

ENCICLOPÉDIA
SIMPOZIO
(Versão em Português do original em Esperanto)
© Copyright 1997 Evaldo
Pauli
CAP. 6
GÊNEROS
POÉTICOS DE PINTURA. 3911y680.
- Estética das
Cores -
681. Introdução. Conclui-se o estudo da poesia em
pintura, pela menção aos seus gêneros.
Neste sentido importa considerar:
- definição e classificação dos gêneros
poéticos de pintura (vd 683);
- Alguns gêneros poéticos de pintura (vd 691).
Pode-se considerar breve o assunto, porque prosa e poesia e poesia; costumam
estar aliadas.
I - Definição
e classificação dos gêneros poéticos de pintura.
3911y683.
684. Os gêneros de poesia são determinados pelos correspondentes
gêneros de objetos com os quais se ocupam.
Havendo grupos de objetos similares, que se diferenciam de outros grupos
de objetos similares, o resultado final é a criação
de distintos gêneros de expressão distintos dos respectivos
outros gêneros de expressão.
E assim também há gêneros de pintura em prosa e gêneros
de pintura em poesia. Nos gêneros de pintura em poesia nos fixamos
agora.
Há preferência de uns artistas por determinados gêneros,
de outros por outros, cada qual dando ao de sua preferência especial
dedicação e desenvolvimento.
Há os que são apenas líricos, enquanto outros são
épicos.
Dentre os líricos, há os que preferem pintar o lirismo da
paisagem, enquanto outros pintam o lirismo das cenas do dia a dia.
Dentre os épicos, há os que representam em cores fortes o
triunfo dos heróis da conquista, enquanto outros e outros exploram
a aventura e a sorte.
Mas há também os artistas universais, que de tudo experimentam,
ainda que nem em todos os gêneros da poesia pictórica tenham
o mesmo resultado.
Se para cada gênero se estabelece uma sabedoria a parte, muita sabedoria;
importa para tratar de todos.
685. Em pintura os gêneros poéticos não se diferenciam
claramente dos gêneros em prosa. Como já se adiantou frequentes
vezes, em pintura a prosa e a poesia usam ir de mãos dadas..
Não obstante o que anda junto na realização concreta
da arte, não se confunde do ponto de vista essencial. Na mesma expressão
há tanto o procedimento meramente prosaico e com os seus gêneros,
como o procedimento especificamente poético, inclusive com os seus
gêneros. Separar teoricamente o que em concreto vem unido, importa
em algum esforço para o qual nos propomos agora.
Contudo, o pintor acentua, ora o lado prosaico, ora o poético, apesar
de no todo operar com ambas as formas de expressão. Quando isto
acontece, há mais facilidade de isolar prosa e poesia na composição.
A pintura industrial é caracterizadamente prosaica, e por
isso tem seus gêneros também bem definidos do lado da prosa.
Paralelamente, a pintura campestre (ou bucólica) é
por tendência mais poética, e por isso seus gêneros
poéticos também se definem melhor.
686. A classificação dos gêneros poéticos
tende a ser paralela em todas as artes, porque os gêneros são
determinados a partir do objeto e não a partir da expressão.
Esta, ao imitá-los para expressá-los por mimese, se adata
a ele, e por isso dá origem aos gêneros, porque gêneros
de objetos vão resultar em gêneros de expressão.
Além disto, cada arte pode traduzir a outra a partir de seu objeto.
Não expressa uma arte a expressão de outra arte, mas o objeto
da outra. E assim mais uma vez ocorre o paralelismo que vai permitir que
os mesmos gêneros aconteçam em todas as artes. Consequentemente,
todos os gêneros da literatura são repetíveis na pintura,
como todos os gêneros da pintura na literatura, ainda que com as
respectivas adatações. Estas respectivas adatações
podem provocar alterações nas denominações
dos objetos, sem que mude essencialmente o tema da mensagem.
687. A denominação dos gêneros poéticos de cada
arte pode ser a mesma, ainda que por vezes varie.
Este paralelismo decorre do fato que os gêneros se denominam geralmente
a partir dos objetos ou temas expressos.
Assim, por exemplo, há gêneros épicos e líricos
da literatura, e gêneros épicos e líricos da pintura.
688. Entre as artes, é a da linguagem que geralmente se desenvolve
por primeiro. Por isso, os objetos que a pintura apresenta já usam
ser denominados expressionalmente pela palavra oral. E assim também
os gêneros literários são conhecidos ordinariamente
antes, que os gêneros pictóricos.
A consequência geral é que as denominações dos
gêneros poéticos literários transitam mais facilmente
para os gêneros poéticos da pintura, e não vice-versa.
Há, entretanto, uma certa tradição dentro de cada
arte no que se refere aos gêneros cultivados. Apesar do paralelismo
dos gêneros em todas as artes, eles tem algo de próprio em
cada arte. O Lacoonte da Ilíada não é exatamente
o mesmo na escultura, nem o mesmo na pintura.
689. Na tradução dos gêneros poéticos
de outra arte para os gêneros equivalentes da pintura, importa transpor
não só o lado prosaico mas também o lado poético.
Ocorrendo na poesia primeiramente um objeto estímulo, o qual cria
a evocação, este objeto é expresso de maneira prosaica,
isto é, por mimese. Não basta simplesmente proceder a esta
tradução; o objeto prosaico deverá ser apresentado
de tal maneira a não perder sua capacidade evocadora.
Os objetos mencionados num poema épico, como por exemplo o navio
de Ulisses, e seus homens, não podem ser apresentados na tradução
para a pintura de poesia épica como apenas um navio e apenas homens
nele colocados. Este navio e estes homens deverão ser envolvidos
na pintura, com o mesmo clima épico com que se apresentam na descrição
literária primitiva.
As pombas que saem umas após outras, segundo a poesia do soneto
literário que as faz sair com um conotar evocativo, também
deverão evocar poeticamente a partida, na imagem ilustrativa que
delas fizer um pintor.
Os gregos transpuseram para a pintura e a escultura os heróis épicos
de suas narrativas heróicas, como ainda suas criações
líricas. Observa-se nos resultados de seus trabalhos bastante poder
evocativo transposto para a obra plástica, que reproduzem a mesma
poesia, de acordo com os gêneros poéticos em que elas se situam,
o épico, o lírico, o dramático.
II - Alguns
gêneros poéticos da pintura.
3911y691.
692. Épico e lírico. Os muitos gêneros poéticos
se classificam em gêneros maiores. Usualmente todas as artes dão-se
para a poesia como principais gêneros maiores o lírico e o
épico.
Não se trata de uma classificação feita a base de
um ponto de vista sistemático, que deveria proceder a partir dos
gêneros maiores dos objetos. A poesia é toda e qualquer evocação,
e seus gêneros são os mesmos gêneros dos objetos evocados.
A divisão da poesia em épica e lírica é antes
descritiva, que essencial. Fez-se sob um ponto de vista exterior ao mesmo
objeto, - o do tratamento dado pelo poeta, ora objetivo, ora subjetivo.
O lírico é dito da sentimentalidade a partir do sujeito,
o épico a partir de uma consideração objetiva simplesmente.
Sendo a evocação um procedimento sensível, sempre
se prende ao estado psíquico sensível, ou seja a algum sentimento.
Em consequência qualquer gênero poético não diretamente
caracterizado pelo sentimento, se reduz a algum deles pelos efeitos sentimentais,
ou subjetivos, ou objetivos a que se prende.
693. O lirismo artístico é gerado principalmente pelas
cenas banais do dia a dia. Com elas a pintura também se ocupa em
forma prosaica, mas sobretudo poética. Na proporção
em que os objetos em si mesmos perdem sua importância, como que ficam
liberados para outras conotações, inclusive da trivialidade.
Aliás, um dos sentimentos mais profundos do dia a dia é a
trivialidade, que a vida cotidiana poeticamente exprime.
Acontecimentos sempre novos vão se acumulando na memória
juntamente com estes objetos triviais do dia a dia, os quais vão
sempre aumentando sua capacidade associativa futura. O poder de nostalgia
e saudade das coisas velhas, conservadas ainda no presente, é considerável.
Apresentam importância para o lirismo da pintura as choupanas, as
casas antigas, velhas árvores, os cajueiros, os bananais, os laranjais,
as roseiras do jardim, as mais diversas relíquias que agora ainda
conotam um passado bom, do qual temos saudade nostálgica.
Pelo visto, os gêneros líricos da pintura se diferenciam,
como na literatura, pela variação dos diferentes grupos de
objetos.
Como o advento da fotografia que substitui a pintura prosaica das cenas
do dia a dia, o lugar da pintura lírica deste mesmo gênero
de objetos, contudo se conservou. É que a associatividade postula
certa seleção de elementos que a fotografia não encontra,
mas o pincel tem todavia como criar.
694. Subdivisões do gênero lírico. Em princípio
podem ser tantos os gêneros líricos, quantos forem os tipos
de sentimento, que a psicologia sistematicamente classifica.
Em concreto os sentimentos se situam na mesma pessoa e se agrupam em circunstâncias
que ela vive.
Vários podem ser portanto os pontos de vista para subdividir e ordenar
os gêneros líricos, e que na poesia das cores se multiplicam
sob nomes geralmente vagos e tomados às outras artes.
São gêneros líricos literários o hino, o soneto,
o idílio, com réplica na pintura.
695. O hino é uma expressão de um estado de espírito
gerado por uma situação, seja do indivíduo, seja do
grupo, seja dum movimento promocional. Tal acontece em hinos de gratidão,
hinos nacionais, hinos de agremiações, hinos de movimentos
de promoção.
Neste último caso lembramos, por exemplo que o movimento de promoção
para uma língua universal, o Esperanto, possui seu hino: "Ao mundo
veio um novo sentimento". Em cores o sentimento esperantista é traduzido
pelo verde, cuja forma plástica é a estrela verde.
Na pintura o objeto considerado pelos hinos é reproduzido pela apresentação
das pessoas envolvidas neste estado de espírito, caracterizadas
pictoricamente de tal maneira que possam evocar o referido objeto.
Uma pintura-hino expressiva é a do homem ecologista frente à
paisagem da natureza.
696. O soneto é uma expressão relampejante e organizada
para um efeito máximo em um mínimo de elementos.
Na linguagem assumiu o soneto a forma peculiar de 14 versos, além
de sua novas formas na poesia concreta.
Na pintura-soneto o objeto se apresenta como um quadro inteligentemente
preparado, com vistas a um efeito claro e de rápida eficácia
evocativa.
697. O idílio tem como objeto elementos característicos
campestres e pastoris, em tons suaves.
É um gênero literário frequente, com expressões
paralelas na música e pintura.
698. O épico em poesia contém fundamentalmente o tratamento
objetivo do sentimento evocado, opondo-se neste particular ao tratamento
lírico. O gênero épico foi praticado primeiramente
na literatura, onde gerou a epopéia (narrativa de longo curso),
o hino e o soneto (de curso menor).
Do ponto de vista semântico, épico se diz sobretudo da epopéia,
cujo tema é a história heróica, aquela em que a ação
humana ultrapassa os parâmetros ordinários. Pode acontecer
nas guerras de conquista (como Tróia, pelos gregos), nas aventuras
(como as de Ulisses), nas grandes navegações (como a dos
portugueses às Índias, objeto dos Lusíadas
de Camões).
Na pintura a poesia épica tende a limitar-se a episódios,
em virtude da estaticidade de suas telas.
Quando se inspira em uma epopéia literária, a pintura isola
um dos seus episódios, tirando dele o máximo de resultado.
699. A pintura histórica não raro assume caráter
puramente poético na linha do gênero épico. Ainda que
se refira a um acontecimento histórico, o tratamento é dominantemente
evocativo.
Mesmo as telas neo-clássicas de Louis David (1748-1825), como Serment
des Horaces, têm mais de poético, que de preocupação
prosaica.
Inversamente a Primeira Missa do Brasil de Victor Meirelles, porquanto
destaca o aspecto histórico, típico da prosa, ainda que contenha
muito de poético.
700. Conclui-se aqui um conjunto de temas sobre a estética,
ou a arte das cores, que a explicam a partir da essência, - a cor
como expressão, a cor como portadora de expressão, as formas
da expressão em prosa e poesia.
Em contraste ao substancial, resta algo também importante, - o estilo.
O que se concluiu foi o mais difícil, o que resta é o lado
mais apreciado da pintura. Todavia, não há como atingir adequadamente
o mais apreciado, sem o que se apresentou mais difícil.
Não obstante ser um elemento acidental, o estilo reforça
a evocação poética. Assumindo maneiras próprias
em cada forma e gênero de expressão.

