4. Estética literária, no quadro
geral da Enciclopédia Simpozio, tem a forma de texto híper
e a dimensão de texto mega.
Como texto de forma híper, polariza em torno de
um verbete central os demais artigos relacionados com o mesmo tema, convertendo
o todo em um tratado.
Como texto de dimensão mega, a presente Estética
literaria corresponde a um outro menor.
Dada a afinidade da Estética literária com demais
estéticas, a Enciclopédia Simpósio apresenta a todas
como um conjunto intitulado Megaestética.
Finalmente todo o conjunto se integra na Enciclopédia de Filosofia, que está como unidade 1, no grupo das 10 enciclopédias coordenadas que constituem a Enciclopédia Simpósio.
5. A numeração texto híper
se processa por meio de 8 dígitos, divididos em dois campos pela
letra y.
Os primeiros 4 números coincidem com os do verbete fundamental,
de 4 dígitos, como aparece Enciclopédia atômica (alfabética).
Os três números finais redividem o texto híper, com
possibilidades de 000 até 999.
No curso do texto híper os números divisionários
dispensam os dígitos do primeiro campo e a letra y. Mas os títulos
principais são todavia numerados integralmente pelos 8 dígitos.
6. As citações no curso interno
do texto híper se fazem apenas com os três dígitos
finais, de 000 a 999. Feita a citação a partir de fora, são
necessários todos os oito dígitos.
9. Os temas introdutórios à estética
literária admitem a seguinte sequência:
- Objeto da estética literária, definindo-a e analisando
seus nomes (vd 10).
- Aditivamente um pouco de história da teorização
da linguagem (vd 42)..
- Divisão didática do ensaio em andamento (vd 091).
ART. 1-o. OBJETO DA ESTÉTICA LITERÁRIA. 4515y010.
11. Definição real e definição
nominal. De pronto isolamos dois questionamentos,
- o da definição real, que vai diretamento ao significado
mesmo da estética literária, apontando para o objeto de que
efetivamente trata (§ 1-o),
- o da definição nominal, deixando claros os diferentes
nomes que se referem à linguagem e às ciências que
dela tratam (§ 2-o).
Apontados pela definição real os caminhos a serem
trilhadostrilhar e recebidas as sugestões que a definição
nominal ainda acrescenta, - tudo isto vai facilitar a entrada depois no
questionamento simplesmente de tudo o que a estética literária
apresenta como natureza, propriedades e estilos.
§ 1-o. Definição real da estética literária. 4515y012.
13. Tem a estética literária
por tema;
- o estudo da língua como expressão, enquanto
capaz de significar objetos,
- e o exame de suas propriedades, com destaque sua capacidade
de estabelecer a comunicação humana.
14. A língua é objeto de estudo
de várias ciências. Umas são do gênero das ciências
filosóficas, outras do gênero das ciências positivas.
Ficamos aqui dominantemente no gênero das ciências
filosóficas.
Portanto, esta estética literária é, dominantemente,
uma filosofia da língua (vd 18), ainda que com
frequência se alargue para todos os seus problemas.
15. O conhecimento vulgar sabe o que é
a língua.
Mas em tudo a ciência sistemática ultrapassa ao
conhecimento vulgar, convertendo a língua em um fenômeno transparente.
Assim sendo, a língua se apresenta claramente a nós
como expressão e ainda como instrumento de comunicação,
catarse, ludicidade.
O conhecimento que a ciência consegue sobre a lingua chega
a ser tal, que se torna capaz não somente de melhorar o uso das
línguas já existentes, como ainda de inventar novas, mais
perfeitas.
A ciência, em revelando a natureza da língua torna
o seu uso um processo mais consciente.
16. Filosofia geral da arte. É a língua
uma das muitas artes. Infere-se, que muitos dos seus aspectos já
vêm tratados de um saber mais geral, o da filosofia geral da arte
(vd 0531y000).
E assim há também para cada arte, uma lógica,
uma gnosiologia, uma psicologia racional, uma ética, bem como uma
filosofia política; tudo junto, finalmente, é uma filosofia
da arte.
Como facilmente se pode imaginar, a estética literária
se coordena ao quadro maior da filosofia da arte, como uma de suas subdivisões.
Sendo uma arte ao lado da arte da pintura, da escultura, da música,
obedece aos conceitos, e até mesmo à terminologia, da geral
da arte.
É frequente a classificação dos conhecimentos
da filosofia da arte em dois conjuntos:
- filosofia geral da arte (vd 0531y000);
- filosofias especiais da arte, a saber, estética das
cores (vd 3911y000);estética das formas (vd 2283y000); estética
da música (vd 5287y000); estética literária.
17. Sendo várias as ciências que
têm a linguagem como objeto de estudo, importa tratar a especificidade
de cada uma das referidas ciências sem misturar, sem confundir os
respectivos pontos de vista. Esta ordem é uma condição
da sistematicidade das ciências.
A ordem didática admite porém ser realizada de
diversas maneiras. Ou tratamos sucessivamente todas as ciências;
ou as tratamos simultaneamente, mas atentos à distinção.
Qualquer seja o modo, a distinção entre as ciências
deve ser uma preocupação constante.
Se afirmarmos, por exemplo, que a linguagem é essencialmente
uma expressão, devemos saber determinar, se esta afirmativa
está sendo estabelecida por conta da filosofia ou por obra de uma
ciência positiva como a linguística.
Se advertirmos, que o ritmo lento agrada de forma diferente que o ritmo
rápido, de novo devemos saber determinar a que ciência pertence
a assertiva, se à psicologia experimental ou se à psicologia
racional.
A sistemática científica requer consciência
sobre o situamento de cada tipo de conhecimento no quadro geral do saber.
Com referência à língua, a perspectiva principal
agora em questão é a da filosofia da linguagem. Então
o que em primeiro plano importa são as explicações
puramente racionais da arte de exprimir.
Mas ordinariamente uma exposição didática
não se limita apenas a isto. A exposição de cada ciência
usa mover-se num quadro mais amplo por razões, que poderão
ser didáticas ou mesmo só de motivação.
Recomenda-se, pois, ao estudo filosófico da linguagem,
ou seja, ao estudo metalinguístico, também alguns elementos
decididos pelas ciências meramente experimentais, tanto la linguística
experimental, como da estética experimental em geral.
As derivações para outros campos são
úteis aos pontos de vista filosóficos. Além de os
aliviarem do seu caráter abstrato, completam os conhecimentos dentro
de um quadro mais abrangente.
Todavia, tratar de tudo ao mesmo tempo, não é o
mesmo que fazer uma grande confusão. Importa sempre saber das distinções
de coisas que efetivamente são distintas.
18. A filosofia da língua estuda o falar
humano sob o ponto de vista da explicação meramente inteligível,
como é próprio da filosofia.
O significado, por exemplo, não é empiricamente
constatável, senão indiretamente (pelos seus efeitos). Por
isso o significado em si mesmo é tema da filosofia da língua,
e não da linguística, que é uma ciência experimental.
Não há como explicar por meios meramente empíricos
o fenômeno da linguagem do ser humano inteligente.
O portador do significado, enquanto distinto deste significado,
não só admite considerações filosóficas,
mas também experimentais. Já estas considerações
experimentais pertencem à linguística (vd 31),
gramática (vd 37), etimologia (vd 35),
semântica (vd 34), - que todas são ciências
positivas da linguagem, que examinam o significante em relação
ao significado.
A linguística com seu método experimental atinge
o significado, - conforme já advertido, - apenas indiretamente,
isto é, não em si mesmo, e sim pelos efeitos empíricos
provocados através do significante.
O significado, ou elemento transportado, é diretamente
apenas percebido pelo entendimento, o qual tem a competência para
interpretá-lo diretamente. Esta capacidade ocorre tanto nas expressões
por mimese natural, como por convenção.
O elemento portador, - chamado também significante em oposição
ao significado, - é caracterizadamente sensível, isto é,
experimental. Também é constatável o comportamento
resultante do significado do significante. Mas compreender porque o significante
pode servir para indicar a expressão, é algo de meramente
inteligível.
Importa cuidado na distinção entre filosofia da
língua e linguística (vd 31), havendo neste
particular um comportamento ainda hoje não sempre respeitado pelos
estudiosos (vd 86).
§ 2. As denominações várias da filosofia da lingua 4515y019.
20. Metafísica da arte. As denominações
dadas à filosofia da língua e às suas divisões
facilmente confundem, porque, apesar de sua tradição secular,
não asseguram as vantagens de um contexto habitual.
A metafísica da arte, ou gnosiologia da arte, se ocupa
do instante em que se pergunta pela sua natureza como ente. Cuida-se então
compreender a arte como um ser ao lado de outros seres, com a intenção
de determinar a diferença que a torne inconfundível.
É quando se estabelece a arte como uma expressão
significante, ou signo, que tem a função de remeter a atenção
do ser que se fecha em si mesmo e sem nada significar. Coisa capaz de significar
algo, eis o que seria a arte. Nesta direção trabalha o filósofo
da metafísica da arte, e está o centro principal de toda
a filosofia da língua.
A ética da arte determina as relações de
legitimidade da ação artística. Como fazer humano
a expressão artística obedece ao esquema geral deste fazer,
e ainda incorre em detalhes, os quais não poderiam ser desconsiderados.
Similar ao aspecto ético da arte é o social da
arte. Agora a perspectiva é a arte dentro da interação
social, esta estudada pela filosofia social e pela sociologia. E assim
nasce também uma filosofia social da arte. Em suas sub-divisões
vamos dar enfim na filosofia social da linguagem.
Não entraremos nem no campo ético, nem no social
da arte, senão acidentalmente. Entretanto estes aspectos são
importantes e destacam a anterior filosofia da arte.
21. O homem é um animal que fala, conversa
e ri.
É de tal modo importante este fenômeno e tão
diversas são as formas de sua manifestação, que em
torno dele se criou um vocabulário de inúmeras variações:
fala, palavra, língua, linguagem, idioma, e todo o grupo arte literária,
letras, literatura, lingüística filologia, etimologia, semântica,
gramática, estética literária, sem contar os nomes
mais setoriais, como prosa, poesia, gêneros literários.
Importa atender a estes significados, com vistas à precisão.
Ao fazermos alusão às suas origens etimológicas, outras
denominações ainda surgirão e se esclarecerão,
com vantagem para exposição do nosso tema, por tratar-se
de noções próximas.
22. A fala. Um grupo de palavras eruditas e
mesmo vulgares deriva da raiz indo-européia bha-, cujo sentido básico
é falar.
No grego assumiu a forma phemi (=dizer), que repercute em eufemismo(expressão
elegante, que substitui formas vulgares), phoné (=voz, palavra),
phonetikós = fonética).
No latim: fari (falar), facundia (=eloquência), fábula
(=récita), affabilis (=afável), ineffabilis (=inexprimível),
prefácio (=preâmbulo), fama (= fama, renome), professio
(=promessa, profissão), que todas se refletem nas demais línguas.
No francês, entre outras formas: fable (=fábula).
No italiano: favola (=fabula).
No espanhol: habla (= linguagem), hablar (=falar).
No português: falar que , pelo visto, se aproxima da forma
espanhola hablar e da italiana favola.
No Esperanto são palavras pertencentes ao grupo etimológico
mencionado acima: fonemo, fonetiko, fonetismo, afabla, famo.
23. Palavra deriva da raiz grega bal-, com o
significado fundamental de lançar, atirar, como em ballo (=lançar,
atirar).
Dali os termos diabolos (=diabo), com o sentido de caluniador, parabolé
(=parábola), comparação; symbolon (=símbolo),
sinal de reconhecimento.
Através de parabolé veio às línguas
latinas parábola, que deu no francês parole e parler; no espanhol
palabra e parlar; no português palavra, palavrear, parlar, parolar;
finalmente no Esperanto paroli (= falar).
Os termos palavra e fala (vd 22) significam
uma enunciação ativa da linguagem. Neste sentido palavra
e fala são atividade (no grego enérgeia = energia, força),
ao passo que língua é passividade (no grego érgon
= obra, coisa realizada).
Dito melhor: a língua é o produto da fala ou de quem
enuncia palavras. Tudo começa por uma ação, execução,
desempenho, performance e termina em um resultado. Os nomes ora se referem
a uma das nuances, ora à outra.
24. Verbo, com o sentido amplo de palavra e com
o sentido mais freqüente de ação verbal, deriva do indo-europeu
werdh-, com significação fundamental de palavra (vd 23).
É a raiz comum de palavras importantes.
No grego erô (através de wer) (=direi); rhêtôr
( através de wretôr) = retor, orador.
No latim ver-bum (= palavra); proverbium (=provérbio).
No germânico: no inglês word (=palavra); no alemão
Wort (=palavra). No Esperanto: vorto (=palavra), verbo (no sentido de ação
gramatical).
25. Voz é um termo a partir de cuja raiz
etimológica se formam também outras denominações
significativas, que convém esclarecer. Trata-se do grupo de termos
que deriva do indo-europeu wek- com o sentido fundamental de emissão
da voz.
Dali o grego épos (através de wepos) (= palavra)
de onde finalmente épico e epopéia.
No latim: vox (=voz), vocalis (=sonoro), vocabulum (=nome).
Chegamos assim ao que em português é vocábulo;
este, portanto, tem o sentido básico de voz emitida.
Ainda no latim: vocare (=chamar) e evocare (= chamar, com em
alistamento de tropas).
No Esperanto: voæo (sono elblovita el al pulmoj), voki
(per alvoko turni al si ies atenton).
26. Língua e linguagem. No sentido
anatômico, língua é apenas o órgão articulador
da fala.
A raiz indo-européia dinhw- produziu no latim dingua,
que se transformou em língua sob a influência de lingere (=
lamber).
No inglês tongue.
No alemão Zunge.
Por efeito de polissemia, língua passou a significar também
a expressão oral. Por tratar-se de significados efetivamente distintos,
cada qual poderá receber distintos outros nomes.
No caso da língua como expressão oral são
bem conhecidos os termos fala, de que já foi tratado, e idioma (vd
27), de que cuidaremos depois.
No Esperanto, - em decorrência de ser uma língua planejada
com as melhores regras, - a polissemia é afastada, pela diferença
lango (órgão anatômico) e lingvo(expressão oral).
A língua é uma espécie dentro do gênero
de expressão chamada arte; mas sob a denominação de
língua ocorrem muitas línguas, no sentido de muitos sistemasgramaticais.
Então cada qual tem um nome, como língua portuguesa, espanhola,
francesa, inglesa, lingua Internacional Esperanto.
Não se diz do mesmo modo muitas pinturas, muitas esculturas,
muitas músicas.
Do ponto de vista da individuação e da espécie
aos quais os indivíduos pertencem, é possível entender
por língua cada uma das diferentes línguas, enquanto cada
uma é língua numericamente distinta de outra; e é
possível entender por língua a espécie a qual todas
as linguas individuais pertencem, e na qual, como um todo se distinguem
de outras espécies de expressão, como a escultura, pintura,
música.
Entre língua e linguagem se dá uma diferença
de nuance. O sufixo empresta à linguagem uma nuance particularizante,
em que a particularização atende ao estado concreto e materializado
da coisa referida.
Língua significa a espécie simplesmente, com quando
se diz a língua é um instrumento de expressão, ou
como quando se diz que as línguas são muitas e entre elas
estão a língua portuguesa, espanhola etc. Ou ainda, que as
línguas podem formar-se espontaneamente e também por planejamento.
Linguagem se diz da mesma língua quando considerada como
algo concreto e materialmente realizado, nesta linha podendo receber qualificações,
como quem diz linguagem agradável, severa, escorreita, estética,
ou como em linguagem popular, linguagem científica, linguagem bíblica.
Situações várias nos podem deixar perplexos.
Tanto se pode, por exemplo, dizer língua científica (ou língua
da ciência), como linguagem científica, mas em ambos os usos
ocorre uma nuance.
Língua científica (ou língua da ciência)
é a que efetivamente se destaca à maneira de uma espécie,
como palavras especializadas, ou mesmo com formulações peculiares
como na matemática, química, lógica simbólica.
Linguagem científica é a nuance que a língua assume
ao ser utilizada pela ciência, em que um destaque é a precisão
dos seus termos.
O contexto pode admitir a troca dos termos língua e linguagem,
o que entretanto não se aconselha. Mas sobretudo língua,
mais universal que linguagem, admite normalmente a posição
de linguagem.
A distinção entre língua e linguagem vem sendo
feita mais insistentemente a partir de Saussure, mas nem sempre com segurança.
27. Idioma (do grego idíoma = particularidade,
qualidade particular) se diz da linguagem enquanto se exerce de maneira
própria a cada povo. Pela maneira de falar usam diferenciar-se os
povos.
Lembre-se ainda o termo idiotismo (do grego ídios = particular),
que indica a linguagem própria de um indivíduo ou de um caso
muito peculiar. Dali também idiota( do grego idiotes = simples),
com o significado de indivíduo simplório.
Em função à origem do termo idioma, admite-se
dizer "idioma nacional". Diga- se, por exemplo, que o inglês
é um "idioma nacional", ainda que internacionalmente falado por
muitos.
Do Esperanto se diz simplesmente que foi criado para ser uma
"língua internacional". Por causa do seu caráter neutro e
universal fica pouco adequado dizer "idioma esperanto", por se tratar de
língua que não traduz a caracterização de nenhum
povo isoladamente. Mas seria possível "idioma humano", enquanto
contrasta com o idioma dos animais.
28. Arte literária, letras, literatura.
Eis uma sequência de nomes que significa a linguagem, todavia em
conotação com a técnica de sua fixação
em sinais gráficos.
Pela sua índole, os sinais gráficos podem
ser ideográficos, como aconteceu com a grafia inicial egípcia
e com a grafia até hoje conservada do chinês e mais línguas
orientais.
Cerca do ano 1000 a.C., os fenícios criaram o atual alfabeto
a partir dos sinais idiográficos egípcios; por exemplo A
é a primeira de Apis (= boi), cuja figura aos poucos se inverteu,
pois o A é nada mais que uma cabeça de boi com chifres fincados
para baixo; B é a primeira letra de Bet (= casa), cuja figura de
dois pavimentos também continua reconhecível.
Etimologicamente, como também pelo uso, literatura (no
Latim litteratura) significava na antiguidade simplesmente gramática,
arte da escrita. O adjetivo literatus (= literato) também já
então podia significar douto, instruído, erudito, sábio;
era uma consequência do conhecimento da gramática, ou seja
das letras.
Nas línguas modernas, sobretudo neolatinas, literatura,
passou a significar a produção escrita das manifestações
do espírito humano. Deixou, por conseguinte, o anterior significado
latino de gramática.
Na nova acepção, literatura assumiu nuances de
contexto. Por extensão, literatura inclui também as produções
da linguagem em geral (não das demais artes), incluindo pois as
manifestações orais.
Por restrição, literatura pode significar apenas
o gênero ficção e poesia; ou qualquer outro gênero,
desde que o objetivo seja mais o estético e emocional, do que o
de conteúdo. Um poema épico, por exemplo, apesar da verdade
do conteúdo, tem em mira a emoção heróica,
e por isso é literatura no sentido estrito indicado.
Três são, por conseguinte, as nuances de literatura:
- toda a forma de linguagem escrita (como em literatura
científica);
- toda a forma de linguagem (como em literatura oral);
- só os gêneros de ficção e poesia
(como em literatura épica).
Letras, no plural, expressa a linguagem escrita, com a nuance
de "bem escrita". Este é o sentido que a palavra vinha formando
desde a antiguidade latina, quando littera (letras) já significava
carta e gramática (scientia litterae) em lugar de literatura.
Arte literária é uma formulação com
adjetivo, sem correspondente substantivo direto; significa muito bem a
língua como expressão e que se fixa em letras.
Na mesma linha se encontra estética literária.
29. Em busca de um nome próprio adequado
para a arte da língua. São tantos os nomes a referir-se ao
mesmo plano de expressão, que se fica a perguntar sobre qual o mais
adequado.
- Haveria acaso um nome próprio adequado para a arte da
língua, como o há bem definido para a pintura, para a escultura
e para a música?
- E haveria um nome para a respectiva ciência da língua?
É necessário distinguir entre a arte da língua
e a ciência respectiva (vd 30). Não se requer
de pronto nomes diferentes para coisas próximas, porque a sintaxe
poderia conduzir a mente aos respectivos significados. Contudo, nomes distintos,
mesmo para pequenas distinções, podem ser muito úteis.
O nome para a arte da língua efetivamente existe, e é
língua (linguagem e fala).
Todavia o nome língua é polissêmico, e não
usamos conotá-la imediatamente com a arte. Por isso dizemos pela
forma ampla "arte da linguagem". Não tem o nome língua a
mesma ênfase como quando se diz pintura, escultura, música.
Mais frequente é indicar-se a arte da linguagem pelos seus
muitos gêneros e modalidades: poesia, prosa, epopéia, drama,
comédia, sátira, novela, romance, conto, carta.
Por falta de um nome específico e enfático literatura
(vd), que significava o estudo da gramática, passou modernamente
a significar os gêneros literários como um todo.
Aristóteles foi o primeiro a levantar a questão
de um nome geral, para denominar como conjunto, os vários gêneros
literários, ainda que não pareça alcançar a
largura da expressão em prosa. Usou o Estagirita a palavra "poética"
num sentido mais amplo que o atual, porque incluiu o teatro, ainda não
que não a retórica.
Declarou no início do sua Poética:
"Propomo-nos tratar da produção poética
em si mesma e de seus diversos gêneros, dizer qual a função
de cada uma deles, como se deve construir a fábula, no intuito de
obter o belo poético...
A epopéia e a poesia trágica e também a
comédia, a poesia ditirâmbica, a maior parte da aulética
e da citarística, consideradas em geral, todas se enquadram nas
artes de imitação.
Contudo, há entre estes gêneros três diferenças:
seus meios não são os mesmos, nem os objetos que imitam,
nem a maneira de os imitar" (c. 1, 1-3).
Arrolando gêneros e nomes, súbito anotou o autor
de Poética:
"Carecemos de uma denominação comum para classificar
em conjunto os mimos de Sófon e de Xenarco e os diálogos
socráticos, as imitações em trimetros, em versos elegíacos
ou noutras e espécies de metro vizinhas.
A não ser estabelecendo uma relação entre
tal gênero de composição e o metro empregado, não
se denominam os autores ou elegíacos ou épicos, dando- lhes
este nome de poeta, não segundo o assunto tratado, mas indistintamente
segundo o metro de que se servem (Ibidem 1, 8-10).
Ainda que Aristóteles se preocupasse com a unidade dos
gêneros literários e com os nomes gerais, não cunhou
uma denominação inteiramente geral para a arte literária.
30. Um nome para o estudo sobre a língua.
Qual seria o nome mais adequado para para o estudo da língua pela
ciência positiva? E qual o nome da disciplina filosófica ocupada
com a mesma lingua?
Tem a ciência positiva da língua um nome simples,
que é linguística.Perguntamos agora se é possível
achar um nome também para a filosofia da arte da língua?
Referida por uma denominação composta, ela se denomina,
- como vimos fazendo, - "filosofia da arte da língua".
Não se trata agora de um nome para a lingua como arte,
mas de um nome para a disciplina que trata dela, e que esteja ao mesmo
nível de denominações como lógica, ontologia,
etc.
31. A linguística. Diversas abrangências
deste nome. Como ciência positiva, à base da experimentação,
o estudo da linguagem possui nomes específicos. Alguns são
abrangentes, outros são apenas partes do todo. Mais abrangente é
linguística. Menos abrangente são gramática, semântica,
filologia, história das línguas, história da literatura
(ou história literária).
Não insistimos nas distinções, porque só
nos interessa separá-las globalmente frente à filosofia da
língua.
A linguística estuda, com métodos de observação
experimental, a língua humana enquanto ela é uma expressão.
Por conseguinte, enquanto ela, - a língua, - é portadora
de um significado, ao modo como, por outros meios, também são
expressões a pintura, a escultura, a música.
Neste sentido, a linguística estuda a linguagem como arte
(definida a arte como expressão).
Uma ciência pode ser dividida materialmente do ponto de
vista da dimensão, em geral e especial.
Sobretudo a linguística geral importa à filosofia
da linguagem, porque se ocupa da expressão por equivalentes convencionais
no que apresenta de mais fundamental. Então a linguística
trata das línguas enquanto obedecem a situações mais
fundamentais, que dizem respeito à natureza mesma da expressão.
Já a linguística especial examina casos especiais,
como são os diferentes sistemas segundo os quais se criam as línguas,
sejam as espontâneas, sejam as planejadas.
Num outro contexto, critérios mais circunstanciais, dividem
a linguística ramos, com base em ciências distintas, em:
- antropologia linguística, que investiga o modelo humano
de lingua;
- sociologia linguística, que observa as interações
das línguas;
- linguística histórica (a partir de Jakob Grimm)
que investiga a evolução de diversas línguas a partir
de um mesmo tronco;
- linguística comparada (também filologia comparada),
que mostra as afinidades de diferentes línguas e busca a reconstrução
de um esquema primitivo do qual teriam derivado.
Quaisquer sejam as definições de linguística
e de suas divisões, ela se enquadra sempre como uma ciência
positiva.
Também pode a linguística estudar a projeção
de novos idiomas e alfabetos, no sentido de melhorar a técnicas
da comunicação através da linguagem.
O fim último da linguística não é
apenas o estudo das linguas eventualmente surgidas no cenário humano,
como se estudasse máquinas velhas para conservá- las. Cabe-lhe
também a experiência em laboratório, com vistas à
criação de sistemas novos, inventando línguas.
32. Metalinguística (vd 4933y000). Poder-se-ia
tomar simplesmente o nome de metalinguística como sendo o paralelo
filosófico de linguística? Certamente que sim.
No plano geral do estudo filosófico da arte é uso dizer-se
"filosofia da arte", de maneira composta, quer porque está certa
a denominação, quer porque por muito tempo não havia
nome convincente para se denominar esta região da filosofia.
Pode Metalinguística significar tudo o que ultrapassa
o plano meramente experimental da lingüística.
Este plano filosófico já se manifesta na perspectiva
meramente formal, pela qual a lógica introduz o assunto, dividindo,
classificando, definindo, erguendo a questão dos métodos.
Efetivamente, a definição de lingüística
não é tema da mesma lingüística, e sim
da lógica, a qual também trata dos métodos.
Se se ultrapassar o campo meramente formal da lógica, a metalinguística,
pode ser interpretada paralelamente à metafísica entendida
como além da física. Então metalinguística
poderá ser a própria filosofia da lingua.
Seria não apenas a lógica definindo a ciência
da lingüística e a ciência da metalinguística;
seria também, e sobretudo, uma gnosiologia do significado da língua,
como a gnosiologia do conhecimento é uma metafísica do conhecimento.
Num sentido vasto, a metalinguística se ocuparia de todas
as questões filosóficas da língua, - da sua lógica,
da sua gnosiologia, da sua ética, da sua política, do seu
direito, etc. Seria, pois, uma coleção de ciências
filosóficas, unificadas em torno de uma mesmo objeto, observando-o
cada uma sob seu ponto de vista específico.
33. Filologia (no grego, amor à ciência,
ou à palavra) é o estudo crítico dos principais textos
documentais de uma língua para sua reta interpretação.
Considerando que as línguas evoluem e têm mesmo alterações
em sua estrutura convencional, a etimologia é, na prática,
um estudo do estado histórico dos significados de uma língua.
É possível, do ponto de vista dimensional, imaginar-se
uma filologia geral, que trataria da linguagem como um todo oscilante,
e uma filologia especial, que se ocuparia, como fez até agora, das
diferentes línguas. Neste último caso, desenvolveram-se ramos,
como filologia clássica (grega, latina), filologia romântica
(francesa, italiana, espanhola, portuguesa), filologia eslávica
etc.
Paralelamente à filologia, há ainda uma interpretação
similar dos significados dos símbolos em geral, cuja convenção
se funda em analogia, e que também oscila como os documentos das
línguas.
A heráldica, por exemplo, não é a mesma
em diversas épocas e nem a mesma em diversos países.
Há mesmo os símbolos, como por exemplo os gráficos,
que pouco se prendem à analogias; sua interpretação
importa em códigos, os quais, à maneira da filologia, dependem
de uma ciência que, embora não use ter um nome geral, mas
às vezes nomes particulares, se ocupa em garantir para cada tempo
e documento sua interpretação.
34. Semântica é o estudo do sentido
dado aos significantes. É parte da lingüística, que
estuda o significado das palavras. O significado de uma palavra pode, por
exemplo, multiplicar-se fixando-se no contexto, por deslocação,
restrição, extensão. A denominação é
recente, criada que foi em 1897 por Michel Bréal (autor de Essai
de semantique), derivando-a do grego semantikós (=significativo),
por sua vez derivado de sema (=significado, sinal).
Antes e depois criaram-se nomes similares, com aceitação
menor, como semiologia, semasiologia, sematologia, semiótica; segundo
a intenção dos criadores, podem ter algumas diferenças
de nuance.
O estudo da significação sempre existiu, mas a
semântica, ao se organizar a partir do século 19, lhe emprestou
uma sistemática empírica e descriptivista, com técnicas
próprias, que finalmente lhe deram um amplo desenvolvimento.
35. A etimologia, como parte da linguística,
procura a origem dos atuais significados das palavras, remontando-as ao
significado anterior e de onde derivam por transformação.
Há uma etimologia muito a nível de uma dada língua,
e uma outro que transcende às línguas dadas.
Estuda, pois, a etimologia as relações de origem
das palavras de uma língua, quer dentro da mesma língua,
quer para fora com palavras de outras línguas a partir das quais
se formaram, ou teoricamente se poderiam ter formado.
Ideologicamente, os defensores da linguagem natural supõem
ter havido um significado originário, ao qual a etimologia teria
a função de procurar. Foi pensando assim que anomalistas
(vd 54) os estóicos (vd 62)
deram desenvolvimento já na antiguidade à filologia e etimologia.
36. História da literatura é uma
ciência positiva, tal como toda história, tendo aqui como
objeto a expressão literária.
Há uma história da arte em geral, uma história
da arte da linguagem, finalmente uma história da literatura como
linguagem escrita (literatura de ficção, literatura filosófica,
etc). No contexto comum, história da literatura se diz principalmente
do gênero ficção em prosa e de todos os gêneros
em poesia.
A história é também ciência positiva
quando se trata de história da filosofia, história da filosofia
da arte, história da filosofia da língua, história
da filosofia da literatura.
37. Gramática, do grego, gramma
(= letra), por sua vez de grápho (= risco) é o estudo do
sistema de uma língua determinada.
Exclui ordinariamente o léxico (das palavras, que formam
o dicionário) e a fonologia (sistema de sons de uma língua);
mas em sentido amplo, tudo poderá ser incluído.
Pode-se dizer que a gramática é o código de convenções,
que institui uma língua (excetuando o léxico e o sistema
de sons).
Trata a gramática do sistema interno de uma língua,
no que se refere à maneira de expressar os objetos conforme se apresentam
nas operações mentais (conceitos, juízos, raciocínios),
de tal maneira que as partes das operações sejam compreendidas
isoladamente, ao mesmo tempo que dentro do todo. Dinamicamente, as
determinações da gramática se denominam regras da
língua; ou ainda, suas normas, leis.
Como acidentes de viagem, as línguas nacionais tendem para as
exceções, que as gramáticas anotam, e que tornam as
respectivas línguas mais difíceis, que as planejadas com
regras absolutas.
A gramática é uma ciência positiva,
porque, pela via da constatação as normas viáveis
são estabelecidas.
Aquele que estabelece as normas, qualquer seja a oportunidade
que o faça, fica sendo o autor da gramática.
Nas línguas espontâneas o autor é o usuário.
Neste caso o gramático é o usuário. Todavia, entende-se
também por gramático aquele que fica observando as regras
que regulam determinada língua.
O gramático, atento aos acontecimentos de uma língua,
estabelece a estrutura geral que a comanda, criando por conseguinte a gramática
explícita. Ainda que a rigor nas línguas nacionais, o autor
da gramática seja o conjunto dos falantes que a adota, este conjunto
de falantes não tem consciência explícita das regras
às quais obedece.
O gramático profissional é apenas um expositor
racional da vontade codificadora dos falantes.
Importa não perder de vista o caráter tecnológico da língua, tratando-se como uma técnica (como um fluxo de elementos), e não teoricamente (como a coisa é). Portanto, o gramático vê a língua como um sistema que deve conduzir a um resultado, à significação.
Atentos ao uso de dividir dimensionalmente as ciências em
parte geral e em parte especial, também a gramática é
divisível em: gramática geral e gramática especial.
Estuda a gramática geral o sistema como tal adotado por uma
língua. Por exemplo, uma língua pode ser aglutinante (ou
não aglutinante), com declinação (ou sem declinação)
etc. Pode inclusive estudar criticamente o sistema adotado, concluindo
pelas sua qualidades e mesmo necessidade de melhorias.
Também a gramática geral distinguirá as línguas
pela forma de adoção do código. Este se formará
ou espontaneamente (ou eventualmente), com o simples acontecer lingüístico
(língua natural, ou étnica) ou pela convenção
intencional (ou conscientemente). Neste último caso, o intencional
se dá em parte (como na linguagem científica), ou no todo
(como em línguas criadas artificialmente no todo).
Finalmente, a gramática especial, é a que, parte
por parte, examina as particularidades da língua, uma após
outra.
Mostrará, por exemplo, a gramática especial, como
se diferenciam operações como substantivo, pronome, adjetivo,
verbo (geralmente por terminações meramente morfológicas);
como se comporta a raiz fundamental da palavra, ao mudar de significado
(geralmente por sufixos e prefixos); como se expressam modos de ação
(pelos modos dos verbos e conjugação).
Mais uma vez se notará a grande diferença entre
línguas planejadas e não planejadas, ou folclóricas.
Estas se mostram muito desordenadas, enquanto as planejadas se destacam
pela escolha das melhores regras para a expressão fácil e
flexiva.
38. A crítica literária, entendida
como julgamento, pressupõe a norma de comparação e
a obra a ser julgada segundo esta norma. Então a norma poderá
vir de uma ciência positiva como a lingüística, como
também de uma ciência filosófica, como a filosofia
da linguagem.
Num sentido mais amplo, a crítica literária examina
ainda a produção literária em função
à sociedade, à religião, à didática,
à biografia do autor, etc... que são critérios externos
à arte em si mesma.
É a crítica literária uma disciplina eclética,
em que cada setor pertence a uma ciência distinta. De cada distinta
ciência procedem os parâmetros; cabe ao crítico o trabalho
da aplicação aos casos particulares.
39. Títulos dos ensaios sobre filosofia
da língua. Não obstante ser metalinguística um bom
nome (vd 32), foi eleito para o presente texto, integrado
no conjunto Megaestética, o de Estética literária,
com vistas a manter o paralelismo com outras estéticas, como das
cores, das formas e da musical.
Eventualmente, acontece que o nome estética não
somente se diz do estudo dos efeitos psicológicos estéticos,
mas, - desde o século 18, por iniciativa de Alexandre Baumgarten,
- também do estudo da arte como um todo.
Estética literária pode ainda estar advertindo para
uma das mais apreciadas propriedades da expressão falada, como de
qualquer arte, que é a de produzir sentimento estético.
De outra parte, dizer estética literária, mencionando
a linguagem escrita, lembra que a linguagem escrita é a mais
cuidada pelos estudiosos da língua.
Ainda que na arte importe em primeiro lugar o principal - a expressão-,
a tendência final é usufruí-la pelo seu lado estético.
Também o mel, apesar de ser em primeiro lugar um alimento, é
buscado por causa de sua doçura; assim a arte, embora essencialmente
expressão, é muito apreciada pelo prazer estético
que dá.
ART. 2-o. HISTORIA DA TEORIZAÇÃO LITERÁRIA. 4515y42.
43. A arte literária tem sido uma constante
na história do espírito humano. Ela principia no choro
da criança, ao descobrir que por este meio consegue avisar, que
é hora de mamar.
Importa distinguir que há uma distinção
entre exercer a arte de falar, que logo se destacou, e sua teorização,
havendo esta evoluído mais devagar. Todavia também esta evoluiu
mais depressa que as outras teorizações da arte.
44. Primitiva literatura oral. O simples exercício
da linguagem, já antes da escrita, dispôs de uma literatura
oral, que muito depois passou aos textos escritos.
Com a invenção da escrita, desenvolveram-se ainda mais
rapidamente os recursos literários. Estes se tornaram altamente
variados, multiplicando-se os gêneros de expressão, o que
já aconteceu na antiguidade.
A riqueza das antigas letras nos enche de admiração,
o que mostra a elevada estima que os homens sempre deram à palavra.
Desde Homero (8-o séc. a. C.) já se escrevia com
admirável grandeza.
Com Demóstenes (384-322 a.C.) também se passou a falar
ao público com o maior requinte.
A escultura e a pintura evoluirão somente depois
das letras. A música só tardiamente, apenas nos tempos modernos,
será uma grande arte. Na escola, nem a escultura e a pintura, nem
a música, serão tão vastamente promovidas do que o
trato do ler e escrever.
45. Uma teorização literária,
ao mesmo tempo que o exercício da literatura,teve também
começo no plano interno das línguas existentes.
Mas a linguística propriamente dita, como ciência
positiva, - ainda que houvesse existido já na antiguidade
e subsistido através dos tempos,- passou a tomar forma definitiva
só quando já iam adentrados os tempos modernos.
O caráter mesmo da lingua como instrumento convencional
foi só estudado precariamente pelos antigos. Neste campo do precário
se situam os mitos sobre a sua origem e a diversidade das linguas.
Não obstante ao desenvolvimento moderno da linguística,
restam ainda muitos preconceitos a serem superados. Por vezes se confunde
a linguística com uma antropologia das línguas. Em vez de
se ter uma visão puramente linguística sobre a língua
em geral, confunde-se-a com as condições eventuais do ser
humano.
Apenas recentemente, depois que superou seus próprios
equívocos, a linguística passou a ter interesse pelas línguas
planejadas, vindo estas a ter um desenvolvimento mais absoluto, como prova
o Esperanto.
I - A linguística na
antiguidade grega. 4515y046.
47. A filosofia da linguagem surgiu já
com os pré-socráticos, ainda que fragmentariamente, para
adquirir um adiantamento relativo ao tempo do período socrático.
Eis a linguística grega clássica.
Logo foi seguida pela linguística da antiguidade helênica,
marcada pelos estudiosos de Alexandria (vd 60), Pérgamo
(vd 54) e pelos estóicos em geral (vd 62).
Temos assim uma subdivisão a atender.
a). Linguística da antiguidade clássica. 4515y48.
49. As primeiras informações
sobre a filosofia grega dizem respeito aos estudos sobre a natureza, iniciada
por Tales de Mileto, que em 585 a.C. predissera um eclipse total do sol.
Parmênides, pouco depois, se referiu à linguagem
como sendo etiqueta das coisas (vd 53).
Cresceu a importância de Atenas depois das batalhas de Maratona
(492 a.C.) e Salamina (482 a. C), quando a comunidade grega se firmou diante
da anterior expansão persa, agora detida definitivamente. Desde
a prosperidade então instalada, verte-se a filosofia
para os assuntos humanos, entre eles os estudos de gramática e retórica.
Foi também então que a cultura grega, anteriormente difusamente
distribuída desde a Jônia (Ásia Menor) até a
Magna Grécia (Sul da Itália), fundando o novo período,
se polarizou em Atenas, a principal beneficiada da guerra contra o geral
inimigo.
Ganharam importância os serviços, em que se incluíam
os da política. Em vista desta necessidade se desenvolveu o magistério,
quase sempre particular e ministrado pelos mestres, chamados sofistas.
Com estes o magistério passou a ser remunerado. E a filosofia se
tornou crítica, e com tendência ao probabilismo.
Sócrates (469-399 a. C.) todavia se fez um contestador
dos sofistas. Este pregava nas praças. Atendia também em
sua casa, sendo isto um incômodo para Xantipa, a mais rabugenta de
suas duas esposas. Exercendo Sócrates a profissão de escultor
e tendo envolvimentos políticos havendo sido até Senador,
compreende- se que pudesse subsistir como pregador sem salário.
Nenhum livro sobrou do tempo dos primeiros filósofos e
sofistas. Fragmentos todavia ficaram na obra de Platão, Aristóteles
e outros que os citaram e discutiram.
50. Platão (427-347 a. C.), nascido em Atenas, fundador da Academia (cerca do ano 387 a. C.), escreveu um diálogo em que, entre outras questões, abordou a origem da língua. Intitulando-o Crátilo (vd 55), em homenagem a um dos interlocutores, é um primeiro importante documento sobre a ciência da língua e em particular de sua origem. Platão também se referiu à lingua em Íon, Fedro, República, Leis.
Aristóteles (384-322 a. C.) foi mais sistemático
que seu mestre Platão. Escreveu os tratados conhecidos como Retórica
e Poética, além de importantes referências à
linguagem nos livros do Órganon e Metafísica.
Aprofundou Aristóteles o princípio de que "o semelhante
é conhecido pelo assemelhado" (Da alma I, 2. 405 b 15), como teoria
explicativa do conhecimento. Este principio se aplica à explicação
da arte. Tratou também Aristóteles do caráter convencional
da linguagem (vd 57).
Após este período clássico da filosofia
grega serão mais profusos os trabalhos dos filósofos e gramáticos,
dentre os quais se destacarão no futuro próximo Dionísio
da Trácia e Apolônio Díscolo (gramáticos gregos)(
vd 62), Donato e Prisciano (gramáticos latinos)
(vd 70).
51. As questões linguísticas dos
antigos. Quais as primeiras perguntas importantes sobre a língua
e que a história registra?
Certamente já havia antigas considerações
sobre a língua, porque elas surgem obviamente, por causa da diversidade
com que falam crianças e adultos, indivíduos mais inteligentes
e outros mais estúpidos, representantes do povo, variações
de textos mais antigos e mais recentes.
Importa eleger os questionamentos mais significativos sobre a
língua em geral, e mostrar para cada questionamento significativo
seu início histórico e seu desdobramento através do
tempo.
Pela ordem a questão fundamental sobre a língua
é sua definição essencial:
- ou a língua é uma expressão, que intencionalmente
remete a atenção para um objeto (ou assunto);
- ou a língua é apenas uma obra sem intencionalidade
(esta se ocorrer não lhe será essencial).
A pergunta essencial sobre a língua se alarga sobre a
arte em geral: ou ela é obra que exprime intencionalisticamente,
ou é apenas obra sem intencionalidade por não lhe pertencer
essencialmente.
Em nenhum momento da história antiga dos estudos da língua
e da arte em geral, como expressão intencionalística, foi
claramente posta. Sobretudo não foi amplamente desenvolvida.
O problema, entretanto, esteve incubado, porque já era
tratado em relação à expressão mental. Sobretudo
Aristóteles desenvolveu amplamente a natureza do pensamento como
expressão. O pensamento não é apenas um ente em si,
fechado sobre si mesmo. É um ente essencialmente virado para o objeto,
mediante uma relação intencionalística. Este teoria
não se aplicou logo à arte.
Os antigos, até o início dos tempos modernos, tendem
a conceber a arte simplesmente como coisa. Esta coisa seria uma criação
artificial realizada pelo homem; sua criação tinha como paralelo
a coisa natural. Por vezes se fazia até o paralelo; arte, coisa
bela criada pelo homem; natureza, coisa bela criada por Deus.
A idéia da arte como expressão intencionalística
não conseguiu desenvolver-se nem mesmo em Kant (1724-1804) e Hegel
(1870-1831), os quais também a trataram como coisa bela artificial
paralela à coisa bela da natureza.
Obviamente a distinção entre língua como expressão e língua como instrumento de comunicação também não teve desdobramento na antiguidade. Considerando, que deve haver expressão antes que a expressão passe a se exercer como instrumento de comunicação, o não tratamento adequado da natureza da expressão, bloqueava o tratamento restante.
52. A artificialidade da língua, defendida
pelo analogistas, contra os anomalistas, eis o acento das discussões
antigas. Tratavam de determinar, se a língua é produto de
uma convenção humana (e então a língua seria
artificial), ou se ela existe de natureza (e então a língua
seria natural, ainda que por corruptela se diferenciasse entre os povos).
Atenda-se aqui para a polissemia da proposição "língua
natural", pois também se denomina a "língua natural" o que,
embora se considere convencional, surge espontaneamente, isto é,
naturalmente, no curso da eventualidade das circunstâncias.
Efetivamente, é natural ao homem a capacidade de inventar a
língua, mas a língua em si mesma não é natural.
Portanto, no erguimento da pergunta sobre a convencionalidade
ou naturalidade da língua está o ponto de partida da história
da linguística e da filosofia da língua.
53. Analogistas. A convencionalidade da
língua já vem discutida no final do período pressocrático
da filosofia grega, por eleáticos, sofistas, atomistas, derivando
o assunto finalmente para dentro dos diálogos de Platão,
em que se mostra também o envolvimento de Sócrates.
Por último, os analogistas ocorrem na escola de Alexandria
(vd 64).
Já vem a convencionalidade da língua sugerida no
fragmento 19 (H. Diels) de Parmênides de Elea (cerca do ano 500 a.C.).
Nele se diz que as palavras são "etiquetas das coisas ilusórias".
Reflete-se ali a gnosiologia do grande metafísico de Elea
(cidade da Magna Grécia, Itália), para o qual o ser é
uno e imutável, como o pode demonstrar a inteligência; em
consequência, temos de considerar ilusórias as variações
numéricas e qualitativas apresentadas pelos sentidos e denominadas
pelas palavras. Não conhecemos outros detalhes do pensamento de
Parmênides a respeito da língua.
Repetiu-se o pensamento unicista da metafísica eleática
na escola socrática menor de Mégara (junto de Atenas). Ali
esteve Platão antes da fundação de sua Academia (387
a.C.) e sofreu a influência da referida escola. Mencionados pelo
fundador da Academia, os megáricos são partidários
da teoria convencionalista da língua, conforme texto de Platão:
"Para Hermógenes e muitos outros... os nomes procedem
de convênios que representam as coisas para os que intervierem nestas
convenções, conhecendo-as com antecipação.
A propriedade dos nomes nasce exclusivamente deste pacto. Não existe
nenhuma razão para fixar-se no sentido que têm no presente.
Do mesmo modo poder-se-ia chamar grande o que se chama pequeno, como pequeno
o que se chama grande" (Crátilo 433).
O atomista Demócrito (c. 460-400 a. C.) oferece argumentos
em número de quatro, em favor da convencionalidade da língua:
- coisas diversas são denominadas pelos mesmos nomes (homonímia);
- diversidade de nomes para a mesma coisa (sinonomia);
- possibilidade de mudança dos nomes;
- ausência de analogias na mudança dos nomes (Fragmento
26, Diels).
Na mesma época os sofistas sustentaram uma posição
cética, tanto do pensamento em relação às coisas,
como da língua em relação ao pensamento. Esta posição
favoreceu a doutrina da convencionalidade da língua. Declarou Górgias
(c. 487 - c. 380 a. C.):
"A língua não exprime as coisas existentes, nem
as coisas existentes manifestam a própria natureza a uma delas"
(frag. 3, 153, Diels).
Finalmente é o mesmo Platão (427 - 347 a. C.), autor do Cratilo, que assume a posição convencionalista da língua, que é defendida pela boca de Sócrates, principal dialogante, frente aos demais, Hermógenes (convencionalista) e Cratilo (naturalista).
A tradição analogista permanecerá, como já foi dito, com os gramáticos de Alexandria (vd 63).
54. Anomalistas. Teve alguma consistência
entre os gregos a teoria da linguagem como expressão natural (não
convencional).
Seus defensores vieram depois a chamar-se anomalistas.
Os anomalistas estiveram representados cedo sobretudo por Crátilo
de Atenas (vd n 55), e depois pelos gramáticos
de Pérgamo (contra os de Alexandria) e pelos estóicos (vd
65), os quais por isso deram desenvolvimento à
etimologia.
A naturalidade da língua defendida pelos anomalistas não
se diz apenas no sentido de capacidade natural do homem criar uma língua;
neste caso, o produto seria artificial. Não é desta capacidade
natural de criar a língua, que falam os defensores da língua
como expressão natural.
Trata-se da relação natural entre a língua
e os objetos expressos. A pintura e a escultura expressam naturalmente
objetos, enquanto apelam a uma mimese natural entre as cores e as formas
da expressão e as cores e as formas do objeto. Aconteceria a mesma
relação natural entre a língua e os objetos expressos.
Os defensores da língua natural estabelecem diferentes
graus para esta naturalidade mimética entre expressão e objeto
expresso. Uns afirmam uma relação natural maior de semelhança;
outros uma relação menor, com diferenças acidentais,
que explicariam a variação entre si das línguas.
A questão é intrigante, pois em última instância,
também a convenção é uma espécie de
mimese natural.
Operando a língua por equivalentes convencionados, estes
equivalentes são em primeiro lugar uma mimese, ainda que convencional;
são mimese, porque deverão funcionar como se fossem idênticos
aos objetos, e por serem assim considerados idênticos, os conseguem
expressar (vd 123).
Em segundo lugar, os equivalentes são coisas naturais,
como sons, cores, formas; no caso da língua se trata de sons; em
outras linguagens convencionais, são ainda tomados como equivalentes
as cores, as formas. Tais coisas naturais são operadas pelo homem,
dando-lhes significados por convenção. A teoria da linguagem
natural elimina a necessidade da convenção, porque por natureza
as palavras possuiriam o poder de significar.
Com referência ainda à possibilidade de inserir o
natural no conceito de língua convencional, há a mencionar
a teoria dos que consideram o código da língua de tal maneira
difícil de ser criado, que, ainda que convencional, precisa de Deus
para estabelecê-lo e dá-lo a conhecer.
Neste plano se situam todas mitologias, as quais atribuem a Deus
o ensino da língua ao homem, bem como sua diversificação,
como na curiosa narrativa da Torre de Babel (Gênesis, 11).
Nesta mesma linha ingênua navegam os linguistas das "línguas
naturais", que não admitem a viabilidade de um código inteiramente
artificial (como no Esperanto); para eles a língua é possível
como produto da sociedade que a cria num jogo permanente de eventualidades.
Outros, ainda, condicionam a língua a um paralelismo bastante
rigoroso com a expressão mental do pensamento. Acentuam o lado cultural
da língua. Não sabem que, em última instância,
a língua não expressa pensamentos, mas os objetos do pensamento
(vd 56).
Postas as diferentes variáveis de uma teoria da língua
como expressão natural, podemos, com mais precisão de conceitos,
determinar as posições históricas de sua evolução.
55. Crátilo de Atenas (séc. V.
a. C.), já mencionado (vd 48), foi o primeiro
a defender o caráter natural da língua. Ligado ao pensamento
naturalista da Escola Jônica a que pertenceram Tales de Mileto e
Heráclito de Éfeso, tendeu a procurar na mesma natureza a
língua, por vezes até ao ponto de explorar a semelhança
das letras com o objeto, com vistas a interpretar a capacidade de expressão
da palavra, do mesmo modo como por simples imitação as cores
e formas exprimem na pintura e escultura.
Platão, que fora inicialmente discípulo de Crátilo,
conhecia a nova teoria da língua. Em torno dela montou o diálogo,
a que deu o título de Crátilo. Os interlocutores são
o mesmo Crátilo (da língua natural) e Hermógenes (da
língua convencional).
Entre os dois é introduzido Sócrates que nos diálogos
de Platão representa as idéias do mesmo Platão, que,
no caso argumenta contra a teoria da linguagem natural.
Hermógenes, no diálogo, se dirige ao outro lado,
apresentando Sócrates, quando também resume a teoria da língua
natural, de seu contendor:
"Hermógenes. Ó Sócrates, eis aqui Crátilo,
que pretende que cada coisa tenha um nome, pertencente por natureza à
cada realidade; que não é um nome aquele, de que se valem
alguns, depois de o haverem posto, por acordo, para servir-se dele; e que
um nome com tais condições só consiste em uma certa
articulação da voz; que existe um sentido de denominação
originária tanto para os gregos como para os bárbaros" (Crátilo
183 a. C.).
Mais tarde os gramáticos da escola de Pérgamo (Ásia
Menor) e os gramáticos estóicos defenderão uma variante
do naturalismo linguístico inaugurado por Crátilo de Atenas.
56. A discussão sobre o caráter
natural ou convencional da língua, - tão cedo ocorrida na
história da linguística, - incidiu sobre uma das questões
mais graves da língua, ainda que não essencial como é
a mesma expressão.
Ainda que seja mais fundamental tratar da língua como
expressão, onde se encontra a sua essência, ganha imediatamente
após importância a pergunta, - se a expressão é
natural, ou se é apenas convencional.
A resposta plena, sobre a naturalidade ou convencionalidade da
língua, somente se pode dar, principiando pela expressão
em si mesma.
Não é uma questão simples, porque importa
numa teoria. Suponha-se a teoria, que a expressão se processa
fundamentalmente por mimese. Consiste a mimese no fenômeno pelo qual
o semelhante expressa o assemelhado. E então ainda se verifica
haver duas alternativas: a mimese é natural entre as qualidades;
é convencional em outros casos.
No segundo caso, no da mimese por convenção,
os equivalentes se estabelecem por obra do "faz de conta que..." (vd 121).
57. As relações convencionais entre
a língua e os objetos foram abordadas por Aristóteles, ao
mesmo tempo que tratou da lógica e da retórica.
No opúsculo Da interpretação (segundo livro
do Órganon) afirma expressamente o caráter convencional da
língua:
"Nenhum dos nomes é tal por natureza, mas somente quando
se tornou convenção" (Da interpretação, 2.16
a 18).
Ainda que a língua não seja a tradução
direta do pensamento, mas dos objetos, estes objetos todavia aparecem através
da mente.
Por isso, a língua não expressa as coisas concretas
tais quais são, mas ao modo como são mentalizadas, sobretudo
na forma de juízo. Esta sequência, já notada
por Aristóteles, é sua característica.
A relação entre a língua e a expressão
mental se exerce de preferência segundo a proposição,
que simplesmente afirma ou nega. Tal é a linguagem apofântica,
a única de que trata a lógica. Neste caso, a proposição
domina a língua.
Este caráter assertivo não ocorre em certas orações,
frequentes na retórica e na poesia, em que concorrem elementos não
lógicos, tal como se observa na exclamação. O apofantismo
de Aristóteles leva a crer na importância fundamental da lógica
da frase, porquanto sem ela fica sem viabilidade tudo o mais que se acrescente
à linguagem.
Alguns, - talvez porque exagerem a parte não apofântica
da linguagem, - condenaram a posição de Aristóteles.
Seja o exemplo do existencialista italiano Nicolau Abbagnano:
"Isto estabelece, segundo Aristóteles, o caráter
privilegiado da linguagem apofântica: que é aquilo em que
tem lugar as determinações de verdadeiro e falso, conforme
a união ou separação dos sinais reproduza ou não
a união ou separação das coisas. Aristóteles
não nega que existam composições não apofânticas,
por exemplo, a oração (Da interpretação, 4,17
a 2).
Mas privilegiando a composição apofântica,
faz dela a verdadeira linguagem, aquela sobre a qual os outros modos de
expressão mais ou menos se modelam e sob cujo ponto de vista devem
ser julgados.
Por isso, a poética e a retórica, que se ocupam
da linguagem não apofântica, são tratados por Aristóteles
em conexão com a analítica. Ora a linguagem apofântica
não possui mais nada de convencional: suas estruturas são
naturais e necessárias, porque são as mesmas do ser, por
ela revelados.
Este convencionalismo aparente ou coxo, que se pode combinar
com a tese do caráter apofântico da linguagem, é a
forma que o convencionalismo assume na Idade Média e na Idade Moderna.
O nominalismo medieval retoma exatamente nesta forma a tese convencionalista"
(N. Abbagnano, Dicionário de filosofia, no verbete Linguagem).
58. Gramática antiga. Cuidaram os gregos
mais da gramática do que da linguística. Trataram, pois,
da língua já realizada em um determinado sistema de expressão.
A gramática é sempre a gramática de uma
língua, e não o estudo das condições totalmente
gerais da língua.
A linguística dos gregos se limitou a alguns aspectos,
como por exemplo o do caráter convencional ou natural das palavras.
Defendendo embora o convencionalismo, não criaram contudo uma língua
artificial.
Não faziam ainda os gregos clara distinção
entre o que se apoiava em considerações racionais da filosofia
e o que em constatações empíricas ao modo do método
das ciências positivas.
Por isso os resultados por eles obtidos, interessam hoje, ora
ao filósofo, ora ao linguista.
Quando os dados simplesmente apontam para elementos concretos
da linguagem, eles se situam na fase preliminar, chamada do objeto material;
este é idêntico para todas as ciências, as quais apenas
se vão distinguir no objeto formal, isto é, no ponto de vista
abordado.
59. Só aos poucos os gregos foram apontando
para os diferentes fatos da língua: o nome, o verbo, a conjugação,
etc.
Platão destacou na linguagem a sentença, como a
unidade que compõe o discurso.
Na sentença apontou a distinção entre o
nome (ónoma) e o componente verbal (rema). A partir dali se desenvolveu
posteriormente a análise sintática e a classificação
dos vocábulos.
Aristóteles acrescentou ao nome e ao verbo os súndesmoi,
com o que indicava o que atualmente equivale ao artigo, conjunção,
pronome. No grego, súndesmoisignifica conexões, ataduras.
Advertiu também Aristóteles para a especificidade
do adjetivo; chamou-o igualmente de verbo (rema). No grego, aliás,
o adjetivo tem um comportamento sintático similar ao verbo.
Posteriormente os alexandrinos dirão que o adjetivo é
uma subclasse dos substantivos.
Aristóteles ainda se referiu à derivação
(ptósis), querendo referir-se às variações
dos casos, resultantes das declinações, que no grego são
numerosas.
Denominou também de casos as variações de
tempo dos verbos.
Os estóicos melhor esclarecerão os casos, no sentido
como ainda hoje se entendem as declinações das palavras.
Depois de Aristóteles crescem sobretudo os conhecimentos
de gramática, sem todavia perder de vista os de linguística
em geral.
b). Linguística dos helênicos. 4515y060.
60. A gramática dos alexandrinos e estóicos.
Com referência ao desenvolvimento da gramática, ela se deu
principalmente com os alexandrinos e estóicos.
Criado o império helênico por Alexandre Magno, estendendo-se
da India à Grécia, tornou-se Alexandria, por ele fundada
em 332 a. C., o principal centro cultural, a segunda Atenas, notabilizando-se
pela sua grande biblioteca e escolas de saber.
Vinha logo atrás a própria Atenas, onde persistiam as
escolas, com seu longo passado. E na Ásia Menor, Antioquia e Pérgamo,
onde passou também a florescer a literatura grega, havendo tido
a gramática campo próprio de desenvolvimento.
61. Dionísio o Trácio destacou-se
em fins do 2-o século a. C. Ocupou-se com o sistema morfológico,
então indicado como regularidades analógicas. Sua gramática
descreveu duas unidades básicas: a sentença (lógos)
e o vocábulo (léxis).
Cuidou principalmente dos vocábulos, que são "partes
do discurso" (méros lógou ), arrolando ao todo oito classes:
artigo (árthron), nome (ónoma), verbo (rhema), princípio
(metoché), pronome (antonymía), advérbio (epirrhema)
e conjugação (súndesmoi).
Três séculos mais tarde, Apolônio Díscolo
completará a Dionísio com o desenvolvimento da sintaxe, mostrando
na oração a binaridade nome e verbo, e ainda apontando as
relações de concordância destas duas classes entre
si e com as demais.
Ainda que não alcançando uma gramática plena,
os trabalhos de Dionísio o Trácio e Apolônio Díscolo
integram ainda hoje o sistema que se apresenta como sendo o da língua.
62. Os estóicos foram os que mais
se ocuparam com os estudos da gramática. Embora os escritos dos
primeiros estóicos sobre gramática se tenham perdido, ficaram
todavia alguns dos seus resultados conhecidos por informações
de terceiros.
Em geral anomalistas, os estóicos defenderam o caráter
natural da língua. Apontando para suas irregularidades, contestavam
aos analogistas.
A gramática dos estóicos oferece quatro classes das palavras:
nome, verbo, conjunção, artigo. Nesta classificação
os adjetivos são citados entre os nomes.
Dividindo posteriormente entre nomes próprios e comuns, passaram
os estóicos a referir-se a cinco classes de palavras.
Introduziram também a distinção entre caso reto,
- o nominativo, - e os casos oblíquos, - acusativo, genitivo, dativo.
O nominativo seria a forma primeira; os demais, dele derivados.
Classificaram os verbos em passivos e ativos, e assim também
em transitivose neutros (intransitivos).
Distinguiram entre aspectos concluso e inconcluso do verbo.
Deixaram os estóicos de inserir nos casos (como fizera Aristóteles)
a distinção do verbo em presente, passado e futuro.
63. Continuam os anomalistas (vd 54),
em confronto aos analogistas (vd 53). A ocorrência
das exceções na língua foi um segundo importante questionamento
específico linguístico já tratado pelos antigos, sobretudo
a partir do 2-o século a. C. A discussão sobre a forma
da palavra em relação ao seu significado foi finalmente concentrar-se
no fato de haver exceções.
Enquanto a maioria das palavras seguia um modelo (paradigma, no grego),
verifica-se uma grande frequência das exceções.
Dali resultaram as denominações das duas diretrizes já
citadas sobre a origem da língua: a dos anomalistas (ou da língua
natural) a que pertencem sobretudo os filósofos estóicos
e os gramáticos da escola de Pérgamo; e a dos analogistas
(ou da língua convencional), dos gramáticos de Alexandria,
sobretudo Dionísio da Trácia e Apolônio Díscolo.
64. Os anomalistas insistiam na frequência
das exceções e na presença de diversos tipos de analogias
dentro de uma mesma classe de palavras. Estabeleceram que a
língua não podia depender da convenção do homem;
se assim fosse deveria ser mais regular, porque a lógica prevaleceria
sobre a irregularidade. Resulta que a língua nasce da natureza,
revelada no uso.
A resistência à criação de línguas
planejadas, que acontece ainda em tempos modernos, apresenta-se como um
resíduo recessivo do anomalismo estóico.
Admitiam os estóicos uma relação entre o significado
da palavra e seu portador material, de cuja forma natural este significado
derivava. Ainda que o uso corrompesse a palavra natural, ela permanecia,
podendo ser procurada.
Em consequência estimularam os estóicos a ciência
da etimologia para estudo dos étimos (étymos = verdadeiro,
real, étimo). Haveria, pois, uma aproximação entre
a linguagem e as artes que expressam por mimese natural. Este conceito
de língua natural persistiu através dos tempos e se apoiava
inclusive em vagas afirmações dogmáticas das religiões,
cujos mitos davam a Deus o mérito de haver criado as línguas.
Por quase dois séculos floresceu a cidade de Pérgamo, capital de um reino helênico, na Ásia Menor (280-133 a. C.), cujos gramáticos eram analogistas, ou seja, defensores do caráter natural da língua com base, entre outros motivos, na frequência das exceções.
65. Continuam também os analogistas (vd
61). Desde o 3-o século os analogistas de Alexandria
cultivaram a gramática, desenvolvendo amplamente o estudo das diferenças,
inclusive as entre o grego contemporâneo e o clássico (de
Homero), com glossários para facilitar a leitura deste.
Apesar de haver dominado a corrente convencionalista (ou analogista)
da linguagem, continuou a persistir fortemente a imagem da língua
natural.
Não haveria tão cedo uma tentativa de língua criada
por convenção expressa.
Continuou a linguística de dois milênios limitada ao estudo
meramente antropológico de línguas preexistentes, seja nos
seus aspectos sincrônicos, seja nos diacrônicos ou históricos,
como se a linguística consistisse apenas em um compreender e conservar
máquinas velhas, sem inventar novas e mais adequadas aos interesses
da sociedade.
Já era 1887 quando apareceu um primeiro projeto válido,
o Esperanto (vd 85).
II - Linguística dos Latinos romanos. 4515y66
66. Transferiu-se para os latinos a controvérsia
linguística de anomalistas e analogistas (vd 64).
Ainda que sem lhe dar novos desenvolvimentos apreciáveis, os
romanos mantiveram pelo menos o interesse pela questão, que por
isso se consolidou como tema de discussão secular.
Foi na gramática que os romanos melhor se desenvolveram. Trataram
especialmente da palavra (dictio) e do discurso (oratio).
Com os romanos o acontecimento linguístico mais importante foi
a aplicação das estruturas já conhecidas a nível
da língua grega, em uma nova língua, o Latim.
Foram aproveitados nesta assimilação sobretudo os trabalhos
de Dionísio o Trácio (vd 62) e de Apolônio
Díscolo.
Com referência à distinção entre língua escrita e falada, - onde os gregos se haviam ocupado com os textos clássicos em vez da língua popular, - agora também os gramáticos romanos trataram do Latim erudito, como o de Vergílio e de Cícero, e não do Latim vulgar efetivamente praticado pela massa.
67. São autores latinos a nível
de estética e filosofia da arte:
- Cícero (106-43 a. C.) com De Oratore;
- Horácio (65-8 a. C.), com a Arte poética, ou Epístola
aos Pisões;
- Quintiliano (42-117), com Instituições retóricas.
. Mais a nível de gramáticos:
- Marco Terêncio Varrão (116-27 a. C.), importante magistrado
em Roma, autor de De língua latina (de 25 livros, de que restam
6, e alguns fragmentos) (vd 70);
- Donato, (do 4-o século), também autor de uma gramática
(vd 70);
- Prisciano de Cesarea (Mauritânia, com escola em Constantinopla,
em 525), autor de Instituições de arte gramática (Instituições
da arte gramatical), em 18 livros, no gênero a maior obra conservada
da antiguidade.
Varrão, dedicando-se à etimologia, sintaxe e morfologia, destacou-se nesta última. Distinguiu entre derivações e flexões da palavra. A derivação é uma "variação facultativa" (declinatio voluntaria). Diferentemente, a flexão é uma variação natural (declinatio naturalis), portanto obrigatória, além de regular nos procedimentos flexionais. Advertiu para um sexto caso, o ablativo, ligeiramente distinto do dativo. No verbo distinguiu entre processo concluído (perfectum) e processo inconcluso (infectum).
Donato e Prisciano, à semelhança dos gregos, distinguem
8 partes do discurso. No se ocupam do artigo, existente no grego, mas não
no Latim. De outra parte elevam a uma destas 8 partes a interjeição,
que os gregos haviam posto como subclasse dos advérbios.
Prisciano denominou as partes, de acordo com Dionísio, e as
definiu na forma de Apolônio Díscolo, nesta sequência
: nomen, vebum, participium, adverbium, praepositio, conjunctio e (só
nos gramáticos latinos) interjectio.
III - Linguística dos latinos medievais. 4515y068.
68. Latim e linguas nacionais na Idade Média.
Deixou o grego de ser falado no Ocidente europeu, onde na antiguidade romana
fora praticado ao mesmo tempo que o Latim.
Depois da queda do império romano do Ocidente (476), as novas
nações passaram a usar o Latim juntamente com suas línguas
nacionais. Com a penetração dos germânicos alterou-se
a estrutura demográfica e política, o que tudo influenciou
a formação de novas línguas, ao mesmo tempo que o
latim manteve sua posição de instrumento diplomático
e cultural.
Na Itália do Norte se haviam estabelecido ostrogodos e lombardos;
na Bretanha, os anglossaxões; na França, os francos; em Portugal,
os suevos; na Espanha, os visigodos. Na Europa central continuaram os germânicos.
Sobreveio ainda a presença árabe na península Ibérica
na África latina. A língua italiana foi a que se conservou
mais próxima do velho Latim.
Com o esquecimento do grego, em que antes eram lidas no Ocidente latino
romano as obras dos grandes sábios, e foi preciso agora fazer a
tradução para o Latim das grandes obras antigas. Curiosamente
o Latim medieva passou a ser culturalmente mais significativo, quanto houvera
sido ao tempo do Império Romano, quando fora seu tempo próprio.
No decurso da Idade Média o foi, portanto, no Ocidente, o Latim
a língua da erudição , principalmente teológica
e filosófica, além de língua do ensino primário
e da diplomacia, restando as línguas nacionais para o uso popular.
Prosseguiu também na Idade Média o estudo da gramática
latina prosseguiu, e teve por modelo Donato e Prisciano. Pelo lado da filosofia
da linguagem, foram sobretudo os lógicos que lhe acrescentaram inovações.
69. Os modos de significar. A questão
dos universais. Ocupados com os modos de significar dos termos, quer
orais, quer mentais, os gramáticos medievais são chamados
com frequência de modistas. Muitos são os ensaios intitulados
Sobre os modos de significar (De modis significandi).
Distinguia-se um modo de ser (modus essendi), relativo às coisas
em si mesmas, um modo de entender (modus intelligendi), relativo aos conceitos,
um modo de significar (modus significandi), relativo ao termo oral.
Finalmente, estes modos de significar foram estudados segundo os modelos
dos velhos latinos Prisciano e Donato: substantivos, verbos, pronomes,
etc, com as respectivas morfologias.
Com raras exceções também na Idade Média,
há aqueles que ultrapassaram o campo meramente morfológico
dos modistas. Entre outros, destaca-se Tomás de Erfurt (século
13), que colocou em primeiro plano na gramática a sintaxe. Nome
e verbo são fundamentais na oração, cujos termos são
sujeito (suppositum) e predicado (appositum).
Os modistas definiram o substantivo e o adjetivo, apontando para a
independência sintática do primeiro, dependência sintática
do segundo.
A questão dos universais. Destacou-se na Idade Média o estudo dos termos, com o seu paralelo lógico e gnosiológico da questão dos conceitos universais. Sobretudo a estes últimos, - os univeersais, - preocupavam os filósofos.
Para Anselmo (1033-1109), Tomás de Aquino (1225-1274) e ainda
Duns Scoto (1266-1308), - que são as grandes figuras da filosofia
medieval, - os conceitos universais têm fundamento na coisa. Cada
coisa, além de seu elemento individual, teria algo em comum com
as demais coisas; este algo em comum, tomado em abstrato, seria o conteúdo
do conceito universal.
Evidentemente, a doutrina dos universais, quando com fundamento na
coisa, depende de um pressuposto metafísico, a da unidade do ente,
como estabelece a ontologia de Parmênides, Platão, Aristóteles.
Para outros, como Roscelino (1050-1120) e Guilherme de Ockam (1280-
c.1349), os conceitos universais são apenas uma eflorescência
mental, sem ter seu correspondente real nas coisas.
A doutrina de Ockam se chamou terminismo em virtude da seguinte comparação:
assim como os termos orais (ou palavra) substituem os conceitos universais,
estes são os termos mentais das coisas singulares. Há uma
diferença: a linguagem se constitui de sinais convencionais, o pensamento
de sinais naturais (os conceitos universais, termos da mente) (Ockam, Lógica
I, 14).
IV - A linguistica dos modernos. 4515y70.
70. A arte da língua no Renascimento. No início
dos tempos modernos se renovaram as artes clássicas, com um novo
espírito, mais liberal e estético. Passou-se a estudar melhor
o latim e o grego, o hebraico e as línguas das novas nações,
como o italiano, francês, alemão, inglês, espanhol,
português. Renovam-se as idéias entre gramáticos e
filósofos.
O italiano Dante Alighieri (1265-1321), ainda um homem da Idade Média,
com sua Divina Comédia (1321) e seu ensaio De vulgari eloquentia
(Sobre a língua do povo) (1308), é o fundador da investigação
sobre as línguas românicas. Revelam- se as novas línguas
tão eficazes, quanto as clássicas, para o gênero épico,
para a filosofia e a ciência.
A primeira gramática de língua portuguesa foi publicada
por Fernão Oliveira em 1536 (Gramática da linguagem portuguesa),
logo seguida pela de João de Barros, ambas com base nas gramáticas
greco-latinas.
Destacaram-se como gramáticas latinas, apesar de não conterem
muitas coisas novas, a de Júlio Césare Scalígerus,
italiano (1484-1558), e a de seu filho francês Giusepe Giusto Scalígerus
(1540-1609), ambos filósofos.
Outros gramáticos das novas línguas: Lodovico Castelvetro
(autor de Poética d'Aristotele vulgarizzata e esposta, 1570); Francisco
Sánchez (1550-1623); Francesco Patrizi (1529-1597), todos reconceituadores
da teoria geral da poesia.
Segue-se, não muito depois, Nicolás Boileau (1636-1711),
teórico do classicismo francês, além de poeta e crítico.
Dá-se mais destaque, dentre os citados, aos gramáticos
Júlio Césare Scalígerus, autor de Sobre questão
da língua latina (De causis língua latina e, 1540), e Francisco
Sánchez, autor de Minerva ou comentários sobre questões
de língua latina (Minerva seu de causis linguae latinae commentarii,
1587).
71. Gramática geral e língua universal.
Com o racionalismo, de que os principais representantes foram o filósofo
francês René Descartes (1596-1650) e o alemão Gotfried
Willhelm Leibniz (1646-1716), desenvolveu-se o clima para as idéias
de uma gramática geral e de uma língua universal.
Descartes chegou mesmo a opinar em favor da criação desta
língua universal, em carta de 20 de novembro de 1629, a Mersenne.
O mesmo dirão J. A. Komenius (1592-1670) e Leibniz, sem que então
ainda alguém tomasse a si a difícil tarefa (vd 90)
de a criar.
Os intelectuais ligados ao convento de Port-Royal (Paris) fundado em
1625, davam a este tempo amplo desenvolvimento ao jansenismo e cartesianismo,
bem como lideraram um movimento cultural significativo.
Resultaram dali famosos tratados didáticos, em língua
francesa:
- Grammaire générale et raisoné (Gramática
geral e racional), conhecida por Gramática de Port-Royal (1660),
da autoria de Antoine Arnauld (1612-1694) e de Lancelot;
- Logique ou arte de penser (Lógica ou a arte de pensar), conhecida
por Lógica de Port-Royal (1662), da autoria também de Antoine
Arnauld, desta vez de parceria com Pierre Nicole (1625-1695) .
A gramática especulativa mencionada concebeu a linguagem como
uma estrutura resultante do raciocínio.
Em consequência há um sistema racional lógico mais
geral, de que as muitas línguas são apenas variantes. Aquele
raciocínio, na concepção racionalista, depende de
noções universais inatas (doutrina cartesiana).
Ora, se a língua obedece à estruturas do pensamento,
ela finalmente também possuirá uma estrutura geral e por
conseguinte uma gramática geral bem definida.
72. Na teoria que faz a língua obedecer à
estrutura geral do pensamento, ao qual traduz em expressão oral,
língua mais perfeita seria a que melhor obedecesse à referida
estrutura geral do pensamento. Em consequência , a língua
perfeita se condiciona à estrutura que uma determinada filosofia
desse ao pensamento.
Ora, os cartesianos crêem num pensamento universal, eterno, imutável,
inato. Puseram-se, então, a procurar esta língua universal.
Com isso entendiam em primeiro lugar encontrar a língua perfeita.
Esta seria universal, tal como universal é o pensamento. Assim como
há um só pensamento verdadeiro, uma só seria a língua
verdadeira.
Dali concluíram alguns cartesianos para a necessidade de um
magistério primitivo pelo qual Deus teria comunicado aos homens
a palavra juntamente com o pensamento. A tradição que nos
transmite esta linguagem seria consequentemente a depositária da
verdade.
73. De novo origem divina da língua. O
jesuíta e filósofo escolástico italiano Matteus Liberatore
(1810-1892) fez a distinção entre o fato e a possibilidade
absoluta e abstrata. O homem, dotado da faculdade da fala, com que Deus
o dotou, poderia por si formar a linguagem. Na realidade e de fato assim
não sucedeu, e foi de Deus que ele recebeu a linguagem já
formada (Liberatore, Institutiones philosophicae, Lógica, P.I.).
É certo que o pensamento se faz acompanhar sempre da imagem
sensível. Enquanto pensa, tem o ser sensível concreto como
seu objeto próprio; mas isto ainda não é o mesmo que
fazer acompanhar-se de palavras.
Quanto à Bíblia, não obsta à verdade religiosa, haver nela erros científicos, mesmo históricos. As sugestões que nela se encontram sobre a origem divina da língua e sobre sua posterior diversificação pertencem a estes erros científicos e históricos. Também outras mitologias se referem à origem divina da língua. Tais doutrinas estão alinhadas com a antiga teoria dos anomalistas (vd 54).
Citamos ainda Balmes (1810-1848), espiritualista espanhol, aqui sob
a influência do tradicionalismo francês e de uma teologia discutível:
"A linguagem não podia ser invenção humana. Se
para o desenvolvimento intelectual e moral é necessária a
palavra, os homens sem linguagem não poderão conceber e executar
um dos inventos mais admiráveis; neste sentido disse com verdade
e perspicácia um autor insuspeito aos incrédulos, Rosseau,
" parece-me que seria necessária a palavra para inventar a palavra".
Estão concordes todos os filósofos em que a linguagem
é um meio de comunicação tão assombroso que
sua invenção honraria ao gênio mais eminente; e querem
que seja devida a homens que pouco se ergueriam do nível dos brutos?
Que pensaríamos de quem dissesse que a aplicação da
álgebra à geometria, o cálculo infinitesimal, o sistema
de Copérnico e o da atração universal, as máquinas
de vapor e outras coisas semelhantes são devidas a selvagens que
nem sequer sabiam falar?
Pois não é menos contrário à razão
e ao bom senso o erro dos que atribuem ao homem a invenção
da linguagem. Da doutrina exposta se segue um corolário muito importante,
para esclarecer a história do gênero humano e confirma a verdade
de nossa santa religião. Suposto que o homem não podia inventar
a linguagem, havia de aprendê-la de outro, e como não é
possível continuar até ao infinito, é preciso chegar
a um homem que recebeu de um ser superior. Isto confirma o que no princípio
do Gênesis ensina Moisés sobre a comunicação
que tiveram nossos primeiros pais com Deus, de quem receberam o espírito
e a palavra" (Balmes, Curso de Filosofia Elementar, Metaf. c 17 §
229).
O que mais se deve admirar é como um espanhol, considerado um
dos mais ilustres clérigos de então, pudesse argumentar com
tanto primarismo!
Os linguistas conservadores, contrários ao desenvolvimento tecnológico
da língua através de idiomas planejados, - como por exemplo,
o Esperanto, - muito têm de comum com os defensores da tese ingênua
da origem divina da língua humana. Eles consideram a língua
um fenômeno humano-natural, incapaz de ser atingido por uma iniciativa
do técnico de comunicação.
Finalmente, criado o Esperanto, despertou este também uma tal
admiração, que não faltaram os que o interpretassem
como uma revelação dos espíritos a Ludovico Lázaro
Zamenof!
74. Modernamente progrediram rapidamente as ciências
positivas da linguagem, sobretudo sob a perspectiva histórica, antes
em falta. Este tom histórico chega a dominar todo o curso do século
19.
Continuando a progressão, passam os teóricos a distinguir
o sincrônico e o diacrônico (ou histórico), desembocando
na linguística propriamente dita. Ao mesmo tempo se desenvolvem
as especulações filosóficas sobre a língua.
75. A gramática comparada teve amplo desenvolvimento
a partir do século 17. Todavia estes estudos históricos comparados
se orientavam pela vaga ideológica da unidade universal das línguas,
fosse por razões bíblicas, fosse pela crença, - não
de todo sem fundamento, - de uma gramática universal, ou mesmo do
pensamento estóico da existência de étimos naturais.
Buscou-se encontrar classes de línguas, ou famílias de
línguas, que no decurso das derivações seculares,
teriam vindo de unidades anteriores, e estas de novo de unidades mais remotas.
Com isto se dilatou o estudo das línguas principalmente ao Sânscrito
(vd 74), que se revelou a mais antiga língua documentada
do grupo indo-europeu.
Para a fundação da gramática comparativa e o reconhecimento
do grupo indo-europeu de línguas se apontam fatos significativos
alcançados pelos linguistas.
A ingenuidade persistiu também em alguns setores. Esta ingenuidade chegou a ter ares eruditos no francês Etienne Guichard, que publicava em 1606 uma Harmonia etimológica das línguas (L'Harmonie etymologique des langues), em que dava como derivadas do hebraico todas as línguas, depois de estudado o caldaico, siríaco, grego, latim, francês, italiano, espanhol, alemão, flamengo, inglês.
76. No século 18 Leibniz e Catarina a Grande
da Rússia prosseguiram mais detalhamente o trabalho de comparação
das línguas, visando mostrar uma unidade geral. Catarina a Grande
patrocinou a publicação (1787-1789), de um trabalho do naturalista
alemão Peter Simon Pallas (1741-1811), intitulado Vocabulários
comparativos das línguas do mundo inteiro (Linguarum totius orbis
vocabularia comparativa). A listagem compara os termos de 51 línguas
e dialetos europeus, com 200 idiomas asiáticos.
Pouco antes Lorenzo Hervas e o jesuíta espanhol Panduro publicabam
de 1778 a 1787 um enciclopédia de 20 tomos - Idea dell'universo
- em que o 17-o trata das "afinidades e diversidades" entre as línguas,
comparando 300 línguas, européias, asiáticas, ameríndias.
Declara-se que as afinidades são gramaticais e não lexicais,
o que antecipa conceitos básicos, sobre o quais se desenvolveu depois
a linguística.
De 1806 a 1817 são publicadas em Berlim as Mithridades de Johan
C. Adelung (1732-1806), com mais de 500 línguas comparadas.
77. O Sânscrito, ao ser conhecido no Ocidente,
foi o ponto de partida dos grandes resultados da gramática comparada.
Ofereceu ainda o Sânscrito a vantagem de possuir uma tradição
própria e muito antiga de estudos gramaticais, entrando assim de
corpo inteiro na tradição ocidental.
Aliás, Sânscrito quer dizer pura, polida, em oposição
Prácrito (= vulgar, comum), nome com que se denominam os dialetos
ou línguas em que derivou ao longo dos tempos.
Panini, nascido cerca do ano 500 a. C., é autor da gramática
mais antiga conservada do Sânscrito, e que remonta ao menos ao ano
400 a. C. Intitulada Doutrina das Palavras (Sabdanusasana ou Astadhyayi),
a gramática, de oito volumes com quatro mil aforismos (Sutra), menciona
os mestres que o antecederam e que representam uma tradição
de pelo menos 1000 anos a. C.
Calcula-se que pelos anos 1500 a.C. os arianos haviam entrado na India.
Reordenando e sintetizando sob nova forma doutrinas esparsas dos mestres
brâmanes, alguns depois totalmente perdidos, Panini formulou as regras
gerais do Sânscrito.
Também na Índia se levantara cedo a controvérsia
entre convencionalistas e naturalistas, paralela à ocidental entre
analogistas e anomalistas.
Deu-se também na Índia mais importância à
língua escrita; os textos sagrados induziram naturalmente a isto;
estabelecendo glossários a fim de garantir a interpretação
dos textos clássicos.
Distinguiram-se as classes de palavras: distinção entre
substantivo e verbo, preposições e particípios. Trataram
os hindus, melhor que os gregos, a fonética,havendo introduzido
as noções de raiz, afixo, flexão, desinência.
78. Apesar de haverem os gramáticos hindus precedido aos gregos nos estudos da língua, mantiveram tradição científica autônoma, sem influência para fora do seu meio. Foram finalmente, pouco antes de 1800, descobertos pelos linguistas do Ocidente, os quais finalmente estabeleceram uma nova e maior síntese geral, explicativa de todo o contexto das línguas hindeuropéias.
Descoberto o Sânscrito pelos linguistas ocidentais como língua internamente desenvolvida e estudada, puderam estes linguistas ocidentais estabelecer rapidamente uma gramática comparada, com vistas a uma teoria geral sobre o grupo culturalmente mais importante de idiomas, o indo-europeu.
O orientalista britânico William Jones, em 1786, em discurso na
Sociedade Asiática de Calcutá (India) mostrava as semelhanças
de forma das línguas clássicas: grego, latim, sânscrito.
Seguindo o método histórico-comparativo, passaram os
linguistas a reconstruir as raízes indo-européias, sendo
este o primeiro grande resultado da gramática ou filologia comparada,
em que trabalharam, entre outros, os alemães Frederico von Schlegel
(1772-1829), Franz Bopp (1791-1867), Jakob Grimm (1785-1863). Neste trabalho
serviu a noção de raiz, que os gramáticos do Sânscrito
já tinham desenvolvido.
79. Fundação da linguística.
O alemão Franz Bopp (1791-1867), autor de umaGramática comparada
das línguas indo-européias (1833-1852), é considerado,
por alguns como o fundador da linguística, em virtude dos métodos
comparativos por ele usados para a solução dos problemas
da linguagem.
Outros deslocam a fundação para o tempo mais recente
do franco Suíço Ferdinand Saussure (vd 80).
Elevava-se a qualidade dos estudos linguísticos na Alemanha
por influência do romantismo, que levou os filósofos ao exame
das línguas germânicas antigas ao mesmo nível dos estudos
clássicos.
80. O estruturalismo, centrado nas condições
internas da língua, é o novo desenvolvimento ganho na área
da linguística no decurso do século 20, por ação
primeiramente de Ferdinand Saussure (1857-1913) e logo ainda dos norte-
americanos Leonard Bloomfield (1887-1949) e Edward Sapir (1884-1939).
Os cursos de Saussure em Genebra (1906-1911) difundiram-se pela Europa.
Teve especial repercussão a publicação póstuma
do seu Curso de linguística geral(Cours de linguístique genérale,
1916).
Os pontos de vista de Saussure destacam mais a estrutura da linguagem
do que seus elementos isolados. Por isso se deu posteriormente ao sistema
a denominação de estruturalismo.
O impacto foi tal, que o estruturalismo de Saussure veio a ser considerado
o começo propriamente dito da linguística, como ramo de ciência.
Mas não resta dúvida que a data de 1816, referente aos primeiros
trabalhos de Franz Bopp já fora um começo significativo
Distinguiu Saussure entre sincronia e diacronia. A língua tem
estado presente (sincronia), com relação entre as unidades
coexistentes em um momento dado. Ocupa-se a gramática de um estado
da língua, portanto da sincronia. Considerando que uma língua
pode mudar com alteração das circunstâncias em que
é utilizada, importa descrever o estado que em um momento dado vigora.
Diferentemente, a diacronia se ocupa com as relações
dos estados de língua através do tempo, ao longo do qual
as variadas situações se refletem sobre a língua,
independentemente dos usuários.
Tratou, Saussure também das relações sintagmáticas
e associativas (paradigmáticas se dirá depois).
81. Linguística Norte-americana. Leonard
Bloomfield (1887-1949), paralelamente a Saussure, desenvolveu nos Estados
Unidos um estruturalismo, em que se destacou o lado mecânico da língua,
como no behaviorismo.
Desenvolveu, pois, a linguística à base dos dos reflexos
condicionados e não como uma análise de significados e participação
da mente. Deixou, pois, de lado o aspecto mentalista, até
então em vigor.
Certamente há uma grande participação do
comportamento no desempenho da língua, e por isso os estudos dos
comportamentistas são de real valor, ainda que se possa advertir
que eles não explicam tudo no processo da língua.
Publicou Bloomfield Linguagem (Language, 1933), com que dominou os
meios linguísticos americanos, pelo menos até 1957, quando
apareceu Estruturas sintáticas (Syntactic structures) do mentalista
Noam Chomsky (vd 84).
Edward Sapir (1884-1939), um alemão cedo emigrado para os Estados Unidos da América, insistiu num estruturalismo mentalista. Dando por insuficiente a linguagem regulada pela psicologia do comportamento (behavior), destacou o efeito do pensamento (intenção, crença, sentimento) do usuário.
82. O Círculo linguístico de Praga,
fundado em 1926 por Wilhelm Mathesius, marcou uma coordenação
e inovação no esforço linguístico tão
peculiar ao século 20. Sua atuação foi duradoura.
Os mais atuantes do grupo foram os linguísticas russos, Nicolai
Trubetzkoy e Roman Jakobson.
Ainda que o círculo fosse dominantemente eslavo, participaram
também outros linguistas, como o francês André Martinet
(1908- ) e o filósofo e psicólogo alemão Karl Buhler
(1879- ). O grupo foi atuante em congressos internacionais, fez publicações
de trabalhos, geralmente na linha estruturalista, inspirando-se também
em Saussure.
A fonética é distinguida da fonologia com ênfase
desta última. A nova tese, defendida pela maioria no Círculo
de Praga, encontrou resistência em outros linguistas. A fonética
diz respeito mais à palavra individual, a fonologia à língua
em geral. O círculo de Praga destacou o valor semiótico do
fonema, ou seja, de sua capacidade de estabelecer diferenças de
significados.
A análise dos fatos da língua é antes de tudo
sincrônica, ainda que não se exclua a diacrônica (história).
O círculo foi, portanto, estruturalista. Os fatos atuais (sincrônicos)
se apresentam como material completo e sempre à disposição.
A língua é um sistema funcional, ou seja de meios, voltado
para um fim.
83. O linguista dinamarquês Louis Hjelmeslev
(1899-...), continuando o estruturalismo de Saussure, concentrou-se no
aspecto imanente à língua, sem as interferências históricas,
sociológicas, psicológicas, que são transcendentes.
Fundou a glosseomática e examinou o léxico do ponto de
vista estruturalista.
84. Chomsky. O norte-americano Noam Chomsky (1928-
), já na segunda metade do século 20, represtigiou em a diretriz
mentalista. Advertiu para a insuficiência da explicação
pragmatista comportamentalista da língua.
Desenvolveu o que se veio a chamar gramática gerativo-transformacional,
ou simplesmente gramática transformacional, que tem sua primeira
ampla formulação em seu livro Estruturas sintáticas
(Syntactic structures, 1957).
Fizeram-se outras formulações desta gramática
gerativa, como por exemplo, a de Morris Halle e de Charles J. Fillmore
Gramática de casos (1968). E o próprio Chomsky revisou
de novo a sua.
A gramática gerativa destacou a independência da sintaxe.
Com isso assumiu a universalidade e o espírito cartesiano. Neste
contexto mentalista, Chomski destacou na linguagem a competência
linguística, em virtude da qual o falante- ouvinte produz enunciados
novos e os compreende.
Em virtude da mesma competência o falante é também
capaz de distinguir entre as bem-formadas e mal-formadas sequências
gramaticais. Ora, este procedimento não é possível
na gramática behaviorista comportamentalista de Bloomfield. A linguagem
é criativa e capaz de formular sentenças novas, nunca antes
ouvidas. Esta competência não se explica como reflexo condicionado.
Aqui, no fenômeno da competência, tem-se um fato que a
linguística constata indiretamente e que a filosofia da língua
diretamente explica. A inteligência é capaz de entender que
o semelhante acusa o assemelhado (vd ) e por isso procura estabelecer semelhanças
para criar a expressão; na pintura, escultura e música estes
semelhantes são naturais, e na língua eles são equivalentes
estabelecidos pelo código (vd).
Os reflexos condicionados, de que se vale a explicação
da psicologia de comportamento (behavior), participam da língua,
mas não constituem toda a sua estrutura.
85. Esperanto e hebraico moderno. A criação
das línguas artificiais, isto é, com codificações
escolhidas conscientemente, como que em laboratório, constitui iniciativa
revolucionária da linguística moderna, e que começou
a acontecer no final do século 19.
O fato de haver o Esperanto (vd 26) conseguido funcionar
como instrumento de expressão e comunicação, estética
e ocupação lúcida de muitos, é um fato linguístico
novo e único na história.
O hebraico moderno se arrola como fenômeno similar ao do Esperanto.
A partir do hebraico histórico e de vários dialetos praticados
pelos judeus nos últimos séculos, se estabeleceu uma nova
gramática, racionalmente instituída.
86. Criar uma língua nova supõe o conhecimento
preliminar do que seja este instrumento de expressão e comunicação.
Todavia importa muito certa capacidade de seleção, ou
seja, a inspiração artística. Este particular poderá
não ocorrer em um linguista profissional.
O fundador do Esperanto, Ludovico Lázaro Zamenhof (1859-1917),
judeu-alemão nascido na Polônia, filho de um professor de
alemão em Varsóvia, ao tempo que esta fora parte do Império
Russo, não fora linguista profissional. Todavia, além de
dominar diversas línguas (russo, polonês, hebráico,
francês, latim, grego), Zamenhof teve o dote admirável do
bom gosto poético e musical.
Como artista inspirado e dedicado à sua obra, Zamenhof
construiu a gramática do Esperanto, a partir de sua adolescência,
para publicá-la aos seus 28 anos, em 1887. Foi o ponto de partida
para uma língua, que receberia depois a colaboração
de muitos linguistas para seu aperfeiçoamento.
A Academia de Esperanto, criada em 1905, controla e orienta a língua.
O aspecto meramente linguístico do Esperanto se denomina esperantologia,
a cujo respeito se criou através dos anos uma rica literatura.
Os linguistas esperantistas têm ainda o mérito de haverem
conduzido os estudos de linguística em direção da
linguística geral propriamente dita. Antes se limitara a ciência
da linguística quase só aos aspectos históricos e
antropológicos da língua, isto é, como eventualmente
acontecia aparecer e se desenvolver, e não em que ela simplesmente
consiste.
Até o surgimento dos linguistas do Esperanto, confundia-se com
frequência a condição gerativa histórica das
linguas com a mesma linguística. Os estudiosos do Esperanto
se concentraram na essência mesma da língua como uma técnica
de expressão e comunicação.
Para compreender o alcance dessa afirmativa basta atender, que são
duas as maneiras de criar a língua, a eventual (que cria línguas
as chamadas naturais) e a convencional pura (que cria as línguas
chamadas artificiais). Os linguistas não esperantistas
geralmente cuidaram apenas de um dos modos de criação, o
eventual.
Como se disse, os esperantistas têm o mérito de haverem
conduzido a linguística para a sua essencialidade. A essência
da língua não depende da causa, a qual, portanto, pode ser
eventual e artificial. Como qualquer obra de arte, a língua depende
simplesmente da obra que ela é, - conjunto de sons articulados,
adequadamente dispostos como equivalentes convencionais dos objetos significados.
O que ainda importa na língua é a necessidade de um geral
planejamento, inclusive para vencer o ônus antropológico que
tende a alterar a língua através dos tempos, contra o que
resiste o Esperanto (vd 144).
87. A moderna filosofia da língua.
Modernamente a filosofia da língua, enquanto distinta da linguística,
evoluiu muito devagar.
Sua evolução se deu primeiramente por simples contraste
com a linguística. Na proporção que os linguistas
foram determinando seu campo de trabalho experimental e sua metodologia,
perceberam que alguns aspectos, como por exemplo, o significado, continham
elementos não experimentáveis e que, por conseguinte poderiam
ser de um campo de investigação, o da filosofia da linguagem.
Esta trataria do significado diretamente, ao passo que a linguística
se limitaria à sua verificação experimental apenas
indireta.
Entre os novos linguistas várias situações se criaram.
Primeiramente uns não atingiram plenamente a distinção
entre linguística e filosofia da linguagem, e fizeram uma filosofia
da linguagem de mistura com a linguística. Este parece o caso de
F. Saussure, em seu Curso de linguística geral(1916). Importa desfazer
o equívoco, separando coisas especificamente distintas.
Ainda que o linguista possa no mesmo texto fazer referências
ao que é experimental (ciência positiva) e ao que é
meramente racional (ciência filosófica), eestão referência
não se pode fazer por confusão.
Inversamente, também o filósofo da língua, ainda
que se envolva com a linguística, deverá contudo saber que
trata de aspectos específicos irredutíveis à mesma
filosofia.
Outros linguistas, conhecendo suficientemente a distinção entre os aspectos experimentais e racionais que distinguem linguística e filosofia da língua, cuidam também desta. Fazem, então, uma filosofia da língua definindo-a (o que é uma questão de lógica), abordando ainda temas centrais, principalmente a significação (questão de metafísica), já não se trata de uma pseudo-linguística e sim de verdadeira filosofia.
É próprio de todo cientista conhecer algo das ciências vizinhas, que cruzam com o seu campo. Por exemplo, cada ciência deverá ser definida; é o que se usa fazer nas introduções dos manuais; ora, esta parte é sempre uma logica especial, e que se ocupa também da metodologia. Cada ciência experimental (não cada ciência filosófica) necessita da matemática. Desta mesma sorte, o linguista contacta a filosofia da língua e o filósofo da língua contacta a linguística, com distinção crítica dos conceitos e harminação metodológica do todo.
Mas, sempre que um cientista faça ciência do outro, ou
mesmo dela, corre o risco de não acertar. Os linguistas, que se
ocuparam da filosofia da língua, consciente ou inconscientemente,
poderão ter criado apenas uma ideologia de apoio para suas idéias
linguísticas.
Nesta ideologia de apoio poderão chegar até a negar diretamente
a existência de uma filosofia da língua. Se se limitassem
simplesmente a esquecê-la, não seria tão grave; todavia
para diretamente negá-la têm de filosofar, o que não
podem fazer em nome da ciência positiva da linguística.
Se o fizerem em nome da filosofia, deverão fazê-lo criticamente.
Linguistas, como Chomsky e Sapir, foram certamente mais cuidadosos que
outros em distinguir os dois campos, ao mesmo tempo que se definiam em
ambos.
88. Sem sistematizar rijamente a exposição,
alguns filósofos desenvolveram a filosofia da linguagem apenas como
que parafraseando os temas mais freqüentes ocorridos entre os linguistas.
Segundo este modelo Étienne Gilson (1884-1978), francês,
escreveu Linguística e Filosofia, ensaio sobre as constantes filosóficas
da linguagem (J. Vrin, Paris, 1969). Primeiramente o autor se coloca em
seu plano específico:
"O título deste ensaio diz exatamente qual é seu objetivo.
É este um livro cujo interesse se orienta por inteiro para filosofia
e a metafísica. Não é portanto, de modo algum, um
livro de lingüística. Não pretende em absoluto ensinar
aos linguistas, dos quais, pelo contrário, o autor se sente inteiramente
devedor por recebido deles uma matéria tão rica para a reflexão
filosófica" (início do prefácio).
De outra parte, Gilson revela que sua iniciativa de filosofar procede
por influência dos mesmos linguistas, advertindo que, neste particular,
eles tentavam uma filosofia, ainda que não bem sucedidos na tentativa.
"O que provocou o nascimento do livro e o orientou neste sentido é
a liberdade que numerosos linguistas se tomam de filosofar por sua conta
e de apresentar sua filosofia como se fosse coisa que pertence à
ciência. Físicos e biólogos tão pouco se privam
de adotar igual atitude".
Finalmente aponta o erro ideológico em que muitas vezes caem
os linguistas:
"E não haveria que preocupar-se com isso se a filosofia, que
se oferece assim, sob o título de ciência, não consistisse
muitas vezes em negar posições filosóficas aceitas
por aqueles que têm por ofício filosofar".
89. Prossegue, pois, nos tempos modernos o desenvolvimento
da filosofia da língua, de uma parte como desenvolvimento linear
sobre sua tradição, que tem base no passado, e de outra como
uma forte influência exterior, vinda da linguística, gramática,
lexicologia.
Até onde irá a filosofia da língua? Etienne Gilson,
apesar de seus longos comentários, diz:
"A reflexão filosófica sobre a língua pode que
não conduza a grande coisa; porém, a menos que se tenha a
todos os filósofos por insensatos, na realidade a linguagem, tal
como ela é, tem que ter algo que convide a filosofar" (ibidem).
Há certamente um caminho difícil a trilhar.
90. O desenvolvimento rápido das letras
se deve antes a seu alto valor funcional que à sua facilidade.
Não se apresenta certamente a língua como a mais fácil
entre as artes.
De maneira geral, todas as artes visuais, que compreendem a pintura,
escultura e arquitetura, se mostram mais praticáveis em virtude
do alto rendimento do sentido da vista. Note-se que a vista, pela capacidade
de distinguir a nitidez das formas, fornece elevado número de conhecimentos
de que o ouvido não é capaz, menos ainda os demais sentidos
inferiores. A música, essencialmente auditiva, resulta conseqüentemente
mui difícil; sua história pouco evolutiva o comprova.
Se a língua se apresenta mais fácil que a música,
obedece todavia a uma estrutura eminentemente complexa, o que obriga aos
que a utilizam, a um notável esforço. E se este vem a ser
feito, deve-se à utilidade que o idioma também oferece.
Induzidos todos nós pela necessidade e não só
pelo gosto estético, dedicamo- nos ao exercício da língua
até sermos capazes de exercer um falar eminentemente complexo, que
causa admiração. Exercitados desde pequeninos, adaptamo-nos
de tal maneira ao esquematismo do idioma em que nascemos, que já
não somos capazes de nos integrar perfeitamente nos demais; em última
instância, isto vem provar o processo difícil da arte da língua.
Dependendo embora essencialmente apenas de um código, em que se
determinam os equivalentes, seu uso todavia requer uma acumulação
enorme de reflexos condicionados e associações de imagens.
Atentos a esta natureza difícil, é de se suspeitar que,
apesar dos desenvolvimentos teóricos conquistados pelos antigos
e desenvolvidos por muitos dos modernos, continua ainda a haver bastante
para esclarecer. Prossegue, pois, a necessidade de pesquisas sobre a língua,
sobretudo no que concerne às línguas planejadas.
ART. 3-o. DIVISÃO DA ESTÉTICA LITERÁRIA. 4515y091.
92. Divisão em estética literária geral e estética literária especial. Habitualmente uma ciência se divide primeiramente do ponto de vista dimensional, em geral e especial. Em se tratando de uma divisão meramente dimensional, ela é uma divisão material. Por isso, a redivisão formal se fará por igual, tanto na geral como na especial (vd 93).
Na estética literária geral se trata primeiramente dos
aspectos que atingem todos os materiais de estudo.
Depois, na estética literária especial, o mesmo tema
passa a ser tratado por setores particularizados.
A estética literária já é uma estética
especial, porquanto se diz uma espécie de arte, entre outras artes,
como a pintura (estética das cores), escultura (estética
das formas plásticas), música (estética do som).
Em conjunto, tais estéticas especiais formam a estética
geral (ou filosofia geral da arte).
Mas, o que é especial admite novas e sucessivas subdivisões
materiais, em espécies cada vez menores. Então de novo
a estética literária se subdivide em:
- estética literária geral (a que aqui se está
tratando de fazer);
- estéticas literárias especiais (desta ou daquela língua
em espécie), como estética da língua portuguesa, estética
da língua internacional, estética da língua latina,
etc...
A estética geral da linguagem examina, pois, tudo o que se diz
da língua simplesmente como língua e não com tal e
tal sistema linguístico.
Mas, o que é que se pode dizer da língua simplesmente
como língua, e do ponto de vista filosófico?
93. Redivisão: estudo do significado
e do significante. Divide-se a estética literária (sobretudo
a geral) em:
- estudo do significado (ou da expressão);
- estudo do significante (ou do portador da expressão).
Esta divisão é formal, porque divide a partir de elementos
essenciais à arte. Esta se diz redivisão, apenas do ponto
de vista didático, porque realizada depois da divisão material.
As outras redivisões (vd 94), - desde que
formais ou essenciais, - podem reduzir-se a estas duas, que aqui são
tomadas apenas no que têm de mais geral no que tem de essencial.
A divisão mencionada em significado e significante é,
aliás, peculiar à qualquer arte, e que aqui se aplica ao
caso especial da linguagem.
Começaremos pela língua como significação,
ou seja pela língua como expressão. Todavia, mais uma vez
queremos subdividir, começando pela língua simplesmente como
expressão (cap. 1-o) (vd 096).
É que, antes de seguir para detalhes da expressão, como
prosa e poesia, gêneros de prosa e de poesia, estilo literário,
queremos não sem demora abordar o significante (ou portador da expressão),
em vista da grande proximidade entre significado e significante.
Tratando no primeiro capítulo indicado, - do significado simplesmente,
- há a decidir sobre:
- a língua essencialmente como expressão (art. 1-o);
- a língua como mimese convencional e associatividade (art.
2-o);
- a língua como expressão objetiva interpretável
(Art 3-o);
- a língua pelas suas propriedades (art. 4-o), entre as quais
se situam uma importantíssima, a comunicação.
Continua a filosofia da língua indagando pela natureza do portador
da expre ssão, ou seja pelo significante (cap. 2-o) (vd 212).
A importância deste portador está em que ele condiciona
a capacidade com que a mimese causa a expressão significadora. Nem
todos os materiais são capazes de serem portadores de significado,
senão aqueles que são qualidades, pois só as qualidades
têm semelhante. Seguindo, portanto, por partes, há a examinar:
-o significante como qualidade, isto é, como som (art 1-o);
- as propriedades do som, e o seu movimento de que resultam as flexões
como principais instrumentos portadores da língua (art. 2-o);
- o ritmo da linguagem (art. 3-o);
- as alianças da língua com outras matérias
portadoras de expressão de que o canto e o gesto são as formas
mais freqüentes (art. 4-o).
94. Redivisões: prosa e poesia, gêneros,
propriedades, estilo. Depois de abordado o que há de mais geral
no significado e no significante, passa-se a detalhes. Estes detalhes são
feitos sempre a partir da significação, mais que a partir
do significante.
Portanto, depois de tratar da expressão (cap. 1-o), se cuida
de dar algum tratamento ao significante (cap. 2-o), redividindo e retomando:
- a expressão literária em prosa (cap. 3-o);
- gêneros literários em prosa (cap. 4-o);
- a expressão literária em poesia (cap. 5-o);
- gêneros literários em poesia (cap. 6-o);
- estilo literário (cap. 7-o);
Existe também uma ética, bem como uma filosofia social
e política da arte. Usualmente não se incluem estes títulos
no contexto sistemático da estética literária.