Cap. 9
Enciclopédia Simpozio      Micro História da Filosofia.


SEGUNDO PERÍODO DA FILOSOFIA MEDIEVAL.


CAP. 8
ESCOLÁSTICA DO APOGEU
Segundo período medieval - Século treze. 2216y271.


 

271. Introdução à escolástica de ouro. O século 13 foi o período mais brilhante da Idade Média, sobretudo para a Igreja Católica no Ocidente.

Resultou espontaneamente das virtualidades do período anterior. Contudo, apesar do caráter fulgente do século 13, não se deve desmerecer o seguinte (século 14 em diante; ainda que este período final da Idade Média, que termina em 1453, seja visto como declínio de alguns ideais da Idade Média, importa admitir que ele contudo foi mais significativo para a Europa, do que o fulgente século 13. Na verdade, foi também o período final da Idade Média um desenvolvimento espontâneo do período que lhe antecedeu, pois desembocou na eflorescência da época moderna.

Não termina o fenômeno histórico do século 13 exatamente no fim daquela centúria; entra no primeiro quatro de século seguinte, até onde vivem alguns filósofos representativos do anterior. Duns Scotus atinge o ano 1308; Raimundo Lulo 1316 .

Arrolam-se algumas características mais peculiares do período de apogeu da escolástica de ouro.

Em primeiro lugar o século 13 foi marcado pelo grande prestígio e poder do papado, notadamente na Itália e na França, com reflexos sobre o desenvolvimento da filosofia escolástica, desenvolvida sob controle oficial. Se de uma parte a Igreja se libertou do poder temporal no atinente à eleição do papa, de outra, com a criação do Colégio Cardinalício e pela forma que lhe deu, se elitizou, desligando-se das bases.

Na Espanha, em parte já reconquistada aos invasores árabes, se desenvolveu a filosofia cristã sob influência dos mesmos árabes. Aristóteles, do qual os ocidentais conheciam apenas os livros lógicos do Organon, passa a ser conhecido por inteiro através das traduções indiretas pela via da língua árabe, já no século 12.

No século 13 os escolásticos, principalmente através de Guilherme de Moerbecke, traduzem Aristóteles diretamente do grego. Imediatamente surgem os novos grandes comentadores, Alberto Magno, Tomás de Aquino. Mas, como é sabido, desde há muito se faziam traduções indiretas através do árabe, como ainda se traduzia aos mesmos árabes.

Também os filósofos árabes se haviam tornado competentes comentaristas de Aristóteles. Avicena e Averróis são muito apreciados. E assim também são lidos autores judeus, e que usavam escrever em hebreu e em árabe.
Crescem as artes. A arquitetura gótica, nascida anteriormente, continua a se desenvolver. Os sinais de humanização, todavia, vão despertar apenas no século seguinte, com Giotto. A literatura em línguas nacionais mostra seus primeiros desenvolvimentos significativos na Itália. No século 13 nasceu Dante, mas foi produzir efetivamente já no século seguinte, cujo começo ainda pertence ao todo histórico do século 13.
 
 

272. As escolas se organizam em sistemas orgânicos, que recebem o nome de universidade, de que a faculdade das artes ministrava a filosofia. Eis uma das características do século 13, e que merece uma consideração a parte.

Ainda que sem o nome atual, a universidade já existia na antiguidade clássica, na forma de Academia de Platão, e de outras escolas de Atenas, com imitações em Alexandria, Roma e outras cidades de certa importância. Obviamente a escola superior dos antigos era de pequena dimensão e de um menor número de unidades internas, mas em princípio era sempre universal com referência aos temas de ensino da época.

Durante o primeiro período da Idade Média as escolas superiores, sobretudo dos religiosos, eram principalmente de teologia. Mas, de pouco em pouco apareceram as demais escolas superiores, entre elas, de medicina, direito, artes. Os desdobramentos já eram tais ao tempo do século 13, sobretudo na França e Itália, que, de sua união, denominada universitas, nasceu a Universidade. As maiores, como Paris e Oxford, costumavam ser um conglomerado de escolas, ou colégios. Só nos tempos modernos surgirá a universidade sistematicamente estruturada.
 

 
273. Em Paris a Universidade resultou da evolução das preexistentes escolas catedrais, e seu processo de formação se deu entre os anos de 1150 e 1170. Mais especificamente, nasceu a universidade de Paris, do fato de haver o conjunto dos professores e alunos (universitas magistrorum et scholarium) reconhecido a jurisdição do Chanceler da Catedral. Esta união, ou universitas, foi aprovada em 1200 por Felipe Augusto; em 1500 o legado papal, Felipe Courçon, deu os estatutos, de sorte e se estabilizar a mais célebre universidade da Idade Média.

Agregaram-se à universidade, dentro de certas condições, as escolas das ordens religiosas. Os dominicanos adotaram um modelo de três categorias de escolas: Studium ordinarium, com um mestre e alguns auxiliares; studium solemne, para uma província, também com um mestre, todavia mais categorias de auxiliares, além de disputas públicas; Studium generale, com um mestre, dois bacharéis, de novo mais auxiliares, tudo porém para todas as províncias.

Em Paris se destacou imediatamente o Studium generale do Convento de Saint Jacques, incorporado à universidade em 1229. A escola dos franciscanos, de Paris, é incorporada à Universidade em 1231. O mesmo acontece com a escola dos cistercienses, incorporada em 1256; com escola dos eremitas de Santo Agostinho, em 1287; com a escola dos carmelitas, em 1295. Também criadas escolas para os seculares (clero diocesano); dentre estas se destacou o colégio fundado por Roberto Sorbon, capelão do rei São Luís, em 1253, o qual acabou legando seu nome à hoje chamada Universidade Sorbon.

A faculdade de Medicina de Paris funcionou desde o começo do 12-o, funcionou a faculdade de medicina. Depois outra de direito. No fim do século foi reconhecida como Studium generale.

A universidade de Toulouse foi fundada em 1229 pela carta papal. No mesmo século 13 apareceu a universidade de Orleans. Durante o século 14 surgem as universidades de Angers, Avignon, Aix-en-Provence, Poitiers, Caen, Bordeaux, Cahors, Grenoble.

Na Bélgica se estabeleceu a Universidade de Louvain en 1425.
 

 
274. Na Itália a universidade surgiu cedo. No sul, em Salerno apareceu durante o 11-o século uma escola superior de medicina, pelo magistério de Constantino o Africano; funcionou a escola até 1817, quando foi fechada.

No norte, em Bolonha, apareceu em 1088 uma escola superior de direito. No começo do 13-o século, já eram cerca de 10 000 os estudantes, nas diversas escolas superiores de Bolonha, sob um rector scholariorum. Logo surgiram também as universidades de Pádua, 1222; Nápoles, 1224; Siena, 1240; Piza, 1342.
 

 
275. Na Inglaterra surgiam já no século 12 as universidades de Oxford e Cambridge, como coleção de Colégios, assim se conservando até os tempos modernos. Em Oxford .... University College, 1249; Balliol, 1263, Merton, 1264. Em Cambridge: college de Petershouse, 1284; Corpus Christi, 1342.
 

 
276. Na península ibérica, respectivamente, na Espanha Universidade de Salamanca, 1218, em Portugal Universidade de Coimbra, 1290.
 

 
277. Na Europa central a escola superior apareceu primeiramente em Praga, no século 13, e recebeu o título de Studium generale do papa, em 1348; por causa do apoio do imperador Carlos IV, conservou o nome deste. Em Viena a universidade surgiu em 1365.

Na Polônia, a Universidade de Cracóvia data de 1364.

No espaço da atual Alemanha, então integrada no mesmo Império da Áustria, foram fundadas as Universidades de Heidelberg, reconhecida pelo Papa em 1385; de Erfurt, 1379; de Colônia, 1388; de Leipzig, 1409; de Rostock 1419; Freiburg, 1455; de Tübingen, 1477.
 

 
278. Na sequência virá a universidade moderna sob a influência dos novos ideais da Renascença, da Reforma, de algumas mudanças na Igreja Católica, da descoberta da América e de novos caminhos para a Ásia, da industrialização criada pela burguesia, da qual resultou a superação do feudalismo.

Ainda que o pensamento crítico seja peculiar à universidade, ele foi em grande parte negado à universidade medieval. Exatamente a 18 de março de 1277 fazia-se a proibição de 30 teses, declaradas "se não como heréticas, ao menos como perigosas"; entre elas figuravam a condenação da doutrina aristotélica e tomista da unidade da forma substancial, a passividade absoluta da matéria frente à determinação pela forma.

O analfabetismo continua, porém, dominante na Idade Média do brilhante século 13. O saber ler continua ainda um privilégio da nobreza e dos clérigos. O homem comum somente tinha chance de subir socialmente pelo ingresso nalguma ordem religiosa. Entretanto, os cargos eclesiásticos, como ser bispo, ficavam mercê dos príncipes, de preferência para clérigos de linhagem nobre.
 

 
279. Cresceu no século 13 a ação das ordens religiosas no campo do ensino. Do passado vêm as ordens agostiniana, beneditina, cisterciense. Novas ordens surgem, e com grande destaque, a dos franciscanos, 1214, com base na mística de São Francisco de Assis, (denominada oficialmente Ordem dos Frades Menores, O. F. M.); a dos dominicanos, 1217, na mística de São Domingos (denominada oficialmente Ordem dos Pregadores, O. P.), a dos Eremitas de Santo Agostinho, em 1287, a dos Carmelitas, em 1295. Ao abrirem as ordens suas escolas em Paris, em conexão com a universidade, na qual anteriormente lecionavam apenas os seculares; resultaram evidentemente conflitos (vd Thonnard, n. 231).

Aos franciscanos pertencem os escolásticos Roberto Grosseteste (1168-1153), tradutor e comentador de Aristóteles; Alexandre de Hales (+ c. 1245). São Boaventura (1211-1274). Os três, com diretriz filosófica agostiniana. Seguem no tempo John Peckam (+1292), João Duns Scoto (c. 1274-1308); este é o criador do escotismo, que se afasta do agostinianismo neoplatônico e se aproxima de Aristóteles, além disto mais projetado para o século seguinte.

São Dominicanos Guilherme Kylvardby (1200-1279), Alberto Magno (1206-1289), grande divulgador de Aristóteles, Tomás de Aquino (1225-1274), seu mais destacado comentador medieval.

É eremita de Santo Agostinho Egídio Romano.
 

 
280. Os seculares, ou clérigos não religiosos, por vezes em concorrência com as ordens religiosas, são representativos e se dispersam por diferentes diretrizes, ao contrário dos mestres religiosos, geralmente alinhados com um pensamento de grupo. Entre outros: Felipe o Chanceler (c. 1170-1236); Guilherme de Auvergne (+1249), bispo de Paris, desde 1228; Siger de Brabante (1235-1281), averroista.
 

 
281. Didaticamente, a filosofia escolástica do apogeu da Idade Média ocidental se apresenta ordinariamente em cerca de cinco parágrafos :

 
É inadequado colocar no mesmo nível das divisões que se façam por outro ponto de vista que o de corrente doutrinária. É inadequado distinguir um grupo como sendo uma corrente científica; a preocupação com a ciência experimental é um fenômeno crescente, e que ocorreu em todas as filiações filosóficas, havendo continuado a crescer até alcançar pleno sucesso na época moderna. O que apenas importa é frisar aqueles que mais se caracterizaram na orientação científica, como Pedro de Maricourt, da escola de Chartres, e Rogério Bacon, franciscano da escola de Oxford, e ainda Alexandre Nekham, Alfredo Ânglico, Miguel Scotus, Bartholomeu Ânglico.

Também não é conveniente estabelecer um item separado para os antitomistas, como se nada mais fossem do que isto; na verdade, estes antitomistas são tais, precisamente porque têm uma outra posição como sua própria. Quanto aos ecléticos, na verdade também possuem posição dominante, onde melhor se localizam, do que sob uma sigla especial.

Além do quadro da filosofia escolástica da Europa Ocidental, ainda ocorrem no século 13 a filosofia bizantina, no Oriente Grego, e a filosofia árabe, tanto no Oriente, como na África do Norte e na Espanha. Todas mantém alguma influência sobre a escolástica latina. A inversa também começa a acontecer; o caso de Raimundo Lulo, um filósofos cristão empalado na Tunísia, parece dizer, todavia, que o contato não era fácil e estava ainda em termos de ação missionária. Quanto ao Extremo Oriente não acontece ainda qualquer ligação com o pensamento ocidental.
 

 
 
 


ART. 1-o. ESCOLÁSTICA AGOSTINIANA,
DO SÉCULO TREZE. 2216y283.


 

283. O neoplatonismo de Agostinho de Hipona adentra o século 13 com os religiosos franciscanos, destacando-se Grosseteste, como tradutor, Alexandre de Hales, como grande mestre; cresce ainda mais a importância franciscana com São Boaventura. Mas há também uma ordem denominada Eremitas de Santo Agostinho, fundada em 1260, e na qual todavia foi introduzido por Gilles de Roma tomismo.

São igualmente da escola agostiniana, e portanto antitomistas, vários dominicanos; foram de certo modo discípulos de São Boaventura, porque cronologicamente imediatos no tempo: Mateus de Aquasparta (1235-1302), depois cardeal; John Peckam (+ 1292), arcebispo de Cantuária; Pedro de João Olivi (1248-1298); Guilherme De La Mare (+ 1298); Ricardo de Midletown (Midleton, ou Mediavilla) (c. 1249-1308); Rogério Marston (discípulo de J. Pecham).

 

É peculiar ao agostinianismo a concepção platônica da matéria e forma, como componente de todas as criaturas, inclusive espirituais; a teses da pluralidade das formas substanciais; a existência de elementos seminais (rationes seminales) na matéria, a partir de onde se vão fazendo as transformações e de certo modo também a evolução; o racionalismo, pelo qual a mente é capaz de pensar sem tomar os objetos da experiência; o iluminismo, pelo qual os universais surgem de uma iluminação divino-natural. O aristotelismo combate à todas as teses agostinianas apresentadas.
 

284. Roberto Grosseteste (c.1168-1253). Teólogo escolástico inglês, nascido em Stradbrook, Suffolk. Padre da ordem dos franciscanos. Foi o primeiro mestre de fama internacional da Universidade de Oxford, que há pouco se estabelecia e ganhara desenvolvimento. Em 1199 há uma primeira notícia de que Grosseteste lecionava em Oxford. Durante a crise da universidade, que demora pelos anos de 1209 a 1214, estudou teologia em Paris. De retorno, foi estabelecido em 1214 chanceler da Universidade de Oxford. Ensinou teologia até 1235, quando foi nomeado bispo de Lincol, sem deixar todavia seu empenho pelos estudos teológicos, científicos e traduções do grego ao latim. Ele mesmo traduziu a Ética a Nicômaco de Aristóteles e as obras de Dionísio o Areopagita.

Doutrinariamente Grosseteste foi um agostiniano, sendo todavia mais conhecido pela sua diretriz científica, bem como pelas suas realizações neste campo. Atentos à distinção entre filosofia das ciências e a mesma ciência, importa dizer que tratou, no primeiro campo, da filosofia das ciências, destacando a importância das ciências experimentais; no segundo, cuidou de fazer a ciência experimental. Sua orientação para a ciência experimental não quer dizer que fazia uma filosofia experimental; efetivamente, foi um filósofo agostiniano. O mesmo se deverá dizer de seu discípulo Rogério Bacon.

Obras: Comentários a Aristóteles (especificadamente aos Segundos analíticos, as Conclusões sofísticas, aos 8 Livros da Física, notadamente da Ética a Nicômaco, a qual traduziu e fez acompanhar de notas); Comentários aos livros de Dionísio. Escreveu ainda Exaêmeron, sobre a obra dos seis dias. E opúsculos, que em conjunto formariam um livro: Das artes liberais (De artibus liberalibus); Da geração dos sons (De generatione sonorum); Da esfera (De sphaera); Da geração das estrelas (De generatione stellarum); Dos cometas(De cometis); Da impressão do ar ou do prognóstico (De impressionibus aeris seu de prgnosticatione); Da luz ou início das formas (De luce seu de inchoatione formarum); Sobre o homem menor que o mundo (Quod homo sit minor mundus); Das linhas, angulos e figuras ou das frações e reflexões dos raios (De lineis, angulis et figuris seu de fractionibus et reflexionibus radiorum); Da natureza dos lugares (De natura locorum); Da iris, ou da iris e espelho (De iride seu de iride et speculo); Da cor (De colore); Do calor do sol (De calore solis); Das diferenças locais (De differentiis localibus); Da impressão dos elementos (De impressionibus elementorum); Do movimento local e luz (De motu et luce); Do movimento superceleste (De motu supercaelestium); Da finitude do movimento e do tempo (De finitate motus et temporis); Da única forma de tudo (De unica forma omnium); Das inteligências (De intelligentiis); Do estado das causas (Statu causarum); Da potência e ato (De potentia et actu); Da verdade (De veritate); Da verdade das proposições (De veritate propositionis); Da ciência de Deus (De scientia Dei); Da ordem de emanação das coisas causadas por Deus (De ordine emanandi causatorum a Deo); Do livre arbítrio (De libero arbitrio).
 

285. Alexandre de Hales (c.1180-1245). Notável filósofo escolástico inglês, nascido em Glocestershire. Estudou no mosteiro de Hales, de onde lhe adveio o nome. Completou estudos na Universidade de Paris, pela volta de 1210. Passou a lecionar a lecionar na mesma universidade. Em 1235 o rei da Inglaterra solicitou seus serviços na negociação de uma trégua com o rei Luís IX da França. Por este tempo ingressou na Ordem dos Franciscanos; aconteceu assim ter sido o primeiro representante desta ordem a lecionar na Universidade de Paris. (McMillan diz que o ingresso na Ordem se deu em 1222, Cayré e Thonnard em 1231).

É um agostiniano, mas já com elementos aristotélicos, que permitem chamá-lo as vezes de eclético. Foi o primeira escolástico medieval a fazer uso total de Aristóteles, ainda que permanecendo com o platonismo agostiniano nas questões mais polêmicas. Conservou a tradicional doutrina da composição hilemórfica das criaturas espirituais (anjos e alma humana); mas esta matéria das criaturas espirituais não contém os defeitos da corrupção e do movimento local. Também é agostiniano quando admite a iluminação para conhecer os espíritos, sobretudo Deus; entretanto, para o conhecimento das coisas corpóreas, basta a abstração, segundo Aristóteles. Deus é conhecido por argumentos e também é uma noção inata.

Escreveu: Suma do irmão Alexandre (Summa fratris Alexandri), obra de autoria hipotética, deixada incompleta, em que parte foi realizada por Guilherme de Meliton, obedecendo a divisão do livro das Sentenças de Pedro Lombardo; Glosas sobre os 4 livros das Sentenças (Glossa in quatuor libros Sententiarum), com cerca de 200 questões elaboradas. Perderam-se os comentários aos livros bíblicos e aos de Aristóteles.
 

286. Robertus de Valle Verby Kilwardby (c. 1200-1279).
Teólogo e filósofo inglês. Ingressou na ordem dos padres dominicanos. Estudou em Oxford. Nomeado mestre de artes na Universidade de Paris. Foi mestre de teologia na Universidade de Oxford, de 1248-1261. Provincial de sua ordem na Inglaterra, de 1261-1272. Arcebispo de Canterbury, de 1268 a 278, vindo a falecer no ano seguinte em Viterbo, Itália. Pertenceu ao grupo dos primeiros dominicanos a exercerem o magistério em Oxford, onde se opôs às inovações de Tomás de Aquino, aliás 25 anos mais jovem do que ele. Foi o mais representativo agostiniano de sua ordem, em seu tempo. Ajudaram-no o vigor de seus escritos e os cargos que ocupou.. A condenação de 30 teses (entre elas tomistas), em 1877, se deveu em parte em virtude de sua influência, como superior da ordem e como arcebispo, e ao arcebispo Estevão Tempier, mas este procedente do clero secular. Todavia, já no ano seguinte, os tomistas ganhavam a questão dentro de sua ordem dominicana.

Obras: Comentários a obras de Porfírio, de Aristóteles, às Sentenças de Pedro Lombardo. E ainda ensaios diversos: Do nascimento e divisão das ciências (De ortu et divisione scientiarum); Do espírito imaginativo (De spiritu imaginativo); Do tempo (De tempore); Da unidade das formas (De unitate formarum); Da natureza da relação (De natura relationes); Da consciência (De conscientia); Da teologia (De theologia); Da imagem e vestígio da Trindade (De imagine et vestigio Trinitatis).
 

287. Rogério Bacon (c.1214-1294). Filósofo escolástico e cientista inglês, nascido perto de Ilchester, Somerset. Estudou primeiramente em Oxford, como discípulo de Grosseteste, do qual recebeu o gosto pela ciência experimental. Tornou-se padre em 1233. Está em Paris de 1236 até 1247, onde continuou as experiências, ao mesmo tempo que contestando o caráter meramente especulativo de professores e alunos. Retornado à Inglaterra, ingressou na Ordem Franciscana. Lecionou em Oxford, até ser impedido em 1257. Segunda vez em Paris, repetiram-se as resistências por parte dos seus superiores, que acabaram por afastá-lo do magistério. Reabilitado por algum tempo pelo papa e amigo Clemente IV (1265-1269), mais uma vez esteve sujeito a sérios impedimentos e condenações. Em 1268 está de volta a Inglaterra, praticamente prisioneiro. Rogério Bacon advertiu contra o erro da autoridade, e não contra ela em si mesma.

Foi um reformador e não um revolucionário. Foi mesmo um tradicionalista em teoria do conhecimento, combinando a iluminação agostiniana com o inteleto agente universal de Avicena. De outra parte, advertiu que muito ainda falta por saber. Criticou os métodos da teologia de seu tempo. Ponderou que aos antigos é necessário estudar diretamente nos idiomas nos quais escreveram; por isso reclamou o estudo do latim, grego, hebraico.

Fazendo filosofia das ciências, destacou a importância das ciências profanas, sobretudo das experimentais; não se deve confundir esta advertência em favor da ciência experimental, como uma diretriz científica de sua filosofia, a qual era, como se disse, agostiniana. Defendeu como base destas a matemática, cujo primado defendeu. Lamentou que a universidade de Paris e Alberto Magno sequer se conscientizam de a estarem ignorando. Dada a importância que em Oxford Grosseteste dava aos efeitos da luz, Rogério Bacon insistiu também no estudo da ótica, imediatamente após a matemática. Na seqüência também reclamou as demais ciências experimentais, completando-se finalmente com as ciências da razão, com a teologia no topo. Usou a primeira vez a expressão "ciência experimental". Incompreendido, foi acusado de mágico e herético.

Obras: Obra maior (Opus major,1268), em 7 partes, sobre a causa da ignorância, relação entre filosofia e teologia, importância das línguas, da matemática, da ótica, da ciência experimental, da filosofia moral; Obra menor(Opus minus, 1267), resumo da anterior, mas de que sobra apenas um fragmento; Obra terceira (Opus tertium, 1267-1268), sinopse detalhada da obra principal, oferecida ao Papa que o protegia; Compêndio de estudo da teologia (Compendium studii theologiae).

288. Henrique de Gand (ou Henricus de Gandavo, ou Gandavensis) (c. 1217-1293), Doctor solemnis e Summus doctorum. Filósofo escolástico nascido em Gand (Ghent, em flamengo), da Bélgica flamenga. Ingressou no clero secular, havendo sido arquidiácono em Bruges (1276), depois em Tournai (1279). Mestre em Artes. Mestre de Teologia em 1275, em Paris. Lecionou ali, de 1276 a 1292. Havendo exercido o magistério superior com notável prestígio, destacou-se com um dos teólogos seculares mais notáveis. Exerceu também funções na Universidade. Pertenceu à comissão que arrolou as questões condenadas em 1277, pelo arcebispo e Chanceler E. Tempier.

Num tempo em que estava acesa a questão entre aristotélicos (tomistas) e platônicos (agostinianos), se comportou com moderação, situando-se como um eclético, todavia mais para o lado agostiniano; inversamente, Godofredo de Fontaines, também citado como um eclético, fora todavia mais aristotélico-tomista. Quando se diz que fora contra o aristotelismo, pode-se inverter a situação, fazendo-o um aristotélico eclético.

Admitiu a doutrina da iluminação, que é agostiniana. Negou a distinção real de essência e existência, em que foi, portanto, contrário a Tomás de Aquino; com isso introduziu a distinção formal e pressagia Duns Scotus. Também contra Tomás de Aquino estabeleceu a impossibilidade da criação desde toda a eternidade; contra ele também defendeu o voluntarismo divino (superioridade absoluta da vontade sobre a inteligência e sobre as essências eternas), nisto mais uma vez se antecipando a Duns Scotus. O exemplarismo platônico é destacado, mas aqui também Tomás de Aquino aderira a Platão. Admitiu a unidade das formas, proposição tomista, contra os agostinianos. Enfim, foi Henrique de Gand influenciado por Avicena, que é um aristotélico com elementos neoplatônicos.

Obras: 15 questões em forma de Quotlibeta mais tarde impressas sob o título Quotlibeta do mestre Henrique Gandavo, doutor solene de Gand (Quotlibeta magistri Henrici Goethalis a Gandavo doctoris solemnis, 2 vols., Paris, 1518; uma Suma teológica, da qual é autor apenas do prólogo e do primeiro tratado, este sobre Deus, impressa mais tarde sob o título Suma de questões ordinárias (Summa quaestionum ordinarium), impressa em Paris, sob o título Summa quaestionum ordinariarum 1520, com requentes reedições); e outros textos, que ficaram por muito tempo inéditos.

289. São Boaventura (1221-1274). Teólogo e filósofo escolástico italiano, nascido em Bagnorea, perto de Viterbo, Toscana. Seu primeiro nome fora Jean Fidanza. Entrou para a ordem franciscana cerca do ano 1243. Em Paris estudou teologia, sob Alexandre Hales, de orientação platônica e agostiniana, que Boaventura também conservará. Começou a lecionar em 1248, comentando as Escrituras sagradas e as Sentenças de Pedro Lombardo. Doutor em 1257. Cessou de lecionar aos 36 anos, quando eleito chefe geral de sua ordem; cardeal da igreja em 1274, morrendo já no ano seguinte durante o Concílio de Lyon.

Conservador moderado, foi um platônico agostiniano, receptivo todavia à tese aristotélica de ato e potência.

Menos raciocinativo que Tomás de Aquino, foi mais afetivo, à semelhança de Agostinho de Hipona.

Na sua doutrina Deus é atingido por três vias. A primeira é a da constatação imediata, qual seja o fato da aspiração natural à sabedoria e à felicidade, que pressupõe o conhecimento de Deus. A segunda via é a da causalidade, pela qual este mundo é interpretado como efeito da causa divina. A terceira via é a da idéia de um ser perfeito, que, conforme a prova alegada por Santo Anselmo, supõe que Deus existe, como sendo o referido ser perfeito. O misticismo de Boaventura não é a rigor intuicionista (como o dos intuicionistas modernos, que equivocadamente o invocaram como do seu lado), porque Deus é alcançado racionalmente, pelas três vias, e por este caminho é contemplado e vivenciado: "cognoscere Deum per creaturas hoc est proprium viatorum" (In Sent. Dist. III, P. I, Q. 3) Boaventura destacou a doutrina exemplarista de Platão: todas as coisas são inteligíveis porque feitas segundo as idéias exemplares de Deus. Conservou a doutrina agostiniana de que todas as criaturas, mesmo espirituais, se compõem de matéria e forma, ainda que a matéria dos espíritos seja de outra ordem que a dos corpos. Também conforme ao agostinianismo, os conhecimentos gerais e princípios da moral surgem por iluminação divino-natural, independendo pois de um conhecimento a partir de uma abstração tomada ao ser sensível.

Obras: Comentários as Sentenças de Pedro Lombardo, obra principal; Questões disputadas (Quaestiones disputatae); Itinerário da mente a Deus (Itinerarium mentis ad Deum); Sobre a redução das artes a teologia (De reductione artium ad theologiae).

290. Mateus de Aquasparta (1235-1302). Teólogo e filósofo escolástico italiano, nascido perto de Todi, Úmbria. Ingressou cedo na ordem dos franciscanos, que o envia a completar estudos em Paris. Mestre de teologia, em 1276. Na Cúria Romana de 1279 a 1287, quando foi eleito Ministro Geral de sua ordem. Cardeal em 1288. Três anos depois, 1891, bispo de Porto. Morreu em Roma.

Seguiu o agostinianismo, como em geral os demais de sua ordem, na forma desenvolvida por Boaventura: hilemorfismo universal dos seres criados (incluindo os espíritos), potencialidade não total da matéria, pluralidade das formas, a iluminação da inteligência (em separado do conhecimento sensível), isto é, dos primeiros princípios, de Deus (idéia inata), da lei natural. Admite também a primazia do inteleto em relação à inteligência (?). De outra parte, aceita do aristotelismo a doutrina de união da alma como forma substancial do corpo, e também a teoria da abstração. Sustentou também o poder ilimitado do papa.

Escreveu: Comentário das Sentenças (.....), do qual o único texto subsistente ficou praticamente ilegível; Questões disputadas (Quaestiones disputatae), de que se fizeram modernamente publicações com maior ou menor número de questões; Sermões (editados em 1962, Quarachi).

  

291. John Peckham (ou Pecham) (c. 1240 - 1292). Filósofo e teólogo inglês, n. em Pecham(?). Franciscano. Mestre em Oxford e em Paris. Arcebispo de Canterbury, como sucessor de Roberto Kilwarby; como este em 1277, ele passou a novas condenações em 1286, valendo-se de seu cargo.

Seguiu a diretriz agostiniana, como já acontecia com Boaventura, e em consequência se opôs claramente ao aristotelismo, então difundido por Tomás de Aquino. Destacou-se como fomentador do movimento antitomista da escola de Oxford. A matéria poderia subsistir, sem a forma, com o detalhe de que Deus poderia tê-la criado sem a forma. No que se refere às verdades supremas, importa o auxílio de Deus para serem atingidas.

Obras: Quaestiones quodlibeticae; Super magistrum Sententiarum. De cunho científico: Perspectiva communis; Tractatus spherae; Theoria planetarum; Mathematica rudimenta. Inventada a imprensa, fizeram-se edições, em épocas diferentes, dos textos mais apreciados.

(Vd F. Mora)

  

292. Pedro João Olivi, ou Pierre de Jean Olieu (c. 1248-1298). Filósofo e teólogo escolástico, francês, n. Em Sérignan, Languedoc. Da ordem dos franciscanos. Estudou em Paris, onde também lecionou, e depois em Poitiers. Foi também mestre dos "espirituais" em Provence. Morreu em Narbona.

Um dos principais representantes do movimento dos "espirituais", ocorrido entre os franciscanos, e que acreditava no estabelecimento do reino do Espírito Santo. Rigorista, pregou a extrema pobreza. Os espirituais, da estrita observância franciscana, obedeciam a teorias diversas, das quais uma é a de Pedro Olieu. Finalmente, o grupo como um todo, estava próximo, ao mesmo tempo que se distinguia, de movimentos similares, como o dos amauricianos, Joaquinitas, irmãos apostólicos, fraticelos. Todas estas escolas de espiritualidade da Idade Média foram em algum momento atingidas pelas condenações da Igreja Romana. A doutrina de Pedro Olieu foi em 1311 declarada herética pelo Concílo de Viena, Delfinado. Defendendo um misticismo radical, foi adversário do estudo profano. O papa João XXII também o condena em 1317.

Combateu, sem o mencionar, a Tomás de Aquino. Encontra-se na tradição agostiniana, peculiar à ordem franciscana; todavia diverge em vários pontos essenciais ao agostinianismo. Partindo da doutrina (não aristotélica e não tomista) da pluralidade das formas, estabeleceu que a alma inteletiva não é forma imediata do corpo humano, mas o informa através da parte sensível. Se esta informação se desse diretamente, a parte inteletiva tornaria o corpo imortal. De outra parte reconheceu que a doutrina da iluminação divino-natural, de Agostinho, oferecia dificuldades. No que se refere ao movimento dos corpos, tentou solução diferente da de Aristóteles.

Obras: Apostila sobre o Apocalipse (Postila in Apocalipsim), citada com destaque; Quodlibeta (impressa em Veneza, 1509); Quaestiones in II librum Sententiarum (impresso em 3 vols.,Quarachi, 1922-1926). E mais obras não impressas: Quaestiones, Quodlibeta, Postillae, sobre temas bíblicos, além de opúsculos sobre espiritualidade.

  

293. Guilherme de la Mare (+1298). Teólogo e filósofo escolástico inglês, de que se tem noticia haver atuado entre 1285-1296. Membro da ordem dos franciscanos. Amigo de outro franciscano erudito Rogério Bacon. Ensinou em Paris. Presume-se que também em Oxford.

Contrariando ao tomismo, apontou para 118, ou mesmo 123 correções a fazer nos livros de Tomás de Aquino. Seguiu o misticismo platônico-agostiniano de São Boaventura. Espírito crítico, prenuncia Duns Scoto.

Obras: Corretório do irmão Tomás (Correctorium fratis Thomae), escrito logo depois das condenações, de 1277, pelo arcebispo Tempier, Chanceler da Universidade de Paris, e antes do ano 1282, quando os franciscanos impõem este Corretório aos estudantes por ato de decisão a nível de Capítulo Geral da Ordem.

Autor ainda de comentário às Sentenças, de Quaestiones disputatae, além de alguns textos exegéticos.

  

294. Guilherme de Ware, ou Guarro ou Warro) ( - fal. Depois de 1300). Pouco se sabe dele. É autor de um Comentário às Sentenças de Pedro Lombardo. Rejeita doutrina agostiniana da iluminação divino-natural dos conceitos mais universais. Igualmente afasta a doutrina da composição dos espíritos por matéria especial.

  

295. Guilherme de Auxerre (c. - 1237). Teólogo e filósofo escolástico francês. Arquidiácono de Beauvais. Depois mestre de teologia em Paris. Tendo o papa Gregório IX renovado em 1231 a proibição de ensinar a doutrina de Aristóteles, criou uma comissão, a qual pertenceu Guilherme de Auxerre, para revisar as obras proibidas, e as adatar ao ensino. Morreu pouco depois e a comissão repressiva foi de pouco efeito; mas continuarão por todo o século as investidas dos agostinianos contra a penetração do aristotelismo em física e em metafísica. O mesmo Guillaume de Auxerre se deixou influenciar por Aristóteles; contudo pelos seus métodos e princípios continuou sendo dominantemente um agostiniano.

Obra: Suma de ouro (Summa aurea), muito lida na Idade Média, que é um comentário as Sentenças de Pedro Lombardo, havendo sido publicada em 1500, quando apenas era inventada a imprensa.

  

296. Guilherme de Saint-Amour ( ? - 1272). Teólogo e filósofo escolástico francês, do clero secular (não ligado as ordens religiosas). Mestre da Universidade de Paris.

Encabeçou, juntamente com Geraldo de Abbeville, a luta contra as ordens religiosas em geral e da penetração de seus mestres na universidade. Dizia, em seu escrito Do perigo dos últimos tempos (De periculis novissimis temporum), 1256, que as ordens mendicantes exerciam uma vida contrária à moral e à religião, que só pela contemplação e estudo não conseguiriam a salvação eterna, razão porque deveriam ser supressas. No ano seguinte o papa Alexandre IV condenou sua tese. Mas a questão prosseguiu, com novos ataques e defesas dos mesmos religiosos. Tomás de Aquino respondeu com um opúsculo Contra impugnadores do culto divino (Contra impugnantes Dei cultum, 1257).

  

297. Ricardo de Middletown (ou Mediavilla) (c. 1249 - c. 1307-8), filósofo e teólogo escolástico inglês, n. provavelmente em Middletown. Iniciou estudos em Oxford, concluindo-os em Paris. Religioso franciscano. Lecionou em Paris, de 1284 a 1287. Foi preceptor dos filhos de Carlos II, em Nápoles.

Destacou a experiência, inclusive a interior. Discípulo ainda de São Boaventura, mas com aproximações à doutrina aristotélica e tomista. Aceitou, por exemplo, a doutrina aristotélica do inteleto agente, por intermédio do qual se processa a abstração e se alcançam os universais; conservou do agostinianismo a matéria espiritual, a pluralidade das formas substanciais, a impossibilidade da criação ab eterno. Estudou também o hipnotismo, apontando para os efeitos da auto-sugestão, telepatia, lúcidas durante o sono, - tudo como fenômenos naturais.
Obras: Questões disputadas (Quaestiones disputatae); Três quodlibets (Quodlibeta tria); Comentário sobre o IV livro das Sentenças (Commentatum super IV Sententiarum); Do grau das formas (De gradu formarum). Vários textos foram editados em Veneza, tão logo se inventou a imprensa.

   

298. Rogério Marstons, discípulo de John Peckham, e vários outros de que se tem conhecimento, mostram a exuberância do pensamento agostiniano no decurso do século 13. Rogério foi adversário intransigente do aristotelismo de Tomás de Aquino, como se vê em seu Quaestiones disputatae (Quaraschi, 1932).

  

299. Pedro de Maricourt (sec. 13). Filósofo e alquimista francês, nascido (?) em Maricourt, Picardia. Da Escola de Chartres. Atuou na metade do século 13 (?), havendo sido mestre (?) de Rogério Bacon, cujo experimentalismo influou. Manteve-se conhecido por causa dos elogios deste, que lhe teceu elogios no Opus tertium sobre seus conhecimentos experimentais.

Presume-se que fosse um agostiniano. Destacou a importância da experiência, para conferir as proposições resultantes da filosofia natural e do cálculo matemático (Epist. de magnete I,2). Neste sentido é considerado um dos precursores da moderna ciência da natureza. Sobre o magnete será superado só em 1600 pelas experiências citadas no livro de W. Gilbert, que entretanto o cita várias vezes .

Obras: Carta sobre o magnete (Epistola de Magnete, 1269, impressa em Eugsburg, 1558; Nova composição do astrolábio .... (Nova compositio astrolabii particularis).

 

 


ART. 2-o. MOVIMENTO ARISTOTÉLICO
- TOMISTA DO SÉC. TREZE. 2216y300.


 

300. Anteriormente conhecido quase apenas pela sua lógica, transmitida sobretudo através de Boécio e Cassiodoro, passou Aristóteles ao centro das discussões do século 13, com o desdobramento que sua filosofia veio a ter, por causa da divisão interna dos mesmos aristotélicos e ainda por causa da oposição externa a qualquer aristotelismo.

No que concerne à divisão interna, veio a destacar-se aquela que adatou o aristotelismo ao espírito da filosofia cristã; este trabalho foi realizado com bastante brilho, principalmente por Guilherme de Alvérnia, Alberto Magno, sobretudo por Tomás de Aquino, passando a história principalmente sob a denominação de tomismo, referência à este último.

Depois de Tomás de Aquino, ainda no mesmo século 13 se arrolam alguns tomistas: Pedro de Tarantaise (1225-1276); Vicente de Beauvais (+ 1264); Gilles de Lessines; Herveu de Nédellec (+1323).

 

I - PRIMEIROS ESCOLÁSTICOS ARISTOTÉLICOS. 2216y301.

 

301. Guilhaume d'Auvergne (ou Guilherme de Alvérnia) (c. 1190-1249). Filósofo e teólogo escolástico francês, do clero secular, nascido em Aurillac. Foi o primeiro grande aristotélico da Universidade de Paris, como o franciscano Grosseteste em Oxford. Guilherme de Auvergne foi também bispo de Paris, de 1228 a 1249, razão porque também é mencionado como Guilherme de Paris.

Dentre suas teses tipicamente aristotélicas está a afirmação de que nas criaturas espirituais ocorre apenas forma; já os agostinianos faziam a toda criatura ter esta composição, ainda que no caso da alma e dos anjos a matéria dever ser de ordem diferente da matéria corpórea. Guilherme de Alvérnia mantém ainda do agostinianismo a iluminação divino natural para o surgimento dos universais. Continuou a escrever suas obras mesmo depois de nomeado bispo, sendo cerca de 30 monografias: Mestre divino (Magistrum divinale), título que se deu de uma edição em dois volumes, em 1674, reunindo as seguintes monografias e que dispersivamente tratam de Deus, alma, mundo: Censura de erros detestáveis (Censura detestabilium errorum); Tratado da Santa Trindado e dos atributos divinos (Tractatus de Santa Trinitate et atributis divinis); Da alma (De anima); Do penitente (De penitentis); Da colação dos benefícios eclesiásticos); Livro sobre a divina retórica (Liber de rhetorica divina); Livro sobre a fé e as leis (Liber de fide et legibus); Sobre o universo (De universo). Anotamos ainda os títulos: Tratado dos demônios (Tractatus de demonibus); Do claustro da alma (De claustro animae); Sobre o dom da ciência (De dono scientiae); Da profissão dos noviços (De profissione novitiorum); Sobre o bem e o mal (De bono et malo); Sobre o primeiro princípio (De primo principio). Ainda comentários aos libros bíblicos: Salmos, Provérbios de Salomão, Eclesiastes, Cântico dos cânticos, Evangelho de Mateus e outros textos. Deixou também 530 sermões.

302. Alberto Magno (1196,ou 1206-1280), Doctor universalis. Um dos mais notáveis escolásticos medievais, teólogo e filósofo, naturalista e místico, alemão, nascido em Lauingen (Bollstädt), Suábia (diocese de Augsburgo, Baviera), na família senhorial Bollstädt. Em decorrência de sua origem privilegiada, pôde ir estudar na Itália, 1222, frequentanto os cursos de Bolonha e Pádua, onde então nasciam as primeiras universidades. Mas, ingressando em 1223 na Ordem dos dominicanos, retornou pouco depois à Alemanha, continuando os estudos em Colônia. Em 1240 foi cursar teologia em Paris, exercendo-se ali também como mestre regente, de 1242 a 1248. Ali teve como discípulo a Tomás de Aquino. Com este voltou para Colônia, com a incumbência de estabelecer um Estudo Geral Studium Generale, da Ordem Dominicana. Em 1254 foi eleito superior geral de sua Ordem. Bispo de Regensburg em 1261, renunciou todavia já no ano seguinte. Lecionou em várias casas da ordem. Bispo que era, participou no Concílio de Lyon, 1274, para o qual também vinha, procedente da Itália, Tomás de Aquino, que, entretanto, morreu no curso da viagem.

Sem deixar todas as doutrinas platônicas e agostinianas, nem suas tendências místicas, Alberto aderiu a importantes doutrinas da filosofia de Aristóteles, a ponto de ser considerado um aristotélico, havendo efetivamente contribuído para a sua divulgação. Aceitou de Aristóteles que a alma é forma pura (apenas forma); a alma é simples, sem ser composição de forma e matéria subtil, neste particular opondo-se pois a posição platônico-agostiniana, para a qual somente Deus não contém matéria. De outra parte, contra Aristóteles e contra Tomás de Aquino, asseverou que a alma não é substância incompleta a se completar com o corpo; a alma seria forma do corpo, mas não apenas forma do corpo. Afrontou também o aristotelismo averroista, referente a unidade do inteleto humano, cumprindo solicitação do papa Alexandre IV, em 1256. Dedicou-se também aos estudos da natureza,- botânica, física, astronomia, - advertindo para o caráter experimental de várias ciências. Foi também um místico, fazendo parte de uma seqüência de misticistas, que atravessará toda a Idade Média, desembocando no fenômeno dos místicos modernos.

Escreveu muito, atingindo suas modernas edições completas mais de 30 volumes. Grande parte de sua obra consiste em comentários ampliadores de outras obras, principalmente de Aristóteles, Porfírio, Euclides, Pseudo-Dionísio. Fez com grande abundância citações de autores bíblicos, patrísticos, gregos e árabes. Obras: Suma sobre as criaturas (Summa de creaturis), escritas entre 1240-1249; Comentário sobre as Sentenças (.... ....), 1244-1249; Enciclopédia filosófica (.......... ), 1254-1270, cerca de 8 vols. nas edições modernas, em que retraça em língua latina o conteúdo dos livros antigos, sobretudo de Aristóteles, com o auxílio do saber posterior, sobre lógica, física, matemática, metafísica; Suma teológica (Summa theologiae, 1270, incompleta; Da unidade do inteleto contra Averróis (De unitate intellectus contra Averroem); Dos quinze problemas (De quindecim problematibus), opúsculo referente a proposições averroistas, dentre as quais 13 foram condenadas em 1270 pelo bispo chanceler da Universidade de Paris, Tempier; Das causas e processão dos universais (De causis et processu universitatis).

303. Pedro Hispano (entre 1205 e 1210 - 1277). Filósofo escolástico, n. em Lisboa. Pelo seu nascimento é também dito por alguns cronistas Pedro Hispano Portucalense. O nome originário é Pedro Julião, passando a ser conhecido por Pedro Hispano possivelmente em Paris, onde estudou. Mas seus estudos de medicina, talvez tenham ocorrido em Salerno, Itália. Neste país lecionou medicina em Siena. Como clérigo exerceu a função de Deão em Lisboa. Arcebispo de Braga, no norte de Portugal. Cardeal bispo de Túsculo, na Itália. Por último, em 1276, eleito Papa, todavia já no ano seguinte vitimado pelo desabamento do teto de uma das salas do palácio.

Alinha-se com o pensamento aristotélico. Solicitara informações ao arcebispo de Paris sobre as doutrinas averroistas então em voga entre os aristotélicos. Escrevendo embora também sobre medicina, tornou-se contudo notável didata da lógica.

Obras: Sumulas de lógica (Summulae logicales); Ciência do livro Da Alma (Scientia libri De anima); Exposição do livro Da alma (Expositio in De anima); Exposição dos livros de São Dionísio (Expositio librorum beati Dionysii); Tesouro dos pobres (Thesaurus pauperum), médico.

 

II - Tomás de Aquino (1225-1274), em especial. 2216y304.

 

304. Filósofo escolástico medieval, conhecido também como Doctor Angelicus. Legítimo europeu, de origem alemã pelo lado paterno, normando pelo lado materno, nascido italiano, no Castelo de Rocca Secca, dos Condes de Aquino, esta uma pequena localidade perto de Nápoles. Teve educação latina na Itália, francesa em Paris, alemã em Colônia. Feitos estudos de filosofia na universidade de Nápoles, seguiu em 1245 para Paris, agora como ingresso na ordem dos dominicanos, contrariando a vontade de seus progenitores. Teve uma atuação expressiva em diversos estabelecimentos de ensino, ao mesmo tempo que uma produção abundante, em um curto espaço de vida, de apenas 49 anos.

Em 1248 colaborou com Alberto Magno na fundação dos Estudo s Gerais (Studium Generale), de Colônia, na Alemanha, até retornar em 1252 a Paris. Obtém o grau de mestre em 1257, o que lhe facultava ensinar agora publicamente. Entretanto já vinha lecionando desde antes no âmbito de sua ordem, e já produzira alguns textos. Atuou em Paris, de 1252 a 1259, onde seu principal magistério foi de 1256 a 1259. Seguiu para a corte pontifícia, lecionando na Itália de 1260 a 1268. De novo atua em Paris, de janeiro de 1269 a 1272, desta vez em forte conflito com o averroismo. Por último, passa 2 anos na Itália, - Anagni, Orvieto, Roma, Nápoles,- aqui até o começo de 1274, lecionando nos Estudos Gerais (Studium Generale), que ali estavam sendo instalados. Seguindo em março daquele ano de 1274 para o Concílio de Lyon, morreu no curso da viagem, prematuramente.

305. Metafísica tomista. Tomás de Aquino foi um aristotélico integral,
desde seu fundamento gnosiológico, dali seguindo para uma ontologia e teologia natural coerentes.
 

a) A gnosiologia aristotélica de Tomás é a do realismo, e este um realismo imediato. O que a faculdade do conhecimento recebe do objeto é uma impressão semelhante, ou seja, uma species impressa. Não é esta impressão o que por primeiro conhecemos, porque ela remete intencionalisticamente ao objeto assemelhado. Trata-se de uma causa formal, cujo efeito é o conhecimento. Somente depois se passa a conhecer, que o objeto foi causa da impressão. Aqui se diferencia a doutrina aristotélica e tomista daquela que defenderá o realismo mediato de Descartes; este faz conhecer o fenômeno, o qual conduziria ao objeto, porque o referido fenômeno é reconhecido como efeito causado pelo objeto.

Mas o problema gnosiológico típico então questionada era o nível de racionalismo. Tomás se estabeleceu num racionalismo moderado, como o de Aristóteles e Pedro Abelardo, com o ponto de partida no ser captado pela inteligência no âmbito do conhecimento sensível, de onde o abstrai, para a seguir caminhar para os novos resultados da especulação sem nunca ultrapassar o âmbito limitado do ser do sensível, senão por analogia com este. Rejeitou, portanto, o ponto de partida platônico, do agostinianismo, cujos princípios universais se desenvolviam independentemente do ser do sensível.

 
b) Em ontologia, o ser geral é alcançado apenas por analogia, porquanto o ponto de partida fora um ser particular. E assim também Deus, uma vez concebido como ser absoluto, sem qualquer limite, não é alcançado adequadamente pela inteligência humana, senão pela via analógica.
Divide Tomás, de acordo com Aristóteles, o ente em ato e potência, divisão que é real nas criaturas, e não pode ser real em Deus, no qual o ato e a potência são a mesma coisa. Deus tem como essência ser existência, porque também essência e existência não podem ser distintas em Deus.

 
c) Deus é atingido como princípio explicativo de fatos, que sem ele não se explicariam. Tais provas, supondo fatos a explicar, são portanto a posteriori. O argumento a priori, exposto por Santo Anselmo, é reduzido por Tomás de Aquino à uma passagem inconsequente da logicidade da idéia para a realidade.
Cinco são as vias que conduzem argumentativamente a Deus; são tantas as provas, quantas forem as espécies de fatos a explicar. A primeira via argumenta com o fato do movimento, o qual reclama um primeiro motor, que mova sem ser movido, conforme já advertia Aristóteles. A segunda via parte do fato das causas em seqüência, em cuja série tem de haver uma primeira causa incausada. A terceira prova considera o fato de que as coisas que se apresentam no mundo são contingentes e que, nesta condição, não existiriam, se não houvesse um ser não contingente; nesta via pode-se alegar a influência de Avicena. O quarto argumento, tipicamente platônico, alega os graus de perfeição constatados nos seres que conhecemos, e que postulam um grau máximo de perfeição. A quinta via, bem colocada como última por ser a mais contestável, toma como ponto de partida a ordem do mundo, dada como um fim intencional; de outra parte, como as coisas sem conhecimento não têm capacidade de querer um fim, deve-se admitir que a ordem do mundo prova a existência de um ordenador exterior a ele, - Deus.
O mundo foi criado, conforme a Bíblia, mas Deus o poderia ter criado desde toda a eternidade; aqui contrariava Tomás a doutrina dos agostinianos.

 

 
306. A filosofia da natureza, ou seja do ser criado, seja do espírito, seja dos corpos, de acordo com o tomismo, estabelece a distinção em matéria e forma como peculiar apenas à essência dos corpos. A referida matéria é inteiramente potencial; não contém alguns elementos determinados, como querem platônicos e agostinianos; não pode consequentemente diferenciar-se em várias espécies de matéria, como se uma fosse a matéria dos corpos e outra a matéria dos espíritos.

A multiplicação se procede a partir da matéria, que fica sendo portanto o princípio de individuação; por isso, a mesma forma se multiplica em muitos indivíduos materiais. Nos seres inteiramente espirituais não há matéria, ao contrário do que defende o agostinianismo. Consequentemente, os espíritos não se multiplicam na mesma espécie; cada anjo é de uma outra espécie. As almas humanas, por não terem matéria, somente se individualizam, porque, sendo substâncias incompletas, se completam como forma de seus respectivos corpos, os quais, por serem materiais, se individualizam. Mesmo depois de separadas, por efeito da morte, as almas continuam substâncias incompletas, e por isso diferenciadas individualmente umas das outras, e sempre referenciadas a um corpo.
 

307. A psicologia filosófica de Tomás de Aquino ofereceu notável desenvolvimento, no que se refere à explicação do processo cognoscitivo, dos impulsos volitivos e estados afetivos.
 

308. A moral se estabelece em função ao princípio geral de que o bem deve ser feito e do fato de termos um determinada natureza, com um fim específico, que portanto lhe é natural.
 

 
309. Com referência à política, Tomás retoma Aristóteles, com novas ponderações. A sociedade é natural, e trata do bem comum.

O poder político pode organizar-se em várias formas: ou monárquico, ou aristocrático, ou democrático. Em si mesmo, em absoluto, o monárquico é mais perfeito, dada a sua unidade. Eventualmente, as outras formas poderão funcionar melhor.

No caso de um mau governo, o papa pode desligar aos súbditos cristãos do dever de obediência; eis uma tese tomada de Gregório Magno. Não considerou Tomás a origem contratual da sociedade política, a partir de onde o desligamento de obediência se dá por si mesmo no caso de abuso de poder.
 

 
310. Em religião Tomás de Aquino se manifestou um homem profundamente religioso, no verdadeiro sentido metafísico, invocando a um Deus sem defeitos. Defendeu a harmonia entre filosofia e teologia, no sentido de que Deus é autor da ordem racional e também da revelação. Advertiu que, suposição que uma revelação seja verdadeira, não pode, em princípio, colidir com a verdadeira filosofia. Inversamente, suposta uma verdadeira filosofia, esta não pode contradizer uma verdadeira teologia. Na interpretação dada por Averroes, as duas verdades seriam possíveis Tomás de Aquino imprimiu uma generalizada aplicação das doutrinas de Aristóteles aos temas que interessavam ao teólogos medievais, criando por isso escola, não obstante fortes resistências dos agostinianos. Estes se reencaminharam sob a reformulação dada por Duns Scoto, cuja doutrina, apesar de não ser ainda aristotélica, é uma virada mais para o centro. Desde então tomismo e escoltismo dividirão dominantemente a escolástica.

 

311. As obras de Tomás de Aquino se apresentam por conjuntos. São chamados Opúsculos filosóficos: Do ente e da essência (De ente et essentia), primeiro texto importante, escrito entre 1254 e 1256; Das operações ocultas da natureza (De occultis operationibus naturae); Dos princípios da natureza (De principiis naturae); Da mistura dos elementos (De mixione elementorum); Do movimento do coração (De motu cordis); Da eternidade do mundo contra os descontentes (De eternitate mundi contra murmurantes), c. 270); Das substâncias separadas), depois de 1268; Da unidade do inteleto contra os averroistas (De unitate intellectus contra averroistas), 1270); Dos quatro opostos (De quatuor oppositis); Das proposições modais (De propositionibus modalibus); Da demonstração (De demonstratione); Das falácias (De falaciis); Da natureza do acidente (De natura accidentis);Da natureza do gênero (De natura generis); Da natureza da palavra do inteleto (De natura verbi intelectus); Da diferença da palavra divina e humana (De differentia verbi divini et humani); Da natureza da matéria (De natura materiae); Dos instantes (De instantibus); Do princípio de individuação (De principio individationis).
 

 
312. Destacam-se como obras principais as duas Sumas, a saber: Suma teológica (Summa theologica), de que as duas primeiras partes datam de 1266-1272; a terceira, de 1272 a 1274, completada pelo Sumplemento (Suplementum), de Reginaldo de Piperno; Suma contra os gentios (Summa contra gentiles), subentendendo-se Contra os árabes filósofos.

São importantes as obras didáticas: Questões (Quaestiones), de dois gêneros: Questões disputadas (Quaestiones disputatae), algumas de suas partes com importantes subtítulos; Questões quodlibetais (Quodlibeta).

Comentários: destaque inicial foi o Comentário aos quatro livros das Sentenças de Pedro Lombardo ( In quattuor libros sententiarum), datando de 1254 a 1256. Inovou nos comentários a Aristóteles, por sobre textos diretamente traduzidos do grego ao latim por Guilherme de Moerbeke: À Metafísica (In Methaphysicam); À Física (In Physicam); Sobre a alma (In De Anima), de 1268 a 1272), À ética a Nicômaco; À Política. Ainda: comentário sobre o Livro das causas (Liber de causis); comentário ao livro de Pseudo-Dionísio Dos nomes divinos (De divinis nominibus); comentário a livro de Boécio. Comentários exegéticos a livros bíblicos, do Antigo e Novo Testamento.

Escritos político-sociais: Do regime dos príncipes (De RegiminePrincipum), os dois primeiros livros, os restantes de Ptolomeo de Lucca; Do Regime dos Judeus (De Regimine judaeorum, 1262; Da compra e venda (De emptione et venditione, c. 1262). Além de opúsculos teológicos e escritos de espiritualidade.

 

III - Primeiros tomistas. 2216y313.

 

313. Entre os primeiros tomistas importa citar imediatamente:

Guilherme de Moerbecke (1215-1286). Filósofo e teólogo escolástico, nascido em Moerbecke, de Flandres. Nasceu antes de Tomás de Aquino e o sobreviveu. Destacou-se como primeiro grande tradutor direto do grego ao latim de parte considerável da obra de Aristóteles, havendo contribuído , como já o fizera em parte Grosseteste, para a melhoria dos estudos eclesiásticos. Ingressou na ordem dos padres dominicanos. Cedo estudou o grego e o árabe, capacitando-se para ir missionar no Oriente. Mas, encontrando em Viterbo, próximo de Roma, a Tomás de Aquino, este o induziu a traduzir Aristóteles. Dedicou-se a este trabalho de 1260 a 1285. Foi designado em 1281 arcebispo de Corinto, Grécia. Morreu pouco depois, em data não conhecida, tal como também não se sabe de sua data precisa de nascimento.
 
Obras: tradução do grego ao latim dos livros de Aristóteles Política, Retórica, Meteoros I e II, Metafísica L. ll; tradução de comentários gregos a Aristóteles da autoria de Alexandre Afrodísias, de Simplício, de Filopono, de Amônio, de Temístio: de textos de Proclus, cujos originais gregos desapareceram depois.

 

314. Reinaldo de Piperno, dominicano discípulo de Tomás de Aquino, que lhe terminou a Suma Teológica.

315. Ramon Marti (1220-1224). Filósofo e teólogo escolástico espanhol. Da ordem dos dominicanos. Difundiu o tomismo na Espanha. Autor de Espada da fé contra os mouros e judeus (Pugio fidei adversus mauros et judaeos), com referências ao Contra gentiles de Tomás de Aquino.

316. Pedro Tarantaise (1225-1276). Escolástico italiano, n. na Savoia. Religioso dominicano. Mestre em Paris, de 1259 a 1265. Provincial de sua Ordem. Arcebispo de Lyon em 1274. Pouco depois arcebispo de Óstia, Itália. Cardeal e, em 1276, eleito Papa, sob o nome de Inocêncio V, todavia morrendo ainda naquele ano.

Ainda que pertença à antiga escola dominicana, de formação anterior ao tomismo, já se encontra em sua ambiência, como contemporâneo do próprio Tomás de Aquino.

Obras: Commentário das Sentenças; Da unidade das formas (De unitate formae); Da matéria do céu (De matéria coeli); Da eternidade do mundo (De eternitate mundi); Do inteleto e vontade (De intellectu et voluntate) escreveu sobre filosofia, teologia e temas bíblicos.

317. Ricardo de Clapwel (sec. 13). Mestre em Oxford (c. de 1284-1286), a quem se deve a difusão do tomismo na Inglaterra.

318. Godofredo de la Fontaine ( - falecido após 1303), Doctor Venerabilis. Escolástico secular, nascido no principado de Liege, Bélgica. Foi discípulo de Tomás de Aquino, ao qual defendeu dentro dos limites permitidos pelas condenações eclesiásticas de 1277, por causa do "perigo de excomunhão", como diz em 1296. Combateu o anti-aristotélico Henrique de Gand. Recuperou em Paris, onde lecionou, a projeção dos mestres seculares, que haviam sido bastante deslocados pelo prestígio dos mestres religiosos. Será chamado Doutor Venerável (Doctor Venerabilis). Duns Scoto o citará muitas vezes. Ainda que tomista, Godofredo divergiu em teses importantes: rejeitou a distinção real entre essência e existência; transferiu o princípio de individuação da matéria para a forma; admitiu o pluralismo das formas no ser humano. Por isso, as vezes é classificado como eclético, tal como Henrique Gand, com a diferença que este está muito mais para o lado agostiniano.

Obra: Questões (Quodlibeta), 15 volumosas questões.

320. Pedro d'Auvergne, ou de Alvérnia ( - + 1304). Escolástico francês. Clérigo secular. Cônego de Paris, onde também foi reitor da Universidade em 1275. Arcebispo de Clermont (nesta condição citado como Pierre du Cros), de 1302 a 1304, quando faleceu. Tomista declarado.

Obras: deixou tratados explicativos sobre Aristóteles, dos quais se fez mais conhecido o sobre a Política, porque não havendo Tomás de Aquino comentado aquele livro, foi em seu lugar posto o de Pedro d'Auvergn

321. Gilles de Lessines (c.1230-1304). Teólogo escolástico francês. Frade da ordem dos dominicanos. Foi aluno e amigo de Alberto Magno, com o qual se saber haver trocado correspondência em 1270 e 1277. Tomista, se fez conhecido como um dos primeiros defensores das doutrinas de Tomás de Aquino, quando estas foram atingidas pelos decretos condenatórios de Kilwardby em 1277.

Obras, a saber opúsculos sobre questões tomistas: Sobre a unidade da forma (De unitate formae, 1278), sobre os decretos condenatórios mencionados; Da imediata visão de Deus (De immediata visione Dei); Da diferença entre ser e essência (De diferentia esse et essentiae); Da eternidade do mundo (De aeternitate mundi); Do inteleto e vontade (De intellectu et voluntate); Da usura (De usuris); Dos crepúsculos (De crepusculis); Sobre os tempos (De temporibus).

322. Ptolomeu de Lucques (ou Lucca) (1238-1326), na Itália, deu desenvolvimento ao tomismo, e prosseguiu o texto inacabado de Tomás de Aquino Do regime dos príncipes (Do regime dos príncipes).

323. Gilles de Roma, ou Egídio Romano (1247-1316), Doctor fundatíssimus. Da ordem dos Eremitas de Santo Agostinho (fundada em 1260), na qual introduziu o tomismo. Aluno de Tomás de Aquino, em Paris, quando este ali lecionava de 1269-1272. Para obter a Licentia docendi, isto é a licenciatura, ali por 1285, teve de se retratar de sua anterior opinião pela unidade da forma, retomando-a depois; acentuou também a distinção real entre essência e existência.

324. João de Paris, ou Quidort (= que dorme, dormiens) (c. 1269-1306). Filósofo e teólogo francês. Dominicano. Sabe-se que cerca de 1284comentou as Sentenças de Pedro Lombardo. Mestre de Teologia em Paris, de 1204 a 1205, quando foi destituído, tendo todavia apelado ao Papa Clemente V.

Tratou dos temas gerais da filosofia e teologia, na maior parte no contexto tomista. Apôs correções ao Correctorium criado pelo franciscano inglês Guilherme de la Mare (vd) sobre as doutrinas de Tomás de Aquino. Acentuou, contra os agostinianos, as doutrinas tomistas: a matéria não pode existir sem a forma; as almas não composição hilemórfica; os anjos não tem componente material, que há distinção entre essência e existência nos seres criados; não acontece pluralidade de formas no mesmo indivíduo.

Obras: Da transubstanciação do pão e do vinho no sacramento do altar (De transubstantione panis et vini in sacramento altaris); Do poder régio e papal (De potestate regia et papali); um Comentário sobre as Sentenças de Pedro Lombardo, e ainda um tratado sobre as formas, bem como as correções ao Correctorium de Guilherme de la Mare.

325. João e Geraldo de Sterngassen representam a continuidade do tomismo em colônia, Alemanha, onde há pouco atuara Alberto Magno, falecido em 1289.

326. Bernardo de Alvérnia, ou de Clermont, para onde fora nomeado bispo sem todavia tomar posse (+ 1307). Dominicano.

Tomista ao pé da letra. Redigiu Improbationes et impugnationes, contestando o ecletismo de Henrique de Gand, um agostiniano, com alguns elementos aristotélicos. Também reagiu às concessões feitas por alguns tomistas, por exemplo Gilles de Roma, Godofredo de Fontaines, um belga mestre em Paris.

327. Pedro de Abano (Pietro d'Abano) (1257-1315). Médico e filósofo italiano, n. em Alano, Pádua. Passando à Paris cerca do ano 1300, ali parece haver ensinado. Retornou em 1307 à Pádua, ensinando medicina e filosofia.
Ideologicamente é classificado como sendo da Escola de Pádua, de fundo aristotélico. Foi por alguns considerado averroista. Parece ter sido um conciliador. Praticou também a astrologia.

Obras: Conciliador das diferenças dos filósofos e principalmente dos médicos (Conciliator differentiarum philosophorum et praecipue medicorum, redigido cerca de 1310, impresso em Veneza, 1476); Exposição dos problemas de Aristóteles (Expositio problematum Aristotelis, impresso em Pádua, 1482); Livro .... ... (Li ber compilationis physonomiae, as vezes chamado Physiognomia, impresso em Veneza, 1482); Dilucidador da astronomia (Dilucidator astronomiae); ...... (Dioscorides); ..... (De materia médica); .... (Tractatus Hippocraticus medicorum optimi); ... (De aspectibus plantarum versus lunam).

328. Dante Alighieri (1265-1321) Poeta e político italiano, nascido em Florença. Estudou em Bolonha, frequentou uma escola de retórica, contatando os clássicos da literatura e da filosofia. Sua participação política em Florença, iniciada em 1295, se encerrou em 1300, quando seu partido foi derrotado. No exílio esperou em vão a recuperação.

Desenvolveu sua obra literária no contexto da filosofia tomista e da mitologia pagã combinada com a crença cristã. Menos pela profundidade, mais pela influência de sua linguagem, quer italiana, quer latina, Dante exerceu um papel importante no pensamento da Península e do Ocidente em geral.

Projetou a sociedade no estilo escolástico e ideológico medieval, em que o autor preconizou a dominação do mundo (a pequena Europa!), no domínio temporal pelo imperador do Sacro Império Romano Cristão e no espiritual pelo Papa que ungiria o referido imperador.

Obras, em italiano: A vida nova (La vita nuova, entre 1283 e 1292), com poesias e textos inspirados pelo amor de Beatriz Portinari; O banquete (Il convivio, entre 1306 e 1309), canções com fundo filosófico; Divina comédia (Divina commedia, entre 1307-1313), em que o adjetivo "divina" foi acrescido pelos editores, e em que a comédia é uma viagem do poeta aos 3 reinos da imaginação cristã, Inferno, Purgatório, Paraíso celeste, expressando epicamente o humanismo cristão antigo e medieval. Em latim: Sobre a língua vulgar (De vulgari eloquência, entre 1305 e 1306), em que recomenda o uso da língua falada pelo povo, no caso o italiano, para a poesia, conforme ele o fez; Da monarquia (De monarchia, cerca do ano 1310), tratado de filosofia política.

 

  


ART. 3-o. ESCOLÁSTICA ESCOTISTA. 2216y330.


 

330. Graças a uma inteligência subtil e eminentemente crítica, de João Duns Scotus, a escolástica agostiniana, afetada pelo impacto aristotélico-tomista, tomou rumo novo, e que veio a se fazer conhecer como escotismo, praticado particularmente pelos teólogos franciscanos. O escotismo teve a adesão mesmo de companheiros mais idosos.

331. João Duns Scotus (1266-1308). Teólogo e filósofo escolástico medieval, inglês, nascido, ao que se supõe, em Northampton. Ingressou na ordem dos frades menores franciscanos e foi ordenado sacerdote em Northampton, na data bem conhecida de 1291, onde também estudou. Completou estudos em Paris de 1291 a 1297. Lecionou em Oxford em 1300, comentando as Sentenças de Pedro Lombardo. O mesmo fez em Paris de 1302 a 1303. Não havendo apoiado ao rei Felipe o Belo no conflito com o papa Bonifácio VIII, foi intimado a retirar-se. Entretanto, encerrando-se a questão no ano seguinte, com o falecimento do papa, retornou Scotus a lecionar em Paris. Conquistou o doutorado em 1295. Enviado em 1307 para Colônia, Alemanha, ali morreu em novembro do ano seguinte, prematuramente, com cerca de 42 anos.

332. Gnosiologia. O escotismo, como veio a ser denominada a nova diretriz que Scoto imprimiu ao pensamento agostiniano dos franciscanos, é um sistema abrangente, que começa numa mudança gnosiológica. Abandonou Scoto a tese agostiniana da iluminação divino-natural, que daria origem aos conceitos universais independentemente da experiência; estabeleceu a origem do pensamento universal na experiência, por um processo de abstração, admitindo portanto o racionalismo mais moderado de Aristóteles, que o houvera defendido contra Platão.

Mas, de outra parte, contra Aristóteles (também contra o tomismo), estabeleceu Scoto a compreensibilidade direta da singularidade. A ciência não opera apenas com os universais, mas com o aqui e agora. Nisto ocorre uma aproximação com o futuro existencialismo. Consequentemente, em razão da inteligibilidade do real singular, o ser pode também ser concebido como noção unívoca. Para Aristóteles e Tomás de Aquino o ser é uma essência universal, que se realiza nas unidades por predicação analógica, e por isso acontece a seu modo em cada indivíduo. Ao contrário, no escotismo, cada indivíduo é pleno ser; é unívoco em cada indivíduo, e equívoco em relação aos demais seres individuais.

333. Ao ser unívoco se acrescentam as distinções formais; entre estas distinções formais acrescidas, consta a da esteidade ou hecceidade (haecseitas), no contexto de esta coisa (haec res), que permitem estabelecer-se como este indivíduo. Para o formalismo de Scoto há uma distinção formal por parte da coisa (a parte rei) entre a individualidade e o ser. A coisa e a sua individualidade são formalmente (isto é, essencialmente) distintas, mas não podem subsistir realmente em separado.

A concepção do ser como noção unívoca pareceu a alguns como um encaminhamento do panteísmo. Mas os escotistas acham suficiente a referida distinção formal por parte da coisa.

334. Obras: Opus oxoniense, conhecida também por Ordinatio , representando o ensino em Oxford, ou seja o comentário às Sentenças de Pedro Lombardo; Reportata parisientia, referente ao ensino em Paris; Lições (Collationes), em Oxoford e Paris; Quodlibeta, de Paris. São de caráter especificamente filosófico: Questões sobre os universais de Porfírio (Quaestiones super universalia Porphirii), sempre com vista aos livros lógicos de Aristóteles, comentados por Porfírio; Questões sobre os livros de Aristóteles sobre a Alma (Quaestiones super libros Aristotelis de Anima), de autenticidade muito provável; Questões subtilíssimas da Metafísica de Aristóteles (Quaestiones subtilissimae in metaphysicam Aristotelis); Tratado do primeiro princípio (Tractatus de primo princípio), esclarecimento de conceitos referentes a Deus.

335. Teve o escotismo um longo desenvolvimento, através do fim da Idade Média, início da moderna, e de novo em períodos mais recentes. Todavia nunca ultrapassou a aceitação do tomismo.

 


ART. 4-o. AVERROISMO LATINO DO SÉCULO TREZE. 2216y337.


 

337. Influências da filosofia árabe criaram formas de pensamento divergente daquele tolerado nas universidades sob controle da escolástica oficial. Elas estavam representadas sobretudo por interpretações com base no pensamento de Ibn Roschd, ou Averróis (1126-1198). Menos dificuldades ofereceram Avicena (980-1036) e os judeus Avicébron (1021-1070) e Maimônides (1135-1204), todos circulando com traduções ao latim.

No século 13 o averroismo latino teve seu grande representante em Siger de Brabante. Mais tarde, na Renascença reviverá na Universidade de Pavia, na Itália.

Como se verifica, em virtude da influência árabe sobre a filosofia do Ocidente europeu, importa, ao estar terminada a exposição da escolástica latina, retornar ao início da Idade Média, com vistas a estudar o que em outras áreas do mundo fez a filosofia árabe.

338. Siger de Brabante (c. 1235-1284). Teólogo e filósofo contrário à escolástica oficial, originário de Brabante, Bélgica. Cônego de São Martinho em Liège. Estabeleceu-se em Paris, quando crescia a ação repressora da Igreja sobre a faculdade de artes, na qual era professor. Conflitou em 1260 com o Legado Simão de Brie. Chefe de partido, na década de 1270, quando o decreto de 10 de dezembro do arcebispo de Paris Etienne Tempier o condena expressamente, mencionando 10 expressões inovadoras e de tendência averroista. Repetiu-se a condenação em 7 de março de 1277, rejeitando agora o elevado número de 219 proposições, mas que desta vez incluía algumas de Tomás de Aquino.

Globalmente apreciado, o averroismo latino, de que Siger de Brabante é o principal representante, significava um novo avanço nos estudos aristotélicos em Paris, dada a importância dos comentários de Averróis. A física e a metafísica se desenvolveram, autonomizando-se da teologia. Em psicologia a tese característica é a unidade da inteligência, monopsiquismo peculiar aos filósofos árabes, estopim principal que despertou, além da reação doutrinária, ainda a da repressão da Igreja.

Para o averroismo, a alma individual é puramente sensível e sob este aspecto perecível. Somente a alma racional é imortal, ao mesmo tempo que única e universal, apenas se individualizando em suas manifestações sensíveis humanas.

Obras: Questões lógicas (Quaestiones logicales), sobre os universais e o silogismo; Da alma intellectiva (De anima intellectiva). Os comentários aos livros de Aristóteles, deixados inéditos e dispersos, passaram a ser citados de acordo com os títulos que lhes foram dados nas edições críticas modernas: Questões sobre o livro Das causas (Questiones Libram De causas, 1972); Questões da Metafísica (Questiones in Metafisicar), 1981; Questões ao Terceiro da Alma. Da Almadia eternidade do mundo (Questiones in Tertium De ganima. De anima. De aeternitate mundi), e assim outros e outros escritos.
 

 


II Parte