98. Introdução. O apogeu da filosofia grega coincide com a centralização da cultura em Atenas, bem como por algum tempo do poder político, sobretudo sob Péricles (+429 a.C.).
Do ponto de vista filosófico, o tema dominante foi o homem, discutido do ponto de vista da ética; mas a ética se subordinava à metafísica. Foi ainda sob os efeitos da metafísica que a arte se firmou no ponto de vista do idealismo clássico.
Por causa do destaque inicial de Sócrates, o período veio a ser denominado socrático. Todavia as duas figuras máximas do período foram Platão e Aristóteles, que superaram ao seu próprio tempo.
Didaticamente, há a considerar, neste primeiro capítulo, em dois artigos ao mesmo Sócrates (vd Art. 1) e às escolas ditas socráticas menores (vd Art. 2).
Depois, mas em capítulos especiais, mais exaustivamente que todos os demais filósofos gregos, a Platão (vd Cap. 4) e a Aristóteles (vd Cap. 5).
99. Nasceu Sócrates quando apenas iniciava a "ilustração grega" e os sofistas já atuavam. Para o final de seus anos, Sócrates influenciou fortemente o pensamento grego, dando origem, no plano filosófico, ao chamado "período socrático".
É evidente de que se trata de todo um processo de fatores confluentes, e que não dependiam de um só homem. Maior do que Sócrates passariam também a ser Platão e Aristóteles. Todavia Sócrates está cronologicamente no início do processo, e o retrata adequadamente, justificando-se a tomada de seu nome para denominar o seu tempo como um todo.
Foi modesto cidadão, filho de escultor e de parteira. No início foi também ele um escultor.
Casou-se primeiramente com Xantipa, de quem teve Lâmpocles, ao qual ensina a paciência e a submissão à mãe, de difícil temperamento.
Sua outra mulher chamava-se Nirton, sendo posterior, ou simultânea, de acordo com uma lei que, diante da escassez de homens, estimulou o repovoamento de Atenas. Foi assim que, de Nirton, nasceram a Sócrates mais dois varões, Sofronisco e Menéxenes.
Participou, como soldado, na guerra do Peloponeso, para finalmente ser vítima do confucionismo político que se deu ao final, com Esparta vitoriosa e influindo exteriormente sobre o regime político de Atenas.
Na primeira fase da guerra (431-421 a.C.), Sócrates tomou parte nas batalhas infelizes de Potidéia e Délium. Já depois da guerra, participou das "façanhas dos dez mil" gregos, quando Ciro (o moço), sátrapa da Lídia, tentou, mas em vão, a sucessão do trono da Pérsia. Sócrates e Xenofonte comandaram a retirada.
Passada
a desastrosa guerra do Peloponeso sucederam-se vários regimes em
Atenas. O primeiro, de 404-403, o dos Trinta Tiranos, ainda que progressista,
era todavia cruel. Sócrates pertenceu ao novo governo, como Senador
eleito. Renuncia, em vista do terror, que não podia aprovar. Restaurada
a democracia em 403, com apoio de Tebas, onde se refugiavam anteriormente
os exilados, piorou a situação de Sócrates.
A demagogia do governo democrático verteu-se contra os propugnadores progressistas e aristocráticos, que tinham por modelo Esparta; esta, apesar de inimiga, parecera provar que tinha melhor sistema, no qual inclusive as mulheres tinham educação nos ginásios.
A exacerbação tradicionalista condenou a Sócrates a pretexto de pervertedor da juventude, contrário aos usos e aos deuses. É este condenado, sendo-lhe imposto beber cicuta. Platão, um jovem aristocrata de 28 anos e seu discípulo, abandonou temporariamente Atenas, em decorrência da situação política, como ele mesmo diz (Carta, 7-a). Em um outro texto, descreve Platão a morte do sábio mestre, em página, que ficou sendo uma das mais comoventes da história da filosofia.
100. Nada escreveu
Sócrates. Seu pensamento foi retransmitido pelos discípulos
das escolas socráticas menores, mas sobretudo por Xenofonte (em
Dizeres admiráveis de Sócrates), Platão (em sua
trintena de Diálogos) e por Aristóteles (nas introduções
históricas aos temas de que passava a tratar).
Platão foi o que mais nos transmitiu, havendo usado o diálogo, em que Sócrates surge como interlocutor. Pretende, de outra parte, Platão defender as mesmas doutrinas que seu mestre. Por isso, nem sempre se distingue entre o que é de Sócrates e o que já vai sendo um novo desenvolvimento de Platão. Quando Aristóteles atribui doutrinas diretamente à Sócrates, sabemos que elas não pertencem à Platão. Acontece então que os primeiros livros de Platão expressam com precisão as doutrinas de Sócrates; as novidades dos seguintes, ainda que venham pela boca de Sócrates, se devem atribuir mais a Platão.
Por via de regra, cabem a Sócrates as doutrinas referentes à especificidade da inteligência (contra o sensismo sofista), à substancialidade e espiritualidade da alma (contra o materialismo monista), à preexistência e imortalidade da alma (orfismo herdado de Orfeu e Pitágoras), à existência de Deus e reação ao antropomorfismo (contra a mitologia), à moral natural (contra os sofistas); sendo embora de Sócrates, as defendia também Platão, que nisto foi portanto um seu discípulo.
Cabem especificamente à Platão as doutrinas sobre a reminiscência (que não é contudo impossível no orfismo), mas sobretudo as doutrinas das idéias reais, as quais também era arquétipas com referência à organização do mundo; este campo de idéias de Platão, ele as desenvolveu sob influência pitagórica. A doutrinação sobre uma nova concepção política, se deve também às preocupações específicas de Platão. Neste particular se distinguem mais claramente os dois mestres.
Encaminhou-se
novamente Platão ao estudo da natureza, juntamente com as preocupações
humanas de Sócrates; enquanto este havia menosprezado a filosofia
sobre a natureza dos pré-socráticos, Platão a reanexou
ao programa da Academia.
Aristóteles
nos informa a este respeito, asseverando que Sócrates fora um filósofo
da moral e sugerindo ainda que fora um metafísico, todavia diferente
de Platão e que não cuidou da física:
"Sócrates, cujas, preocupações se dirigiam às coisas morais e, de nenhum modo sobre a natureza em conjunto, procurou neste domínio o universal e fixou primeiro o pensamento sobre as definições. Platão aceitou seu ensinamento, mas sua primeira formação o levou a pensar que este universal devia existir em uma outra ordem que as coisas sensíveis" (Metaf. 987b).
"Para Sócrates, porém, os universais e as definições não são entes separados; os que vieram depois dele é que os separaram, chamando de idéias essa classe de entidades" (Metaf. 1078 b 30).Nestas informações de Aristóteles está claro que certas doutrinas de Platão resultaram de uma evolução posterior, e já podemos nos imaginar que ele as desenvolvera quando, logo após a morte de Sócrates, freqüentou a escola eleaticista de Mégara e visitara aos pitagóricos na Itália.
101. As doutrinas de
Sócrates também devem ser vistas em função
às dos sofistas.
Elas são análogas às dos sofistas no que se refere aos temas humanos. Sócrates se ocupa, como eles, destes assuntos, situando-os com prioridade frente às teorias sobre a natureza.
Os métodos dialéticos também são similares, destacando-se até pela sua ironia em os conduzir. Por isso mesmo, não faltou que definisse a Sócrates como maior dos sofistas, ainda que em bom sentido.
Divergiu Sócrates no que se refere às soluções dadas pela maioria dos sofistas. Enquanto estes tendem para o probabilismo, relativismo e ceticismo, Sócrates é dogmático.
Além disto, os sofistas são sensistas, materialistas. Sobretudo os sofistas são contra a moral de direito natural, quando Sócrates é intelectualista, racionalista, espiritualista (dualista) e a favor de uma ética natural.
102.
O método socrático, como é denominado, consiste
numa dialética, em que a discussão se desenvolve em dois
tempos, - a ironia e a maiêutica.
A ironia
socrática consiste em perguntar, fingindo desconhecer o assunto
(= dúvida fictícia e metódica), com vistas a refutar
a tese contrária e preparar a tese verdadeira.
A
maiêutica (de :
" 4
, b
T = parrir)
de Sócrates conduz o interlocutor a descobrir paulatinamente o conhecimento
sobre o objeto de discussão. No caso de Sócrates que supunha
haver idéias inatas, a maiêutica consistia, mais precisamente,
em fazer recordar, despertando os conhecimentos virtualmente possuídos.
Como método, a dialética vinha sendo praticada pelos últimos pré-socráticos, como Zenão de Eléia e especialmente os sofistas. Sócrates imprime a ela uma peculiaridade própria, em vista de seu temperamento irônico e seu propósito de combater os sofistas.
Além disto, a maiêutica era caracterizada pela sua concepção inatista, bem como pelo fato de havê-la denominado em função à profissão de sua mãe, que era parteira.
103.
A ciência é um conhecimento do geral. Ou seja, é
a explicação das coisas singulares, percebendo-as sob o prisma
de uma idéia universal. Eis uma definição de ciência,
que se atribui como sendo descoberta de Sócrates.
Com
isto teria também esclarecido o conceito de definição,
que oferece a noção geral da coisa (conforme texto já
citado Met. 897b).
Igualmente
veio a mostrar o que é uma indução, - um caminhar
para o universal, a partir de dados singulares. Isto o fez sobretudo com
assuntos morais. Determina, por exemplo, a idéia de justiça,
arrolando os elementos comuns em muitos casos particulares.
Teria sido excelente se tivesse aplicado o método indutivo ao estudo da natureza.
"Duas coisas podem ser atribuídas com justiça a Sócrates: os argumentos indutivos e a definição universal, ambos os quais se relacionam com o ponto de partida da ciência" (Arist., Metaf. 1078b 28).
Distinguiu entre matéria e alma, conforme o dualismo, praticado nos termos do orfismo e pitagorismo, ao menos na linguagem de Platão.
Prosseguiu, determinando também as qualidades peculiares do espírito. Suas diversas faculdades são hierarquizadas, com distinção entre sentidos e inteligência, além de uma vontade dotada de liberdade. Esta, portanto, seria capaz de exercer um comportamento ético.
105. Deus
é admitido por Sócrates. Mas não é sem reservas
que aborda o assunto, pois nem Deus e nem o mundo diziam respeito à
pessoa humana, da qual cuidava em primeiro lugar.
Repudiando os episódios míticos comentava:
Todavia, a prova, como Sócrates a estruturou, já era um silogismo estruturado, ainda que as premissas não fossem suficientemente fundamentadas, conduzia à existência de Deus e a um conceito elevado do mesmo, muito superior ao das religiões tradicionais.
106. A criação
da matéria não foi proposta por Sócrates; nem o fora
pelos outros gregos. Pelo contrário, os eleatas haviam tentado provar
que a criação era impossível (vd n. 71).
A ação divina se limitava em aperfeiçoar as formas ordenadoras da matéria, criando uma ordem superior, com a atenção nos arquétipos; esta função será destacada por Platão (vd n. 125).
107. Fundador
da ética. Sócrates sempre foi visto como um padrão
do ser humano, em especial o bom cidadão.
Sócrates não foi somente o bom; procurou também a ciência do ser bom, - a ética, a filosofia moral, - a partir de princípios gerais absolutos, ainda que derivando em aplicações para as particulares da natureza. É considerado mesmo o fundador da Ética como disciplina filosófica, portanto até ali as considerações morais tinham apenas formulações assistemáticas, ao modo dos dizeres sentenciosos. E porque alcançasse o saber moral sistemático, não foi um radical e nem um asceta, mas o homem racionalmente bom.
A Ética de Sócrates é de direito natural; no fundamento das normas positivas há leis não escritas (= ágrafoi nómoi).
A forma da moral é fundamentalmente finalista, portanto teleológica, como todas as éticas antigas. Bom é o que atende aos fins do homem, em especial ao seu desejo de felicidade. A moral é, portanto, um bem viver. Trata-se, pois, de um eudaimonismo moral (de , Û * " 4 : @ < \ " = felicidade). Em vista de uma hierarquia de faculdades do homem, a felicidade procurada se ordena de tal maneira a fazer prevalecer a do espírito.
No caso de Sócrates (ao menos de Sócrates descrito por Platão), este espirito é ainda entendido à maneira órfica; isto resulta em uma certa rigidez, por causa do sem sentido das coisas materiais e da necessidade do purificar a alma de delitos anteriores. O comportamento quase ascético de Sócrates é resultado desta sua moral com base no dualismo órfico.
Este
pensar rígido se transfere para algumas das escolas socráticas
menores, em especial para a Escola cínica, transformada finalmente
na tendência de disciplina dos estóicos.
108. Imprimiu também Sócrates à moral uma diretriz intelectualista. A coesão entre inteligência e vontade identifica praticamente o conhecimento da lei, com a própria moralidade. Conforme se conhece, assim se age. Então a moralidade depende de um certo exercício da inteligência, à qual cabe procurar bem conhecer, para poder bem agir. No profissionalismo tal coisa é evidente; o músico sabendo como tocar, evidentemente não deixará de tocar bem. Sócrates entende, no mesmo sentido de "técnica", o exercício da atividade moral.
"Os que desejam o mal, crêem que ele é vantajoso ou pernicioso? Quanto aos que pensam que o mal é vantajoso, o conhecem como sendo verdadeiramente o mal?
Estes não desejam o mal como tal, pois não o conhecem; desejam apenas o que lhes parece um bem, o qual neste caso é o mal. Donde podemos concluir que os que desejam o mal e o consideram como bem, estão de fato a desejar unicamente o que é bom...
Ninguém expressamente deseja o mal" (Platão, Menon 77-78).
109.
A Ética individual de Sócrates dispõe de uma
série de enunciações sentenciosas.
Entre outras, é famosa a advertência conhece-te a ti mesmo.
Talvez nem todas sejam enunciação direta do filósofo, mas dizeres tomados do passado e por ele reafirmadas. Outras sentenças poderão ter sido criadas pelos discípulos (Platão sobretudo), para traduzir exatamente suas doutrinas. O mesmo fenômeno aliás sucedeu com outros filósofos e fundadores de religião.
110. Filósofos de diferentes procedências pré-socráticas insertaram em suas escolas as doutrinas morais de Sócrates. Tais são as Escolas Socráticas menores: de Mégara, cínica, cirenaica, de Elis.
Dizem-se menores, por não haverem adquirido a projeção da Academia de Platão e do Liceu de Aristóteles. Não obstante, por desenvolvimentos vários se transformaram em outras escolas, algumas tornadas significativas no período pós-socrático. Importa advertir que os pós-socráticos, como o mesmo Sócrates, deram sempre importância à função ética da filosofia.
Ainda modernamente ocorre a tendência de entender que o saber se destina à transformação da realidade, a serviço do homem, e não somente à pura contemplação. Eis Sócrates onipresente na história da humanidade, desde as escolas socráticas menores e as escolas filosóficas pós-socráticas.
O unicismo eleático da escola de Euclides terá sido moderado, visto que foi poupado de ataques nos diálogos de Platão. Quanto à moral, conforme informação de Diógenes Laércio,
- "dizia que o bem é um só, porém, que se o designa por diversos nomes, como sabedoria, Deus, Espírito, etc. Enquanto ao oposto ao bem, o suprime, porque não tem realidade alguma".
112. Tem os seus precedentes no sensismo dos sofistas, o qual, combinado com a frugalidade moral de Sócrates, resultou na indiferença ao formalismo social.
Seu
fundador é Antistenes (n. c.450 a.C.), de Atenas, e discípulo
de Górgias. O nome 6
L <
4 6
` H
(= cínico) deriva de 6
b T
<
. -<
` H
(= cão). Pautando pelo sensismo dos sofistas, o mestre da escola
cínica somente admitia que as coisas singulares são reais,
não passando os universais de simples nomes.
Foi Antístenes filósofo de grande
atividade, autor de dezenas de livros. Entretanto, deles só restam
os títulos e textos fragmentários.
Dão-se como filiados à escola cínica: Diógenes de Sínope, Crates, Hiparquia.
A escola cínica, que teve sua continuação ramificada no estoísmo famoso de Zenão de Citium (340-263 a.C.), persistiu também por muito tempo com representantes próprios. Do século 2-o. (d.C.) se conhece como cínico Crescêncio, adversário de S. Justino.
113. Com Diógenes o cínico (413-323 a.C.), a escola
socrática menor fundada por Antístenes, adquiriu popularidade.
"Em certa ocasião em pleno dia, acendeu uma lanterna e saiu gritando: busco um homem" (ibidem).
"De tal maneira estimavam os atenienses a Diógenes, que tendo um rapaz destruído seu tonel (em que morava), eles lho reconstruíram" (ibidem).
"Cumpriu tão bem suas funções que Xemíades (de cujos filhos era educador), costumava dizer: um bom gênio entrou em minha casa" (Ibidem).
Calcula-se que Aristipo fosse jovem ao tempo de Sócrates, a quem ouvira em Atenas, e um pouco mais velho que Platão, falecendo também pouco antes deste.
Terá sido um sofista, quer pela sua mentalidade sensista, quer pelo seu procedimento de mestre com salário; temperamento capaz de adaptações, Aristipo foi o primeiro discípulo de Sócrates que passou a cobrar por suas lições.
No curso de suas viagens, esteve em Atenas e passou algum tempo em Siracusa, onde talvez houvesse conhecido o trabalho de Platão.
Dado que seus discípulos são bem mais recentes, supõe-se, que a escola de Cirene, da qual é fundador, a houvesse instalado nos seus últimos anos. Os historiadores a classificaram como socrática menor (ao lado da megárica e cínica) em vista de se haver ocupado da moral.
A base do pensamento de Aristipo é materialista e sensista, com raízes no jônico Heráclito e no sofista Protágoras. A virtude da ética de Aristipo é o habito de bem gozar o prazer. Os seus numerosos escritos terão servido aos filósofos seguintes, mas desapareceram, deixando raros fragmentos, todavia muitas referências.
Conservou a ironia socrática, sem perder a forma hedonista:
- porque os filósofos vão bater à porta dos ricos e estes não batem à porta dos filósofos?
- É, disse, porque esses sabem do que têm necessidade, e os ricos não o sabem" (D. Laércio II).
Pleitanos de Elis (ou Plistenes) (4-o sec. a.C.), foi chefe da Escola de Elis, situado cronologicamente entre Fedon e Menedemo, antes que a instituição fosse transferida para Eretria. Nada mais se sabe dele, senão o que é dito em comum sobre a mencionada escola socrática menor.