ÍndicesCap. 1

ENCICLOPÉDIA    SIMPOZIO

(Versão em Português do original em Esperanto)
© Copyright 1997 Evaldo Pauli

ESTÉTICA DAS CORES. 
 
APRESENTAÇÃO TÉCNICA DO TEXTO.
3911y003.
 
 
 
4. Estética das cores, no sistema da Enciclopédia Simpozio, é um texto híper, porque assume a feição de tratado, polarizando em torno de um verbete central os demais artigos com ele relacionados.
É ainda um texto mega (e não micro), enquanto apresenta os artigos em dimensão grande.
Dada a afinidade da Estética das cores com outras estéticas, ele ainda se integra no conjunto denominado Mega estética.
 
Por último, o conjunto Megaestética se encontra no quadro mais vasto da Enciclopédia de Filosofia, que é a subunidade 1, no grupo das 10 subunidades, que constituem a Enciclopédia Simpozio.
Importa anotar, que a 4-a subunidade é a que está dedicada às artes, línguas e literatura, com a qual evidentemente também se relaciona a estética, embora tratada esta como filosofia, ao passo que lá como ciência positiva.
 
Na referida 4-a subunidade se encontram os quadros de pintura citados em Estética das cores. Na Internet a presente Estética das cores não apresenta aqueles quadros. Mas, quando a mencionada 4-a. subunidade for disponibilizada na rede, lá se encontrarão os citados quadros de pintura.

 
 
5. A numeração dos artigos do texto híper Estética das cores está processada em; 8 dígitos, com a letra y no meio do campo.
Finalmente as três cifras finais redividem os artigos, com opções de 000 até 999. O texto final denominado Estilos recentes apresenta uma numeração independente da usada aqui em Estética das cores.
No curso interno do texto mega os três dígitos finais podem ser citados sem os dígitos precedentes. Mas, sempre que forem citados a partir de fora deste texto, hão de estar todos os dígitos.

 


INTRODUÇÃO GERAL À
" ESTÉTICA DAS CORES ".
3911y008.

 

§ 1. Natureza da estética da pintura.
3911y009.
 
 
 
10. A cor, por si só, ainda não é a arte da pintura. Há cores nos objetos, nas plantas, no espectro, no arco-íris, nas latas de tinta expostas nos armazéns.
No momento em que a cor transcende a capacidade material e se ergue a nos falar, principia a arte. Esta cor se torna portadora de expressão. A cor portadora é um significante. A expressão é um significado.
No seu instante estático, como a das tintas aplicadas à superfície de uma tela, a expressão em cor se diz arte da pintura. Mas, suponhamos que as cores ingressem em movimento de substituição, como sucede no cinema e na televisão, continua a haver fundamentalmente uma arte da pintura, todavia em aliança com outras artes.
 
11. Há uma filosofia geral da arte e uma filosofia especial da arte. Trata a filosofia geral da arte os temas de interesse de todas as artes em conjunto, como por exemplo do conceito mesmo da arte como expressão. Mostra ainda como as diferentes matérias distinguem as artes em espécies, como pintura, escultura, música, linguagem.
A filosofia geral da arte importa aqui apenas, enquanto fornece conceitos que agora já não mais compete discutir, mas apenas relembrar, para com eles estar coerentes. Divergências que lá tenham existido podem ser mencionadas, em casos especiais, como alternativas, e de que deveremos estar conscientes.
A filosofia especial especial da arte trata uma a uma as diferentes artes. Neste sentido estamos situados aqui em uma filosofia especial, a qual é a da arte que exprime por meio de cores.
 
12. O instante material da cor. A estética da pintura como arte não se exerce a respeito do instante material da cor, quando esta é apenas portadora, isto é, apenas um significante. Contudo, é preciso estudar esta cor em si mesma, a fim de, a partir dela criar a expressão. Importa situar-nos no momento antes que a cor se converta em expressão, antes que ela transcenda transcenda a si mesma e se converta em arte. Aprendamos a viver a cor nos instantes em que é apenas cor.
Uma ciência da cor (ou teoria da cor) examina esta qualidade nos seus instantes de determinação absoluta pré-artística, pré-estética. O mesmo acontece com o som que se aproveita para a expressão musical; uma ciência do som (teoria do som) se requer para o conhecimento preliminar do mesmo.
Ainda que o artista estude primeiramente a cor e o som em si mesmos, do ponto de vista da física, da gnosiologia e da psicologia, - este estudo teórico não o faz senão funcionalmente, enquanto, como elementos portadores, se prestam à arte. É assim que estuda a cor como matéria da pintura, o som como matéria da música, a forma como matéria da escultura.
 
A ciência da cor reúne várias secções, das quais uma é a física da cor, a outra a gnosiologia da cor, enfim, uma outra a psicologia da cor (inclusive psicodinâmica da cor). Os esclarecimentos teóricos obtidos por tais ciências, passam a ser colocados a serviço da expressão artística.
Semelhantemente, há uma física do som, uma gnosiologia do som, uma psicologia do som (inclusive psicodinâmica do som). Aquilo que se denomina vulgarmente de teoria musical, consiste quase integralmente em psicologia do som; ainda que pragmaticamente esta teoria musical se destine ao músico, ela não passa de uma preliminar à mesma música.
 
Já se vê que a filosofia da arte da cor não visa ao estudo em si mesmo da cor fisicamente, nem gnosiologicamente, nem mesmo psicologicamente. Pressupõe tudo isto, para, em um novo tempo, aproveitar esta cor como base material da expressão artística.
Seja lembrada aqui a divisão das ciências em teóricas e formais (lógica, administração, técnica).
As ciências teóricas estudam as coisas como entidades. As ciências técnicas, aproveitando as entidades conhecidas, as colocam no fluxo de um sistema com vistas a resultados.
Neste sentido a arte é uma técnica, porque põe elementos em sistema para obter a expressão. Consequentemente, uma boa arte, por exemplo, a pintura, requer o conhecimento preliminar do material aproveitado, por exemplo, a cor.
Ainda que o artista se preocupe com o objetivo final principal da expressão, poderá determinar os elementos de que esta expressão necessitou. Assim é que uma ordem interna do estudo da arte principia pela expressão, o estudo desta acaba retornando ao elemento material portador para um exame teórico dos elementos explicativos que a geraram.


 
13. Uma filosofia da arte da cor tem por objetivo primeiro esclarecer aquilo que na arte pertence ao meramente inteligível, e que se encontra para além daquilo que também se constata experimentalmente na obra. Sobretudo a expressão reclama as explicações filosóficas.
Algo acontece na arte que a ciência experimental não consegue esclarecer diretamente, por meio de uma compreensão imediata; a ciência, no caso, verifica os efeitos, sem o porquê intrínseco.
A filosofia da arte vai desde o que a expressão tem de mais essencial, até as distinções entre prosa e poesia, gêneros de expressão, propriedades, estilos. Aliás, não exclui uma consideração filosófica sobre o material portador, porque a partir dele mostra como a expressão nasce por efeito formal (isto é, essencial), não ficando só na verificação empírica deste efeito. Assim por exemplo, por efeito formal, o semelhante acusa o assemelhado. Este efeito é diverso daquele que se dá na ordem da causa eficiente, onde o efeito se separa, como produto.
Apresentando a filosofia da pintura de maneira integrada com outras ciências, tanto as formais, como a da arte, como com as ciência teóricas, resulta estender a estética das cores às áreas vizinhas.
 
14. Entre filosofia e ciência positiva. Numa introdução importa desde logo advertir para a diferença dos dois gêneros de ciências: filosóficas e positivas (ou experimentais).
Há espécies de ciências e gêneros da ciência. Já mencionamos os dois gêneros de ciências, chamados teóricas, tratando da entidade mesma das coisas, e ciências formais, tratando apenas do fluxo dos sistemas do pensar, agir e fazer.
 
Sempre mencionados, os dois gêneros de ciências – filosóficas e positivas – são de grande repercussão, porque cada um tem os seus caminhos e neles fornece informações muito diferenciadas. A distinção é ainda polêmica, em vista da contestação contra a filosofia, a qual, por isso, tem de defender a validade geral de suas afirmações.
Pretende a filosofia poder penetrar a intrinsecidade meramente inteligível das coisas; define, pois, sobre a essência e a substância, inclusive sobre as relações a partir da coisa em si.
 
Diferentemente, a ciência positiva se limitam ao ser do que os sentidos constatam exteriormente; assim, por exemplo, causa e efeito significam apenas sucessão. A ciência empírica da arte não estuda mais do que as manifestações artísticas em função ao tempo, às raças, ao clima, ao material empregado; ou seja, estuda as manifestações exteriores do fluxo dos elementos portadores da expressão.
Ainda que por vezes o positivismo chame de «filosofia da arte» a esta modalidade de estudos, ela não passa de uma ciência positiva da arte. Segundo esta orientação está escrito o volumoso livro de Taine: Filosofia da arte (1865).
 
O elemento mais distante da filosofia da arte é o significante (o portador do significado). Quando estudado em si mesmo, a noção sobre o significante se isola como ciência teórica. Mas toda esta teoria esclarece o uso meramente formal da tecnologia da expressão.
O significante, apesar de ser apenas o portador da significação, exerce alta influência sobre a significação.
Somente as qualidades sensíveis conseguem exercer o papel de significar. São qualidades sensíveis: a cor (utilizada pela pintura), o som (com que se faz a música), as formas plásticas ou espaciais (que se utilizam na escultura), os símbolos (que são qualidades sensíveis com que se criam os equivalente convencionais das expressões da linguagem e outras). É que somente as qualidades são capazes de exercer a semelhança e, portanto, a mímese geradora da expressão.
 
A filosofia da arte em cor se restringe a uma só qualidade sensível, – a cor, – especialmente como se usa na pintura. Mas, os problemas gerais da arte se encontram pelo lado da significação e não do significante, apesar da alta influência deste sobre o todo. Por isso, as questões da arte da pintura implicam em abordagens que derivam dos conhecimentos gerais sobre a arte simplesmente. Há, pois, na base de todas as filosofias especificas de cada arte, a filosofia geral da arte (vd 0531y000).
De outra parte, estudando uma após outra a cada uma de todas as espécies de arte, adquire-se um pensamento bastante vasto sobre a arte como tal. Caminham as espécies de arte com notório paralelismo, advertindo cada uma finalmente para a já referida filosofia geral da arte.


 
15. Nomes da arte que expressa mediante cor. Considerando que a arte em cor consegue, desde seu primeiro instante estático, notório poder de expressão, sem precisar apelar ao movimento, adquire já neste instante um nome. É quando se denomina pintura.
O mesmo já não ocorre com o som, pois este não exerce importância no momento estático; o nome de música indica a expressão, no momento quando os sons já se encontram em desenvolvimento dinâmico.
 
A cor, ao tomar movimento, ultrapassando ao seu momento estático, obtém novas e grandes possibilidades de expressão. Nesta transcendência da pintura, se encontram o cinema, o teatro, a televisão e mais formas eletrônicas da imagem colorida.
Note-se que em algumas artes a cor se associa à outras espécies de expressão. É este aliás bem o caso do teatro, bem como o da estátua colorida. Nestes casos as denominações se tornam difusas.
Artes em cor é a expressão coletiva que reúne todas as espécies de expressão do gênero.


 
16. O nome pintura (do latim pictura) significa originariamente «untar com pez». Prende-se, sobretudo na origem, a uma técnica, a saber a da aplicação de tintas. A raiz indo-européia peik- significa «ornar», sentido que se encontra na base de todos os seus derivados.
Atenda-se para estas outras palavras do gênero: picea (pinheiro alvar, árvore resinosa), picaster (árvore de onde dimana o pez), picatus (breado), piceatus (breado), piceus (de pez, negro como pez), picare (brear, untar com pez), pictilis (pintado, ornado de pintura), pictor (pintor), pictorius (que pertence à pintura), picturatus (pintado com variedade de cores), pictus (pintado, também bordado, como em picta acu chlamys = vestido bordado).
 
Em alemão, pintura se diz Malerei (pronunciado «málerai»). Diz-se também Malerkunst (arte da pintura). O étimo indo-europeu mel- ora significa «vermelho», ora «preto»; por isso, ora poderá significar «colorir», ora «manchar».
No grego melas (preto) deu a composição melancolia (de kholos = bílis).
Em latim mulleus significa «vermelho», como em mulleus calceus (sapato vermelho, que era usado pelos patrícios). Daqui sai mule = chinela, em francês.
Com o sentido de «pintar, colorindo», temos, enfim, em alemão malen = pintar, Maler (pintor), Malerei (pintura), Marlerkunst (arte da pintura).
 
Pelo exposto, o nome pintura dos latinos se prende mais à técnica tomada ao pez; o nome Malerei, dos alemães, diz respeito ao instrumento pictórico em si mesmo, a cor, sobretudo a vermelha. Universalizou-se mais a forma latina, que deu no inglês paint, no francês peintre, na língua internacional Esperanto pentri (pintar).

 


 

§ 2°. Valor da Estética da Pintura. 3911y018.
 
 
 
19. Atração preferencial da cor. Já antes de ser utilizada como instrumento de expressão de mensagem, a cor exerce neste instante pré-artístico uma importância psicodinâmica considerável. A cor influi na alegria, no entusiasmo, no prazer, na calma, na sensação de grandeza dos espaços.
Indiretamente, esta situação vai influir na importância da mesma arte da pintura, bem como de todas as artes que utilizam a cor, porquanto o contributo psicodinâmico as torna mais enfáticas e convenientes. Suponha-se que estejamos a ler, e que, ao transitarmos para uma nova página, esta apresente um clichê colorido; nestas circunstância a atenção tende a ir primeiramente às cores, para só depois retomar a leitura.

 
20. Maior poder da cor. Entre as qualidades que servem como instrumento artístico, é a cor a que oferece mais capacidade de expressão.
O mesmo não acontece com o som musical que pouco consegue expressar em seus instantes mais simples. Os sons falam apenas depois de organizados em complexas aglutinações, que se sucedem.
As cores, já no seu instante estático, oferecem variada composição, e que por isso, como já se advertiu, geram uma arte completa, a pintura. Ao entrarem em movimento, como no cinema, exercem fantástico poder de expressão. Com poucas cores a pintura expressa os animais e as plantas, as flores e a vestes das pessoas, os edifícios e as montanhas, os homens e as mulheres, o guarda e o carteiro, os jogadores de futebol, os bailarinos, os truões e os cômicos.
 
Deve-se a capacidade da cor ao poder da vista, para ver diferenciações. Sabemos que a vista humana não percebe todas as cores; dali se infere que a pintura seria ainda mais poderosa no seu poder de expressão, se a vista humana conseguísse desenvolver seu limiar para uma percepção maior de cores, conforme parece acontecer em alguns animais.
Uma alteração genética bem calculada poderá no futuro integrar os seres humanos neste outro patamar. Talvez isto ocorra com seres humanos de outros planetas, e talvez mesmo esteja a longo prazo programado para a evolução espontânea do dos humanos de nosso globo terráqueo.
 
A arte da pintura somente perde para outra quando na comparação não se atende aos mesmos critérios. Se se comparar a cor estática com som em movimento, é possível que o som consiga em numerosas oportunidades surpreender com sua força de expressão.
Entretanto, se se mantiver o paralelismo da comparação do estático com o estático, o dinâmico com o dinâmico, não resta dúvida que a arte mediante a cor se avantajará. Os recursos eletrônicos deram aliás à imagem eletrônica uma versatilidade admirável.


 
21. A importância do estudo da estética das cores decorre diretamente das mesmas cores, e da arte que as utiliza.
A estética das cores esclarece sobre a cor e sobretudo sobre a arte da cor.
Habilita-nos a operar com esclarecimento com uma das mais expressivas artes. Diz-nos como tratar o tema, - se à maneira classicista, - ou se por outra maneira.
Ensina sobre o exato instrumento de expressão direta da prosa, e sobre o expediente exato de expressão evocativa (associativa) da poesia.
Diz-nos que propriedades regem a arte das artes. E ainda o que nela ocorre apenas contingentemente como estilo.
Como se observa, por toda a parte ocorre um tilintar de razões que nos movem a dar valor ao estudo da filosofia da arte da cor.

 

§ 3. Um pouco de História. 3911y024.
 
 
 
25. Há uma longa história das artes plásticas e de sua teorização. A história da pintura lugar proeminente, mas não tanto a história de sua teorização.
Quando a literatura ainda não existia e nem sequer se estabelecera o alfabeto, o homem já exercia a pintura com desembaraço. Deveria, já então, haver teorias, que funcionavam entre os pintores, embora não houvessem sido ainda passadas à forma de tratados sobre a pintura.
Da história da teorização estética da pintura se pergunta agora. Oportunamente, a propósito do estilo, se abordarão mais situações históricas da mesma arte da pintura (vd 760).
 
26. Mais cedo evoluiu a teorização da arte da linguagem que a das outras. Na antiguidade grega não se encontra a teorização sistemática da pintura, nas proporções como Aristóteles escrevia tratados sobre retórica e poética, ou como Vitrúvio discorreu sobre a arquitetura.
A arte da pintura, mais que as outras artes, depende da viva capacidade visual do artista, que das peculiaridades inteletualizantes requeridas pela adiantada expressão em letras, arquitetura e música.
 
A situação continua, hoje, com as mesmas dificuldades antigas. Geralmente os que tratam teoricamente de estética da pintura, não conseguem ir muito além do arrolamento concreto das criações artísticas.
Os pintores efetivos se situam no plano concreto das obras da pintura, não muito sabendo como subir aos conceitos da arte em geral.
É que a pintura consegue funcionar autônoma, sem aliar-se às outras artes; cria, então, um mundo próprio, em que até a linguagem usualmente é apenas sua. As outras artes, como a música e a literatura, andam geralmente de mãos dadas e por isso se desenvolvem com padrões similares. No canto, une-se a poesia literária à música; os mesmos nomes que denominam as composições poéticas, transitam geralmente para as denominações musicais, pois dizemos hino para uma certa composição de versos e também para um certo canto.
A arte mais próxima da pintura é a das formas, notadamente da escultura. Em conjunto chamam-se artes plásticas. Não obstante já ia adiantada a escultura, e os pintores ainda não sabiam pintar o olho senão de frente. A rigor, esta questão é ainda de formas. A pintura é instrumentalização da cor. A teorização visando a cor em si mesma é muito tardia.
Com os recursos eletrônicos, a cor e as formas puderam aliar-se mais de perto com as demais artes, - muito mais do que no passado permitia o teatro, - e assim a linguagem das artes tende a se unificar, bem como sua teorização.


 
27. Os primeiros breves ensaios expositivos sobre a pintura já apareceram na antiguidade grega e romana.
Do período pré-socrático sobram apenas fragmentos teóricos sobre as artes plásticas, e que são contudo alusões apreciáveis.
 
O filósofo Empédocles (c. 490-435 a. C.) opinou, que o quadro tem valor estético, porque, pela graça e harmonia, deleita a vista:
 
"Assim, os pintores fazem ressaltar melhor os desenhos, nos quadros dedicados aos deuses, graças às cores variadas; escolhem pinturas multicores, as misturas de maneira harmoniosa, tomando de uma algo mais, de outra algo menos, e fazem desta maneira quadros que se assemelham a tudo quanto existe" (Frag. 23 H. Diels).
 
Mais uma referência de Empédocles sobre a pintura se encontra no fragmento 71.
 
Repetem-se as referências à pintura em Anaxágoras (frag. 4), como ainda no sofista Górgias e no sábio atomista Demócrito.
 
Igualmente Sófocles (496-406), poeta trágico, se referiu às relações entre a expressão poética e a pintura, para dizer que a poesia atende a perspectivas, ao passo que a expressão em cor se orienta para a realidade visual integral.
O problema destas relações poéticas será mais tarde objeto de discussão por parte de G. E. Lessing (Lacoonte, 1766) e Ed. Mueller (Geschichte der Theorie der Kunst bei den Alten, Breslau, 1834).
 
Platão (427-347 a. C.) discutiu a legitimidade da pintura, a qual teve em pouca conta, porque no seu entender seria apenas um simulacro das coisas, cuja verdade estaria nos arquétipos eternos (Fedro, 276 e República 601).
Em tratando das sensações esclareceu sobre as cores, tentando uma classificação (Timeu, 67c-68 d). Ocupou-se com a técnica de criar o relevo (skiagrafia) na pintura (República 523 b e outros lugares).
 
O grande Aristóteles 384-322 a. C.), que deu amplo desenvolvimento à estética da linguagem, ocupou-se menos com as artes plásticas; nestas, menos com a pintura do que com a escultura. Insistindo sobre a proporção das formas, advertiu para a maior beleza das coisas grandes, que das pequenas; o princípio, efetivamente é válido e logo passou a se realizar no período helênico-romano, com a grandiloquência da urbanística e da arquitetura, da escultura e finalmente da pintura.
Aristóteles ainda se ocupou com a perspectiva ilusionista da pintura; nela atribui ao sombreado um papel especial; mas não se pronunciou contra ela com as raivas da filosofia dualista de Platão. Também afirmou que a pintura dispensa da exatidão demasiadamente meticulosa e que a poderia até prejudicar (Retórica, III, 12, 1414 a). Entretanto, sua teoria das cores é menos exaustiva que a de Platão.
Contudo, classificou Aristóteles sete cores principais, à maneira das sete notas da escala musical. Distinguiu entre cores harmônicas e desarmônicas (De sens. 3,349 b).
 
Durante o período helênico-romano continuam as pequenas referências à pintura e às cores.
Ao lado destas poucas informações gregas, com a validade de serem as primeiras da história, também restam alguns quadros antigos da mesma, revelando sobre os respectivos estilos (vd 790).


 
28. No fim da Idade Média e Renascença a teorização da pintura e, de um modo geral, das cores recebeu novos desenvolvimentos.
Progrediu sobretudo com o advento do humanismo e a renovação do espírito clássico.
No início deste novo movimento está o florentino Giotto (1266-1337) (vd 833), que deu fisionomia própria à pintura ocidental, libertando-a da tradição linearista bizantina, para lhe devolver o humano.
A Renascença, através dos pintores da escola flamenga, introduziu a pintura com tinta a óleo (vd 143). Restabeleceu a arte clássica, e criou, por assim dizer, um novo tempo para pintura, tanto no sentido teórico, como no de sua criação.


 
29. A definitiva ciência da cor é moderna. Os descobrimentos sobre a cor foram conseguidos sobretudo a partir do físico e filósofo inglês Isaac Newton (1643-1727), com suas investigações sobre a composição da luz e disco das cores.
Goethe (1749-1832), ainda contando parcos recursos modernos, já escreveu uma obra apreciável, o seu Farbenlehre (Teoria da cor).
A "estrela de Goethe" (vd 185) é a organização das cores fundamentais sobre as pontas de ângulo de um triângulo (azul, amarelo, vermelho), sobrepondo-se as cores secundárias (laranja, verde, violeta), sobre as pontas de ângulo de um outro triângulo. A sobreposição dos triângulos resultou na estrela de seis pontas.
 
Nova organização cromática, em forma de pirâmide, com classificação ampla de todas as cores, foi tentado em 1772 pelo físico Lambert.
Em 1823, Chevreul fez uma disposição radial.
Em 1878, Hering organizou as cores a partir de um triângulo, subdividido em quadros, a que Osvald dará novos desenvolvimentos.
Albert H. Munsell, americano, em 1912, estabeleceu uma classificação bastante prática e convincente (vd 186).


 
30. Revolução na estética das cores. Também os conceitos de estética das cores tomaram novos desenvolvimentos nos tempos modernos, sobretudo depois da revolução industrial e do sucesso dos recursos eletrônicos.
A pintura moderna é algo notoriamente novo, regendo-se por uma conceituação revolucionária. E assim também as aplicações da cor nos objetos industriais e nos edifícios, particularmente nos recintos interiores, é algo que não possui precedentes do ponto de vista da conceituação.
Recursos técnicos eletrônicos permitiram o uso das cores fora das telas tradicionais. Assim um novo tempo se abriu para a estética das cores. Criou-se uma rica literatura sobre as cores e suas aplicações na expressão artística.

 


 

§ 4. Divisão geral da estética das cores. 3911y032.
 
 
 
33. Tomada aqui como arte, a estética das cores se divide pela mesma divisão que ocorre em qualquer arte:

 
- a cor como significado, ou expressão (cap. 1-o) (vd 3911y035);
- a cor como significante, ou portadora de expressão (cap. 2-o) (vd 3911y117).

 

Há uma interdependência entre o significado e o significante, porque a capacidade de significar nasce de dentro das virtualidades do significante.
O significante não é apenas um portador passivo. Por efeito da mímese e da evocação, gera a expressão significadora do tema.
Didaticamente convém isolar nos dois capítulos iniciais indicados o que mais essencialmente caracteriza ao significado e ao significante.
 
Depois desta sucessão inicial de dois capítulos essenciais, se passará ao mais, e que sobretudo caracteriza a expressão, para atingir a esta em seus detalhes, a saber:

 
- expressão pictórica em prosa (cap. 3-o) (vd 3911y401),
- gêneros pictóricos em prosa (cap. 4-o) (vd 3911y418),
- expressão pictórica em poesia (cap. 5-o) (vd 3911y610),
- gêneros pictóricos em poesia (cap. 6-o) (3911y680),
- estilo (cap.7-o) (vd 3911y702).
 

 
 


ÍndicesCap. 1