340. Introdução à auto-superação do pensamento medieval. Herda o terceiro período da filosofia medieval a efervescência mental do anterior (século 13), mas dentro de novas condições, e com outros resultados. Despedaça-se em parte o rijo controle eclesiástico sobre o pensamento, já que o papa perde em importância ao se deslocar para Avignon, em 1309, até 1376, dividindo-se até mesmo os seus eleitores, de onde haver em certos momentos até mesmo três papas, apoiados por partidos, tanto na França, Alemanha, Itália. Mesmo depois continuou a haver aqueles ao quais se denominou antipapas.
Multiplicam-se também as universidades, melhorando consequentemente o nível de preparo das elites do final da Idade Média. Ainda que a multiplicação das universidades permitisse perceber a baixa de nível em algumas, isto não pesou no todo, porque nada impedia que outras se destacassem. A multiplicação das universidades permitiu que algumas mais facilmente escapassem ao controle ideológico, tanto eclesiástico como político, o que fora mais fácil de acontecer ao tempo que tais instituições eram poucas, como acontecia no século anterior. O nível cultural do fim da Idade Média fora certamente progressivo, e preparou a vastidão crescente da civilização européia, que passará a se estender também à burguesia em formação.
O espaço cronológico do último período da Idade Média não está delimitado pelos números redondos dos dois últimos séculos. A situação peculiar do fim da Idade Média passa a acontecer no curso do primeiro quarto de século, portanto ali pelos anos 1305 a 1325. Termina, pois, o período chamado do século 13, no primeiro quartel do século 14. Principia o terceiro e último período da Idade Média já adentradamente no século 14 para estender-se até a metade do século seguinte; este término tem por data usual o ano de 1453, quando acontecia a queda de Constantinopla, que então passou ao poder dos turcos.
A divisão, ou distribuição
didática dos movimentos filosóficos no Ocidente europeu,
no decurso do período final da Idade Média, usa advertir
em primeiro lugar para a novidade gnosiológica principal, - o nominalismo,
cujo inspirador foi o inglês Guilherme de Ockam. Segue-se depois
para as filosofias remanescentes, como o tomismo, escotismo, o misticismo,
que neste período final da Idade Média contaram com expressivos
representantes.
Tem o nominalismo, frente às outras denominações
remanescentes o caráter de ser uma escolástica dissidente.
Não é a escolástica dissidente daquele último
período da Idade Média mais uma corrente ao lado das que
denominamos. Se é que alguns são mais pronunciadamente dissidentes,
como por exemplo, Nicolau d'Autrecourt, eles são nada mais que uma
modalidade de nominalistas. Ou estão pelo menos na mesma tradição
geral platônica, como é o caso de Nicolau de Cusa.
341. Havendo surgido nos círculo agostiniano, o nominalismo coere com as idéias universais do platonismo, bem como com o racionalismo a imaginar idéias surgindo sem a fonte da experiência. Aquelas idéias universais eram interpretadas como representando uma realidade. Agora, passam a ser apenas conceitos vazios. Já dizia anteriormente Roscelino, que tudo era senão sopro de voz. Faltava apenas criar um sistema para tudo isto, e que ao mesmo tempo cuidasse de se ajustar com o realismo da teologia cristã.
Praticaram o nominalismo William Ockam (c. 1280 - c. 1349), seu principal mentor, João Buridano (c. 1300 - 1358), Guilherme de Heytesbury, Gregório de Rimini (+ 1358), João de Mirecourt (c. 1345), Nicolau de Autrecourt (c. 1300- depois de 1350), Nicolau de Oresme (1310-1388), Alberto de Saxônia (c. 1316-1390), Gabriel Biel (1430-1495), e assim outros e outros, ninguém rigorosamente igual ao primeiro mestre.
Foi Ockham avaliado pelos historiadores como precursor do empirismo moderno, ao mesmo tempo que do racionalismo kantiano.
342. William of Ockham (ou Guilherme de...), também usado (c..1280 -c.1349). Filósofo escolástico inglês, nascido em Ockham (grafado também Ockam, ou ainda Ockham), do distrito de Surrey, sul em relação a Londres. Ficou conhecido simplesmente pelo nome de sua localidade natal. O primeiro detalhe cronológico seguro sobre W. Ockham é de 1324, quando já lecionava em Oxford, e foi acusado de incurso em heresia por João Lutterell, na qualidade de chanceler da universidade. Foi então chamado à corte pontifícia, então em Avignon, Sul da França. Já franciscano, deveria ter ingressado anteriormente na ordem, fazendo nesta condição seus estudos em Oxford, os quais conforme se conjetura, teriam acontecido de 1312 a 1318. A seguir teria passado a lecionar como bacharel (inceptor), até a ida forçada a Avignon, para ficar retido ali 4 anos, no convento que ali tinham os frades franciscanos.
A questão dos "espirituais" também move o Superior Geral da Ordem Franciscana contra o papa. Finalmente fogem o Superior e Guilherme de Ockham; burlando aos perseguidores, alcançam a Itália, onde se acolhem junto ao Imperador Luiz da Baviera. Assim permanecendo os anos de 1328 a 1330, acompanham finalmente ao mesmo Imperador à Alemanha, sempre a serviço do soberano, adversário do papa na questão dos espirituais. Tem-se de Ockham a última notícia em 1349, ano em que a peste negra assolou a região.
343. Doutrinariamente defendeu Ockham uma gnosiologia nominalista, chamada também terminista, por efeito de um afastamento progressivo do escotismo, no qual houvera sido iniciado. Como já Escoto, Ockham acentua a importância do singular, todavia com maior ênfase ainda. O universal, entendido pela mente, só existe nesta mente. Nem existe como realidade separada (platonismo), nem como realidade nas coisas singulares, de onde seria abstraído (aristotelismo). Ele existe, mas apenas como conceito da mente, portanto como nome mental do temo que significa; eis onominalismo, no qual consequentemente a ciência dos universais não é ciência da realidade. Os universais constituem-se apenas uma ciência de sinais e símbolos.
Por consequência ainda ficam sem sentido todas as distinções atribuídas conceptualmente ao ser das coisas. Tem validade as distinções, apenas quando o que significam pelo lado das coisas são ali realmente separáveis. Com isto rejeitou todo as distinções de formas, de que fala o escotismo. Existem Pedro e Paulo, e não a humanidade. Em concreto Paulo e humanidade são a mesma coisa.
344. Fideismo de Ockham. Compromete o
nominalismo qualquer doutrina sobre a existência de Deus e da alma.
Existem pensamentos, mas não existe a alma, senão como generalização.
Existem universais nas provas da existência de Deus, mas nada provam.
De outra parte, qualquer proposição destituída de base na razão, poderá estabelecer-se pela via da crença. Somente assim se estabelece o conhecimento da existência de Deus e da alma.
Também as normas morais ficaram sem fundamento
no sistema nominalista de Ockham. Adquirem obrigatoriedade apenas por força
da vontade de Deus.
Envolvido, como os de sua ordem franciscana,
com a questão dos fraticeli, abordou a questão dos poderes
do papa. Seu posicionamento teórico cohere com a situação
histórica do declínio do prestígio papal neste final
de Idade Média.
345. Obras. Com referência aos escritos de Ockham, remontam praticamente todos ao período, de sua grande atividade em Oxford, presumivelmente, pois, de 1318 a 1324, quando foi vítima da censura.
Os escritos de Ockham remontam ao período de sua grande atividade em Oxford, devendo ter continuado depois, sem que restem elementos que possibilitem determinar uma ordem cronológica bem definida. Ficaram alguns títulos na dependência dos editores. Acredita-se que haja iniciado pela Exposição aurea (Expositio aurea), título criador por um editor posterior, e em que Ockam comenta a Porfírio, que por sua vez comentara as Categorias de Aristóteles; neste trabalho põe de manifesto a importância da lógica, não esquecendo inclusive de se referir a Pedro de Espanha.
Outros escritos: Ordenação (Ordinatio), comentário ao 1 livro das Sentenças de Pedro Lombardo; Reportagem (Reportatio, sobre o 2-o, 3-o e 4-o do referido livro, sendo possível situar estes comentários nos anos 1319 e 1320. Também figuram entre as primeiras edições Quodlibeta (Quodlibet), em número de 7, também de Oxford; Centilóquio teológico (Centiloquium theologicum), apresentando 100 proposições de teologia positiva, considerado espúrio; Do movimento, lugar, tempo, razão, predestinação e presciência de Deus (De motu, loco, tempore, praedestinatione e praescientia Dei), que são notas; Suma lógica (Summa logica), escrita em Oxford, e concluída em Avignon; Summulas sobre os livros da Física (Summulae in libros Physicorum), de Aristóteles; Questões sobre os livros da Física (Quaestiones super libros Physicorum), texto incompleto; Exposição sobre a Física (Expositionem in Physicam), de novo sobre o mesmo livro de Aristóteles; Diálogo (Diálogo), sobre as relações entre Igreja e Estado; Oito questões sobre o poder do papa (Quaestiones octo de potestate papae).
Notável é a edição crítica por Franciscan Institute, Nova Iorque, e que principia, reúne numa primeira sequência de títulos, reunidos em 7 vols., sob o título genérico Opera philosophica: depois outra sequência, em volumes, sob Opera theologica.
346. Nicolau d'Autrecourt (c. 1300 - depois de 1350). Filósofo francês, originário de Autricourt, então diocese de Verdun. Lecionou em Paris, até quando suas teses foram condenadas.
Nominalista, com poucas diferenças com
Ockham, admitiu Nicolau d'Autrecourt como unicamente válido para
a argumentação, o princípio de contradição.
A causa e efeito apenas se observam empiricamente, não sendo um
princípio válido. Com esta redução a crítica
posterior viu nele uma espécie de Hume medieval. A ciência
não se desenvolve pela autoridade, seja de Aristóteles, seja
da Igreja, mas unicamente pela observação das coisas, apreendidas
pelos sentidos a experiência interna. Não se conhece a substância,
senão o eu. A natureza é constituída de átomos
e movimentos mecânicos; afasta o hilemorfismo de Aristóteles.
Num jogo dialético afirma que Deus é, e Deus não é,
significam quase o mesmo, ainda que de outro modo, porquanto coisas entre
contraditórias significam o mesmo. Há nisto certamente a
influência da doutrina das duas verdades de Averróis, então
influente em Paris. Seus escritos foram reunidos em obras que tratam do
autor globalmente.
347. Guilherme de Heytesbury (Hentisberus).
Escolástico, que em 1330 ensina em Oxford, com influência
que se estende a Alemanha. Nominalista, com interesse também em
física matemática e mecânica.
348. Gregório de Rimini ( -1358).
Filósofo e teólogo italiano (?), com estudos em Paris, onde
também lecionou. Ingresso na ordem dos Eremitas de Santo Agostinho,
a que pertenceu Gilles de Roma (+1316). Superior Geral desta ordem, a partir
de 1357.
Nominalista, continuou o exame de Ockham sobre o futuro contingente, tendo por princípio que as coisas contingentes do passado são necessárias. Deus conhece intuitivamente o futuro, não sabendo como explicar estas modalidade de conhecimento.
Tratou também da semântica das proposições, onde despertou a atenção de Husserla, Frege, Wittgenstein (vd Logos, p. 935).
Os escritos foram modernamente impressos sob o
título Leitura de Gregório ariminense do primeiro e segundo
livro das Sentenças (Gregorii Arimiensis lectura super primum
et secundum Sententiarum, Berlim-New York, 1979-1982.
349. Jean Buridano (c.1300-c.1358). Filósofo escolástico francês, de língua latina. Nasceu provavelmente em Bhéthune. Mestre em artes. Reitor da universidade de Paris, 1328-1350. Cônego de Arras em 1342.
Seguiu o nominalismo de Guilherme de Occam. Dentro deste contexto, abordou a lógica e a gramática. As palavras não exprimem imediatamente as coisas, mas os conceitos. A linguagem é convencional (vd Logos).
Determinista, no sentido de que a escolha se faz pelo melhor. A anedota do Asno de Buridano, que não se encontra em seus escritos, mas a ele coerentemente atribuída, apresenta o asno a morrer de fome, quando situado entre dois feixes de feno com igual atração. Como já outros do seu tempo, advertiu para a importância da ciência experimental.
Ofereceu ainda uma explicação para o movimento através da teoria do ímpeto (impetus), de João Filipono, substituindo a aristotélica dos lugares naturais aos quais as coisas tenderiam a voltar. A teoria buridana do ímpeto prenuncia a moderna teoria da inércia, porque alega diminuir o ímpeto apenas quando há alguma resistência. De outra parte ainda recusava a teoria rotação da terra sobre seu próprio eixo.
Obras: Comentário e questões
sobre os 8 livros de Física de Aristóteles (Commentum
et quaestiones super octo physicorum libros Aristotelis); Comentário
e questões sobre os livros metafísicos de Aristóteles
(Commentum et quaestiones in Aristotelis libros Metaphysicorum);
Questões sobre os dez livros da Ética de Aristóteles
(Quaestiones de Aristotelis ethicorum libris decem); Questões
sobre os oito livros da Política de Aristótes (Quaestiones
super octo libros Politicorum Aristotelis); Sumulas sobre
a dialética (Summulae de dialectica).
350. Nicole de Oresme (c.1310-1382). Filósofo e teólogo escolástico francês, nascido próximo de Caen, Normandia. Estudou teologia em Paris, onde seu nome consta entre os estudantes do Colégio de Navarra, obtendo o título de Mestre em 1355. Lecionou no mesmo colégio, então muito conceituado. Arquidiácono em Bayeux e deão do Capítulo de Rouen. Preceptor do delfim (filho do rei Jean e futuro Carlos V da França), a partir de 1360. Em 1362 professor de teologia em Paris. Finalmente, em 1377 bispo de Lisieux.
Ocupou-se universalmente dos mais variados temas. Advertiu para a importância das ciências experimentais, como em seu tempo já vinham fazendo Buridano e Alberto de Saxônia, dedicou-se também pessoalmente a elas, assim havendo contribuído para o desenvolvimento da matemática, física e astronomia. Precursor da geometria analítica, antecipando-se a Descartes na teoria das coordenadas, útil para a representação gráfica das variações de intensidade. Igualmente se antecipou à Galileu na lei da queda dos corpos, ainda que não a desenvolvesse tanto quanto ele. Também propôs a teoria héliocêntrica antes de Copérnico.
Obras, publicadas em partes maiores ou menores
pelos editores, desde a invenção da imprensa: Tractatus
de configurationibus formarum; De uniformitate et difformitate intentionum;
Quaestiones super geometrian Euclides; De velocitate motus alterationis;
De proportionibus proportionum; Quaestiones super de caelo; De mutationes
monetarum (citado abreviadamente De moneta), a pedido de Carlos
V, em que discorre sobre fatores sociológicos no campo da economia;
Livre des divinacions; Aristotelis Politica et Oeconomica cum glossemantibus
gallice versa (com tradução ao francês);
comentários à Ethica Nicomachea. Tratado do céu
e do mundo (Dissertation du ciel et du monde), em que apresenta
razões prováveis para aceitar o movimento diurno da terra.
Deixou ainda sermões.
351. Alberto de Saxe (ou De Saxônia, ou De Helmsted, ou Albertus Parvus) (c.1316-1390). Filósofo escolástico alemão, nascido em Rickmerdorf, Baixa Saxônia. Estudou na Universidade de Paris, havendo sido aluno de Buridano, o qual explicava o movimento como um ímpeto aplicado ao móvel (contra a teoria aristotélica dos lugares naturais). Mestre também em Paris na Faculdade das Artes, 1351-1362). Ainda Reitor da universidade, 1353-1357. Primeiro Reitor da nova Universidade de Viena, criada em 1365, e que ajudara a fundar. Por último foi designado bispo de Albertstadt, 1366.
Situado no contexto do nominalismo, sem ser radical,
foi um pensador eminentemente original, em física, lógica,
ética, e dos mais representativos do terceiro e último período
da filosofia medieval. Entretanto, teve em Barítono e Nicolau de
Erasmo, predecessores de suas melhores idéias. Prestigiou o estudo
das ciências empíricas, uma tendência em crescimento
no final da Idade Média.
Como Barítono, abandonou a explicação
aristotélica do movimento pela inclinação aos lugares
naturais, para explicá-la pelo impetus pelo qual os corpos
se movem, como que por uma propriedade inata. Tendem todos os corpos para
um centro comum do universo. Mas, o centro de gravitacional não
coincide necessariamente com o centro da magnitude. Distinguiu entre centro
matemático de gravitação e centro físico de
gravitação. Também observou que a velocidade da queda
dos corpos aumenta com o espaço percorrido, sem que ainda chegasse
às demonstrações precisas de Galileu dois séculos
depois.
Continuou os estudos já bastante adiantados
da lógica clássica, como se vinham desenvolvendo na Idade
Média, atento às observações feitas pouco antes
por William Ockham e Walter Burleigh: os termos sincategoremáticos,
a suposição dos termos, as consequências.
Obras: algumas com títulos atribuídos
pelos editores futuros, outras ainda não impressas no final do século
vinte - Sophismata Alberti de Saxonia nuper emendata, 1480; Subtilissimae
quaestiones in libros de coelo et mundo), 1481, em que se refere a
erosão, a formação dos continentes, aos fósseis;
Tractatus obligationum, Paris, 1490; Insolubilia, Paris,
1495; Quaestiones super artem veterem, junto com livro de Ockam,
Expositio aurea, Paris, 1496; Quaestiones subtilissimae super
libros posteriorum, Veneza, 1497; Quaestiones in libros de Generatione,
cuja edição de Veneza, 1504, também incluiu comentários
`de Egídio Romano e de Marsilio de Inghen à mesma obra de
Aristóteles; Quaestiones et decisiones physicales, 1516;
Quaestiones super sphaeram Johannis de Sacrobosco; Quaestiones meteorum;
Expositio decem librorum Ethicorum Aristotelis.
352. Pedro de Aylly (ou Pedro de Alliaco) (1350-1420). Filósofo e teólogo escolástico francês, nascido em Aylly. Doutor pela Sorbon em 1381. Mestre em Paris. Chanceler da Universidade de Paris, 1389-1395. Bispo de Puy en Velay, 1395. Em 1397, bispo de Cambray (F.Mora diz 1396). Cardeal em 1411. Esforçou-se pela reunificação da Igreja, favorável todavia ao Papa sediado em Avignon. Teve participação assinalada no Concílio de Constanza (1414-1418). Faleceu pouco depois.
Continuador do nominalismo de Ockham. Definiu
a Igreja como e o concílio como superior ao Papa. Este não
é infalível, porém a Igreja Universal..
Obras: Da reforma da Igreja (De reformatione
ecclesiae), de futuro citado em seu favor pelos protestantes; Questões
sobre o primeiro, terceiro e quarto das Sentenças, impresso
em 1474, reimpresso em 1478, 1490, 1500); Imagem do mundo (Imago
mundi, impresso em 1480); Vinte elocuções sobre a
concordância das verdades da astronomia com a teologia, impresso
em 1494); Tratado ... (Tractatus exponibilium, impresso em
1494; Tratado sobre os livros dos meteoros e das impressões do
ar (Tractatus super libros meterorum et de impressionibus aeris,
impresso em 1504; Sobre a alma (De anima, impresso em
1505); Tratado e sermões (Tractus et sermones, impresso
em 1634, incluindo De anima).
353. Gabriel Biel (c. 1425-1495). Filósofo escolástico alemão. Vigário de Mayence (Mainz). Pregador destacado. Professor em Tübingen.
Expositor do nominalismo de Ockam, de cujo pensamento foi um continuador, todavia arrolando-se entre os discípulos moderados do franciscano inglês. Influenciou a Lutero.
Obras: Coletânea (Colletorium),
comentário aos 4 livros das Sentenças de Pedro Lombardo.
354. Atravessará o nominalismo todo o período
final da Idade Média como um dos fatores mais estimulantes, quer
para a mesma filosofia, mantendo aos representantes da filosofia tradicional
sob constante provocação, quer animando à interpretação
científica, quer ainda levando às artes a inovação
pela criatividade livre.
355. A escola tomista se conservou bastante estável no decurso do terceiro e último período da Idade Média. Apresenta nomes consideráveis e penetra linearmente na época seguinte, com grandes nomes.
Citam-se Thomas de Sutton ( - c. 1350), Capréolo
(1380-1444) é grande nome com que o tomismo finaliza a Idade Média,
logo seguido por nomes igualmente grandes como Silvestre de Ferrara (vd)
e Cardeal Cajetano (vd), ambos já modernos. Dentre os místicos,
geralmente tratados sob este outro título, há-os também
afins ao tomismo, como acontece com Mestre Eckhart (1260-1327).
356. Thomas de Sutton (c 1250- c.1320). Filósofo escolástico inglês, nascido em Sutton, perto de Cambridge. Ingresso na ordem dos dominicanos. Mestre em Oxford, entre 1300-1315. Difundiu o tomismo na Inglaterra, ao mesmo tempo que o defendeu contra os reparos de Duns Escoto.
Obras: Comentários aos quatro livros
das Sentenças (Commentaria in quatuor libros Sententiarum,
obra principal; Tratado da pobreza e uso ...... (Tractatus
de paupertate et usu paupere); Questões disputadas da Imaculada
Conceição da Imaculada Conceição da Bemaventurada
Maria (De quaestiones disputatae de Immaculata Conceptione B. Mariae);
Compêndio de Escritura Sagrada (Compendium de Sacrae Scripturae).
357. Durandus d'Aurillac, dito Durandel
(c. 1300-1380). Filósofo e teólogo escolástico medieval,
francês. Religioso da ordem dominicana. Defensor do tomismo, tendo
tido dentro de sua ordem a oposição de Durando de Saint-Pourçain.
358. Capréolo. João (c.1380-1444). Teólogo e filósofo francês, nascido em Rodez, Languedoc. Ingresso na ordem dos dominicanos, atuou no magistério em Paris, 1408-1411, e em Touluse, 1412-1426. Viveu a maior parte de sua vida no convento de Rodez, onde veio a falecer.
Procurou restabelecer o tomismo em sua pureza,
mostrando os desvios dos próprios tomistas, como ainda defendendo
contra os adversários contemporâneos e do passado (Scoto,
Durandus, Henrique de Gand), o que lhe valeu ser cognominado o Príncipe
dos tomistas (Princeps thomistarum).
Obra: Defesas da teologia do divo Tomás
de Aquino (Defensiones theologii divi Thomae). Impresso sob
o título Quatro livros das defesas do doutor Tomás de
Aquino (Libri quatuor Defensionum theologiae divi doctoris Thomae
de Aquino), 1483, 1514, 1519, 1589; em edição mais recente,
7 volumes, anos 1899-1908.
360. Pedro Auriol (ou de Aurilac, Auréolo, Aureolus, Auréoli) (c. 1280 - 1322). Doctor Facundus. Filósofo e teólogo francês. Franciscano. Discípulo de Duns Scoto em Paris, onde se formou mestre em teologia. Provincial da Ordem em Aquitânia. Em 1321 arcebispo de Aix-en-Provence, vindo a falecer no ano seguinte.
Escolástico contrário ao ponto de vista de Tomás de Aquino. Divergiu também de Duns Scotus, então já considerado mestre de sua Ordem. Encontra-se na direção que levará a Guilherme de Ockham. O universal é uma criação conceptual da mente, sem corresponder a algo por parte dos indivíduos.
361. F. de Marchia (sec. 14). Teoria do impetus.
362. Francisco Mayron, dito também Mayronis (+ 1325, ou 1327), Magister acutissimus. Escotista.
Obra: Conflatus, comentário sobre
as Sentenças, esteve amplamente difundido e apreciado.
363. Pedro de Áquila ( - 1347) (Cayré diz 1348). Filósofo escolástico franciscano.
Escotista. Pela sua fidelidade ao pensamento de Duns Scotus foi apelidado Scotelus.
Obra: Compêndio (Compendium).
364. Pedro de Cândia (c. 1340-1410). Escolástico nascido em Cândia, Creta (Grécia). Parece ter sido inicialmente mendigo. Estudou em Oxford e Paris, onde se tornou mestre cerca de 1381. Bispo em 1386 na Itália, primeiramente de Piacenza, depois de Vicenza. Arcebispo de Milão e cardeal. Finalmente, no Concílio de Pisa, eleito Papa em 1409, como Alexandre V, como um dos três que pleiteavam a legitimidade, sendo os outros dois respectivamente de Roma e de Avignon.
No quadro geral do escotismo, integra-se na tradição
realista resistente à tendência nominalista, mas não
sem alguma tolerância. Na Introdução a cada um dos
livros comentados insiste que as divergências entre as escolas poderão
vir tão só em função aos pontos de vista considerados
e métodos adotados.
Obras: Comentário aos Quatro livros
das Sentenças (Comentarium in IV Libri Sententiarum, de
Pedro Lombardo).
366. O misticismo no período final da Idade Média, com raízes nos períodos anteriores, ganha especiais manifestações no final desta época de mil anos. Surgem agora Meister Eckhart (1260-1327), João Ruysbroeck (1293-1381), João Tauler (c. 1300-1361); Henrique Suso (1300- 1365), Gerson (1364-1429) Tomás de Kempis (1379-1471), Nicolau de Cusa (1401-1464), Dionísio Cartusiano (1402-1471).
Os místicos conduzem avante as tendências panteístas do neoplatonismo e de Scoto Erígena. A tendência panteísta acontece também em Mestre Eckhart, apesar de seu fundo tomista.
367. Agora, no período final da Idade
Média, as limitações criadas pelo váculo aberto
pelo nominalismo de Ockham tendem a ser preenchidas pelo elan profundo
da intuição em que acreditam os místicos,
e que interpretam assim também, até certo modo, a revelação.
Mesmo Eckhart, que não é nominalista, mas tomista, parte
de uma limitação, a teologia negativa, a qual apenas conheceria
a Deus pela negação dos defeitos das criaturas, mas não
positivamente, como em si mesmo.
A afinidade, que a história do misticismo
tem com as filosofias limitadoras da inteligência, torna difícil
situar certas figuras, as quais pertencem a ambos os movimentos. Seja,
por exemplo, Nicolau de Cusa. Encontra-se ao mesmo tempo na linha ockhamista
e mística; além disto, Nicolau de Cusa penetra ligeiramente
na cronologia moderna. Não obstante, há também místicos,
cuja fonte é o tomismo, de que Eckhardt é um exemplo.
368. Mestre Eckhart (c. 1260-1328). Filósofo
escolástico alemão, nascido em Hochheim, perto de Gotha.
Ingresso na ordem dos dominicanos, 1275. Estudou em Paris, 1293 - 1294,
tornando-se bacharel sentenciário. Prior do convento de Erfurt,
1294 - 1298. Mestre de sagrada teologia, em Colônia, 1302. Adquiriu
grau de Doutor em Paris. Também lecionou ali, por duas ocasiões,
1302-1303; e 1511. Na Alemanha foi provincial de sua ordem em Saxe. Vigário
Geral da Boêmia. Provincial das Alta Alemanha, a partir de 1314.
369. Fez-se conhecer como místico. Precursor
de algumas idéias modernas, mas que já têm origem no
neoplatonismo e no agostinianismo, mas agora em contato com o pensamento
aristotélico de Tomás de Aquino. Sua doutrina sobre Deus
é globalmente tomista, acentuando todavia a teologia negativa, tomou
este negativo como ponto de partida do acesso supraconceptual e místico
da alma ao Uno primitivo, Deus. Sua concepção
do ser é dinâmica, de sorte a mover-se o ser criado na direção
do ser superior. No fundo da alma haveria uma centelha com
a qual vemos a Deus, dispensando de imagens. O retorno a Deus, pelo afastamento
das criaturas, é o fim do homem. Eckhart se exprimiu com símbolos,
as vezes ousados pela liberdade panteísta.
Denunciado ao arcebispo de Colônia, que o censurou em várias de suas proposições, apelou a Sé de Roma. Em 1326 o arcebispo de Colônia, um franciscano, levantou a suspeição sobre a ortodoxia de Eckhart. Mas em 1327 faleceu o suspeito. O processo todavia continuou, até 1329, quando o papa João XXII, em Avignon, confirmou 17 proposições como heréticas e 11 como suspeitas.
Hoje se é menos severo com Eckhart. Foi-lhe atribuída injustamente a doutrina da eternidade do mundo. Todavia suas doutrinas são efetivamente próximas do monismo panteísta, razão porque continuam apreço dos pensadores livres de condicionamentos oficiais, e convencidos, ou da superioridade do monismo, ou mesmo apreciados do misticismo.
370. Escreveu em latim e também em médio alto alemão (depois traduzido ao alemão moderno). Seus escritos foram mal conservados, até mesmo porque o autor era oficialmente combatido. De qualquer forma, os textos em alemão vieram contribuir para a fixação da língua, bem como de sua terminologia filosófica e teológica.
Obras de Eckhart: Sermões (Predigten),
em número de 110; Tratados (Traktate), em vários
volumes. O principal tratado é Obra tripartite (Opus tripartitum,
com as seguintes partes: Obra das proposições (Opus
propositionum), Obra das questões (Opus quaestionum),
Obra das exposições (Opus expositionum). Destaca-se
ainda: Questões parisienses (Quaestiones parisienses).
E ainda comentários aos livros bíblicos.
372. Johan van Ruysbroeck (ou Ruusbroec) (1293-1381). Místico belga, de expressão flamenga, n. em Ruysbroeck (de onde recebeu o nome), nas proximidades de Bruxela. Depois de estudos em Bruxelas, ordenado sacerdote em 1317. Ali permaneceu a serviço da catedral de Saint-Gudule. Pela volta dos seus 50 anos se retirou para o convento de Groenendael, dos Cônegos de Santo Agostinho, alternando a oração com o trabalho, ao mesmo tempo que organizando a comunidade dos religiosos, da qual foi Prior, 1343.
Seus escritos expõem uma espiritualidade que abandona o formalismo inteletualista da escolástica de até então, enveredando por um misticismo mais acentuado. Ruysbroek é dos que, como Tauler e Gerson, se classifica entre os místicos ortodoxos, diferentemente dos do modelo, por exemplo de Eckhart, mais próximo do panteísmo e da tradição neoplatônica derivada através de Pseudo Dionísio e de Escoto Erígena. Contudo se mantém próximo a estes outros. Os textos de Ruysbroeck, que usa o flamengo, se destinam ao leitor simples, de sorte a não oferecerem grande profundidade, mas inspiraram outros e outros autores, tanto no mesmo flamento, como de outras línguas para as quais se operou tradução. Caracterizam-se pelo uso de imagens sensíveis, através das quais Ruysbroeck busca mostrar uma verdade mais ao fundo.
Obras (cerca de 12): O adorno das bodas espirituais
(De Chierheit der geeesteleker brulocht), sobre as
formas da vida ativa, interior, contemplativa; O tabernáculo
(... ), imaginando sete moradas no interior da alma; O espelho
da salvação eterna (De Spieghel der ewigher salicheit),
em que a alma se espelha como imagem de Deus; O reino dos amantes de
Deus (... ), sobre os dons do Espírito Santo; O livro
da mais alta verdade (... ), explicando os dons a que se refere
o anterior; O livro dos sete claustros (... ), ou sete renúncias;
As doze virtudes (... ), as virtudes que servem de meios
para atingir a contemplação); Quatro tentações
(... ), em que, entre outros temas, é refutado o panteísmo
dos "irmãos do livre espírito".
373. João Tauler (c. 1300-1361). Místico alsaciano, nascido em Strasburgo. Ingresso na ordem dominicana, fez estudos no Studium Generale de Colônia, sob o Mestre Eckhart. Reconhecido como grande pregador.
Na mística se manteve na linha de Eckhart, mesmo depois da condenação de várias proposições deste, 1329. Obedece uma linha tomista, mas com ressonâncias do neoplatonismo de Porfírio e Proclo. Mística orientada para a Ética.
De seus escritos restam 83 sermões, várias
vezes reeditados durante a Renascença, e também modernamente,
dado apreço que têm merecido.
374. Jean de Gerson (1363-1429), Doctor christianissimus. Religioso e teólogo francês. Estudou na Universidade de Paris, onde fora discípulo do nominalista, então Chanceler e depois cardeal, Pedro d'Ailly (1350-1420). Também Gerson chegará a ser chanceler da Universidade de Paris, a partir de 1395.
Contestou a tendência tecnicista e sofisticada da teologia especulativa, passando a um estilo similar ao dos patrísticos, ainda que também ele escrevesse comentários às Sentenças. Importa mais a teologia, que a filosofia. Como místico, Gerson situou-se na linha agostiniana dos victorinos e São Boaventura, opondo-se neste campo a mística de van Ruysbroeck. Acentuou a liberdade de Deus na criação. Propôs que a teologia escolástica fosse completada pela teologia mística.
Obras: 60 sermões, em francês, versando
moral e mística, e ainda outros opúsculos, sobretudo comentários
às Sentenças e à mística de Pseudo-Dionísio.
375. Nicolau de Cusa (Nikolaus Krebs) (1401-1464). Iniciou estudos em Deventer, no Instituto dos Irmãos da Vida Comum, a ordem de Tomás de Kempis, marcada pelo misticismo, e que caracterizará também o pensamento de Nicolau. Continuou estudos em Heidelberg, 1416, onde conheceu o nominalismo de Ockham e as últimas novidades científicas. Em outubro de 1417 inicia direito em Pádua, onde contata Renascimento Italiano. Doutor em 1425, está no mesmo ano em Roma. Ordenado padre em 1430, em Colônia. Participa em 1432 do Concílio de Basiléia, que trata da união da cristandade, então dividida. Integra em 1438 uma embaixada ã corte imperial grega no mesmo sentido. Legado pontifício nas dietas de Mogúncia, Nüremberg, Frankfurt. Cardeal em 1448. Bispo de Brescia (Brixen, no Tirol italiano), em 1450. Visitador e reformador dos conventos alemães. Papa em potencial, faleceu antes que isto acontecesse.
Sensível ao seu tempo, Nicolau de Cusa foi um grande nome para encerrar o último período da Igreja. Sua influência inicial foi principalmente religiosa. A filosofia foi ganhando terreno, a seu modo, através de Bruno, Paracelso, Leibniz, Bobillus, Sanchez, Gassendi. Trouxe do passado o platonismo do feitio de Proclus e de pseudo-Dionísio, filtrado através do espírito crítico do nominalismo em vigor no final da Idade Média. Sua visão sintética do mundo e de Deus lhe trouxe a acusação de monista panteis. Assevera todavia que Deus jamais se torna parte do mundo. Admite duas modalidades de conhecimento, o da pura inteligência, ou inteleto, que nos confere a noção mística mais exata de Deus, e o conhecimento raciocinativo, ou razão, que nasce da ordem sensível, procedendo por conceitos e análise. Este dualismo das fonte de conhecimento, peculiar aos místicos, é o ;fundo platônico do Cusano.
Escreveu muito: Da douta ignorância (De docta ignorantia, 1440), seu livro principal, em que propões o início da investigação pela dúvida universal; Das conjeturas ( De conjecturis), da mesma data e continuação do anterior; Apologia da doutra ignorância (Apologiae doctae ignorantiae, 1449), em que responde aos ataques de João Wenck, reitor da universidade de Heidelberg; O profano (Idiota, 1450); Sobre a visão (De visione, 1453); Sobre o berilo, ou sobre os óculos (De beryllo, 1454); Sobre a perfeição matemática (De perfectione mathematica, 1458); Sobre o Poder ser (De possest, 1460); Peneirando (?) o alcorão (De cribatione Alchorani, 1461); Sobre não o outro (De non alliud, 1462); Da figura do mundo (De figura mundi, 1462?); Sobre a caça ao saber (De venatione sapientiae, 1463); Do jogo de bolas (De ludo globi, 1464); Compendio (= Compendium, 1464).
376. Fecha a Idade Média, no Ocidente, já com os humanistas e helenizantes do Renascimento, alguns entrando em cena, como que antes do tempo, como por exemplo, Lourenço Valla (1407-1457), ou como Jorge Ghemistos, também denominado Plethon (1370-1452), vindo do Oriente para Florença.
Desenvolveu-se a cultura em quadros mais amplos da sociedade, e com isto também a influência dos literatos. É a oportunidade de Petrarca (1304-1374), de Boccacio (1313-1375). Também a pintura se humaniza paulatinamente a partir de Giotto (1266-1337), cujas tintas foram apagando a fisionomia dura do ascetismo medieval.