é significativamente agradável, e pode mesmo equivaler a uma retribuição, quando não até a um pagamento. É próprio até dos atores, sentirem-se compensados com o aplauso da platéia.
Por analogia somos todos nós também atores, enquanto representamos o nosso papel no palco da vida (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Rindo e cantando, corrija os costumes”- Ridendo et canendo córrigo mores (Dizer latino, em telões de teatro).
3. “As mulheres consideram o casamento como uma comédia que começa com as bodas; os homens, como uma tragédia que termina com a morte” (M. G. Saphir, Ausgewahltewerke, 174) (D C).
4. “Vamos ao teatro? Ao teatro da vida, quero dizer. Somos o que pensamos. Se é assim, brinquemos de atores. Se a pessoa estiver triste, manda o regulamento, que finja estar alegre. Finja, aja com desembaraço, tente qualquer coisa. É batata, logo, logo estará boa” (Luiz Carlos Prates, Diário Catarinense, Florianópolis, 3-8-2002).

ATRAÇÃO. ATRAIR. ATRAENTE. ATRATIVO. 1011.
(vd Gravidade). (vd Armadilha). (vd Tentar).

1. Atração é o fenômeno pelo qual os corpos tendem uns para os outros, atraindo-se entre si.. Vem dali que uns se dizem pesados em relação ao todo maior.
Como termo, atrair se formou a partir do verbo latino trahere (= puxar), combinado com a partícula a- at- (= para si).
Por analogia, atração se diz das preferências humanas das faculdades de conhecimento e de querer.
O que é bom atrai. O belo é o perfeito em destaque, e por isso mesmo o preferido para a atração humana.
As pessoas, ao se tornarem belas, provocam um interesse sobre si mesmas. Por isso se enfeitam os namorados e namoradas. Também por isso os lugares ornados, como os salões, atraem a juventude sempre sensibilidazada pelos ambientes que se destacam.
Com as atrações se fazem também as armadilhas. Assim operam os caçadores de animais. Não pode ser assim na propaganda comercial e eleitoral, que se deve limitar às atrações honestas.
Há que ter prudência com as atrações, porque podem ser armadilhas. Com prudência constante as atrações nos trazem sempre o bom, o perfeito, o belo, o verdadeiramente preferido (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Quem teme todas as insídias [emboscadas], não cai em nenhuma”- Qui omnes insídias timet, in nullas íncidit (Publílio Siro, Sententiae).
3. “As aves evitam as armadilhas muito vistosas”- Quae nimis apparente rétia vitat avis (Ovídio, Remédia amoris, 516).


ATRÁS. ATRASAR. [TRÁS. TRASEIRO.] 1014.

1. Atrás se diz do lugar contrário ao da frente, ou mesmo em direção contrária da frente.
Pode significar também retorno sobre uma decisão.
Na apreciação de valor, costuma ser mais apreciado o lugar da frente, que o de trás. Entretanto, em absoluto são iguais os valores de atrás e os da frente (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Palavra de rei não volta atrás” (C. C.).
3. “A pior frase que um ser humano pode fazer é esta: Ah, se eu pudesse voltar atrás! Ou esta outra sua gêmea: Ah, como me arrependo do que fiz...” (Luiz Carlos Prates, Diário Catarinense, Florianópolis, 10-2-2003).

[ATRIBUTO] (vd Propriedade).

[ATURAR]. (vd Suportar).


AUDÁCIA. AUDACIOSO. AUDAZ. [OUSADIA. OUSADO. OUSAR.] 1020.
(vd Coragem). (vd Atrevimento). 1020.

1. A audácia é um sentimento em desajuste com o objeto, mas em luta. Está próximo dos sentimentos da ira e do desespero. E mais distante da esperança, do temor.

a) Convém aqui atender à classificação geral dos sentimentos.
Na classificação dos sentimentos, pela forma como eles se dão, a audácia se encontra no grupo dos sentimentos do árduo.
Mas neste grupo do árduo ocorre uma subdivisão: o árduo simplesmente e com ajuste e o árduo em desjuste com o objeto.

b) A audácia não é dos sentimentos do árduo simplesmente e com ajuste, como acontece com esperança, temor, mas é dos sentimentos do grupo do árduo com desajuste.
O árduo, em desajuste com o objeto, resulta em desespero, no instante da apetição simplesmente;
a audácia, quando caminha embora lutando com o desajuste;
a ira, no momento máximo, em contato com o objeto conquistado e em desajuste.
Subtileza na variedade dos sentimentos? Mas, é assim que somos, quanto aos sentimentos (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “A audácia serve de muralha”- Audácia pro muro habetur (Sallústio, Catilina, 58, 17).
3. “A audácia encobre os maiores temores”- Audendo magnus tégitur timor (Lucano, Pharsália, 4, 702).
4. “A virtude cresce pelo ousar; o temor pelo tardar”- Audendo virtus crescit, tardando timor (Publílio Siro, Senténtiae).
5. “O próprio Deus ajuda aos audaciosos”- Audentes Deus ipse iuvat (Ovídio, Metamorphóseon, 10, 586).
6. “A audácia cresce pela experiência”- Crescit audácia experimento (Plínio, Epístulae, 9, 33, 6).
7. “Contra os audaciosos não há audácia segura” – In audaces non est audácia tuta (Ovídio, Metamorphóseon, 10, 544).
8. “Nas situações penosas e de pouca esperança, os projetos mais audazes são sempre os mais seguros”- In rebus ásperis et ténui spe, fortíssima quaeque consília tutíssima sunt (Títo Lívio, 25, 38, 18).
9. “Nadarás sem cortiço” – Nabis sine córtice (Horácio, Sátirae, 1, 4, 105) (Nadar livremente com muita ousadia).
10. “Não ousamos muitas coisas, não porque sejam difíceis, mas são difíceis, porque não ousamos”- Non quia difficília sunt non audemus, sed quia non audemus sunt difficília (Sêneca, Epistulae, 104, 16).
11. “Prossegue com audácia: tu conduzes Cesar e sua sorte”- Perge audacter: Cáesarem vehis Caesarisque fortunam (Plutarco, Vida de Cesar, 38).
12. “É maior a audácia naquele que ataca do que naquele que defende”- Plus animi est inferentei perículum quam propulsante (Títo Lívio, 28, 44, 2).
13. “Se a estrutura do orbe cair fragorosa, as ruínas atingirão um homem destemido”- Si fractus illabitur orbis, Impávidum férient ruinae (Horácio, Cármina, 3, 3, 7).
14. “Não cedas aos maus [males], mas enfrenta-os com maior audácia”- Tu ne cedis malis, sed contra audéntior ito (Virgílio, Eneida, 6, 95).
15. “A sorte [fortuna] ajuda aos audaciosos (e repele aos tímidos)”- Audaces fortuna iuvat (timidosque repellit) (Virgílio, Eneida, 10, 284).
Outra tradução: "A sorte favorece os audaciosos" (Virgílio) (Vaet).
16. “Ousando, cresce a valentia; com a indecisão, cresce o medo” – Audendo virtus crescit, tardando timor (Publílio Siro, Senténtiae).
17. “Ousando, cobre-se um grande medo” – Audendo, magnus tégitur timor (Lucano, Pharsália, 4, 702).
18. “A crença fez os deuses, a audácia os reis” (Crébillon, Xerxes, ato I, cena 1) (D C).
19. “A audácia é o espírito fatalista dos aventureiros” (Ruy Barbosa, Colunas de fogo, 70) (D C).
20. “Sem o senso moral, a audácia é a alavanca das grandes aventuras” (Ruy Barbosa, Colunas de fogo, 65) (D C).
21. “Minha mão direita não tem audácia para escrever o que ela mesma ousou fazer” (Ovídio, Heroides, 12-115).
21. “A maior das audácias é filha do maior dos temores” (Francisco de Quevedo, El Romulo, vol 10, 94) (D C).

[AUGÚRIO] (vd Auspício).

[AULA]. (vd Lição).


AURORA. AURORAS. 1025.
(vd Manhã).

1. A aurora é um dos grandes espetáculos da natureza.
Na aurora participam muitos elementos da natureza e de variado modo, de onde ter ainda outros nomes, - manhã, nascer do sol, surgir de um novo dia (Evaldo Pauli, Ad hoc).
A vida de cada um teve sua aurora, quando passou a ter clara consciência de si e do seu arredor, disto conservando gratra memória (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Rompe enfim, uma onda de luz que se atira sobre o universo como vaga enorme a transformar, solta a terra um brado ingente... e ergue-se o sol. É dia” (Visconde de Taunay, Céus e terras do Brasil) (D C). ==
3. “Os clarões da aurora não são doces como os primeiros raios da glória” (Vauvenargues, Réflexions et maximes, 375) (D C).
4. “Oh! Que saudades que eu tenho,
da aurora da minha vida,
da minha infância querida,
que os anos não trazem mais!” (Casemiro de Abreu, Meus oito anos) (D C).


AUSÊNCIA. AUSENTE. AUSENTAR-SE. 1030.
(vd Presença).
1. Ausente se diz de algo existente, mas que não se encontra no seeu lugar habitual.
O mal foi definido, já por antigo filósofo, como “ausência do bem devido” ( ).
Fundamentalmente, eixsitr é um estar presente ao mundo (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “A ausência é o maior dos males” (La Fontaine, Fab. 9, Les deux pigeons) (D C).
3. “Fala-se diversamente dos efeitos produzidos pela ausência: dizem uns que ela é contrária à perseverânça e outros que ela faz amar mais intensamente” (Bussy, Rabutin, Maximes d’amour, 219) (D C)
4. “As pequenas ausências estimulam o amor, mas as grandes fazem-nos morrer” (Mirabeau).
5. “O amante que não se vê mais, é bem depressa esquecido” (Ovídio).
6. “A ausência é a mãe invisível e incorpórea da beleza ideal” (Walter Savage Sander, Imaginary conversations) (D C).
7. “Quem desejar ser amado, trabalhe para estar presente, porque, tão prestes estejam ausentes, serão esquecidos” (Jorge Maurique, Coplas a la muerte) (D C).
8. “Os ausentes nunca têm razão” (Niricault Philippe Destouches, L’irrésolou, ato V, cena 6) (D C).
9. “Quem está ausente, todos os males tem a temer” (M. de Cervantes, Don Quijote, c. 35) (D C).


AUSPÍCIO. AUSPICIOSO. [AUGÚRIO. AGOURO.]. 1035.
(vd Presságio). (vd Sinal).

1. Auspício é uma declaração sobre algo futuro, com base em algo que se supõe permitir antevê-lo.
A crença costuma supor auspícios de ordem especial quando ocorre falar-se em agouros, augúrios, presságios.
Mais objetivamente se diz, por exemplo, que um acontecimento se dará sob os auspícios de uma entidade de influência, como do Governo, de um clube, ou de uma pessoa expressiva. É o caso de uma formatura sob os auspícios um professor eleito como paraninfo de formandos.

2. “Sinal [auspício] de melhores tempos”- Auspícium melioris aevi (dizer latino).
3. “Se não querem comer, que bebam” – Bibant si édere nolunt (Frase latina de Appius Cláudius Pulcher, que consultou os auspícios antes de uma batalha contra os cartagineses, ao receber a resposta de que os frangos sagrados não queriam comer. Foi quando mandou que fossem arrojados à água).


AUTOCRÁTICO. AUTOCRATA. AUTOCRACIA. 1040.
(vd Teocrático) (vd Aristocracia). (vd Ditadura).

1. Sempre que há um grupo social, - político, religioso, ou outro qualquer, - o poder do chefe tem uma origem, ou autocrática, ou democrática.

a) A chefia no caso do poder autocrático (não democrático) se estabelece por caminhos variados, que levam o autocrata ao comando, firmando-se geralmente pela via do caudilhismo.
O caudílio consegue, em virtude de uma liderança fácil, fazer-se ouvido, ao mesmo tempo que se organiza no poder, explorando uma oposição eventual do seus seguidores, contra terceiros, em geral contra outras classes sociais, mesmo contra outro país.
Também as chefias autocráticas das religiões costumam formar-se pela via do causilhismo, explorando sobretudo as diferenças de grupos contra grupos.

b) Por acréscimo, os autocratas podem ainda alegar a origem divina, ou teocrática do poder. A tese do poder divino dos reis e dos chefes religiosos não parece de prova fácil.
No caso de algumas religiões, como nas principais igrejas cristãs, o poder é interpretado ao modo autocrático e teocrático, não ao modo democrático
No poder teocrático, ainda que ocorra a eleição dos potentados, supõe-se que, ato contínuo à referida eleição, ou simples indicação, Deus confere o poder. Posto o sinal, ex opere operato, segue a ação divina.

c) O poder autocrático, inclusive o teocrático, usa dar-se por sucessão linear, de pai para filho.
Noutras, a sucessão é determinada pela comunidade.

Se as provas sobre a natureza autocrática do poder fossem claras deveríamos todos beijar a mão dos caudilhos, - mas não parecem (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Tudo aquilo que sufoca a individualidade humana é despotismo, seja qual for o nome com que esteja disfarçado” (John Stuart Mill, On liberty) (D C).
3. “A beleza é uma tirania pouco tempo vivida” (Sócrates).

AUTOCRÍTICA. 1044.
(vd Crítica). (vd Consciência).

1. Autocrítica é a ponderação sobre a validade dos próprios conhecimentos e dos próprios atos.
Este procedimento da autrocrítica sobre os próprios conhecimentos é inteiramente possível, porque não somente sabemos (conhecimento em intenção direta), como ainda sabemos que sabemos (conhecimento em intenção reflexa).
Assim também o procedimento da autocrítica é inteiramente possível, ao agir e fazer. É que somos acompanhados pelo saber que agimos (sobre o que agimos em intenção direta) e pelo saber que fazemos (em intenção direta).
Somos ainda acompanhados pelo saber que agimos (em intenção reflexa) e pelo saber que fazemos (em intenção reflexa).
É muito importante a autocrítica, até porque é difícil, por causa da multiplicidade e variedade daquilo sobre que importa pensar e fazer (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Conhece-te a ti mesmo” (dizer do oráculo de Delfos, aproveitado por Sócrates).
3. “Homem, não procures o autor de teus males; tu mesmo és o autor deles” (Jean-Jacques Rousseau, A profissão de fé do vigário de Savoia) (D C).


AUTODIDATA. 1048.
(Estudo). (Pesquisa).

1.Autodidata se diz de quem estuda sozinho, sem o recurso da escola. Diz-se especialmente de quem por si aprende elementarmente a ler e escrever.
Mas são autodidatas também todos aqueles que, depois de cursarem regularmente as noções requeridas pela sua profissão, continuam estendendo para mais longe o aprendido, ou mesmo alargando universalmente sua erudição.
Ninguém chegará a uma sabedoria plena, senão pela via de uma boa autodidática (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Mestre sem mestre” [Autodidata] – Magister sine magistro (expressão latina).


AUTO-ESTIMA. 1052.
(vd Naturismo). (vd Feminismo). (vd Vergonha). (vd Silicone).

1. A auto-estimama é a apreciação positiva de si mesmo. Todos querem o bem, que é uma qualidade.
É propriedade da qualidade ter graus, e todos são bons. Nesta variação valem sempre mais os graus superiores, ainda que os graus intermédiários, até os ínfimos possam merecer apreço.
Os graus de qualidade, na auto-estima são muito influenciados pela capacidade subjetiva de apreciação. Erradamente os graus inferiores passam a ser considerados proibitivos, pela educação repressiva de alguns educadores. Usos e costumes também variam quando os graus são avalidados diferentemente.

Neste querer o bem, cada qual começe por estimar a si mesmo, - sua própria existência, desde o corpo, não se envergonhando dele, até seu pensamento e ações.
Importa considerar os objetos de nossa auto-estima, no que se refere à qualidade.
Subjetivamente, pela mesma coisa, uns sentem mais estima, outros menos. Nisto pode estar influindo a educação, bem qualificada recebida por uns, mal qualificada recebida por outros.
É curioso anotar o que sucede sobre a auto-estima sobre o próprio corpo. Enquanto uns se educaram para terem imensa vergonha de seu corpo, outros o exibem com espetacular desenvoltura.
Objetivamente, quanto à coisa que gera a auto-estima, - se ela permite aperfeiçoamento, como aumento da cultura, ou como melhoria do porte físico, - não há porque não cultivar estes bens em si mesmos apreciáveis.

Na estima de sua própria existência, há os que estimam altamente sua parentela, sua etnia, sua nacionalidade, seu partido, sua religião.
Neste sentido, convém fixar-se primeiramente no geral, ou seja na humanidade como um todo, em vez da parentela, etnia, nacionalidade. E assim também importa estimar primeiramente os partidos como um todo político, do que um partido individualizado.
Há que por primeiro apreciar a religião simplesmente, do que se concentrar no proselitismo de uma denominação religiosa contra as outras.
Em princípio, a auto-estima sempre gera satisfação, ao mesmo tempo que destaca valores desde o próprio corpo até o transcendente (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “As coisas naturais não são vergonhosas”- Naturália non sunt túrpia (Provérbio antigo, na forma latina).
3. “Hermipo em suas Vidas, atribui a Tales estes dizeres, que outros autores põem na boca de Sócrates:
Dou graça à [Deusa] Fortuna por três coisas:
- ser membro da espécie humana, antes que besta;
- ser homem e não mulher;
- ser grego e não bárbaro” (Diógenes Laércio, Vidas I, 33).
+ + +
4. "Uma pedra foi jogada no espelho... sobre as consequências dos espelhos diante da auto-estima das pessoas. O espelho nos constrange mostrando a verdade. O espelho de que vou contar não é amigão, ele nos mostra verdades que não gostamos de ver.
O que vale é o resultado da pesquisa. As pessoas sentem-se, na regra, deprimidas ao se ver no espelho enquanto se exercitam. Depressão, tensão e infelicidade, tudo isso é vivido diante do espelho. O ser humano simplesmente não se suporta.
Dia destes encontgrei um grupo de lindas mulheres, daquelas de abalar as torres da igreja, estavam numa alegre algaravia GNT, no programa Superbonita, achando-se feias. 'Ah, como diz um amigo meu, jogue-me um caminhão dessas feias no meu pátio, jogue'. Mas é isso, poucos, só os mentirosos, se acham bonitoa à luz do di. E diante do espelho então, quased ninguém..." (Luiz Carlos Prates, Diário Catarinense, Florianópolis, 12-8-2003).

AUTOR. AUTORA. AUTORIA. 1063.
(vd Compositor). (Criador). (vd Escritor).

1. Autor se diz de quem produziu alguma coisa, a partir de sua iniciativa. Como termo, autor deriva do grego authós (= de si mesmo, por si mesmo, espontaneamente.
Especialmente se diz autor, de quem produz com participação especial de sua inteligência, como em autor de livro, autor de obra de arte (livro, música, pintura, escultura, teatro). Por causa da participação de sua inteligência, é que se diz do autor, que ele está em sua obra. A possibilidade de desvirtuamento da razão, permite falar também de autoria do mal.
Ser autor do bem, com o uso pleno e perfeito de sua inteligência e vontade, engrandece o ser humano. Isto ocorre com destaque, quando o bem que faz acontece na obras de arte, seja na arte escrita, seja nas demais artes (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “O autor deve estar em sua obra, como Deus no universo: onipotente e invisível” (Gustave Flaubert, Pensées) (D C).
3. “Um autor está em seus livros, ou não está em parte alguma” (Abel Bonnard) (D C).
4. “Tudo saiu bem das mãos do autor das coisas, tudo degenerou entre as mãos do homem” (J. J. Rousseau, Émile ou De l’education, I-1) (D C).
5. “O autor arruína tudo, quando pretende fazê-lo demasiadamente bem feito” (La Fontaine, liv. V, fable 14, L’Âne portant des reliques) (D C).


AUTORIDADE. AUTORITÁRIO. AUTORITARISMO. 1065.
(vd Autor).

1. Autoridade é a pessoa com direito e poder de mandar, incluindo o poder de induzir os comandados à obediência. Em sentido abstrato, autoridade se diz da mesma capacidade de mandar.
Autoritário é aquele que abusa do poder em que está investido, e autoritarismo é o sistema de governo dali resultante, caracterizado sobretudo pelas limitações à iniciativa dos comandados.
Por conotação, ou mesmo por analogia, autoridade se diz também do especialista em conhecimentos. Assim é que uns são, por exemplo, especialistas em história, outros em matemática, outros ainda em cibernética, e assim por diante.
Para conduzir avante o progresso, muito vale a autoridade, seja para mandar, seja para orientar como especialista em algum ramo do saber (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Contra os inimigos, a autoridade seja eterna”- Adversus hostem aeterna auctóritas [esto] (Lei das XII Tábuas, de Roma).
3. “A autoridade é a coroa da velhice”- Apex senectutits est auctóritas (Cícero, De senectute, 17, 60).
4. “Cesar não tem autoridade sobre os gramáticos”- Caesar non supra grammáticos (Marco P. Marcello et Suetonio, De illustribus gramáticis, 22).
5. “Dignidade com autoridade”- Dígnitas cum auctoritate (dizer latino, como os romanos conceituavam a pessoa importante e íntegra).
6. “Divide para dominar”- Dívide et ímpera (máxima latina, do Senado de Roma, adotada por Luís XI da França, 1461-1483).
7. “A autoridade só se compra com a virtude”- Émitur sola virtude potestas (Gaudiano, III Cons., 188).
8. “De cátedra [com autoridade, em tom doutoral]”- Ex cáthedra (expressão latina). (Passou a ser dito do Papa, quando fala oficialmente e seus adeptos o crêem então ser infalível em doutrina e moral).
9. “A jovialidade diminui a autoridade; e a severidade, o amor” – Facílitas auctoritatem sevéritas amore dimínuit (Tácito, Agrícola, 9, 5).
10. “Eu o quero, eu o ordeno; a razão é minha vontade”- Hoc volo, sic júbeo, sit pro ratione voluntas (Juvenal, 6, 233) (dizer típico do voluntarioso e autoritário).
11. “O maior [ato] de governo é governar-se a si mesmo”- Imperare sibi máximum impérium est (Sêneca, Epístulae, 113, 24).
12. “Ele disse [Ele, o Mestre, disse]” – Ipse dixit (Expressão dos discípulos de Pitágoras, ao se referirem ao seu Mestre, considerado autoridade).
13. “Nem as cãs nem as rugas adquirem autoridade de repente” – Non cani, nec rugae repente arripere possunt (dizer latino).
14. “O primeiro entre iguais” - Primus inter pares (dizer latino) (indica que tem primazia de honra, mas sem exercicio de autoridade sobre os demais).
15. “Com a cotidiana convivência, a autoridade diminui”- Quotidiano convictu auctoritas minúitur (dizer latino).
16. “A insígnia [o distintivo] da velhice é a autoridade” - Apex est senectutis auctóritas (Cícero, De senectute, 17, 60).
17. “A virtude tem muita autoridade, inclusive entre os maus”- Habet apud malos quisque multum auctoritatis virtus (Quintiliano, Declamationes, 253).
18. “A autoridade e o senhorio cabem aos vencedores de batalha” (Xenofonte, Anábasis, II –154) (D C).
19. “Abuso de autoridade: dá-se geralmente esse nome a todos os atos de um governo do qual não fazemos parte” (P. Véron) (D C).
20. “Imagino que é muito bom mandar ainda que seja a um pequeno rebanho”(D. Quijote, parte 11) (D C).
21 “A maior preocupação dos imbecis elevados à categoria de autoridade é ostentar autoridade” (Dante Veoléci, S. F.).
22. “Ser imperador de si mesmo é a primeira condição para imperar sobre os demais” (Ortega y Gasset, España invertebrada, parte 1-a., 4).
23. "Nenhuma afirmação deve ser tomada como legítima só porque feita por autoridade" (Hans Reichenbach, 1891-1953, filósofo alemão).


AUXILIAR. AUXÍLIO. 1071.
(vd Socorrer). (vd Benefício).

1. Auxiliar (como verbo), significa prestar ajuda a alguém. A ação da ajuda se chama auxílio. Os graus de auxílio vão desde a simples ajuda, até o socorro.
Diz-se também auxiliar (agora como substantivo) para o agente menor que auxilia a um agente maior, dito autoridade.
Numa Diretoria, o Presidente é antes de tudo um Diretor, no sentido de Autoridade, enquanto os demais membros são auxiliares.
Auxiliar é sempre necessário. Por toda a parte ocorrem as limitações e com as mais variadas espécies, de sorte que a função de auxiliar é necessária e ainda com todas as modalidades de organização. Cada qual veja qual a sua função específica na geral confraternização. Mais que isto, esteja sempre de prontidão (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Tudo saiu bem das mãos do autor das coisas, tudo degenerou entre as mãos do homem” (J. J. Rousseau, Émile ou De l’education, I-1) (D C).
3. “Quando deres esmolas, que não saiba a tua mão esquerda, o que faz a direita” (Mateus VI,3).
4. “Quem recebe um benefício deve ser agradecido” (Cícero, De prov. Cons., 17).
5. “Quem faz bem ao mau, torna-se pior” (Fedro, Epígrafe da Fábula VI, Liv. IV (D. C.).
6. “Quem, procede em seu próprio interesse, não merece que se lhe agradeça o bem que faz” (Fedro, Epígrafe da Fábula XXIII) (D C).
7. “Os benefícios dos maus são suspeitos” (Fedro, Epígrafe da Fábula XXII, liv. 1) (D. C.).
9. “A maneira de dar, vale mais que o que se dá”(Pierro Corneille, Le menteur) (D C).
10. “Quando se faz o bem, deve-se fazê-lo com alegria” (Talmude, ou Tradição judaica) (D C).
11. “O benefício não consiste no que se dá, mas na intenção do que se dá ou faz” (L. A. Sêneca, De beneficiis) (D. C.).
12. “A lembrança das injúrias dura mais que a dos benefícios” (L. A. Sêneca, De beneficiis) (D C).
13. “Dá duas vezes, quem dá depressa” (L. A. Sêneca, De beneficiis) (D C).
14. “Um benefício que se faz esperar muito, vale pouco quando chega” (Axel de Oxenstiern, Pensées sur divers sujets) (D. C.).
15. “Se ajudares algum com algum benefício não solicitado, não o deves divulgar” (Aristóteles, Retórica, Liv. 29, c. 4) (D. C.).


AVALIAR. AVALIAÇÃO. AVAL. AVALISTA. AVALIZAR. 1075.
(vd Valor) (vd Elogio). (vd Comparação).

1. Avaliar é determinar o valor de uma coisa. A avaliação se faz comparando. Em toda comparação há dois termos. A perfeita avaliação importa no conhecimento de ambos os termos, - o que se avalia e aquilo em função do que se faz a avaliação.
Por derivação, se diz aval o compromisso de alguém, - por isso denominado avalista, - em favor de outro, que, ao assumir uma dívida, garante por ele pagá-la, no caso de descomprimento.
Que coisas avaliar? Todas as coisas! Ter valor é uma propriedade dita transcendental, que afeta a todo o ser. Tão só o não-ser é um desvalor. O mal é pois uma ausência do bem, e não uma coisa positiva. A partir dali, teremos a sabedoria global da mundivisão!
Mas sobretudo temos de aprender avaliar a nós mesmos! Dali resulta a segurança pessoal sobre o que somos e sobre o que devemos ser.
Efetivamente, precisamos nós mesmos nos avaliar, a fim de não depender da avaliação que outros nos façam. Esta avaliação a partir dos outros, - quando positiva - pode assumir o caráter de elogio. Como se sabe, psicologicamente o elogio ajuda a manter o status e mesmo pode levar a novos resultados.
Ainda que valha muito o crédito que os outros nos dão, importa contudo firmar nossa segurança pessoal em nós mesmos, pelo pensamento crítico perfeito sobre os padrões da conduta e sobre o que já conseguimos realizar (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Assim é o vulgo: pouco avalia em função à verdade, muito a partir da mera opinião”- Sic est vulgus: ex veritate pauca, ex opinione multa aéstimat (Cícero, Pio Róscio Comoedo, 10, 20).

3. “Nós nos julgamos pelo que propomos. Os outros nos julgam pelo que fizemos” (Henry Longfellow, 1807-1882, poeta norte-americano). (Diário Catarinense, 12-10-2002).
4. “Os homens são avaliados não pelo que são e sim pelo que aparentam” (Litton, Money, I, 1) (D C).
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5. “Os chefes não costumam dar tapinhas nas costas de quem faz o trabalho bem feito, só aparecem quando há algo errado ou coisa mais grave. Quando há silêncio o trabalho vai bem, o funcionário vai bem... O melhor elogio vem de fora, vem dos clientes, dos amigos, dos consumidores do nosso trabalho. É preciso que os trabalhadores tenham isso na cabeça” (Luiz Carlos Prates, Diário Catarinense, Florianópolis, 3-7-2002).

6. "Você já se deu conta, de que quando se compara com outras pessoas, tende a se avaliar por menos?
Quando você se compara e se acha menor, sem graça, sem o talento da outra pessoa, você esquece que em alguma coisa é melhor que ela. É por isso que as avaliações são perigosas, elas costumam ser pesadas pela balança da nossa auto-estima. E se, por qualquer razão, fomos arranhados pela vida, tudo nos parecerá cinza, os outros serão melhores, as mulheres mais bonitas e os homens mais qualificados. Ilusão de ótica.
Vivemos esquecendo de nossas virtudes, elas não poucas, elas são, isso sim, muitas vezes sombreadas pelo exagero dos nossos olhos diante das belezas e talentos alheios. Os outros, quando, de fato, têm algum talento que não temos ou são, para os conceitos dominantes, mais bonitos, podem não ter a nossa sensibilidade, o nosso altruísmo a nossa simpatia, o nosso bom coração, ou qualquer virtude que teimamos em diminuir em nós.
Temos que tomar os outros como modelos, como exemplos, quando for o caso, jamais tomá-los como fonte de comparações que nos levem ao sofrimento.
Comparações que nos enfiam terra adentro, só nos fazem sofrer" (Luiz Carlos Prates, Ibidem, 8-11-2003).


AVARENTO. AVAREZA. AVARO. 1080.
(vd Poupar) (vd Dinheiro). (vd Rico). (vd Cobiça).

1. Avaro é o indivíduo apegado aos bens, ao mesmo tempo que é ávido de outros e outros mais. Etimologicamente aváro e ávido derivam de um mesmo termo fundamental ítalo-céltico.
Próximo de avareza se encontram os conceitos de poupança, economia, reserva de bens, cujo sentido é positivo. Não se deve confundir com a avareza o esforço econômico a que todo o cidadão se deve dedicar, porquanto o econômico tem não somente sentido pessoal, como também social.
No passado se tem pregado os valores da pobreza e o desprendimento dos bens. Dali haverem sido algumas sentenças muito radicais contra os avaros e também contra os que dignamente se dedicaram à prosperidade econômica (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Avarento rico, não tem afim [parente]”- Affinem nullum dives avarus habet (dizer latino).
3. “O obcecado amor pelo ouro conduz a toda a maldade”- Auri caecus amor ducit in omnes nefas (Rutilius Numatianus, 358).
4. “A que maldades não obrigas os mortais corações, ó maldita fome do ouro?” – Quid non mortália péctora cogis / auri sacra fames? (Virgílio, Eneida, 3, 57). Cita-se também pela última parte “Maldita fome do ouro” – Auri sacra fames.
5. “Ao avaro falta tudo; ao pobre, pouco; ao sábio, nada”- Avaro omnia desunt, ínopi pauca, sapienti nihil” (dizer latino).
Similar: “Ao pobre, faltam-lhe muitas coisas, mas ao avarento faltam todas” – Desunt inópiae multa, avarítiae ómnia (Publílio Siro, Senténtiae, 441)”.
6. “A avareza é a raiz de todos os males”- Avarítia est radix ómnium malorum” (dizer latino).
7. “A avareza e a arrogância são os vícios principais dos poderosos” - Avarítia et arrogántia praecípua validiorum vítia (Tácito, História, 1, 51, 7).
8. “A avareza é a mais terrível praga do gênero humano”- Avarítia vehementíssima géneris humani pestis (Sêneca, Consolátio ad Helviam matrem, 13, 3).
9. “Ao avaro falta tudo [Não sabe usufruir do que possui]” - Avarítiae desunt ómnia (Publílio Siro, Sententiae).
10. “A avareza impele o homem para qualquer maldade” – Avarítia hóminem ad quodvis malefícium ímpellit (Aulus Gélius, Ad Herénium, 2, 22, 34).
11. “Se quereis erradicar a avareza, deveis erradicar a mãe dela, a luxúria”- Avaritiam si tóllere vultis, mater ejus est tollenda, luxúries (Cícero, De oratore, 240, 171).
12. “Nada há mais maldoso [criminoso] que um avarento”-Avaro nihil est sceléstius (Bíblia, Vulgata latina: Ecl.10, 9).
13. “O dinheiro provoca o avarento, não o sacia”- Avarum írritat, non sátiat pecúnia (Publílio Siro, Sententiae).
14. “O espírito avaro não se sacia com lucro nenhum”- Avarus ánimus nullo satiatur lucro” (Publílio Siro, Senténtae).
15. “O avaro é o guarda e não o senhor do ouro”- Avarus auri custos, non dóminus (Fedro, Fabulae, 4, 17).
16. “O avaro tem por Deus o ouro”- Avarus aurum Deum habet (dizer latino).
17. “O avaro é a causa de sua própria miséria” – Avarus ipse misériae causa est suae (Publílio Siro, Senténtiae).
18. “O avaro não pratica boa ação senão quando morre”- Avarus nisi cum móritur, nil recte fácit (Fedro, Fabulae, 4, 17) (seu espólio é repartido).
19. “Dorme sobre seus tesouros trancafiados” – Clausis thesauris íncubat (Quintiliano, 10, 1, 2) (dito do avarento).
20. “Quem segue as pegadas da avareza, conturba sua casa” - Conturbat domum suam qui sectatur avarítiam (Bíblia, Vulgata latina: Provérbios, 15, 27).
21.“Sempre que recompensas o avaro, o convidas a te prejudicar” - Cum das avaro práemium, ut nóceat rogas (Publílio Siro, Senténtiae).
22. “Deita-se sobre o ouro enterrado” - De fosso íncubat auro (dizer latino, aludindo à extrema avareza).
23. “Casa da avareza, casa da tristeza” - Domus avarítiae, domus tristítiae (dizer latino).
24. “A avareza é a maior pobreza”- Máxima egestas avarítia (dizer latino).
25. “Ao avarento, nunca lhe faltam pretextos para negar”- Negandi causa avaro nunquam déficit (Publílio Siro, Sententiae).
26. “Não são as riquezas que servem ao avarento, mas é o avarento quem serve às riquezas”- Non avaro divítiae, sed divítiis avarus servit (dizer latino).
27. “A avareza é a mãe de todo a perversidade [improbidade]”- Omnis improbitatis mater est avarítia (Provérbio medieval).
28. “A avareza é a raiz de todos os vícios” – Ómnium vitiorum fundamentum avarítia est (dizer latino).
29. “A pai avarento sucede filho pródigo [perdulário]”- Pater avarus, fílius pródigus (Harmonii Marsi, séc. XV).
30. “Ao avaro tanto lhe falta o que tem, quanto o que não tem” – Tam deest avaro quod habet quam quod non habet (Publílio Siro, Sententiae).
31. “Ninguém te pergunta donde procedem tuas riquezas, mas que é preciso ser rico”- Unde habeas quaerit nemo, sed oporte habere (Juvenal, 14, 217).
32. “O tímido chama a si mesmo de cauteloso, o avaro de parcimonioso” – Tímidus vocat se cautum, avarus parcum (Publílio Siro, Sententiae).
33. “O dinheiro do avarento duas vezes vai à feira” (E. P.).
34. “O dinheiro excita o avarento, mas não o sacia” (P. Ciro) (D C).
35. “A maior glória de quem cultiva a avareza é poder ganhar, ter para guardar, nada pedir, e jamais gastar” (Antônio de Guevara, Epístolas familiares, 1-a. parte, Ep., 49).
36. “O mais rico de todos os homens é o econômico, o mais pobre, o avarento” (Champfort, Maximes et pensées, II, 6 5) (D C).
37 . “Como o porco, o avarento só é bom depois de morto” (E. P., com alteração).
38. “O avarento carece tanto do que tem, como do que não tem” (Antônio Rivarol, Maximes et pensées morales) (D C).
39. “Se um avaro possuísse o sol, deixaria o universo às escuras para evitar que seu tesouro se gastasse” (José Ingenieros. S. F. ).
40. “O avarento é o verdugo de si mesmo” (Fedro, Fab. Liv. I).
41. “O avarento raramente finaliza os seus dias sem lágrimas” (La Fontaine, Fab.16, Le trésor et les deux hommes) (D C).
42. “A avareza dos pais prepara a prodigalidade dos filhos” (Honoré Balzac, O contrato matrimonial).
43. “Filho de avarento sai pródigo” (E. P.).
44. “O pai ganha, o filho bota fora, o neto pede esmola” (E. P.).
45. “Pais ricos, filhos nobres, netos pobres” (E. P.).
46. “Depois de um bom poupador, um bom gastador” (E. P.).
47. “O avaro antes prefere que o sol fosse de ouro para cunhar, do que ter luz para ver e viver” (Guinon) (D C).
48. “Na arca do avarento o diabo jaz dentro” (E. P.).
49. A avareza amesquinha. “Não se pode imaginar uma baixaria da qual o avarento não seja capaz” (Knigge) (D C).
50. "O avaro não tem e o pródigo não terá" (E. P.).
32. “O avarento por um real perde um cento” (E. P).


AVE. AVES. AVICULTURA. 1085.
(vd Pássaro). (vd Andorinha)

1. A ave é antes de tudo animal que tem asas, de que a maioria voa com facilidade, enquanto outras mal se aproveitam delas.
A capacidade de voar é uma característica da evolução animal dos ovíparos, que não ocorreu no ser humano, um mamífero bastante evoluído em outros aspectos, sobretudo em inteligência. Dada sua inteligência, compensou-se o ser humano com as asas mecânicas do avião.
Sobretudo porque voam, as aves encantam e despertam o voo poético das imagens da nossa nossa fantasia (Evaldo Pauli, Ad hoc).

3. “Pelo canto se conhece a ave”- E cantu dignóscitur avis (dizer latino).
4. “O homem nasceu para trabalhar; a ave, para voar”- Homo ad laborem natus et avis ad volatum (Dizer latino).
5. “A ave evita aquelas coisas que muito parecem redes” - Quae nimis apparent rétia, vitat avis (Ovídio, Remédia Amoris, 516).
6. Maviosos passarinhos.
7. “Um bando fugitivo
de pássaros cortando o amplo espaço azulado,
lembra na profusão das asas, um punhado
de flores que do galho arrebatasse o vento”
(Ana Amélia C. de Mendonça, Tarde) (D C).
8. “Lembram-me notas em pautas
os vultozinhos esguios
das andorinhas incautas
nos telegráficos fios”... (Goulart de Andrade, Sobre a névoa verdejante) (D C).
9. “Sobre o coqueiro os sabiás trinavam
como notas de flauta...” (Junqueira Freire, Dortinca) (D C).==
10. “O pardo sabiá, flauta dos rios” (Araújo de Porto Alegre, Colombo) (D C).
11. “E o sabiá, lá no galho
lá na laranjeira, serena,
cantava, como se fosse
uma viola de pena!” (Catulo da Paixão Cearense, O marroeiro) (D C).=
12. “Os beja-flores em festa
com o sol, com a luz, com os rumores,
saem da verde floresta
como um punhado de flores” (Alberto de Oliveira, Beija-flores) (D C).
13. “Como topázio vivo, um beija-flor corisca” (Pethion de Villar, O autóctone).
14. “Cada ave, com asas estendidas, é um livro de duas folhas abertas no céu. Protejamos esse livro. E aumentemos com essa proteção a miúda biblioteca” (Humberto de Campos, Sombras que sofrem, 161) ( D C).


AVENTURA. AVENTURAS. AVENTUREIRO. 1090.
(vd Risco (1).

1. Originariamente, aventura (do latim adventura) é um atirar-se em busca da boa sorte, enfrentando os riscos e os esforços. Derivando para contextos vários, aventura passou a significar meter-se em situações aparentemente favoráveis, todavia capazes de surpreender com o inesperado insucesso.
Costumam as pessoas meter-se em aventuras, como fuga de uma situação malsucedida anterior. As vezes a situação é relativamente boa, mas o desejo incontido de algo bem maior, leva a uma aventura.
Como risco, seja a aventura ao menos proporcional com a necessidade de busca de uma sorte maior (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Antes de entrar em qualquer aventura, convém primeiramente verificar se a porta de saída não é muito estreita” (Dante Veoléci) (em S. F.).
3. “Quando uma aventura nos encoleriza, devemos, antes de qualquer outra coisa, dizer o nosso alfabeto” (Molière, L’école des femmes, ato II, cena 4) (D C).
4. “Sem o senso moral, a audácia é a alavanca das grandes aventuras” (Ruy Barbosa, Colunas de fogo, 65) (D C).

+ + +
5. "O que é uma vida de aventuras? Estou para dizer que todo o aventureiro, desses tomados de fato como aventureiros, é um fujão, um frouxo, um medroso que foge dos seus fantasmas, que nos engana com seus enganos.
A vida de aventuras não nos necessita que saiamos pelo mundo, que troquemos de cônjuge, de emprego, que possamos comprar todas as futilidades da vida material.
A aventura está em saber que o mundo que nos pode proteger ou dar felicidades, está dentro de nós.É simplória verdade da vida. Sair para aventuras é tentar fugir da própria sombra. O aventureiro é um infeliz. Você pode ser um grande aventureiro/a de si mesmo/a. Aí, onde você está agora, com o que tem. E sem fugir" (Luiz Carlos Prates, em Diário Catarinense, Florianópolis, 21-12-2003).


AVIÃO. AVIÕES. AVIADOR. AERONAVE. AERONÁUTICA. 1094.
(vd Balão). (vd Ave).

1. Avião é um aparato voador de transporte impulsionado mecanicamente, ou pelo giro de hélices, ou pelo impulso de turbinas. Serve sobretudo como transporte rápido de passageiros e cargas. Tem servido também na guerra, em ações de bombardeio e transporte de soldados.
Um das grandes invenções do século 20, a validade do avião é incontestável, havendo consolidado a globalização (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. Vistas de avião: “As aldeias se sucedem como se fossem presépios enfeitando as curvas dos rios, dando nome às gares” (Alexandre Konder).


ÁVIDEZ. ÁVIDO. 1098.
(vd Fome). (vd Sede).

1. Avidez se diz de um desejo incontido, ardente. No caso, come-se com avidez. Um jornalista é ávido por notícias.

2. “O valor [a valentia] ama o perigo” – Ávida est perículi virtus (Sêneca, De providéntia, 4, 4).
3. “Por natureza os homens são ávidos de novidade”- Natura hóminum novitatis ávida (Plínio, História naturalis, 12, 5).
4. “O observador ávido de saber, perscruta e pesquisa cada detalhe”- Curiosus spectato éxcutit síngula et quaerit (Sêneca, Quaestiones naturales, 11).
5. “Não passa de injustiça chamar ao dicionário de Amansa Burro. Na verdade, o dicionário é um amigão, amigão dos ávidos de saber, dos ambiciosos da correção. O apelido, aí sim, lhe foi dado por algum burro” (Luiz Carlos Prates, Ibidem, 17-8-2002).

AVÔ. AVÓ. AVÓS. 1103.
(vd Pais). (vd Parentes).

1. Os filhos são denominados assim em relação aos seus pais, e netos em relação aos pais destes, os avós.
Costumam os avós ter influência no grupo familiar, dali nascendo uma tradição de grupo.
Ainda que as vezes um tanto heterogênea, a tradição de família costuma educar para a tolerância e a convivência social como um todo (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “Os netos colherão teus frutos”- Carpent tua poma nepotes (Vigílio, Écloga, 9, 50).
3.“Se você quiser civilizar um homem, comece pelo avô dele” (Victor Hugo, 1802-1885), escritor francês, romântico).

[AXIOMA] (vd Princípio (2).


AZAR. AZARADO. AZARENTO. 1110.
(vd Probabilidade). (vd Sorte). (vd Milagre), (vd Jogo).

Azar se diz do que acontece por pura casualidade, sem que tenha havido causa proporcional ao acontecido.
A casualidade pode acontecer numa direção indesejada; então sobretudo se diz azar. E pode acontecer numa direção desejada; então usa denominar-se boa sorte, ou simplesmente sorte, ou até milagre (termo que significa admirável).
Trata-se de uma crença gratúita, todavia facil de se admitir. O que efetivamente ocorre, é o desconhecimento de fatores, por vezes mínimos, que determinam um acontecimento.
Qualquer seja a direção do azar, ocorre um momento em que uma causa mais forte interfere, sem que seja notada, que põe o efeito em marcha. E é naquele momento sobretudo que algo ocorre, sem que o possamos determinar.
Quando o suposto azar ocorre de maneira favorável em um momento dramáticamente difícil, não faltam aqueles que o interpretam como sendo um milagre.
Se pudéssemos determinar todas as circunstâncias logísticas de um acontecimento, -como aquele das máquinas do jogo de azar, - teríamos o mapeamente das causas proporcionais que conduzem o jogo até o seu final, sem um efetivo azar (Evaldo Pauli, Ad hoc).

2. “A palavra casualidade é desprovida de sentido e foi inventada para exprimir a ignorância humana sobre certas coisas” (Giuseppe Mazzini, Opere, 18, 8) (D C).
3. “A casualidade é sempre atual; mantém sempre n’água o teu anzol. No remanso onde menos esperares, está o teu peixe” (Ovídio, Ars amandi, 3-25).
4. “Em tudo que se tem, é preciso contar com 2/3 de razão e com 1/3 de casualidade; se aumentares a primeira fração, serás covarde; se aumentares a segunda, serás temerário” (Napoleão Bonaparte, Pensées) (D C).
5. “Somente aqueles que nada esperam do azar, são senhores do seu destino” (Mattew Arnold, Resignation, verso 245).(D C).
6. “O azar é Deus atrás do anonimato” (Édouard Pailleron, Pensées, 245) (D C).
+ + +
7. “O pessoal da Nasa falou de várias hipóteses para a explosão da nave espacial Colúmbia. Mas em nenhum momento falou em azar. Azar não faz parte da ciência. Azar faz parte da vida dos crentes das simpatias, dos religiosos, dos que evocam os nadas para conseguir vantagens. Quem vive com o pé no chão, não vê fantasmas onde houve ou há incompetência” (Luiz Carlos Prates, Diário Catarinense, Florianópolis, 13-2-2003).
8. "Ninguém pode, até hoje, provar da existência da sorte ou do azar. Ninguém. Sorte e azar são questões metafísicas, estão acima dos laboratórios, não podem ser provadas, são tão impalpáveis, quanto uma idéia" (Luiz Carlos Prates, Ibidem, 1-7-2003).

AZEDAR. AZEDO. 1113
(vd Amargo).

1. Azedo é a qualidade do que é ácido como o vinagre (= acetum, no latim). Significa o estado do que se arruinou por fermentação. Tem o azedo um sentido próximo de amargo, com a diferença que azedar indica o estragar, ao passo que amargo se opõe mais diretamente ao doce.
Por analogia, o azedo se diz do estado de espírito de quem se alterou.
Conserve a estabilidade de espírito, sem derivar para o azedume, e assim também prefira o doce ao amargo (E. Pauli, Ad hoc).

2. “Noivado é vinho. Casamento é vinagre. O marido é o noivo que azedou” (Humberto de Campos, Sombras que sofrem, 200) (D C).
3. “Garapa dada não é azeda” (E. P.).


AZUL. 1120.
(vd Cor).

1. O azul é uma das três cores fundamentais, juntamente com o amarelo e o vermelho. Em mistura com o amarelo forma o verde, e em mistura com o vermelho forma o violeta.

a). O efeito psicológico do azul é acalmante e tranquilizante. A prática da cromoterapia costuma iniciar pelo azul e terminar por ele.
As condições que determinam a psicologia do azul estão em sua fraca luminosidade e pouco brilho, que se situam mais ou menos na linha desejável pela vista. Por esta razão, o azul não cansa e tende a tranquilizar.
Apenas o azul bem carregado, com tonalidades escuras tomadas ao preto, oprime. Com tonalidades claras o azul se alteia no agrado à vista. Com estas tonalidades claras, o azul admite áreas amplas, sem cansar o apreciador. É o caso do céu vastamente azul por efeito da camada imensa do ar puro, sem humidade e sem núvens.
Penetra o azul o plano sobre o qual se encontra. Por isso, alarga os ambientes. Fogem os fundos, tal como também sucede por efeito do violeta e do verde. Os recintos pintados de azul parecem grandes.
Apresenta contudo mais brilho o azul, que o verde e o violeta. Por esta razão os efeitos psicodinâmicos do azul são insistentes na direção das cores quentes, mais do que os efeitos das cores frias, como o violeta e o verde.
Nas fábricas se recomenda para as paredes cores com tons azuis ou verde-claros. Desrecomenda-se o amarelo, sobretudo em climas quentes.

b). A cor preferida, - como parecem dizer os resultados estatísticos - é o azul, seguida pela vermelha, verde, branca.
A característica dos olhos azuis, mais frequente entre os nórdicos (germanos e eslavos), é prestigiosa, não somente pela raridade, mas também pelo geral apreço dado ao azul, bem como ainda porque se trata de uma cor, o que não acontece com o preto (ausência de cor) dos demais olhos.
Sangue azul indica os nobres, mais raros. Em nossa era republicana a inutilidade ingênua, dos que ainda se consideram nobres, já não prestigia tanto quanto antigamente a cor azul, mas ainda contribui para a curiosidade.

c) O associativo do azul ocorre amplamente, - em parte por efeito de vivência, - causado pelo céu azul, pelo mar azul e pelas semelhanças psicodinâmicas entre as qualidades desta cor e várias situações humanas.
O azul do céu associa a oração, a serenidade, a meditação, a santidade, a perfeição, o infinito, a eternidade, enfim toda a mitologia sobre um transcendente.
O azul do mar (azul-marinho) associa-se com a vastidão, a profundeza, o mistério, o místico.
A tranquilidade do azul assemelha-se à diversas situações humanas e que por isso são associadas. Por este lado, o azul se associa com a felicidade (que é tranquila). Na expressão “tudo azul” ocorre a associação de “tudo bem”, “tudo feliz”.
No plano metafísico o azul do céu dividiu as opiniões.
Em uns, o céu azul gerou a imagem de um verdadeiro céu (morada exclusiva de Deus, dos anjos e dos justos).
Em outros, - mais críticos, - gerou duplo questionamento. Em primeiro lugar, porque Deus não teria feito aquelas revelações a ele atribuídas. Em segundo lugar, porque Deus infinito não teria operado com tanto simplismo.
O azul não é um questionamento tão azul quanto parece à primeira vista. Não é fácil determinar o que é o azul em si mesmo. Discorda-se sobre o azul no que se refere à preferência. Mais ainda se discorda sobre o que o céu azul sugeriu às religiões tradicionais que persistem na modernidade (Evaldo Pauli, Ad hoc).


1. "A terra é azul" (dizer de Gagárin, 1934-1968), astonauta russo, o primeiro homem a circular a terra em voo orbital, em lançamento de 12-4-1961).
2. “O céu vermelho – reveste-se de azul e névoas alvadias – como se fosse um vastíssimo lençol! – à espera do nascimento do sol” (Carlos Maul, Canto primaveril) (D C).
+ + +
3. “Na roda gigante da vida, por vezes estamos lá em cima, eufóricos, vendo tudo do alto, só céu azul. Mas depois a roda cai, vemos tudo por baixo, sem graça e, aí, me pergunto, - onde está a verdade, lá em cima ou aqui embaixo? E aí, para aonde vamos? Motivos da fé? Porque preciso acreditar em ‘revelações’ não me dadas a comprovar? Por que crer em livros ‘sacros’ escritos por homens, iguais a mim, exaustos e mal-intencionados? Não me conforto com palavras. Provas? Ninguém jamais as teve ou terá” (Luiz Carlos Prates, Ibidem, 22-10-2002).


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