Cap. 15
Enciclopédia Simpozio      Micro História da Filosofia.


HISTÓRIA DA FILOSOFIA MODERNA.


CAP. 14.
FILOSOFIA MODERNA,
2-a fase (Século dezessete). 2216y540.



 
 
 
540. Introdução aos modernos do século 17. Seguiu-se à fase renascentista do 1-o período da filosofia moderna, uma segunda fase, em que o tipicamente moderno passou a dominar sobre o passado escolástico.
 
Por esta razão a nova fase se apresenta mais caracterizadamente moderna, parecendo quase o início propriamente dito da filosofia moderna. Importa, não obstante ver o início dos tempos modernos já no século 15 (queda de Constantinopla em 1453); a Renascença foi uma longa fase preparatória e mesmo uma fase com personalidade própria, com grande expressividade sobretudo nas artes.

A nova fase da filosofia moderna, apesar de expressiva, também não terá forma definitiva, porque mais tarde, sobretudo a partir de Kant, ocorrerão outras e outras transformações, e por isso tudo se encerrará, com o nome de Primeiro Período da filosofia moderna.

Em relação ao passado, a filosofia moderna se alinha mais com Platão e a escolástica agostiniana, do que com Aristóteles e a escolástica tomista. Note-se que o subjetivismo, o fenomenismo, o ocasionalismo, o ontologismo e mesmo o inatismo das idéias estão presentes em Santo Agostinho, o qual destaca a importância da predestinação, a iluminação divino-natural das idéias universais.
 

 
541. Data de início da nova fase da filosofia do primeiro período moderno.

Que data tomar como divisória entre a filosofia da Renascença, em fase de tardia conclusão, e início da nova fase? Destacaram-se duas publicações marcantes do novo tempo: Novum Organum, 1620, de Francisco Bacon, e Discurso do método, 1637, de Descartes.
 
Dada a ação mais significativa do livro de Descartes, passou o mencionado Discurso do método, de 1637, a demarcar o início da nova fase em filosofia moderna; de outra parte, o livro de Bacon, apesar de aparecido mais cedo, atuou mais de vagar. Outro elemento, mas de ordem negativa, ou de ausência, foi o decrescimento dos grandes escolásticos, na mesma proporção que cresceram os cartesianos; nesta segunda fase da filosofia moderna, os escolásticos se reduziram a um pequeno parágrafo (vd n 583).
 
No curso do tempo esta segunda fase do primeiro período da filosofia moderna se transforma numa terceira fase, ao adentrar-se o século imediato, ao tempo das luzes, ou iluminismo.
 

 
542. Divisão interna da 2-a fase da filosofia moderna. Uma nova divisão material, ou seja pelos seus temas e resultados, começa a se impor desde a história da filosofia do século 17, e que serve didaticamente para distribuir os temas em grandes unidades. Trata-se da divisão entre filosofias racionalistas e filosofias empiristas. Não se trata de colocar de um lado as filosofias propriamente novas, ou modernas, com a cartesiana apontando como a principal, e de outro lado os sistemas escolásticos remanescentes, de que Silvestre Mauro (+1687) foi ainda um seu raro grande nome.
 
Agora passaram os filósofos a se diferenciarem sobretudo pela solução gnosiológica, - uns racionalistas, como Descartes e os escolásticos remanescentes, outros empiristas, como Francisco Bacon, Hobbes, Locke.
Nesta divisão, - como se anotou, - ficaram os escolásticos na posição de racionalistas, ainda que diferenciados dos demais racionalistas modernos, como Descartes. Note-se que no passado não se dava tanta ênfase ao problema crítico, o qual desde o século 16 mais divide as filosofia entre si, sobretudo em racionalistas e empiristas.
 
Com referência aos racionalistas, eles se redividem gnosiologicamente. Os racionalistas modernos, mesmo Descartes, dão ao conhecimento uma interpretação fenomenista, para depois tentar sair para o real; uns pensam consegui-lo, pelo realismo mediato; outros, não, e permanecem no fenomenismo puro, seja sensista, seja idealista. Diversamente, os escolásticos mantém a anterior posição do realismo imediato.

Aliás, o que mais profundamente distingue os racionalistas modernos e os escolásticos é a natureza do fenômeno cognitivo; querem os modernos, que a intencionalidade encontre no mesmo fenômeno apenas a fenomenalidade, dali partindo uns para um realismo mediato e outros para o fenomenismo (ou idealismo) puro e simples. Contrariamente, os escolásticos buscam mostrar que a intencionalidade encontra no fenômeno imediatamente a realidade do ser. No escolasticismo eclético mais recente (por exemplo Cardeal Mercier), foi o realismo imediato abandonado, em troca do realismo mediato tal como acontece na solução cartesiana.

Outros detalhes redividem aos filósofos, pelas suas demais conclusões, que chamam a atenção sobretudo quando raras. Por exemplo, Malebranche é ontologista; Spinosa é panteísta; Berkeley acosmista; Hobbes materialista; Pascal alogicista. Ocorrem também denominações, como jansenismo (predestinacionismo, rigorismo, quietismo), molinismo (posição quase inversa), escola platônica de Cambridge.

 

 


ART. 1-o. FILOSOFIA RACIONALISTA
do 1-o período moderno,
2-a fase, Sec. dezessete. 2216y543.


 

543. Ao tempo do mesmo Descartes e imediatamente após desenvolveu-se uma especulação filosófica, em que uns o seguiam com bastante fidelidade, outros com algumas variações, mas quase todos no quadro geral de um novo racionalismo não escolástico.

Sem contudo deixarem de ser afetados pelo cartesianismo, se organizou contra ele uma oposição oficial na França. O rei o condenou em 1675. Uma assembléia do clero católico de 1680 também o interditava ser ensinado. Um dos invectivantes foi o grande orador Bossuet, o qual também não poupou o ocasionalismo e ontologismo de Malebranche. Colocados no Index dos livros proibidos pela Igreja Católica, os textos de Descartes continuaram a ser um atrativo dos leitores.

Em consequência das resistências às teses cartesianas, ganharam corpo várias reformulações. Assim aconteceu que cada cartesiano poderá ser um novo caso dentro do movimento, cujo nome geral ficou sendo o mesmo. Didaticamente, em vez de reclassificar as posições em grupos menores, pode-se considerar cada pensador como um novo caso dentro desta filosofia moderna em formação.

Apenas vagamente podemos distinguir, com parágrafos próprios, os grupos cartesianos:

1) Descartes e seus discípulos mais fiéis;
2) Variações do cartesianismo - ocasionalismo, ontologismo, panteísmo;
3) Cartesianismo dissidente.
 

São variações do cartesianismo, aquelas derivações espontâneas peculiares ao sistema; este cartesianismo sem fronteira ocorre claramente em Geulincx. Diversamente o cartesianismo dissidente é aquele que, embora admita algumas teses importantes, contesta frontalmente à outras; tal acontece, por exemplo, em Bossuet.

No quadro didático do racionalismo do século 16 se acrescem ainda:

4) Platônicos de Cambridge;
5) Escolásticos remanescentes.

Como um todo, estas redivisões racionalistas da 2-a fase do primeiro período da filosofia moderna se encontram em oposição a um adversário em crescimento, a filosofia empirista.
 

  

§ 1. DESCARTES E OS CARTESIANOS MAIS FIEIS. 2216y544.

 
 

544. René Descartes (1596-1650). Notável filósofo, matemático e cientista, francês, nascido em la Haye (hoje La Haye-Descartes), Touraine. Fez seus primeiros estudos de 1606 a 1614 no Colégio Real de La Fléche, dirigido pelos padres jesuítas. Cursou direito em Poitiers, com licenciatura em 1616.

Entregou-se depois a viagens, de 1617 a 1629, com o intuito de conhecer, ganhando a vida em empregos eventuais. Assim, demorou-se inicialmente 2 anos na Holanda, mais exatamente e Leyden; serviu então ali ao exército daquele país, cujos interesses a França ocultamente apoiava. Saindo de novo a viajar, esteve na Alemanha, onde mais uma vez se engajou ao exército como forma de sustento. Seguiu finalmente para Veneza e Roma, ali cumprindo o pagamento de uma promessa à lendária Nossa Senhora do Loreto, por lhe haver ajudado a resolver suas dúvidas a respeito dos fundamentos da certeza. De retorno à França, vende sua herança, com vistas ao próprio sustento. Indo fixar-se em 1829 fixar-se na Holanda, que considerava um país sério, passou a escrever, com vistas à publicação. Solteiro, embora, teve uma filha, à qual denominou nostalgicamente Francine; instalou-se com a mãe da menina, que, contudo, não viveu muito.

Como cientista, surpreendeu-se em 1633 com a condenação de Galileu pela Inquisição da Igreja Romana. Isto o levou a suspender a impressão de seu livro Do mundo. Desabafou a um antigo colega de escola, agora o religioso oratoriano Pe. Mersenne, também de destacado saber: "Isto me espantou tão fortemente, que me resolvi quase a queimar todos os meus papéis, ou pelo menos de não deixá-los ver por ninguém". Por isso, apenas postumamente foi impresso aquele livro, em 1677, um quarto de século depois de sua morte. Na era das fogueiras da Inquisição a imagem de quem era queimado vivo, era mais terrível do que a da crucificação de Jesus. O homem que se atemorizou com a fogueira da Inquisição haveria contudo de ter impacto em seu tempo, que passou a ser visto como principal fundador da filosofia moderna. No decurso das décadas de 1630 e 1640 publicou Descartes uma sequência de grandes obras de filosofia, que o tornaram imediatamente o centro de variadas discussões, de ortodoxia religiosa. Polêmicas com as universidades de Utrecht e Leyden fizeram-no temer por sua liberdade. Por último, em 1649, aceitou um convite da jovem rainha Catarina da Suécia, para se estabelecer em Stocolmo na condição de lhe ministrar lições. Uma pneumonia deu fim precoce ao erudito inteletual francês, falecendo já em 31 de março do ano seguinte, em pleno inverno nórdico, aos 54 anos de idade.

545. Método. Mais que Platão, tratou Descartes do método, assunto aliás já em voga no início dos tempos modernos antes do Discurso do método de 1637. Não se alongou Descartes no exame meramente formal do método. Mas advertia sobre o mesmo, quando precisava aplicá-lo.

Não cuidou Descartes em se alongar na metodologia meramente formal; o que importava a ele era o uso do método, por exemplo, na matemática e na filosofia, sobretudo para a solução do problema da verdade fundamental, a do conhecimento.

De outra parte, importa examinar se o mesmo Descartes cometeu alguns deslizes de método. Pergunta-se, se ele se deixou influenciar inconscientemente pelo método de determinada matéria, qual seja o dos objetos matemáticos. Assim, poderá ter feito filosofia com o método de outra ciência.

546. Gnosiologia. Ainda que não dispondo dos nomes que o ulterior desenvolvimento daria ao estudo da validade do conhecimento, Descartes advertiu particularmente para a necessidade de explorar este campo do saber humano. Aplicou Descartes com insistência o método no tratamento da questão da certeza inicial.

Segundo advertência de Descartes, era preciso examinar a certeza, pelo método da dúvida universal, que consiste em deixar progressivamente como capazes de dúvida as verdades que dependesse de outra, até se chegar a uma certeza não condicionada. Este método supõe o fato de que existe alguma certeza. Mesmo esta devia ficticiamente ser posta em dúvida, para ter como resultado que, mesmo tentando duvidar, alguma coisa resta como certa. Se duvido, - disse Descartes, - não posso duvidar que esteja duvidando, isto é, pensando, e que sou eu que estou pensando; penso, logo existo, eis como se traduz esta situação.

Partiu, pois, Descartes do fato, de termos o conhecimento imediato de que pensamos e que este cogito, se apresenta em si mesmo como certo. Por que estaríamos certos? Porque percebemos com clareza e distinção. Constituem-se, pois a clareza e distinção, as propriedades desta primeira certeza. Por isso, o critério da certeza é constituído pela evidência clara e distinta.
 

547. Para a perfeita dúvida metódica estabeleceu Descartes, em seu Discurso do Método 4 preceitos:

"O primeiro (preceito) consiste em nunca aceitar como verdadeira qualquer coisa, sem a reconhecer como tal, isto, evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção; não incluir nos seus juízos nada que não se apresentasse tão clara e tão distintamente ao meu espírito, que não tivesse nenhuma ocasião para o pôr em dúvida". Para que o exame sucessivo dos elementos do dado percebido, se aperfeiçoe, seguem os demais preceitos: "O segundo (preceito)... dividir cada uma das dificuldades que eu houvesse de examinar em tantas parcelas quantos pudessem ser e fossem exigidas para resolvê-las melhor".

"O terceiro (preceito) conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e fáceis de serem conhecidos para subir pouco e pouco como por degraus até o conhecimento dos mais compostos, e supondo mesmo certa ordem entre os que não procedem naturalmente uns aos outros".

"E o último (preceito)... fazer por toda a parte enumerações tão completas e revistas tão gerais, que ficasse certo de nada omitir".

Os primeiros três preceitos destacam a ordem das evidências. O último apela às técnicas metodológicas, capazes de nos assegurar a integridade total do procedimento.

 

548. Quais os primeiros resultado do método aplicado ao valor gnosiológico do conhecimento? O primeiro é o de que há um fato certo: o de que eu sei de minha existência. Só este momento inicial do conhecimento pode gerar uma longa fenomenologia, cujos detalhes ocupam o filósofo.
Outras colocações fez ainda Descartes logo no fundamento, e que diferenciam sua filosofia de muitas outras.
 

549. Racionalismo radical. O racionalismo de Descartes é radical, porque estabelece conhecermos independentemente do ser do sensível. Situa-se pois do lado de Platão e não de Aristóteles. Fez o pensamento funcionar independente da experiência, porquanto considerava inatas as idéias gerais e, a partir das quais, desenvolveu o processo filosófico.

O racionalismo de idéias autônomas, que foi praticado também pelos agostinianos e foi retomado por Spinosa e Leibniz, fica em oposição ao racionalismo moderado de Aristóteles (origem das idéias gerais a partir da experiência singular), em oposição mesmo ao kantismo, que também destaca os fenômenos sensíveis como estímulos das formas apriorísticas do entendimento.
 

550. Fenomenismo e realismo mediato. Abandonou o realismo imediato com referência ao mundo exterior. O que diretamente experimentamos e pensamos, não nos leva ao objeto real exterior à imagem. Conhecemos somente ao mesmo conhecimento. Precisamos ainda provar que estas representações tem o objeto sua causa. Se as representações exteriores, opostas ao conhecimento de si mesmo (do eu), apenas se fazem conhecer imediatamente como representações (fenômenos). Estes fenômenos, ao serem analisados, nada contêm da realidade exterior.

Entretanto, Descartes, por causa do seu racionalismo radical, dispõe de conhecimento prévio do principio de causalidade; admite, por meio de prova ulterior, que, atrás dos fenômenos ocorra um objeto real, o qual funciona como causa dos mesmos. Com esta interpretação estabeleceu o realismo mediato, como característica quase geral da filosofia moderna. Com referência ao idealismo futuro, partirá ele também da negação do realismo imediato, sem todavia apelar ao realismo mediato.

 
 

551. Entre alma e corpo. Ainda outras e outras inovações fez Descartes. Asseverou haver somente duas substâncias: extensão e pensamento, porque na análise dos objetos pensados restam apenas estas duas noções, como as mais simples e irredutíveis entre si.

Identificou a substância dos corpos com sua extensão. A partir dali identificou uma espécie de atomismo e a teoria da formação do mundo mediante turbilhões. Identificada a matéria com a extensão, conflitou com a doutrina teológica sobre a Eucaristia, segundo a qual desapareceria a substância do corpo do pão, para dar lugar a substância de Cristo, enquanto permaneceria a aparência dos acidentes do pão, inclusive de sua extensão. Foram os livros de Descartes inseridos na lista dos livros proibidos da Igreja Católica, "até que fossem corrigidos".

Com referência a alma, sua essência seria o pensamento; este não seria apenas uma operação de uma faculdade, a qual, por sua vez, fosse sustentada por uma substância. As sensações seriam apenas pensamentos confusos. Quanto aos animais, uma vez considerados como não tendo pensamento e por isso não tendo alma, não passariam de máquinas bem construídas. As relações causais entre alma e corpo são as de duas substâncias completas (conforme Platão). De natureza irredutível e especificamente distintas, Descartes não encontrava explicação clara para esclarecer como a alma podia agir sobre o corpo, e, vice-versa, o corpo sobre a alma; a partir dali surgiriam novas explicações futuras criadas pelos ocasionalistas e ontologistas. Não tratou da ética.
 


552. Obras: Compêndio de Música (Compendium musicae, 1618); Regras para a direção do Espírito (Regulae ad directionem ingenii, 1628); O mundo (Le monde, 1633) Tratado do homem (Traité de l'homme, 1633); Discurso do método... mais a Dióptrica, Meteoros e a Geometria... (Discours de la méthode pour bien conduire sa raison et chercher la vérité dans, plus la Dioptrique, les Météores et la Géométrie, qui sont des essais de cete méthode, 1637), sendo o referido Discurso, apenas a introdução geral, hoje ordinariamente publicado em separado; Meditações da filosofia primeira (Meditationes de prima philosophia, in quibus Dei existentia et animae immortalitas demonstrantur 1640), seguida, na edição de 1642, de respostas mais objetivas às objeções, com tradução do livro ao francês em 1647; A pesquisa da verdade pela luz natural (La recherche de la vérité par la lumière naturelle, 1641); Princípios de filosofia (Principia philosophiae, 1644), com tradução ao francês em 1647, de Picot; Notas no programa (Notae in programa, 1648); A descrição do corpo humano (La description du corps humain, 1647-1648); Da formação do feto (De la formation du foetus, 1648); As paixões da alma (Les passions de l'âme, 1649); O nascimento da paz (La naissance de la paix, 1650), versos para um ballet; Projeto de uma academia em Stocolmo (Projet d'une académie a Stockholm, 1650). Além da Correspondência (Correspondence, edição Adam et Milhaud, PUF, 8 vols.).
 

554. Kenelm Digby (1603-1665). Protegido do rei, fez pirataria no Mediterrâneo. Na França, converteu-se em 1636 ao catolicismo. Contactou o Padre Mersenne e com isso também aos círculos cartesianos. Alternadamente esteve na Inglaterra e França, ao mesmo tempo que introduziu o cartesianismo em seu próprio país. Escritos: Um discurso, sobre a infalibilidade em religião (A discourse, concerning infallibibility in religion, Paris, 1652); Dois tratados, em que um é sobre a natureza dos corpos, outro sobre a natureza da alma humana, com vistas à descoberta da imortalidade da alma racional (Two treatises, in the one of which, the nature of bodies, in the other, the nature of mans soul, is looked: in way of discovery, of the immortality of reasonable souls, Paris, 1644.
 

555. Johann Clauberg (1622-1665). Filósofo alemão, nascido em Solingen, baixo Reno-Westfália. Conheceu o cartesianismo na Holanda. Lecionou em Herborn e Duisbourg, a partir de onde contribuiu para a difusão das novas idéias nos então Estados Alemães. Influi sobre Leibniz e Wolff.

Procurou novas soluções para o problema cartesiano de causa entre corpo e alma, bem como para a questão da causa em geral. Só Deus é causa universal (causa universalis). As causas particulares são apenas causas transmissoras de ação já iniciada. Os conceitos de ser pensante e coisa extensa não permitem compreender que uma atue sobre outra. Teve idéias similares às do ocasionalismo de Geulincx, ainda que não idênticas.

Obras: Cem exercícios sobre o conhecimento de Deus e de nós (Exercitationes centum de cognitione Dei et nostri, 1637); Lógica antiga e nova (Logica vetus et nova, 1658); Física (Physica, 1664), coleta de artigos.
 

556. Louis de la Forge (1632-1666). Filósofo francês, nascido em la Fléche. Exerceu a medicina em Saumur, onde também faleceu.
Pertenceu ao grupo dos cartesianos, que mais de perto seguiu as inovações de Descartes, e que, como Geulincx, antevê a hipótese do ocasionalismo para explicar a ação do espírito sobre o; corpo.

Obras: Tratado sobre o espírito do homem (Traité sur l'esprit de l'homme, 1666).
 

 

§ 2. Variações do cartesianismo.2216y558.

 

558. Imediatamente após Descartes, portanto já na fase da história da filosofia à qual pertence o próprio Descartes, seu pensamento assumiu desenvolvimentos que coerem com o espírito geral do sistema. Este foi o caso do ocasionalismo, ontologismo, panteísmo spinosista. Na fase seguinte do primeiro período da história da filosofia moderna, ou seja no século 18, sobretudo na Alemanha se desenvolvem espontaneamente novas formas do racionalismo cartesiano, a saber, os sistemas, já mais vastos, de Leibniz e Wolff, para finalmente acontecer a grande superação com o kantismo.
 

 

I - Ocasionalismo e ontologismo. 2216y559.
 

559. Ainda que umas coisas venham depois das outras, e umas pareçam causar estas outras, a subtilidade da investigação pergunta se efetivamente umas causam as outras e se, caso se exerçam como causa, importa explicar a possibilidade que uma coisa cause outra. O ocasionalismo é a doutrina que, admitindo que nada causa outra coisa, Deus causa, por ocasião de nossa aparente causação. O ontologismo, dentro do mesmo contexto do ocasionalismo, acredita que vemos em Deus às coisas, porquanto estas não podem causar nada em nós e que as faça conhecer.

Em Descartes está virtualmente a doutrina do ocasionalismo e ontologismo, e que vieram depois a se expressar em filósofos, que por isso se dizem cartesianos, ao mesmo tempo que deram desenvolvimento a tais princípios.
 

560. Arnold Geulincx (1624-1669). Filósofo belga, nascido na cidade flamenga de Anvers (ou Antverpen). Estudou e lecionou 6 anos na Universidade de Louvain. Nesta mesma cidade lecionou também como professor secundário. Por causa de sua adesão ao cartesianismo e ao calvinismo, foi compelido a retirar-se da católica Louvain, indo então para Leyden, na Holanda. Depois de algum tempo, em 1665 foi admitido como professor da Universidade desta cidade. Mas, será colhido pela peste que varreu a região em 1669, vitimando-o com apenas 45 anos, fato que tumultuou a publicação de seus numerosos escritos e sua influência.

Desenvolveu, a partir do cartesianismo, a doutrina do ocasionalismo (vd) como solução explicativa da ação do espírito sobre os movimentos do corpo; Deus seria a verdadeira causa do efeito, cada vez que o espírito desejasse agir. Descartes pusera o problema, quando mostrava a dificuldade de explicar como o espírito agiria sobre o corpo; Clauberg e Cordemoy sugeriram a formulação ocasionalista, que Geulincx agora desenvolveu e que depois será parte do sistema de Malebranche; sobretudo o prestigio social deste dará à doutrina ampla aceitação. A base remota de tal doutrina se encontra no agostinianismo, o qual destacava a independência do conhecimento em relação à experiência sensível e ainda a ação divina, tanto na formação dos universais pela iluminação divino natural, como ainda da predestinação decidindo pelo homem.

Obras: Questões quodlibetais (Quaestiones quodlibicae, 1653), com 2-a ed. Saturnais, ou questões quodlibetais (Saturnalia, seu quaestiones quodlibeticae, 1665), único livro inteiro publicado em vida do autor; Logica ... reconstruida (Logica fundamentis suis, a quibus hactenus collapsa fuerat restituta, 1662); Methodus inveniendi argumenta, quae solertia quibusdam dicitur, 1663); Discussão ética sobre a virtude e suas primeiras propriedades (Disputatio ethica de virtute et primis eius proprietatibus, 1664); Metafísica verdadeira (Metaphysica vera, 1691); Metafísica segundo o espírito aristotélico (Metaphysica ad mentem peripateticam, 16..); Da virtude e de suas primeiras propriedades, que vulgarmente se denominam virtudes cardiais (De virtutibus et primis eius proprietatibus, quae vulgo cardinales virtutes vocantur), livrinho cuja parte inicial se publicou já em 1665 e o todo postumamente em 1696, ocorrendo a primeira tradução ao alemão em 1948, sob o título Ethik oder über die Kardinaltugenden (`Ética ou sobre as virtudes cardiais); Tratado ético primeiro (Tractatus ethicus primus, 1665); Ethica (Ethica, 1675); Anotações aos Princípios de filosofia de Renato Descartes (Annotata in Principia philosophiae Renati Descartis, 16..); Física verdadeira (Physica vera,1688); Anotações (Annotata praecurrentia, 1690-1691); Anotações maiores (Annotata maiora, 1690-1691); Metaphysica vera et ad mentem peripateicam, 1691.

Depois da morte de Geulincx foi publicada a Ética dita Completa, reunindo escritos anteriores do gênero, agora sob o título Conhece-te a ti mesmo ou Etica de A. Geulincx, com as palavras iniciais impressas em grego, combinado com um subtítulo latino GO_tK seaFtoO sive A. Geulincx Ethica. Post trista auctoris fata omnibus suis partibus in lucem edita per Philarethum (pseudônimo de Cornelius Bontekoe), 1675.
 

561. Nicola Malebranche (1638-1715). Filósofo e teólogo francês, nascido em Paris. De família bem relacionada, estudou um ano de filosofia no Colégio de la Marche e três de teologia na Universidade Sorbonne. Falecidos seus pais, entrou em 1659 na Ordem dos Oratorianos, sendo ordenado sacerdote em 1664. Não exerceu funções especiais, limitando-se praticamente ao estudo no resto de sua vida Sabe-se que em 1585, quando se revogava o Edito de Nanes, que houvera concedido em 1598 liberdade de crença aos protestantes na França, fora Malebranche um dos encarregados de pregar missão aos "novos convertidos".

O contato com as obras de Descartes (+ 1650), o fez um racionalista cartesiano, num tempo em que ainda era forte a presença da escolástica já em declínio. Esta se mantém com os jesuítas, cuja diretriz era predominantemente aristotélica e tomista, enquanto a dos oratorianos era agostiniana, além de já influenciada pelo cartesianismo, até mesmo porque Descartes estava mais próximo de Agostinho e Platão, do que de Aristóteles e Tomás de Aquino. Foi Malebranche um racionalista radical como Descartes, enquanto como este admitiu um conhecimento inteletual independentemente de origem em dado experimental. Situou-se também no realismo mediato cartesiano. Todavia foi mais radical ainda, porque lhe deu a explicação do ocasionalismo, o que coere com Agostinho, porquanto este sempre destacou a ação de Deus, inclusive para a formação dos universais por efeito de uma iluminação divino natural (vd n 220). Para Malebranche os objetos já não causam os fenômenos do conhecimento, como ainda admitia Descartes; agora, Deus, por ocasião da presença dos objetos, produz estes fenômenos. O mesmo Deus causa em nós o conhecimento, porquanto só Deus é causa de tudo.

Acrescentou Malebranche ao seu ocasionalismo também o ontologismo. Vê o ser cognoscente intuitivamente a Deus, e nesta visão direta da divindade, e nela são vistas todas as coisas. A filosofia nestes termos resulta em um otimismo sem precedentes, porque em Deus somente aparece a obra perfeita.
Abordando corajosamente as questões mais provocantes de seu tempo, Malebranche teve vasta círculo de leitores, influenciando a derrocada geral da escolástica.

Obras: Pesquisa da verdade (Recherche de la vérité, 1674-1675); Conversações cristãs (conversations chrétiennes, 1677); Tratado da natureza e da graça (Traité de la nature et de la grâce, 1681); Tratado da moral (Traité de la morale, 1684); Entretenimentos sobre a metafísica e a religião (Entretieniens sur la métaphysique et sur la religion, 1688); Tratado do amor de Deus (Traité de l'amour de Dieu, 1697); Entretenimento de um filósofo cristão e de um filósofo chinês, 1708); Reflexões sobre a premoção física (Réflexions sur la prémotion physique, 1915). Escritos menores, cartas, respostas são diferentemente reunidos pelos editores. As obras completas: em torno de 20 volumes.
 

 

II - Jansenismo. 2216y563.
 

563. Ainda que um movimento teológico, fundado na doutrina de Santo Agostinho sobre a predestinação humana, o jansenismo prestigiou o cartesianismo, principalmente a partir do Convento de Port-Royal, de Paris. O rigorismo moral dos jansenistas não conflitava com cartesianismo, porque o fundador deste simplesmente se omitira sobre a ética e a política. Além disto importa advertir-se Agostinho é uma fonte comum tanto de Descartes como do jansenismo.
 

564. Jansenius (Cornelius Jansen) (1585-1638) é o teólogo holandês que deu o nome ao movimento jansenista. Nascido em Leerdam, iniciou seus estudos na Universidade de Louvain, em 1602. Professor nesta universidade a partir de 1717, liderando a teologia agostiniana contra os jesuítas. Em 1635 indicado pelo rei da Espanha para bispo de Ypres (hoje Yperen na região flamenga da Bélgica), morreu 3 anos depois. Jansênio, reforçando Baius, reagiu contra o antigo otimismo pelagiano a respeito da vontade humana, tal como Agostinho e a Igreja oficial já o haviam feito na antiguidade. Tais idéias agora reacendiam com o espírito da Renascença e com os jesuítas, notadamente Molina. A radicalização da posição agostiniana vinha ocorrendo desde Lutero e Calvino. Por isso a escola teológica jansenista tomou o aspecto de protestantismo dentro da Igreja Católica. Teve desdobramento com base nos escritos de Jansênio, sobretudo após sua vida, com Arnauld e Nicole, ao mesmo tempo cartesianos.

Obras: Comentários bíblicos e panfletos polêmicos; Agostinho (Augustinus, 1640), obra póstuma que serviu aos seus sucessores como fundamento para a campanha jansenista.
 

565. Antoine Arnauld (1612-1694). Teólogo francês, nascido em Paris. Padre em 1641. Doutorado na universidade Sorbone em 1642. Principal mentor do jansenismo. Publicou livro em 1643 contra a comunhão frequente, contrariando a um jesuíta que houvera proposto a comunhão segundo a ceia sagrada cotidiana dos primeiros cristãos; advertiu sobre a necessidade de proporcionar o uso deste sacramento com sua grandeza e não de acordo com a necessidade da alma, porque importava antes merecer ao sacramento pela prática da virtude. A questão já vinha de longa data, e tomara vulto com Angélica Arnauld, abadessa do convento de Port-Royal-des Champs desde 1608 e onde havia introduzido uma disciplina rigorosa, de acordo o espírito jansenista; fundando a mesma abadessa em 1625 o convento de Port-Royal de Paris, nele veio a ser confessor, desde 1634, o Abade de Saint-Cyran, jansenista. Este, contrário a política de Richelieu, fora preso em 1638. Antoine Arnauld, que, desde seus estudos contactava Saint-Cyran, tomou o seu lugar no questionamento ideológico. A Igreja condenava em 1642 o jansenismo. No ano seguinte sai o livro de Antoine Arnauld.

Sua orientação teológica e filosófica é agostiniana, com inclusões do pensamento de Descartes e de Pascal, seus contemporâneos, além de todo o esquema jansenista em que se inseriu. Defendeu ainda uma filosofia da linguagem racionalista, oposta a linguagem de modelo empirista, que virá depois.

Obras: A comunhão frequente (La fréquente comunion, 1643); Gramática geral e raciocinada (Grammaire générale et raisoné, 1660), com Lancelot; Lógica ou Arte de pensar (Logique ou Art de penser, 662), com Pierre Nicole, vindo a ser mencionados simplesmente por Gramática de Port-Royal e Lógica de Port-Royal, sendo famosos; Tratado das verdadeiras e falsas idéias (Traité des vraies et des fausses idées, 1683), contra Malebranche; Obras completas (Oeuvres complètes, 42 vols., Lausane, 1775-1781).
 

566. Pièrre Nicole.(1625-1695). Filósofo moralista e educador, francês, nascido em Chartres. Ensinou, de 1649 a 1654, nas pequenas escolas de Port-Royal. Perseguido, afastou-se algum tempo para a Holanda.

Por causa das idéias enunciadas, os escritos morais de Nicole serviram de base ao movimento jansenista, como já de mais tempos os de Jansênio(+1638). Como jansenista foi, entretanto, um moderado. Polêmico, opôs-se aos jesuítas, aos protestantes, ao misticismo.
Obras, entre as muitas, citam-se: Tratado da comédia (Traité de la comédie, 1658);Lógica, ou Arte de pensar (Logique ou l'art de penser, 1662, em colaboração com Antoin Arnaud, que ficou conhecida como Lógica de Port Royal (nesta obra lhe cabe, entre outros textos, Discours, um capítulo sobre a psicologia dos sofismas, e uma abordagem sobre o método); Da educação de um Príncipe (De l'éducation d'un Prince, 1670); Tratado sobre a fé humana; Ensaios de moral e instruções teológicas (Essais de morale., 6 vols., 1667 ss).
 

567. Blaise Pascal (1623-1662). Filósofo, matemático, físico e prosador francês, n. em Clermont-Ferrand, Auvergne. Inteligência precoce, foi levado cedo a estudar em Paris, onde já aos 16 anos redigiu um ensaio sobre as cônicas. Passou com a família para Rouen, 1639-1647, onde procedeu à várias experiências físicas, inclusive sob novas formas a experiência de Torricelli sobre o vácuo. Em 1646 despertou para a vida espiritual, com a leitura de obras de Saynt-Cyran. De retorno à Paris, continuou seus trabalhos, com publicações e ativa participação inteletual naquele meio. Mas veio a falecer relativamente cedo, aos 39 anos.

Como pensador, Pascal é um moderno, enquadrado numa linha não escolástica, como na época acontecia com Descartes e outros. Além disto, o pensamento filosófico de Pascal é misticista e apoiado na intuição alógica em que acreditava, vindo a ser por este lado o inspirador remoto das correntes modernas menos racionalistas. Pode-se acreditar que para o pensar de Pascal tenham contribuído eventuais acontecimentos dos seus último anos em Paris. Depois da morte de seu pai, em 1651, passou a contactar a vida mundana das nobreza. De outra parte, sua irmã Sainte-Euphémie ingressou no convento jansenista de Port-Royal; e ele mesmo, em 1654, após um acidente quase mortal de carruagem, que resultou em uma experiência mística, recolheu-se já no ano seguinte ao convento de Port-Royal. As circunstâncias da experiência mística geram seguramente suspeição, tal como sucede com os grandes fundadores de religiões e seus profetas.
 

568. Alogicismo. Emergiu Pascal como mentor de uma filosofia, em cuja base não se encontra o pensamento racional, inteiramente lógico, como o da matemática e da metafísica do tipo de Aristóteles, e sim o pensamento alógico, intuitivo da vivência chamada do coração, enfim de algo que se supõe de uma fonte especificamente distinta. A razão tende ao exato, lógico, discursivo; este é o espírito geométrio. Diferentemente a intuição que vem da emoção, ou do coração apreende o inefável, o moral, o religioso; este é o espírito de finura. Na sequência, o alogicismo de Pascal uma descrição da condição humana como sendo cheia de contrastes (como então acontece com o barroco). De um lado o homem é o pecador, por causa de sua natureza corporal, e de outro lado o homem é elevado por Deus pela condição de espírito que lhe deu, juntamente com a graça e a eleição para a eternidade. Os místicos posteriores, os modernistas, os existencialistas e outros mais, sobretudo do quadro dos espiritualistas ecléticos franceses, o reclamam como um dos seus precursores. Além disto, Pascal foi um prosador significativo da língua francesa, o que também motivou sua fácil aceitação e influência no âmbito dos leitores deste idioma. Assumindo a causa jansenista, combateu particularmente o pensamento dos jesuítas de então, marcadamente racional e casuístico, isto é, com soluções dos casos particulares a partir dos grandes parâmetros da razão e das definições teológicas.


Obras: Ensaio sobre as cônicas (Essai sur les coniques, 1640);
- Novas experiências sobre o vácuo (Expériences nouvelles touchant le vide, 1647);
- Relato da grande experiência do equilíbrio dos líquidos (Récit de la grande expérience de l'équilibre des liqueurs, 1648);
- Tratado do triângulo aritmético (Traité du triangule arithmétique, 1954);
- Cartas escritas por Luis de Montalté a um provincial (Lettres écrites par Louis de Montalté à un provincial, 1656 e 1657), ao todo 18, conhecidas simplesmente por Provinciais, (Provinciales), de grande repercussão;
- Tratado do equilíbrio dos líquidos e do peso da massa do ar (Tratié de l''equilibre des liqueurs et de la pesanteur de la masse de l'air, 1663);
- Pensamentos sobre a religião (Pensées sur la religion, 1670), obra principal e que passou a ser conhecida simplesmente como Pensamentos (Pensées).

 

 

III - Panteismo de inspiração cartesiana. 2216y570.
 

570. Baruch... (Bento..., ou ainda Benedito...) Spinoza (1632-1677). Filósofos holandês, de origem judia e portuguesa, nascido em Amsterdam. Destinado inicialmente a ser rabino, teve a oportunidade de conhecer com profundidade a língua hebrea e a teologia judaica. Mas, em virtude de seu desenvolvimento ideológico, foi expulso da sinagoga. Passou ao exercício profissional de polidor de lentes numa casa comercial de seus pais. Cedo publicou alguns ensaios filosóficos. Em 1663, aos 31 anos, se transferiu para Vooburg, perto de Haya. Ali teve a oportunidade de contactar o sábio Huygens e protestantes franceses exilados. Renunciou em 1673 ao convite para uma cátedra de filosofia na universidade de Heidelberg. Veio a falecer com apenas 45 anos, não muito depois. Mais um século depois era amplamente divulgado na Alemanha do pré-romantismo por Jacobi, autor de Carta sobre a doutrina de Spinoza, 1785.

 

571. A filosofia de Spinoza é eminentemente racionalista, como a de Descartes, de cuja conceituação toma seu ponto de partida, atento sempre ao método. Analisando para encontrar o simples e irredutível, do qual toma ponto de partida a construção do sistema. Dificilmente se decidirá quem foi o maior, se Descartes que cuidou mais das bases da pirâmide, se Spinosa que tratou mais da ponta da pirâmide; a base é maior pela largura, ao passo que a ponta é maior pela altura.

Espinosa colocou no começo a substância, noção simples e irredutível, a qual é em si e se concebe sem necessidade de um outro conceito. Infere que a substância não tem causa, porque do contrário por ela se conceberia; que a substância é infinita, porque se existisse outra, esta limitaria a primeira.

Acrescenta, que a substância se constitui de atributos; estes como que constituem a sua essência.

Somente dois são os atributos infinitos conhecidos, a extensão e o pensamento. Estes dois não se reduzem um ao outro, sendo pois simples. Todos os seres que conhecemos são modos, isto é, modificações destes dois atributos. Os corpos são modos da extensão. Os espíritos são modos do pensamento. A substância única é Deus. Mas, como tudo se reduz à esta substância, tudo é divino, tudo é Deus, conforme a formulação do panteísmo. Prova-se a existência desta única substância, ou seja de Deus, por meio do argumento, entre outros, do ontológico: necessariamente existe aquilo, cuja existência não tem motivo, ou causa que lhe impeça existir (id necessario existit cujus nulla ratio vel causa datur quae impedit quominus existat).

Ocorre um paralelismo entre as atividades do corpo e da alma, porquanto corpo e alma são modos da mesma substância. Desaparece assim o problema platônico e cartesiano das relações de alma e corpo.
 

572. A ética, que pouco preocupara à Descartes, foi um dos grandes objetivos de Spinoza, cuja vida estóica se encontra ajustada aos princípios que defendeu. Condiciona a ação aos parâmetros gerais de sua metafísica.

Todas as coisas finitas contêm um impulso à própria conservação, que assume a forma de emoção. Todavia, agindo o homem pela emoção, reduz-se ao estado de escravidão. Procura superar este estado pelo conhecimento científico, alcançando então o estado de liberdade; à emoção sucede então a vontade.

Pela inteligência conhece o homem a inexorabilidade das leis naturais, identificadas com a necessidade universal; concordando racionalmente com esta necessidade universal, e desistindo dos ;rumos da emoção, adquire o estado da liberdade. Mas, não é só. A compreensão última, a intuição da substância divina, gera o amor inteletual em relação a Deus, em que consiste a felicidade maior. Trata-se de uma liberdade frente às paixões, mas a não de uma liberdade frente à substância universal divina. Esta em si mesma poderá ser dita livre e necessária ao mesmo tempo. Em política defendeu a república como a melhor forma de governo.

Obras. Ensaios em holandês: Curto tratado de Deus, do homem e de seu bem estar (Korte Verhandeling van God, de Mensch und deszelbs Welstand, 1650); Tratado do arco-íris (Stelkonstige reeckening van regenboog, 1687), opúsculo; Cálculo das chances (Reeckening van Kanssen, 1687), opúsculo.
Em latim: Primeira e segunda parte dos Princípios de filosofia de Renato Descartes, demonstrados ao modo geométrico (Renati Descartes pars I et II, more geometrico demonstratae, 1663); Sobre a reforma do entendimento (De intellectus emendatione, 1666); Tratado teológico-político (Tractatus theologico-politicus, 1670); Ética demonstrada segundo a ordem geomética (Ethica ordine geometrico demonstrata, 1677), obra póstuma e principal, concebida como um tratado completo de filosofia, em cinco partes: I - Deus; II - Da natureza e da origem da mente; III - Da origem e da natureza das paixões; IV - Da servidão humana ou da força das paixões; V - Da força do inteleto ou da liberdade humana.

 

 

§3. Cartesianismo dissidente. 2216y573.

 

573. O atomismo adotado por Descartes encontrou eco no campo daqueles que já haviam restabelecido o atomismo tradicional dos atomistas gregos. É este o caso do Padre Pierre Gassendi (vd n 466), que acorreu com objeções, porquanto Descartes havia descartado o espaço vazio absoluto, para ater-se a um atomismo sem vazios.
 

574. Jacques Bénigne Bossuet (1627-1704) . Destacado orador, bispo católico, francês, nascido em Dijon. Estudou em Paris, a partir de 1642.Sacerdote em 1652, com atuação em Metz; depois preceptor em Paris do Dauphin, filho do rei Luiz XIV, de 1669 a 1681; finalmente nas proximidades de Paris, como bispo de Meaux. Membro da Academia Francesa em 1671.

Seu pensamento filosófico de Bossuet foi antes eclético, que profundo; foi mais teólogo e educador, do que filósofo, não podendo entretanto ser omitido, dada a influência que teve em seu tempo. Como ativista católico, o sectarismo de Bossuet responde parte pelos extremismos religiosos então ocorridos na França. Foi adversário intransigente dos protestantes. Graças a sua retórica e qualidades de estilo, exerceu grande influência sobre o espírito de seus ouvintes. Envolvido também com a onda cartesiana, fez reparos a algumas teses e aceitou outras, com algum agostinianismo, ao mesmo tempo que tomismo. Advertiu contra Descartes que;

é uma estranha metafísica dizer que a substância da alma é apenas pensar e querer"
(Traité de l'existence de Dieu, I, c. 2).
Mas se situa no contexto racionalistas cartesiano e agostiniano ao fundar nas verdades eternas (independentes da experiência) uma prova da existência de Deus.

Defendeu o absolutismo dos reis. Apresentou uma filosofia da história com visão teológica, não distante da maneira de ver de Agostinho de Hipona. Contestou o quietismo da espiritualidade de Fenelon. Para o Dauphin escreveu livros que ultrapassam o nível escolar.

Obras: Sermões; Discurso sobre a história universal (Discours sur l'histoire universelle, 1681), para o Dauphin; Política retirada das páginas da sagrada escritura (Politique tirée de propres paroles de l'ecriture sainte, 1909), também para o Dauphin, edição póstuma; Tratado do livre arbítrio (Traité du libre arbitre, 1710); Tratado do conhecimento de Deus e de si mesmo (Traité de la connaissance de Dieu et de soi-même, 1722).
 

575. Pierre-Daniel Huet (1630-1721). Filósofo e teólogo francês. Padre da Igreja Católica, 1676, bispo de Soissons (1685-1689), depois de Avranches (1689-1699). Renunciando ao posto, acolheu-se idoso a uma casa dos jesuítas em Paris, vivendo ainda longos anos.

Opinou sobre variados assuntos filosóficos, teológicos, gramáticos, científicos, criando também a poesia em latim. Reagiu contra a filosofia de Descartes, admitindo todavia como este melhor discutir a questão da certeza do conhecimento. Propôs uma solução fideísta, pois considera tal a fraqueza da razão natural, que ela não tem como alcançar a certeza, senão pela luz acrescida da fé sobrenatural, que seria pois o critério supremo da verdade.

Obras: Censura da filosofia cartesiana (Censura philosophiae cartesianae, 1689); Questões aulnaisianas sobre o acordo da razão e da fé (Alnetanae quaestiones de concordia rationis et fidei, 1690); Tratado da fraqueza do espírito humano (Traité de la faiblesse de l'esprit humanine, 1723 (PUF diz 1722), póstumo.
 

576. François de Salignac de la Mothe Fénelon (1641-1715). Literato francês, nascido em Perigord. Padre da Igreja Católica aos 24 anos. Nomeado em1689 preceptor do neto do rei Luiz XIV, duque de Borgonha, para o qual escreveu obras pedagógicas.

Fenelon aderiu às doutrinas quietistas da Senhora Guyon, relativas à piedade passiva frente a ação divina sobre a alma. Por isso esteve em polêmica com Bossuet, que o contestara. Finalmente foi nomeado bispo de Cambrai, 1695.

Expôs o método da dúvida metódica de Descartes. Define o corpo como extensão, a alma como um eu pensante. As idéias resultam de uma intuição interior, ao modo racionalista cartesiano. Mas contestou o ontologismo de Malebranche.

Obras: Tratado da educação dos filhos (Traité de l'éducation des filles, 1687); Explicação das máximas dos santos sobre a vida interior (Explication des maximes des saints sur la vie intérieure, 1697); As aventuras de Telêmaco (Les aventures de Télémaque, 1699), para o neto de Luiz XIV, com idéias políticas; Demonstração da existência de Deus tirada do conhecimento da natureza (Démonstration de l'existence de Dieu tirée de la connaissance de la nature, 1712);Refutação do sistema da natureza e da graça (Réfutation du système de la nature et de la grâce, 1720), contra Malebranche; Refutação dos erros de Benedito Spinosa (Réfutation des erreur de Benoit Spinoza, 1731), também póstumo.
 

 

§4. Platônicos de Cambridge. 2216y578.

 

578. A súbita prosperidade do empirismo na Inglaterra, provocou uma reorganização da velha tradição platônica e que se manifestou principalmente na assim chamada Escola Platônica de Cambridge (Cambridge platonists), constituída sobretudo de clérigos. A afinidade do cartesianismo com o mesmo passado racionalista platônico e agostiniano fez com que houvesse uma interação com a escola de Cambridge, a qual admitiu algumas de suas teses, ainda que fizesse ressalvas as outras.
 

579. John Smith (1618-1652). Do quadro da escola platônica de Cambridge. Inspirou-se em Platão, para estabelecer como fonte superior de conhecimento o entusiasmo e a intuição, acima do frio raciocínio. Mesmo que não se possa demonstrar logicamente a imortalidade da alma, ela é vista à luz superior daqueles recursos, que deixam o homem mais próximo da verdade.
 

580. Henry Moore (1614-1687). Filósofo inglês, nascido em Grantham, Lincolshire. Graduou-se em 1639 em Cambridge. Tendo podido viver dos rendimentos de seus bens, pôde dedicar-se ao lazer dos estudos. Correspondeu-se com Descartes nos anos 1648-1649. Permaneceu quase todo o tempo em Cambridge, com uma viagem apenas, que fez em 1669, a Paris.

Abandonou o calvinismo rígido de sua família, defendo idéias liberais. Foi um dos primeiros representantes da escolas platônica de Cambridge, ao lado de John Smith e Ralph Cudworth, sendo que Henry More tendeu para a ala dos mais teosóficos, místicos e cabalísticos. Na correspondência com Descartes, concorda com alguns dos seus elementos racionalísticos de fundo platônico, mas divergindo de outros. Deixando o mecanicismo, estabeleceu um cosmologia pananimista. Duas são as substâncias, a alma e o corpo, todavia ambas são extensas. Concebeu a Deus como um ser extenso, porque somente assim estaria em todo o lugar e seria o motor universal.

Obras: Psychozoia platônica, ou uma canção platônica sobre a alma (Psychozoia platonica: or, a platonicall son of the soul, 1642); Demócrito .... , ou um ensaio sobre a infinitude do mundo de acordo com os princípios platônicos (Democritus Platonissans, or, an essay upon the infinity of worlsdout of platonick peinciples, 1646); A imortalidade da alma (The immortality of the soul, 1649); Conectura cabalística... (Conjectura cabbalistica. Or, a conjectural essasy of interpreting the minde of Moses, acording to a threefold Cabbale, 1653); Quatro cartas de Henry More a Renato Descartes (Henrici Mori ;Epistolae quatuor ad Renatum Descartes, 1662); Breviário ético (Enchiridion ethicum, 1667); diálogos divinos (Divine dialogues, 1668), sobre os atributos divinos, sendo o livro mais conhecido de H. More; Breviário metafísico, ou uma dissertação clara e sucinta sobre as coisas incorporeas (Enchiridion metaphysicum: sive, de rebus incorporeis succincta et luculenta dissertatio, 1671. Obras completas, 3 vols., 1675-1679.
 

581. Ralph Cudworth (1617-1688). Filósofo inglês, nascido em Aller (em Somersetshire, conforme Mcmillan). Filho de um clérigo, seguiu o mesmo caminho. Graduou-se em Cambridge. Depois de lecionar em várias instituições, tornou-se professor de língua hebraica em Oxford. Foi encarregado da revisão da tradução inglesa da Bíblia.

Faz parte do quadro da Escola Platônica de Cambridge, como seu mais conhecido representante. A mente é dotada de idéias inatas. Admitidos princípios absolutos, que chama a priori, estabeleceu a existência de Deus e combateu o ateísmo de Hobbes. No plano da ética defendeu princípios absolutos, preexistentes na mente divina.
No plano da natureza, todos os corpos contêm a vida, ainda que em grau diverso. Existem causas finais no mundo físico.
Ocupou-se com o problema da revelação. Ao referir-se as aproximações entre o cristianismo e o platonismo, ainda alegou o fato de haver Platão conhecido os livros de Moisés, como pensavam alguns dos primeiros padres da Igreja.

Obras: O verdadeiro sistema inteletual do universo (The true intellectual system of the universe, 1678); Tratado sobre a eternidade e imutabilidade da moral (Treatisen concerning eternal and immutable morality, 1731). E outros escritos.

 

 

§5. Escolásticos remanescentes, da fase cartesiana. 2216y583.

 

583. Em meados do século 17, quando iam em pleno desenvolvimento o racionalismo cartesiano e a filosofia empirista inglesa, já são poucos os escolásticos expressivos. Na primeira metade do século foram desaparecendo os que vinham do século anterior, sem que deixassem substitutos no mesmo número. Os religiosos e clérigos passaram a desenvolver filosofias cristãs sob o signo cartesiano, principalmente no que se referia ao ponto de partida gnosiológico. Didaticamente, os escolásticos que atingiram a primeira metade do século 17, já se estudam como acrescidos aos do século anterior, portanto como da fase inicial renascentista da filosofia dos tempos modernos (vd n 474). Agora são apenas mencionados, para a seguir demorar sobre os que pertencem à segunda metade do século 17, quando do pleno cartesianismo e empirismo.

 

 

584. Os jesuítas adentraram o século 17 com alguns representantes da filosofia escolástica: Francisco Suarez (1548-1617); Gabriel Vasquez (1551-1604); L. Léssio (1554-1623); Cosmo Alamanni (1559-1634); Diogo Ruiz de Montoia (1562-1632); João de Lugo (1583-1660), consagrado como moralista; De Arriaga (1592-1667); Silvestre Mauro (vd), comentador notável de Aristóteles.
 

585. Silvestre Mauro (1619-1687). Filósofo e teólogo italiano, nascido em Spoleto. Ingresso na ordem dos padres jesuítas, estudou e lecionou nas escolas destes. Distinga-se do dominicano Francisco de Silvestre, o Ferrarense (vd n 475), também notável comentador, sobretudo de Tomás de Aquino. Professor de filosofia em Macerata, 1649-1652; depois em Roma, no Colégio Romano, 1653-1656 (futuramente denominado Universidade Gregoriana), onde também foi reitor e professor de teologia.

A competência dos comentários de Silvestre Mauro contribuiu para manter por mais algum tempo a filosofia de fundo aristotélico e escolástico.

Obras: Quatro livros de questões filosóficas (Quaestionum philosophicarum libri IV, 1658); Summulas (Summulae, 1670), com 2-a edição do livro anterior; As obras de Aristóteles, com breve paráfrase ... (Aristotelis opera quae extant omnia brevi paraphrasi ac litterae perpetua inherente explanatione ilustrado, . 6 vols., 1, 7); Questões teológicas (Quaestionum theologicarum libri, 1676-1679); Obra teológica (Opus theologicum, 1687).
 

586. Carmelitas, em Salamanca, Espanha deram à publicidade dois comentários à Tomás de Aquino, teológico e filosófico: Cursus theologicus Collegii Salmaticensis (1679); Cursus artium, Collegii complutensis (1624). Os autores são citados como salmaticenses e complutenses.
 

 

587. A tradição escolástica dominicana foi bastante resistente durante o espaço do geral declínio desta forma de filosofia. João de Santo Tomás (1589-1644), contemporâneo de Descartes, foi dos mais notáveis filósofos do seu tempo, merecendo destaque o seu Cursus philosophicus thomisticus, como um dos melhores desta fase da filosofia.

Data deste tempo ainda o dominicano francês Antônio Goudin (1639-1695). Sua obra Filosofia ... segundo o divo Tomás de Aquino (Philosophia juxta inconcussa tutissimaque D. Thomae dogmata, Lion, 1671), foi muitas vezes impressa, dado o apreço que despertou.

 

 

§. 6-o. Racionalismos fora da Europa, séc. dezessete. 2216y589.

 

I- Racionalismos na América. 2216y589.

 

589. Ao mesmo tempo quer exerciam atividades missionárias, as ordens religiosas espanholas estabeleceram umas primeiras universidades, onde a filosofia oficial era a em uso nas respectivas ordens.
 
Em Lima, capital de Peru, e então de todo o Vice-reinado espanhol da América do Sul, funcionava desde 1551 a Universidade de São Marcos, iniciada como seminário da Ordem dos Dominicanos, na qual se lecionava a filosofia tomista.
Na Argentina funcionava desde 1613 a Universidade de Córdoba.
Já no México a Universidade vinha de 1553.

 

 

II - Racionalismos no Oriente. 2216y590.

590.

 

 

 


ART. 2-o. FILOSOFIA EMPIRISTA
do 1-o Período moderno, 2-a fase, séc. dezessete. 2216y594.


 

594. Introdução ao empirismo do século 17. Um vasto florescimento da filosofia empirista caracterizou o pensamento moderno, havendo tudo começado na Inglaterra do século 17, ao mesmo tempo que, em contraste, no continente se dava a prosperidade do racionalismo cartesiano.

O ponto de partida do empirismo foi Francisco Bacon (vd), com alguns aspectos que ainda lembram a Renascença e mesmo a Idade Média, mas com suficiente especificidade própria para constituir-se em marco expressivo de um novo movimento. Teve ainda no mesmo século expressivos continuadores: Thomas Hobbes (vd), caracterizado como materialista e político, John Locke (vd), como teórico do conhecimento.

Importa notar que os três chefes do empirismo inglês da fase por que passava a filosofia no século 17 apresentavam o caráter especial de serem homens do poder político da época e que eventualmente se encontravam em contato com os meios cartesianos de Paris. Francisco Bacon já estivera em Paris nos anos de 1576 a 1579. Ainda maior fora o contato de Thomas Hobbes com Paris, onde acompanhava como preceptor aos nobres ingleses, em três oportunidades, e finalmente fora refugiado político de 1640 a 1651, exatamente quando Descartes marcava presença com seus livros. Quanto à Locke frequentou a França de 1675 a 1679 e a Holanda de 1642 a 1689. Nasceu portanto o empirismo, ao mesmo tempo na Inglaterra, onde nasceram seus criadores, e na França, que eles então largamente frequentaram.
 

595. Divisão do empirismo do século 17. Acontece uma sucessão temporal entre Bacon, Hobbes, Locke, ao mesmo tempo que uma diferencia doutrinária dos respectivos empirismos; Hobbes se notabiliza pelo seu claro materialismo. Mas, para efeito de divisão de grupos importa ainda não insistir neste segundo detalhe de Hobbes, para ficar apenas no campo do empirismo, que, como um todo está inicialmente limitado a um pequeno grupo, o qual além disto, ainda é um empirismo moderando, frente ao que virá no século seguinte. Mas já podemos anotar algumas outras variações, que lhe estão próximas, como o deísmo. Mas, em princípio, o deita também pode ocorrer no campo do racionalismo.

O empirismo do século 17 é divisível em:

1) Empirismo moderado - Bacon, Hobbes, Locke. Na linguagem ordinária são denominados simplesmente de empiristas. Efetivamente, porém, não efetivaram todas as virtualidade do empirismo.

2) Deísmo (Deus sem os milagres e sem a revelação), em estado de formação, - Herbert de Cherbury (1583-1648). Será sobretudo no final do século e no seguinte, que o deísmo terá pleno desenvolvimento. A ele estão ligados os livre-pensadores. Tudo ganha pleno desenvolvimento no século seguinte, ou seja na terceira fase do período inicial da filosofia moderna, onde mais vastamente usam ser tratados.

3) Também está em começo uma corrente moralista de base empirista. A ela estarão ligados sobretudo os filósofos escoceses, entre outros Thomas Reid (1710-1796). Uma nova fase do empirismo passa a ocorrer com o ceticismo de Pedro Baile (1647-1706) e de David Hume (1711-1776). Mas tudo agora já pertence à fase final do primeiro período da filosofia moderna, quando também a filosofia racionalista cartesiana se transforma profundamente com a entrada em cena de grandes nomes alemães, Leibniz, Wolff, Baumgarten e do primeiro Kant (anterior à 1770).

Didaticamente pode-se transferir para a fase seguinte os temas sobre o deísmo e a corrente moralista que já atuavam incoativamente no século 17 na transformação dos círculos eruditos ingleses.
 

596. Francis Bacon (1561-1626). Filósofo e político inglês, nascido em York House, Londres, filho de um nobre. Estudou direito em Cambridge. Passou em Paris de 1676 a 1679, como integrante da embaixada inglesa. Em 1884 eleito para a Câmara dos Comuns, com posteriores reeleições. Sob Jaime I (1603-1625) subiu rapidamente, como Conselheiro do rei (1604), Procurador Geral (1607), Fiscal Geral (1613), Guarda do Selo (1617), Lord Chanceler (1618), Barão de Verulam (1618), Visconde de Saint Alban (1621). Acusado de corrupção administrativa, foi condenado ao pagamento de pesadas multas e preso na Torre de Londres. Perdoado, retornou à vida particular, onde continuou a escrever, conforme vinha procedendo desde o início de seus estudos.
 

597. Novo Órganon. O desenvolvimento da lógica do raciocínio indutivo foi o maior mérito de F. Bacon, adicionando pois um importante parágrafo ao Órganon de Aristóteles, cujo mérito fora a lógica do raciocínio dedutivo. Seu livro neste campo, que denominou Novum Organum, editado em 1620, participa do mérito do Discurso do Método, de Descartes, editado respectivamente em 1637, haverem dado origem a uma nova fase na história da filosofia. Precedeu em vida ao nascimento de Descartes; entretanto sua influência foi um pouco mais tardia, de sorte que ambos ficaram atuando simultaneamente.

Bacon teve a visão geral de que a ciência não se destina apenas à contemplação, mas também à transformação da realidade, promovendo o progresso e o desenvolvimento humano. Este conceito dominará a civilização moderna e se tornará um dos objetivos gerais da educação.

Criou uma classificação das ciências sob um critério subjetivo, o das faculdades respectivamente mais utilizadas: a poesia ou ciência da imaginação; a história ou ciência da memória, subdividida em história natural e história civil; a filosofia ou ciência da razão, distinguindo entre filosofia da natureza e antropologia. É nas subdivisões, que a classificação de Bacon se torna.
 

598. Empirismo. Em Gnosiologia F. Bacon é anti-racionalista, limitando o conhecimento legítimo à experiência. Havendo destacado o conhecimento fundado na experiência e desenvolvido o método indutivo, que lhe é peculiar, Bacon deu origem à moderna filosofia empirista, principalmente porque ela se estabilizou como tradição na Inglaterra, de onde derivará para a França, onde assumiu a denominação adicional de positivismo. Havendo atacado ao racionalismo, desvalorizou o silogismo, porque geralmente as premissas dependem de suas assertivas universais. De outra parte, o empirismo de Bacon não chegou a ser sistemático, porquanto ainda conservou teses racionalistas, como alma e Deus. Entretanto negou os vastos desdobramentos das religiões tradicionais, ao negar a autenticidade da revelação. Mantém tão somente uma religião natural, como era peculiar ao deísmo já em formação na Inglaterra.

 

599. Obras: A maior produção do tempo (Temporis partus maximus, 1586); Ensaios de moral, economia e política (Essays moral, economical and political, 1597); Estandartes do bem e do mal (Colours of good an evil, 1597), literário; Introdução à interpretação da natureza (De interpretatione naturae proemium, 1602); O progresso e o avanço das ciências, divinas e humanas (The proficience and advancements of learning, divine and human, 1605), uma das obras mais notáveis; ... (Partis secundae delineatio et argumentum, 1606); Fio de labirinto, ...ou da ciência operativa (Filum labyrinthi, Cogitata et visa de interpretatione naturae, sive de scientia operativa, 1607); Da sabedoria dos antigos (De sapientia veterum, 1609), referente a mitologia clássica; Da interpretação da natureza (De interpretatione naturae, 1612; Sobre os princípios e as origens (De principiis atque originibus, 1613); Preparativos para a história natural e experimental (Parasceve ad historiam naturalem et experimentalem, 1620; Novo Organon das ciências (Novum Organum scientiarum, 1620), sobre a indução, sendo a principal obra, retomando a de 1605; História do reino de Henrique VII (History of the reign of king Henry VII, 1622); Ciência dos ventos (Historia ventorum, 1622); Ciência da vida e morte (Historia vitae et mortis, 1623); Da importância e progresso das ciências (De dignitate et augmentis scientiarum, 1623), tradução ao latim do The proficience de 1605; História natural ou experimental para a fundação da filosofia, ou fenômenos do universo (Historia naturalis et experimentalis ad condendam philosophiam sive phaenomena universali, 1623); Consideração política sobre a guerra da Espanha. Sobre a verdadeira grandeza da Grã Bretanha (1624); Petição e profissão de fé (Precatio et professio fidei, 1625).

Obras póstumas: Miscelânea das miscelâneas (Silva Silvarum), incompleta; Ciência do denso e rarefeito (Historia densi et rari, 1658); Escala do inteleto, ou fio de labirinto, ou pesquisa correta sobre o movimento (Scalla intellectus, sive filum labyrinti, sive inquisitio legítima de motu, 1653), escrita em 1608; Pesquisa sobre o magnete (Inquisitio de magnete, 1658); Tópicos sobre a pesquisa da luz e do fogo (Topica inquisitionis de luce et lumine, 1653); Da maré (De fluxu et refluxu maris, 1653), redigida em 1612; Pensamentos sobre a natureza das coisas (Cogitationes de natura rerum, 1653), escrita entre 1600 e 1604; A maior produção do tempo (Temporis partus masculus, 1653); Refutação aos filósofos (Redargutio philosophorum, 1736), remontando a 1607; Nova Atlântida (New Atlantis, 1660), escrita em 1624. Formado em direito, é autor ainda de: Elementos das leis comuns da Inglaterra (The elements of the common lawes of England); Lição sobre o código de costumes por Francisco Bacon (The learned of Sir Francis Bacon upon the statut of uses).
 

600. Thomas Hobbes (1588-1679). Filósofo inglês, nascido em Wesport, Malmesbury. Filho de um pároco da Igreja Anglicana. Estuda em Oxford. Foi um inteletual, sem exercer o magistério, mas com a vantagem de haver sido secretário por algum tempo secretário de outro filósofo, Francisco Bacon, altamente situado no poder. Exerceu ainda a função de preceptor particular do filho de William Cavendisch, futuro conde de Devonshire, nesta condição havendo viajado à França e Itália nos anos 1608-1610. Passaria os anos de 1829 a 1831 na França com o filho de Sir G. Clifton, agora contactando largamente os círculos científicos e matemáticos. Ainda uma terceira estadia na França, mais uma vez como preceptor, acontece de 1634 a 1637, quando se relaciona com Mersenne e Gassendi. De regresso à Inglaterra, impulsiona os seus escritos, sem que fosse o seu futuro afetado pelos tumultos da então política inglesa; refugiado, passou em Paris, de 164O a 1651, razão porque também editou livros na capital francesa. Em Paris ensina matemática ao futuro rei Carlos II, ali também refugiado. Retornado à Inglaterra, em função à anistia política de 1651, e subindo ao Trono Carlos II, teve também acesso à corte real.

Foi Thomas Hobbes o principal criador do empirismo depois de Francisco Bacon, e principal criador do materialismo mecanicista. Reduz o pensamento a uma modalidade de sensação. Se a experiência nos atesta apenas a existência de corpos, há somente corpos. A alma é material, de matéria mais subtil. O homem é uma estrutura mecanicista.

A base do direito está no poder do mais forte. As reações aos objetos exteriores produzem tendências favoráveis, quando eles ajudam a vida; as reações são desfavoráveis, se ele a desfavorecem. Estas reações são espontâneas, sem verdadeira liberdade. Por isso não há moral no homem em estado de natureza, pois o egoísmo das tendências determinísticas o guiam. Todo o homem tem direito a tudo, até ao corpo do outro. Mas, graças a reta razão e a linguagem, os homens chegam a um acordo, criando o Estado, com poder absoluto para garantir o contrato social. Se, entretanto, Hobbes defendeu o poder absoluto, de outra quer a liberdade de pensamento, inclusive de religião, havendo neste sentido polemizado com o bispo inglês John Bramhal.

Tem sido também Hobbes o primeiro inteletual expressivo a negar a inspiração dos livros bíblicos, confirmando o deísmo de Herbert de Cherbury.

Caído no olvido, despertou novamente grande interesse no final do século 19 e decurso do século 20, em virtude do absolutismo totalitário por ele defendido, mas sobretudo por causa do prestígio crescente da filosofia positivista

Obras: Do cidadão (De cive, 1642); Natureza humana (Human nature, 1650); A liberdade e a necessidade (Of liberty and necessity, 1648); Do corpo (De corpore, 1654); Do homem (De homine,1654); As questões referentes a liberdade, necessidade e oportunidade (The question concerning liberty, necesity and chance, 1856); Elementos filosóficos sobre o governo e a sociedade (Philosophical ruddiments concerning government and society, 1651), De cive transposto ao inglês; Leviathã, ou sobre a matéria, forma e poder da sociedade eclesiástica e civil (Leviathan, sive de matéria, forma et potestate civitatis eclesiasticae et civilis, 1651-1670), obra principal, em que retoma assuntos de obras anteriores.
 

601. John Locke (1637-1704). Filósofo inglês, nascido em Wrington, perto de Bristol. Estudou em Oxford, de 1852 a 1858, destinado inicialmente à carreira eclesiástica, da qual desistiu. Inicialmente preferiu as ciências naturais e a medicina. Lecionou em Oxford. Empregou-se em 1666 como médico particular do lorde Ashey, o qual seria depois Conde de Shaftesbury, ao mesmo tempo que funcionava como secretário particular do mesmo. Nesta condição acompanhou ao conde em suas andanças, decorrentes dos tumultos políticos de então. Foi assim que passou na França os anos de 1675 a 1679, com um ano em Montpelier, tratando de saúde. Relacionou-se com a inteletualidade francesa. Favorecido de novo o lorde na política, está com ele de novo de volta à Londres. Em 1683, as circunstâncias desfavorecem outra vez ao lorde, com ele se retiras Locke para a Holanda.

Normalizada a situação inglesa com a revolução de Guilherme Orange, retornam ambos em 1888. Assim foi, que, embora não mais exercendo a função do magistério, Locke teve contudo a oportunidade de contactar a inteletualidade do seu tempo, e que vinha envolvida com as novidades da discussão cartesiana. Depois do seu retorno à Inglaterra, não demorou para publicar suas obras principais. Seus escritos iniciais haviam sido de preferência médicos, passando depois a preferir os temas filosóficos e políticos.

Assumiu Locke a discussão da problemática do conhecimento, que em sua época fora amplamente discutida pelos cartesianos. Pode-se mesmo considerá-lo fundador da teoria do conhecimento, em virtude do desenvolvimento metódico e ordenação didática que deu, até certo ponto, às questões.

Em teoria do conhecimento, Locke foi um empirista moderado; não se diferenciou muito do empirismo de Bacon e Hobbes. De uma parte, é empirista, porque enaltece a experiência como única fonte de saber legítimo. Não há idéias inatas (contra Descartes); tudo principia pela experiência. Até onde o conhecimento ultrapassa a experiência? Eis onde se encontra o caráter moderado do empirismo de Locke; o conceito de substância, tipicamente racionalista, é praticamente desfeito por Locke. De outra parte, mantém-se contudo um empirista moderado, porque conserva a noção de causa, que o empirismo mais radical se nega a admitir. Já que conservou a legitimidade da causa, Locke pôde estabelecer doutrinas, que sem ela não seriam coerentes.

Em política Locke defendeu o liberalismo.
 

Obras: Ensaios sobre a lei da natureza (Essays on the law of nature, 1664), contrário ao relativismo moral; Ensaio sobre o entendimento humano (Essay concerning human understandign, 1690), obra, principal, contra o qual Leibniz escreveu Nouveaux essays (Novos ensaios, 1704); Dois tratados sobre o governo (Two treatises of government, 1690); Carta sobre a tolerância (Letter concerning toleration, 1690); Uma terceira carta sobre a tolerância (A third letter on toleration, 1692); Alguns pensamentos sobre educação (Some thougths concerning education, 1693); A racionalidade do cristianismo como apresentado pelas escrituras (The reasonableness of Christianity, as delivered in the scriptures, 1695).
 

602. O empirismo fora da Europa durante o século 17. Nas colônias européias, sobretudo na América e na Ásia acontecia uma forte evangelização cristã, a qual não levava consigo filosofias empiristas.
Mas o empirismo já existe como patrimônio próprio de algumas das tradicionais filosofias orientais.

 

 


Art. 6 - Filos. Oriental