Cap. 5
Enciclopédia Simpozio      Micro História da Filosofia.


SEGUNDO PERÍODO DA FILOSOFIA ANTIGA.


CAP. 4-o.
DE PLATÃO EM ESPECIAL. 2216y115.


 

I - Biografia. 2216y115.

 

 115. Nasceu Platão (427-347) em Atenas, de família aristocrática. Tinha 28 anos ao morrer Sócrates em 399 a.C., do qual fora discípulo e admirador, desde cerca do ano 407, e ao qual retratou em seus diálogos, ao mesmo tempo que lhe deu a posição de personagem principal.

        Inicialmente sonha realizar-se como poeta. Ouvindo a Sócrates moveu-se na direção da filosofia e dos conhecimentos em geral, sobretudo políticos, dedicando-se à reforma social, pois se encontrava na envolvido na difícil situação de Atenasapós as transformações decorrentes do desastre da Guerra do Peloponeso ganha por Esparta.

        Não perdeu Platão a inclinação literária inicial, convertendo-se em um ensaísta de excelente estilo. Ainda hoje é um dos nomes mais citados em literatura e filosofia.

 

 

        116. A elevada sabedoria a que chegou Platão, cingiram-no de lendas explicativas e que, em última instância, são a comprovação de sua grandeza.

"Segundo um rumor acreditado em Atenas e reproduzido por Speusipo, Clearco e Anaxíledes, desejando Áriston (suposto pai de Platão) consumar sua união com Perictione, que era muito formosa, não pode levá-la à efeito; renunciou então as suas tentativas e viu ao mesmo tempo Apolo nos braços de sua mulher, o qual determinou não toca-lá até depois do parto" (D. Laércio, III).
        Dali veio que Platão, como muitos outros homens importantes da antiguidade, era considerado Filho de Deus. Ainda hoje se diz "O divino Platão".

        Afirma-se que Platão nasceu em 7 de targélion (7 de maio), dia em que os habitantes de Delfos crêem que nasceu Apolo. Esta datação pode ser consequência do mito de que Platão fora um "filho de Deus". O mesmo se tem dito de notáveis fundadores de religião.

 

 

        117. A Guerra do Peloponeso pesou negativamente sobre o jovem Platão, o qual não se entusiasmou com o governo progressista, mas arbitrário, dos Trinta Tiranos (anos 404-403 a.C.), dos quais Criton era seu parente, e muito menos com a demagogia do governo que lhes sucedeu, sobretudo por causa da morte infligida a Sócrates. De outra parte, isto levou o jovem Platão a pensar em um novo modelo de governo, o qual pretendeu copiar nas instituições militaristas de Esparta e no governo de Siracusa. Desiludido de Atenas, pôs-se a viajar e a conhecer outras cidades.

        De 399 a 396 a.C. Platão teria estado em Mégara, nas proximidades de Atenas, estudando com Euclídes, chefe de uma "escola socrática menor", que se orientava pelo eleaticismo unicista de ser. É possível que tenha retornado a Atenas pela volta de 395 a.C., quando teria escrito algumas obras.

        Quando de novo se retira, toma o rumo da Itália, estabelecendo-se na poderosa e rica Siracusa. Agora toma contatos com os pitagóricos, cujos arquétipos matemáticos o influirão definitivamente. Mas também se ocupa da ideologia política, armazenando-se de idéias novas, para um segundo retorno a Atenas. Esta sua viagem para a Itália, ou Sicília, teria ocorrido nos anos de 390 a 388 a.C. O retorno a Atenas ocorre não sem tumulto.

        Dionísio, o tirano de Siracusa, indispusera-se com as idéias indiscretas e novas de Platão. Entregou-o a um piloto espartano (e portanto inimigo dos atenienses) para que o levasse como escravo, ou o vendesse, ou mesmo o lançasse ao mar.

        Assim foi que Platão acabou por ser vendido em Egina, uma ilha já não longe de Atenas. O pitagórico Aniceris, de Cirene, resgatou a Platão. Este fato mostra bem as ligações entre o grande filósofo e a escola de Pitágoras, bem como as relações filantrópicas exercídas pelos pitagóricos entre si.

 


         118. A Academia foi a grande criação de Platão, pela volta de 387 a.C., logo após sua libertação. Instalou-se no recinto do Ginásio de Academo (dali o nome da escola).

        Estabelecimento de nível superior, com vários professores, a Academia subsistiu até 529 d.C., quando foi fechada, após 9 séculos de atividade, pelo imperador Justino, de modo geral para favorecer o cristianismo e Constantinopla.

        O espírito reformista de Platão se refletiu na circunstância de admitir as mulheres na Academia. Estas poderiam ali vestir-se como o homem. Este fato sugere também que a educação em Atenas estava a copiar o modelo educacional e social de Esparta.

        Voltou ainda duas vezes à Siracusa, com vistas às suas preocupações políticas e de reformas sociais.

        Morrendo aos 80 anos, foi Platão um exemplo raro de grandeza humana, à qual se deve em grande parte a permanência quase milenar de sua escola, fechada apenas quando prevaleceu a injunção ideologica do Imperador cristão de Constantinopla.

 

 

II- Obras de Platão. 2216y119.

 

         119. Escreveu Platão em forma de diálogo, o que lhe possibilitou ouvir as diferentes opiniões e colocá-las em dialética. Aristóteles adotará o mesmo método, todavia na forma de introdução histórica aos temas que discute.

        Em Platão o interlocutor Sócrates exprime geralmente a opinião do mesmo Platão.

        Note-se também que Platão é o primeiro filósofo do qual se conservam todas as obras, o que evidencia a importância que tiveram na formação do pensamento antigo e imediatamente posterior.

        Ocupam-se os livros de Platão de toda a filosofia, mas principalmente da política e da educação. Comparadas entre si, República apresenta uma abordagem mais ideal e utópica; Leis é uma exposição mais amadurecida e realista.

        Escreveu Platão cerca de 35 diálogos. Alguns são de autoria duvidosa, mas certamente do círculo da Academia, portanto do seu pensamento, na forma como estava em vigência.

        Do ponto de vista cronológico os diálogos platônicos se classificam em 4 grupos:

 

        a) São ditos diálogos socráticos de sentido estrito, de caráter eminentemente moral, os seguintes: Apologia (de texto excepcionalmente não dialogado), Criton, Hípias menor, Alcibíades I, Laques, Cârmides, Ion.

        b) São diálogos socráticos de sentido amplo, situando-se nos primeiros dias da Academia: Protágoras, Górgias, Eutidemo, Crátilo (grupo dos 4 sofistas), Menon, Menéxenes, Lisis, Banquete (G L : B ` F 4 @ < , em latim Convivium), Hipias Maior.

        c) Diálogos do período médio, ou de transição, dos anos 380 a 365 a.C.): Republica (A @ 8 4 J , \ " ), Teeteto, Fédon, Parmênides, que dão início aos diálogos mais notáveis de Platão.

        d) Diálogos da velhice, de 365 a 348 a.C.: Sofista, Político, Filebo, Timeu, Crítias, Alcibíades, Teages, Clitófon, Minos, Leis (; ` : @ 4 ), Epínomis. Acrescem-se como deste tempo as Cartas de Platão.

        Metade da obra de Platão é ocupada por República (10 livros) e Leis (12 livros).

        Muitos dos diálogos levam nomes tomados de filósofos do tempo ou anteriores, e que são postos ficticiamente a dialogar.

        Com referência ao Timeu, por se ocupar da formação cosmogônica do mundo, influenciou amplamente a imaginação antiga.

        Citam-se os textos de Platão pela edição grega de 1578, de Henry Estienne, com páginas subdivididas em 5 alturas, indicadas pelas letras a,b,c,d,e. Inicia a República na página 357a, seguindo até 621 d.

 

 

III - Doutrinas de Platão. 2216y120.
 
 

        120. De maneira geral, o platonismo é:

- inteletualista (não sensista);

- racionalista(não empirista);

- racionalista radical, atingindo universais independentemente da experiência (não racionalista moderado, como Aristóteles);

- ineista (das idéias universais);

- trinitarista na visão geral do ser (idéias reais, demiurgo, mundo);

- dualista (não reducionista da alma e corpo);

- absolutista em política.

 

        Por estas e outras razões teve Platão a aceitação relativamente fácil das religiões, por exemplo dos primeiros cristãos. Considere-se, que entre os primeiros cristãos, além da idéia da ressurreição final, havia os que, como Orígenes, admitiam a reencarnação dos espíritos, até a purificação final de todos, inclusive dos demônios, como definitivo triunfo do bem.
 
 

        121. Divisão das ciências. Ao tempo de Platão já andavam bastante distintas as ciências, ora mencionadas pelos dois gêneros teóricas e práticas; ora, pela divisão em dialética, física, ética. Aristóteles reformulará ligeiramente as divisões platônicas.

        Dedicou-se Platão mais às ciências práticas, especialmente à política; manteve-se, por conseguinte, numa linha de conduta socrática. Esta tendência moral foi própria sobre tudo dos primeiros escritos do grupo chamados diálogos socráticos - Apologia, Criton, Hípias menor, Alcibíades, Laques, Carmides, Apologia de Sócrates, Criton.

        Não obstante, é vasto o que Platão escreveu sobre ciências teóricas nos diálogos mais recentes, ainda que no decurso das exposições prevaleça ainda como global o prático. Por causa destas considerações teóricas acrescidas, Platão se manteve sempre vivo.

        Nas suas considerações práticas, abordou ao mesmo tempo, e progressivamente, a lógica, a filosofia da linguagem e da arte, a cosmologia, a psicologia racional, a teoria do conhecimento e a ontologia. As ciências especulativas não alcançam subdistinção entre si, como sucederá em Aristóteles; este diferenciará claramente entre filosofia primeira e filosofia segunda, bem como as tratará em separado.

 


 
        122. Gnosiologia dialética de Platão. A primeira parte da filosofia de Platão conhecida por Dialética (e seguida da Física e da Ética) trata de teoria do conhecimento ou gnosiologia, acompanhada de uma metodologia. Esta metodologia é, a rigor a dialética; os outros nomes aqui usados são entretanto de criação moderna. O próprio termo dialética adquiriu modernamente outras acepções.

 

        O método dialético de Platão pressupõe toda uma teoria do conhecimento, em que se destacam a especificidade a inteligência e os universais reais, que ela capta, usando o referido método.

        A especificidade da inteligência, distinta dos sentidos, foi defendida, como já em Sócrates, contra os sofistas. Mostrou Platão a especificidade da inteligência, apontando para o objeto muito especial, por ela encontrado e que não coincide com os objetos da vista, do ouvido, que são faculdades sensíveis. Desta sorte, diferênciou as faculdades pelo seu objeto formal próprio.

        No Teeteto, diálogo do período médio, bem depois da fundação da Academia (387 a.C.), se diz:

"Convirás - diz Sócrates - em que, o que sentimos por meio de uma faculdade, não se pode sentir por meio de outra, e o que chega pelo ouvido não o podes sentir por meio da vista, assim como o que procede desta não pode chegar-te por via do ouvido" (Teeteto 185 a).

 

        Passa a seguir ao diálogo que resulta em mostrar que o ser é o objeto formal ou essencial da inteligência, ser este que está contido em comum, tanto nos sons,como nas cores e em outra qualquer das qualidades sensíveis. O diálogo, posto no comando de Sócrates, segue: "Com que se exerce a faculdade que te manifesta o que é comum a estes sensíveis, o que tu designas com os termos é e não é? Que órgãos designarás a todos estes comuns, por meio dos quais aquilo, que em nós percebe, pode distinguí-los? Teeteto: - Falas do ser e do não ser; da semelhança e dissemelhança, da identidade e das diferenças... Vejo que a alma por si mesma os distingue em todas as coisas" (Teeteto 185 c).

 

        Prossegue Sócrates: "És belo! Vês que a alma por si mesma percebe uma coisas e por meio dos órgãos do corpo outras... Em qual da duas ordens pões o ser? Porque é ele que está acima de tudo (o mais extenso)?

Teeteto: - O ponho entre os objetos que a alma se esforça em alcançar por si mesma" (Teeteto 186 e).

 

        Os objetos da inteligência, ou seja das idéias alcançadas diretamente, sem os sentidos pelo meio, são em primeiro lugar os universais reais, como depois os caracterizará Platão (vd 124), ou universais arquétipos (vd 125), porque também servem de modelo para as coisas sensíveis.

        Não se contentou Platão em admitir somente a universalidade do ser real; também as demais noções, como as propriedades, são universais reais, como sejam o uno, a substância, a verdade, a justiça, o bem, belo etc., tudo mais ou menos ao modo pitagórico dos números.
 
 

 

      123. Racionalismo radical, inatismo, dialética de reminiscência.

       A filosofia de Platão é racionalista radical, porque o pensamento é considerado capaz de se exercer sem os dados dos sentidos como ponto de partida. Ainda que o dialogo com as coisas sensíveis possa estimular o enlevo, que sobe à contemplação dos universais, estes não têm no sensível a origem do seu conteúdo.

        Esta doutrina racionalista marcará uma tradição futura, que passará por Plotino, Agostinho, agostinianos medievais, Descartes, Leibniz. Estará sempre em contraste com o racionalismo moderado de Aristóteles e de Kant, sobretudo dos empiristas, que fazem a inteligência inicializar o conhecimento no fenômeno sensível, cujo conteúdo operam para subirem além, sem nunca desprender-se dele; os empiristas permanecem neste fenômeno sensível, os kantianos lhe sobrepõem formas apriorísticas, os aristotélicos, já com Parmênides, admitem que nele a inteligência intui o ser, ainda que seja somente o ser do sensível, a partir do qual, por analogia, vão ao ser em geral.

 

        O racionalismo platônico, como já referido, tomou elementos à filosofia pitagórica, a qual, por sua vez se encontra influenciada pelas doutrinas dualistas do orfismo, que separam radicalmente o psíquico e o corpóreo, como substâncias distintas, em tudo irredutíveis.

        O método dialético de Platão segue a índole de suas posições gnosiológicas. Uma vez colocada a distinção entre idéias singulares e idéias gerais (sendo estas inatas), a dialética conduz dos conhecimentos singulares aos universais (portanto à ciência no sentido Socrático); estes despertam aqueles, mas aqueles não dependem destes.

        O constante esforço dos diálogos platônicos consiste numa procura incessante, com vistas a descobrir conceitos gerais, e que em última instância são universais reais, arquétipos eternos. Platão é racionalista radical, na acepção de admitir uma fonte de idéias autônoma em relação aos sentidos, a qual a alma teve acesso já antes de penetrar no corpo humano atual. Há idéias de origem empírica e idéias inatas; só estas são universais, isto é, de objeto imutável. As outras colhem notícia de objetos em constante possibilidade de fluxo. Ainda que as idéiasadventícias tenham o caráter empírico, não se confundem todavia com as sensações.

 

        O conteúdo das idéias inatas e universais não se encontra nos objetos do mundo empírico. Se possuímos tais idéias universais, devem ter outra origem. São inatas. Fazer ciência é despertá-las (Menon 85). A ciência, como pesquisa do universal, é uma reminiscência.

        Apelando ao mito, Platão esclarece que as idéias inatas foram conhecidas em uma vida anterior, quando as almas tiveram a oportunidade de contemplar os objetos universais (Fedro, 246-248). Aristóteles, ao contestar Platão, dirá que as idéias universais existem, mas enquanto apreendidas, por abstração, a partir da intuição do ser nas coisas sensíveis: opõe portanto a Platão um racionalismo moderado (vd 143) Finalmente o positivismo, que já era o ponto de vista dos sofistas, nega mesmo o racionalismo moderado de Aristóteles.

        As idéias universais da mente humana reproduzem as idéias arquétipas. Foram geradas e adquiridas pela mente no estágio anterior à vida presente, quando os espíritos puros contemplavam os arquétipos. Foram as almas instaladas nos corpos materiais por punição, a fim de pagarem delitos anteriores. Eis um resto das doutrinas órficas acolhidas por pitagóricos e agora também por Platão.

        No futuro Agostinho dirá que ditas idéias universais surgem na mente por efeito de uma iluminação divino-natural (vd 220), sem todavia afastar a doutrina judaico-cristã do pecado original. Descartes dirá que as idéias são inatas, isto é, criadas juntamente com a alma. Kant dirá que são formas apriorísticas do entendimento. Mas, desde a antiguidade Aristóteles defende que os universais são nada mais que abstrações, pelo acolhimento de uma noção sem os respectivo sujeito singular, sem que tenham sido colhidas em um momento anterior a partir de um arquétipo.

        Para Platão os conhecimentos recebidos pelos sentidos são singulares. Podendo também generalizar-se, nunca equivalem às ideias inatas, porque estas equivalem diretamente às idéias reais arquétipas, as quais foram conhecidas com anterioridade à qualquer generalização. Contudo, os conhecimentos sensíveis, pelo seu caráter similar, podem despertar as idéias inatas adormecidas. A ciência empírica, na medida que se desenvolve, poderá, pois, desenvolver a ciência propriamente dita, a que se dá pelo desenvolvimento das idéias inatas universais. Considerando que tais ideias surgem por recordação, a ciência propriamente dita se diz ser uma reminiscência.

 

        124. Os universais reais, o ser, o belo e outros. A consistência dos universais é real.

        Este realismo dos universais a primeira vista surpreende, mas foi amplamente defendido na idade média pelos assim chamados realistas, com desta que os da escola de Chartres (vd). Importa atender, que não há grande diferença entre admitir um conjunto de idéias reais e estabelecer a existência de um Deus infinito.

        A partir de sua gnosiologia, criou Platão um ontologia, que começa por admitir realidades transcendentes universais. Conduz em frente doutrinas que tomou aos pitagóricos e aos eleatas.

        Descreveu Platão maravilhosamente o ser e sobretudo o belo, quando o homem subitamente se eleva ao estado de filósofo e os atinge como arquétipos do que há nos seres singulares e nas coisas belas multiplicadas:

"...este homem verá bruscamente certa beleza, de uma natureza maravilhosa. Verá um ser que, em primeiro lugar, é eterno, que não nasce, nem morre, que não aumenta e nem diminui, que além disso não é em parte belo, que não aumenta e nem diminui, que além disso não é em parte belo e em parte feio, agora belo e depois feio, belo em comparação com isto e feio em comparação com aquiilo, belo e feio acolá, belo para alguns e feio para outros. Conhecerá a beleza que não se apresenta como rosto ou como mãos ou qualquer outra coisa corporal. Beleza ao contrário, que existe em si mesma e por si mesma, sempre idêntica, e da qual participam todas as demais coisas belas. Estas coisas belas individuais, que participam da beleza suprema, ora nascem, ora morrem; mas essas beleza jamais aumenta ou diminui, nem sofre alteração de qualquer espécie" (Simpósio, 210 2 - 211a).
 

        125. Exemplarismo. A doutrina das idéias universais reais de Platão consiste em admitir modelos arquétipos (ou universais metafísicos), os quais não seriam apenas essências ideais, mas reais. As essências absolutas repetir-se-iam nas coisas singulares, as quais teriam nelas o seu exemplar arquétipo.

        O Demiurgo é o artista do universo, porque organiza a matéria informe, aplicando a ela as formas das idéias eternas. Por isso, as coisas são como que a sombra das referidas ideias arquétipas.

        Os pitagóricos se referiam à números e figuras geométricas eternas; agora Platão apenas substitui estes números por conceitos mais amplos.

        Importa advertir para o exemplarismo das idéias, que servem de modelo às coisas que se fazem. Suposto que nada é possível fazer sem um prévio modelo (tese a ser provada!), resulta que tudo o que se faz incorre em ser racional. Parmênides e Aristóteles, apesar de não falarem em idéias reais arquétipas, estabelecem a racionalidade do ser, com a impossibilidade do não ser; este pensar incorre em um exemplarismo, porque o que existe deverá estar conforme com a razão.

        O exemplarismo platônico é basicamente a doutrina dos universais dos pitagóricos, pela qual se regem todas as metafísicas, que ultrapassam o ser das coisas singulares. Em conjunto se opõem estes filósofos a aqueles que só admitem a ontologia particular ou se reduzem a uma filosofia simplesmente empirista. Platão foi o que mais enfaticamente valorizou o universal; não só o admitiu como um arquétipo das coisas, mas elevou este modelo exemplar à algo real.

 

        Uns discordam de Platão apenas por haver estabelecido a realidade dos universais, e não o universal simplesmente. Aristóteles, discordando de Platão, continuou a admitir ao universal, interpretando-o de outro modo; atribuiu ao universal apenas uma validade ôntica inerente só ao ser singular a ele obediente; em concreto se identificavam com a realidade das coisas singulares, interferindo sobre estas como lei; neste sentido aristotélico as coisas singulares contêm algo mais que a mera contingência da singularidade, e que é o universal; então o universal não ultrapassa ao singular, senão nesta sua necessidade complementar. Depois que se tem de dizer que um fato, apesar de ser singular, é sempre um fato que necessariamente está acontecido, não parece possível deixar de admitir o universal, ao menos como Aristóteles o concebeu (vd 143).

        Outros divergem de Platão em vista de não admitirem qualquer universal, nem o de Platão (universal-real) e nem o de Aristóteles (universal com fundamento ôntico nos seres singulares).

        Os adversários contemporâneos ao mesmo Platão, por causa de sua doutrina das idéias reais, eram os sofistas e os cínicos com eles relacionados. Opunham-se, portanto, à universalidade em qualquer hipótese. Conhece-se a notícia irônica:

"Falando um dia Platão sobre as idéias, de mesa e de vaso, Diógenes (o Cínico) o interrompeu ;

- querido Platão, vejo a mesa e o vaso, porém não vejo suas idéias.

- E eu me explico, replicou Platão, porque tens olhos que fazem ver a mesa e o vaso; porém não tens o que nos descobre as idéias, a inteligência... " (D. Laércio, VI).

        O caráter real atribuído por Platão às idéias universais, estimulou exaltações à propósito da visão daqueles arquétipos. Os encantos de intuir o ser, o bem, o belo, a harmonia são enfaticamente narrados pelo admirável mestre da Academia. A viagem das almas ao céu das idéias, o mito da caverna, o delírio poético, o amor que surge após a visão do belo carnal feminino capaz de conduzir à reminiscência espetacular do belo como tal, - são páginas típicas da doutrina platônica, e de tal maneira narradas, que se tornaram eternas na literatura filosófica

 

        126. A trindade platônica. Platão concebe a existência de três elementos eternos, os quais caracterizam sua ontologia:

- idéias arquétipas,

- Demiurgo,

- matéria eterna.

        De futuro o neoplatonismo, sobretudo o de Plotino, dará aos três elementos uma sequência dinâmica, com três processões, que serão adotadas pelos teólogos cristãos para racionalizar sua crença na multiplicidade trina das Pessoas divinas.

        As idéias arquétipas, segundo Platão, são eternas, reais, universais; elas correspondem aos números arquétipos de que falam os pitagóricos, a partir dos quais Platão formulou sua doutrina.

        Deus, enquanto organizador do mundo, é um demiurgo ( = artista, produtor). Atuando sobre a matéria eterna, imprime na mesma os arquétipos. Nascem desta maneira os indivíduos, os mais variados, como sombra das idéias eternas. Deus é conceituado com um artista, que se orienta por uma idéia preexistente. Repete-se aqui algo da mitologia, em que Deus surge como oleiro que faz, manejando com sabedoria, o barro, de onde sai o homem.

 

        Difícil é dizer até aonde Platão se deixou levar por antropomorfismos. No futuro, o neoplatonismo de Plotino, juntará numa só entidade o Logos divino e as idéias exemplares. O exemplarismo divino será retomado por Santo Agostinho e Tomás de Aquino. No pensamento platônico Deus surge como primeiro motor (alma do universo) e como organizador do mundo (demiurgo).

        A preocupação de explicar as causas das transformações do mundo já vem dos jônicos novos (a concórdia e a discórdia, em Heráclito, o amor e o ódio, em empédocles, o nous, em Anaxágoras. Neste último, a causa começa a ser concebida como princípio separado da matéria sobre a que atua, mas já sem os conceitos antropomórficos da velha mitologia.

        Progride esta tendência filosófica de um Deus pessoal, com Sócrates e Platão.

"Tudo o que está em mutação, o está por ação daquele que o causa... Nada pode, separado daquele que o causa, assumir o devir" (Timeo 28 a).

 

        Imagina-se Platão que deva haver um primeiro motor, ao qual denomina Alma do Mundo. Este primeiro motor, ainda não é examinado com subtilidade. Aristóteles, dirá, depois, que o primeiro motor deve ser motor imóvel e capaz de mover; se ele fosse móvel, precisaria de novo outro para movê-lo. Platão se contenta em indicar um motor com peculiaridade especial, que é a de ser alma, como se a alma não tivesse o mesmo problema...

        Em vista de haver necessidade de haver um primeiro motor, este poderia ser uma alma que é;

- "motor e tem em si o princípio do movimento; esta alma pode, portanto, comunicar movimento sem o receber antes" (Leis, X).
- "Alma real, dirigida por uma inteligência real, que organizou tudo e governa todas as coisas" diz Platão no Timeu.
        Entre todas as idéias reais, de Platão, a suprema é a do Bem. Há uma tendência do platonismo em identificar este bem supremo com a divindade; nesta condição, o bem, o demiurgo, a alma do mundo se reduziriam entre si. A separação seria apenas uma abstração, que o aspecto literário dos escritos de Platão mantémaparentemente, e que em Plotino é denominado o Uno .

        O exemplarismo pitagórico e platônico foi assimilado pela filosofia cristã, mesmo pelo aristotelismo de Tomás de Aquino, que faz Deus ser o modelo exemplar de todas as criaturas. Platão não apresentou um Deus claramente como um Ser personificado, porque oferece os três elementos eternos separadamente (idéias reais, Demiurgo, matéria eterna). O platonismo futuro tenderá a fundir as idéias e o demiurgo.

        A transcendência divina é outro aspecto típico do platonismo e que no futuro será radicalizada em Plotino, de tal maneira que o supremo ser é o Uno, do qual emana o Logos, no qual estão as idéias, ocorrendo o contato com a matéria através da Alma do Mundo.

        Com referência à alma, diz Platão, que ela mora no corpo, como piloto no navio, isto é, sem se compor substancialmente com ela, conforme quererá Aristóteles.

 

        127. Física. A filosofia natural de Platão e a sua concepção geral do mundo é inspirada nos pitagóricos.

        Os corpos se compõem de matéria e forma. A matéria é um princípio indeterminado e eterno, que recebe suas determinações da forma.

        Em Platão a matéria indeterminada possui uma quase determinação, ainda que sua determinação principal venha das formas.

        O mesmo não acontecerá em Aristóteles, que estabelecerá uma noção de matéria, totalmente indeterminada e complementar. Estes dois pontos de vista continuarão através dos tempos dividindo as correntes filosóficas; de um lado o platonismo, que prossegue no neoplatonismo de Plotino e Agostinho e ainda no agostinianismo medieval e no escotismo; de outro, o aristotelismo, continuado, neste particular, pelo tomismo, medieval e moderno e em parte pelo suarezianismo.

        As diferenças da forma darão aos corpos suas diferentes espécies substanciais. Acreditavam Platão e Aristóteles, que os quatro elementos água, ar, fogo, terra (assim classificados por Empédocles) eram especificamente distintos, o mesmo acontecendo com a carne, os ossos, as plantas, o pão, etc...

        O mundo tem um eixo central, girando sobre si mesmo, tendo a terra no centro. É rodeado de esferas, como firmamentos sucessivos, como já ensinavam os pitagóricos.

 

        128. Psicologia. A alma é espiritual, diz Platão, repetindo a Sócrates e Pitágoras. Convive com o corpo material, sem se associar como um composto de partes que se completam. Diferem como o piloto e o navio, - conforme comparação usada, - e em que a alma tem o comando do corpo.

        Não sendo componente com o corpo, a alma vem de fora do mundo material. A encarnação se justifica, por necessidade de purificação de culpa anterior. A reminiscência de outras vidas é prova disto. Tais doutrinas as recebeu Platão da tradição órfica e pitagórica vigente no seu tempo e se conservam em parte até hoje.

        Divide-se a alma em três partes, a racional, situada na cabeça, a passional, no peito, a apetitiva, no abdômen. Talvez se trate apenas de faculdades da mesma alma, conforme permitem entrever alguns textos, apesar de outros mais favoráveis à divisão real. Na hipótese da divisão, a alma racional seria a espiritual e imortal.

        De acordo com o predomínio de uma das partes, os cidadão diferem entre si. Dali a divisão paralela em classes sociais: os políticos, os militares, os trabalhadores.
 

        129. Filosofia moral. A ética de Platão é a do direito natural (contra os sofistas) e marcada pelo orfismo. Continua diretamente a ética socrática, dali prosseguindopara novos desenvolvimentos na área política e educacional.

        O objetivo geral da vida é a felicidade, com uma hierarquia, na qual prevalecem as partes superiores da alma. Situam-se por via ascendente os prazeres inferiores, próprios à manutenção da vida e da espécie; os prazeres do coração, já menos fugazes; os prazeres buscados pela inteligência.

        De outra parte, a união meramente extrínseca da alma com o corpo, dá à ética de Platão (como já a de Sócrates e antes ainda a dos órficos e pitagóricos) um feitio anti-naturalista e pouco grego. Para ela o filósofo é um "forasteiro" (Teeteto 174), que passa por esta vida sem se interessar pelo que se lhe apresenta.

        Este ideal forasteiro se transferirá ao neoplatonismo de Plotino e confere em muitos aspectos com o cristianismo.

 

        130. Política. Politicamente, Platão foi inovador, numa época em que de fato as reformas se faziam necessárias, em vista do declínio do poder de Atenas, debilitada pela longa Guerra do Peloponeso, quando acabou vencida por Esparta.

        Admite Platão a desigualdade dos homens segundo a natureza e não segundo o nascimento. Em sua república todos deverão ter oportunidade de acordo com as qualidades pessoais. As mulheres têm iguais direitos que os homens, inclusive para serem guerreiras e praticarem a ginástica nuas, conforme o uso do tempo. Elas têm também o direito de comparecer à Academia vestidas como os homens, os quais então usavam vestes mais curtas.

        O Estado em Platão é de direito natural. Os homens necessitam da vida em comum, para que as tarefas sejam executadas especializadamente e se complementa entre si.

"O que dá nascimento a uma cidade é, creio, a impotência de cada indivíduo de bastar-se a si próprio e a sua necessidade de uma multidão de coisas. Assim, pois, um homem traz consigo outro homem para determinado emprego e outro ainda para um outro emprego e a multiplicidade das necessidades reúne numa mesma residência grande número de associados e auxiliares; a esse estabelecimento comum damos o nome de cidade" (República, 369 b).

 
 


        131. A forma de governo é concebida por Platão à maneira de Estado absolutista e socializante. Não resulta o poder da união jurídica das vontades. O poder político é extrínseco e une como que de fora. O governante é como o médico, o qual decide em virtude de seu saber e não representa o saber dos indivíduos aos quais medica. Este modo de ver não confere com o princípio de que o Estado tenha nascimento em um contrato social.

        Distinguindo entre três formas de governo, - monarquia, aristocracia, democracia, - preferiu Platão a aristocracia (República, 415). Mas não afastou as outras formas de governo. Em épocas diferentes oscilou em sua opinião.

        No Político foi partidário de um absolutismo moderado, tendo os olhos em Dion, de Siracusa:

"A conclusão, pois, ao que me parece, é que a forma correta de governo é de apenas um, de dois ou quando muito alguns, se é que esta forma correta possa realizar-se "(Político 293). Em Leis, escrito na velhice e com mais realismo, passou a aceitar um regime misto de monarquia e democracia, ainda que não chegue a ser perfeito.

 

        132. Classes sociais. Os cidadãos, que constituem a cidade, estão naturalmente separados em classes. Platão, por exemplo, era da nobreza.

        Explicou em forma de mito e com analogias as diferenças sociais:

"Sois todos irmãos os que fazeis parte do Estado; mas o Deus que vos criou fez entrar o ouro na composição de vós outros que sois aptos para governar. Por isso mesmo os tais são mais preciosos. Misturou prata na constituição dos guerreiros; o ferro e o cobre na dos lavradores e artífices" (República 415 a).         Aptos para governar são os filósofos (os sábios), como outros são aptos para a guerra e para ser artífices.

        A distribuição por classes não é todavia um privilégio social e sim vocacional, podendo variar de pai para filho. Devem, pois, ser todos aproveitados conforme as aptidões:

"Tendo todos uma origem comum, tereis ordinariamente filhos que se vos assemelhem. Poderá, porém, acontecer que o cidadão de raça de ouro tenha um filho de raça de prata; e, por outro lado, que o de prata produza o de ouro e, que o mesmo suceda a respeito das outras raças. Por isso ordena Deus, principalmente aos magistrados, que se ocupem acima de tudo em conhecer de que metal é feita a alma de cada criança e, que, se em seus próprios filhos encontrem alguma mescla de ferro ou cobre, os tratem sem mercê e os releguem à categoria dos artesãos ou lavradores. Também requer Deus que, se estes últimos tiverem filhos que venham ao mundo com mescla de ouro ou prata, elevem aqueles à categoria de magistrados, estes à de guerreiros. Porque há um oráculo que diz que a república perecerá no dia em que for governada por ferro ou bronze" (República 415 b-d).  
 
 

        133. Quanto às mulheres, garantiu Platão sua participação nas três classes. Poderiam ser magistradas, guerreiras e artífices desde que tivessem as respectivas qualidades.

        Como já foi referido, Platão também admitia as mulheres na academia, o que lhes permitia os exercícios ginásticos.

        Atento aos usos ginásticos de então e à fragilidade, esclareceu:

"As mulheres de nossos guerreiros não hesitarão em se despir, uma vez que a virtude lhes faça as vezes de vestes. Tomarão parte com seus esposos nos trabalhos da guerra e nas funções que lhe são inerentes como custódios da república. Somente em atenção da fragilidade do sexo, se lhes atribuirão tarefas menos árduas" (República 457 a).  

        Ainda para contornar uma situação de seu tempo, Platão defendeu a estranha instituição da mulher comum para todos os guerreiros. A educação dos respectivos filhos seria também coletiva, pelo Estado.

        Aristóteles, contestando a esta maneira de ver, dizia que era preferível ser o último dos primos, que o filho da república de Platão. (Política, I, 2).

        São ainda teses significativas de Platão: a propriedade coletiva das terras (bens de produção), a educação pelo Estado (Educação pública, Estado educador).

        134. A filosofia da arte de Platão é idealista classicista, porquanto o objetivo era sempre o objeto ideal e não o singular.

        Recomendou as artes de conteúdo mais espiritual, como a poesia literária, música e dança. Quanto à arte da escultura, advertia, que era preferível apresentar um homem real, do que uma imitação de homem. Mesmo o homem real não passava de sombra do homem arquétipo.

 
 

        135. Apreciação. De Platão tudo se pode dizer. Ainda que houvesse defendido um governo absolutista, nos seus diálogos foi, entretanto, democrático. Havendo introduzido a diversidade dos personagens, permitiu que tudo fosse dito e discutido: como que num vasto simpósio.

        Seu método foi apriorístico, havendo sido um aficcionado da análise dos conceitos eminentemente racionais. Não analisou suficientemente os dados empíricos; o método da indução, melhor conduzido, o teriam levado mais cedo à moderação; esta, aliás, ele a passou a ter nos seus últimos textos.

        Platão foi o elo entre o racionalismo pitagórico e o racionalismo moderado de seu maior discípulo, Aristóteles.

 

 


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