442. Do ponto de vista metodológico, inclusive didático, importa primeiramente definir o tema dado como filosofia moderna e imediatamente ainda impor uma divisão ordenadora do referido tema, o qual por ser vago na definição também incorre em dificuldades.
§1. Definição da filosofia moderna. 2216y443.
443. O pensamento moderno, - científico e filosófico, - é um espetáculo nunca anteriormente visto similar, sobretudo no que se refere à crescente velocidade do seu desenvolvimento, passando a notar-se cada século inteiramente transformado, para depois se transformar de geração para geração, finalmente no quadro da mesma geração. Em meio milênio a humanidade cresceu notavelmente e finalmente se globalizou, passando a prevalecer acima do conceito de nação o de humanidade, equilíbrio ambiental e mesmo cósmico. A técnica evoluiu de tal modo e as necessidades se tornaram tão complexas, que se transferiram os grandes desafios às máquinas de pensar, as quais processam quase instantaneamente os dados de que precisa o homem.
Se de uma parte é veloz a transformação do pensamento, ocorre de outra parte também o fenômeno da reciclagem. Velhos conceitos subitamente podem tornar-se novos sob um outro ponto de vista. Cada vez mais cresce a convicção de que tudo se transforma, nada se perde, numa ação crescente contra as idéias dualistas em favor de um reduccionismo universal.
A abordagem didática da filosofia moderna se faz advertindo também sobre os fatores que a geraram. E então há a distinguir entre gerais extrínsecos e fatos intrínsecos ao mesmo pensamento.
I - Fatores extrínsecos da modernidade em filosofia. 2216y444.
444. Para a compreensão do pensamento filosófico moderno importa considerar os fatores mais gerais que sobre ele atuaram e ainda atuam, primeiramente os que operam extrinsecamente, depois, mas principalmente, os que agem a partir de dentro.
A partir do exterior circunstâncias as mais diversas influenciaram na formação da filosofia moderna, até mesmo porque hoje o seu espaço geográfico é muito maior, e por isso mesmo atingido por esta maior diversidade de fatores.
Novos acontecimentos políticos influenciaram o desenvolvimento dos povos. A queda de Constantinopla, que em 1453 passou das mãos dos gregos para a dos turcos, além do seu significado político, provocou a mudança das rotas do comércio, bem como a emigração dos sábios bizantino para o Ocidente. Foi também considerável o impacto sócio político, a expulsão dos mouros da Península ibérica, concluída em 1492, devolvida aos seus anteriores ocupantes, de onde resultou o desenvolvimento de dois Estados - Espanha e Portugal.
O progresso da navegação resultou em descobrimentos marítimos. O desenvolvimento do comércio para além-mar permitiu a formação da economia mercantilista, combinada com a produtividade das burguesia, pela qual sobreveio o enriquecimento e o bem estar aos países das Europa, sobretudo dos que melhor souberam desenvolver a indústria de transformação das matérias primas provenientes dos demais continentes.
As descobertas científicas, em especial da mecânica, além das invenções técnicas, ensejaram ao homem nova mundivisão e melhores recursos de desenvolvimento.
O uso das línguas vulgares, substituindo o latim, resultou em novas feições na expressão do pensamento. Primeiramente se desenvolveu o uso do italiano e francês; a seguir do alemão e do inglês. No alemão se escreveram as mais notáveis obras da filosofia moderna a partir de Kant. Por último o inglês terá uma difusão sem precedentes. Finalmente o homem moderno aprendeu a criar línguas planejadas, como o Esperanto.
A vasta difusão da cultura pela imprensa, inventada precisamente na metade do século 15, em pleno Renascimento e quando iniciava a Idade Moderna, deu à filosofia uma nova possibilidade de expansão.
II - Fatores intrínsecos da modernidade em filosofia. 2216y445.
445. Os fatores intrínsecos que atuam na filosofia moderna são ainda mais apreciáveis, que os extrínsecos.
A melhoria dos métodos alterou profundamente as maneiras de desenvolver a pesquisa e argumentação. Também os procedimentos didáticos foram aperfeiçoados. Surgem inclusive os tratados de metodologia. Pierre de la Ramée desenvolveu o método como parte da lógica. Descartes publicou em 1637 Discurso do método, havendo sido a data aproveitada como divisa cronológica de uma nova fase da filosofia moderna: o antes seria uma fase de formação, o depois a sua fundação propriamente dita.
A novidade dos temas é significativa. Destaca-se cada vez mais o campo específico da filosofia frente à teologia; no mesmo sentido de diferenciação distingue-se definitivamente o campo meramente filosófico, daquele outro, o da ciência experimental. Diminui a soberania da teologia sobre a filosofia, mostrando esta, quando o saber teológico requer segurança filosófica e mesmo científica. E assim também a filosofia ganha em substância, porque, devendo atender ao experimental, vê o referido saber experimental crescer e lhe emprestar melhores elementos para reflexão.
A reforma protestante, qualquer seja sua avaliação no campo meramente dogmático, estimulou o debate dos temas religiosos. Análogos foram os efeitos dialéticos resultantes do desenvolvimento da maçonaria e deísmo, bem como do contato com as filosofias do extremo Oriente. A impressão final destes debates ideológicos, é o de que nenhum extremismo conseguiu mostrar plena razão. Converteu-se a humanidade em uma crescente massa crítica pensante, e que se caracteriza por um respeito cada vez mais consciente sobre o direito fundamental do indivíduo opinar e de conviver, apesar do muito que ainda há para se progredir.
A liberdade de pesquisa é uma conquista constante. Muito aos poucos foram vencidos os entraves da Inquisição da Igreja Romana, vindo dos fundos da Idade Média. A União de Igreja e Estado, favorecendo ora católicos, ora protestantes, tumultuou inicialmente a liberdade de muitos filósofos. Na França o Edito de Nantes, 1598, que trouxera alívio aos huguenotes franceses, fora revogado em 1685, mas restabelecido em 1787. O Índex de livros proibidos, da Igreja Católica, também foi abandonado, ainda que já na segunda metade do século 20. Já não mais acontecem fiascos como o da condenação de Galileu, em 1633.
A descoberta de uma relativa subjetividade do conhecimento, como convicção definitiva dos modernos, atuou fortemente no sentido de restringir os horizontes supostamente alcançados pelas filosofias metafísicas tradicionais, especialmente as platônicas. Não sendo as coisas tais como as conhecemos, todos os sistemas de filosofia dos modernos tendem à moderação, no que se refere à realidade efetiva. O mesmo efeito cautelar adveio do melhor conhecimento da psicologia profunda, reduzindo à falsidade, o que muitos acreditavam como revelação divina. O desenvolvimento da história pulverizou também como lendárias muitas das assertivas religiosas do passado.
§2. Divisão da filosofia moderna em períodos e fases. 2216y446.
446. Há a dividir primeiramente do ponto
de vista especificamente histórico, ou seja de duração
no tempo. Revelam-se bastante claramente dois períodos na filosofia
moderna, e vagamente um terceiro, para o qual se estaria encaminhando.
Os nomes dos mencionados períodos não se parecem impositivos,
mas se mostram suficientes para que se tenha como denominar.
No instante da precisão, importa determinar
fases para os períodos, e que auxiliam na ordenação
didática dos temas.
O primeiro período da filosofia moderna apresenta uma fase inicial, que se fez conhecer pelo nome de Renascença (vd n 447ss), com duração de mais de século, seguida depois pela fase de pleno desenvolvimento. Oportunamente se mostrarão as demais fases.
Uma divisão material, sobretudo de efeito didático, é a que divide a história da filosofia pelos seus principais conteúdos, principalmente pelas diretrizes mais fundamentais. Neste caso se apresenta como característica a divisão gnosiológica, em filosofia racionalista (Descartes, Kant, como seus representantes mais característicos) e em filosofia empirista (F. Bacon, A. Comte).
447. Em especial, divisão da filosofia da Renascença. Em se tratando apenas de uma fase da história da filosofia, não se insiste numa divisão cronológica da Renascença, mas principalmente de sua divisão material, pelos temas, sobretudo de suas diretrizes. Não acontece ainda no curso da Renascença aquela insistente divisão entre racionalistas e empiristas.
Um grupo importante se caracteriza como humanista
e helenizante (Art. 1-o). Uma volta à cultura clássica,
relega aos procedimentos tipicamente escolásticos, em troca de uma
releitura dos antigos, bem como todos os seus procedimentos estéticos.
Chamam-se sobretudo humanistas, como no caso de Erasmo, quando o acento
se encontra na linguagem e filologia; helenizantes, como Marsilio Ficino,
Pico della Mirandola, Pomponazzi, quando exaltam ao pensamento antigo.
Evidentemente, o mesmo inteletual podia ser humanista e helenizante ao
mesmo tempo. Com eles se combinam inclusive os cabalistas.
Um outro grupo se denomina naturalista
(Art. 2-o), porque inova advertindo para a natureza, para o sentido monista
do universo e da vida. De novo não há um determinador claro
para diferenciar o grupo, até porque a natureza é o tema
comum de todos os filósofos. Mas, foi no campo da natureza que alguns
filósofos, por exemplo Giordano Bruno, realmente inovaram, e foram
mesmo perseguidos, acuados e até martirizados na fogueira por obra
dos portadores do pensamento tradicional.
Os juristas e filósofos do social (Art. 3-o) são os que destacam as relações humanas, formando, pois, um grupo: Machiavelli, Thomas Morus, Althusius, Grócio.
De outra parte, como a filosofia clássica tinha as mais variadas orientações, o seu restabelecimento tudo evocava, inclusive o ceticismo, cultivado por Montaigne, Charron, Sanchez. Dado o caráter destes céticos modernos, admitem ser tratados separadamente (Art. 4-o), apesar de haverem existido os céticos antigos, e que sugerem que os da Renascença se possam denominar helenizantes.
Também a escolástica latina
(Art. 5-o) se destacou durante o Renascimento, e foi uma escolástica
de prata, e teve muitos nomes do mais alto valor, como Suarez, João
de Santo Tomás, Francisco Vitória. De qualquer maneira, os
escolásticos são remanescentes, em relação
à filosofia anterior, enquanto os demais são inovadores,
e por isso chamam mais a atenção do historiador.
Finalmente, a descoberta da filosofia oriental
pela ocidental aconteceu também durante o Renascimento. Nesta
integração há a ter o cuidado de examinar aquelas
filosofias orientais primeiramente em si, desde quando surgiram e como
atingiram agora o contato com o mundo moderno. Eis, pois, o tema em dois
estágios, - o pré-moderno das filosofias orientais, até
a Renascença, e o que acontecia ao tempo da mesma Renascença,
quando o a descoberta acontecia. (Art. 6-o). Importa, depois, em cada nova
fase da filosofia, atender não somente o que acontece na Europa,
mas também ao que vai crescendo fora dela.
Pelo visto, a história da filosofia se torna cada vez mais complexa, atingindo finalmente o caráter globalizante.
448. Deve-se sobretudo aos humanistas e helenizantes o mérito exterior do nome Renascimento. Cabe sobretudo a eles o desenvolvimento do sentir estético e do humano, ao mesmo tempo que suas variantes filosóficas clássicas, - platonismo e neoplatonismo, aristotelismo e estoicismo, epicurismo e ceticismo. Depois de mais de um milênio de predominância do pensamento órfico e escatológico, retornava a humanidade à espontaneidade das tendências humanas.
§1. Humanistas. 2216y449.
449. Lourenço Valla (1407-1457),
humanista italiano, autor das Discussões dialéticas contra
os aristotélicos (Dialecticae disputationes contra aristotelicos).
450. Erasmo de Rotterdam. Desiderius (1469-
1536). Teólogo e filósofo, helenista e crítico holandês,
nascido em Rotterdam. Não se sabe porque tenha aposto ainda o nome
de Desiderius. Nascido em circunstâncias especiais, como filho
do padre católico Rogérius Gerard (+1484). Foi também
ele encaminhado pelo tutor a um convento agostiniano de Steyer, com votos
religiosos em 1488, e ao sacerdócio, com ordenação
em 1492, em Utrecht. Secretário do Bispo de Cambrai, 1494. Como
tutor de Henrique de Bergen, viajou a diversos países, - Inglaterra,
França, Itália. Deixou contudo, não só o convento,
como também a função de clérigo, para tornar-se
um itinerante da sabedoria, com fixações temporárias
em diferentes países, mas sempre operosíssimo. Em Paris contestou
os escolásticos da universidade. Em Oxford ampliou seus conhecimentos
humanistas. Na Itália contatou os editores de Veneza. Trabalhou
alguns anos em Louvain, Bélgica. Atuou também na Alemanha,
onde se iniciava o movimento protestante. Em 1517, conseguiu formalizar
a dispensa dos votos religiosos. Entende-se
por erasmismo aquele sentimento de reforma da época da Renascença,
e que Erasmo não define ao modo radicalizante, mas liberal, imbuído
de uma profunda liberdade de espírito. No entender de Erasmo, a
reforma filosófica e estética se faria à base da volta
aos clássicos. Situou-se no contexto mental dos que pregavam a volta
notadamente da filosofia platônica. Racionalista, ainda que moderado,
recriminou o autoritarismo dos eclesiásticos. Seu reformismo tendeu
ao estoicismo, todavia humanitário. Aceitou o reformismo protestante,
sem todavia deixar a Igreja Católica. Fez reparos, tanto aos protestantes,
como aos católicos. Foi, por conseguinte, um precursor do liberalismo
em religião. Admitiu mesmo um certo feminismo. Desenvolvendo os
estudos do grego, e encaminhando uma edição em grego e latim
do Novo Testamento (1516), deu origem a uma exegese mais crítica
e menos sobrenaturalista. Encaminhou também edições
críticas dos primeiros padres da Igreja.
Obras: O manual do cristão militante
(Enchiridion militis christiani, 1502), uma de suas obras teológicas
fundamentais; Coletânea de adágios (Adagia collectanea,
1500); Diálogos Coloquia, 1516), que fez sofrer os católicos;
Elogio à loucura (Moriae encomium, seu laus stultutiae,
1509), sátira famosa que atinge falsas idéias, formalismos,
manias sociais e eclesiásticas; A questão da paz (Quaerela
pacis, 1516), que propunha a união da Europa, num momento em
que perigava uma conflito generalizado; Diatriba sobre o livre arbítrio
(De libero arbitrio diatribe, 1524), contra a doutrina determinista
agostiniana de Lutero; Educação de um príncipe
(Institutio principis),com idéias políticas;
Cartas (Corpus epistolarum, conforme publicações
modernas em vários volumes, de grande valia para a história
do pensamento moderno então em formação.
451. Pedro de la Ramée, latinizado Petrus Ramus (1515-1572). Filósofo e humanista francês, nascido em Cuth, Vermandois , Picardia. Ao colar grau como mestre de artes, 1536, asseverou que Aristóteles não era infalível, -Quaecum que de Aristotele dicta essent commentitia, e que os escritos a ele atribuídos eram apenas suposições. Primeiramente atuou no ensino secundário. Ao publicar em 1543 seu novo sistemas de lógica, divergente do de Aristóteles, o rei mandou destruí-la e foi ameaçado de afastamento do magistério.
Professor em 1551 do Collège de France. Aderindo ao calivinismo em 1561, teve de se manter ausente de Paris em 1562 e 1563, de novo em 1567 e 1568. Passa fora do país de 1568 a 1570, lecionando matemática em Heidelberg, Alemanha, em Genebra e Lausana, Suíça. Em 1570, depois de vãos esforços para retomar o ensino, resignou-se a ser retirar da função. Mas é colhido no geral morticínio na noite de São Bartolomeu quando os católicos liquidaram aos calvinistas, morto que foi no seu gabinete de trabalho no colégio de Presles, depois de haver escrito Uma exortação à paz cristã.
De acordo com a tendência geral dos protestantes era contrário ao racionalismo em filosofia de Aristóteles, cujo Deus movia o mundo sem amor. No que se refere à lógica, para a qual Pierre de la Ramée apresentou novas classificações, o importante foi o haver acrescido ao estudo das três operações mentais o capítulo dos métodos. Ainda que o método se deva desenvolver como um parágrafo de cada operação mental, seu tratamento em separado adverte para sua importância, para o que também outros do século 16 advertiram. Dados os violentos ataques à lógica de Aristóteles, dividiram-se as opiniões em prós e contras, de onde a classificação dos lógicos do período em fabristas (referência à lógica de Faber Stapulensis, mais ao gosto do formalismo aristotélico) e ramistas. A lógica é vista mais como uma arte de expor, discutir e responder claramente as questões, aproximando-se pois da retórica, sendo mesmo chamada dialética.
Obras: Quanto Aristóteles disse é invencionice (Quaecumque ab Aristotele dicta essent commentita esse, 1536), dissertação; Advertências sobre a dialética de Aristóteles (Animadvertiones in dialecticam Aristotelis, 1543), em que se concentra em atacar ; Instituições dialéticas (dialecticae Institutiones, 1543), que se publicou depois em francês sob o título Dialectique (= Dialética), 1555, que é a parte construtiva; .... (Scholarum physicarum libri octo, 1565); ... (Scholae dialecticae, 1569); Defesa .... (Defensio pro Aristotele adversus Jacobum Schecium, 1571); Gramática de Pierre de la Ramée, leitor do rei na Universidade de Paris (Grammaire de Pierre de la Ramée, lecteur du Roi en l'Université de Paris, 1572).
§2. Helenizantes.
2216y452.
452. Vários gregos se instalaram na Itália, ou ao menos passaram ali por longos anos. O trabalho de reunificação das duas Igrejas, ainda que se tenha frustrado, fez vir aos concílios pessoas ilustres, como o próprio Imperador ..., o seu convidado Jorge Ghemistos, cognominado Plethon (1389-1464), Bessarione (1395-1472), bispo de Niceía, depois cardeal em Roma; ..... localizado em Roma como tradutor.....(vd filosofia medieval bizantina ....). Os helenizantes se redistribuem pelas tendências adotadas.
I - Helenizantes platônicos. 2216y453.
453. Marsilio Ficino, ou Marcilius Ficinus (1433-1499). Filósofo e escritor humanista italiano, nascido em Figline. Tardiamente ordenado sacerdote em 1473. Cônego da catedral de Florença em 1487. Pertenceu à então Academia Platônica de Florença, que promovia a renovação dos estudos platônicos, e da qual veio a ser presidente.
Entusiasta de Platão, havendo procurado conciliar o platonismo e o cristianismo. Deus é a soma de todos os arquétipos, ou de todas as razões (omnium rationum).
Obras: traduziu ao latim as obras de Platão,
a primeira completa no Ocidente, e de Plotino. Da religião cristã
(De christiana religione, 1474); A teologia platônica sobre
a imortalidade das almas 18 livros (Theologiae platonicae de
immortalitate animarum libri XVIII, 1482), obra apreciável;
um comentário ao Simposion, de Platão.
454. Picco della Mirandola (1463-1494).
Príncipe, filósofo, teólogo e humanista italiano,
n. em Mirândola (no Castelo de Mirândola), perto de Módena.
De extraordinária inteligência e vontade de aprender. Aos
14 anos iniciou estudo de Direito Canônico em Bolonha. Continuou
teologia, filosofia e línguas antigas nas universidades de Ferrara,
Pádua, Pavia. Talentoso e de memória prodigiosa, afirma-se
que dominava 22 línguas aos 18 anos. Viajou muito e reuniu uma grande
biblioteca. Em 1484 foi para Florença. Esteve algum tempo em Paris.
Declarava poder discutir sobre todas as coisas conhecíveis. Ao retornar
de Paris em 1486, propôs uma disputa pública em Roma sobre
900 questões. Mas a Cúria Romana proibiu a discussão
e ainda obrigou a Picco assinar uma renúncia às suas colocações
doutrinárias. Acusado de heresia, evadiu-se para a França,
onde contudo a Inquisição o prendeu. Foi liberto por intercessão
do rei e do Núncio Apostólico, retornando então a
Florença. Amigo de Savonarola, ingressou na Ordem dos Dominicanos,
deste. Morreu aos 31 anos, provavelmente envenenado por um seu secretário.
Não fosse o trágico acontecimento, mais cedo talvez houvesse
deslanchado a filosofia moderna.
Ideologicamente, Pico fez parte do grupo renascentista
dos helenizantes, em especial dos platonizantes, com índole eclética,
considerando excessiva estreiteza caber em um Pórtico, ou em uma
Academia. Propôs uma religião humanista e leiga, portanto
sem clero, na qual se fundiriam o judaísmo e o cristianismo, sob
a inspiração da cultura grega. Na sua nova imagem do homem,
este se desenvolveria segundo um arquétipo platônico, recriando-se
indefinidamente. O homem se realiza, criando sempre coisas novas.
Obras: Discurso sobre a dignidade do homem (Oratio de hominis dignitate, 1486), que é parte do texto maior Conclusões filosóficas, cabalísticas e teológicas (Conclusiones philosophicae, cabalisticae et theologicae), num total de 900 conclusões; Apologia (Apologia, 1487), contendo teses da discussão proposta no ano anterior; Heptaplo, sobre a narração dos sete dias do Gênesis (Heptaplus, de septiformi sex dierum Geneseos enarratione); Disputas contra as adivinhações astrológicas (Disputationes adversus astrologiam divinatricem libri XII); Do ente e uno (De ente et uno, 1492); .Da imaginação (De imaginatione). Obras (Opera), Veneza: 1496, reimpressões, 1572, 160l. Edição crítica, 5 vols., 1942-1956.
II - Helenizantes aristotélicos. 2216y455.
455. Os admiradores de Aristóteles, viram ao grande mestre através de dois de seus intérpretes, de onde resultou a redivisão dos mesmos em alexandristas, em função ao comentador grego Alexandre Afrodísio (do 2-o e 3-o século), averroistas, em função ao comentarista árabe Averróis (do século 12).
Dominavam os helenizantes aristotélicos alexandristas em Bolonha, representados por Pedro Pomponazzi (1462-1524), Júlio César della Scalla, ou simplesmente Scaligero (1484-1558).
Os averroistas dominavam em Pádua, com
Alexandre Achillini (11453-1518), Augustino Niphus (1473-1546), Zimara
(1460-1532), já entrando um pouco no século seguinte, F.
Piccolomini (1520-1624).
Pietro Pomponazzi (1462-1524). Filósofo italiano, n. em Mântua. Doutor em medicina e filosofia na Universidade de Pádua, 1487. Já no ano seguinte assume uma cátedra nesta Universidade, exercendo-a de 1488 a 1496, de novo de 1499 a 1509. Em Ferrara, em 1510. Por último, em Bolonha de 1511 a 1525.
Destacou-se Pomponazzi como um dos filósofos mais ouvidos em seu tempo, ainda que nem sempre seguido. Além de helenizante aristotelista, tendeu ao naturalismo e ao estoicismo Era então Pádua um centro inteletual dentro do espaço político de Veneza, e por isso mais acobertada contra a Inquisição da Igreja Romana, havendo em consequência o aristotelismo averroísta ganho livre curso. Entretanto Pomponazzi, de orientação alexandrinista, se manifestou contra o averroísmo, bem como contra o tomismo escolástico. Alegou que a alma não poderia ser considerada imortal, nem individualmente (contra os tomistas), nem universalmente (contra os averroístas), porquanto não pensava sem imagem sensível, e por isso não sem o corpo, de sorte que desapareceria com a morte deste. A doutrina da permanência da alma, não sendo muito clara no mesmo Aristóteles, dividira aliás aos aristotélicos em averroístas (imortalidade impessoal da inteligência separada) e alexandrinistas (seguidores da interpretação de Alexandre Afrodísio, filósofo de Alexandria), sendo Pomponazzi o líder destes últimos.
Estabeleceu ainda Pomponazi, com aspectos de estoicismo, a Providência fatalista, negando em consequência os fatos sobrenaturais (ou milagres), como as curas tidas como excepcionais, que entretanto deverão ser atribuídas a causas desconhecidas, entre elas a da auto-sugestão. No contexto da sabedoria divina, o milagre seria uma arbitrariedade, e por isso não acontece.
Obras: Sobre a imortalidade da alma (De immortalitate
animae, 1516), condenada em Veneza com solene auto-de-fé; Apologia
(Apologia, 1518), em defesa do livro anterior; Defesas ou
respostas (Defensorum fui responsiones, 1519), continuação
da defesa; Do destino, livre arbítrio, predestinação
cinco livros (De fato, libero arbitrio et praedestinatione libri
quinque , 1520, reimpresso em Basiléia em 1567), posto
no Index dos livros proibidos pela Igreja; Sobre as causas dos efeitos
naturais, ou sobre os encantamentos (De naturalium effectum causis,
fui De incantationibus, Basileia 1556), livro que o autor não
ousou publicar em vida, mas que é certamente seu melhor tratado,
no qual questionou o sobrenatural, os fundamentos da religião e
a atuação repressiva da Inquisição Romana,
motivo porque foi colocado também no Index dos livros proibidos
por esta. Obras completas de Pomponazzi.
456. Francesco Piccolomini (1520-604). Filósofo e humanista italiano, n. em Siena, onde também estudou. Estabelecido algum tempo em Perúgia, fixou-se em 1561 definitivamente em Pádua.
Defendeu, como em geral acontecia em Pádua, a interpretação averroísta de Aristóteles, que então se confrontava a alexandrinista, dominante em Bolonha e seguidora da interpretação de Alexandre de Afrodisia.
Obras: Filosofia universal sobre os costumes (Universa philosophia de moribus, 1583), contra Zarabella, que respondeu; Companheiro político ...(Comes politicus pro recta ratione propugnator, 1596, replica a Zarabella; Sobre os livros ... em que se considera o que diz respeito à alma (Librorum ad scientiam de naturas attinentium pars quinta, in qua considerantur pertinenti ad animam, 1596); Livro sobre a definição das coisas (De rerum definitionibus liber unus, 1599); Exposição sobre os três livros de Aristóteles sobre a alma (Expositio in tres libros Aristotelis de anima, 1602).
III - Helenizantes estóicos. 2216y457.
457. Dadas as analogias com a ética cristã,
sobretudo a ética divulgada pelo Apóstolo Paulo, não
poderia o estoicismo deixar de ter repristinadores no curso da Renascença.
458. Justo Lípsio, na forma flamenga Joost Lips, latinizado Justus Lipsius,(1547-1606). Filólogo e filósofo belga, nascido em Isque, entre Bruxelas e Louvaina. Estudou com os jesuítas em Colônia, Alemanha. Desistindo da carreira eclesiástica prevista, passou ao estudo do direito. Havendo dedicado um estudo de filosofia ao cardeal Granvelle, este lhe deu a oportunidade passar dois anos em Roma, quando preparou edições de clássicos latinos. Assumiu em 1572 a cátedra de história na universidade luterana de Iena, Alemanha. Segue para a Holanda em 1578, para assumir a cátedra de história e latim na universidade de Leyden, fazendo-se agora calvinista. Nesta fase bastante criativa, se envolveu com polêmicas, e que lhe recomendaram afastar-se do país. Por algum tempo em Mogúncia, acolheu-se em 1592 em Lovaina. Retornou também ao catolicismo. Lecionando história e literatura, num centro conhecido desde Erasmo pelos seus estudos humanísticos, os quais com Lípsio ganharam novo vigor. Estuda os estóicos e os edita.
Adatou Lípsio os seus comentários ao cristianismo. A influência estóica já era um fato nas origens do cristianismo, e agora se consolida com o neo-estoicismo de Lípsio. Por índole, não era um sectário, como acontecia frequentemente com os teólogos de seu tempo. A sua vida tumultuada lhe fez refletir sobre a constância, a qual deve todavia ser racional. Como estóico e como calvinista algum tempo, e mesmo como católico, levava em conta o destino como um eterno decreto divino, mas este entretanto controlado por Deus; por isso cabe lugar para a contingência e a liberdade, a piedade e o perdão, mais do que no estoicismo clássico.
Obras: Sobre os gladiadores (De gladiatoribus, 1582); Sôbre o anfiteatro (De amphiteatro, 1584); Sobre a constância (De constantia, 1584); Seis livros sobre a política e a vida pública (Politicorum sive civiles doctrinas libri sex, 1589); Da religião una (De religione una, 1590); Tratado para o conhecimento da história omana (Tractatus ad historiam romanam coognoscendam utilis, 1592); Sobre o exército romano (De militia romana, 1595); Sobre a grandeza romana (De magnitudine romana, 1598); Manual de filosofia estóica (Manuductio ad stoicam philosophiam, 1604). Editou ainda Lipsio textos de Tácito, Sêneca e outros estóicos.
IV - Renascimento da
Cabala. 2216y459.
459. Também a cabala é vista no século 16 como uma volta à sabedoria do passado, ao mesmo tempo que seus praticantes se confundem com os naturalistas. É praticada sobretudo por médicos empenhados no conhecimento dos segredos da natureza. Mencionam-se como novos cabalistas: João Reuchlin (1455-1522), Agripa de Nettesheim (1487-1535), Paracelso, pseudonimo de Teofrasto von Hoenheim (1493-1541), Jerônimo Cardan (1501-1576).
460. O gosto crescente pela natureza se combina em dois campos, o estudo experimental da mesma natureza e sua interpretação de tendência panteísta. O humano combina facilmente com a natureza em geral. Desde há muito vinha rescendo gosto pelas ciências naturais e a física experimental. Aos poucos cresce a combinação da matemática com os estudos da natureza. Sobretudo crescem, por isso, os conhecimentos da física, astronomia, mecânica.
Entretanto, o que intrigava era o toda da natureza, cuja explicação encaminhava em direção do monismo panteísta. Mais fácil se mostrava explicar tudo a partir da unidade, reduzindo a diversidade à tendência abstraccionista da razão, do que admitir a multiplicidade desconectada das coisas.
Os naturalistas do Renascimento eram, com frequência
platônicos. Destacam-se Telésio, Campanella, Bruno, este sobretudo
conhecido como panteísta. Não cessa a linhagem dos naturalistas,
pois eles penetram os tempos modernos adentro. De certo modo, Descartes
é um deles. Antes dele os nomes mais conhecidos foram Telésio,
Bruno, Campanella. Do mesmo modelo naturalista são os atomistas;
cita-se entre estes o Padre Pierre Gassendi (1592-1655), contemporâneo
de Descartes (1596-1650), havendo nascido um pouco antes deste, mas falecido
depois. Gassendi é como que o divisor, entre os naturalistas e atomistas
anteriores, vindos do Renascimento, e Descartes, o definitivo inovador
de uma nova fase.
461 Bernardino Telésio (1508-1588).Filósofo italiano, dos mais destacados m seu tempo, nascido em Cosenza, capital de uma província do Sul da Itália. Depois de seus primeiros estudos em Milão, prosseguiu em Roma (1523-1527) e Pádua (1527-1535), filosofia, física, medicina. Passou os anos de 1536 a 1545 num mosteiro beneditino, que abandonou, casando-se. Viveu em Nápoles de 1545 a 1552. Retornado a Cosenza, fundou a Academia Cosenze, destinada ao estudo das ciências naturais, e que se manteve até o século 17. Passou alguns períodos m Roma. Recusou o episcopado de Cosenza. Não obstante, em 1593, já depois de sua morte, seus escritos foram colocados no Index dos livros proibidos.
Foi Telésio um dos principais representante do platonismo da Renascença, embora tenham muito de singular; o ambiente de Pádua era aristotélico alexandrinista, de onde veio seu contato com o aristotelismo, como o qual discordava. Havendo destacado o conhecimento sensível, foi depois apreciado por Thomas Hobbes. De tendência panteísta, admite algo vivo em toda a natureza; encontra-se por isso alinhado com Giordano Bruno, e influirá a Campanella, bem como ao pensamento italiano até o tempo de Vicco. Na base se encontra o elemento terra, com duplo princípio de ação, - o quente e o frio. O movimento acontece como virtude intrínseca do calor. Os corpos celestes, em virtude do calor e de seu poder intrínseco de movimento, se movem; em consequência dispensam o primeiro motor, de que fala Aristóteles. A imobilidade da terra decorre em virtude de lhe ser inerente o frio, e todo o movimento que nela acontece deriva do exterior. O princípio do fogo é também o elemento constitutivo das vida na natureza. Quanto à alma humana, ela é a mesma que a dos animais, acrescida da alma espiritual criada por Deus.
Obras: Da natureza das coisas a partir de seus
mesmos princípios (De rerum natura juxta propria principia,
vol. 1, Roma,1565; vol. 2, Napoles. 1570); Das coisas que se produzem
no ar, e dos movimentos da terra (De his, quae in aere fiun, et
de terra motibus, 1570); Da origem das cores (De colore generatione,
1570); Sobre o mar (De mari, 1570); Sobre os cometas e
da via lactea (De cometis et lacteo circulo);Do Arco Iris
(De iride); ... (Quod animal universum ab unica animae substantia
gubernatur contra Galenum); Do uso da respiração (De
usu respirationis); Dos sabores (De saporibus); Do
sono (De somno, 1590).
462. Giordano Bruno (1548-1600). Filósofo italiano, nascido em Nola, no então Reino de Nápoles, sul da Itália. Inicialmente ingresso em 1565 na ordem dos dominicanos, ordenado sacerdote em 1572, e doutor em teologia em 1575. Deixou a ordem e a igreja católica já no ano seguinte, porque duvidava dos dogmas da virgindade de Maria, da transubstanciação do pão na ceia eucarística, da divindade de Jesus. Perseguido pela Inquisição Romana, fugiu para o norte da Itália, dali para a Suíça, de onde para a França. Em Paris conseguiu algum socego. Admitido a lecionar, seus cursos foram inicialmente bem recebidos. Havendo publicado livro sobre a idéia, em que critica a Aristóteles, este ato enalteceu os ânimos, o que o obrigou a seguir para a Inglaterra. Passou depois pela Alemanha, retornando até Veneza em 1592. Por meio de procedimentos escusos, a Inquisição Romana conseguiu capturá-lo, e tê-lo em Roma. Depois de sete anos de prisão e resistência a uma abjuração forçada, foi posto no alto de uma fogueira, sob a vigência do pontificado do papa Clemente VIII.
As teses defendidas por Bruno não tiveram tempo de ser ordenadas em sistema, porque a fogueira da Inquisição o atropelou em plena força dos 52 anos. Foi efetivamente um contestador da autoridade dogmaticista da Igreja de seu tempo. O experimentalismo renovado, advertiu, afasta da "ciência renovada" os argumentos da autoridade e de qualquer interpretação exegética de autores do assado. No seu dizer, a autoridade não está fora de nós, mas dentro de nós. Uma estátua foi erguida no lugar da fogueira que o cremou, tão logo ali cessou o poder opressor. Constituiu-se Bruno uma figura simbólica sempre lembrada, independentemente de qual seja a consistência de sua argumentação.
Monista, muito mais do que os outros naturalistas,
identificou Deus com a substância do universo. Negou a existência
de uma esfera exterior a este nosso mundo; este, uma vez identificado com
a divindade, devia ser infinito, e em decorrência se podia imaginar
outros e outros mundos, com os respectivos sóis.
Em Bruno se refletem as doutrinas panpsiquistas
do seu mestre Francesco Patrizzi. A matéria é por si mesma
princípio de movimento, dela emanando todas as formas. Concebeu
as coisas conforme o atomismo de Demócrito, influenciado entretanto
pela imagem neoplatônica do mundo com riqueza imanente. .
Obras: Da sombra das idéias. Da arte
da memória (De humbris idearum. De arte memoriae, 1682),
que lhe custou a saída de Paris; O canto Circeu (Cantus
ircaeus, 1582); Corno (Candelaio,1582), comédia
realista; A venda da besta triunfante (Spaccio della bestia
trionfante, 1584); La cena delle Ceneri,1584); Da causa,
principio e uno (Della causa, principio e uno, 1584); Do
universo infinito e mundos (De l'infinito universo e mondi,
1584); Dos heroicos furores (De gl'heroici furori,
1585); Da mônada, número e figura (De monade, numero
et figura, 1591).
463. Thomás Campanella (1568-1639). Filósofo italiano, nascido em Stilo, Calábria. Religioso dominicano. Estudou filosofia aristotélica e tomista, derivando todavia ele para posições neoplatônicas e que lhe valeram muitos aborrecimentos, numa época de repressão de liberdade do pensamento. Seguiu para Nápoles em 1589, onde publicou um livro, no qual seguiu o naturalismo de Telésio (+1588), o que lhe valeu ser acusado de heresia, nos anos 1591-1. Depois de advertir contra os interesses espanhóis em Nápoles, foi em 1599 preso por conspiração, os longos anos até 1626. Na cela produziu vários dos seus livros. Mal saído da prisão, foi condenado de novo pela Inquisição Romana. Declarado louco, saiu-se dela em 1629. Passou alguns anos em Roma, seguindo em 1634 para a França, onde por último seguiu para Paris, onde veio a falecer.
A gnosiologia de Campanella apresenta um desenvolvimento subjetivista, como a de Descartes, podendo mesmo haver preparado a este. Partiu da idéia agostiniana de ;que a verdade é certa quando o objeto coincide com o sujeito pensante. O cogito tem sua garantia de certeza na identidade consigo mesmo. Em questão ficam os objetos não coincidentes com o eu pensante Tal doutrina já aparece rudimentarmente desenvolvida em seu Sensu rerum et magia, de 1620, obra que Descartes conhecia. Melhor aparece em Universalis philosophia, de 1638 (apenas um ano após o Discurso do método de Descartes), onde Campanella utiliza a dúvida como método, para encontrar como ponto de partida, fora de qualquer dúvida, da própria existência, subordinando a esta certeza à sobre os restantes objetos extrínsecos sensíveis.
Campanella se separa, todavia, de Descartes, em filosofia natural e em metafísica, ao defender o panpsiquismo. Em tudo há um pensamento secreto, à maneira de uma espécie de senso de conservação consciente, em algumas coisas mais claro em outras menos. Os ossos, os cabelos, os nervos sentem, multiplicando-se o sistema das faculdades de conhecimento. Mas, além disto, há uma alma que sustenta o corpo, mantendo suas partes reunidas.
Propôs uma teocracia universal sob a chefia teocrática do Papa. A república, como a apresentou em sua imaginária Cidade do Sol, se orienta pela razão, abolida a propriedade e reformulada a família tradicional.
Obras, divergindo a data da criação
e impressão, dada a tumultuação de sua vida: Filosofia
demonstrada pelos sentidos (Philosophia sensibus demonstrata,1589),
quando é logo acusado de heresia; De sensitiva rerum facultade,
1590; Philosophia sensibus demonstrata, 1591; Sobre a monarquia
dos cristãos (De monarchia christianorum, 1593); Sobre
o governo da igreja (De regimine aeclesiae, 1593); Discurso
aos principes da Itália (Discorsi ai principi d'Itália,
1594); Diálogo político contra luteranos, calvinistas
e outros herejes (Dialogo politico contra luterani, calvinisti
et altri eretici, 1595); Poética (Poetica, 1596);
Cidade do Sol (Civitas Solis, 1602); Se sensu rerum et
magia libri quatuor, 1620); Filosofia racional (Philosophia
rationalis, de 1612, editata em 1638); Metafísica (Metaphysica,
1638), sua obra principal; Teologia (Theologia, iniciada
em 1613, deixada inédita); etc.
464. O atomismo grego retornou nos tempos
modernos, quer como conceituação física, quer como
hipótese sobre um último componente das coisas. É
evidente que os físicas logo tiveram de reconceituar o átomo,
como sendo composto de partículas inda menores. Este fato não
muda a questão, afetando apenas a nomenclatura. Os filósofos
atomistas mantêm o princípio de que há primeiros elementos
irredutíveis; uns admitem o vácuo, entre os átomos;
outros, como depois Descartes, cedem ao argumento de que não tem
sentido um vácuo real.
465. Atomistas e epicuristas, da
Renascença, com aspecto helenizante de estarem a renovar o atomismo
e o epicurismo grego, têm também o caráter de naturalistas.
Neste sentido é lembrado o atomismo de Gassendi, como ainda se deve
apontar até mesmo para Descartes, Leibniz, Boscovich. Em
todos os tempos, a fraqueza do atomismo está em não atender
suficientemente para a impossibilidade filosófica do espaço
vazio real; esta noção resulta de uma abstração,
tomada como se fosse algo concreto.
466. Pierre Gassendi (1592-1655). Filósofo francês, nascido em Chamtercier, perto de Digne, Provence. Padre da Igreja Católica. Doutor em teologia, em1614. Também então, cônego de Digne. Lecionou filosofia no Colégio de Aix, de 1617 a 1623, passando depois o estabelecimento aos padres jesuítas. Foi frequentes vezes a Paris e se relacionou com os sábios de sua época. Em 1643 foi designado professor do Colégio Real, de Paris.
Preocupou-se Gassendi com observações científicas e astronômicas. Renovou o atomismo. Contrariou aos aristotélicos, alegando contra eles com argumentos do ceticismo pirroniano. Divergiu também de Descartes, o qual identificava a substância do corpo com o espaço e negava o vazio. Para o atomismo o espaço é absoluto, sendo o lugar para onde se move o átomo. Na hipótese de se dar a posição principal a Descartes, poder-se-ia dizer que Gassendi era um primeiro cartesiano dissidente (vd 573), que, embora concordasse no fundamento, divergia em algumas teses importantes.
Obras: Exercícios paradóxicos contra os aristotélicos (Exercitationes paradoxicae adversus Aristoteleos, 2 livros, 1624 e 1658); Investigações metafísicas (Disquisitio metaphysica, 1644); Da vida e costumes de Epicuro (De vita et moribus Epicuri, 1647); Observações ao 10-o livro de Diógenes Laércio (Animadversiones in decimum librum Diogenis Laertii, 1649), sobre Epicuro; Tratado de filosofia (Syntagma philosophicum, escrito em 1648, mas impresso postumamente, com as Obras compoletas, 1658. Descartes em seu livro Meditations citou as objeções de Gassendi, e que tornaram a este muito conhecido.
467. Ainda que quase todos os filósofos
façam alguma referência ao social e ao direito, alguns se
particularizaram neste campo, e merecem especial atenção
quando ao abordarem problemas típicos de seu tempo. Neste sentido
se mencionam na Itália Machiavelli, na Inglaterra Thomas Moore,
na Alemanha Althusius, na Holanda Hugo Grócio, além de figuras
menores, como na França Phelipe de Mornay. Não centrados
neste campo, não podem deixar de ser mencionado Thomás Campanella,
mais conhecido como naturalista, Vitória e Suarez, citados antes
de tudo como escolásticos. Estes filósofos
tendem a defender a base natural do poder político, em vez do direito
divino dos reis, como na época defendia Melanchton (1497-1560),
na Alemanha, e na Inglaterra o mesmo rei.
Nicoló Machiavelli (1469-1527). Filósofo italiano, nascido em Florença. Ocupou cargos públicos diversos: Secretário, desde 1498, da chancelaria dos negócios exteriores da República. Em 1502 os florentinos o enviavam a negociar a paz junto a César Bórgia, filho do então Papa Alexandre VI, este representante dos interesses da família Bórgia. Perdeu Machiavelli suas funções em 1512, com o fim da República e retorno dos Médici ao poder. Deposto e exilado, foi anistiado, todavia em 1519. Ocupou ainda alguns postos político-militares.
Um dos fundadores da moderna filosofia e ciência política. Nasce o Estado graças ao esforço (virtù) de uns poucos homens, capazes de impor uma ordem política a todo um grupo, com instituições úteis, capazes de o conduzir, como um organismo vivo, sob a direção absoluta de um Príncipe.
À base da experiência adquirida na função pública e de sua capacidade de análise dos procedimentos dos políticos, Machiavelli ofereceu em sua obra literária pensamentos atípicos, de onde surgiu o termo maquiavelismo.
Essencialmente consiste na independência dos negócios políticos em relação à moral. Age o príncipe em função ao bem coletivo, utilizando quaisquer meios, de sorte a justificar os meios em função aos fins.
A distinção entre a moral particular e a moral pública, ou razão do Estado, rompe com a ética vigente; efetivamente, sem limites, o Estado estaria liberado à conquista e ao colonialismo. Neste particular Machiavelli foi imediatamente combatido pelos paladinos da moral tradicional, e que dá como objetivo da ação governamental do príncipe a manutenção das liberdades republicanas. Dentro dos conceitos de Machiavelli valida-se o crescimento e sustentação do império romano pela rapinagem sistematizada sobre o mundo antigo. Também se justificaria o colonialismo praticado pelas nações modernas até as consequências descolonizantes da segunda Guerra Mundial.
Machiavelli foi também um historiador e
um prosador apreciado. Seu estilo é clássico e sem vulgaridade,
inteligente e sarcástico, havendo sido prolífero.
Obras. Escreveu inicialmente Relatórios
(Relazioni) e Retratos (Ritratti), que são
textos diplomáticos com observações políticas
e psicológicas de alto valor, publicados apenas no século
18; O Príncipe (Il Principe), sobre o poder absoluto
do salvador da cidade, escrito entre 1513 a 1516, havendo circulado muito
tempo como manuscrito. Deste tempo são: A arte da guerra (L'arte
della guerra, 1519-1520), em que recomenda a dissolução
das forças armadas permanentes, a serem substituídas pelas
milícias populares. Ainda daqueles anos: Comentários sobre
os primeiros 10 livros de Tito Lívio (Discorsi sopra la prima
deca di Tito Livio), ali comparando as vicissitudes políticas
romanas com as do tempo atual, com conclusões sobre a conquista
do poder.
São valiosas as cartas de Machivelli. Tem destaque especial a de 10 de dezembro, ao seu amigo Francesco Vettori, na qual já se refere ao Il Principe, nela descrevendo também sua vida de exilado em San Casciano, perto de Florença, como ainda expende idéias sobre como se conquista o poder e como se o perde. Escreveu a comédia A Mandrágora (La Mandrágora, 1513), que retrata a sociedade de seu tempo: um jovem inescrupuloso, com a ajuda de Fra Timóteo, confessor da moça, seduz a esta, que entretanto estava casada com um velho imbecil. Outra comédia: A Clizia (La Clizia, 1515), uma adaptação de Casina, de Plauto.
Como historiador: Histórias florentinas
(Istorie fiorentine). Foi também apreciável poeta,
havendo inclusive deixado versos para o carnaval.
468. Sir Thomas Moore, latinizado Thomas Morus (c. 1478-1535). Estadista inglês, nascido em Londres. Estudou grego clássico em Oxford, e direito. Advogou em Londres. Eleito para a Câmara dos Comuns, em 1503, com crescimento rápido em prestígio político. Nomeado Lord Chanceler em 1529, por Henrique VIII. Demitiu-se em 1532, em consequência dos conflitos do rei com o Papa. Recusando-se a assistir à coroação da nova rainha Ana Bolena, como ainda se recusando a assinar o Act of Sucession, foi preso na Torre de Londres, e julgado de acordo com os conceitos de então, como incurso em traição, e executado. A Igreja Católica o canonizaria Santo, em 1935.
Expressou Thomas More seu pensamento político, em livro que imita Cidade do Sol, 1602, de Campanella, neste outro título singular: Sobre o melhor Estado e sobre a nova ilha Utopia (De optimo reipublicae Statu deque nova insula Utopia), 1516. Fez-se conhecer simplesmente por Utopia, nome criado pelo autor, e que sugeria não somente a República ideal de Platão, mas a mesma grande ilha da Inglaterra; na estrutura do livro, Utopia é uma ilha a que os seus dialogantes aportaram. O fundamento da nova sociedade é o socialismo; ainda que não se referindo expressamente ao socialismo, ele contudo está implícito, sendo por isso considerada a versão renascentista de Morus, uma precursora do socialismo moderno. Ocorre ainda uma conexão com o Elogio à loucura, que a este tempo estava sendo redigido por Erasmo, e que então houvera visitado a Thomas More.
Obras: além da mencionada Utopia, de
1516, muitas vezes reimpressa e traduzida para outras línguas, escreveu
ainda História do rei Ricardo III (History of king Richard
III), muito apreciada; epigramas e panfletos contra o luteranismo Resposta
a Lutero (Respontio ad Lutherum); Um diálogo sobre
heresias (A dialogue concerning heresies); Uma confutação
à resposta de Tindall); Uma súplica da alma (A
supplication of souls; na prisão Diálogo de Conforto
contra Tribulação; restam também cartas.
469. Philippe de Mornay, sieur du Plessis-Marly
(1549-1625). Pensador calvinista francês, nascido em Vexin. Amigo
do Almirante de Coligny, escapou ao massacre protestante realizado pelos
católicos na noite de São Bartolomeu. Defendeu a superioridade
do povo sobre os reis e o direito de inssurreição contra
o tirano, em obra que lhe é atribuída, como autor provável:
Vingança contra o tirano (Vindiciae contra tyranos,
1579).
470. Johannes Althusius, no alemão Johan Althaus (1557-1638). Jurista constitucionalista e filósofo do direito, alemão, nascido provavelmente em Diedenshausen, Frísia, norte da Westfália. De origem simples, conseguiu todavia fazer estudos em Colônia, em Basiléia, Suíça, com grau de doutor em ambos os direitos (in utroque jure), profano e eclesiástico. Ao complementar seus estudos de direito e lógica em Genebra, foi influenciado pelo calvinismo. Mais tarde estudará também teologia em Heidelberg. A partir de 1590 a 1604 lecionará direito romano na nova Universidade de Heborn, quando eleito o síndico ou burgomestre de Emden, cidade calvinista da Frísia Oriental.
A este tempo renovava-se o direito, já não entendido ao modo escolástico como concedido por Deus. Há um direito das pessoas, a partir das quais se cria a sociedade. Enquanto uns acentuavam a posição do príncipe, como Machiavelli e Melanchton, outros, como Althusius, acentuavam a soberania inalienável do povo. A origem da sociedade ele a funda num pacto tácito ou mesmo explícito, a que os homens são conduzidos pela sua natureza social. Idéias similares eram defendidas por Grotius, contemporâneo mais novo de Althusius. As teses liberais se desenvolverão cedo na Holanda e Inglaterra, depois também na França. Defende a lei natural. Somente quando declinou a tese do direito natural, diminuiu a influência de Althusius e Grotius.
Obras: Da arte da jurisprudência romana
metodicamente tratada (De arte jurisprudentiae romanae methodice
digesta, libri II), 1586); ...... .(Centuria conclusionum
de pignoribus et hypothecis, 1591); Das injúrias e famosos
libelos (De injuriis et famosis libellis, 1601); Da
política metodicamente tratada e ilustrada com exemplos sacros e
profanos (De politica methodice digesta et exemplis sacris et profanis
illustrata, 1603), obra principal com imediatas reedições;
Tratado III das penas, das coisas fungíveis e do direito de retenção
(Tractatus III de poenis, de rebus fungilibus ac de jure retentionis,
1611).
471. Hugo Grotius, em holandês Huig van Groot (1583- 1645). Jurista, filósofo do direito, teólogo holandês, de origem francesa, nascido em Delft, pai calvinista, mãe católica. Precoce, cedo dominou a língua latina, aos 9 anos versejava em latim, aos 11 anos ingressa na Universidade de Leiden, estudando direito, ao 15 anos acompanha a embaixada holandesa para a corte francesa, aos 16 se forma em direito. Em 1599 é nomeado advogado no tribunal de Haia, passando logo a outros cargos do gênero. O envolvimento nas lutas religiosas e políticas, foi, em 1621 condenado à prisão perpétua; conseguindo todavia fugir, sendo então acolhido em Paris pelo rei e pelo cardeal Richelieu. Em 1635 aceitou o cargo de embaixador da Suécia junto ao governo francês.
O sucesso maior de Grócio foi no direito, onde inaugurou um novo direito internacional, sobre fundamentos que anteriormente já vinham sendo discutidos por Vitória e Suarez, autores que ele conhecia. As guerras somente podem ser feitas em vista da paz; a guerra apenas é justa com o objetivo de obter justiça. Grotius ocupou-se ainda do direito natural, válido por si mesmo, fundado na pura razão e imutável.
Como teólogo, que também foi, Grócio esforçou-se por destacar os elementos racionais da religião e por aproximar as diferentes confissões. Já usou os modernos métodos de comparação filológica na interpretação da Bíblia.
Obras: Livro sobre a antiguidade da República Batávica (Liber de antiquitate Reipublicae Batavicae, 1610); Coletânea de poemas (Poemata collecta, 1617); Mar livre (Mare liberum, 1618); Da verdade da religião cristã (De veritate religionis christanae, Paris, 1622); Sobre o direito de guerra e de paz (De jure belli ac pacis, 1625), dedicado a Luiz XIII, e obra fundamental de Grócio; Anotações aos livros dos Evangelhos (Annotationes in libros Evangeliorum, 1641); Caminho para a paz eclesiástica (Via ad pacem ecclesiasticam, 1642); De imperio summarum potestatum circa sacra, 1647); Anotações ao Velho Testamento (Annotata ad Vetus Testamentum, 1644). E ainda dramas religiosos na juventude e posteriormente a história da Bélgica, dos godos, dos vândalos, dos longobardos.
472. Não faltou no Renascimento a advertência dos céticos, não só por influência da volta ao pensamento clássico, como por causa do desenvolvimento que ia tendo a preocupação gnosiológica. Os céticos são do Renascimento são figuras que se apresentam em diferentes lugares, sem radicalismo, mais como advertência, até que Descartes utilizou a expressão dúvida metódica.
Situam-se no espaço da primeira fase da
filosofia moderna: Montaigne, Charron, Sanchez. Já um pouco avançado
no tempo propriamente cartesiano, se colocam Blaise Pascal (1623-1662).
473. Michel Eyquem de Montaigne (1533-1592). Pensador francês, de fundo moral e pedagógico, nascido no Perigord (Sul da França), no castelo de Montaigne, de onde o nome pelo qual se fez conhecido. Com ancestrais católicos e protestantes, era de origem judia por parte da mãe, cuja família se afastara de Portugal, com vistas a evitar perseguições. Cursou direito em Toulouse. Literatura grega, em Paris. A partir de 1557, conselheiro do Parlamento de Bordeaux, e de 1570 a 1581 alcaide da mesma cidade. Nos anos 1580-1581 esteve sucessivamente, na Alemanha, Suíça, Itália e Tirol. Está em seu castelo a partir de 1887, quando passa a se concentrar mais em seus escritos. Foi amigo de Henrique IV.
Espírito aberto e tolerante, contribuiu para a formação desta atitude seu passado familiar, suas funções e até mesmo a tendência de sua época, o Renascimento. Dali resultou inclusive seu modo meramente ensaístico de escrever. Opinou que a verdade alcançada pelo homem varia com os diferentes espíritos a encarar diversamente as mesmas coisas, sobretudo quando situados em tempos diversos. O vago ceticismo de Montaigne contribuiu para o desenvolvimento da sabedoria e prudência do homem em geral. Suas ponderações atravessam o tempo e se tornaram uma sabedoria dos séculos. Destacando a condição humana, parece muita vez um existencialista de séculos futuros, tal como em alguns casos também sucede com as vivências desveladoras de Pascal.
Escreveu: Ensaios (Essais, 1580,
2 livros, acrescidos os demais em edições posteriores), em
vários volumes. Obras completas, em 12 vols., ed. 1924-1928.
474. Pierre Charron (1541-1603). Filósofo francês, nascido em Paris, de uma família de livreiros. Doutor em direito em 1571, em Montpellier. Advogou sem sucesso em Paris. Optou pela teologia e pelo sacerdócio. Cônego em Bordeaux e vigário geral.
Abordou questões morais e políticas de seu tempo. Neste campo se notabilizou como orador sacro. Conheceu a Montaigne, cujo espírito crítico assimilou, passando a ser, como este, um dos céticos principais do tempo, quando já se sentia a mudança do poder da nobreza para o da burguesia, que fora mais capaz de prosperar. Amenizou o seu ceticismo com o apoio na fé, ou fideismo. Mas esta evolução crítica do seu pensamento acontecerá mais para o final de sua vida, o que lhe custou então a perseguição do poder eclesiástico; em função a este confronto, optou em moderar algumas de suas posições.
Obras: Discurso cristão sobre a não
permissão de se rebelar contra seu rei (Discours chrétien
qu'il n'est permis de se rebeller contre son Roi, 1589); Tratado
da Igreja (Traité de l'Aglossia, 1593), refutando
a um protestante; dois livros de sermões, respectivamente em 1600
e 1601; finalmente, Sabedoria (Sagaz, 1601), atacado e denunciado
pelos jesuítas, condenado e posto pela Igreja Católica no
Index dos livros proibidos aos cristãos.
475. Francisco Sanchez (c. 1550-1623). Médico e filósofo, estabelecido na França, nascido na península ibérica, provavelmente, ou em Braga, Portugal, ou em Tu, pequena cidade da Gaélico, Espanha. Transfere-se, juntamente com seus pais, para Bordéus, em 1562. Possivelmente pelo lado materno Sanchez fosse parente de Montaigne, igualmente de raiz ibérica. Por algum tempo na Itália, foi matricular-se em 1773 na faculdade de medicina de Patarrás. Formado, lecionou a medicina a partir de 1575, até o final de sua vida, inicialmente em Montpelier, depois, e a maior parte do tempo, em Toulouse.
Praticou ao mesmo tempo a filosofia, sob a forma de um vago ceticismo, antes um probabilismo, conforme já vinha ocorrendo com seus contemporâneos mais velhos, Montaigne e Charron. Contrário à escolástica, seu contexto foi o nominalismo e empirismo. Advertiu que a ciência não se faz a partir de especulação, mas da observação de dados concretos. Tratando das condições do saber científico seguro, adianta as discussões de Descartes, cujas publicações viriam não muito depois. Cronologicamente situado no final da filosofia da Renascença, e havendo publicado seu livro principal em 1581, viveu Sanchez ainda até adentrar no século seguinte, quando ocorreu a fase Bacon-Descartes.
Obras: Tratado da mui nobre e da primeira ciência do universal, de que nada se sabe (Tractatus de multum nobili et prima universali scientia, quod nihil scitur, 1581), obra principal, em que rejeita a concepção aristotélica das ciências, cujas novas condições de possibilidade passa a examinar; Da duração e brevidade da vida (De longitudine et brevitate vitae); Comentário ao livro da Física de Aristóteles (Commentarius in libros Aristotelis Physiognomicon); Da adivinhação pelo sono (De divinatione per somnum); Obras médicas (Opera medica), 1636, póstuma.
476. Entrou a escolástica latina com força na primeira fase da filosofia moderna, ainda que ocorressem as novas correntes de pensamento, que profundamente marcaram a Renascença, havendo ganho ainda um forte amparo nas ordens religiosas e nas decisões enérgicas do Concílio de Trento (1541-1563), bem como ainda em alguns círculos da Reforma protestante.
Diferentemente das outras correntes de pensamento, a escolástica latina continua ainda ordenadamente e didaticamente, com denominações, que correspondem quase somente às ordens religiosas; no caso protestante já ocorre algum desligamento deste caráter.
Em contraste aos escolásticos são denominados modernos os filósofos, como Descartes (Discurso do método, 1637) e os que participam de seu espírito, - Pascal, Arnauld, Nicole, Malebranche, Spinosa, e outros.
Estes outros se encontram em plena força em meados do século 17, depois de haverem superando progressivamente aos escolásticos, os quais, diminuindo rapidamente pela volta de 1650, ficaram depois praticamente anulados.
Didaticamente, ocorre a conveniência de
estudar a escolástica de prata do Renascimento num só bloco,
até a metade do século 17. Depois disto resta o pequeno parágrafo
dos escolásticos remanescentes, entre os quais ainda tem brilho
Silvestre Mauro (1619-1684) (vd 585).
477. Escolásticos dominicanos. Imediatamente antes dos tempos modernos, um grande nome tomista fora o teólogo e filósofo francês João Capréolo (c. 1380-1444) (vd ....). Na mesma linha continuam, agora, os grandes tomistas italianos Domingos Silvestre de Ferrara (1444-1526), Tomás de Vio, ou o Cajetano (1469-1534).
Na península ibérica notam-se escolásticos
dos mais notáveis: Francisco Vitória (1486-1546), Domingos
de Soto (1494-1560), Melchior Cano (1509-1560), Domingos Bañez (1528-1604),
João de Santo Tomás (1589-1644), este nascido português,
lecionando todavia na Espanha.
478. Domingo Bañez (1528-1604). Teólogo escolástico espanhol. Ingressou na ordem dos padres dominicanos, em Salamanca, 1536. Lecionou teologia nas Universidades de Alcalá, 1567-1573, e de Valladolid, 1573-1577. Retornando a Universidade de Salamanca, ali lecionou até a morte.
Destacou-se Bañez pelo tratamento dado ao problema da graça divina e a liberdade humana, em que seu oponente foi o jesuíta Molina. Para que Deus possa ter o domínio de tudo e mesmo para que possa ter conhecimento antecipado, importa uma premoção física e intrínseca da causa segunda; não obstante, quer Bañez, que a liberdade humana esteja preservada.
Historicamente, quer também que tal doutrina seja a de Santo Agostinho e Santo Tomás. Diferentemente, Malina apela a uma previsão divina denomina ciência média, pela qual Deus conhece ontologicamente todos os futuros contingentes; então Deus confere a graça, como sendo aquela que Ele prevê será aceita (vd), de sorte a ter sido preservada a liberdade. Dali resultou a controvérsia conhecida por De auxilias, que dividiu entre si dominicanos e jesuítas.
Obras: Comentários a Suma Teológica
(....),, incompleta; Apologia dos frades da ordem dos pregadores na
província de Espanha (Apologia Fratum Praedicatorum in
provintiae Hispanae, 1595); Libelo de súplica (Libellus
supplex, 1597), ao papa; Resposta a 5 questões sobre a eficácia
da graça divina (Responsio ad 5 quaestiones de efficacia
gratiae divinae), inédito; Resposta... (Respuesta...,
1602), aos jesuítas de Valladolid.
479. Escolásticos jesuítas.
Ordem nova, foi a companhia de Jesus fundada em 1534, havendo inova do
bastante em métodos escolares e em doutrinas. Estão representados
por F. Fonseca (1528-1599), coordenador principal do Cursus Conimbricensium;
F. Toledo (1532-1596), Luiz Molina (1536-1600); Gabriel Vasquez (1551-1604);
L. Léssio (1583-1623), Francisco Suarez (1548-1619). Os mestres
jesuítas continuam se destacando após o surgimento de Descartes,
de quem aliás foram também professores de primeiras letras.
480. Luis de Molina (1536-1600). Teólogo
e filósofos espanhol, nascido em Cuenca, Nova Castela. Ingresso
na ordem dos jesuítas, estudou leis em Alcali (Espanha), filosofia
em Alcali; ingressando na Ordem dos Jesuítas, foi fazer noviciado
em Coimbra (Portugal), completando filosofia (1554-1558) e fazendo teologia
(1558-1602). Lecionou filosofia em Coimbra, de 1563 a 1567, e teologia
na nova universidade portuguesa de Évora, de 1568 a 1583. Afastado
do magistério por doença, continuou contudo escrevendo. Em
1600 designado para lecionar moral em Madrid, faleceu ainda no mesmo ano.
Escolástico, na linha tomista jesuíta,
sua preocupação central foi a de conciliar a liberdade da
vontade com a predestinação, esta estabelecida como doutrina
definitiva da teologia cristã. Alargou o espaço da liberdade
do homem frente à ação da graça divina, introduzindo
o expediente da ciência média, por meio da qual Deus
conheceria todos os futuros contingentes; uma vez sabendo qual a opção
escolhida pelo homem, o predestina, dando-lhe precisamente a graça
prevista como de sua eleição. De outra parte, também
estaria garantia a onipotência de Deus. Contrapôs-se ao ponto
de vista do dominicano Domingo Bañez (vd ....), que era o de uma
predeterminação física simplesmente, ainda que supondo
este que isto não prejudicaria a liberdade humana. De outra parte,
opuseram-se ao molinismo os jansenistas, defensores do ponto de vistas
agostiniano. Pascal, que lançará contra os jesuítas
as contundentes Cartas provinciais (Lettres provinciales, 1656-1657)
será um dos oponentes mais destacados. A controvérsia envolveu
a Igreja Romana e se fez conhecer como De auxiliis.
No que se refere ao direito, equaciona a questão
dos índios no mesmo nível do direito internacional.
Obras: Concórdia do livre arbítrio
com o dom da graça, divina pre-ciência, providência,
predestinação e reprovação (Concordia
liberi arbitrii cum gratiae donis, divina praescientia, providentia, praedestinatiione
et reprobatione ad nonnulos primae partis Divi homae articulos, Lisboa,
1588), obra principal; Apêndice ao Concórdia do livre arbítrio
... (Appendix ad Concordiam liberi arbitri ..., 1589); Comentários
à primeira parte do Divino Tomás (Commentaria in primam
Divae Thomae partem, 1592), referente à Suma teológica;
Da justiça e do direito (De justitia et jure, 1-a ed
3 vols., 1593, 1596, 1600), totalizado depois em 6 vols.
481. Francisco Suarez (1548-1617). Teólogo, filósofo metafísico e do direito, espanhol, nascido em Granada. Filho de família abastada, estudou em Salamanca, onde, aos 16 anos, ingressou na ordem dos padres jesuítas. Sacerdote em 1572, aos 16 anos. Lecionou nas instituições de sua ordem, primeiramente na Espanha: filosofia nos colégios de Segóvia e Salamanca, de 1872 a 1874; a seguir teologia nos colégios de Segóvia, Ávila, Valadolid, Alcalá, Salamanca. Depois em Roma, no Colégio Romano (atual Universidade Gregoriana), 1580-1585;. Por último, quando Portugal estava sob a administração da Espanha, foi nomeado por Felipe II, para a cátedra de teologia da universidade de Coimbra, onde lecionou de 1597 a 1615. Morreu 2 anos após, em Lisboa.
Notoriamente erudito e orientado pela nova didática desenvolvida pelos ;jesuítas, criou métodos expositivos de filosofia e teologia mais sistemáticos, que distinguem a sua escolástica da que praticavam ainda os dominicanos do século 16, sob a base de comentário. Doutrinariamente, ainda que seguindo a filosofia e teologia de Tomás de Aquino, derivou para algumas diretrizes do escotismo e do nominalismo, ou mesmo da filosofia moderna. Neste sentido aparenta um escolástico eclético, visto apenas exteriormente. Não intencionou criar um sistema próprio. Ordinariamente, quando adverte para diferenças entre Tomás de Aquino e os demais escolásticos, tende a fazê-lo aderindo ao referido Tomás.
Diferencia-se algo do tomismo, no que se refere às distinções. Considerando que uma se dizem de razão e outras reais, requer Suares que estas sejam realmente separáveis também em concreto. Esta separabilidade não é reclamada pelos tomistas. A separação concreta entretanto, em alguns casos se dá por conservação de uma das partes e aniquilação da parte, como se dá na separação da maneira, quando muda de forma; esta separação real é denominada por Suares distinção modal. Postas estas definições, Suarez estabelece contra os tomistas, que não acontece distinção real, nem mesmo moda, entre essência e existência, nem em Deus, nem nas criaturas; para os tomistas acontece a distinção real no plano das criaturas, e alegam ainda os tomistas que a não distinção real teria como consequência o monismo panteísta, pois a equiparação da essência com a existência, faria a essência ser infinita como a existência. Mas alega Suarez, que o simples fato de uma essência ser criada, a faz ser finita. Diz mais, que essência e existência não tem como realizar separadamente, e que por isso não há como dizer que se possam ;distinguir realmente. Na doutrina de matéria e forma (hilemorfismo), que no aristotelismo e no tomismo conta com uma ;distinção real, todavia a matéria como um potência pura, Suares também admite a distinção real, entretanto, com a matéria concebida com um começo de ato, conforme a doutrina platônica e agostiniana a respeito. Este começo de ato é postulado, a fim de que possa em concreto separar-se, como elemento absoluto que então se torna.
Ocorrem ainda outras diferenças entre surezismo e tomismo. Inteleto passivo e ativo não se diferenciam por distinção real, estabeleceu Suarez. O objeto próprio da inteligência é o ser análogo por analogia intrínseca e não, como no tomismo, por analogia de proporcionalidade.
Há um conceito próprio do indivíduo; diversamente, para o tomismo o objeto próprio da inteligência é somente a essência abstrata universal, embora atribuída indiretamente ao indivíduo por intermédio do juízo.
O ato da vontade é independente da inteligência, ainda que por esta iluminado; não depende, como no tomismo, do juízo prático. Por isso também muda no surezianismo a direção explicativa do concurso divino no ato livre; a vontade recebe um simples concurso, deixando-lhe a capacidade de rejeitar ou aceitar, ao passo que no tomismo (na interpretação de Bagnes), por colocar o ponto decisivo no juízo prático, pode acontecer a promoção física da vontade.
Suarez deu também novo impulso ao exame da filosofia política e ao direito internacional. Considerou o povo como depositário do poder político, do qual se transfere ao soberano; este, por ser recebedor, não é absoluto, como propõe a doutrina da origem divina direta do poder concedido ao soberano. De outra parte não considera Suarez a essência (ou causa formal) do poder político como a resultância de um pacto social, como depois estabelecerá Rousseau.
Obras. Disputas metafísicas (Disputationes methaphisicae, 1597) (sendo título completo Metaphysicarum disputationum in quibus et universa naturalis theologia ordinate traditur et quaestiones ad omnes duodecim Aristotelis libros pertinentes accurate disputantur, pars prima et pars secunda), muito volumosa; Tratado das leis e de Deus legislador (Tractatus de legibus in X libros distributus, 1612), volumosa; Defensor da fé católica contra os erros das seitas anglicanas ... (Defensor fidei catholicae et apostolicae adversus Anglicanae sectae errores, cum responsione ad apologiam pro iure fidelitatis et praefationem monitoriam Serenissimi Jacobi Angliae Regis, 1613), que irritou ao rei da Inglaterra.
Outras obras: Comentários ... a Santo
Tomás... (Commentatoium ac disputationum in tertiam partem
divi Thomae. Tumus primus, 1590), primeiro escrito; Sobre a alma
(De anima, 1621), póstumo; Opus de virtute et statureligionis;
Opus de triplici virtute theologica; Sobre Deus uno e trino (De
Deo uno et trino, 1606; Sobre os anjos (De angelis; De voluntario
et involuntario; Sobre a verdadeira noção do auxílio
eficaz e concordância com o livre arbítrio (De vera
intelligentia auxilii efficacis eiusque concordia cum libero arbitrio),
relativo ao tema da polêmica entre molinistas e bagnesianos; De
ultimo fine; De opere sex dierum, 1621), postumo. Diversas edições
de Obras completas, mais de vinte volume.
482. Escolástica protestante. O caráter do protestantismo é eminentemente místico, com importante atribuição à fé, em vez de ao rito. Em consequência não se concentra em práticas litúrgicas, mas busca o que deve ser conhecido, - a palavra de Deus, - para nisto crer.
Martinho Lutero (1483-1546) encontra-se na tradição escolástica agostiniana, através do nominalismo de Ockam. Não encomiou, entretanto, a escolástica tradicional. O agostinianismo encontra-se também em João Calvino (1509-1564), que destacou a predestinação.
A linha aristotélica da escolástica
protestante passa por duas eminentes figuras Philip Melanchton (1497-1560)
e Julio Pacio (latinizado Pacius), italiano com vivência em
Heidelberg (1585-1594) e na França, muito apreciado como tradutor
ao latim e editor de Aristóteles.
483. Philip Melanchton (1497-1560). Teólogo, filósofo e sobretudo educador alemão, nascido em Bretten, Baden. Iniciou os estudos em Heidelberg, seguindo em 1512 para Tübingen, onde contactou o helenista John Reuchlin, seu tio neto. Este e Erasmo o recomendam finalmente para professor de grego em Wittenberg, onde assumiu em 1518. Aqui conheceu a Lutero, ao qual se aliou no movimento da Reforma.
Melanchton é um humanista no alto estilo de Erasmo Produziu gramáticas e traduzido textos clássicos para melhoria do ensino, de onde haver sido cognominado Praeceptor Germaniae. Traduziu também seu nome Schwartzerd (= barro preto) ao equivalente grego Melanchton. Foi sempre mais moderado do que o impulsivo Lutero. É considerado o fundador da escolástica protestante, a qual apresenta o caráter de um aristotelismo eclético.
Obras: Sobre a retórica, três
livros (De rethorica, libri tres, 1519); Lugares comuns dos
assuntos teológicos, ou bases teológicas (Loci communes
rerum theologicarum, seu hypotuposes theologicas, 1521), uma suma teológica;
Suma das doutrinas de Lutero (Summa doctrinae Lutheri, 1524);
Livrinho dos visitadores (Libellus visitatorius), guia dos
inspetores; Confissão de Augsburgo (Confessio augustana),
documento protestante de que Melanchton foi o redator; Apologia da Confissão
de Augsburgo (Apologia Confessionis augustanae, 1530), chamada
Prima, seguida de Altera, do ano seguinte, 1531; Do discurso
filosófico (De philosophia oratio, 1536); Epítome
de filosofia moral, dois livros (Philosophiae moralis epitomes libri
du, 1538; Livro da alma (Liber de anima, 1553); Iniciações
da sciencia física (Initia doctrinae physicae, 1549);
Principais tópicos teológicos (Loci praecipui theologici,
1559).