Cap. 14
Enciclopédia Simpozio      Micro História da Filosofia.


HISTÓRIA DA FILOSOFIA MODERNA.


ART. 6-o. FILOSOFIA ORIENTAL PRÉ-MODERNA. 2216y485.


 
 

Introdução à filosofia oriental em geral. 2216y485.

 

485. Como no Ocidente, também no Oriente houve um longo período pré-filosófico, sem suficiente sistematização e validade racional, até que surgissem os primeiros pensadores adequadamente denominados filósofos. O pensamento mágico e mítico por muito tempo dominou as mentes, depositando-se em uma literatura do tipo sacral.
Pode-se mesmo admitir que no Oriente, apesar da antiguidade do seu pensamento, mais tempo foi necessário a fim de que se formasse um pensamento nitidamente filosófico.

No Ocidente, ainda que isto não ocorresse no mundo semítico, aconteceu com rápida definição entre os povos helênicos. Tão logo aconteceu o desenvolvimento da filosofia helênica, ou grega, ela passou a influenciar o pensamento judaico, sobretudo a partir de Alexandria. Mais adiante acontecerá o mesmo com os árabes, que receberão a filosofia também a partir dos gregos. Desta sorte, o pensamento judaico e árabe ficaram desde logo inseridos no pensamento ocidental.

No Oriente, por estar mais remoto, o mesmo acontecerá somente na aurora dos tempos modernos; então a ciência positiva passou em bloco àquela região, sem qualquer remodelação; a filosofia, porém, somente passou como que por filtragem, influenciando com maior profundidade os setores sociais mais críticos, enquanto nos meios mais sacrais foi provocando uma revisão de posições muito paulatinamente.

486. Divisão da filosofia oriental em geral. Inicialmente ocorreu o distanciamento geográfico: um pensamento na Índia e outro na China, sem contato visível entre um e outro, como também não com o Ocidente.

Depois este contato dos países orientais entre si, e de todo o Oriente com o Ocidente, ocorrerá. No que se refere à religião aconteceu o encontro do Cristianismo e do Budismo, este já transportado anteriormente da Índia para toda a Ásia. No que se refere à mesma filosofia, o contato se deu imediatamente mas com efeito paulatino.

A divisão que mais importa é a cronológica, típica da história, e que se refira à épocas, períodos e fases. Ela se dá em separado para a filosofia de cada região. No distante passado não ocorria a mesma dinâmica de pensamento na Índia, na China, Japão, sudeste asiático.

Importa ainda a divisão material, meramente doutrinária. Considerando uma certa inalterabilidade do pensamento dominante, a este se pode denominar ortodoxo, aos demais heterodoxos. Por isso uma dualidade fundamental pode redividir tematicamente, em cada época, período e fase, a filosofia dos países do Oriente. Mas pode haver espaços cronológicos em que domina somente uma das formas de pensamento, como é, por exemplo, o caso do bramanismo no seu período inicial.

 

§1. Filosofia na Índia, até o século dezesseis. 2216y487.
 
 

Introdução especial à filosofia da Índia. 2216y487. 
 
 

487. Desde a mais alta antiguidade o pensamento religioso e filosófico da Índia permaneceu quase o mesmo. Ainda que houvesse variações, elas se processavam em torno do mesmo eixo, o bramanismo, o qual modernamente veio a se denominar também hinduísmo.

Importa por isso considerar primeiramente o bramanismo, como se fosse o pensamento ortodoxo, e depois os modos de pensar heterodoxos eventualmente aparecidos, como por exemplo, o jainismo e o budismo, este último com sucesso principalmente fora da Índia.
 

488. Definição do bramanismo como principal filosofia hindu.

O tema da história da filosofia indiana se reduz praticamente ao bramanismo, neste caso entendido vastamente; os conceitos se regem por um diferencial, que define as doutrinas, ora como mais ortodoxas ao eixo central do bramanismo, ora como mais heterodoxas.

Didaticamente, pois, - antes de seguir pela sequência cronológica, como é essencial à história da filosofia, - importa conceituar generalizadamente o bramanismo como um todo, até porque não é um conceito do cotidiano fora da Índia.

Quanto ao tema dominante, a filosofia oriental se ocupa do humano, ainda que não enfaticamente. Na Índia o humano se concentrou no homem como integrado numa visão metafísica da realidade universal, em que o religioso sempre é um ingrediente.

O mundo da natureza é menos visado. Talvez por isso mesmo o saber oriental correu sempre o risco de se evadir para fantasias metafísicas, sem os pés na realidade imediata do homem. As comparações com outras filosofias muito importam, mas se devem fazer com algum cuidado. De certo modo, assemelha-se a filosofia da Índia à tendência platônica, sobretudo neoplatônica, e menos à aristotélica.

Um pouco diferente, o humano chinês se verteu para o ético e o pragmático.
Na filosofia do Ocidente, onde ela começou preocupada com a natureza, o humano se tornou tema dominante a partir de Sócrates, continuando a sê-lo no curso do período pós-socrático; ainda que houvesse algum recuo durante a Idade Média, o humano voltou com nova força a partir da Renascença, combinando-se ao mesmo tempo com o estudo da natureza posta a serviço do homem.

 

489. Importa distinguir entre:

Brama como nome de um conceito básico da realidade.

Brama como religião, a qual têm ainda uma influente casta sacerdotal.

O nome Bramanismo se formou a partir de braman, sacerdote que oferece a Brama, e o sufixo doutrinário -ismo. Etimologicamente Brama deriva do sânscrito Brahman, no contexto da radical brh, com o significado fundamental ser grande, forte, absoluto, capaz de criar. Consequentemente, Brama é Criador.

Entretanto, o conceito de Brama se tem mostrado flexível, mais ou menos como no Ocidente o conceito de ente; Brama todavia sofreu os efeitos de uma outra cultura, outros estilos, e principalmente das fragilidades do monismo oriental, muito atingido por antropomorfismos, enquanto ente conservou sua limpidez de conceito da filosofia.

Brama é o princípio mais geral da realidade do mundo como um todo, com caráter de ser indeterminado, mas determinável nas mais variadas formas da realidade, que continua sempre. Brama contêm todos os vícios do conceito de Deus na imaginação das religiões ocidentais.
Em algumas formas históricas de bramanismo, Brama assumiu a forma personificada. Brama é a primeira e a principal pessoa do hinduísmo, já desde a antiguidade. Geralmente é imaginado como primeira pessoa na Trindade hindu, em que se compõe com Siva e Vichnu. Liga-se ao conceito de Bramao de Atman, etimologicamente respiração, e significando o Eu interno.
Como religião, bramanismo é a forma primitiva do atual hinduísmo, com fundamento nos escritos considerados sagrados e revelado dos livros chamados Vedas. Trata-se de uma religião indo-européia trazida pelos arianos, quando, a partir do Norte, invadiram a região pelos anos 2000 e 1500 a.C.
A compreensão bramanista da realidade é panteísta, com transformações em que participam deuses secundários e espíritos humanos em repetidas metempsicose. Oração e penitência possibilitam maior conhecimento e a perfeição da alma, ou atma.

O bramanismo é ritualista, isto é, as cerimônias têm eficácia por si mesmas, independentemente da crença.

Comparando, o bramanismo se aproxima do ritualismo cristão, apesar das grandes diferenças; todavia esta aproximação se dá mais com a Igreja católica, a qual acredita em 7 sacramentos (ou mistérios) e pratica os sacramentais (por exemplo, água benta), do que das formas denominadas protestantes, com menor número de ritos, para em vez, insistir na fé. Como a religião hindu, também os cristãos têm o rito fundamental da purificação pelo batismo, que é, aliás um elemento oriental com antiga penetração no Ocidente.
O bramanismo, além dos rituais de ablução, oferece também cereais, partes de carne (parte comidas, parte queimadas). Os praticantes destes ritos supõem conseguir vantagens junto às forças cósmicas de Brama.
São muito complicados os ritos bramânicos, as vezes ditos conservados como segredo dos brâmanes, os quais por este meio conseguem posição de destaque. Em decorrência da complexidade do ritual da religião bramanista, o sacerdote se tornou uma casta significativa.

No Ocidente as práticas rituais diminuíram mais cedo que na Índia. Restam apenas nas formas da ceia sagrada (a missa, no caso da Igreja católica) e em algumas práticas introduzidas por influência africana através da escravidão.

490. Divisão cronológica da filosofia indiana, em especial da brâmane. Depois de obtido um conceito genérico do bramanismo, importa examinar como se desenvolveu cronologicamente.

Três são as épocas da história da filosofia da Índia, e que se dizem principalmente da filosofia brâmane. Entretanto variam os historiadores em determinar as datas de limite, mas todas conservam alguma analogia com a divisão do pensamento ocidental.

De acordo com a classificação de H. Von Glasenapp, em A filosofia dos indianos (Die Philosophie der Inder, 1949) é aceitável a divisão em três épocas, depois redivisíveis em períodos e fases:

I - antiga ou arcaica (antes do ano 1000 até 550 a.C.) (vd I);
II - clássica (550 a.C. até 1000 d.C.) (vd II);
III - escolástica (século 11 em diante) (vd III).

 

 

I - Época antiga do Bramanismo hindu (até 1000 a.C.). 2216y491.
 

491. O bramanismo, ou seja a filosofia indiana da época antiga (ou primeira), se redivide em três períodos, caracterizados pelo que se encontra em três modelos sucessivos de livros védicos:

a) Período védico primitivo (até 1000 a.C.), com 4 livros sagrados, os Vedas, documento mais antigo da cultura sânscrita;

b) Período bramânico (1000 a 750 a.C.), também arcaico, marcado pelos Brâmanas, como se denominaram os mais antigos comentários dos Vedas

c) Período dos primeiros Upanishads (750-550 a. C.), também comentários aos Vedas, com textos agora mais definidamente filosóficos.
Sobretudo ao segundo destes períodos se denomina usualmente como sendo bramânico.

 

 

a). Período védico primitivo da filosofia hindu (até ano 1000 a.C.). 2216y492.
 

492. Vedas (vd 1a-mega 9807). Como palavra, o sânscrito Vedas significa conhecimentos. Considere-se que o sânscrito é a língua dos indo-europeus, vindos do Ocidente Norte para a Índia, entre 2000 e 1500 a.C., e que se tornou a primeira língua indo-européia a se dotar dos recursos da escrito.

Vedas é a mais antiga coleção de livros sagrados da religião brâmane, praticada pelos indo-europeus, que haviam invadido a Índia. Em parte penetrada também entre os drávidas, a preexistente população, o bramanismo fez-se a religião principal da Índia. Em consequência os Vedas se tornaram importantes no contexto hindu, como a Bíblia no contexto Ocidental. Já não pertencem à coleção dos Vedas os textos posteriores conhecidos pela denominação genérica Upanishad (vd 1a-mega), mas eles ajudam a compreensão da doutrina contida nos Vedas, ainda que as vezes estejam em desacordo com eles. Esteja-se advertido sobre a distinção entre os Vedas (dos brâmanes) e a coletânea budista, denominada Tipitaca (ou Três cestos), com várias versões, entre outras Hinajana (ou Pequeno veiculo), Majana (ou Grande veiculo) (vd 1a-mega 9815,3).
 

Não é clara a cronologia dos Vedas, nem a classificação. Pode-se também discutir, sobre a crença, se eles efetivamente são textos revelados, a semelhança do que se faz no Ocidente sobre a Bíblia e o Alcorão.

A coleção fundamental dos Vedas é Samhita, ou coleção de hinos, ao qual se acresceram os Brâmanas, os mais antigos comentários aos Vedas.

Redivide-se Samhita em Quatro Vedas.
 

Primeiro Veda - Rigveda (vd) (= Veda das estrofes) - é o documento mais antigo da literatura hindu, remontando provavelmente ao ano 1500 a. C., com 1.028 hinos. Eis uma espécie de antologia, originada de diversas famílias de sacerdotes, e finalmente coletadas. A maioria se refere a oferendas de sacrifícios, algumas sem relação com o culto. Independentemente do valor interno, o Primeiro Veda é valiosíssimo pela sua antiguidade.

Segundo Veda - Yajur Veda (= Veda das fórmulas) - , de interesse litúrgico, se conservou sob formas diversificadas: algumas formas apresentam somente as palavras litúrgicas, e se denominam Yajur Blanka Vedo; outras apresentam o mesmo, aduzindo comentários em prosa, e constituem o Yajur Nigra Vedo.

Terceiro Veda - Sama Veda (= Vedas das melodias) - coleção de estrofes acompanhas de notações musicais para o canto de culto, escolhidas principalmente do Rig Veda.

Quarto Veda - Atharva Veda uma coleção de hinos e fórmulas rituais, com algumas semelhanças com o Rigveda. Os hinos revelam alguns contextos especulativos. Os rituais se referem à lustrações purificatórias, sortilégios, encantos, exorcismos contra maus espíritos, imprecações contra os inimigos, fórmulas mágicas para cura de enfermidades, cerimônias nupciais e fúnebres.

  

493. Vedismo (vd 1a-mega 9808). Do ponto de vista de conteúdo, os Vedas apresentam uma pluralidade de doutrinas, cujo todo é denominado vedismo, em que se destacam as teológicas.
Com referência ao caráter revelado dos Vedas, é afirmado que a revelação aconteceu aos rishis, sábios ascetas da antiguidade hindu. Estes receptadores da revelação são honrados pelos seus pósteros quase como seres endeusados.

Em princípio, a revelação é possível, mas não pode ser aceita ingenuamente sem prova adequada. Um grande número de religiões acreditam terem sido reveladas por Deus, e como elas se contradizem entre si, cada uma passa a considerar falsa a outra. A questão geralmente se torna difícil, quando os textos são antigos e não permitem mais uma avaliação conduzida com seriedade epistemológica. Acontece com os Vedas as mesmas dificuldades das religiões semitas, das quais algumas já desapareceram, outras se conservam, difundindo-as algumas vastamente.

A filosofia dos Vedas é simplista, à semelhança do que sucede com os textos sagrados primitivos de todos os povos em relação ao pensamento ulterior; mas este pensamento simplista oferece um valor histórico considerável, por estar na origem de um processo que teve continuidade. Mais ortodoxas umas, mais heterodoxas outras, as formas posteriores de pensamento, nasceram geralmente da mesma fonte primitiva.

 

É marcante que, desde os primeiros Vedas, ocorre na Índia uma concepção de tendência modista. O mundo é concebido como um só processo em mudança.

Um hino do Rigveda fala da criação do mundo, a partir de uma unidade original, por meio da divisão em contrários opostos.

Em outro hino é apresentado Prajapati, Senhor das criaturas, manifestando-se como remoto Ovo de Ouro - Hiranyagarbha - , do qual tudo veio.

Ainda outro hino fala sobre o gigante cósmico Purusha-Sukta, sacrificado pelos deuses no começo dos tempos, de cujas partes vieram todas as coisas existentes, também os homens e as castas.

A tendência modista da filosofia hindu representa um desenvolvimento da capacidade de pensar, porque ela consiste em reduzir a multiplicidade superficial em unidades progressivamente mais vastas.

Comparando, advirta-se que a filosofia pré-socrática grega, ainda que se ocupasse de preferência da natureza, a concebia à base de elementos fundamentais, aos quais dotava de propriedades, como serem eternas e divinas. Mas no Ocidente a filosofia nasceu como resultado do logicismo decorrente da evolução técnica da civilização, e portanto fora do ambiente sacral das lendas religiosas; Tales o primeiro filósofo grego era um engenheiro e não um sacerdote. Enquanto no Ocidente as religiões influíram a filosofia a partir de fora; não nasceu a filosofia ocidental a partir do orfismo, do cristianismo, do islamismo, mas influenciaram a partir de fora.

Inversamente, no Oriente hindu se conservou por milênios a íntima união entre religião e filosofia, ainda que acontecessem exceções. Os tradicionais deuses vedas são cerca de 33, distribuídos para as diversas funções no céu e na terra. Há um deus da casta sacerdotal, e outros, respectivamente para a dos militares, dos agricultores, negociantes, artistas, etc. Eles são favoráveis aos homens, quando invocados e acumulados de oferendas; em caso contrário, eles criam dificuldades. Alguns deuses cresceram de importância ao longo das gerações. Por exemplo, Siva, Vichnu, são importantes, além do fundamental Brama. Também há um exército de diabos: asuros.

Mas este politeísmo, conforme já advertido, está conceituado com tendência a um fundamento modista. Inversamente, as religiões semíticas imaginam Deus como um pomposo rei, que, no alto dos céus, tem o cosmo como escabelo de seus pés.
Ligado ao caráter modista do todo, a filosofia védica atingiu cedo o conceito de lei universal - darmo, - ou ordem - rita- , cujo contrário é a desordem - adarmo, ou arita. Eis a ordem constatável na natureza, cuja periodicidade acontece nas estações de chuva, retorno dos astros, principalmente do sol e da lua, sempre pelos mesmo caminhos. Assim, igualmente, rita governa a vida do homem. Este fato sugeriu à filosofia a eternidade por meio dos ciclos em sucessão, repetindo-se sem cessar).

 

 

b). Segundo Período do antigo bramanismo. 2216y494.
 

494. Pelo ano 1000 a. C., inicia a literatura dos comentários aos Vedas, comentários aos quais se denominou brâmanes, e que terão ciclos vários, indo até cerca do ano 750 a. C.
Este é pois um período distinto do anterior. Terminará este segundo período, quando um novo tipo de comentário, denominados Upanishad, superar aos que se vinham fazendo.
Os comentários, denominados Brâmanes , aos Samhita (ou aos quatro Vedas), esclarecem os ritos ou fórmulas, e o que é Brama.
Pequenos textos, chamados Aranyaka (= Tratados do arvoredo) têm a função de complementação dos Brâmanes, e são recitados longe da massa popular. É que foram compostos para os ascetas que viviam nas selvas (aranya). Contêm algum aprofundamento religioso-filosófico, em relação aos Brâmanes, aos quais complementam, e por isso têm o caráter de apêndice destes. Apresentam também analogia com os textos upanischad, que depois darão novo desenvolvimento qualitativo.

 

 

c). Terceiro período do antigo bramanismo. 2216y495.

 

495. Inaugura-se um terceiro período (da primeira época do bramanismo) com um novo modelo de comentários aos Vedas, marcando o espaço cronológico de 750 a 550 a. C. Os novos comentários se denominam Upanishad.

A este terceiro período pertencem os primeiros Upanishad. Dizemos primeiros, porque este tipo de comentários continuará a haver, marcando a segunda época, a clássica, que se fez seguir. Alguns alargam este terceiro período, exatamente porque os upanishad ocorrem nele e na época clássica seguinte.

Note-se ainda que o terceiro período do antigo bramanismo (750-550 a. C.) coincide cronologicamente o da redação dos primeiros livros bíblicos. Igualmente coincide com o início da filosofia grega.

 

 

II - Época clássica da filosofia da Índia (550 a.C.-1000 d.C.). 2216y496.

 

496. Pela volta do ano 550 a.C., ou um pouco depois, a filosofia da Índia passa a um desenvolvimento significativo, e que por isso se denominou período clássico. Ao mesmo tempo iniciava no Ocidente a filosofia grega, a qual entretanto ganhou contudo maior desenvolvimento, no que se refere à exigência crítica e sistemática.

O bramanismo desdobra-se em sistemas. Na linguagem índia sistema se denomina darçana, cujo sentido fundamental quer dizer ponto de vista.
Avaliados em função ao passado védico do bramanismo, uns sistemas são dados como ortodoxos, com destaque o sistema vedanta, enquanto outros são ditos heterodoxos, como o budismo (vd) e o jainismo (vd).
Os seis darçanas ortodoxos são também redivididos em três menores -purva mimansa, vaiçesika e nyaya; e três maiores - vedanta, samkhya, ioga.
 

 
 

Vedanta. 2216y497.  

497. Como termo sânscrito, significa Fim do Veda, ao qual se acresce agora um esclarecimento. Neste sentido, Vedanta é o sistema de filosofia classificado pela expressão sânscrita Uttara-Mimamsa (= última investigação). O significado do termo contudo é variável.

Vedanta, num sentido mais estrito, é o sistema clássico da filosofia hindu, contido em vários textos, destacando-se o Vedanta-Sutra, atribuído a Badarayana.

No sistema Vedanta, é Brama a única e universal realidade. Caracteriza-se o Vedanta pela interpretação modista panteísta da mente, pela redução do verdadeiro eu humano, ao inconsciente universal, ou Brama.

O objetivo da inteligência é compreender que, no contexto modista panteísta o mundo é vaidade e podridão.

O destino humano está ligado ao karma (vd), que liga a liberdade humana à conduta, com a consequência que a liberdade pode estar sendo adiada.
 

 

498. Muitos são os representantes do Vedanta, que floresceu durante um milênio.

Apresenta aspecto de texto fundamental o já citado Vedanta-Sutras, ou Brahma-Sutra, escrito por Badarayana (entre 150 e 300 d.C.).

Todavia o representante mais significativo da filosofia vedanta é Shankara (ou Shamkara) (c. 8-o séc d. C.); é visto também como um dos mais importantes filósofos da Índia de todos os tempos. Foi ele o principal comentarista do Vedanta-Sutra, e sua interpretação pessoal ficou conhecida como advaita, ou teoria do não-dualismo. Acreditou Shankara no caráter revelado dos Vedas (Shruti) e se opôs ao budismo como heresia.

 
 

Budismo. 2216y502.  

502. Apesar do pouco sucesso na mesma Índia, foi o budismo o sistema hindu mais bem sucedido no mundo, - sobretudo no Nepal, Srilanka, Sudoeste Asiático, China e Japão. Por isso, não pode ser tratado somente sob o item da Índia; depois, o mesmo título voltará para o estudo do pensamento em outros países.
Como nome, budismo se refere ao cognome de seu fundador Siddharta Gautama, dito Budha, isto é, o iluminado.

503. BUDA (Bouddha) (ou Siddhartha Gautama) (c.560-480 a.C.). Místico oriental, nascido em Kapilavasti, no antigo reino de Nepal, norte da Índia. Aos 29 anos se tornou asceta errante, preocupado com o sofrimento humano, ao qual as castas sacerdotais brâmanes pareciam indiferentes. Abandonou depois as práticas ascéticas, porque o haviam depauperado. Acreditou ter tido a experiência da iluminação, com o pleno conhecimento da verdade, e saiu a pregar, o que fez por 45 anos.

Atribuem-se a ele os princípios considerados essenciais ao budismo: a realização plena da natureza humana, a sociedade perfeita e pacífica. A existência não é linear, mas cíclica, com eternos retornos, que não tiveram começo e nem terão fim.

O budismo assume também o aspecto de doutrina de salvação: este mundo é dor, da qual se deve sair. A origem da dor é o desejo. Para fazer cessar a dor já antes da morte, deve-se desfazer o desejo. O caminho para este objetivo se procede em 8 partes, com destaque a meditação. Este esforço se assemelha à ioga (vd).

Não há um Deus criador paralelo a este processo, como acontece nas doutrinas anteriores dos sistemas bramânico-hinduistas.

Em cada ciclo a dor e a felicidade são determinados pelo karma, ou seja pelas ações, palavras e pensamentos da vida anterior. Admite pois a metempsicose, mas não com a repetição constante do mesmo eu.
 

504. Transformações do budismo. Similarmente ao que se fez com vários grandes mestres da antiguidade, por exemplo Pitágoras, atribuíram-se a Buda detalhes de ensinamento, que de fato poderão ter sido desenvolvimentos posteriores, que os discípulos desenvolveram dentro do mesmo contexto.
Após a morte de Buda, seus ensinamentos foram codificados pelos discípulos, no principio por tradição oral, mais tarde por meio de escritos.
Passados cem anos já se acentuavam as divergências.

Apontam-se três principais coleções:

Cânon Pali (do sudoeste asiático), dito também Hinayana, isto é, Pequeno Veículo, de menor extensão e mais racionalista.

Cânon sino-japonês, Cânon tibetano, estes dois últimos redutíveis entre si; formam o Mahayana, ou seja, Grande Veículo.
 

 
 

Jainismo. 2216y505.  

505. É o jainismo um sistema filosófico surgido no século 5-o a.C., na Índia, e que, como o budismo, é considerado heterodoxo em relação ao bramanismo em geral. Formou-se ao tempo considerada época clássica da filosofia indiana(550 a.C. a 1000 d.C.), quando o principal sistema ortodoxo era o Vedanta.
Como nome jainismo procede (através do inglês? Jainism), do cognome do seu fundado Mahavira Jina, este último termo significando "o vitorioso".

Basicamente o jainismo é dualista, discordando por conseguinte do monismo dos sistemas ortodoxos do bramanismo.

Divide ainda as substâncias em dois gêneros antagônicos, - as substâncias vivas e as materiais.

 

 

III - Época escolástica da filosofia na Índia. 2216y507.

 

507. Finalmente, ocorre a época escolástica (sec 11 em diante), com o domínio do acerto com preocupações teológico religiosas. Este era o estágio da filosofia hindu, quando à época final da Renascença na Europa entrava em contato com a filosofia ocidental.

Quanto ao budismo, que pouco se desenvolveu na Índia, expandiu-se para o exterior (China e Sudeste asiático).

O contato com o Ocidente operou também profundas transformações no pensamento da Índia. Em todo o campo das idéias na Índia, não só nas que se conservaram substancialmente fiéis ao passado, como também porque o pensamento ocidental também se fez diretamente presente, quer na filosofia, ciência positiva e tecnologia.
 

 

§2. Filosofia da China até o século dezesseis. 2216y510.

 

510. Na China houve desde o início um equilíbrio entre o fenômeno filosófico e religioso. Não ocorreu por primeiro o avanço da organização religiosa, com os seus taumaturgos, para só muito depois aparecer a filosofia.

Lao Tse e Confúcio são filósofos embutidos em seu meio religioso, respectivamente criadores do taoismo e confucionismo.

Mais tarde, a penetração do budismo, veio também com uma filosofia, a de Buda, um filósofo que a Índia rejeitou, porque estava sob o domínio de uma casta sacerdotal já de longo tempo. E assim no contexto da filosofia chinesa se arrola ainda o budismo (vd).

 

 

I - Taoismo. 2216y512.
 

512. Lao Tse (ou Lao Zi). Séc. 6-o ou 5-o a. C.). Filósofo chinês, contemporâneo de Confúcio. Seus ensinamentos estão no livrinho Razão suprema, ou Razão primordial (Tao Te King), não sendo possível determinar, se foi de sua redação pessoal, ou de seus discípulos.

As mais antigas versões dizem que Lao Tse fora um funcionário do governo, ao tempo da dinastia Djou e que, em determinado momento tudo deixou, dirigindo-se em direção do Ocidente, montado em um boi, conforme gravura sobre uma pedra. Ao querer atravessar um monte, o guarda pediu dele que antes escrevesse um livro sobre seu saber. Ao tê-lo escrito, lhe foi permitido seguir em frente, não mais se tendo notícia dele.

A metafísica de Lao Tse estabelece dois princípios opostos, um determinado, outro indeterminado, e que constituem todas as coisas e sua história de mudanças cíclicas. O livrinho marca o início da reflexão metafísica chinesa, mais além da superfície dos fenômenos políticos e morais do cotidiano.

Taoismo é o nome de uma tradição de caráter religioso, que atravessou os tempos, em paralelismo com o confucionismo, mas sempre com menor número de aderentes.

O livrinho Tao Te King manteve o taoismo dentro de uma certa estabilidade através dos séculos, ainda que influenciado pelos escritos de outros discípulos do mestre inicial. Em relação ao texto do mestre, algumas doutrinas do taoismo decaem, ou se complementam, com a magia, astrologia e credulidades várias.
 

 

II - Confucionismo. 2216y514.

 

514. Confúcio, ou Confucius (forma latina criada pelos missionários cristãos), ou Kung Futzu (que significa Kung o mestre) (c.551-479 a.C.), filósofo chinês, nascido no antigo Estado de Lu (atual província de Shantung), na região do Rio Amarelo, ao sul em relação a Pequin e Tientsin.

Sua biografia apresenta aspectos lendários. De família aristocrática empobrecida. Autodidata. Ocupou um cargo administrativo. Aos 22 anos criou uma escola para jovens e que serviu de instrumento para difundir suas idéias de reforma dos usos administrativos. Depois de 15 anos de instrução, saiu a viajar para persuadir aos administradores sobre as reformas. Ocupou cargos públicos em Ch'i, Estado vizinho ao seu. Depois dos 50 voltou a Lu, onde também assumiu alto posto administrativo. Voltou a viajar. Depois da insistência dos discípulos, retornou a cidade (496-483 a.C.). Tinha então 67 anos e viveu mais 5 em Lu, onde faleceu.

O confucionismo não é uma criação, que rompe com uma doutrina preexistente. É uma reestruturação e fixação de tradições vigentes. Rejeitou as superstições. Deus e o céu constituem um só ser espiritual supremo.

Confúcio não foi um metafísico especulativo como Lao Tse, mas moralista e educador. Ofereceu todavia alguns princípios metafísicos claros e de grande valia pelo seu equilíbrio. Declarou que:

"o perfeito é o começo e o fim de todas as coisas; sem ele não existiriam os seres. O perfeito é por si mesmo absoluto. A potência que produziu o céu e a terra pode exprimir-se simplesmente como sendo a perfeição". Moderado, ainda esclarecia que, se não sabemos o que é a vida, não podemos saber o que é a morte. Neste contexto, o culto aos mortos é admissível e tende para o formalismo.

Classificou em cinco as virtudes: ien o amor pelos outros; yi, a justiça moderada pelo amor; li, conduta regrada de polidez e de cerimonial, como culto ao Estado e aos mortos; chih, autoconsciência da vontade celeste, sabedoria; ch'i , sinceridade desinteressada.

Em política, contrariou a nobreza, desconsiderando a ancestralidade como título para ocupar cargos públicos; importa a capacidade. A autoridade tem origem num mandato divino. O imperador é governante e sacerdote. A lealdade ao céu e ao imperador é necessária para deter a desordem social.

A influência de Confúcio se consolidou sobretudo a partir da dinastia Han (202 a.C. - 221 d.C.).

Obras: os escritos de Confúcio foram reunidos e ordenados pelos seus discípulos. Uma classificação em Cinco clássicos remonta ao tempo da dinastia Han, constituindo-se de meditações intituladas pelo seu assunto: Transformações, Poesia, História, Ritos, Primavera e outono (I ching, Shih ching, Shu ching, Li chi, Ch'un ch'iu). Acresceram-se mais tarde outros, os assim chamados Quatro livros.

 

 

§3. Filosofia no Japão, até o século 16. 2216y517.

 

517. O interesse pela filosofia japonesa foi motivado pela importância que este país insular adquiriu no mundo moderno.

No passado tiveram lugar as religiões, ao mesmo tempo que filosofias de vida, denominadas xintoísmo, confucionismo, budismo e bushido, este último um tanto eclético em relação às precedentes.

Desde a segunda metade do século 19 o Japão assimilou progressivamente filosofias ocidentais - inglêsa, alemã, francêsa, - ou pelo menos se aproximou delas, em suas novas sinteses (vd).
 

 

I - Xintoísmo. 2216y518.

 

518. O pensamento japonês se funda remotamente no xintoísmo, palavra formada a partir de xinto, equivalente à caminho dos deuses, ou simplesmente caminho.

De um caos primitivo ter-se-iam formado os deuses e todas as coisas, tudo dentro de uma concepção vagamente modista. Remontam as narrativas míticas do xintoísmo ao século oitavo. O culto aos antepassados e ao Imperador fazem parte da tradição xingô.
 

  
 
II - Confucionismo no Japão. 2216y519.

 

519. O confucionismo, procedente da China, penetrou de longa data no Japão. Somente pelo século 17 passou a ter alguma influência.
Adverte-se que o confucionismo chinês se destaca pela doutrina do dever filial, enquanto o japonês destaca o dever do súbdito.
 

 

III - Budismo no Japão. 2216y520.

 

520. O budismo penetrou no Japão por obra de missionários budistas provenientes da China, entre os anos 552 e 587, na forma do mahayana.

Dentre as varias seitas, assumiu importância filosófica o zen-budismo (zen = contemplação, meditação). Busca o zen levar o homem a um conhecimento místico - dito satori , - em que o eu surge como idêntico em sua raiz, ao mesmo ser e à sua eternidade.
 

 

IV - Bushido japonês. 2216y521.

 

521. Este expressivo movimento do pensamento japonês, - bushido, ou caminho do samurai (cavalheiro), - representa um ecletismo, com três fontes:

shintoismo, fé do Japão em si mesmo;

confucionismo, a eticidade no relacionamento humano;

zen-budismo, superação do medo à morte, pela convicção de que a personalidade humana radica no ser em geral.

 

 

 


Filos. Moderna - Introdução