
ENCICLOPÉDIA
SIMPOZIO
(Versão em Português do original em Esperanto)
© Copyright 1997 Evaldo
Pauli
ESTÉTICA DAS CORES.
APRESENTAÇÃO
TÉCNICA DO TEXTO.
3911y003.
4. Estética das cores, no sistema da Enciclopédia Simpozio,
é um texto híper, porque assume a feição
de tratado, polarizando em torno de um verbete central os demais
artigos com ele relacionados.
É ainda um texto mega (e não micro), enquanto
apresenta os artigos em dimensão grande.
Dada a afinidade da Estética das cores com outras estéticas,
ele ainda se integra no conjunto denominado Mega estética.
Por último, o conjunto Megaestética se encontra no
quadro mais vasto da Enciclopédia de Filosofia, que é
a subunidade 1, no grupo das 10 subunidades, que constituem a Enciclopédia
Simpozio.
Importa anotar, que a 4-a subunidade é a que está dedicada
às artes, línguas e literatura, com a qual evidentemente
também se relaciona a estética, embora tratada esta como
filosofia, ao passo que lá como ciência positiva.
Na referida 4-a subunidade se encontram os quadros de pintura citados em
Estética das cores. Na Internet a presente Estética
das cores não apresenta aqueles quadros. Mas, quando a mencionada
4-a. subunidade for disponibilizada na rede, lá se encontrarão
os citados quadros de pintura.
5. A numeração dos artigos do texto híper Estética
das cores está processada em; 8 dígitos, com a letra
y no meio do campo.
Finalmente as três cifras finais redividem os artigos, com opções
de 000 até 999. O texto final denominado Estilos recentes apresenta
uma numeração independente da usada aqui em Estética
das cores.
No curso interno do texto mega os três dígitos finais
podem ser citados sem os dígitos precedentes. Mas, sempre que forem
citados a partir de fora deste texto, hão de estar todos os dígitos.
INTRODUÇÃO
GERAL À
" ESTÉTICA
DAS CORES ".
3911y008.
§ 1. Natureza
da estética da pintura.
3911y009.
10. A cor, por si só, ainda não é a arte da pintura.
Há cores nos objetos, nas plantas, no espectro, no arco-íris,
nas latas de tinta expostas nos armazéns.
No momento em que a cor transcende a capacidade material e se ergue a nos
falar, principia a arte. Esta cor se torna portadora de expressão.
A cor portadora é um significante. A expressão é
um significado.
No seu instante estático, como a das tintas aplicadas à superfície
de uma tela, a expressão em cor se diz arte da pintura. Mas,
suponhamos que as cores ingressem em movimento de substituição,
como sucede no cinema e na televisão, continua a haver fundamentalmente
uma arte da pintura, todavia em aliança com outras artes.
11. Há uma filosofia geral da arte e uma filosofia especial
da arte. Trata a filosofia geral da arte os temas de interesse de todas
as artes em conjunto, como por exemplo do conceito mesmo da arte como expressão.
Mostra ainda como as diferentes matérias distinguem as artes em
espécies, como pintura, escultura, música, linguagem.
A filosofia geral da arte importa aqui apenas, enquanto fornece
conceitos que agora já não mais compete discutir, mas apenas
relembrar, para com eles estar coerentes. Divergências que lá
tenham existido podem ser mencionadas, em casos especiais, como alternativas,
e de que deveremos estar conscientes.
A filosofia especial especial da arte trata uma a uma as diferentes
artes. Neste sentido estamos situados aqui em uma filosofia especial, a
qual é a da arte que exprime por meio de cores.
12. O instante material da cor. A estética da pintura como arte
não se exerce a respeito do instante material da cor, quando esta
é apenas portadora, isto é, apenas um significante.
Contudo, é preciso estudar esta cor em si mesma, a fim de, a partir
dela criar a expressão. Importa situar-nos no momento antes que
a cor se converta em expressão, antes que ela transcenda transcenda
a si mesma e se converta em arte. Aprendamos a viver a cor nos instantes
em que é apenas cor.
Uma ciência da cor (ou teoria da cor) examina esta qualidade nos
seus instantes de determinação absoluta pré-artística,
pré-estética. O mesmo acontece com o som que se aproveita
para a expressão musical; uma ciência do som (teoria do som)
se requer para o conhecimento preliminar do mesmo.
Ainda que o artista estude primeiramente a cor e o som em si mesmos, do
ponto de vista da física, da gnosiologia e da psicologia, - este
estudo teórico não o faz senão funcionalmente, enquanto,
como elementos portadores, se prestam à arte. É assim que
estuda a cor como matéria da pintura, o som como matéria
da música, a forma como matéria da escultura.
A ciência da cor reúne várias secções,
das quais uma é a física da cor, a outra a gnosiologia
da cor, enfim, uma outra a psicologia da cor (inclusive psicodinâmica
da cor). Os esclarecimentos teóricos obtidos por tais ciências,
passam a ser colocados a serviço da expressão artística.
Semelhantemente, há uma física do som, uma gnosiologia do
som, uma psicologia do som (inclusive psicodinâmica do som). Aquilo
que se denomina vulgarmente de teoria musical, consiste quase integralmente
em psicologia do som; ainda que pragmaticamente esta teoria musical
se destine ao músico, ela não passa de uma preliminar à
mesma música.
Já se vê que a filosofia da arte da cor não visa ao
estudo em si mesmo da cor fisicamente, nem gnosiologicamente, nem mesmo
psicologicamente. Pressupõe tudo isto, para, em um novo tempo, aproveitar
esta cor como base material da expressão artística.
Seja lembrada aqui a divisão das ciências em teóricas
e formais (lógica, administração, técnica).
As ciências teóricas estudam as coisas como entidades. As
ciências técnicas, aproveitando as entidades conhecidas, as
colocam no fluxo de um sistema com vistas a resultados.
Neste sentido a arte é uma técnica, porque põe elementos
em sistema para obter a expressão. Consequentemente, uma boa arte,
por exemplo, a pintura, requer o conhecimento preliminar do material aproveitado,
por exemplo, a cor.
Ainda que o artista se preocupe com o objetivo final principal da expressão,
poderá determinar os elementos de que esta expressão necessitou.
Assim é que uma ordem interna do estudo da arte principia pela expressão,
o estudo desta acaba retornando ao elemento material portador para um exame
teórico dos elementos explicativos que a geraram.
13. Uma filosofia da arte da cor tem por objetivo primeiro esclarecer aquilo
que na arte pertence ao meramente inteligível, e que se encontra
para além daquilo que também se constata experimentalmente
na obra. Sobretudo a expressão reclama as explicações
filosóficas.
Algo acontece na arte que a ciência experimental não consegue
esclarecer diretamente, por meio de uma compreensão imediata; a
ciência, no caso, verifica os efeitos, sem o porquê intrínseco.
A filosofia da arte vai desde o que a expressão tem de mais essencial,
até as distinções entre prosa e poesia, gêneros
de expressão, propriedades, estilos. Aliás, não exclui
uma consideração filosófica sobre o material portador,
porque a partir dele mostra como a expressão nasce por efeito
formal (isto é, essencial), não ficando só na
verificação empírica deste efeito. Assim por exemplo,
por efeito formal, o semelhante acusa o assemelhado. Este efeito é
diverso daquele que se dá na ordem da causa eficiente, onde o efeito
se separa, como produto.
Apresentando a filosofia da pintura de maneira integrada com outras ciências,
tanto as formais, como a da arte, como com as ciência teóricas,
resulta estender a estética das cores às áreas vizinhas.
14. Entre filosofia e ciência positiva. Numa introdução
importa desde logo advertir para a diferença dos dois gêneros
de ciências: filosóficas e positivas (ou experimentais).
Há espécies de ciências e gêneros da ciência.
Já mencionamos os dois gêneros de ciências, chamados
teóricas, tratando da entidade mesma das coisas, e ciências
formais, tratando apenas do fluxo dos sistemas do pensar, agir e
fazer.
Sempre mencionados, os dois gêneros de ciências – filosóficas
e positivas – são de grande repercussão, porque cada um tem
os seus caminhos e neles fornece informações muito diferenciadas.
A distinção é ainda polêmica, em vista da contestação
contra a filosofia, a qual, por isso, tem de defender a validade geral
de suas afirmações.
Pretende a filosofia poder penetrar a intrinsecidade meramente inteligível
das coisas; define, pois, sobre a essência e a substância,
inclusive sobre as relações a partir da coisa em si.
Diferentemente, a ciência positiva se limitam ao ser do que os sentidos
constatam exteriormente; assim, por exemplo, causa e efeito significam
apenas sucessão. A ciência empírica da arte não
estuda mais do que as manifestações artísticas em
função ao tempo, às raças, ao clima, ao material
empregado; ou seja, estuda as manifestações exteriores do
fluxo dos elementos portadores da expressão.
Ainda que por vezes o positivismo chame de «filosofia da arte»
a esta modalidade de estudos, ela não passa de uma ciência
positiva da arte. Segundo esta orientação está escrito
o volumoso livro de Taine: Filosofia da arte (1865).
O elemento mais distante da filosofia da arte é o significante
(o portador do significado). Quando estudado em si mesmo, a noção
sobre o significante se isola como ciência teórica. Mas toda
esta teoria esclarece o uso meramente formal da tecnologia da expressão.
O significante, apesar de ser apenas o portador da significação,
exerce alta influência sobre a significação.
Somente as qualidades sensíveis conseguem exercer o papel
de significar. São qualidades sensíveis: a cor (utilizada
pela pintura), o som (com que se faz a música), as formas plásticas
ou espaciais (que se utilizam na escultura), os símbolos (que são
qualidades sensíveis com que se criam os equivalente convencionais
das expressões da linguagem e outras). É que somente as qualidades
são capazes de exercer a semelhança e, portanto, a mímese
geradora da expressão.
A filosofia da arte em cor se restringe a uma só qualidade sensível,
– a cor, – especialmente como se usa na pintura. Mas, os problemas gerais
da arte se encontram pelo lado da significação e não
do significante, apesar da alta influência deste sobre o todo.
Por isso, as questões da arte da pintura implicam em abordagens
que derivam dos conhecimentos gerais sobre a arte simplesmente. Há,
pois, na base de todas as filosofias especificas de cada arte, a filosofia
geral da arte (vd 0531y000).
De outra parte, estudando uma após outra a cada uma de todas as
espécies de arte, adquire-se um pensamento bastante vasto sobre
a arte como tal. Caminham as espécies de arte com notório
paralelismo, advertindo cada uma finalmente para a já referida filosofia
geral da arte.
15. Nomes da arte que expressa mediante cor. Considerando que a arte em
cor consegue, desde seu primeiro instante estático, notório
poder de expressão, sem precisar apelar ao movimento, adquire já
neste instante um nome. É quando se denomina pintura.
O mesmo já não ocorre com o som, pois este não exerce
importância no momento estático; o nome de música
indica a expressão, no momento quando os sons já se encontram
em desenvolvimento dinâmico.
A cor, ao tomar movimento, ultrapassando ao seu momento estático,
obtém novas e grandes possibilidades de expressão. Nesta
transcendência da pintura, se encontram o cinema, o teatro,
a televisão e mais formas eletrônicas da imagem colorida.
Note-se que em algumas artes a cor se associa à outras espécies
de expressão. É este aliás bem o caso do teatro, bem
como o da estátua colorida. Nestes casos as denominações
se tornam difusas.
Artes em cor é a expressão coletiva que reúne todas
as espécies de expressão do gênero.
16. O nome pintura (do latim pictura) significa originariamente
«untar com pez». Prende-se, sobretudo na origem, a uma técnica,
a saber a da aplicação de tintas. A raiz indo-européia
peik- significa «ornar», sentido que se encontra na
base de todos os seus derivados.
Atenda-se para estas outras palavras do gênero: picea (pinheiro
alvar, árvore resinosa), picaster (árvore de onde
dimana o pez), picatus (breado), piceatus (breado), piceus
(de pez, negro como pez), picare (brear, untar com pez), pictilis
(pintado, ornado de pintura), pictor (pintor), pictorius
(que pertence à pintura), picturatus (pintado com variedade
de cores), pictus (pintado, também bordado, como em picta
acu chlamys = vestido bordado).
Em alemão, pintura se diz Malerei (pronunciado «málerai»).
Diz-se também Malerkunst (arte da pintura). O étimo
indo-europeu mel- ora significa «vermelho», ora «preto»;
por isso, ora poderá significar «colorir», ora «manchar».
No grego melas (preto) deu a composição melancolia
(de kholos = bílis).
Em latim mulleus significa «vermelho», como em mulleus
calceus (sapato vermelho, que era usado pelos patrícios). Daqui
sai mule = chinela, em francês.
Com o sentido de «pintar, colorindo», temos, enfim, em alemão
malen = pintar, Maler (pintor), Malerei (pintura),
Marlerkunst (arte da pintura).
Pelo exposto, o nome pintura dos latinos se prende mais à
técnica tomada ao pez; o nome Malerei, dos alemães,
diz respeito ao instrumento pictórico em si mesmo, a cor, sobretudo
a vermelha. Universalizou-se mais a forma latina, que deu no inglês
paint, no francês peintre, na língua internacional
Esperanto pentri (pintar).
§ 2°.
Valor da Estética da Pintura. 3911y018.
19. Atração preferencial da cor. Já antes de ser utilizada
como instrumento de expressão de mensagem, a cor exerce neste instante
pré-artístico uma importância psicodinâmica considerável.
A cor influi na alegria, no entusiasmo, no prazer, na calma, na sensação
de grandeza dos espaços.
Indiretamente, esta situação vai influir na importância
da mesma arte da pintura, bem como de todas as artes que utilizam a cor,
porquanto o contributo psicodinâmico as torna mais enfáticas
e convenientes. Suponha-se que estejamos a ler, e que, ao transitarmos
para uma nova página, esta apresente um clichê colorido; nestas
circunstância a atenção tende a ir primeiramente às
cores, para só depois retomar a leitura.
20. Maior poder da cor. Entre as qualidades que servem como instrumento
artístico, é a cor a que oferece mais capacidade de expressão.
O mesmo não acontece com o som musical que pouco consegue expressar
em seus instantes mais simples. Os sons falam apenas depois de organizados
em complexas aglutinações, que se sucedem.
As cores, já no seu instante estático, oferecem variada composição,
e que por isso, como já se advertiu, geram uma arte completa, a
pintura. Ao entrarem em movimento, como no cinema, exercem fantástico
poder de expressão. Com poucas cores a pintura expressa os animais
e as plantas, as flores e a vestes das pessoas, os edifícios e as
montanhas, os homens e as mulheres, o guarda e o carteiro, os jogadores
de futebol, os bailarinos, os truões e os cômicos.
Deve-se a capacidade da cor ao poder da vista, para ver diferenciações.
Sabemos que a vista humana não percebe todas as cores; dali se infere
que a pintura seria ainda mais poderosa no seu poder de expressão,
se a vista humana conseguísse desenvolver seu limiar para uma percepção
maior de cores, conforme parece acontecer em alguns animais.
Uma alteração genética bem calculada poderá
no futuro integrar os seres humanos neste outro patamar. Talvez isto ocorra
com seres humanos de outros planetas, e talvez mesmo esteja a longo prazo
programado para a evolução espontânea do dos humanos
de nosso globo terráqueo.
A arte da pintura somente perde para outra quando na comparação
não se atende aos mesmos critérios. Se se comparar a cor
estática com som em movimento, é possível que o som
consiga em numerosas oportunidades surpreender com sua força de
expressão.
Entretanto, se se mantiver o paralelismo da comparação do
estático com o estático, o dinâmico com o dinâmico,
não resta dúvida que a arte mediante a cor se avantajará.
Os recursos eletrônicos deram aliás à imagem eletrônica
uma versatilidade admirável.
21. A importância do estudo da estética das cores decorre
diretamente das mesmas cores, e da arte que as utiliza.
A estética das cores esclarece sobre a cor e sobretudo sobre a arte
da cor.
Habilita-nos a operar com esclarecimento com uma das mais expressivas artes.
Diz-nos como tratar o tema, - se à maneira classicista, - ou se
por outra maneira.
Ensina sobre o exato instrumento de expressão direta da prosa, e
sobre o expediente exato de expressão evocativa (associativa) da
poesia.
Diz-nos que propriedades regem a arte das artes. E ainda o que nela
ocorre apenas contingentemente como estilo.
Como se observa, por toda a parte ocorre um tilintar de razões que
nos movem a dar valor ao estudo da filosofia da arte da cor.
§ 3. Um
pouco de História. 3911y024.
25. Há uma longa história das artes plásticas e de
sua teorização. A história da pintura lugar proeminente,
mas não tanto a história de sua teorização.
Quando a literatura ainda não existia e nem sequer se estabelecera
o alfabeto, o homem já exercia a pintura com desembaraço.
Deveria, já então, haver teorias, que funcionavam entre os
pintores, embora não houvessem sido ainda passadas à forma
de tratados sobre a pintura.
Da história da teorização estética da pintura
se pergunta agora. Oportunamente, a propósito do estilo, se
abordarão mais situações históricas da mesma
arte da pintura (vd 760).
26. Mais cedo evoluiu a teorização da arte da linguagem que
a das outras. Na antiguidade grega não se encontra a teorização
sistemática da pintura, nas proporções como Aristóteles
escrevia tratados sobre retórica e poética, ou como Vitrúvio
discorreu sobre a arquitetura.
A arte da pintura, mais que as outras artes, depende da viva capacidade
visual do artista, que das peculiaridades inteletualizantes requeridas
pela adiantada expressão em letras, arquitetura e música.
A situação continua, hoje, com as mesmas dificuldades antigas.
Geralmente os que tratam teoricamente de estética da pintura, não
conseguem ir muito além do arrolamento concreto das criações
artísticas.
Os pintores efetivos se situam no plano concreto das obras da pintura,
não muito sabendo como subir aos conceitos da arte em geral.
É que a pintura consegue funcionar autônoma, sem aliar-se
às outras artes; cria, então, um mundo próprio, em
que até a linguagem usualmente é apenas sua. As outras artes,
como a música e a literatura, andam geralmente de mãos dadas
e por isso se desenvolvem com padrões similares. No canto, une-se
a poesia literária à música; os mesmos nomes que denominam
as composições poéticas, transitam geralmente para
as denominações musicais, pois dizemos hino para uma certa
composição de versos e também para um certo canto.
A arte mais próxima da pintura é a das formas, notadamente
da escultura. Em conjunto chamam-se artes plásticas. Não
obstante já ia adiantada a escultura, e os pintores ainda não
sabiam pintar o olho senão de frente. A rigor, esta questão
é ainda de formas. A pintura é instrumentalização
da cor. A teorização visando a cor em si mesma é muito
tardia.
Com os recursos eletrônicos, a cor e as formas puderam aliar-se mais
de perto com as demais artes, - muito mais do que no passado permitia o
teatro, - e assim a linguagem das artes tende a se unificar, bem como sua
teorização.
27. Os primeiros breves ensaios expositivos sobre a pintura já apareceram
na antiguidade grega e romana.
Do período pré-socrático sobram apenas fragmentos
teóricos sobre as artes plásticas, e que são contudo
alusões apreciáveis.
O filósofo Empédocles (c. 490-435 a. C.) opinou, que o quadro
tem valor estético, porque, pela graça e harmonia, deleita
a vista:
"Assim, os pintores fazem ressaltar melhor os desenhos, nos quadros dedicados
aos deuses, graças às cores variadas; escolhem pinturas multicores,
as misturas de maneira harmoniosa, tomando de uma algo mais, de outra algo
menos, e fazem desta maneira quadros que se assemelham a tudo quanto existe"
(Frag. 23 H. Diels).
Mais uma referência de Empédocles sobre a pintura se encontra
no fragmento 71.
Repetem-se as referências à pintura em Anaxágoras (frag.
4), como ainda no sofista Górgias e no sábio atomista Demócrito.
Igualmente Sófocles (496-406), poeta trágico, se referiu
às relações entre a expressão poética
e a pintura, para dizer que a poesia atende a perspectivas, ao passo que
a expressão em cor se orienta para a realidade visual integral.
O problema destas relações poéticas será mais
tarde objeto de discussão por parte de G. E. Lessing (Lacoonte,
1766) e Ed. Mueller (Geschichte der Theorie der Kunst bei den Alten,
Breslau, 1834).
Platão (427-347 a. C.) discutiu a legitimidade da pintura, a qual
teve em pouca conta, porque no seu entender seria apenas um simulacro das
coisas, cuja verdade estaria nos arquétipos eternos (Fedro,
276 e República 601).
Em tratando das sensações esclareceu sobre as cores, tentando
uma classificação (Timeu, 67c-68 d). Ocupou-se
com a técnica de criar o relevo (skiagrafia) na pintura (República
523 b e outros lugares).
O grande Aristóteles 384-322 a. C.), que deu amplo desenvolvimento
à estética da linguagem, ocupou-se menos com as artes plásticas;
nestas, menos com a pintura do que com a escultura. Insistindo sobre a
proporção das formas, advertiu para a maior beleza das coisas
grandes, que das pequenas; o princípio, efetivamente é válido
e logo passou a se realizar no período helênico-romano, com
a grandiloquência da urbanística e da arquitetura, da escultura
e finalmente da pintura.
Aristóteles ainda se ocupou com a perspectiva ilusionista da pintura;
nela atribui ao sombreado um papel especial; mas não se pronunciou
contra ela com as raivas da filosofia dualista de Platão. Também
afirmou que a pintura dispensa da exatidão demasiadamente meticulosa
e que a poderia até prejudicar (Retórica, III, 12,
1414 a). Entretanto, sua teoria das cores é menos exaustiva que
a de Platão.
Contudo, classificou Aristóteles sete cores principais, à
maneira das sete notas da escala musical. Distinguiu entre cores harmônicas
e desarmônicas (De sens. 3,349 b).
Durante o período helênico-romano continuam as pequenas referências
à pintura e às cores.
Ao lado destas poucas informações gregas, com a validade
de serem as primeiras da história, também restam alguns quadros
antigos da mesma, revelando sobre os respectivos estilos (vd 790).
28. No fim da Idade Média e Renascença a teorização
da pintura e, de um modo geral, das cores recebeu novos desenvolvimentos.
Progrediu sobretudo com o advento do humanismo e a renovação
do espírito clássico.
No início deste novo movimento está o florentino Giotto (1266-1337)
(vd 833), que deu fisionomia própria
à pintura ocidental, libertando-a da tradição linearista
bizantina, para lhe devolver o humano.
A Renascença, através dos pintores da escola flamenga, introduziu
a pintura com tinta a óleo (vd 143).
Restabeleceu a arte clássica, e criou, por assim dizer, um novo
tempo para pintura, tanto no sentido teórico, como no de sua criação.
29. A definitiva ciência da cor é moderna. Os descobrimentos
sobre a cor foram conseguidos sobretudo a partir do físico e filósofo
inglês Isaac Newton (1643-1727), com suas investigações
sobre a composição da luz e disco das cores.
Goethe (1749-1832), ainda contando parcos recursos modernos, já
escreveu uma obra apreciável, o seu Farbenlehre (Teoria da
cor).
A "estrela de Goethe" (vd 185) é
a organização das cores fundamentais sobre as pontas de ângulo
de um triângulo (azul, amarelo, vermelho), sobrepondo-se as cores
secundárias (laranja, verde, violeta), sobre as pontas de ângulo
de um outro triângulo. A sobreposição dos triângulos
resultou na estrela de seis pontas.
Nova organização cromática, em forma de pirâmide,
com classificação ampla de todas as cores, foi tentado em
1772 pelo físico Lambert.
Em 1823, Chevreul fez uma disposição radial.
Em 1878, Hering organizou as cores a partir de um triângulo, subdividido
em quadros, a que Osvald dará novos desenvolvimentos.
Albert H. Munsell, americano, em 1912, estabeleceu uma classificação
bastante prática e convincente (vd 186).
30. Revolução na estética das cores. Também
os conceitos de estética das cores tomaram novos desenvolvimentos
nos tempos modernos, sobretudo depois da revolução industrial
e do sucesso dos recursos eletrônicos.
A pintura moderna é algo notoriamente novo, regendo-se por uma conceituação
revolucionária. E assim também as aplicações
da cor nos objetos industriais e nos edifícios, particularmente
nos recintos interiores, é algo que não possui precedentes
do ponto de vista da conceituação.
Recursos técnicos eletrônicos permitiram o uso das cores fora
das telas tradicionais. Assim um novo tempo se abriu para a estética
das cores. Criou-se uma rica literatura sobre as cores e suas aplicações
na expressão artística.
§ 4. Divisão
geral da estética das cores. 3911y032.
33. Tomada aqui como arte, a estética das cores se divide pela mesma
divisão que ocorre em qualquer arte:
- a cor como significado, ou expressão (cap. 1-o) (vd 3911y035);
- a cor como significante, ou portadora de expressão (cap.
2-o) (vd 3911y117).
Há uma interdependência entre o significado e o significante,
porque a capacidade de significar nasce de dentro das virtualidades do
significante.
O significante não é apenas um portador passivo. Por efeito
da mímese e da evocação, gera a expressão significadora
do tema.
Didaticamente convém isolar nos dois capítulos iniciais indicados
o que mais essencialmente caracteriza ao significado e ao significante.
Depois desta sucessão inicial de dois capítulos essenciais,
se passará ao mais, e que sobretudo caracteriza a expressão,
para atingir a esta em seus detalhes, a saber:
- expressão pictórica em prosa (cap. 3-o) (vd 3911y401),
- gêneros pictóricos em prosa (cap. 4-o) (vd
3911y418),
- expressão pictórica em poesia (cap. 5-o) (vd 3911y610),
- gêneros pictóricos em poesia (cap. 6-o) (3911y680),
- estilo (cap.7-o) (vd 3911y702).
