Enciclopédia Simpozio      Micro História da Filosofia.


TERCEIRO PERÍODO DA FILOSOFIA MEDIEVAL.


Cap. 10.

FILOSOFIA ÁRABE MEDIEVAL. 2216y378.


 

        I - Introdução especial à Filosofia Árabe Medieval. 2216y378.
 

        378. Tal como a filosofia cristã está vinculada ao parâmetro exterior da Bíblia, a árabe se vinculou ao Alcorão, contendo os ensinamentos de Maomé, e que ele mesmo e seus seguidores acreditam ser de revelação divina.

        Pelos seus efeitos no Ocidente europeu, a filosofia árabe, como também a judaica, foi a inspiradora do aristotelismo cristão, que, a partir da Idade Média, passou a predominar sobre a anterior tendência neoplatônica. Menos racionalista, Aristóteles limitara o inteleto humano à intuição do ser captado na experiência sensível; a passagem para o ser em geral só era possível por analogia com o ser do sensível. Esta posição era menos susceptível de aceitação por parte das religiões, que a do racionalismo radical, que admitia conhecimentos mais gerais, sem depender do sensível. A cristianização de Aristóteles se deu plenamente na Idade Média, sobretudo por ação de Tomás de Aquino, havendo sido antecipada por uma islamização, dentro de circunstâncias curiosas.

        379. A filosofia árabe teve um passado fortemente condicionado pelo sucessos políticos da etnia e pelo seu código religioso, talvez mais do que acontecia à filosofia dos povos ocidentais. Não é possível, num e noutro caso estar atentos a estes fatores externos que atuaram sobre a história dessas filosofias.

        O cristianismo se formou a partir dos judeus, o islamismo através dos árabes. Mas judeus e árabes acreditam terem tido um patriarca comum, - Abraão, - o qual gerara a uns pela sua mulher principal, a outros pela sua serva (Gênesis, 17). Mas a nação árabe só dois mil anos depois veio projetar-se política e culturalmente, enquanto as demais já haviam criado Babilônia, Ninive, Egito, Israel, Fenícia, etc.

        O tempo da ignorância, que nenhum monumento literário legou à história, foi subitamente rompido por Maomé (571-632). Aliás também ele, apesar do grande feito, - como usa acontecer aos fundadores de grandes religiões, não era instruído nas letras. Epiléptico, melancólico, visionário (como em geral acontece aos fundadores de religião), convenceu-se de sua missão profética; inicialmente pastor de ovelhas, atuou depois em Meca, a cidade santa de sua nação.

        Numa gruta do monte Hira teve uma primeira visão, em que diz que o anjo Gabriel lhe falou e o ter feito profeta de Alá, o Deus único. A 22 de setembro de 622 é forçado a fugir de Meca; o acontecimento é tomado como início da cronologia maometana, como os cristãos poucos séculos depois fariam a sua iniciar com o nascimento de Jesus. Esta mudança da cronologia acontecia num momento fácil, porque as anteriores se fundavam em episódios já ultrapassados, como a fundação de Roma, já vencida, e nas Olimpíadas, desde há muito exterminadas pelo Império cristão de Constantinopla. Em Medina o profeta de Alá se organiza militarmente, e com 10.000 homens conquista Meca, no ano 630. Ao mesmo tempo estava iniciada uma guerra santa, conquistando para o islã, sucessivamente, cidades, regiões, países, grande parte do Império Bizantino, além do avanço pelo norte da África, inclusive a África latina e a península ibérica, esta então um reino visigodo.

        Sequência cronológica: Maomé conquistou primeiramente os povos da península arábica; seu sucessor, o califa Abu-Bekr (632-634), passou à conquista da Síria, então do Império Bizantino, tomando Damasco já em 632; Omar (634-644), conquistou Jerusalém, Alepo, Tiro, Beirute, Antioquia (638); Omar conquistou, ou fez conquistar, o Egito (onde foi queimada a Biblioteca de Alexandria, 400 mil volumes) e o Império dos Sassânidas da Pérsia; a dinastia dos Omíadas (661-750), com o califado sediado em Damasco, prosseguiu a conquista da África, sendo que a invasão da Espanha acontecia em 711. A dita guerra santa atingia já ultrapassava o centro da Franca, foi contida em 732 por Carlos Martel, rei dos francos.

        Em 750 o último dos Omíadas, Mervan II, foi assassinado por Abud-Abbas, fundando-se, então a dinastia dos Abássidas, que terá a duração de meio milênio, mais exatamente, de 750 a 1258. Neste espaço se formará a filosofia árabe, mas não sem alguns incidentes políticos. Abderaman, da família do citado assassinado Mervan II, conseguiu na Espanha formar o governo autônomo de Córdova, o chamado Califado do Ocidente, ocupado pelos Omíadas de 756 a 1031. No Oriente, Abul-Abbas, fundador da dinastia dos Abássidas, também é assassinado, em 754; sucedendo-o Almanzor, este transporta a capital para Bagdad.

        Por coincidência, a decadência árabe se fez coincidir com o desmantelamento dos carolíngios, que resultou na pulverização política mais que milenar da Europa. Em 905 Obeidalah funda ainda o califado dos Fatimitas no Egito, com duração até 1171. Em 1096 organizavam os cristãos do Ocidente um primeira Cruzada, também para uma guerra santa, visando diretamente o mundo islâmico, conquistando Nicéia, Antioquia, Jerusalém (1099). Ainda que a Cruzada retenha por muito tempo o governo sobre a cidade de Jerusalém, não conseguiu sucesso definitivo.

        A invasão mongol se tornou um terceiro fator no Oriente Médio. É aluído o califado de Bagdad em 1258. O desastre deu lugar a que se erguesse ao norte o Império turco. Otman (de onde a expressão otomanos) adotou o título de Sultão, em 1299. A capital se estabelece em Brusa, 1326. Em 1453 cai mesmo Constantinopla, que passou a se denominar Istambul. Sucede-se a conquista dos Balcans, um novo caminho para adentrar a Europa cristã, com vistas ao Ocidente ao longo do Rio Danúbio: conquista da Hungria em 1526 e cerco de Viena em 1529. Já em 1516 a Síria havia passado à soberania turca, e assim também o califado do Egito, em 1517. Também será integrado pela Turquia, em 1638 o califado de Bagdad. E assim tudo até 1918, quando, em consequência da Primeira Grande Guerra, a Turquia, aliada da Alemanha, a perdedora do conflito, ficou reduzida ao atual território.

        Pela via marítima penetravam os turcos o Mediterrâneo; neste sentido ocorre lembrar a batalha naval de Lepanto, 1571, ganha pelos ocidentais, ao sul da Itália, que representou uma retenção no avanço turco na direção do Ocidente.

        É evidente que aconteceu um eclipse na filosofia árabe, com a transferência da hegemonia regional para os mongóis, ainda que estes tenham aceito a religião islamita.

        Também o poder árabe na Espanha, ao fim de 800 anos cedeu. Pelayo, descendente de Roderico, último rei visigodo, refugiara-se, com alguns cristãos e patriotas nas Astúrias (capital Oviedo), ao norte da península, a partir de onde se encadeou um paulatina reconquista. Ainda outros reinos se foram criando: Galícia, Leon, Navarra, Casatella. Sancho de Navarra se apoderou em começos do século 11, de Castella, que dá a seu filho Fernando I. Este unifica todo o noroeste e por último reconquista em 1085 a cidade de Toledo. Finalmente, em função ao casamento de Fernando de Aragão e de Isabel de Castela, inicia a se operar a união dos dois reinos mais expressivos, e da qual resultou força para a derrota definitiva dos mouros em 1493. Prossegue a unificação até ao fim. Neste élan, também Portugal, foi acolhido no espaço de 1580 a 1640.

 

        380. Já a meio curso da Idade Média, em 1085, a reconquista da então capital Toledo, influenciou o intercâmbio cultural entre árabes e latinos, pois ali se desenvolveu mesmo um colégio de tradutores.

        Depois de estabilizada a primeira conquista islâmica, os árabes já então haviam passado a viver em relativa paz com as nações cristãs, com vantagem para o comércio. Com o advento dos mongóis, principalmente dos turcos, recomeçou a hostilidade, pois não tinham os novos senhores o mesmo interesse dos seus predecessores semitas.

        Depois do primeiro século de fanatismo conquistador e assimilação das culturas vizinhas e reflexão, a especulação teológica racionalizou as afirmações da fé islamítica, recolhida no Alcorão. Multiplicam-se as seitas religiosas, tal como já houvera acontecido no cristianismo, em virtude das deficiências ou imprecisões dos assim chamados textos sagrados. Enquanto umas seitas islâmicas acentuaram o fatalismo, outras buscaram um lugar para a liberdade. Umas são mais antropomorfistas, outras mais racionalistas. De maneira geral os filósofos, apesar de sua capacidade crítica maior, são vistos como seita herética e apenas tolerável. Todos os grandes filósofos árabes sofreram perseguições da parte dos puritanos, alguns até amargaram o exílio.

        Com Harun-al-Rochid (o justo), contemporâneo e amigo de Carlos Magno, já ocorrera uma renascença das letras e das artes, à semelhança do que acontecia no Ocidente. Foi tolerante com os cristãos, magnânimo com o povo, protetor dos sábios. Com a mesma diretiva prossegue o governo de Almun (813-833). Este reuniu mesmo um grupo de tradutores, em 832. Uma filtragem relativamente rápida se processou da literatura grega para a arábica. Em consequência não demoraram a surgir os grandes pensadores da própria língua árabe: Al-Kindi (796 - 873), Al-Farabi (870 - 950), Ibn Sina (980 -1036), Averróis (1126 -1198).

 

        381. A assimilação da cultura grega pelos árabes se processou através do sírio, idioma do mesmo grupo semítico, e que desde o domínio persa se destacava no uso administrativo do Oriente Médio. Com o estudo do mesmo grego, os tradutores passaram logo a fazer a tradução direta dos originais. Depois aconteceria algo similar na Europa latina, onde muitas traduções se fizeram primeiramente através do árabe, e finalmente diretamente do grego. As más traduções entradas na Europa aconteceram, não porque as traduções árabes estivessem mal feitas, e sim porque estas traduções se fizeram mal do árabe ao latim. O mesmo acontecia, com as traduções através do hebraico (Cf Munk, Mélanges de philosophie juive et arabe, 1955, p. 314).

        A intensificação das traduções do grego para o siríaco remonta à Escola Nestoriana de Edessa (431-489) e facilitou a transposição posterior ao árabe, pois fora para a Síria que primeiramente se dera a expansão islâmica. A literatura em siríaco se desenvolveu especialmente por obra dos monofisitas. O enfraquecimento do Império Romano contribuiu para a diversificação idiomática. Justiniano (527-565) foi o último imperador a governar o Oriente e o Ocidente unidos. Em consequência se desenvolveu no Ocidente o uso do latim, enquanto o grego foi sendo esquecido. E assim também no Oriente, a perda de influência de Bizâncio sobre o Ocidente, fez esquecer o latim, além deixar margem ao siríaco, finalmente ao árabe.

        A atitude inicial de Maomé diante do cristianismo fora de indiferença. Também depois da conquista da Síria e da Caldéia, os cristãos dali se acomodaram. Não eram molestados os cidadãos, desde que pagassem os impostos. Nesta acomodação se encontrava a família de João Damasceno (c. 675-749), dos mais notáveis pensadores patrísticos, o qual vivera na Palestina e houvera nascido em Damasco.

        Entretanto, a população cristã tendeu a diminuir, assimilada que era aos poucos pelo islamismo oficial.

 

        382. O aristotelismo árabe se processou sob influências neoplatônicas e logo também do dogma islâmico. Nesta forma, sobretudo na que lhe dera o averroísmo, fora aceito em alguns círculos da Europa latina, especialmente em Paris, onde teve como destacado representante o cônego Siger de Brabante (1235-1284). Uma forte oposição deu motivo ao mesmo tempo de polêmicas com lances de grandes efeitos, inclusive de condenações da censura eclesiástica.

        Do ponto de vista meramente histórico não se trata de decidir sobre o mérito do novo posicionamento dos filósofos árabes, mas de determinar qual fora a posição original de Aristóteles, e porque se dera a mudança para a nova formulação árabe.

        A tendência árabe para o neoplatonismo fora fácil de acontecer, por se tratar de uma filosofia bastante difundida e mesmo favorável à religião. Aliás os cristãos dos primeiros séculos eram de tendência neoplatônica, e que perdurava no agostinianismo medieval. Mas, o neoplatonismo árabe e o neoplatonismo cristão tomaram rumos diferentes.

        Em princípio alguns textos de Aristóteles são efetivamente de difícil interpretação e permitiam mesmo uma reinterpretação neoplatônica, como efetivamente o fizeram Porfírio e Alexandre Afrodísio.

        Aconteceu também que algumas obras de valor, com inspiração neoplatônica, foram atribuídas a Aristóteles, mas que efetivamente são criações neoplatônicas. Uma dessas obras se fez conhecer como Teologia de Aristóteles, a qual é um resumo extraído da obra de Plotino, Enneadas. Outra é Liber de Causis , que reproduz Proclus. Quando no século 13 Tomás comenta o Liber de Causis já o atribui ao mesmo Proclus.

        Assim sendo, o caráter neoplatônico do aristotelismo árabe tem suas razões de ser; o resto dependia de argumentação intrínseca às doutrinas em si mesmas.

        383. Divisão. Costumeiramente se divide a filosofia árabe pela ordem cronológica dos seus representantes. São divididos os filósofos também pela diretriz, mais racionalizadora de uns, como Al-Kindi (796-873), Al-Farabi (870-950), Avicena 980-1036), Averróis (1126-1198), mais ortodoxa e fideista de outros, como Hasan-al-Basri, Al-Gazali (1058-1111). Didaticamente, distingue-se ainda entre filósofos árabes do Oriente, como Hasan-a-al Basri, Al-Kindi, Al-Farabi, Avicena, Al-Gazali; filósofos árabes do Ocidente, como Abenmasarra, Avempace, Abentofail, Averróis, Abenjaldun.
 
 
 


        II - Filósofos Árabes. 2216y384.
 

        384. Al-Kindi. Abu Yusuf ibn Ishaq... (c.796-873). Filósofo de língua árabe, nascido em Kafa, Arábia do Sul. Estudou em Basra (hoje no Iran) e em Bagdad (Iraque). Já cedo o Califa o encarregou de traduzir ao árabe as obras de Aristóteles e de outros autores gregos, o que significa haver tido o conhecimento da língua grega, ou ao menos a síria, para traduções indiretas. Fanáticos o perseguem, e uma versão narra que um novo kalifa o expoliou de sua biblioteca, restituindo-a todavia posteriormente.

        Como islamita, pertenceu a Seita dos Mutacilitas, conhecida pelo seu racionalismo. A diretriz geral da filosofia de Alkindi é aristotélica, e a mais aristotélica dos autores árabes. Inclui, entretanto, elementos neoplatônicos e pontos de vista próprios. Estabeleceu a unidade do inteleto agente, como já o haviam feito os comentadores gregos, notadamente Alexandre Afrodísio; será retomado generalizadamente pelos demais filósofos árabes. Apresentou um número de 5 categorias (matéria, forma, movimento, lugar e tempo), em vez de 10, como em Aristóteles, o que configura uma influência platônica. Defendeu a liberdade, contra o fatalismo presente no islamismo. Al-Kindi e Al-Farabi, primeiros filósofos árabes, têm a comum tendência de racionalizar o pensamento religioso, escoimando-o de erros vulgares.

        Atribuem-se a Al-Kindi mais de 200 tratados, dos quais a maioria se perdeu, conservando-se principalmente os que tiveram tradução latina. Seus comentários a Aristóteles são os primeiros conhecidos em língua árabe.

        Obras pessoais conservadas: Sobre o inteleto (Risalat al-'agl) (De intellectu), que influenciou a gnosiologia dos pósteros; Sobre a alma (Risala fi-l-nafs); Sobre as definições das coisas e suas descrições (Risala fi hudud al-asya' wa rusumi-ha); Sobre a maneira de deixar a infelicidade (Risala fi hila li-darf` al - ahazan); Livro sobre a causa da geração e do apodrecimento (Kitab fi `illat al-kawn wa-l-fasad); Sobre as cinco essências (De quinque essentiis), que restou apenas na tradução ao latim; Do sono e visão (De somno et visione); Tratado dos erros dos filósofos (Tractatus de erroribus philosophorum); Sobre o objetivo que Aristóteles se propôs; A concordância de Platão e Aristóteles; Sobre a natureza do infinito; Sobre a filosofia primeira; Sobre a unidade de Deus; Sobre a alma substância simples e imperecível.

 

        385. Al-Farabi. Abu Nasr Muhamad bn Tarjan Uslag... (c. 870-950). Filósofo de língua árabe nascido sobre o Oxus (hoje Amu), no Turquestão, junto à cidade de Farab, nos últimos limites alcançados pela conquista islamita. Matemático e sobretudo médico. Veio cedo para Bagdad, onde floresciam as ciências e as artes. Realizou seus estudos com mestres cristãos nestorianos, que o põem em contato com a filosofia de Aristóteles. Ouviu as lições de um certo cristão de nome João, filho de Gilan. Tem-se notícia clara de sua vida apenas no ano 942 quando foi convidado para a corte, em Alepo (Síria), do soberano, que reunia alguns letrados. Acompanhou a este príncipe para Damasco, onde veio a falecer.

        Místico (sufi), desenvolveu uma concepção neoplatônica do mundo, com elementos aristotélicos. Introduziu nos meios islamitas a lógica dos gregos.
O mundo emana da primeira causa, esta todavia totalmente transcendente.

        Estabeleceu a universalidade do inteleto agente, a imortalidade da alma, a distinção real entre essência e existência nos seres criados. A abertura dos inteletos individuais para o inteleto geral não é igual em todos; os que a obtém mais facilmente, conseguem a revelação profética.

        Escreveu muito, havendo-se perdido os tratados maiores. Conservaram-se principalmente os livros traduzidos na Idade Média do árabe ao latim ou ao hebreu. Dada a sua preferência pela lógica, comentou principalmente aos livros do Organon de Aristóteles.

        Títulos: Livro sobre concordância da filosofia dos dois sábios Platão e Aristóteles (Kitab fi-l-yam bayn ra i al-aqimayn Aflatum al-Ilahiwa Aristutalis); Compêndio das ciências (Ihsa al-Ulum); Dissertação sobre os significados do termo inteleto (Maqala fi ma `ani al-aql); A boa conduta (Al sira al fadhila; Tratado sobre as opiniões dos membros da cidade ideal (Risala fi ara`ahl al-Madinat alfadila), obra principal; Formas do governo político (Al-siâsa al-mediniyya); Compêndio do que é bom saber antes do estudo da filosofia (Risala fi ma yanbagi an yugaddam qabl ta `allum al-falsafa); Resposta a perguntas que lhe foram feitas (Risala fi yawaby masa' il `anka); Problemas fundamentais (Uyun al-Masa' il); Livro de advertência sobre a salvação (Kitab al-tambih `alá al-sa `ada), traduzido ao latim na Idade Média pelo título Liber exercitationes ad viam felicitatis (Livro de exercícios para o caminho da felicidade).

        Dentre as obras perdidas, destacava-se Sobre a tendência da filosofia platônica e da aristotélica, que, conforme citações, se dividia em 3 partes: introdução às diversas partes da filosofia, sobre Platão, sobre Aristóteles.

 

        387. Muhamad ibn Abenmasarra (883-931). Muhammad. Filósofo de expressão árabe, nascido em Córdoba, Espanha, e que se fez conhecido como primeiro teólogo islâmico significativo do Ocidente, como Avempace foi considerado respectivamente seu primeiro grande filósofo. Fundou um círculo de ascetas, no contexto da Seita dos Mutazilitas (motazales, em Munk). Levantada suspeita sobre a ortodoxia de Abenmasarra, afastou-se para o Norte da África, e depois de uma peregrinação à Meca e Medina, retornou à Córdoba. Fundou a Escola Massari em Córdoba, e outra em Pechina (Almeria).

        Advertindo para a unidade de Deus e sua transcendência, ao modo da filosofia neoplatônica, tendeu a negar que Deus algo conhecesse, não conhecendo sequer os universais. Se Deus tivesse ciência, ele a dividiria conosco. A criação se faz por sucessões, principiando pelo inteleto universal e dali derivando para o inteleto individual da alma. Se Deus tivesse contato com as criaturas, macularia sua santidade. Nós homens atingimos a Deus pela via mística. Alguns seguidores de Abenmasarra pregavam a comunidade dos bens econômicos.

        Perderam-se as obras do mestre, cujas doutrinas entretanto se conservaram: Livro da explicação perspicaz (Kitab al-tabsira); Livro das letras (Kitab al-huruf).

 

        388. Abu-Bakr al-Baqillani (9...-1013). Filósofo árabe. Da escola as'ari. Foi o primeiro a criar a sistema o as'arismo. Autor de O livro  (Kitab al.Tawhid).
 

        389. Abu Bisr Matt Al Qannay (....-940). Filósofo árabe. Do grupo de tradutores situado em Bagdad.

 

        390. Abu Hamza Al-Isbahani (Idade Média). Filósofo da linguagem, árabe. Filósofos gramáticos (falasifat al-nahwiyin), para designar aqueles que interpretam a lógica como uma gramática internacional.

 

        391. Hatim Al-Razi (...-933). Sustentou controvérsia com o médico e filósofo Muhammad ibn Zakaryya'al-Razi (ou Rhazés).
 

        392. Abu Hayyan Al-Tawhidi (século 10-o). Filósofo árabe e historiador. Discípulos de Abu-Hasan Muhammad ibn Yusuf al-'Amiri, de Nisapur.

        393. Abu Ishaq al-Isfara-Ni (...-1027). Filósofo iraniano. Da escola de As'ri.
 


        394. Abu Ishaq al-Nawbajto (século 10-o). Filósofo iraniano. Seguidor da filosofia si'í.

        395. Abu-i-Barakat al-Bagdadi (c.1085-1164). Judeu convertido ao islamismo.

        Autor de: O livro do estabelecido por reflexão própria (Kitab al-mu'tabar).
 

        396. Abu-i-Hasan Muhammad Ibn Yusuf al-'Amiri (século 10-o). Filósofo iraniano, nascido em Nisapur. Elo entre Alfarabi e Avicena. Esteve duas vezes em Bagdad, retornando ao Iran.

        Diretriz platônica.

        Conservaram-se algumas de suas obras: Tratado sobre a felicidade (Sa'ada), em árabe; ... (Farruj-Namih), em persa. Alguns capítulos de obras perdidas, sobre metafísica, predestinação e livre arbítrio, sobre ótica e temas islâmicos.

        397. Abu-i-Qasim Katib (fim do século 10-o). Filósofo árabe

        Discípulo de Abu-Hasam Munhammad ibn Yusuf al-Amiri.
 

        398. Abu Ishap Ibn Al-Harawi (século 9-o). Místico e filósofo árabe.
 

        399. Abu Jayr Ib Al-Jammar (942- ). Filósofo árabe. Discípulo do filósofo cristão Yahya bin 'Adi.
 

        400. Abu Mansur Al-Maturidi ( -944). Filósofo árabe. Viveu em Sarmancanda.

        De formação sunita.
 

        401. Abu Ya'far Ahmad Ibn Muhammad Alsmnnani ( -1052). Filósofo árabe.

        Da escola as'rí.
 

        402. Abu Yazid Ahmad Ibn Sahl Al-Balji (século 10-o). Filósofo iraniano de Jurasan. Foi mestre de Abu-Hasan Muhamad ibn Yusyf al-Amiri.
 

        403. Abu Zakariyya Yahya Yahyaa Ibn 'Adi ( -974). Filósofo ... Cristão jacobita. Foi um dos tradutores de Aristóteles ao árabe. Teve correspondência com um filósofo judeu de Mosul, Ibn Abi Sa'id al-Mawsili.
 

        404. Abu Zayd Al-Balji (final do s. 9-o). Primeiro filósofo árabe, nascido em Bactriana.

 

        405. Al-Aytam (Alazen, ou Alhagen, dos latinos medievais). Abu 'Ali Muhammad ibn al Hasan ibn al-Haytam (c.965-1039). Cientista árabe, principalmente fisiólogo, psicólogo, astrônomo, erudito em ciência e filosofia.
Discípulo de Alkindi. Livre pensador.
 

  

        407. Avicena (Abu Ali al-Husayn ibn Abd Allaj ibn al-Hasan bn Ali Ibn)
(980-1037). Nome latinizado a partir de Ali Ibn Sina). Notável filósofo de língua árabe e persa, nascido em Afchana, Uzbekistão, até onde chegava o então poder dos califas de Bagdad. É o primeiro filósofo árabe, do qual se conserva uma biografia e restam quase todas as obras. Seu pai era da administração pública, e transferido para Bukhara, ali iniciou Avicena seus estudos sob um preceptor particular. O direito que estudou, logo o iniciou também no Alcorão. A filosofia a começou pelo livro de Porfírio Comentário as categorias de Aristóteles. Avido de aprender, valeu-se também da excelente biblioteca do governador local, onde pôde ter o contato direto com as obras de Aristóteles e de Alfarabi. Depois da morte de seu pai, Avicena saiu em busca de condições de sobrevivência em Gurgany, onde se empregou junto de outro príncipe. Passado mais algum tempo, seguiu em frente, até Gorgan, no Iran. Aliás, a mãe de Avicena era persa, fato que permitiu a Avicena o uso desta outra língua para escrever alguns dos seus livros. Também no Iran esteve em diferentes cidades. Em uma delas foi mesmo ministro. Viveu em Isfhan seus últimos 14 anos, com alta produtividade inteletual.

        A filosofia de Avicena, em seus grandes traços, é a mesma de Aristóteles, - o ser como objeto de metafísica e as teorias de ato e potência, matéria e forma, 4 causas, 10 categorias, como elementos explicativos de tudo. Deus é ato puro, as criaturas composição de ato e potência, a alma é forma do corpo, o inteleto é potência que entra em ato. Também a lógica é a mesma de Aristóteles. A influência neoplatônica ocorre no destaque a transcendência divina, razão porque a criação se faz em graus, de sorte a não ser necessário o contato direto de Deus com a matéria. Estes traços neoplatônicos, que são mais fortes nos primeiros filósofos árabes, se atenuam em Avicena. Mantém uma leve tendência panteísta emanatista, que é neoplatônica. A prova da existência de Deus pelo princípio da contingência foi notavelmente desenvolvida por Avicena, figurando depois como 3â via de Santo Tomás. Sua filosofia influenciou significativamente a escolástica medieval, que, até certa dimensão, é apenas um avicenismo, sobretudo no que se refere ao aristotelismo.

        Obras: mais de 100 consideradas autênticas. Na ordem da importância, destaca-se em primeiro lugar Cânon da medicina (Al-Qanun fi t-tibb), traduzida ao latim em Toledo por Geraldo de Cremona (+1187), passando por ser um dos mais apreciados compêndios de medicina até o início dos tempos modernos.

        Os principais livros de filosofia são: Livro da cura (Kitab al- shifa), isto é, cura dos erros da alma, espécie de enciclopédia de ciências filosóficas e positivas, dividida em 4 partes principais, lógica, física, matemática, metafísica; A salvação (Al- najat), similar ao anterior, sem a matemática; Livro de orientação e advertências, ou, segundo outra tradução, Livro de teoremas e avisos, (Kitab al isarat wal tabihat), sobre lógica, física, metafísica, mística, um dos últimos livros do autor; Livro da ciência (Danish-nameh), original em persa, retomando os temas anteriores de lógica, física, metafísica, a que um discípulo acrescentou a matemática e a música.

 

      408. Algazali. Abu Hamid (Algazel, ou ainda GazalI) (1058-1111). Filósofo e teólogo de língua árabe, nascido em Gazal, Tus, no Iran oriental. Estudou em Gazal e depois em Nisabur, destacando-se logo pelo saber em filosofia e direito. Foi aproveitado pelo sultão para dirigir um colégio em Bagdad (109l-1095). Depois de uma peregrinação à Meca, prestou serviços nas mesquitas de Damasco, Jerusalém, Alexandria, dedicando-se também à meditação. Retornou ainda a Gazal, Nisabur e Bagdad. Por último fundou um mosteiro para sufis em Tus, onde morreu relativamente cedo, com 53 anos.

        Doutrinariamente, cético em filosofia, foi um místico, na pressuposição todavia de que os limites da filosofia são compensados por uma outra fonte de saber. A filosofia não prova, por exemplo, a eternidade da alma e nem consegue estabelecer os atributos divinos. Importa então a prova da autoridade, sobretudo da revelação, já contida no Alcorão. A eternidade do mundo implica em contradição. Deus, ao criar o mundo, não escolheu o melhor. Destacou, portanto, o voluntarismo divino, o que (não?) acontece no sistema de Avicena. A moral e a mística de Algazali assumem características cristãs, razão porque na Idade Média cristã as traduções latinas de Algazali tiveram circulação fácil.

        Obras, quase cem: Revivificação das ciências da religião (Ihya' `ulum al-Din), principal; Tendências dos filósofos (Maqasid al falasifa), em que expõe a filosofia de Avicena; Destruição dos filósofos (Tahafut al-falasifa), a mais conhecida obra, pela qual refuta através da contradição mútua dos filósofos; Guia contra o erro (Munqidh min al-dalal), obra de apreciável sabedoria; o justo meio entre as crenças (Iktisad fi-l-i itikat), com refutação do racionalismo excessivo; O contraste da ciência (Mi`yar al-`ilm fi-l-mantiq), de conteúdo jurídico. Ainda escreveu livros esotéricos.

 

        409. Avempace (Ab bakr Muhammad Ibn Yaha Bn al-Sa'ig Ibn Bâjja). (c.1.080-1138). Avempace é o nome pelo qual ficou conhecido nas traduções ao latim. Filósofo de língua árabe, nascido em Sarragossa, quando os árabes ainda detinham esta região da Espanha. As condições sociais de sua família lhe permitiram adquirir conhecimentos de medicina, matemática, música e filosofia. Com o recuo da conquista árabe, desceu para Sevilha, Granada. Por último se transferiu para, norte da África, muito apreciado pelos príncipes almorávidas. Cronologicamente, é o primeiro grande filósofo árabe nascido na Espanha, havendo praticado ao mesmo tempo a medicina, a matemática e a física. Preparou o advento de Averróes.

        Segue o caminho da filosofia neoplatônica, segundo a qual Deus é transcendente, sem contato com a matéria, criada através de intermediários. A matéria é princípio de limitação e imperfeição. A perfeição mental consiste na progressiva consideração das coisas inferiores, substituindo-as pelo intermediário seguinte, até chegar à consideração do superior, o inteleto agente universal.

        Obras, conservadas em parte, sobretudo aquelas traduzidas ao latim: Regime do Solitário (Tadbir al mutawahhid), mais difundida, sobre a perfeição da mente, a qual consiste na identificação com o inteleto universal; Carta de adeus (Risalat al-wida), opúsculo sobre temas relativos a união da alma com o inteleto agente universal e refutação a aspectos ceticistas do misticismo de Algazal; Tratado sobre a alma, conservado no Escorial; Sobre a união do inteleto com o homem (Kalama fi ittisal al-age bi-l-insan). Escreveu também tratados de lógica, incompletos, além de comentários a Física e a outros livros de ciências naturais de Aristóteles, do que praticamente nada sobra.

 

        410. Tufail (Abu Bakr Muhammad ibn Bbd al-Malik ibn Abuhacer) (c.1110-c.1185). Médico e filósofo de expressão árabe, nascido em Guadix, Andaluzia (Granada, Espanha), quando da dominação muçulmana. Ocupou cargos na corte de Granada, primeiramente como secretário, depois como vizir (ministro). Aproveitou sua influência para atrair outros sábios, entre eles Averroes. Por último, retirou-se para Marrocos, onde faleceu.

        Foi um neoplatônico, como o foram, no todo ou em parte, Algazel, Avicena, Avempace, aos quais estudou. Preocupou-se particularmente com a marcha de retorno do pensamento do inteleto passivo (humano) ao inteleto agente (universal), este emanado de início diretamente de Deus. Fora conhecido pelos escolásticos medievais através de menções de Averroes.

        De todos os seus escritos, incluindo poesias, matemática, medicina, filosofia, restou somente um romance filosófico muito singular e portador de idéias. Imaginou um vivente nascido em ilha isolada, sem pai e sem mãe, a desenvolver de pouco em pouco seus conhecimentos sensíveis, inteletuais, progredindo até chegar a união com o inteleto agente universal e conseguir a felicidade plena. O sentido do isolamento na Ilha é o de que a marcha para o universal importa em um despojamento do profano e mundano.

        Obra: Filósofo autodidata (Philosophus autodidacticus), conforme o título que se deu ao romance na primeira tradução do árabe ao latim, no século 17, por E. Prococke, quando também foi impressa (Oxford, 1671). Título original: Carta de um vivente, filho do despertador, sobre os segredos da filosofia iluminadora (Rizala de hayy ibn Yaqzam fi asrarr al Hikmat al Masriqyya). As vezes é citado brevemente por Vivente, filho do despertador (Ayy ibn Yaqazan). Imagina-se um vivente nascido em ilha isolada, sem pai e sem mãe, a desenvolver de pouco em pouco seus conhecimentos sensíveis, inteletuais, progredindo até chegar à união com o inteleto agente universal e conseguir a felicidade plena.

 

        411. Averróis (Abul-l-Walid Muhamad ibn Ahmad ibn Muhammad ibn Rusd) (1126-1198). Notável filósofo e jurisconsulto de língua árabe, nascido em Córdoba, capital do então califado árabe do sul da Espanha. Tal como Avempace foi considerado o primeiro grande filósofo árabe da Espanha, Averróis foi apreciado como tendo sido o maior. Também no quadro geral de toda a filosofia árabe é dos mais eminentes, comparável a Avicena. Filho de um juiz, ele mesmo também estudou direito. Foi nomeado juiz de Sevilha em 1169, de Córdoba em 1171. Anteriormente, a partir de 1153, estivera em Marrocos, poucos se sabendo desta fase de sua vida. Deixando aos poucos suas ocupações de juiz, fez prevalecer suas outras inclinações, adiantando-se em medicina, matemática, filosofia.

        Quando já além dos 40 anos, foi apresentado ao Califa como sendo capaz de atender à vontade deste sobre uma clara análise de Aristóteles. Sobretudo desde então Averróis criou sua grande exegese do pensamento do estagirita. Comentou também a outros filósofos árabes e escreveu obras originais. Banido para Marrocos, em 1195, por causa de suas idéias, passou os últimos 3 anos neste país africano, havendo sido restabelecido pouco antes de morrer. O então fanatismo árabe fora gerado, entre outros motivos, pelas constantes lutas contra os cristãos.

        412. Em princípio, Averróis não quis apresentar pensamento próprio, por considerar não haver algo novo a dizer além do que Aristóteles já dissera. Mas se encontra sob a influência neoplatônica, todavia menos que os comentadores árabes que o antecederam. Outras vezes discorda com os comentadores e por vezes também de Aristóteles. Precisamente sobre os aspectos neoplatônicos, Averróis aceita a doutrina da inteligência das esferas, colocadas entre o primeiro motor (de Aristóteles) e o mundo. O céu de Averróis é um ser vivo, que não nasceu e nem morrerá, porque sua matéria é superior ao da do mundo sublunar. Concordando com os neoplatônicos, os intermediários entre o mundo e Deus precisam ter a conveniente perfeição e por isso deverão ser inteligentes e eternos. Apesar da assertiva islâmica de que Deus criou o mundo, adverte Averróis, que algumas passagens do Alcorão (11,6; 41,10) permitem interpretar que a referida criação se refere apenas à forma.

        Explicitou a teoria aristotélica do inteleto passivo e ativo. Este, estando em ato, tem a capacidade de abstrair. A compreensão final se processa pelo inteleto passivo atualizado pela forma, entendo a forma que eventualmente receba. O inteleto passivo, por estar desprovido de qualquer forma, mas podendo contudo receber qualquer uma, tem assim a possibilidade de entender tudo, ainda que sucessivamente; não tendo qualquer forma, está em potência para receber as que se lhe queiram imprimir. A referida teoria, atribuída a Aristóteles, será também a de Tomás de Aquino.

        A alma se individualiza apenas em parte; esta individualização ocorre na parte sensitiva inferior, enquanto os inteletos passivo e agente são universais e eternos. Não há imortalidade individual, mas a imortalidade da alma da humanidade. Defendendo esta doutrina do inteleto separado, não a apresenta do mesmo modo como o fizera Alexandre Afrodísias, o que provocou no Renascimento a divisão dos aristotélicos em Alexandristas e averróistas.
 

        413. Obras: Comentários Pequeno (Jawâmi), Médio (Talkhis), Grande (Tafsir), dos livros de Aristóteles; estas distribuição dimensional dos comentários, facilitou didaticamente o acesso a Aristóteles. Traduzidos os comentários do árabe ao latim, no século 13, eles também tornaram a filosofia do Estagirita a grande questão a partir daquele século frente à tradição platônica da escolástica anterior. O bispo chanceler da Universidade de Paris condenou várias proposições averroistas em 1270 e 1270. Depois se dá a impressão: Aristotelis Stagiritae... cum A. Cordubensis... Commentariis, Veneza, 1560.

        Não dominando a língua grega, Averróis somente não comentou de Aristóteles a Política e a História dos animais, porque delas não conseguira as traduções. Os comentários foram feitos em três dimensões didáticas: grandes comentários, médios, pequenos. Comentou Averróis também a República de Platão (Averroes_ Complementary on Plato_s Republic, Cambridge, 1956).

        Dentre as obras originais de Averróis, quase todas conservadas, destacam-se:
 

        Destruição da Destruição (Tahafut al-Tahafut), refutação a Destruição aos filósofos de Algazal; Dissertações sobre diversas partes dos livros lógicos de Aristóteles; Dissertações físicas; Dissertações sobre a união do inteleto ativo e passivo; Dissertação sobre se o inteleto humano entende as formas separadas; Crítica sobre o que se disse sobre o acordo da religião e da filosofia; Livro sobre a exposição dos caminhos que levam a demonstração dos artigos da fé. Infelizmente se perdeu seu livro de análise da Filosofia primeira de Nicolao de Damasco.

        414. Ibnarabi (1165-1240). Místico e filósofo de expressão árabe, nascido em Múrcia, Andaluzia, Espanha. Iniciado no sufismo e na filosofia de Averroes, dedicou-se a escrever sobre assuntos espirituais, sobretudo após seu êxtase espiritual, ocorrido em Fez, 1198. Percorreu a Andaluzia, África do Norte, Egito. Passando por Meca, fixou-se em Damasco.

        Neste tempo crescia a influência do neoplatonismo de Alfarabi e Avicena, no Oriente e Ocidente, os quais favoreciam ao misticismo, do qual Ibn Arabi é um representante. Exerceu influência sobretudo no Oriente, no esoterismo do Islam chiita do Iran, Índia e mesmo Indonésia.

        Obras: As revelações ...... (al-Futuhat al-makkiyya), sobre diferentes etapas da vida espiritual; Gemas escondidas de sabedoria (Fusus al-Hikam), apresentação sequencial de 27 profetas, desde Adão até Maomé, cada um com uma especial manifestação de Deus criador; O intérprete dos desejos (Turjuman al-achwaq), poemas do amor místico, o qual também santifica, tal como a sabedoria; Livro das teofanias (Kitab al-tajalliat), em que os seres são apresentados como o espelho epifânico do ser divino, aproximando-se aqui Ibn Arabi de uma concepção monística do todo.

 

        415. Ibn Khaldung (ou Ibn Jaldun) (1332-1406). Filósofo de língua árabe, nascido em Tunis, de família procedente da Espanha. Serviu ao sultão de Marrocos e depois ao rei de Granada. Em 1370 está em Oran (Algéria), onde se dedica a escrever. Em 1382 se estabelece no Cairo (Egito) com as funções de mestre de direito malekita e juiz. Segue o neoplatonismo, peculiar aos filósofos árabes e desenvolveu conceitos sobre a filosofia da história.

        Obra: História universal (Kitab al Ibar), uma história dos árabes, dos persas, dos berberes, com uma longa introdução (Mukaddimah). Esta é também tratada em separado, em vista de sua importância histórica para a filosofia da história, de que é um dos textos precursores.

 

 


CAP. 11.

FILOSOFIA JUDAICA MEDIEVAL. 2216y417.



 
 

        I - Introdução à filosofia judaica medieval. 2216y417.
 

        417. Sem país próprio, todavia notoriamente resistentes à miscigenação com outras nacionalidades, os judeus atravessaram o longo milênio da Idade Média, isolando-se em pequenas comunidades, quer no mundo oficialmente cristão, quer no mundo oficialmente islâmico. Não foi um milênio de lições de humanidade, nem por parte dos cristãos, nem por parte dos islâmicos, nem mesmo por parte dos judeus no seu isolacionismo nacionalista, muitos deles com provocantes diferenciações no seu modo de vestir. Quase tudo o que veio do mundo helênico-romano se universalizou, menos o judaísmo. Há entretanto no mesmo. Há, entretanto, no mesmo campo do judaísmo correntes ideológicas mui diversas, desde as mais intolerantes, até as mais humanísticas. Paradoxalmente, o cristianismo é senão uma forma helenizada de judaísmo; por se haver desvestido do caráter nacional, universalizou-se, perenizando desta maneira alguns aspectos substanciais do judaísmo.

        Ao contrário do que parece ocorrer nos tempos modernos, no curso da Idade Média os judeus tiveram melhor circulação entre os árabes islamitas, do que entre os cristãos. Em consequência os filósofos judeus são também encontrados sobretudo no mundo árabe, e o tem sido de excelente qualidade. Citam-se, entre outros: Isaac Israeli (c. 851-955), Saadia Ben Joseph de Fayyum (892-943), Salomon Ibn Gabirol, ou Avicebron (1020-1070), Moisés Ben Maimonides (1135-1204), Abraham Abulafa (1240-1290). Já é moderno Isaac Abravanel (1437-1505); geograficamente situado embora entre os cristãos, teve por isso algumas dificuldades.

        O pensamento filosófico judaico medieval tem sido variado e versátil, operando uns dos seus representantes com Platão, e outros com Aristóteles, sem contar com as formas misticistas e cabalísticas.
 
 


        II - Filósofos Judeus. 2216y418.
 

        418. Isaac Israelli (c. 851- c. 950). Filósofo e médico de origem judia, nascido na Tunísia. Viveu no Cairo. Médico na corte do Califa; aliás, desde 910 estava fundada a dinastia dos fatimitas. Teve oportunidade de contatar a cultura islâmica, como ainda a helênica.

        Sua atitude foi de abertura para todas as maneiras de pensar. Seu pensamento era uma combinação com do aristotelismo e do neoplatonismo. A criação se fez do nada, portanto de acordo com a Bíblia judaica e o Alcorão maometano. As restantes etapas teria ocorrido de acordo com a emanação neoplatônica. Este ecletismo é apontado como uma interação de duas doutrinas e que na mente de Isaac Israel ainda não encontram claro desenvolvimento, numa época em que nem a filosofia árabe se encontrava adiantada. A salvação a situou em nível intelectual, ocorrendo pelo retorno da alma individual a alma universal. Atribuiu-se a Isaac Israel a famosa definição da verdade como sendo a "adequação do intelecto ao objeto" (Adequado intellectus et rei), mencionada pelos escolásticos.

        Obras, escritas em hebraico, e que tiveram versões árabe e depois também em latim: Livro das definições, sobre lógica e outros assuntos; Livro dos elementos, sob a influência da medicina de Galeno e Hipócrates; Livro do espírito e da alma.

  

        419. Ben Josef al Fayyum (ou Saadia Gaon = o chefe) (892-943) (outros dizem 884-944, ou ainda 942). Filósofo de origem judia, de expressão hebrea e árabe, n. em Dijaz, Fayyum, Egito. Designado, cerca do ano 328, chefe (Gaon) da Escola de Sora (ou Sura), por iniciativa das autoridades judaicas superiores de Babilônia.

        Ideologicamente contrário ao rigorismo e tradicionalismo dos caraítas, defendeu uma interpretação da lei judaica segundo a forma humanizantes dos talmudistas. Em virtude de suas reflexões as relações entre a religião e a filosofia, passou a ser considerado o primeiro filósofo da religião judeu.

        Obras: Livro das crenças e das opiniões (Kitab al-amanat wab-l'tikadad), traduzida ao hebreu por Yehudá ibn Tibon, sob o título Sefer ha-Emunoth Vedeot, 1186; Dicionário (Agron),considerado o primeiro dicionário hebreu; uma tradução da Bíblia ao Árabe.

  

        420. Ibn Gabirol, Salomon (ou Avicebron) (c.1020-c.1070). Filósofo e poeta de origem judia, nascido em Málaga, da então Espanha Muçulmana. Estudou em Saragossa, onde principalmente trabalhou. Por último foi forçado a deixar a cidade, indo-se para Valência, onde morreu relativamente novo.

        Na sua filosofia, de tendência mística neoplatônica, Deus é apresentado como criador do mundo a partir do nada; nisto concorda com a Bíblia judaica e com o Alcorão islâmico. Em vez da criação fazer-se através do Lógos (a Inteligência) é feita diretamente pela vontade mesma de Deus. Esta reformulação do pensamento de Plotino tornou Avicebron mais aceitável aos cristãos. Conserva também a doutrina agostiniana segundo a qual todos os seres criados, mesmo os espirituais, se compõem de matéria e forma, afirmativa que será contestada pelos aristotélicos medievais, como Tomás de Aquino.

        Escreveu a filosofia em árabe, e a poesia em hebraico, conservando-se esta nas sinagogas. Títulos: Livro sobre a correção dos costumes (........ .......), com tradução imediata do árabe ao hebreu; Fonte da vida (Makor ha haim), logo traduzido do hebraico ao latim, por último, em 1926, retraduzido ao hebreu moderno.

  

        421. Moisés Ben Maimônides Ou Rabi (Mestre) Moses Ben Maimon, ou pelas iniciais Rambam. (1135-1204). Filósofo e teólogo espanhol, de origem judaica, nascido em Córdoba. Aos 13 anos, com a familia, se retirou para Fez, Marrocos, para fugir às perseguições estimuladas então pelos almóadas.

        Viajando pelo norte da África, chegou em 1165 à Palestina, de onde, por causa das cruzadas cristãs, retornou ao Egito. No Cairo trabalhou no comércio de jóias. Foi médico da corte do sultão. Chefe da comunidade judaica.

        Praticou a filosofia de Aristóteles, com a qual conceituou racionalmente os ensinamentos bíblicos. No caso de conflito de textos, apelava à interpretação alegórica. Deus é um e único, sendo alcançado somente pelos atributos negativos. O mundo é criado por Deus, e por ele dirigido. Considerou universais, em igualdade, as religiões judaica e islâmica, atribuindo à cada qual sua função. O Messias esperado não será um Deus, mas apenas um homem sábio, e descendente de David. Deus recompensa aos bons e castiga aos maus. Os mortos ressuscitarão. Exerceu Maimônides larga influência nos meios cristãos da Idade Média; nos tempos modernos se anota a influência sobre Spinoza.

        Obras: O guia dos desgarrados, impressa em 1520, (título também; traduzido por Mestre dos perplexos), sendo o título hebraico Moreh nebuchhim (o correspondente em Árabe Dalatat al-Ha irin, no latim Dux dubitantium, com as variantes dux perplexorum, dux neutrorum, directio perplexorum), sua obra filosófica principal, contudo com um fundo teológico e bíblico, buscando este principal livro de Maimônides, impresso na tradução latina em 1520, conciliar a fé e a razão; A luminária, em que trata dos 13 dogmas fundamentais do judaísmo; Mishnah Torah, sobre doutrinas do livro judeu de igual nome; e outros comentários ao Talmud e aos livros bíblicos. Tratou também da física, matemática, astronomia. Seus tratados de medicina foram consultados até ao século 16.

  

        422. Abulafia. Abraham (1240-1290). Filósofo espanhol, de origem judia, nascido em Saragoça.

        Neoplatônico no estilo de Filo e Plotino, admitia uma experiência profética acima da especulação mental, da qual seria um coroamento.

        Escreveu vários textos, numa época em que apareceu também o famoso Livro do esplendor (Sefer Ha-Sohar).

 

        424. Cabala. Arrola-se no contexto da filosofia judaica todo o movimento da Cabala, com fundo panteísta, cujo original simbolismo e ritualismo, se formulou dos séculos 9-o ao 14-o.

  

        425. Declina a filosofia judaica na passagem da Idade Média para os tempos modernos, como também acontecia com a filosofia dos mesmos árabes. Passa a ocorrer uma paulatina intensificação da filosofia judia nos países da Europa Ocidental cristã, em virtude de novos fatores a agir no meio. Seja lembrado o nome de Isaac Abravanel (ou Abrabanel, ou ainda Abarbanel) (1437-1505).

        Filósofo espanhol, de origem judia. Pai de Leão Abravanel (dito Leão o Hebreu) que nasceu, quando Isaac se encontrava a serviço do rei Afonso V, em Lisboa, Portugal. Foi tesoureiro dos reis católicos da Espanha. Em vista da pressão contra os judeus na Espanha retirou-se para a Itália, completando lá a maior partes dos seus escritos.

        Manteve-se Abravanel na linha do pensamento platônico e místico de Maimônides. Produziu textos de exegese bíblica, com reflexões filosóficas e teológicas, não esquecido o messianismo.

        Obras: Fundamentos da fé (Rosh-Ha Eniuhah, 1505), redigido ainda na Espanha, em que junta maimonismo e cabala; Fontes da redenção (Ma'Ayene Yesu'ah, com posterior impressão em Veneza, 1579); Comentários aos primeiros e segundos profetas (tradução italiana, Comentari ai primi e secondi profetti, Amsterdam, 1642). Mais tarde aparecerão nomes como Spinoza, Mendelsohn, e muitos outros.

 

 

 


CAP. 12.
FILOSOFIA MEDIEVAL BIZANTINA. 2216y426.


 

        426. Introdução à Idade Média bizantina. Penetra algum tempo na Idade Média a filosofia patrística, até que houvesse novos acontecimentos. Enquanto no Ocidente acontecia uma transposição do grego para o latim, o que por sua vez gerou as línguas românicas, no Oriente prosseguia normalmente o uso da anterior língua grega. Teve portanto no Oriente a própria época antiga a sua continuidade preservada.

        A Idade Média propriamente dita de Constantinopla não começa realmente com a queda de Roma, em 476, que marca o seu início no Ocidente; em Constantinopla a Idade Media efetivamente inicia, quando ela deixa definitivamente de representar o antigo Império Romano, e isto acontece apenas depois das ambições frustradas do Imperador Justiniano, que morria em 565. Segue um declínio durante o qual os árabes conquistam a região da Síria e todo o norte da África, até penetrarem na Espanha em 711. O que a ingenuidade dos crentes atribuíra ao sucesso de uma guerra santa, efetivamente era em parte também uma consequência óbvia de um império falido.

        Melhora a situação bizantina com a ascensão do Imperador Leão III (717-740). Cresce a característica exclusivamente grega de Bizâncio e principia o fenômeno de uma Renascença Bizantina, que então terá no Ocidente o seu paralelo com a Renascença Carolíngia. Foi notável o Imperador Leão VI, cognominado o Sábio, e ainda o Filósofo, que ascendeu ao trono em 886. Com o Imperador Teófilo e com César Bardas se reorganizou a Universidade de Constantinopla (vd n 432).

        Alteram-se profundamente as condições de Constantinopla no século 13, quando o Império se reduz a condição de fraca potência, até ir à definitiva falência em 1453, ao mesmo que ocorrem as Cruzadas vindas do Ocidente.
Tudo se refletiu no desenvolvimento da filosofia bizantina medieval, de sorte a haver também nela acontecido fases distintas, ou mesmo períodos maiores. Seu estudo merece atenção, quer pelo valor interno que apresenta, quer ainda porque teve influência sobre o Ocidente.

 

 

 


ART. 1-o. PRIMEIROS MEDIEVAIS BIZANTINOS. 2216y427.


 

        427. A filosofia medieval bizantina, em sua primeira fase, já apresenta no Oriente grego nomes de valor, mas possivelmente nenhum deles atuou na cidade mesma de Constantinopla: Pseudo Dionísio, João Filopono, João Damasceno. Ainda que sejam de regiões passadas logo às mãos dos árabes, seus livros se fizeram presentes em Bizâncio. Em 425 o Imperador Teodósio II instituía a Universidade, com 31 professores, dentre os quais 3 eram setores, 10 gramáticos latinos, 10 gramáticos gregos, 5 sofistas, 2 juristas, 1 filósofo (Código de Teodósio, XIV, 9, 3). Cresceu a biblioteca, atingindo em 474 a cifra de 120 mil volumes.

        Em consequência da reação cristã, eram fechadas em 529, pelo Imperador Justiniano, as Escolas tradicionais de Atenas, inclusive a Academia Platônica. Evidentemente foi um retrocesso, que abalou profundamente o rumo natural do pensamento filosófico, até então relativamente livre. Se não bastasse esta calamidade, pouco depois a ação islâmica liquidava a biblioteca de Alexandria.

  

        428. Pseudo-Dionisio (entre 485 e 535). Teólogo e filósofo de expressão grega, de nome pessoal não conhecido, porque se encobriu sob a denominação de Dionísio Areopagita, aquele ao qual o Apóstolo Paulo converteu ao cristianismo pelos anos 50 de nossa era, por efeito de seu discurso no Areópago de Atenas (Atos 17,34). Semelhantemente aos apócrifos com denominação de uma figura cronologicamente anterior, da qual tomavam por isso maior autoridade, também o Pseudo-Dionísio gozou de grande autoridade no decorrer de toda a Idade Média, porque se supunha contemporâneo dos primeiros cristãos. Mais precisamente, o autor poderá ter vivido na Síria, talvez um bispo por causa da maneira respeitosa de se referir às autoridades da Igreja.

        Atingiu um nível de pensamento não comum entre os cristãos. Sua orientação é neoplatônica e reproduz textos de Proclo (480-485), sem todavia mencioná-lo pelo nome. Deus é transcendente. Suas propriedades e as das criaturas somente se aproximam por analogia. Estabelece a plena espiritualidade dos anjos, contrariando ao agostinianismo e aos platônicos cristãos em geral, os quais supunham haver uma matéria subtil em todas as criaturas.

        Obras: Sobre os nomes divinos (Per`theíoon onomátoon), De divinis nominibus, na tradução latina, a obra mais importante; Sobre a teologia mística (Perì mistikês theologías), De mystica theologia, na versão latina; Sobre a hierarquia celeste (Perì tes ouranías), De coelestis hierarquia, na titulação latina; Sobre a hierarquia eclesiástica (Per thes eklesiastikes hierachias), em latim De ecclesiastica hierarquia.

  

        430. João Filopono (ou de Alexandria, ou ainda Johannes Gramaticus) (6-o. séc.). Filósofo de expressão grega, residente em Alexandria, do qual pouco se sabe. Ainda que pareça ter sido inexpressivo em seu tempo, foi muito apreciado e influente depois. Mais para o fim da vida se tornou cristão, por sua vez no quadro da seita dos monofisitas, segundo a qual em Jesus haveria somente uma natureza, a divina, na qual se transformaria a humana.

        Comentou a Aristóteles. Como filósofo foi discípulo de Hamônio Hérmias. Ainda que se possa dizer que tenha sido um platônico, dedicou a Aristóteles, que os demais cristãos de sua época.. Traduzido no século 13 ao latim, influenciou o pensamento de Tomás de Aquino. Defendeu também que o mundo é criado no tempo, conforme também já havia proposto Filon. A alma é espiritual, sem qualquer matéria especial, contraditando, pois aos neoplatônicos, inclusive neoplatônico-cristãos. Sobre o movimento dos corpos desenvolveu idéias que se assemelham com as que os medievais denominariam impetus.

        Obras, com a respectiva tradução latina: Sobre a eternidade do mundo contra Proclo (De aeternitate mundi contra Proclum,); Sobre a criação do mundo (De opificio mundi). Os Comentários aos livros aristotélicos, na citação latina: In cathegoria; In Analítica priora; In Analitica posteriora; In primos quatuor Aristotelis de naturali auscultatione; In librum primum Metereorum; In libros tres De anima; In libros duos De Generatione et interitu; In libros XIV Metaphysicorum; In Physicorum libros.

  

        431. João Damasceno (c.675-749). Teólogo e filosofo cristão, de expressão grega, nascido em Damasco, Síria. Era o tempo em que a região fora conquistada pelos árabes, havendo a mencionada Damasco servido de capital do califado, de 661 a 750. Sabe-se que ingressou no mosteiro de São Sabas de Jerusalém e que como sacerdote atuou na região da Palestina.

        Foi apreciado como pregador, sendo ainda hoje lidos os seus sermões. Filosoficamente seguiu o neoplatonismo na forma como então estava difundido na Síria, isto é, com alguns elementos aristotélicos. Como ele mesmo declarou, não quis fazer obra nova e sim ordenar os pensamentos. Foi neste particular valioso seu trabalho, porque criou modelos de vastas sínteses, que depois serviram aos medievais, sobretudo para criação das grandes sumas.

        Obras: Fonte do conhecimento (? v), que reúne em sistema todas as suas doutrinas e por isso é a sua obra principal; Discursos apologéticos contra aqueles que rejeitam as santas imagens; Contra os nestorianos; Contra os jacobitas; Das duas vontades, contra os monotelitas; Diálogos contra os maniqueus; Diálogo entre um cristão e um sarraceno; Sobre os dragões e as feiticeiras.

 

  


ART. 2-o. RENASCENÇA BIZANTINA. 2216y432.


 

432. O nome principal da Renascença Bizantina, sob Leão VI, subido ao trono em 886, foi o erudito Fócio; destacaram-se também João o Gramático e Aretas de Cesaréia (distinto de Aretas o Capadócio, médico do 1-o século). Até o século 12 são seguidos por Miguel Pselos, João Ítalo, Miguel de Éfeso, todos com alguns discípulos; também em torno destes nomes se arrolam outros mais, como Teodoro de Esmirna, Nilos, Leão de Calcedônia, Eustrato de Nicéia (c. 1050-1120).

        A preferência por Aristóteles foi, por estas autores de Constantinopla, ligeiramente maior, do que no Ocidente, por muito tempo mais platônico ou agostiniano.
 

  

        433. Fócio (820-891). O mais erudito de todos os tempos da antiga Constantinopla. Leigo rapidamente transformado em clérigo, ocupou duas vezes o posto de patriarca, 858-867, quando o afastou o Papa em combinação com o Imperador, 878-886, quando de novo destituído, tudo em função às discordâncias de cúpula entre a Igreja ocidental e a oriental.

        Filosoficamente preferiu Fócio a Platão, ainda que fosse um comentarista de Aristóteles. Na questão dos gêneros e espécies, que dividia nominalistas e realistas, buscou uma solução intermédia, mostrando os inconvenientes de ambas as soluções radicalizadas. Disse que os gêneros e as espécies são corporais, sem serem corpos; desenvolvem a substância, sem serem a substância. Acusou à Igreja ocidental de acréscimos indevidos na doutrina sobre o Espírito Santo, e que portanto não seriam de credo obrigatório. Neste plano Fócio influenciou toda a teologia posterior da Igreja Ortodoxa.

        Obras: Biblioteca (Bibliotheke), resumos de 280 livros, atas e cartas, contendo informações notáveis sobre o passado (na edição P. G. , vol. 104 p. 104 à 956); Anfilochiana, com 324 respostas a consultas sobre teologia e filosofia; Contra os maniqueos; Da processão do Espírito Santo (........ ..... .. mystagogia), abordando a questão que divide católicos e ortodoxos; além de discursos e poesias.

  

        434. Miguel Pselos (1018-1080). Filósofo de expressão grega, n. em Constantinopla, de família patrícia. Batizado como Constantino, elegeu depois o nome de Miguel, quando entrou para mosteiro, do qual todavia logo se retirou. Viveu na corte imperial, como funcionário e político influente. Ali foi professor de filosofia e presidente da Academia.

        De orientação neoplatônica, todavia aberto para a filosofia de Aristóteles, cuja lógica comentou. Espírito racional, advertiu que muitos fatos miraculosos ou atribuídos ao demônio, ainda que possíveis, são falsas interpretações ou mesmo simples falsidades. O mesmo disse de narrativas importantes da Bíblia. A presença de Deus no alto do Sinai não poderia ser mais que uma afirmação alegórica. Falsas também costumam ser as interpretações sobrenaturalistas do misticismo; assim seriam falsos fenômenos descritos por Miguel Cerulário e pelos ocultistas.

        Obras: Comentários a Aristóteles (impresso em Veneza, 1532); à Porfírio (Veneza, 1503); ao Timeu de Platão (Upsala, 1854); Introdução à filosofia (Veneza, 1532, Paris, 1541); Opiniões dos filósofos a cerca da alma (Paris, 1618); Cronografia, uma história do século que antecede o autor; De toda a espécie de doutrina. (De omnifaria doctrina, na versão latina); Sobre a ação dos demônios (......).

 

        435. João Ítalos (c.1025-após 1082). Filósofo e teólogo bizantino, nascido na Calábria, Itália, de onde lhe adveio o segundo nome. Dirigiu-se ao Oriente para estudar, onde acabou ficando, havendo sido discípulos e sucessor de Miguel Pselos, além de administrador.

        Sua filosofia é neoplatônica, conforme a de seu mestre Pselos, todavia com alguma simpatia por Aristóteles. Mas o seu racionalismo na explicação dos dogmas cristãos lhe custou algumas perseguições. Também afirmava a doutrina platônica da transmigração e reencarnação das almas.

        Obras: Quase toda a sua obra teológica se perdeu. Conservaram-nas Questões quodlibeta (Quaestiones quodlibetales); Tratados de dialética e de retórica; comentários a Aristóteles sobre Tópicos e sobre Da interpretação.

 

        436. Miguel de Éfeso (séc. 11). Filósofo bizantino, nascido em Éfeso, contemporâneo de João Ítalo.

        Cristão e aristotélico, num tempo em que Platão perdia influência para Aristóteles. Desenvolveu novas idéias sobre a educação, ao comentar a Ética de Aristóteles. Ainda hoje se lêem com interesse páginas Miguel de Éfeso.

        Obras: Comentários aos livros de Aristóteles: Lógica; Metafísica; Ética; Política; Retórica.

 

 


ART. 3-o. BIZANTINOS DO SÉCULO 13
AO FIM DA IDADE MÉDIA. 2216y437.


 

        437. A política das cruzadas, além de não conseguir vencer o poderio árabe, teve desdobramentos diversos, entre cujos feitos consta o da 4-a cruzada, que em 1204 conquistou a própria cidade de Constantinopla. Dividiu-se então o Império em vários pequenos Estados, alguns gregos, outros latinos. Depois de algumas décadas, o Estado grego de Nicéia (na Badana) evoluiu suficientemente, para reconquistar a antiga Bizâncio em 1261. Ao mesmo tempo evoluía a cultura em vários centros: Constantinopla, Nicéia, Tessalonica, Tribizonda, Mistra. Especial menção merece a escola de filosofia criada em Nicéia pelo Imperador João Vatazes (1225-1254).
 
 

        438. Notam-se principalmente os filósofos: Miguel de Itália (inicio do sec. 13), Nicéfiro Blemida (1197-1272), Jorge Akrópolis; Teodoro II Laskaris (imperador de Nicéia), Máximo Planudes (1260-1310), um ocidental em Constantinopla, que com Jorge Pakimeres (1242-1310), figuram entre os mais importantes do século 13.

        Seguem alguns grandes nomes: Pléthon (c.1350-c. 1450); Cardeal Bessárion de Trebizonda (c. 1389-1472); Teodoro de Gaza ( -1470); Andrônico Calisto (....); Jorge de Trebizonda (1396-1485), um tradutor depois estabelecido em Roma; André de Trebizonda (irmão do precedente); Teófanes o Médio ( - 1480); Miguel Sofiano ( -1570).

  

        439. Geórgios Gêmistos, dito Plethon (c. 1389- c. 1464). Filósofo de expressão grega, n. em Constantinopla, segundo outros talvez em Mistra, no Peloponeso, nas proximidades da antiga Esparta. Assumiu o nome literário Plethon, muito mais tarde, talvez já em Florença, com acepção de repleto. Fundou uma academia em Mistra, onde teve como discípulo o futuro Bessarião. Veio, como este, para o Concílio Ecumênico de Ferrara, iniciado em 1438, e logo transferido este para Florença, onde encerrou em 1442. Na oportunidade veio também o Imperador de Constantinopla João VII Paleólogo, com vistas a mais facilmente negociar a união das igrejas latina e grega. Plethon pouco atuou no Concílio, havendo-se manifestado contrário à união como se pretendia fazê-la, por cedência da Igreja Oriental. Ministrou em Florença lições de filosofia platônica, criando os fundamentos para a criação da Academia Platônica de, a qual se efetivaria em 1459 com Cosme de Medicis. Morreu em Mistra.

        O pensamento de Plethon se desenvolveu sob um fundo monista emanatista, sob inspiração platônica e pitagórica, inclusive aristotélica, o que viria a ser finalmente um novo neoplatonismo, que muito tomou de Proclo. Ocupando-se das diferenças entre a doutrina de Platão e Aristóteles, lançou novos questionamentos numa disputa que de há muito ocupava os filósofos da escolástica latina. Quis que Aristóteles não esclareceu satisfatoriamente a natureza da divindade, a dependência do mundo em relação a Deus, a imortalidade da alma, o que ele supõe melhor encaminhado pelo platonismo. Entretanto, mesmo como platônico, sustentava a grandeza da filosofia de Aristóteles frente à de Platão, advertindo mesmo para o espírito científico do estagirita, seu esforço para bem definir sua doutrina sobre Deus e a alma.

        No que se refere à religião, é lembrado, que Pleton tivera entre seus mestres um judeu, de nome Eliseu, e que o informara sobre os oráculos caldaicos atribuídos à Zoroastro, e sobre os quais inclusive escreveu comentários. Propôs uma religião universal racional, à luz do platonismo, em última instância sem sobrenaturalismos, isto é, com expurgações tanto do cristianismo quanto do anterior paganismo. O caráter aberto e reavaliador do pensamento de Pleton se refletiu nas grandes figuras do Renascimento italiano, como Ficino e Pico della Mirandola. Conforme refere Jorge de Trebizonda, teria Pleton advertido que tempo viria, em que uma só seria a religião da humanidade, que não seria todavia, nem a cristã, nem a maometana. Plethon, ao considerar o cristianismo mais fácil de se acordar com o aristotelismo, parece não se advertir que ele nasceu e se desenvolveu em clima platônico, quase como uma sua consequência. Ao tempo de Plethon principia o movimento nacionalista moderno da Grécia, do qual se observam sinais nos seus escritos.

        Obras: Escreveu ensaios sobre Platão, Aristóteles, Zoroastro, publicados posteriormente: Sobre as diferenças entre Aristóteles e Platão (? ?v o v ), escrito em Florença, impresso em grego 1541, em latim 1574; Código das leis (§V, em três livros, sendo o primeiro deles intitulado Sobre o destino (? ??v), publicado em grego 1722, em latim em 1824, sobre os princípios de Zoroastro e Platão; Sobre as virtudes (§v) impresso em latim em 1552. Obras de Plethon em Migne, P. G. CLX.

  

        440. Cardeal Basílio Bessárion (1395-1472). Filósofo e humanista grego, nascido em Trebizonda (Trabzon, na Turquia atual). Foi primeiramente discípulo de Gemistos em Mistra. Nomeado metropolita de Nicéia, vindo nesta condição ao Concílio de Florença, 1438, quando estabeleceu seu contato com o Ocidente. Por haver aderido à união com a Igreja cristã do Ocidente, ficou malvisto, recolhendo-se então à Roma, onde foi gratificado pela condição de Cardeal.

        Pleiteando a remoção do pensamento antigo, promoveu em sua casa reuniões de filosofia. Platônico na essência, como a seu tempo Pleton e Marcílio Ficino, foi todavia mais moderado, buscando também firmar-se em Aristóteles, amenizando as diferenças entre os dois filósofos clássicos.

        Obras. Além de tradutor da Metafísica de Aristóteles, escreveu Contra o caluniador de Platão (Adversus calumniatorem Platonis), redigido embora em grego, publicado primeiramente em latim, 1469, endereçado contra um escrito de Jorge de Trebisonda (grego então também estabelecido em Roma), que houvera acentuado a oposição entre Aristóteles e Platão.

 

        441. Foram os bizantinos a continuidade sem rompimentos da antiga cultura grega. Sem o fenômeno bizantino muito não teria chega aos tempos modernos, quando uma nova Renascença, - esta já no Ocidente, - conduziu em frente a melhor herança da antiguidade. Os últimos da cultura antiga, e ao mesmo tempo medieval, atraídos ao Ocidente, ou mesmo fugidos, depois que se dera a conquista pelos turcos, realizaram ainda um intenso trabalho de tradução no momento exato em que tudo soçobrava.

 

 


Cap. 9Filos. Moderna - Introdução