160. Introdução. No fim do 4-o século a. C. alteraram-se profundamente as condições políticas e culturais de todo o Ocidente e Ásia Menor. O novo contexto político veio a ser denominado mundo helênico-romano, em função a dois povos que o dominaram, com uma perduração de cerca de mil anos.
A mudança se processou em tais dimensões, mesmo na filosofia, que ficou inadequado usar-se para o novo tempo desta simplesmente o nome de período pós-socrático; contudo, faz-se o uso por mera comodidade. O nome plenamente adequado é o de filosofia helênico-romana.
A transformação política iniciara em 334 a.C., quando Alexandre Magno se lançou à conquista do Império Persa, avançando até a Índia no Oriente. Falecido prematuramente em 323 a.C., seus generais dividiram o grande espaço em vários novos reinos, mantendo todavia o novo espírito. Destacaram-se dois, - o reino dos Seleucidas, com a capital em Antioquia da Síria, e o reino dos Ptolomeus, com capital em Alexandria, no Egito.
Ficaram também alteradas as condições do desenvolvimento cultural. Sobretudo em Alexandria a cultura alcançará notória prosperidade, com suas escolas e grande biblioteca; chegou a ser considerada uma segunda Atenas.
Mais no Ocidente crescerá o poderio de Roma. Esta conquistou as cidades gregas do sul da península itálica, sem todavia destruir a anterior cultura grega. Aos poucos também conquistou o Norte da África Ocidental, vencendo ali sua próspera concorrente, Cartago.
Enquanto durava este processo de conquista do Norte da África Ocidental, - que passaria a ser conhecida como África Latina, - Roma subtilmente fará a política de equilibrio com Alexandria; por sua vez Cartago se havia apoiado em Macedônia e em Antióquia da Síria.
Apoderaram-se os romanos primeiramente da Grécia e Macedônia, de 200 a 197 a.C., a pretexto do apoio ali encontrado por Anibal, de Cartago.
Antióquia da Síria, que houvera apoiado Macedônia, continua combatida por Roma e se enfraqueceu. Dali porque readquiriram os judeus, súbditos de Antioquia, a sua independência, estabelecendo-se então o reino dos Macabeus (150-62 a.C.). Mas, em 64 a.C., os romanos integram no seu vasto domínio também a Síria e o reino dos Macabeus.
Agora o maquiavelismo romano já não mais vê sentido apoiar o Egito; derrotando a rainha Cleópatra, anexaram o Egito ao Império Romano em 31 a.C. Estava refeita a unidade do Império de Alexandre Magno, ainda que de um novo modo e em dimensões ainda maiores.
A cultura helênica, já bastante vasta, se expandiu primeiramente por todo o Oriente, no espaço maior criado por Alexandre Magno e seus sucessores seleucidas e ptolomeus. Nesta primeira fase verifica-se a atuação das assim chamadas escolas pós-socráticas, - dos peripatéticos, acadêmicos, epicuristas, estóicos, céticos.
Criado o mundo romano, a cultura helênica, que já cedo existia em várias regiões do Ocidente, expandiu-se ainda mais. Nesta outra fase, a cultura também se processa na língua latina, ao mesmo tempo que prosperando na grega. Institui-se, portanto, uma fase dúplice: helênico-romana. Além disto as formas escolares anteriores assumem formulações renovadas, como quem diz neopitagóricos, neoplatônicos, neo-acadêmicos, novo pórtico (novo estoicismo), céticos novos. No Ocidente o latim se tornará língua exclusiva em relação à grega somente na Idade Média.
No período helênico-romano também se darão profundas transformações sociais; dali o direito romano. (vd 201)
Dão-se mudanças religiosas, pela penetração das formas orientais, igualmente em transformação, de que o cristianismo é o principal exemplo. Com referência ao islamismo é também um exemplo de transformação, todavia mais tardio.
No decorrer do período helênico romano circulava-se do Oriente ao Ocidente. Nesta circulação difundiu-se por toda a parte a filosofia, o mesmo ocorrendo com as religiões, os costumes e as artes.
161. Subdivisão do período pós-socrático. É possível determinar vagamente duas fases na filosofia helênico romana.
Uma primeira fase acontece desde o período socrático até o 2-o século d.C. Esta primeira fase é mais tipicamente pós-socrática. Citam-se então as escolas remanescentes, que dão continuidade linear ao pensamento dos grandes mestres Platão e Aristóteles, bem como às escolas socráticas menores.
Na segunda fase do período helênico-romano acontece uma tendência ecleticista, com a penetração do pensamento de umas escolas no das outras. O platonismo penetra no aristotelismo. O pensamento cético em crescimento invade por sua vez o platonismo, de onde resulta a expressão neo-acadêmicos. Cresce também o ativismo religioso, com o domínio final das religiões orientais, sobretudo do cristianismo, num processo todavia bastante ecleticista. Nesta segunda fase acentua-se a importância do neoplatonismo, quer helênico, com Plotino, quer judaico e cristão. O quadro temático da segunda fase do período helênico-romano é o de que se concentrou no ético e religioso.
A distinção entre as duas fases da filosofia helênico-romana não impõe contudo uma divisão didática na exposição de sua história. É possível examinar cada escola mais ou menos linearmente ao longo de todo o período pós-socrático.
O mesmo se pode dizer da distinção entre escolas socráticas remanescentes e as que surgiram com denominações inteiramente novas. Não existe esta inteira novidade, senão de grau. Mas se houvermos de procurar alguma diferenciação maior, elas se encontram no estoicismo, neoplatonismo, e sobretudo na filosofia patrística.
Foi a patrística uma simbiose de estoicismo e neoplatonismo, que, sob inspiração religiosa cristã, se desenvolveu, embora muito de vagar, o suficiente para conseguir atravessar o tempo e finalmente se transpor às novas nações da Idade Média.
162. A escola peripatética é continuadora do pensamento de Aristóteles, com centro no Liceu, situado a nordeste de Atenas. Há sinais de que já Aristóteles houvera dado inicio a uma biblioteca e coleções de materiais para estudo de animais, plantas, minerais, de onde resultou o sucesso da escola, e mesmo a sugestão para criações semelhantes em outras escolas, inclusive para a fundação da biblioteca de Alexandria.
Continuou o Liceu atuante pelo menos um século, até cerca de 225 a. C., a partir de quando diminuem as informações. Os primeiros escolarcas do Liceu se mantêm mais próximos do mestre; os posteriores serão mais ecléticos, anexando elementos platônicos e estóicos, estes aliás sempre próximos do aritotelismo. Na série dos escolarcas se destacaram sobretudo Teofrasto (375-288 a.C.), com uma atuação similar ao mesmo Aristóteles, e Andrônico de Rodes (c. 60 a.C.), o editor ou reordenador da obra de Aristóteles. Outros muitos peripatéticos houve, como Aristoxeno de Tarento (4-o século), e toda uma plêiade de comentadores.
Os comentadores de Aristóteles exerceram, bem como ainda exercem hoje, importante papel didático no estudo do aristotelismo.
Importa notar, todavia, que alguns não se reduziram a serem apenas comentadores, porquanto também emitiram pensamento próprio; este é o caso de Alexandre de Afrodísio, comentaristas e ao mesmo tempo um filósofo aristotélico.
Outros comentadores sequer foram aristotélicos.
Themístio (317-390), de Constantinopla, um neoplatônico independente, um quase peripatético tardio, foi um comentador eloquente de Aristóteles.
Símplicio (entre 500 e 600 em Atenas) foi outro neoplatônico comentarista de Aristóteles, buscando conciliá-lo com Platão.
Cita-se também com destaque João Filopono (6-o séc.) (vd...), do círculo neoplatônico de Alexandria, ao mesmo tempo que cristão monofisita, erudito comentador de Aristóteles, com influência sobretudo futura.
163.
Teofrasto de Eresos (372-285 a.C.). Filósofo e naturalista
grego, nascido em Eresos, Ilha de Lesbos, 12 anos mais novo que Aristóteles
e brilhante como este. Foi não somente o companheiro de trabalho
de Aristóteles, como também seu eficaz sucessor no Liceu
de Atenas, 322 a.C., dirigindo-o por 37 anos. Como estudante, poderá
ter sido colega de Aristóteles já desde o tempo em que teria
sido aluno da Academia de Platão. Ampliou Teofrasto as atividades
do Liceu, consolidando a diretriz já adotada pelo fundador, que
organizara os estudos por especializações. Ele mesmo abriu
um leque de pesquisas, quer no campo da filosofia, quer no das ciências
naturais, sobretudo da botânica.
Doutrinariamente, seguindo embora ao sistema de Aristóteles, fez-lhe contudo alguns reparos.
Quando o mestre dizia que a inteligência (nous) entrava no corpo como que por uma janela e com isso mantinha elementos do dualismo platônico, adotou uma consideração mais próxima do materialismo. Neste particular seguiu Teofrasto o naturalismo de Stratão.
Colocou também em dúvida a doutrina aristotélica do Primeiro Motor. O movimento poderia, no seu entender, ser inerente à essência mesma da coisa.
Retocou também a lógica aristotélica, especialmente na parte referente aos silogismos hipotéticos e disjuntivos.
Em psicologia sistematizou o estudo dos caracteres, que diferenciam as pessoas.
No plano das ciências naturais figura Teofrasto na história do desenvolvimento das mesmas; distinguiu sistemas, como os seres vivos em animais e plantas, estas em fanerógamas e criptógamas.
Ainda
no campo das ciências positivas Teofrastro fez a história
das ciências, em particular da filosofia. Seu livro Opinião
dos físicos, com informações retomadas por outros
historiadores, deram início a uma corrente de informações,
de que muito se vale hoje a história da filosofia.
Das
240 obras escritas por Teofrasto e mencionadas por Diógenes Laércio,
conservaram-se: Ciência das plantas (Perì phuton
historías, 9 livros); Sobre as causas das plantas (Perì
phyton aitíon, 6 livros); Sobre as pedras (Perì
liton); Sobre o fogo (Perì purós), opúsculo;
Opiniões dos físicos (Perì Physikôn
doxôn), 18 livros, de que restam fragmentos; Caracteres (Charaktéres),
sobre tipos de pessoas; Metafísica (Tà metà fusiká),
título dado posteriormente. Dos demais livros restam fragmentos
de tamanho diverso.
164.
Aristoxeno de Tarento (4-o século a.C.). Filósofo e músico
grego, discípulo direto de Aristóteles e professor no Liceu,
de Atenas. Nascido em Tarento, na então Magna Grécia (Sul
da Itália), trouxe consigo conhecimentos e influências pitagóricas,
em música, psicologia e ética.
Atuou dentro do esquema das especialidades introduzidas por Aristóteles no Liceu, na qual, por exemplo, Teofrasto pesquisou a botânica, Dicearco a história, Aristoxeno a música.
Suídas informa que havia escrito 453 livros. Dos livros sobre música restam dois: Elementos de harmonia (Harmonika stoicheia); Elementos de rítmica (Rytmika stoicheia), alguns fragmentos. Escreveu ainda: Vida pitagórica; Proposições pitagóricas.
165.
Andrônico de Rodes (sec. 1-o a.C.). Filósofo de expressão
grega. Atuou em Roma (vd Logos). Foi 10-o escolarca do Liceu, em
Atenas.
Reordenou as obras de Aristóteles, reencaminhando desta sorte seus estudos, com o consequente aumento de seus comentadores, mesmo na área fora do aristotelismo.
Havendo situado os livros da Filosofia Primeira após aos livros da Física, deu oportunidade a que passassem a ser denominados Metafísica (literalmente Metà tà Physiká = após a Física). O peripatetismo que volta a ser renovar permanece de novo significativo, até o comentador Alexandre de Afrodísio (entre 2-o e 3-o séculos), quando depois deriva para formas neoplatônicas.
Obras: Comentários aos livros de Aristóteles Categorias; Física; Ética.
166.
Alexandre de Afrodísio (entre 2-o e 3-o séculos), chamado
também o Segundo Aristóteles. Filósofo
de expressão grega, nascido em Afrodísias, Cária (região
da Ásia Menor), onde então se desenvolvia grande atividade
inteletual. Alexandre foi discípulo de Sosígenes, ambos representantes
finais da Escola Peripatética, visto que depois se seguirão
os comentadores neoplatônicos de Aristóteles.
O local principal de seu magistério foi Atenas, onde lecionou de 198 a 211, com nomeação do Imperador Septímio Severo. Possivelmente tenha estado também na cidade de Roma, o que se pensa poder deduzir do fato de haver dedicado um seu livro aos imperadores Severo e Antonino (= Caracala).
Fez-se conhecer Alexandre como o mais notável comentador clássico de Aristóteles e por isso denominado o Exegeta. Criou o modelo do grande comentário, em que é apresentado o texto por partes e cada parte seguida do respectivo esclarecimento. Traduzidos os comentários para o sírio e o latim, influenciou amplamente a um só tempo aos bizantinos (pelo seu texto original em grego), ao mundo islâmico (através do sírio) e ao Ocidente cristão (através do latim).
Também criou pensamento próprio. Mesmo quando quis comentar objetivamente ao sistema de Aristóteles, situou-se naquela corrente de intérpretes, que desvestiu ao mestre de elementos platônicos remanescentes. Somente haveria forças naturais.
A alma, como forma do corpo, segundo Afrodísio, não seria imortal, desvanecendo-se com a desintegração da matéria. Também não haveria um motor transcendente, separado do mundo; um elemento exterior, ou o fado, impediria a liberdade. De outra parte, o inteleto agente seria apenas um, situado no círculo exterior, atuando sobre as inteligências individuais e de inteleto passivo.
Em decorrência dos pontos de vista próprios de Alexandre, criaram-se aristotelismos chamados alexandrinistas. Foi o caso no curso da Idade Média e sobretudo na Renascença, quando os aristotélicos alexandrinistas (dominantes em Bolonha, representados por Pedro Pomponazzi e Júlio César de la Scala), se opunham aos aristotélicos averroistas (predominantes em Pádua), e aos aristotélicos escolásticos (caracterizados sobretudo pelos tomistas).
Nega também Alexandre a Providência. Contestou aos estóicos a concepção de um Deus imanente ao mundo e com isto afastando a respectiva doutrina da Providência. Também contestou a mescla por interpenetração dos corpos. Tais doutrinas influenciariam a filosofia árabe e medieval, representando o peripatetismo alexandrinista do Renascimento.
Obras. Perdeu-se uma parte dos comentários de Alexandre a Aristóteles. Mas os textos perdidos persistiram em fragmentos e referências ocorridas em outros autores. Havendo comentado todos os livros lógicos, ou seja do Órganon, conservam-se os comentários aos Primeiros analíticos, liv. l, e aos Tópicos. Estão perdidos, pois, os comentários aos Primeiros analíticos, liv. II; aos Segundos analíticos, às Categorias, à Interpretação, à Refutações sofísticas.
Conservam-se os comentários à Metafísica, mas sendo de Alexandre os comentário dos livros l a V, pois os restantes são de Miguel de Éfeso.
Também se conservam os comentários à Meteorologia e à Da sensação. Perderam-se os comentários à Física, à Do céu, à Da geração e corrupção, à Da alma.
Enfim, das obras de pensamento próprio, restam: Sobre a alma (A , D Â R L P H ); Sobre o destino (A , D Â , Æ : " D : X < 0 H ); Questões e soluções de física e de ética (Fusikôn kaj ethikôn aporiôn kaj luseôn); Sobre a mescla (Perì míxeos); Do inteleto, menos segura, além de outras obras duvidosas.
I - Acadêmicos e neo-acadêmicos. 2216y167.
167. Foi a academia muito atuante em quase todo o período pós-socrático, prosseguindo na mesma linha de Platão, todavia com alguma tendência ao pitagorismo.
Para os historiadores, fez-se conhecida como Academia antiga nesta fase imediata ao mestre fundador.
Fizeram-se conhecidos como seus primeiros chefes, ao mesmo tempo que contemporâneos de Aristóteles:
Espeusipo (348-339 a.C.), sobrinho do mesmo Platão e sobre cujas obras perdidas sabemos pelas críticas que Aristóteles lhes fez;
Xenócrates (339-315 a.C.), que acompanhara a Aristóteles a Ásia Menor, de onde voltou mais cedo para dirigir a Academia, e sobre cujos escritos também informa o mesmo Aristóteles, bem como sobre sua tendência pitagórica.
Não demora a Academia Antiga a passar para o probabilismo, quando então entrou a ser denominada pelos historiadores Academia nova, ou seja dos neo-acadêmicos.
A Nova Academia subdivide-se em Academia média, que é o tempo de Arcesilao (c. 315-240 a.C.) e Terceira Academia, sob Carnéades (215-129 a.C.).
Numerosos se fizeram os neo-acadêmicos, ao longo de todo o período helênico romano.
168.
Arcesilao de Pitane (Arkesilaos) (315-240 a.C.). Filósofo
de língua grega, nascido em Pitane, Eólia (Ásia Menor).
Um dos principais neo-acadêmicos, superado apenas por Carnêades.
Em Atenas estudou inicialmente com o aristotélico Teofrasto, passando
depois à Academia, onde escutou Crantor, Polemon, Crates.
Destes recebeu a diretriz platônica. Mas também influem sobre ele os megáricos. Dada ainda sua adesão ao ceticismo moderado de Pioro, passou a ser interpretado como probabilista; de acordo com o probabilismo, propôs, como Pioro, a suspensão do juízo ante o impasse de alcançar a certeza, por falta de suficiente evidência.
Assumindo, como sucessor de Crates, a direção da Academia, Arcesilao imprimiu-lhe novo desenvolvimento, ao mesmo tempo que lhe dando sua diretriz ceticista. Em consequência foi chamado fundador da Nova Academia. Dali porque seus seguidores se denominaram neo-acadêmicos.
Mas, subdividida a história da Nova Academia, esta sua primeira fase, a de Arcesilao, se denominou Academia Média já na antiguidade.
Das doutrinas de Arcesilao restam textos fragmentários, todavia acrescidas de várias referências transmitidas por Diógenes Laércio (IV, 28-45), Filodemo de Gadara, Cícero (Acad. Post., I, 12, 45), Sexto Empírico (Hyp. Pyrr., I, 234; Adv. Mth., VII, 153; Suidas).
169. Carnéades (c.214-129 a.C.). Filósofo de expressão grega, nascido na então colônia grega de Cirene (Líbia). Vindo para Atenas, aprendeu com Diógenes o Babilônio a lógica estóica. Estudou também os escritos do estóico Crísipo. Mas opôs aos estóicos o ceticismo.
Foi o 4-o sucessor de Arcesilao na Academia, tendo sido o seu representante mais significativo na fase conhecida por Academia Média. Em 156 a.C. chefiou a embaixada ateniense enviada à cidade de Roma, quando ali despertou a admiração pela retórica e conteúdo do seu discurso.
Conduziu Carnêades a Academia e o platonismo para o ceticismo. Propôs a suspensão do juízo definitivo, alegando a impossibilidade de decidir, porque toda a prova supõe uma prova seguinte.
Não consta houvesse escrito algo, sabendo-se de suas doutrinas apenas o que foi referido em obras de seus discípulos, das quais sobram também só fragmentos. Mesmo assim são importantes para a história da teoria do conhecimento.
170. Plutarco (c.46 - c.120). Escritor grego, nascido em Queronea (hoje Kaprena), Beócia. Estudou em Atenas, quando se ligou à Nova Academia. Foi sacerdote em Delfos. Transitou por Alexandria, Egito. Esteve na Itália de 75 a 95, talvez com uma escola em Roma. Foi Procurador Romano em Acáia. Escreveu em Queronea grande parte de suas obras.
Assistemático, não chegou a ser um filósofo definido, mas apenas no sentido de um pensador, e nesta forma logrou ser muito lido, exercendo ainda vasta influência no Renascimento, e depois ainda até o século 19. O estilo é o de um clássico.
Praticou
um ecletismo dominantemente platônico, assumindo também idéias
e explicações científicas de Aristóteles. Mas
se opõe aos epicuristas e estóicos, ainda que em alguns pontos
deles se aproxime. Destaca-se como humanista sereno e equilibrado, atuando
com civismo e fé na cultura de seu tempo. Monoteísta, mas
com divindades intermédias, o que permitia aceitar os muitos deuses
da antiga religião. Plutarco assume as vezes o aspecto de neopitagórico
eclético.
Obras: Vidas paralelas (Bioi paralelois), 64 biografias de homens notáveis gregos e romanos, tratados aos pares, a fim de estabelecer comparações;
Obras morais (Ethikà), título posterior conjunto de 65 escritos os mais diversos de filosofia, moral, literatura, história. Sabe-se que muitas obras se perderam, pois lhe eram atribuídos 227 títulos.
Destacam-se alguns títulos mais especificamente filosóficos, citados geralmente pelo título latino. Obras exegéticas - Questões platônicas (Quaestiones platonicae); Da criação da alma no Timeo (De animae procreatione in Timaeo). Obras polêmicas, contra os estóicos e epicureus - Contestações aos estóicos (De repugantiis stoicis); Das noções comuns contra os estóicos); Não se pode todavia viver suavemente segundo Epicuro (Ne suaviter quidem vivi posse secundum Epicurum); Contra Colotes (Contra Colotes); Do viver oculto (De latenter vivendo).
Escritos
vários: Da face no orbe da lua (De facie in orbe lunae);
Tratado da alma (De anima); Sobre se os afetos são
parte da alma, ou faculdade dela (Quod in animo humano affectibus
subjectum pars ne sit eius an facultas); Se a libido e a doença
são do corpo ou da alma (Utrum animae an corporis
sit libido et aegritudo).
Tratados éticos: Se a virtude é ensinável (Virtutem doceri posse); Da virtude moral (De virtute morali); Da virtude e do vício (De virtute et vitio); Sobre a tranquilidade da alma (De tranquilitate animae); Se basta o vício para a infelicidade (An vitiositas ad infelicitatem sufficit); Se as afecções da alma ou do corpo são piores (Animae an corporis affectiones sint peijores); .... (De profectibus in virtute); Sobre a sorte (De fortuna); Da repressão da ira (De cohibendi ira); Da tagarelice (De garrulitate); Da curiosiodade (De curiositate); Da ganância pela riqueza (De cupiditate divitiarum); Do falso pudor (De vitiose pudore); Da inveja e ódio (De invidia et odio); .... (De se ipso citra invidiam laudando); Sobre o número de amigos (De amicorum multitudine).
Tratados religiosos: Da vingaça tardia dos deuses (De sera numinis vindicta); Sobre Iside e Osiris (De Iside et Osiris); Sobre a superstição (De superstitione); Do gênio de Sócrates (De genio Socratis).
II - Neopitagorismo.
2216y171.
171.
O neopitagorismo e o neoplatonismo se desenvolvem com alguma
autonomia em relação à Academia; no fundo, entretanto,
se trata de um só grande contexto, tendente a um saber racionalista
independente da razão fundada na experiência e de tendência
para uma fonte mística, em que também participam as religiões
de então, o gnosticismo, o judaísmo e o cristianismo.
Há ainda uma série de pseudo-escritos
atribuídos ao pré-socrático Pitágoras, que,
entretanto, são desta época pós-socrática.
Entre outros destes escritos pós-socráticos, se citam os
Versos de Ouro, ditos de Pitágoras, repertório de
moral sentenciosa.
Pela volta do século 1-o a.C. as idéias trinitárias penetram a filosofia. Dali resulta o neopitagorismo e o neoplatonismo, além da atividade da Academia (vd 167). Tais idéias trinitárias, existentes nos mitos das religiões orientais, ganham agora um embasamento filosófico. O cristianismo também apresenta a doutrina da Trindade, sobretudo a começar do século 3-o, vindo logo a declará-lo um dogma.
O ser é apresentado como polivalente e emanando, de tal maneira que no alto se encontra o Uno, a seguir o Logos (que se traduz ao latim por Inteligentia ou Verbum), em terceiro lugar a Alma do mundo. Finalmente derivam as almas individuais e a matéria. Por espécie de retorno mental, ou místico, se processa a marcha inversa, pela qual a alma humana finalmente se extasiava em união com o Uno. Variações secundárias ocorriam entre os filósofos, mas que não retiram a mentalidade geral do movimento.
Criava-se, assim, uma filosofia de embasamento para as teologias trinitárias. Por isso mesmo adquiriu importância histórica a filosofia místico-platônica dos primeiros séculos cristãos, notadamente o neopitagorismo, o neoplatonismo judaico e finalmente o neoplatonismo de Plotino. Reage entretanto o judaísmo que se conserva unitariano, o mesmo acontecendo depois com o arianismo cristão (vd 216) e o islamismo.
Não há uma data precisa do início do neopitagorismo, como também seus representantes nem sempre se distinguem claramente dos neoplatônico. Talvez sua tradição seja linear, desde às ligas pitagóricas da velha Magna Grécia. Entretanto, alguma diferença acontece.
172. Nigidio Fígulo (+ 45 a.C.), fez-se conhecer como primeiro neopitagórico. Foi amigo de Cícero e autor de uma obra sobre os deuses.
Numênio de Apaméia, também do fim do 2-o século e já sob a influência do neoplatônico judeu Filo, apresenta uma doutrina de três deuses: o Supremo supra-sensível, o Demiurgo que põe forma na matéria, o universo que ele formou.
A concepção trinitarista de Numênio é uma etapa no desenvolvimento de uma estrutura de pensamento, que terá depois um tratamento mais desenvolto na metafísica de Plotino e finalmente dos pensadores cristãos, particularmente Agostinho. Dos escritos de Numênio restam ainda fragmentos.
Ocorrem reflexos neopitagóricos sobre os essênios e através destes sobre os primeiros cristãos, como sobre Eusébio de Cesaréia (séc. 4-o). Acredita-se que as práticas purificatórias e outros ritos, chamados mistérios ou sacramentos, tenham influenciado aos cristãos.
De futuro serão os neopitagóricos bastante aguerridos contra os cristãos. Celso, em 179, escreverá contra os cristãos, tendo estes seu defensor em Orígenes (vd 213).
III - Neoplatonismo. 2216y173.
173. Desenvolveu-se o neoplatonismo a partir da cidade de Alexandria, sobretudo com Amônio Saccas (c.175-242). Será levado para Roma por Plotino (204-269), onde leciona também Porfirio, o Fenício (233-c.300), este autor da famosa Eisagogé, novos desenvolvimentos dados à doutrina das categorias de Aristóteles.
A importância do neoplatonismo está em haver dado apoio intelectual às religiões orientais e finalmente ao próprio cristianismo, sobretudo na forma concebida pelo neoplatonismo de Agostinho de Hipona.
174. Amônio Saccas (c.175-242). Filósofo de língua grega, com atuação em Alexandria. Seu nome Saccas, que geralmente se interpreta como carregador de sacas, pode entretanto ser um toponímio egípcio; neste caso nos informaria seu país de origem, como sendo o Egito. Inicialmente cristão, aderiu depois ao helenismo. Foi mestre de Plotino entre os anos 232 a 243. Dado como fundador da Escola Neoplatônica de Alexandria.
Muito genericamente terá ensinado o que de maneira geral significa o neoplatonismo: a interpretação trinitária da divindade e por via de processão, isto é, colocando em sequência gerativa os princípios eternos já estabelecidos por Platão.
Considerando que os neoplatônicos variaram muito entre si, não podemos atribuir a Amônio Saccas nenhuma doutrina particular deles. Atribuiu-se, entretanto, a Ammônio a declaração de que Platão e Aristóteles coincidem no essencial. Nada deixou escrito.
175. O neoplatonismo judaico (a que se associará depois o neoplatonismo cristão) resultou da fusão do platonismo e do judaísmo formulada em Alexandria, onde os intelectuais judeus tinham contato com a cultura helênica. Entre o 2-o e 3-o séculos traduziram do hebraico para o grego a Bíblia, e que se fez conhecida como a Septuaginta. Escrevem os judeus livros religiosos em grego. São de Alexandria alguns livros em grego do Velho Testamento, como o Livro da Sabedoria, acolhidos pelos cânon católico. Neles é evidente a melhoria dos conceitos teológicos mais depurados dos grosseiros antropomorfismos bíblicos dos textos bíblicos mais antigos.
Aristóbulo, que uns põe a nascer pelo ano 200 a.C. e outros pelo ano 100 a.C., é o mais antigo filósofo judeu, conhecido todavia apenas através de fragmentos deixados pelos cristãos Clemente de Alexandria e Eusébio de Cesaréia.
Ensinou
Aristóbulo a transcendência da divindade, o que é platônico.
Admitiu seres intermediários, o que também é neoplatônico,
mas sobretudo neopitagórico e oriental. A revelação
divina é peculiar sobretudo dos mais purificados. Imaginou que Platão
houvesse recebido de Moisés, mais antigo, a filosofia, tese que
o judeu Filon repetirá, e que os cristãos Taciano, Justino
e Clemente de Alexandria também difundirão. Aceita, como
os pitagóricos, a revelação à personalidades
mais purificadas e santas.
176. Filo de Alexandria (c. 20 a.C. - c. 40 d.C.), viveu exatamente no tempo em que atuava Jesus (c.6 a.C. - 30 d.C.). O cristão Eusébio de Cesaréia escreveu:
"Nos tempos deste Imperador (Tibério) floresceu Filo, varão tido em máxima estima, não somente por muitos dos nossos, senão também dos gentios..." (História eclesiástica, II, 5).A atuação de Deus, não podendo ser direta, como dizia o neoplatonismo, se faz através de um Logos, que é o termo com que Filo denomina as forças intermediárias entre Deus e a matéria. Estas forças se afiguram, ora como propriedades de Deus, como idéias e pensamentos, ora como mensageiros e demônios (=anjos), executores das ordens de Deus.
O Logos é concebido por Filo como algo um tanto separado dele, quase como segundo Deus. Filo compara o Logos à palavra (ou verbo); tem esta num só tempo fisionomia sensível e significação inteligível, de onde ter contato simultâneo com Deus e a matéria.
Ocorre
assim que, ao mesmo tempo que nascia na Judéia o cristianismo, como
um movimento de crenças singelas, já se formava em Alexandria
o embasamento racional de sua teologia trinitária. De ecletismo
em ecletismo, haveria de encontrar três séculos depois uma
formulação mais coerente para a concepção de
Deus com pluralidade de pessoas.
177. Plotino (c. 205- c. 270). Filósofo de expressão grega, n. em Licópolis, Egito. Estudou em Alexandria, com Amônio Saccas, de 233 a 244, a cujas doutrinas neoplatônicas aderiu e cultivou, fazendo-se o principal filósofo do neoplatonismo, ao mesmo tempo que asceta e celibatário.
Plotino se integrou, em 244, na expedição romana do imperador Gordiano na guerra de conquista da Pérsia. Mas Gordiano foi assassinado na Mesopotâmia e Plotino se refugiou em Antioquia, transladando-se em 245 para Roma, e ali fundou uma escola. Celibatário, por último se retirou para uma localidade próxima, na Província de Campânia, onde faleceu.
178. O sistema neoplatônico de Plotino abandonou as idéias reais de Platão, situando estes exemplares arquétipos na mente do Logos divino. Desdobrou o ser em sucessões, que emanam na forma de uma trindade divina, - o Uno, o Logos, a Alma do mundo. Esta última, finalmente, faz emanar as almas humanas e a matéria.
O tom
gnosiológico de Plotino é o do racionalismo platônico,
segundo o qual o pensamento opera independizado da experiência. Nesta
forma racionalista o neoplatonismo se retransmitiu aos primeiros cristãos
em geral, notadamente a Agostinho e ao agostinianismo medieval. Na oposição
está o racionalismo moderado de Aristóteles, com a experiência
como ponto de partida da inteligência, que a partir dela, mediante
abstração, sobe aos universais.
A peculiaridade do sistema de Plotino é,
pois, o seu monismo panteísta por emanação.
O pleno existe antes dos graus menores de perfeição. O nosso
conhecimento percorre o caminho inverso; vai dos graus menores de perfeição,
subindo de retorno ao conhecimento do pleno.
Por acréscimo, o neoplatonismo de Plotino inseriu a doutrina da emanação mediante processões entre os seres eternos. Enquanto Platão havia estabelecido 3 categorias de seres eternos não interdependentes (Ideías reais, Demiurgo, matéria eterna), os neoplatônicos os colocam num processo de sucessão.
O neoplatonismo de Plotino se reduz à escola neoplatônica de Alexandria, porque obedece ao esquema trinitário ali desenvolvido anteriormente por Filo e Numênio. O situamento de Plotino em Roma difundiu amplamente no Ocidente romano, inclusive na África latina, a filosofia neoplatônica.
Na ordem das processões desenvolvidas por Plotino, no início está o Uno (tò Hén) . Entre as características do Uno se destacam a bondade e a total transcendência em relação à matéria. Esta, no extremo oposto, não é nem una, nem boa.
Do Uno emana o Lógos, com caráter de pensamento hipostasiado, substancializado. Nesta primeira processão eterna ocorrem as idéias, já contendo a dualidade, peculiar ao conhecimento.
A Alma
do Mundo procede do Logos, o que também acontece desde
sempre. Até aqui temos o modelo neoplatônico aproveitado pelos
cristão para montar uma doutrina racionalizada da Trindade das pessoas
divinas.
Na continuação do processo emanativo
proposto por Plotino, a Alma do Mundo gera as almas individuais e respectivamente
a matéria.
Consiste a moral e a ascese no esforço de retorno desde esta última irradiação material do ser. A degradação se inverte em reunificação.
A doutrina
da transcendência radical não permitiu a criação
direta do mundo material, porque o Uno não poderia tocar a extremidade
inferior. A idéia da intermediação é também
visível na doutrina cristã, segundo a qual o Lógos
(como João denomina a Jesus) é o intermediário entre
a humanidade e a pessoa do Pai Eterno. É também ao Lógos
que se atribui a sabedoria que governa o mundo. É ainda ao Espírito
Santo que se incumbe a santificação.
Numerosos temas particulares são tratados
por Plotino. A alma existe antes da vida presente e se conserva depois.
O belo, já definido por Platão, pelos estóicos e tantos
outros, recebe especial tratamento de Plotino, cujo texto se tornou por
isso apreciável, a Enéada I,6. Situa o belo na proporção
das partes. Encontra-se mais nos objetos vistos, mas também está
nos objetos dos demais sentidos, bem como na ciência e na virtude.
179. Proclo (Proklos) (410-485). Filósofo de expressão grega, nascido em Constantinopla. Filho de um advogado da Lícia, foi por isso denominado também o Lício. Pelos 20 anos veio para Atenas, estudando sob Plutarco, da Academia, e logo pelo seu sucessor Siriano, a quem se referiu com admiração (Teologia platônica I,1). Em 437 o mesmo Proclo assumiu a direção da Academia. Esta aliás não demoraria de ser fechada repressivamente em 529 pelo imperador Cristão, Justiniano, de Constantinopla.
Foi Proclo o último grande representante do neoplatonismo pagão, que então acabava de se substituir pelo neoplatonismo cristão, dos patrísticos. (vd 210)
Inspirado embora em Plotino, desenvolveu uma nova forma triádica de processão emanativa. O primeiro momento é o repouso, o permanecer (moné). O segundo produz o sair (próodos). O terceiro é o retorno (Epistrofé).
Em cada nível da processão, mesmo no primeiro, se dão derivações dos deuses da mitologia clássica.
Com referência à matéria, que em Plotino deriva da alma, em Proclo já deriva do uno inicial e infinito.
Notadamente
sistemático, Proclo se tornou o escolástico do helenismo
e um precursor da escolástica medieval, como comentador que foi
principalmente dos livros de Platão, e ainda de Aristóteles,
do qual foi o editor (vd 140).
Obras: Comentários aos diálogos platônicos República, Parmênides, Timeu, Alcibíades I (os quais se conservam ainda hoje), Fedon, Górgias (desaparecidos); Comentários aos Oráculos caldaicos (desaparecidos); Teologia platônica (didaticamente similar a um comentário); Elementos de teologia (Stoicheíoosis theologiké), sistemático, impresso 1-a vez 1618; Elementos de física (sistemático).
Ensaios menores e de circunstância, dos quais alguns subsistem apenas em traduções medievais de Guilherme de Moerbeke: Sobre dez dúvidas a respeito da providência (De decem dubitationibus circa providentiam); Sobre a providência e a sorte (De providentia et fato); Sobre a permanência do mal (De malorum subsistentia). Ainda entre as obras perdidas: Dos símbolos míticos; Da teurgia; Contra os cristãos; Teologia órfica; harmonia de Orfeo; Pitágoras; Platão, etc. As edições modernas completas atingem cerca de 6 volumes.
180. Introdução. Pela via de transformações diversas, também as escolas socráticas menores tiveram continuidade nas escolas cética, epicuréia e estóica. Todas continuam caracterizadas pela tendência ética de Sócrates. Mas esta maneira ética de ver se adatou contudo ao espírito do novo tempo, no qual desaparecera o Estado-Cidade, em troca do grande Império Helênico. Neste o cidadão se converteu em um indivíduo mais abstrato, com referência ao grande todo político, no qual não exerce funções.
Desligado do antigo esquema político local, em que devera ser muito ativo, ficou agora entregue a si mesmo. Em decorrência deveu criar uma ética pessoal, com base no direito natural. Também a religião se tornou para ele institucionalmente mais importante, em vista da ausência da atividade política local. E, mesmo porque ela passara à esfera dos assuntos particulares, quando anteriormente se prendia à organização do Estado-Cidade.
181. O ceticismo, fundado por Pirro de Elis (c.360 - 270 a.C.) é antes um movimento ideológico, do que uma escola de ensino organizada. Foi Pioro aluno dos megáricos, cujo unicismo pregava a ilusão da multiplicidade. Em Atenas conviveu com os representantes das mais variadas escolas, aprendendo deles a versatilidade da disputa e a notar a fragilidade dos argumentos.
Nada escreveu Pioro. Mas transmitiu seu pensamento através de Timon, seu discípulo.
Declama este:
Nestes termos, o pensamento pirrônico e de Timon, nos veio através de uma referência fragmentária de Eusébio de Cesaréia, em sua Preparação Evangélica, que tinha por função comparar o pensamento cristão e o pagão:
"Pirro de Elis não deixou nenhum escrito, mas seu discípulo Timon diz que aquele que quer ser feliz deve considerar estes três pontos:
em primeiro lugar, que são as coisas em si mesmas?
Depois, com que disposições devemos nos colocar em seu respeito?
Enfim, que resultará para nós dessa disposição?
As coisas não se diferenciam entre si, igualmente incertas e indiscerníveis. Também, nem as nossas sensações, nem nossos juízos nos apreendem nem o verdadeiro, nem o falso. Por conseguinte não nos devemos fiar, nem nos sentidos, nem na razão, mas conservar-nos sem opinião, sem inclinar nem de um lado, nem de outro, impassíveis. De qualquer coisa que se trata, nós diremos não é possível mais afirmar que negar, ou que é possível tão bem afirmá-la, como negá-la, ou que não é possível nem afirmá-la e nem negá-la.
Se nos encontrarmos em tais disposições, diz Timon, alcançamos primeiramente a afasia, depois a ataraxia" (Prep. Evang., XIV, 18,2).
182. Céticos novos. Depois de haver influenciado os neo-acadêmicos, a escola de Pirro terá excelentes continuadores nos chamados Céticos Novos, situados geralmente em Alexandria.
Destacam-se Enesidemo, do 1-o século a.C., autor de Discursos pirronianos, de que se conservam extratos;
Agripa, do 1-o século d.C., do qual se conservam os "tropos" ou modos de argumentar pelo ceticismo;
Sexto Empírico, do 2-o século d.C., autor de Esquemas pirronianos ( = Pyrroneioi hupotypóseis) e outros livros.
183. Sexto Empírico. Em vista de se haverem conservado os livros de Sexto Empírico, converteram-se estes na melhor fonte de informação sobre o ceticismo antigo, em especial dos céticos novos e dele mesmo.
Insiste Sexto Empírico no sentido exato do ceticismo de seu tempo, o qual é antes a dúvida sobre a realidade, do que sobre a aparência como simples representação.
Toda a vez que nós indagamos se o objeto é tal como aparece, estamos de acordo com as aparência e pomos em questão, não a aparência, mas aquilo que se diz da aparência; tal coisa é diferente do que pôr em questão a mesma aparência. Assim o mal nos parece doce; nós o admitimos, porque efetivamente possuímos a sensação do doce. Nós procuramos saber se o mel é doce por essência; isto não é aparência.
Se propomos diretamente argumentos contra as aparências, nós os expomos sem querer negar as aparências, mas para mostrar a precipitação do juízo dos dogmáticos. Se com efeito a razão é assaz enganosa para nos subtrair quase aos olhos as aparências, como não tê-la por suspeita a propósito daquilo que é obscuro?" (Sexto, - Hypotyposeis I, c.10, 19-20).
184. Introdução. Resultou o epicurismo da junção, com algumas modificações, da lógica de Aristóteles, da física atomista de Demócrito, da moral do prazer de Aristipo de Cirene. Combatido embora pelos moralistas mais rigoristas, foi o epicurismo da antiguidade uma filosofia de equilíbrio, e ainda hoje continua sendo um ideal de vida.
Particularmente
é o epicurismo a continuação da escola socrática
menor de Aristipo de Cirene (vd 114),
caracterizada pela moral hedonista. Em tal condição está
em conflito com a escola socrática menor dos cínicos e seus
sucessores, os estóicos; estes outros acentuam a presença
do Logos e a rigidez moral.
185. Epicuro de Samos (341-270 a.C.) é fundador da escola, que tomou seu nome, e estava situada num jardim. Escreveu muito, restando fragmentos e algumas páginas, a que se acrescentam alguns livros reencontrados modernamente. De sua obra Sobre a natureza conservam-se dois livros, qual Diógenes Laércio informa conter ao todo 37 (encontrados na biblioteca de Herculano, editados pela primeira vez em 1818, em Leipzig). Temos ainda, graças a Diógenes Laércio, os Axiomas principais e três Epistolas didáticas.
O fim da atividade humana é o prazer:
"O que prova (diz Epicuro citado por D. Laércio), que o prazer é o fim da vida e que os animais, desde que nascem, são atraídos pelo prazer e repelem a dor, por puro instinto e sem nenhum raciocínio. Nós fugimos naturalmente do sofrimento, com Hércules, que, consumido pela túnica fatal, estremece..." (D. Laércio, X).
Todo o prazer, portanto, considerado em si mesmo e em sua natureza íntima, é um bem; nem todos, porém, devem ser igualmente buscados. Do mesmo modo também, todo o sofrimento é um mal, nem todos porém devem por sua natureza ser evitados.
Em uma palavra, é preciso examinar, pesar as vantagens e os inconvenientes, antes de pronunciar-se sobre o valor dos prazeres e das penas; porque um bem pode resultar-nos num mal, em certas circunstâncias e reciprocamente um mal pode chegar a ser um bem" (III Carta).
"De todas as fontes de felicidade que devemos à sabedoria, nenhuma tão abundante como a amizade: o que preferentemente deve confirmar-nos na esperança de que nenhum mal é eterno, nem tão pouco de grande duração, é o pensamento de que a amizade nos oferece recursos inexgotáveis, ainda durante o curto espaço da vida" (Ibidem).
O mais agudo de todos os males, a morte, nada é para nós, porque, quando existimos, não existe a morte; quando a morte chegar, não existiremos mais.
A morte não interessa, pois, nem aos vivos, nem aos que deixaram a vida;
para os primeiros não existe a morte; os outros já não existem mais" (III Carta).
O epicurismo se mantém no decurso de todo o período helênico-romano. Representa naquela época o positivismo e o sensismo dos modernos.
187. Entre os romanos se tornou conhecido Lucrécio Caro (98-55 a.C.), poeta e filósofo, autor do poema De rerum natura (= Da natureza das coisas). Nele expõe uma filosofia atomista, gnosiologia sensista, uma ética natural positiva e uma sociedade resultante da amizade.
"Então também os vizinhos começaram a unir-se em amizade, desejosos de não sofrer, nem fazer-se mutuamente violências; e entre si recomendaram a seus filhos e mulheres, indicando com suas vozes e gestos ser de justiça que todos se apiadem dos débeis. Não poderia ser geral este acordo; porém uma grande parte observava os pactos com escrúpulo; se não, já então o gênero humano teria percebido por inteiro e sua descendência não haveria podido propagar-se até nós" (De rerum natura, 1019-1027).Do desenvolvimento deste pacto inicial, resulta finalmente a sociedade organizada por meio de governantes:
188. Introdução. Como escola, o estoicismo tomou seu nome, de um pórtico (no grego stoá), onde seu fundador, Zenão de Citio, ensinava, ao estabelecer-se em Atenas.
Exerceu o estoicismo notória influência em todo o período helênico-romano, pela profundidade de suas doutrinas, como ainda por ter sido o sistema da elite romana. Influenciou também o rigorismo da moral cristã.
Perderam-se
os livros dos primeiros estóicos, dos quais restam apenas fragmentos.
Toda a doutrina ainda se encontra nos livros dos autores latinos. Em decorrência,
o estoicismo é tratado como um corpus doutrinário.
Entretanto se conhecem fases, com diferenças apreciáveis.
E que se fizeram conhecer pelas denominações pórtico
antigo, pórtico médio e pórtico moderno.
189. O pórtico antigo, do 3-o século a.C. representado por Zenão de Citio (c. 336-264 a.C.). Como comerciante naufragou no Pireu, vindo depois estabelecer-se em Atenas, onde passou a estudar. Por volta de 300 a.C. criou sua escola.
O pórtico antigo segue a rigidez moral de Sócrates e da escola socrática menor dos cínicos. E ainda o monismo materialista dos jônicos, num sentido mais panteístico. O logos, como forma das coisas, seria a expressão da inteligência ou alma do mundo. A forma das coisas é denominada também fogo racional (pyr noeron). A conformidade com a necessidade geral que tudo comanda (em decorrência do monismo) traz a impertubabilidade (= ataraxia). Esta é a virtude e a felicidade.
190. O pórtico médio, do 2-o e 1-o século a.C., representado por Panécio de Rodes (c.180-1110 a.C.) e Possidônio de Apaméia (+51 a.C.), foi mais eclético, com aproximações à Platão e Aristóteles.
Abandonou a doutrina monista da identidade de Deus e do mundo.
Amenizou a moral cínica, de sorte a converter o estoicismo mais adequado ao espírito romano, eminentemente dedicado ao sentimento coletivo do Estado.
No curso do pórtico médio ocorreu a expansão de estoicismo nos meios romanos.
191. Panécio de Rodes (c. 180-110 a.C.), de origem nobre, ligara-se a Scipião Emílio na época em que se iniciava a expansão do Império Romano, acompanhando-o em 143 à Alexandria e à costa ocidental da África, até estabelecer-se em Roma; aqui teve amizades com o sumo sacerdote Múcio Scevola e outros. Por algum tempo retornado ao oriente grego, para estabelecer-se na Escola de Atenas, de 129 a 110 a.C., onde faleceu.
Acontecia então a fase estóica eclética, de aproximação do estoicismo ao platonismo e aristotelismo denominada pórtico médio. Substituiu Panécio a doutrina da conflagração períodica do mundo pela da eternidade do mesmo conforme Aristóteles. Abandonou as posições rígidas do anterior estoicismo por um modelo de vida mais suave. Em vez da física e da dialética, preferiu os temas morais e religiosos.
Dos seus livros restam apenas fragmentos e informações. Um deles, o Tratado do dever, serviu de modelo ao Sobre os ofícios (De Officiis), de Cícero. Destacam-se ainda os títulos: Da Providência; Comentário ao Timeu.
192. Possidônio de Apaméia (c.135-c.51 a.C.), Síria. Filósofo de expressão grega estudou em Atenas com Panécio. Estabeleceu-se em Rodes, onde abriu escola e onde Cícero o ouviu e Pompeu o conheceu. Viajou em torno de todo o Mediterrâneo, havendo estado também em Roma, o que o tornou muito conhecido.
Como filósofo estóico pertenceu ao pórtico médio. Nesta condição abandonou algumas doutrinas do estoicismo anterior, aproximando-se do ceticismo da Academia, e mesmo do aristotelismo. Acentuou o lado mítico, ao contrário do estóico Panécio, mais racional.
Escreveu muito mas restam apenas menções do seu pensamento nos escritores contemporâneos, como Cícero, Sêneca, Plotino e outros.
193.
O pórtico moderno se desenvolveu na época imperial
romana. Dos seus representantes uns escreveram em grego, como Arius Didimus
(último sec. A. C.), Epicteto (50-130 d.C.), Marco Aurélio,
imperador (+180 d.C.). Outros em latim, como Sêneca (3 - 65 d.C.),
Mussônio Rufo (1-o séc. d.C.).
Uns e outros influenciaram os ideais sociais e a formação do Direito Romano, que mais adiante será codificado.
194.
Arius Didimus (último século a.C.). Filósofo
estóico, familiar do imperador Augusto. Era um entre outros tantos
estóicos, que então eram frequentes no Império Romano.
Em Alexandria, de onde Arius Didimus era originário, encontravam-se também os estóicos Eudoro e Potamon.
Em Atenas, Cícero contatou ao estóico Antíoco, levando suas idéias para Roma, não demorando a aparecer a geração dos estóicos que escreverá em latim.
Como
os estóicos em geral, também Arius Didimus foi um eclético,
porquanto combinou elementos tomados a Platão e a Aristóteles.
Escreveu uma história da filosofia, de que se conservam fragmentos
sobre Platão, Aristóteles, e os estóicos.
195. Epicteto (50 - 138), nascido na Ásia Menor, foi escravo em Roma. Depois de liberto, foi chefe de escola em Nicópolis (Epiro).
Pregou
o amor aos homens e à cidadania universal. Autor de Dissertações
(notas tomadas por Arriano); Enquiridion; ou Manual de moral.
Escreveu em grego.
196. Marco Aurélio (121-180), imperador de 161 a 180, do qual se conserva famosa estátua equestre e apreciáveis escritos. Nascido em Roma, filho do prefeito da cidade, que também fora três vezes cônsul. Ao morrer este seu pai, o adotou o Imperador Antonino Pio, ao qual sucedeu aos 40 anos.
Praticou Marco Aurélio a filosofia estóica, que conheceu através de Epicteto. Não é, todavia, tão estóico quanto este, e nem tão teórico. Seu estilo contém um caráter de doçura e agrado, não obstante ser o estoicismo um sistema de normas rijas. O homem é parte da natureza Universal, devendo tomar o governo de si para guiar-se de acordo com esta posição no todo. Proibiu a introdução de novas religiões no Império, de onde haver-se colocado contra o cristianismo. Marco Aurélio e Epicteto são os expoentes mais destacados da moral estóica.
Escreveu suas cartas em latim, e que se conservam, enquanto seu livro em grego, sob o título Para mim mesmo (I , Æ H © " L J @ < ), e que se fez conhecer nas traduções por Meditações (Meditationes), e também por Soliloquia (Solilóquios). É possível também que o título grego tenha sido aplicado por um edito, presumindo-se que Marco Aurélio tenha usado o de ß B @ < Z : " J " (Comentários). Obra escrita nos intervalos dos negócios de Estado e das campanhas militares (na Grécia e Germânia), apresenta-se como textos dicotomizados e mesmo fragmentários, todavia com autenticidade e estilo claro.
197.
Estoicismo romano latino. Depois de vários nomes ilustres,
convivendo com os de expressão grega, termina o estoicismo romano
absorvido pelo neoplatonismo, que teve em Roma o magistério pessoal
de Plotino e Porfírio (escritores de língua grega) e logo
também pelo neoplatonismo cristão.
Não
é adequado tratar da filosofia romana em separado das escolas da
filosofia em língua grega, senão para destacar os nomes daquelas
que usaram a língua latina. Esta passará a ser usada sobretudo
na Idade Média, porque então já não será
tão conhecida no ocidente a língua grega.
198. Marcus Tullius Cícero (106-43 a.C.). Político, escritor, filósofo romano, de expressão latina, nascido em Arpino. Atuou em Roma e em diferentes regiões do mundo romano. Havendo ganho no foro uma causa contra Sila, atraiu contra si a perseguição deste.
Para ver-se longe do ditador, foi passar dois anos em Atenas, onde estudou e absorveu a filosofia grega, da qual se tornou um tradutor para a língua latina.
Morto o ditador Sila, em 77 a.C., retornou a Roma. Foi questor em 76, na Sicília. Pretor em 66 e cônsul em 63. Denunciou a conspiração de Catilina contra a república. Ao tempo que é aliado de Pompeu, foi procônsul na Silícia, no Oriente. Reconciliado com César, mas assassinado este, e subindo Marco Antônio, quando foram sistematicamente sacrificados os oponentes deste, foi morto também Cícero, que teve as mãos e a cabeça decepadas.
Exerceu Cícero excepcional influência através de todos os tempos, dada a sua boa maneira de escrever e enunciar pensamentos. Não obstante, se ocupou da filosofia quase apenas adicionalmente, enquanto esta lhe prestava apoio nos seus debates e ideais de homem público. Ideologicamente, foi um eclético, com a característica principal de filósofo neo-acadêmico; isto significava um platônico com elementos céticos e estóicos.
Defendeu a existência de uma lei natural, interpretada como a razão divina a governar o mundo, este de acordo com a concepção estóica, isto é, de um monismo constituído de um logos a reger a matéria, como um todo monístico.
Obras: sobraram cerca de 900 cartas; 58 discursos políticos ou orationes, sem contar 48 perdidos; diversos discursos forenses, mais de 10 obras filosóficas.
Escritos morais redigidos mais ou menos na seguinte sequência:
Da república (De republica, ano 54);
Sobre as leis (De legibus,52)
Sobre a consolação (De consolatione, 45);
Sobre os fins das boas e más ações (De finibus bonorum et malorum, 45);
Assuntos acadêmicos Academica (Academica, 45);
Disputas tusculanas (Tusculanae disputationes, 45-44),
Sobre a dor, a morte e a virtude;
Sobre a natureza dos deuses (De natura deorum, 44);
Catão o Velho, ou sobre a velhice (Cato maior, sive de senectute, 44);
Sobre a adivinhação (De divinatione, 44);
Da amizade (De amititia, 44);
Dos deveres (De officiis, 44).
199. Lucius Annaeus Sêneca (2-65 d.C.) é expressivo representante da filosofia romana de expressão latina. Nasceu em Córdoba, na então Espanha Romana, onde temporariamente estivera sua família de procedência itálica. Advogado e questor sob Calígula, a cuja tirania veio a se opor. Exilado por Cláudio para a Córsega, 41-49. Retornou sob influência de Agripina, para a função de preceptor de seu filho Domício, depois feito Imperador Nero.
Em 62 retirou-se da vida pública, quando se dedicou mais a escrever. Envolvido na conspiração de Piso, foi compelido a se dar o suicídio pela abertura das veias.
Filósofo estóico, dos mais representativos em língua latina, com uma sabedoria e independência de pensamento superior a de Cícero do século anterior. Pertenceu a um período em que sua escola já não se concentrava nos estudos da lógica e da física, mas nas questões morais, com um certo ecletismo e tendência humanizante.
Cuidou menos de uma visão global do mundo, e sim de uma atitude de vida, em que os termos derivam da ética, psicologia, educação, política. Influenciou a moral cristã.
A correspondência entre Sêneca e Paulo Apóstolo, apesar da aproximação entre o pensamento moral de um e outro, é contudo uma falsificação cristã do 4-o século.
Obras. Citadas as vezes em grupos, outras vezes pelos títulos individuais dos opúsculos, destacam-se como filosóficas:
Livros de diálogos (Dialogorum libri), que reúne Da Providência (De providentia);
Da constância do sábio (De constantia sapientis);
Da ira (De ira);
Consolo à Márcia (Consolatio ad Martiam);
Da vida feliz (De vita beata);
Da brevidade da vida (De brevitate vitae);
Consolo a Políbio (Consolatio ad Polybium);
Consolação à mãe Hélvia (Consolatio ad Helviam matrem).
Seguem, com o mesmo caráter filosófico:
Da clemência (De clementia);
Dos favores (De benefitia);
Questões naturais (Naturales, quaestiones), em que o tema deriva também para a geografia, astronomia e meteorologia;
Cartas morais a Lucílio (Epistolae morales ad Lucilium).
Entre as obras perdidas se mencionam principalmente títulos filosóficos e científicos, e que de qualquer modo revelam a atividade de Sêneca:
Da forma do mundo (De forma mundi); Da geografia da Índia (De situs Indiae); Da geografia e coisas sagradas dos egípcios (De situ et sacris Aegyptiorum); de que restam fragmentos, quando citadas: Do movimento das terras (De motu terrarum); Da natureza das pedras (De lapidum natura); Da natureza dos peixes (De piscium natura); Moralis philosophiae libri (Livros de filosofia moral); De officiis (Dos deveres); Da morte prematura (De immatura morte); Exortações (Exhortationes); Da superstição (De superstitione); Do casamento (De matrimonio); Da amizade (De amicitia); Dos ... (De remediis fortuitorum ad Gallionem).
No campo da literatura, várias tragédias, algumas para leitura, contendo lições morais: Hércules furioso (Hercules furens); Troades, ou Hecuba; Phoenissae, ou Thebais; Medea; Phaedra, ou Hyppolytus; Oedipus; Agamemnon; Thyestes; Hercules Octaeus, e outros escritos.
200. Ainda é filósofo latino o poeta Lucrécio Caro (96 - 55 a.C.), nascido provavelmente la Luîania itálica. É o apreciado autor dos versos de Sobre a natureza das coisas (De rerum natura). Nele se propôs a tudo descrever na base da visão do atomismo e da moral naturalista de Epicuro, combinado com um pouco de estoicismo em moda, ao mesmo tempo que é típico do ecletismo da fase final do período helênico-romano.
A obra de Lucrécio Caro revela também a tendência romana de assimilar o pensamento grego.
201. Como tema de especulação, foi o social uma peculiaridade do período helênico-romano, e que foi patrocinado sobretudo pelo estoicismo e epicurismo, platonismo e cristianismo. Ainda que houvesse tido tratamento em Platão e Aristóteles, o social passa agora a ser um objetivo claramente proposto como transformação a ser efetivada.
Desde Alexandre até ao final do Império Romano, progrediu paulatinamente e sempre o espírito da lei natural, dos direitos da pessoa humana, vindo finalmente tudo configurar-se no código de Direito Romano, publicado em 529 d.C., sob o imperador Justiniano. Filósofos e juristas são os transformadores de seus princípios, mas também muitos dos seus lances foram representados por sangrentas lutas e habilidades dos políticos. Também as religiões, como o cristianismo, influíram.
Com a supressão do Estado-Cidade (após Aristóteles), o homem animal político perdeu esta vinculação com o seu grupo. Desde então o homem se sentiu mais como indivíduo. Teve que viver junto, com outros homens, de maneira mais impessoal e ampla, juntamente com todos os homens da humanidade e que circulavam por toda a parte.
Especial importância adquiriram as organizações particulares e religiosas, as quais substituíram a preocupação anterior com o Estado-Cidade.
Cresceu
assim a preocupação Ética e Religiosa. Inquiria-se
que fazer, para ser feliz, - e a resposta vem da filosofia, agora predominantemente
ética. E como tratar os seres transcendentes, - e cada vez mais
assumiram importância as religiões orientais, que prometiam
algo para o futuro, seja em forma de fatalidade e fortuna, seja na modalidade
de vitória sobre o mal, como na religião de Mitra ou de ressurreição,
como na igreja cristã. Os deuses gregos e romanos (Zeus e Júpiter
e Cia.) perdem simpatia sobre as massas, porque não tinham, mensagem
para as novas situações criadas pelos tempos; eram antes
Deuses com interesses sobre os homens do que soluções para
os seus problemas.
202. As escolas socráticas menores, de que as pós-socráticas dos epicuristas e estóicos são as continuadoras, deram o sinal de abertura para os tempos novos.
Os cínicos, chefiados por Antístenes (444 - 370), são os anarquistas da antiguidade, porque condenam a distinção baseada no nascimento, no sexo, nas classes. Diógenes, o cínico, perguntado de onde era, respondeu, - sou cidadão do mundo!
O epicurismo, com sua Ética associada à natureza, favoreceu o individualismo e a descrença nas formas sociais, sobretudo daquelas cultivadas anteriormente pela sociedade do Estado-Cidade.
Mas foi sobretudo no estoicismo, herdeiro do cinismo, que se formaram os filósofos e juristas que plasmaram a filosofia social do mundo helênico e do direito romano. Zenão de Citium é fenício, embora atuasse em Atenas; mas só isto bastava para que sua filosofia não adotasse a diferença entre nações, como entre gregos e bárbaros. Rompendo com o cinismo, por causa de seu espírito anarquista, manteve o seu moralismo rijo e fundado na natureza universal do homem. A atenuação se deu só ao tempo dos estóicos, do segundo pórtico, que admitiram as honras da pátria e a glória; esta peculiaridade era uma concessão ao espírito romano.
Ainda que as religiões pregassem o bom tratamento aos servos, foram os estóicos os primeiros a conceberem uma sociedade sem servidão.
203. As lutas políticas conduzem paulatinamente o desenrolar das melhorias sociais.
No que se refere aos diferentes níveis de direito do Estado político, não foi possível de início mais que distinguir entre o direito local e o direito da cidade universal.
A República
neste plano geral era difícil, porque deveria resultar de um Estado
Jurídico. As circunstâncias favoreceram o regime de Império,
à base de uma aristocracia militar. O Monarca seria pois uma figura
imposta pelas circunstâncias, em vista da dificuldade de coordenar
de outro modo populações muito distintas. Se em Roma ocorreram
inicialmente tentativas de República, elas foram definitivamente
abandonadas ao tempo dos primeiros Césares.
204. Conquistas sociais dos romanos:
Lex canuleia (do tribuno do povo romano Caio Canuleio), de 445 a.C. que votou pela validade dos casamentos entre patrícios e plebeus, as duas classes que dividiam a cidade. É a lei da igualdade civil.
Lei das Doze Tábuas (450 a.C.), em doze tábuas de bronze, as primeiras leis escritas de Roma; ainda que primitivas e rudes, serviram como ponto de partida do Direito Romano.
Declara:
Lei agrária (487a.C.) de proteção aos trabalhadores agrícolas.
Lei semprônia (133 a.C.) (dos Gracchos Tibério e Caio), -
"Ninguém poderá possuir mais de quinhentas geiras de fazenda. Quem tiver filhos poderá conservar 500 para si e 250 para cada um dos filhos; o que sobrar será devolvido à República".Ainda ao tempo da era pré-cristã se conhecem as lutas liberticidas dos escravos, sob a chefia de Espartaco (+ 71 a.C.) e as reformas de César favorecendo a Plebe. Seguiu-se o tempo feliz de César Augusto (30 a.C. - 14 d.C.).
O imperador Caracala (211 - 217) estendeu o direito de cidadania a todos os habitantes das Províncias (212); de outra parte isto trouxe melhorias para o tesouro.
Paralelamente desenvolveram-se os direitos da mulher.
Depois da publicação do Código Justiniano (530-534), adquiriu a Igreja vários privilégios e ainda outros, quando finalmente na Idade Média se desviou para o Direito Feudal.
205. São conhecidos juristas romanos:
Gaio ou Caio (c. 100 - 180); Paulo; Papiniano; Ulpiano; Modestino; Triboniano (codificador chamado pelo Imperador Justiniano).
§1
- Gênese do cristianismo. 2216y206.
206. O cristianismo é um movimento de formação paulatina, resultante do contato judeu semita com o mundo indo-europeu.
Primeiramente ocorreu o processo pelo qual dentro do judaísmo se desdobraram as seitas conhecidas pelos nomes de saduceus, fariseus, zelotas, essênios; no curso deste processo deriva finalmente um grupo chamado cristão.
A seguir, também este desenvolveu no mesmo cristianismo um processo interno de transformação, influenciado pelo mundo helênico, tomando dele inclusive a língua grega para escrita de seus novos livros sagrados, os Evangelhos, Atos, Epístolas e Apocalipse.
As seitas judaicas contribuíram em diferentes dimensões para a formação do cristianismo.
Os saduceus eram tradicionais, do ponto de vista doutrinário, restringindo-se à Lei (ou Torá), de Moisés, sem os livros dos profetas e por conseguinte sem os acréscimos doutrinários recentes, em que figuravam, por exemplo, os anjos.
Os fariseus, que acresciam à Lei, os livros dos profetas, tinham mais viva a idéia de um Messias. Já se vê, que Jesus se ligava mais aos fariseus que aos saduceus. Ainda os fariseus admitiam a conversão dos gentios para o judaísmo; era mais um precedente de importância, que haveria de ser adotado pelo cristianismo.
Os zelotas acresciam à doutrina dos fariseus uma visão mais agressiva do Messias, como restaurador do Reino de Israel. Promoviam guerrilhas contra os romanos. É possível que muitos, como Judas, acreditassem que Jesus fosse um zelota oculto, abandonando-o quando viram nele um pacifista.
Finalmente, os essênios são os mais representativos das idéias de que eram também portadores os primeiros cristãos.
João Batista é um essênio típico. E Jesus apresenta aspectos similares.
Os essênios viviam no celibato. Organizavam-se em comunidades de doze e tinham a chefia geralmente de três, dos quais um era o tesoureiro. Comiam a Páscoa sob a presidência de um deles e em calendário que não era o oficial (o helênico, este já em vigor entre os saduceus).
Ora, tudo isto se mostra claro no grupo de Jesus. Os essênios ainda se acreditavam inspirados e receptadores de revelações. Curavam e perdoavam os pecados, além de batizar. Outra vez, tais são as maneiras de ver de Jesus e de seus discípulos. O conceito de Messias dos essênios é espiritual. Outra coincidência com os cristãos.
207. Jesus de Nazaret (nascido cerca do ano 6 antes de nossa era, morto no ano 30 da era atual) foi a personalidade central na formação do cristianismo, ainda que depois dele houvesse inovações e atitudes que foram decisivas para o seu sucesso.
A crença dos discípulos de Jesus, em um messias espiritual foi uma destas atitudes decisivas para a separação crescente do grupo cristão em relação ao judaísmo oficial.
Uma vez morto, já não poderia haver dúvida aos olhos de seus discípulos, de que Jesus não era um Messias temporal, restando ser um Messias espiritual. Firma-se o conceito desta modalidade messianista.
Crêem
ainda os discípulos de Jesus, de que ele tenha ressuscitado, devendo
mui proximamente voltar sobre as nuvens, para julgar os povos e estabelecer
o reino dos céus com a seleção dos bons.
208.
O contato com os judeus helenistas, no dia de Pentecostes, foi (se
a narrativa for exata), o principal impulso para a transformação
da comunidade cristã. Até ali, os discípulos de Jesus
têm a feição tradicionalista dos essênios e do
mesmo Jesus. Mas, os judeus helênicos, vindos de outras regiões
do mundo e agora fixados em Jerusalém, tinham melhores condições
de organização e falavam inclusive idiomas estrangeiros.
O fenômeno das línguas (que eles interpretaram sobrenaturalisticamente, apesar de poder haver sido uma situação parapsicológica, conforme aqueles que não crêem) atraiu a atenção dos judeus helênicos para o movimento dos cristãos. Aderindo, acomodaram-se por pouco tempo aos usos essênios de economia coletiva.
Em decorrência das transformações motivadas pelas novas adesões, não tardaram os cristãos a abandonar o coletivismo, estabelecendo novas maneiras de estruturar a comunidade, todavia sempre insistindo na caridade. Este aspecto tornou os cristãos simpáticos.
Os sete diáconos, - dentre os quais mais se destacou Estevão, eram eminentemente ativos. A reação judaica se faz sentir.
A adesão do fariseu Paulo de Tarso foi mais uma grande conquista helenística, dos primeiros cristãos. Ela resultou até na eliminação da desagradável prática do corte do prepúcio masculino (a circuncisão), uma prática, que dificultava a adesão dos gentios aos fariseus. O novo dispositivo facilitou o proselitismo cristão.
Por último, o contato com o mundo dos mesmos pagãos, trouxe para dentro do cristianismo hábitos de outras religiões. Influíram certamente os mistérios (ou sacramentos) da religião de Mitra sobre os rituais equivalentes do cristianismo.
Na comunidade cristã, o ritualismo judaico, de transformação em transformação, desapareceu paulatinamente, inclusive os paramentos.
Os bispos e o Pontífice romano dos cristãos passaram a ter, com o tempo, algo de similar aos chefes das religiões pagãs. Até mesmo o Natal de Jesus em 25 de dezembro é a substituição, por imitação da festa do nascimento de Mitra.
Finalmente a Filosofia é aproveitada para formular mais adequadamente as doutrinas religiosas cristãs. Surge, pois agora, a maravilha de uma teologia cristã, precedida por uma filosofia também cristã.
Hoje se dividem as opiniões sobre a verdade do cristianismo. Para os que têm fé em sua sobrenaturalidade, ele resultou de uma obra intencionada por Deus, de tal maneira que Jesus seria um Deus encarnado em natureza humana e autor sobrenatural da Igreja, como ainda fiador de todas as promessas de uma vida futura espetacular de felicidade celestial.
Para
outros, - defensores de uma interpretação histórico-crítica,
- o cristianismo seria apenas uma transformação cultural
progressiva e selecionante, todavia substancialmente falso no que diz respeito
às convicções sobrenaturais.
209.
O imperador Constantino, no poder de 306 a 337, consolidou definitivamente
o sucesso do cristianismo. Rompendo as regras da sucessão do trono,
então organizado na forma de uma tetrarquia, por Diocleciano (285-305),
em que sucederiam pela ordem os dois Augustus e os dois Césares,
venceu sucessivamente seus contendores, até alcançar a posição
de imperador único.
Nesta longa luta apoiara-se nos cristãos,
apesar de ele mesmo não ser um deles. Constantino era filho de Constâncio
Cloro, que de César passara a Augusto, governando as Gálias
e a Grã Bretanha, com capital em Tréveris, nas fronteiras
da Gêrmania.
Havendo morrido cedo Constâncio, a quem Constantino sucedeu por primeiro no poder, em 306. Tentando unificar o império, em 307 já vencia Maximino, que governava em Milão, e conquistava à seguir Roma a Maxêncio.
Emite, então, o importante Edito de Milão (313), introduzindo a liberdade de culto, integrando desta forma os cristão ao mesmo nível da religião tradicional. Em 324 completava a unidade do poder, cuidando logo de transferir a capital para Bizâncio, que tomou o nome de Constantinopla.
Constantino trata da religião como se fosse ele o chefe da igreja, como antes fora grande pontífice do paganismo. Convocando o Concílio ecumênico em Nicéia (325), deu à Igreja cristã a estrutura hierarquizada e territorializada, que hoje ainda conserva, principalmente nas Igrejas Católica e Ortodoxa. Adepto de uma religião solar monoteísta, deixa-se batizar apenas no final de sua vida, no leito de morte, ainda assim na fé de Arriano (+ 336). Pelas dificuldades que criou ao judaísmo e ao paganismo em geral, foi o imperador que traçou a sorte definitiva do cristianismo. Principalmente na forma que tomou na Igreja Católica Romana.
Os conflitos entre pagãos e cristãos resultam em mártires de ambos os lados e glorificados pelos respectivos partidos.
Quando ocorreu o domínio político dos cristãos, sofreram sobretudo os neopitagóricos, de que é ilustrativo o episódio citado, pelo antigo historiador cristão Sócrates, de uma filósofa do sexo feminino, Hipácia, a quem ainda hoje se faz referência.
§2.
Início da patrística, - grega e latina. 2216y210.
210. O pensamento cristão apresenta uma primeira fase, conhecida como Patrística - referência aos padres da Igreja - situada em grande parte ainda dentro da época Helênico-Romana e nos tempos imediatamente após a queda, em 476, de Roma.
Depois de 700 divide-se o mundo civilizado em três áreas culturais, mais ou menos estanques e hostis entre si:
211.
Os primeiros patrísticos são na maioria escritores
de língua grega: Aristides, autor de uma Apologia (c. 140);
São Justino (+166), autor de duas Apologias e do Diálogo
com o judeu Trifão; e assim outros, como Taciano, Atenágoras,
Santo Irineu, São Hipólito, este autor de Philosophoumena.
Ainda gregos, da Escola de Alexandria:
Panteno (fundador da escola), Clemente Alexandrino (150-216), já
representativo, Orígenes (185-254), notável pela sua exegese
alegorista.
212. Clemente de Alexandria (c. 150-216). Filósofo cristão, patrístico, de expressão grega, nascido em Atenas. Estabeleceu-se em Alexandria, cerca do ano 180. Dirigiu a escola cristã, desde a morte de Panteno, até seu fechamento em 202. Seguiu depois para a Ásia Menor.
O pensamento de Clemente de Alexandria, se desenvolveu em clima neoplatônico peculiar aos cristãos da época. Tratou sobre a certeza, a existência de Deus, principalmente a moral e o direito natural.
Obras: Discurso de persuasão aos gregos (Protreptikós), persuadindo a deixar o paganismo; Pedagogo (Paidagogôn), de instrução ao cristão, principalmente moral; Tapetes (Strômata), miscelânea erudita, dos assuntos mais diversos sobre do saber antigo, citando inclusive no original textos pré-socráticos; e escritos menores.
213. Origenes (c.185 -c. 255). Escritor cristão de vasta erudição, de expressão grega, inicialmente com ação em Alexandria, onde provavelmente nasceu. Estudou letras e aprendeu de cor textos bíblicos, com seu pai. Morto este por ocasião da repressão de Septímio Severo às novas religiões, o bispo de Alexandria passou à Orígenes a direção da Escola Catequética . Estudou na escola neoplatônica de Ammonios. Viajou a Roma, em 212, onde ouviu ao sábio cristão Hipólito. Em 215 organizou Origenes em Alexandria uma escola superior de Exegese Bíblica. Sacerdote em 230. Viajou muito e falava ao público nas igrejas.
O fato de se haver castrado por devoção, lhe criou dificuldades com alguns bispos, que contrariavam o sacerdócio dos eunucos. Em 232 se transferiu para Cesaréia, Palestina, onde se dedicou exaustivamente aos seus escritos. Sobreviveu aos tormentos de que foi vítima sob o Imperador Décio (250-252). Posteriormente a esta data morreu em Tiro, não se sabendo exatamente quando.
Foi mais um exegeta, que um teólogo. Também não centralizou sua atenção na filosofia. Mas é representante do pensamento eclético dos cristãos de sua época.
O contexto filosófico é claramente neoplatônico. Deus é tratado como totalmente transcendente. O Logos é Deus por participação. Esta participação é descrita de maneira bastante subordinada e que irá favorecer aos arianos (vd 216). O mundo é criado do nada, não sendo por conseguinte apenas uma reelaboração demiúrgica da matéria eterna.
A alma preexiste, e está subordinada à metempsicose; eis uma tese tipicamente pitagórica e platônica. Abandonada depois pelo cristianismo oficial, é todavia relembrada por aqueles que ainda hoje, - espíritas, - a defendem como cristã.
A moral visa a purificação, que se processa nos sucessivos retornos da alma à vida neste mundo. Não há condenação em Inferno eterno. Todas as criaturas, mesmo os anjos decaídos, chegarão à purificação final, ou seja à apocatastase, por que assim é mais digno de Deus.
A exegese de Orígenes buscou a interpretação meramente alegórica, e não literal, de muitos dos episódios fantásticos da Bíblia. Tomou, pois, como método o que já desde tempos vinham fazendo escritores pagãos a respeito dos seus mitos, bem como também já faziam judeus eruditos de Alexandria. Não obstante, no Ocidente prevaleceu a exegese literal de Santo Agostinho.
Obras. Muitos se perderam, em decorrência de haver sido o autor combatido pelos mais ortodoxos. Dentre os que se conservaram, destacam-se:
Bíblia sextupla (Eksapla Biblia), distribuindo em 6 colunas, para os textos na versão grega e hebrea;
Sobre os princípios (Perì archôn), tratado teológico e filosófico, sobre Deus, matéria, moral, exegese, contendo os fundamentos do que veio a ser denominado origenismo;
Contra Celso (Katà Kelsou), resposta à críticas deste o filósofo neopitagórico aos cristãos;
São ainda de sua autoria; Strômata; A ressurreição; Exortação ao martírio; Comentário sobre o Gênesis; Comentário sobre São João. E assim também comentários a outros livros bíblicos, bem como ainda notas, homilias, tratados de espiritualidade, cartas.
214. Primeiros patrísticos de língua latina. Ainda com caráter de religião oriental, a Carta aos Romanos, do Apóstolo Paulo, foi escrita em grego. Aos poucos o latim se torna a língua da Igreja do Ocidente, que finalmente a introduzirá em sua liturgia oficial; esta iniciativa trouxe o latim até aos dias atuais, em um uso que foi sua fortuna.
Em língua latina desyacaram-se primeiramente os cristãos:
- Tertuliano (c. 160-245), profícuo e rigorista, com tendências maniquéias e montanistas, contrárias ao matrimônio, além de destacar o lado irracional da fé cristã, sendo-lhe atribuída a expressão "creio, porque é absurdo"; Arnóbio, autor de Adversus gentes;
- Lactâncio (+ 320), autor de Instituições divinas, sendo conhecido como "Cícero cristão", pelo seu estilo clássico.
§3.
A Grande Patrística. 2216y215.
215. Mudaram inteiramente as circunstâncias políticas do cristianismo a começar da ação do Imperador Constantino, no começo do século 4-o. Com seu poderio, Constantino não somente criou a nova capital Constantinopla, como ainda mudou o destino futuro das antigas religiões.
Convocou, em 325, o Concílio de Nicéia, o primeiro na contagem dos assim chamados concílios ecumênicos. Estruturou-se então a Igreja Cristã no modelo territorial do Império, em províncias eclesiásticas, ganhando agora grande destaque os bispos e arcebispos. Estimulou-se ainda a definição doutrinária, pelo voto dos bispos em concílios ecumênicos. Com isto deu-se lugar ao aparecimento da Grande Patrística.
Até então bastante elástico em suas doutrinas, passou agora o mesmo cristianismo a lutar por uma unificação interna do seu pensamento. Introduzindo a força do voto para decidir sobre a verdade, os concílios começaram a estabelecer um cristianismo oficial, em que os da minoria passam a ser tratados como hereges. Assim o foram Arius (Ario), Pelágio, Nestório, Eutiques, e muitos outros, devendo amargar por vezes o caminho do exílio.
Destacaram-se, neste segundo período, os patrísticos gregos: Santo Atanásio (c. 295-373), Gregório Nazianzeno (c. 329-c. 390), Basílio Magno (c. 330-379), Gregório de Nissa (c. 335- c. 395), Nemésio de Emesa (sec. 5-o), Cirilo de Alexandria (c. 375-444).
Surgem agora grandes nomes latinos: S. Hilário de Poitiers, S. Ambrósio, S. Agostinho, sendo este último o maior de todos os patrísticos, com um pensamento sistematizado, ainda que não chegasse a um suma escrita do mesmo.
São
representativos também os que foram rejeitados, até porque
sem eles não se entendem as polêmicas que geraram: Arius,
Prisciliano e outros.
216. Arius (256-336). Teólogo líbio, de expressão grega, e que gerou a maior controvérsia cristã, em torno da divindade ou não divindade de Jesus.
Foi a questão decidida favoravelmente no calor do voto no Concílio ecumênico de Nicéia (325), em favor da divindade de Jesus.
Arius estudou em Antioquia, da Síria, depois se localizando em Alexandria, onde foi ordenado sacerdote em 310.
Para Arius, não poderia Jesus ser mais do que a figura do Logos, segundo a filosofia neoplatônica então vigente, portanto a inteligência emanada de Deus transcendente, sem ser Deus, ainda que anterior ao mundo. Destituído de suas funções em 320, por um concílio regional, retirou-se para a Palestina e depois para a Nicomédia, Ásia Menor. Sobre a questão escreveu o livro Banquete (TaMia). Depois do Concílio de Nicéia foi desterrado para a Ilíria (Croácia). A filha do Imperador consegue trazê-lo de volta, sendo integrado no clero de Constantinopla em 336, quando logo morreu.
Entretanto, sua idéia proliferou no Oriente e Ocidente, e deu muito a discutir aos filósofos e teólogos. Resisitiram os arianos por vários séculos, vindo a desaparecer somente dos anos 700, em consequência das perseguições oficiais que lhes foram movidas. A questão conservou sua importância, porque ainda hoje se pergunta se a crença na divindade de Jesus tem, ou não, origem no neoplatonismo e nos mitos da época. Os unitarianos, surgidos no decorrer da Renascença, continuam a luta de Arius.
217.Basílio Magno (c.330-379). Escritor e teólogo cristão, de expressão grega, nascido em Cesaréia da Capadócia (As Menor). Estudou em Constantinopla e Atenas, retornando em 356 a Capadócia, onde instruiu retórica. Posteriormente se fez monge. Por último foi escolhido para ser sacerdote e bispo de Cesaréia da Capadócia.
Sob influência platônica, desenvolveu uma filosofia sobre Deus, ao qual apresentou como transcendente, cujas propriedades positivas e negativas também estudou. Sua filosofia da natureza a apresentou a criação conforme a sequência do Gênesis. Largamente se ocupou de assuntos morais. Escreveu regras para os monges, razão porque foi considerado organizador do monaquismo oriental.
Obras:
Sobre o Espírito Santo, abordando a Trindade e de novo o problema ariano;
Assuntos morais (I 0 2 4 6 V ), explicando textos morais da Bíblia;
Grandes regras (Ð D @ 4 6 " J B 8 V J @ H ), 55 questões da vida religiosa;
Pequenas regras (Ð D @ 4 6 " J r , B 4 J @ : Z < ), 313 respostas sobre a vida religiosa;
Homilias, destacando-se aqueles sobre o Exaémeron, ou seja, sobre os seis dias da criação;
Cartas, em número de 365;
Discursos, sendo alguns sobre assuntos dogmáticos.
Doutrinariamente, prisciliano foi um gnóstico, com moral rigorista de fundo maniqueu. Somou aos livros bíblicos canônicos os apócrifos.
Obras:
Livro ao bispo Dámaso (liber ad Damasum Episcopum), carta ao Papa;
Sobre a fé e os apócrifos (De fide et apocryphis);
Tratado da páscoa (Tractatus paschalis);
Tratado do Êxodo (Tractatus Exodi);
Tratado dos primeiros salmos (Tractatus primi Psalmi);
Tratado do terceiro Salmo (Tractatus Psalmi tertii);
Tratado para o povo I - II (Tractatus ad populum - I - II);
Bênção do povo (Benedictio super populum).
219.
Agostinho de Hipona (354-430), de pai pagão e mãe
cristã, nasceu em Tagaste, Numídia (África argelina).
Retórico latino, de juventude tumultuada e simpático ao maniqueísmo
e admirador do neoplatônico Plotino, lecionou em Cartago, Roma e
finalmente em Milão. Aqui, aos 33 anos, se converteu ao cristianismo,
quando retornou à então África latina. Fundou mosteiros.
Finalmente foi Bispo de Hipona (no atual território da Argélia).
Ressentiu-se o pensamento de Agostinho da falta de seu conhecimento da língua grega, de cuja literatura leu em traduções. O toque humano e existencial tornaram seus livros apreciáveis, além do seu elan retórico.
Obras: cerca de 100 tratados de teologia e filosofia, de que alguns são de grande destaque na história da patrística latina.
Pertencem à literatura universal:
Cidade de Deus (De civitate Dei);
Do mestre (De magistro);
Solilóquios (Soliloquia);
Contra os acadêmicos (Contra academicos );
Da Trindade (De Trinitate);
Retratações (Retractationes);
Da vida feliz (De beata vita);
Da ordem (De ordine);
Da imortalidade da alma (De immortalitate animae);
Da quantidade da alma (De quantitate animae);
Da música (De musica);
Da verdadeira religião (De vera religione).
220. O pensamento filosófico agostiniano, nem sempre sistemático, se encontra na linha de Platão e Plotino, sendo racionalista radical como estes. Influenciou os filósofos cristãos futuros, situados nesta diretriz chamada com propriedade neoplatônica. Os que o seguiram, criaram o que passou a ser denominado agostinianismo, corrente filosófica e teológica atuante ao longo de toda a Idade Média (vd 283), sobretudo até antes de Tomás de Aquino (1225-1274).
Em teoria do conhecimento abordou a questão da certeza inicial, contestando o probabilismo neo-acadêmico.
As idéias universais são inatas, resultantes de uma iluminação divina (= iluminismo agostiniano), porém divino-natural. Embora com reformulações, mantém-se, por conseguinte, no inatismo platônico.
Como já fez Plotino, substitui os arquétipos de Platão, por idéias exemplares situadas na mente divina. Estas retificações seguem as tendências do neoplatonismo de Plotino, a cuja luz examina a Trindade cristã.
A Providência
divina, a predestinação eterna, o concurso de Deus nos atos
livres do homem, a existência do mal, preocupam a Agostinho. Sua
solução é bastante limitadora da liberdade humana.
Qual sua maneira exata de pensar, tem criado polêmicas e inspirado
teologias de rija predestinação como as do calvinismo e do
jansenismo (vd 563).
221. A filosofia natural agostiniana segue os caminhos de Platão, retificados alguns aspectos. Deus criou a matéria (contra a eternidade da matéria, peculiar à filosofia grega).
Todas as criaturas teriam composição com a matéria, inclusive os anjos, ainda que de espécie diferente. A doutrina do espírito, como forma pura, é aristotélica e será desenvolvida sobretudo por Tomás de Aquino.
Ergueu a tese da criação simultânea, de todos os germes (= rationes seminales). O despertar no tempo oportuno, dá à natureza a feição de uma contínua evolução e aparente criação de espécies novas. Sua posição favorável ao evolucionismo não foi seguida pela escolástica medieval.
A alma é substancialmente distinta do corpo, como substância completa. Aqui está de novo ao lado de Platão, contra Aristóteles. Inspirava-se na mentalidade órfica e neopitagórica em vigor entre as religiões helênico-romanas. Esta separação total cria dificuldades na explicação da união entre as duas substâncias tão diferentes.
222. A ontologia de Agostinho se concentrou na parte que diz respeito à divindade, como sua transcendência e suas relações com a criação. Mantendo embora a doutrina cristã da Trindade, diferenciou-se das emanações plotinianas.
A filosofia
da história é abordada por Agostinho, que pretendeu ver nos
acontecimentos um desenrolar sob o controle da providência divina.
O material histórico analisado por Agostinho é o da decadência
do Império Romano. Ocorrendo esta decadência sob o domínio
cristão, esta circunstância impunha aos cristãos uma
análise apologética.
§4. Últimos patrísticos latinos e gregos, ou primeiros medievais. 2216y223.
223. No Ocidente, o período entre os últimos patrísticos é aquele entre a decadência do Império Romano e a ascensão de Carlos Magno. Mais precisamente, entre a morte de S. Agostinho, em 430, e as Cartas Capitulares, emitidas em 787, por Carlos Magno, instituindo as escolas, - palatinas, catedrais, monacais.
É verdadeiramente um tempo de transição em que não somente se civilizam as novas nações, mas também os pensadores remanescentes salvam a velha cultura. Destacam-se nomes, como Boécio e Cassiodoro, na Itália, Isidoro na Espanha, Beda, na Grã Bretanha.
O Império Romano cedera paulatinamente às nações bárbaras em progressão, perdendo territórios e fazendo concessões acomodatícias. O Império do Ocidente é o que declina mais rapidamente, até ser destituído seu último imperador, Rômulo Augústulo, em 476, por Odoacro. Já antes da queda havia sido penetrado na Itália pelos ostrogodos, na Espanha pelos visigodos, em Portugal pelos suevos, na França pelos francos. Somente no Oriente o antigo Império Romano se mantém firme em Constantinopla, passando agora à ser mais conhecido como Império de Bizâncio.
224. Os regimes se sucederão sob influência indireta de Constantinopla, até o advento da política dos francos. Em 493 Odoacro é assassinado pelos ostrogodos, sob o comando do rei Teodorico, que agia apoiado, em alguns casos, por Constantinopla. Teodorico governa até 526, ao mesmo tempo que se desenvolve a cultura, ocorrendo neste tempo nomes tais como Boécio e Cassiodoro, os principais da patrística ulterior. O mesmo Teodorico era cristão ariano.
Constantinopla retomou o poder em Roma em 536. Neste obscuro período da história italiana, cresceu a influência do Papa, herdeiro do Pontífice pagão.
Em 568 entram os lombardos, no norte da Itália, conseguindo estabilizar-se. Pretendendo unificar a Itália, resiste o Papa, que apela aos francos. Estes, depois da vitória de Pepino, O Breve, transformam o poder papal em instrumento político de retenção dos lombardos, fazendo-lhe dotação dos chamados "Estados pontifícios", em 774. Os planos de unificação da Itália se concretizarão apenas em 1870, um milênio após.
Cessa também com a queda do Império Romano do Ocidente, o período chamado Patrístico. A expansão e a prosperidade dos francos abrirá novos caminhos. No ano 800, o Papa coroará o rei Carlos Magno, Imperador do Sacro Império Romano do Ocidente, que assim se julga restaurado depois da queda do mesmo em 476.
Apesar das consequências divisionistas do tratado de Verdun, em 841, a visão de uma unidade política das nações cristãs do Ocidente inspirará toda a Idade Média, ainda que nunca se realize plenamente. Ocorre a mesma persistência com a idéia de que o poder político vem do Alto e que o Papa é o ministro para ungir os governantes cristãos, em especial seu Imperador.
Mas, antes que a escolástica se desenvolvesse nas escolas criadas por Carlos Magno, atuaram os últimos patrísticos, os quais, sem chegarem a ser escolásticos, foram os primeiros mestres da Idade Média.
225. Boécio (Anitius Manlius Torquatus Severinus Boethius) (c. 470-524). Filósofo de expressão latina, o último dos romanos e de certo modo o primeiro dos escolásticos, além de haver sido o maior em seu tempo. Nascido em Roma, na família nobre dos Anícios, estudou no Oriente grego, não se sabendo se em Atenas ou em Alexandria. Foi aproveitado pelo imperador ostrogodo Teodorico o Grande como cônsul em Roma (ano 510).
Posteriormente foi para Ravena, como ministro da corte (magister palatii) do mesmo imperador. Acusado de favorecer os interesses do novo imperador de Constantinopla sobre o Ocidente, foi preso, aprisionado em Pavia, e finalmente decapitado.
Foi mais platônico, de acordo com as tendências da época, do que Aristotélico, tudo combinado com alguns elementos estoicistas, como a da doutrina da providência divina. Com ele se consolidou a orientação platônica e agostiniana do primeiro período da filosofia medieval, que tem início em Boécio. Influenciou os conceitos medievais sobre Deus e a Trindade cristã, sobre a pessoa e a felicidade, e ainda sobre toda a lógica através da tradução do grego ao latim de livros lógicos, sobre os quais fez ainda comentários. Os conceitos podem originar-se nos sentidos. Não se referiu ao inteleto agente, como capacidade de abstração, conforme Aristóteles. Defendeu a preexistência das almas, doutrina frequente entre neoplatônicos, mesmo cristãos.
Obras: Da consolação de Filosofia (De consolatione Philosophiae), obra principal, escrita na prisão de Pavia, como diálogo estabelecido entre o autor e a Filosofia, esta se apresentando como mulher dotada de sabedoria; tradução do grego ao latim da Eisagogé de Porfírio; tradução igualmente das Categorias de Aristóteles, com comentário. Opúsculos filosóficos de Boécio: Introdução aos silogismos categóricos (Introductio ad categoricos syllogismos); Do silogismo categórico (De syllogismo categorico); Do silogismo hipotético (De syllogismo hypothetico); Da divisão (De divisione); Sobre a definição (De definitione); Sobre as diferenças dos tópicos (De differentiis topicis). Opúsculos teológicos: Como a Trindade é um Deus e não três (Quommodo Trinitas unus Deus ac non tres); Se o Pai e o Filho e o Espírito Santo se predicam da divindade); Como as substâncias, enquanto são, são boas (Quommodo substantiae in eo quod sint, bonae sint). conhecido também como Livro das semanas (Liber de hebdomadibus); opúsculo mais filosófico que teológico; Sobre a fé católica (De fide catholica); Livro sobre a pessoa e sobre as duas naturezas contra Eutico e Nestório (Liber de persona et duabis naturis contra Euthychen et Nestorium); o mais significativo dos opúsculos mencionados. Escreveu ainda sobre as ciências: Sobre a música (De musica); Sobre a aritmética (De arithmetica); Sobre a geometria (De geometria), de autoria apenas provável.
226.
Cassiodoro (Flavius Magnus Aurelius Cassiodorus) (c. 477-c.570).
Filósofo e político, latino, mas de origem siríaca,
nascido em Scilaceo (Scylasceum), Calábria, Itália.
Ministro de Teodorico, imperador ostrogodo, então estabelecido em
Ravena.
Retirou-se do serviço público pelos seus 60 anos, quando fundou um mosteiro em propriedade da família, na Calábria, onde exerceu o ensino e talvez ele mesmo se fizesse monge.
Prosseguiu o trabalho iniciado por Boécio, havendo sido como ele um cristão neoplatônico. Ainda como Boécio, foi um dos salvadores da cultura clássica, ao tempos das grandes migrações. Pugnou pela fusão de godos e romanos, o que efetivamente ocorreu no curso dos anos, como também haveria de acontecer com os lombardos. Foi antes de tudo um didata e por este caminho influenciou o ensino medieval, notadamente pela sua organização das artes em trivio e quadrívio.
Obras:
Várias (Variae), ordenação de 400 cartas, que serviram de modelo a diplomacia medieval;
Sobre a alma (De anima), opúsculo sobre a imortalidade da alma, em que se detecta a influência de Agostinho de Hipona e de Cláudio Mamert;
Instruções sobre as coisas divinas e não divinas (Institutiones divinarum et saecularium lectionum), um programa completo para o então ensino superior em dois livros, - sendo o primeiro uma introdução aos livros sagrados e a teologia, - o segundo sobre as demais ciências, havendo circulado como obra a parte, sob o título Sobre as artes e os estudos liberais (De artibus ac disciplinis liberalium), abordando as 7 artes liberais, subdivididas em trívio, (gramática, retórica, dialética) e quadrívio (aritmética, música, geometria, astronomia);
e publicou ainda uma história da Igreja e comentários exegéticos.
Sem dúvida o mais erudito da Espanha visigótica, Isidoro influenciou o ensino medieval.
Como pensador foi um neoplatônico-agostiniano. Sem ter sido original, foi um compilador erudito, havendo por esta via influenciado todo o ensino de sua época.
Desenvolveu a gramática. Acreditou que todas as línguas derivam do hebraico, a partir de uma diversificação ocorrida na construção da Torre de Babel; ainda que errasse no detalhe, estava certo ao considerar que as línguas evoluem e se derivam umas em outras.
Obras:
Diferenças (Differentiae) ou Da propriedade das palavras (De proprietate sermonum), explicação de conceitos teológicos e filosóficos, asselhando-se pois à obra precedente;
Da ordem das criaturas (De ordine creaturarum), sobre Deus, a criação, o pecado e a vida futura.
228.
Beda, o Venerável (673-735). Teólogo e historiador inglês,
nascido na região da diocese de Durham. De origem anglo-saxônica,
exerceu um papel inteletual importante na fase de instalação
da nova sociedade que se formava na Inglaterra desde a chegada dos ingleses
pela volta de 450. Ingresso na Ordem dos beneditinos, Beda estudou no mosteiro
de Iarrow e foi ordenado sacerdote pelos 30 anos.
Dedicado ao ensino, ocupou-se dominantemente sobre exegese bíblica e história. Humanista, abordou a filosofia só eventualmente, mas desta eventualidade surgiu a nova tradição, em cujo caminho se encontrarão pouco depois Alcuíno e Escoto Erígena. Mas foi sobretudo pela sua exegese bíblica que se fez um mestre da Idade Média; além de tratar do sentido literal, examinou também significados alegóricos e místicos. Destaca a vida comunitária dos primeiros cristãos, em seu Comentário aos Atos dos Apóstolos.
Obras. Cerca de 45 livros, com várias edições desde a invenção da imprensa:
História dos abades, do seu mesmo mosteiro;
E ainda: sermões; e comentários sobre quase todos os livros bíblicos.
229. Ao término da época antiga, a situação, embora bastante tumultuada no Ocidente com a queda de Roma, em 476, no Oriente é menos tumultuada, havendo ocorrido uma certa continuidade linear da cultura grega anterior no Império Bizantino.
De qualquer maneira, uma nova época veio pela frente, mais depressa no Ocidente, mais devagar no Oriente. Chegou ao fim a época antiga, com seu último período, o greco-romano.