Filos. Moderna - § 6
Enciclopédia Simpozio      Micro História da Filosofia.


HISTÓRIA DA FILOSOFIA MODERNA.


SEGUNDO PERÍODO DA FILOSOFIA MODERNA.


CAP. 16.
FILOSOFIA DO SÉCULO DEZENOVE,
1-a fase - séc. dezenove. 2216y660.


 

 

INTRODUÇÃO AO 2-o PERÍODO DA FILOSOFIA MODERNA. 2216y660.

 

660. Conforme já acontecia com o primeiro período da filosofia moderna - o divisor mais significativo da história da filosofia do segundo período é o gnosiológico. Uma corrente é racionalista (dita agora com frequência criticista), outra é empirista (agora dita também com um novo nome, positivista).

Mas, além do aspecto gnosiológico radicalizado em racionalista e empirista, o segundo período da filosofia moderna mostra uma crescente especialização. Continuou a crescer a preocupação científica, a qual já vinha sendo anotada no fim da Idade Média e Renascença. Mas se desenvolveu sobretudo a atenção à lógica, à matematização do pensamento, à psicologia, à filosofia da natureza, à filosofia política, bem como à estética, educação, língua, até mesmo língua planificada.

Não obstante, continua ainda a diferença gnosiológica a dividir mais profundamente todo o pensamento moderno. Cresce de novo o realismo imediato peculiar à tradição antiga e escolástica medieval, contra o fenomenismo, quer do realismo mediato (que passa do fenômeno à realidade por meio de uma prova), quer do fenomenismo puro (que permanece apenas no fenômeno).
 

 

661. Atentos ao princípio de que a história trata em primeiro lugar do aspecto temporal, como seu objeto formal específico, importa destacar o 2-o período da filosofia moderna como cronologicamente distinto do período anterior, ao qual sucede. Mas o tempo não é uma substância absoluta; ele determina a coisa como durando e se transformando. Precisa-se, pois, conhecer a coisa também materialmente, para nela perceber o tempo. O pensamento filosófico se transformou, e por isso um novo período se apresentou.

Como segundo período da filosofia moderna, ele começa no final do século dezoito, com o criticismo de Kant, o qual por sua vez principia esta atitude com a Preleção de 1870. Esta data é, todavia, apenas simbólica de um processo que só aos poucos se generalizou. Estende-se o segundo período da filosofia moderna por todo o século 19, dilatando-se pelo século 20 adentro.

Para redividir o segundo período em fases, parece cômodo distinguir entre filosofia do século 19 e filosofia do século 20. Ainda que de fato a divisão cronológica assim estabelecida não seja em concreto tão precisa, as duas fases se distinguem. Uma é a filosofia do século 19, outra a do século 20; ainda que um só período, nele ocorrem estas duas fases, ainda que o divisor não seja claro, para ser determinado pela data redonda de 1900.

Efetivamente, a fase do século anterior parece penetrar na primeira parte do século vinte, quando o excesso de nacionalismo e voracidade colonialista provocou a explosão de duas grandes guerras. Aparentemente a segunda fase veio mesmo muito depois da data redonda de 1900; veio depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando as chagas da guerra iam se cicratizando emocionalmente, lá por volta de década de 1960, quando o colonialismo parecia terminar e o socialismo ditatorial ia dando sinais de esgotamento, passando a uma espontânea democratização. Praticamente todos os filósofos nascidos antes de 1900 ainda pertencem à mesma fase de filosofia que cobre o século 19.

Importa dividir também materialmente as filosofias. Agora se destaca a divisão pelo ponto de vistas gnosiológico, porquanto a gnosiologia (ou metafísica do pensamento) decide globalmente, mais que qualquer outra ciência filosófica, sobre o conteúdo do objeto conhecido.

Didaticamente continua a divisão material da filosofia sendo a distinção entre filosofia racionalista e filosofia empirista. Cresce, todavia, neste segundo período da filosofia moderna, a influência de outros setores temáticos. Não dispensa a história da filosofia moderna, sobretudo a partir do seu segundo período, parágrafos referenciando o desenvolvimento das especializações dos demais setores da filosofia. Importa, contudo, advertir, que estas especializações não podem estar dissociadas do que mais globalmente já vem dito com anterioridade pela gnosiologia. Cresce a importância da filosofia social, filosofia do direito, filosofia da matemática, filosofia da educação, filosofia da arte, ou estética.

São raros os grandes filósofos que se restringem somente a uma especialização. Por isso, quase todos são lembrados nos artigos que tratam do seu situamento em gnosiologia. Contudo, há os que, embora se tenham posicionado gnosiologicamente, apenas se notabilizaram em um só setor.

 

 


ART. 1-o. FILOSOFIA RACIONALISTA,
da 1-a fase do 2-o período da filosofia moderna. 2216y662.


 

662. Dentro do quadro do racionalismo apontou Imanuel Kant (1724-1804) como principal chefe de escola. Houve kantianos que seguiram ao mesmo, e que por isso passam a ser tratados linearmente após o mesmo Kant, como representantes do kantismo originário.

Destacam-se todavia muito mais aqueles que tomaram o kantismo como ponto de partida para novas derivações filosóficas. Como classificar a estas, pois surgiram muitas? Fundadas no mesmo Kant, passaram uns a acentuar o idealismo, outros ao realismo; ambas estas derivações negam algo de Kant, e destacam o respectivo aspecto, ou idealista, ou realista. Outros detalhes graduam internamente idealistas e realistas. Geralmente os idealistas tendem a ser dialéticos, mas não necessariamente. Os realistas tendem ao apelo a algum recurso alógico, mas também não necessariamente. Também os idealistas podem oferecer elementos alógicos, como os realistas elementos dialéticos. Diante do exposto, temos as três sequências didáticas, ou parágrafos.

Mas o criticismo kantiano não é o único racionalismo do século dezenove. Outros racionalismos ocorreram, entre os quais se destaca o espiritualismo eclético, que vigorou principalmente na França, e a escolástica tentando sua renovação (vd 663).
 

663. Divisão da história da filosofia racionalista. A exposição didática da filosofia racionalista do século 19 e começo do século 20 é dominada pela predominância do idealismo; mas em larga paralela ocorre também o realismo, com diferentes faixas. Importa, portando, atender sempre que a principal redivisão do racionalismo moderno se procede pelo idealismo e pelo realismo.
Por sua vez a filosofia idealista, recém-nascida, se prende bastante ao ponto de vista geográfico, iniciando pelo país de origem, a Alemanha, depois derivando para os demais países, sobretudo França e Inglaterra, Itália e Estados Unidos. Internamente, cada país obedece a uma redivisão.

Eventualmente, e por imitação, a filosofia racionalista realista poderá também ser tratada com distribuição geográfica. Didaticamente, o idealismo poderá ser tratado em todos os países, para somente depois se tratar do realismo racionalista, de novo em todos os países. Evidentemente, uns e outros cruzam pelos caminhos dos opositores, de sorte a não ser possível uma divisão rigorosa. O realismo do materialismo dialético se desenvolveu em clima idealista hegeliano; igualmente o realismo do existencialismo derivou do kantismo. Em decorrência um e outro podem ser tratados no contexto em que historicamente surgiram.

a). A divisão do idealismo, como abordagem didática, principia por parágrafos que o destacam como desenvolvido na Alemanha, e da seguinte maneira:
Kant e kantismo inicial (na Alemanha).

  1. Idealismo romântico (na Alemanha). Em sucessão: Fichte, Schelling, Hegel. A estes se juntam muitos outros idealistas românticos. Entre outros, a direita hegeliana. São portanto muitas as redivisões, além das meramente didáticas.
  2. Kantismo realista (na Alemanha). Também ocorrem as redivisões, algumas meramente didáticas.

  3.  

    Os idealistas se acolhem na critica da razão pura de Kant, negando a crítica da razão prática; inversamente, os realistas se apoiam na crítica da razão prática, ainda que não que, por vezes, distanciadamente de Kant.

    Seguem-se variantes, que se destacaram e que por isso se fazem anotar:

  4. Materialismo dialético (na Alemanha).
  5. Neokantismo, marcado principalmente pelas escolas de Marburgo e de Baden (na Alemanha).
  6.  

    b). Seguem os parágrafos didáticos sobre o idealismo nos demais países:

  7. Ecletismos e formas várias de kantismo, dentro e fora da Alemanha. Importa reservado esta parágrafo didático, para tudo o que não couber nos precedentes, como é o caso do historicismo e existencialismo, ou não se tenha desenvolvido com as mesmas dimensões, dentro e fora da Alemanha.
  8. Idealismo na França.
  9. Idealismo na Inglaterra.
  10. Idealismo na Itália.
  11. Idealismo nos Estados Unidos, e no mundo em geral.
  12.  

    c). O realismo racionalista segue após a conclusão da história dos idealismos.
    No campo do racionalismo, no decurso do segundo período da filosofia moderna, não aconteceu apenas a filosofia de fundo kantiano. Restam ainda formas ecléticas de racionalismo: de cartesianismo, de escolasticismo, de realismos não redutíveis aos títulos anteriores, e que terão neste parágrafo sua redivisão didática da filosofia racionalista do século 19. Dali a possibilidade de um ou mais títulos:

  13. O realismo racionalista, na forma de Espiritualismo eclético (sobretudo francês), escolástico e outros da filosofia no século 19. Eis um parágrafo em princípio longo, ainda que o realismo não tenha o caráter de inovação que o idealismo nos seus primeiros tempos.

  14.  

    Importa anotar que se trata dos racionalismos realistas, e não ainda do realismo no empirismo, positivismo, neopositivismo e similares, cujo tratamento didático tem seu respectivo outro lugar.

  15. Racionalismo na filosofia oriental, no curso do século 19.
Didaticamente deve-se levar em conta, que cada tendência filosófica usa ter seus antecedentes na fase anterior (no final do século 18) e sua penetração na fase seguinte (século 20). Com este parágrafo conclui-se o artigo sobre a filosofia racionalista do século 19, para ato continuo se passar ao artigo sobre a filosofia empirista, chamada agora positivismo, do mesmo século (vd).  

  

§1-o. Kant e kantismo inicial. 2216y664.

 

664. Didaticamente importa primeiramente um item focalizando a Imanuel Kant pessoalmente. A seguir como se difundiu, marcando especialmente aos que o seguiram mais de perto e de imediato. Em conexão, um terceiro item poderá atender ao mesmo fenômeno em outros países.

 

  

I - Sobre Kant em particular. 2216y665.

 

665. Imanuel Kant (1704-1804). Filósofo de expressão alemã, nascido na então Koenigsberg (Kaliningrad), da antiga Prússia Oriental, do tempo em que esta despontou como potência progressista e expansionista. As edições críticas de sua obra dizem Immanuel, e não Emmanuel. Modesto quanto à origem, todavia dotado de disciplina pessoal suficiente para tornar-se o filósofo decisivo dos tempos modernos, num período em que o iluminismo tomava conta da Alemanha e a filosofia alemã se tornava definitivamente prestigiosa.

A família de Imanuel Kant era pietista, havendo neste quadro religioso e moralista frequentado a escola de seu tempo, em Koenigsberg representada pelo Collegium Fredericianum, que frequentou a partir de 1732, garantindo-lhe sólidos conhecimentos de línguas. Aos 16 anos, em 1740, ingressou na Universidade de Koenigsberg, cursando filosofia e teologia, matemática e física. Esteve sob a influência pietista de Franz Albert Schulz, amigo da família, além de reitor do mencionado colégio e professor de teologia da universidade.

Igualmente se aponta para a influência do prof. Martin Knutzen, também pietista, e que lhe transferiu o racionalismo de Wolff e a física de Newton, além de lhe haver dado acesso à biblioteca particular.

Ao perder seu pai em 1746, Immanuel Kant, já com 42 anos mas solteiro, foi ser preceptor particular, para subsistir. Nesta função, por 8 anos, cuidou ao mesmo tempo de preparar sua tese de doutorado; este título o alcançou finalmente em 1755. Foi assim que, aos seus 51 anos, passou a exercer, na Universidade de Koenigsberg, a função de professor auxiliar (Privat Dozent), de 1755 a 1770, e a de titular, ou catedrático, de 1770 a 1796. Aposentado aos 72 anos, prosseguiu ainda na elaboração dos seus escritos. De compleição fraca, todavia austero, alcançou a alta idade de 80 anos; nos últimos anos foi apenas um ancião decrépito, mas o kantismo estava um grande sucesso. Ao falecer, a cidade se conscientizou, de que Koenigsberg havia sido o berço de um grande homem. Lecionara quase a totalidade das disciplinas filosóficas, além da geografia, antropologia, pedagogia, matemática, sempre metódico e com brilho. Herder, que fora seu aluno, o descreveu como espírito extraordinário, superior e universal.

 
 
666. Duas fases do pensamento de Kant. Numa primeira fase, dedicou-se Kant ao pensamento racionalista de Leibniz e Wolf, e à física de Newton.
 
Mais tarde descobriu Kant os empiristas ingleses, principalmente Hume, a partir de onde criou uma nova síntese, que se fez conhecer como segunda fase do seu pensamento.
 
O sistema kantiano principia com uma forte ênfase na interpretação da natureza gnosiológica do conhecimento. Kant é cartesiano enquanto, como Descartes, admitiu que o conhecimento, no primeiro intuito, somente alcança como objeto, o fenômeno; ambos, pois, são fenomenistas, mas com resultado final diferente, porque Descartes será um fenomenista, com realismo mediato, enquanto Kant será um fenomenista puro.

Como fenomenistas, ambos, - Descartes e Kant,- diferem da posição do realismo imediato dos antigos, seja de Aristóteles, seja dos escolásticos. O realismo imediato adverte que, já no primeiro intuito, o conhecimento atinge a realidade e não apenas o fenômeno; esta posição do realismo imediato se funda principalmente na doutrina da intencionalidade, que se exerce em forma de juízo, ao passo os fenomenistas se apoiam principalmente na idéia e na sensação como primeiro elemento do conhecimento.

A interpretação fenomenista do objeto do conhecimento se desenvolveu em duas direções fundamentais possíveis, ou na direção de um realismo mediato, colocando atrás do fenômeno o objeto real como causa do fenômeno (como fez Descartes), ou se limita ao fenômeno (como fizeram Hume e Kant). Diferentemente de Descartes, que passava do fenômeno ao objeto real exterior ao conhecimento, Kant considera ilegítima esta passagem.

Inicialmente Kant fora um racionalista do tipo cartesiano, através de Leibniz, Wolff, Baumgarten, destacando a fonte interna da razão; enquanto assim se manteve, Kant pertenceu à fase final do primeiro período da filosofia moderna, tal como os citados Leibniz, Wolff, Baumgarten. Depois, influenciado também pelo fenomenismo de Hume, fez a todo o conhecimento principiar pela experiência (ou seja, pelo fenômeno sensível). Todavia, analisando vastamente os meandros do conhecimento, procurou revelar toda a intrincada estrutura apriorística do processo cognoscitivo, que, no seu entender, constitui a "realidade" da mente humana.

O primeiro esboço da nova filosofia de Kant se encontra na assim denominada Dissertação de 1770, que, por isso, também é acontecimento aproveitado para determinar cronologicamente o marco inicial do segundo período da filosofia moderna. Um década depois virá a sequência de suas obras capitais, que definiram meticulosamente seu novo sistema. Ainda que nos detalhes não coincidam os kantianos e os idealistas em geral, eles servem de referência para as novas maneiras de pensar, mais próximas umas, mais distantes outras, todas agora mais conscientes do problema gnosiológico envolvendo o pensamento humano.


 
667. O conhecimento sensível é um aparato de fenômenos combinado com duas formas a priori fundamentais, - o espaço para os sentidos externos, o tempo para os sentidos internos, ou seja para imaginação e memória. Os dados dos sentidos são apenas fenômenos, conforme queria Hume (vd); não há realidade nos objetos dos sentidos. Assim também não há realidade nos objetos do entendimento.

As faculdades do conhecimento sensível classificou-as como tradicionalmente, advertindo porém, conforme adiantamos, que elas não atingem a realidade. Sobre como efetivamente funcionam na criação do objeto, eis onde se encontra a novidade da filosofia de Kant, aqui tomando a denominação de idealismo apriorista.

Distingue-se pois no objeto do conhecimento a matéria (Stoff), que é dada (como um dado não causado) e a forma, que é acrescida pela faculdade (portanto, um a priori). Apenas os sentidos externos são afetados por uma matéria originária, todavia meramente fenomenal; depois da aposição da forma a priori dos sentidos externos, vão sucessivamente ser acrescidas as formas a priori das demais faculdades. Esta sequencialidade é aliás o ponto em que Kant retomou, contra o racionalismo cartesiano (que já vem de Platão), a tese de que todo o conhecimento, mesmo o inteletual, começa no sensível (tese característica do racionalismo moderado de Aristóteles).

O conhecimento sensível externo (dos cinco sentidos) consiste, portanto, de dois elementos, o dado sensível, matéria que surge simplesmente como dado meramente fenomenal, e a forma apriori de espaço. Em vista do caráter a priori da forma do espaço, este é inerente aos sentidos e não aos fenômenos em si mesmos. Por sua vez, os sentidos internos da imaginação e memória, imprimem aos objetos já espacializados a sequêncialidade do tempo, que portanto também não é inerente às coisas em si. A parte da crítica do conhecimento ocupada a provar este modelo do conhecimento humano se denomina estética transcendental, e se carateriza pelo esforço para mostrar que somente assim as coisas se mostram com razoabilidade.
 
 

669. Igualmente não há realidade nos objetos pensados pelo entendimento. Advirta-se preliminarmente para a inovação de Kant na classificação das faculdades da mente; importa atender para a inovação, porque dela fez depender o quadro das formas apriorísticas; além de sair da divisão tradicional das faculdades, ainda em algumas estabelece formas apriorísticas, enquanto não em outras.

Ocorre em Kant uma notória facilidade de multiplicação das faculdades de conhecimento e apetição. Enquanto Descartes tendia para um reducionismo, que tudo reduzia ao pensamento, Kant retoma a multiplicidade clássica das faculdades, conduzindo-a para uma radicalização multiplicadora. Além disto, as coloca em mútua dependência, o que era mais uma concessão ao empirismo inglês e a Aristóteles.

Estabelece Kant duas regiões de faculdades cognoscitivas: as faculdades da sensação e as faculdades da inteligência. Nesta divisão geral acompanha a velha posição socrática, platônica, aristotélica; portanto, é intelectualista e não sensista; nem é intelectualista exagerado, como Descartes, que reduzia as sensações a pensamentos confusos.

Continua dividindo as sensações à maneira clássica, em externas (vista, ouvido, tato, gosto, olfato) e internas (imaginação e memória).

A região das faculdades superiores é dividida, porém, de maneira nova, como já pouco antes de Kant, Tetens as dividia: faculdades de conhecimento, faculdade da vontade, faculdade do sentimento. Esta última não aparece nos clássicos, visto que a reduziam à vontade, ao seu estado de repouso.

Por sua vez, as faculdades da inteligência, ou faculdades superiores do conhecimento, se subdividem outra vez em três: faculdade do entendimento, da razão, do juízo. Para os clássicos haveria uma só inteligência, ainda que com várias operações ou funções, porque o objeto específico é um só, o ser. Quanto à divisão da razão, em razão pura e razão prática, não é em Kant nova distinção de faculdades; mas apenas diversidade de funções, ora especulativa (razão pura) ora prática (razão prática).

A faculdade do entendimento (Urteilskraft), que se limita a dizer o que as coisas são, formando pois os conceitos, opera com 12 formas apriorísticas, distribuídas em quatro grupos de três. As 12 formas apriorísticas são conceitos fundamentais, e que se denominam categorias (denominação por imitação às 10 categorias de Aristóteles). Agora o apriorismo de Kant assume o caráter amplo de idealismo, porque as categorias já não se atribuem às coisas como determinações delas mesmas, e sim como projeções espontâneas criadas pela mente.

Eis o primeiro grupo de categorias, ditas da quantidade dos juízos, são unidade, pluralidade, totalidade; tais determinações não passam de formas a priori, ou seja de conceitos do entendimento, sem correspondente pelo lado de forma dessa mesma mente.

As categorias da qualidade dos juízos impõem às coisas as formas a priori de realidade, negação, limitação. Portanto, não podemos pensar as coisas senão como se fossem reais, ainda que em si mesmas não o sejam. Sob este ponto de vista da qualidade, sempre ocorre alguma negação, como ainda alguma limitação.

Prosseguindo, a análise encontra ainda as categorias de relação entre sujeito e predicado de acidente e substância, causalidade e efeito, ação recíproca. E finalmente, as categorias de modalidade, que revestem os fenômenos com os conceitos apriorísticos de possibilidade e impossibilidade, existência e não existência, necessidade e contingência.
 
 
 
670. A razão é uma faculdade distinta da do entendimento. Esta distinção não é feita na filosofia tradicional, porque é o mesmo ser o objeto de ambas, distinguindo-se apenas como sucessivas operações.

Subdistingue Kant a faculdade da razão em razão pura e razão prática, ambas peculiarizadas pelo exercício do raciocínio. A pergunta que interessa a Kant incide em decidir se a razão também está condicionada à formas a priori.
Não apresenta formas apriorísticas a faculdade no seu instante de razão pura, quando opera raciocínios apenas especulativos, para concluir sobre o que a coisa é, ou de que se constitui. Adverte, entretanto, Kant, que os raciocínios da razão pura operam com conceitos e juízos provenientes da faculdade do entendimento, e cujos objetos não contêm dados reais, e que por isso todos os seus resultados são de validade apenas ideal; por isso, ideal é a idéia de Deus, porque resulta de um raciocínio mediante conceitos a priori; ideal é a idéia da alma, como também ideal é a idéia do mundo, porque dependem de raciocínios mediante conceitos. Portanto, sempre que se raciocina, validamente se prova a Deus, a alma, o mundo; mas, em função a estes raciocínios Deus ainda não existe realmente, nem a alma, nem o mundo que temos diante de nós.

Mas contém forma apriorística a faculdade da razão prática, que opera raciocínios de ordem moral. Encontra-se a razão prática predeterminada pelo juízo enunciador do dever moral: Eu devo (Ich soll). Uma vez que este juízo prático é um a priori, a moral não decorre de um parâmetro geral do ser (subordinado a um dever ser), conforme quer a moral heterônoma (ou finalística) das filosofias anteriores; mas é uma moral autônoma, dependente da boa vontade a que a faculdade de querer está aprioristicamente determinada.
 
 
 
671. A faculdade do sentimento tem como objeto, entre outros, o belo, ao qual se enuncia como um juízo de avaliação.

Nas filosofias do passado a faculdade do sentimento, ela não fora considerada específica, porque o sentimento fora considerado apenas um estado psíquico da vontade, depois de realizada em seu objeto.

Contra acreditaram Tetens e Kant, que há uma faculdade específica apenas para o sentimento.

Com uma acepção muito especial e inteiramente técnica afirmou Kant constituir-se o belo em algo "sem interesse". A expressão tem um significado subtil. Ao afirmar Kant que o belo é sem interesse, queria dizer que o belo não tem a constituição dos objetos estruturados pelas categorias a priori do entendimento. O belo não se definiria, por exemplo, como o homem se diz composto de animalidade e racionalidade. Este mesmo objeto, visto sob um outro ponto de vista, pode realizar-se com maior ou menor grau de perfeição; um modelo, por exemplo a espécie humana, serve de exemplar arquétipo, em função do qual o objeto se dirá perfeito. Então resulta em ser, ou não belo.

Ora, afirma Kant, dizer que algo é belo, não é definir sobre o interesse constitutivo do objeto, mas julgar sobre o seu acabamento. Neste caso, o belo não se define diretamente como objeto; não é um conceito de objeto. Posto o objeto como constitutivamente acabado, dele apenas afirma algo em função à sua "finalidade formal", isto é, em função da espécie a realizar.

Como dali se depreende, a afirmação kantiana de que o belo é sem interesse está em um contexto daquele no qual o belo é visto como efetivamente de interesse da mente, como seu bem preferido.

Estabeleceu Kant a especificidade da faculdade do sentimento, distinguindo-a da vontade. A divisão destas duas faculdades já vinha de Tetens, recebendo agora sua consagração no sistema kantiano.
 

672. A razão prática. Apesar de fenomenista, o sistema apriorista de Kant não exclui diretamente a existência da realidade externa; ela apenas não é alcançada pelos resultados da razão pura, enquanto opera com os conceitos do entendimento e os dados sensíveis (que são apenas fenômenos sem realidade), sucessivamente revestidos pelas formas a priori. Não exclui este ptimrito procedimento a existência de um outro caminho, através da razão prática, por onde Kant admite o acesso à realidade exterior. Esta outra via se procede pelos postulados da razão prática: a liberdade, a imortalidade, a existência de Deus.

No futuro haverá os que rejeitarão este outro caminho, rachando a filosofia criticista em idealismo (Fichte, Schelling, Hegel, por exemplo), e realismo kantiano, ainda que muita vez reformulado (formas várias a de realismo kantiano, alogicistas, existencialistas).
 

 

673. Kant ainda abordou variados assuntos, sendo que alguns dentro do seu apriorismo, como a arte e outros sem contato direto com ele, como a paz.
 

674. Obras. Escreveu Kant 29 livros, num espaço de 50 anos (1749-1799).

  1. - Opiniões sobre a verdadeira avaliação das forças vivas (Gedanken von der wahren Schaetzung der lebendigen Kraefte) 1749, em que faz restrições ao monadismo de Leibniz e tenta novo conceito de espaço.
  2. - Dissertação sobre o fogo (De igne), para a obtenção do título "Privat Dozent", 1755.
  3. - História geral da natureza e teoria dos céus (Allgemeine Naturgeschichte und Theorie des Himmels), 1755.
  4. - Monadologia física (Monadologia Physica), 1756.
  5. - A falsa subtilidade das quatro figuras do silogismo (Die falscheSpitzphindigkeit der vier syllogistischen Figuren), 1762.
  6. - Ensaio para introduzir na filosofia o conceito de quantidade negativa (Versuch der Begriff der negativen Groesse in die Weltweisheit einzuführen), 1763.
  7. - A única base possível para uma demonstração da existência de Deus (Der einzig moegliche Beweisgrund zu einer Demonstration des Daseins Gottes), 1763.
  8. - Investigação sobre o valor dos fundamentos da teologia natural e da moral (Untersuchung über die Deutlichkeit der Grundsaetze der natürlichen Theologie und der Moral), 1764.
  9. - Observações sobre o sentimento do belo e do sublime (Beobachtungen über das Gefühl des Schoenen und Erhabenen), 1764.
  10. - Notas das preleções do inverno de 1765-1766 (Nachricht von der Einrichtung seiner Vorlesungen in dem Winterhalbjahre 1765-1766).
  11. - Sonhos de um visionário de espíritos, explicados pelos sonhos da metafísica (Traüme eines Geistersehers erlaeutert durch Traeume der Metaphysik), contra Swedenborg, 1766.
  12. - Do primeiro fundamento da diferença do objeto no espaço (Von dem ersten Grunde des Unteschieds der Gegenden im Raume), 1768.
  13. - Da forma e dos princípios do mundo sensível e inteligível (De mundi sensibilis atque intelligibilis forma et principiis), 1770. Dissertação defendida ao ser nomeado professor catedrático.
  14. - Crítica da razão pura (Kritik der reinen Vernunft), 1781, 1-a edição; 1787, 2-a edição revista.
  15. - Prolegômenos a toda a metafísica futura (Prolegomena zu einer jeden künftigen Metaphysik). Resumo explicativo do livro anterior.
  16. - Idéia duma história universal sob o ponto de vista cosmopolita (Idee zu einer allgemeinen Geschichte in weltbürgerlicher Absicht), 1784, opúsculo.
  17. - Fundamentos da metafísica dos costumes (Grundlegung zur Metaphysik der Sitten), 1785.
  18. - Princípios metafísicos da ciência da natureza (Metaphysische Anfangsgründe der Naturwissenschaft), 1786.
  19. - Crítica da razão prática (Kritik der praktischen Vernunft), 1788.
  20. - Crítica do juízo (Kritik der Urteilskrakft), 1790.
  21. - A religião dentro dos limites da só razão (Die Religion innerhalb der Grenzen der blossen Vernunft), 1793.
  22. - O fim de todas as coisas (Das Ende aller Dinge), opúsculo.
  23. - Da paz perpétua (Zum ewigen Frieden), 1795. Opúsculo.
  24. - Primeiros princípios metafísicos da doutrina do direito (Metaphysische Anfangsgründe der Rechtslehre), 1797, integrada na "Metafísica dos costumes".
  25. - Primeiros princípios metafísicos da doutrina da virtude (Metaphysische Anfangsgründe der Tugendlehre), 1797, integrada também na "Metafísica dos costumes".
  26. - A metafísica dos costumes (Die Metaphysik der Sitten), 1797.
  27. - Conflito das faculdades (Der Streit der Fakultaeten), 1798.
  28. - A antropologia sob o ponto de vista pragmático (Antropologie in pragmatischer Hinsicht), 1798.
  29. - Trânsito dos primeiros fundamentos metafísicos da ciência da natureza física (Übergang von den Metaphysischen Anfangsgründen der Naturwissenschaft zur Physik).
 

Edições. No original, depois das edições do próprio Kant sua obras tiveramvários editores e edições completas:

  1. - Edição de G. Hartenstein, em 10 volumes, Leipzig, 1838-1839. Melhor que sua 2-a edição em 8 volumes de 1867-1868, muito apreciada.
  2. - Edição de K. Rosenkranz, em 12 volumes, Leipzig, 1838-1842.
  3. - Edição de Ernst Cassirer, em 10 volumes, Berlim, 1912-1922.
  4. - Edição da Real Academia de Ciências de Berlim, a partir de 1902, em 29 volumes. Na opinião de muitos superou as anteriores.
  5. - Numerosas são as traduções de Kant em todas as línguas. Em francês Kant encontrou cedo vários tradutores. Da Crítica da razão pura notam-se principalmente as traduções de Tissot, Paris, 1864; de Trêmêsaygues e Pacaud 3-a ed., Paris, 1912; de Barni, revista por Archambault, 2 vol., Paris, 1912. Em proporção não muito menor também foram aparecendo as traduções das demais obras.
Traduções em inglês da Crítica da razão pura: de T. Meiklejohn, 1852, M. Müller, 1881.
Em português a Crítica da razão pura foi editada pela Biblioteca de Autores Célebres, sem data, mas depois de 1950. Pouco antes a mesma Biblioteca editava também A paz perpétua, Fundamentos da metafísica dos costumes, Crítica da razão prática.
 
 

 

II - Primeiros kantianos e primeiras reações, na Alemanha. 2216y676.

 
 

676. O novo criticismo de Kant encontrou imediata repercussão, convertendo-se logo assunto de grande atualidade e capaz de imprimir fisionomia próprias para início de um novo período na filosofia moderna. De todos os lados surgiram os comentários, as defesas e os ataques.

Alguns foram receptivos com Kant. Por exemplo Karl Reinhold. Outros, como Fichte (vd) foram amigos e estiveram em contato pessoal com ele, mas depois seguiram novos rumos. Outros, colheram influências, como Schiller.

Houve mesmo os agressivos. Goethe, ainda que lesse com interesse a Crítica do juízo, nem seguiu a Kant, como também não aos românticos em geral. Gotttfried Herder (1744-1803) rejeitou a analítica transcendental de Kant como "presumido nevoeiro de palavras".
A "Crítica da razão pura" aparecida em 1781 era publicada em 2-a edição reformada em 1787; seguiram-se a 3-a em 1790, a 4-a em 1794, a 5-a em 1799.. Refere-se que em 1793, doze anos após a 1-a edição, já se contavam cerca de 200 ensaios escritos sobre as doutrinas de Kant, e em 1785 o "Allgemeine Literaturzeitung", de Jena, já se fazia o órgão do Kantismo.
Inicialmente a obra provocou também muita confusão. Efetivamente, a "Crítica da razão pura" é uma das obras mais difíceis da literatura universal. O mesmo Kant reconheceu a inteligibilidade obscura de sua obra, razão porque publicou os "Prolegômenos a toda a metafísica futura" (1783) como uma espécie de "exercícios preliminares" ao estudo da "Crítica da razão pura".
Com referência aos ataques, entre os de caráter literário destaca-se o de um conselheiro eclesiástico do Palatinado Bávaro, Satler, que escreveu três volumes sob o título: Anti-Kant. Outro adversário valoroso foi Jacobi, ainda que se visse estimulado pelo tema.

Houve também reações de caráter político. Em Hessen foram proibidas as conferências públicas sobre Kant. Semelhantemente se fez em Heidelberg, onde um professor perdeu a sua cátedra por ter explicado Kant. Em 1794, a propósito da publicação do livro "A religião nos limites da razão pura", recebia Kant uma censura oficial de Frederico Guilherme II (1786-1797), através de carta do ministro Wöllner. Submeteu-se Kant ao silêncio, como respeitador que era da autoridade, mas sem deixar de chamar ao rei, ironicamente, de "eterna majestade real"... para dizer que renunciava à liberdade senão durante a vida deste príncipe. Morto este, combateu duramente as tendências absolutistas das determinações do rei e de seu ministro.

Kant era de tal modo ridicularizado por alguns, que seu nome foi mesmo aproveitado para ser dado aos cães. Ao se fundar a maçonaria no Brasil, seu nome foi pseudônimo de um dos membros inscritos.
 

678. Karl Leonhardt Reinhold (1758-1823). Filósofo de expressão alemã, n. em Viena. Ingresso aos 15 anos na Ordem dos Jesuítas, extinta já no ano seguinte, passou à Congregação dos Clérigos Barnabitas, chegando a ser ordenado sacerdote em 1750, mestre de noviços e professor de filosofia. Entra para Maçonaria em 1782, deixando no ano seguinte a vida religiosa. Refugiado em Leipzig, prosseguiu novos estudos. Tornou-se protestante. Contactou Wieland na Alemanha, com cuja filha casou, e a convite do qual seguiu para Weimar. Ali trabalhou no Deutscher Merkur, propagando a doutrina de Kant, através das Cartas sobre a filosofia de Kant (Briefe über die kantische Philosophie, as quais também tornaram ao mesmo Reinhold conhecido. Recebeu um posto de magistério em Jena, onde ensinou cerca de 10 anos. Transferiu-se em 1794 para Kiel, onde permaneceu definitivamente.

Kantiano, foi também dos primeiros a inovar dentro do kantismo, buscando sobretudo aproximar setores que Kant separou. Tratou de diminuir o número de faculdades. Tentou derivar a sensação e o entendimento de uma única faculdade de representação. Aproximou mais os conceitos de matéria e forma do conhecimento, de fenômeno e coisa em si, do especulativo e do prático.

Obras: Cartas sobre a filosofia de Kant (Briefe über kantische Philosophie, 1786-1787, na imprensa, 1790-1792, em 2 vols.); Ensaio de uma nova teoria da faculdade humana de representação (Versuch einen neuen Theorie des menschlichen Vortstellungsvermoegens, 1789); A cerca da possibilidade da filosofia como ciência rigorosa (Über die Moeglichkeit der Philosophie als strenge Wissenschaft, 1790); Contribuição para a reformulação dos sentimentos dos filósofos até aqui (Beitraege zur Berichtigung bisheriger Missvertstaendnisse der Philosophen, 2 vols., 1790-1794); Sobre o fundamento do saber filosófico (Über das Fundament des philosophische Wissens, 1791); Seleção de escritos vários (Auswahl vermichter Schriften, 1796); Contribuições a uma mais fácil compreensão do estado da filosofias (Beitraege zur leichteren Übersicht des Zustandes der Philosphie, 1801; Ensaio de uma de uma crítica da lógica, do ponto de vista da linguagem (Versuch einer Kritik der Logik aus dem Gesichtpunkt der Sprache, 1806); Fundament ação de uma sinonimia para uma terminologia geral das ciências filosóficas (Grundlegung einer Synonymik für den allgemeinen Sprachgebrauch in den philosophischen Wissenschaften, 1812); A faculdade humana do conhecimento do ponto de vista da conexão entre a sensibilidade e o conhecimento proporcionada pela estrutura verbal (Menschliches Erkenntnissvermoegen aus dem Gesichtpunkt des durch die Wortsprache vermittelten Zusammen hangs zwischen der Sinnlichkeit und dem Denkvermoegen, 1816; A velha pergunta, Que é a verdade? (Die alte Frage, Was ist Wahrheit, 1820.
 

680. Friedrich von Schiller (1759-1805). Poeta, dramaturgo e esteta alemão, nascido em Marbach, Wüttemberg. Estudou medicina em Stuttgard. Deixou Würtemberg em 1782, para ser dramaturgo do Teatro de Mannheim, Baden. Em 1787 se estabeleceu em Weimar, Turíngia, de onde em 1789 passou para Jena, ali sendo professor de história.

Liberal entusiasta, moderou-se com os descaminhos da revolução francesa. Inspirou-se nas idéias filosóficas e estéticas de Shaftesbury(1671-1713), da escola escocesa. Depois descobriu Kant, havendo aderido ao livro deste - Crítica da faculdade de julgar (1791), - que destaca as noções do sublime e do belo. Deu Schiller expressão poética ao idealismo alemão, tanto em ficção, como em exposições teóricas. O contato em 1894 com Goethe em Weimar, lhe valeu a colocação em cena de suas peças. Fez dos personagens portadores de idéias, especialmente do ideal da liberdade. Em alguns dramas exprime a rebeldia política e social. Em outros a tragicidade da culpa, a idéia grega do destino, o espírito nacional, os preconceitos aristocráticos, o absolutismo dos reis. Moralmente foi um moderado. A poesia de Schiller contém um discurso. As baladas vão a um desfecho moralizante.

Obras: Ensaio sobre a relação entre a natureza animal e a espiritual do homem (Versuch über den Zusammenhang der tierischen Natur des Menschen mit seiner geistigen, 1785), dissertação; O teatro como instituição moral (Die Schaubiene als moralische Anstalt, 1785); Cartas filosóficas (Philosophische Briefe, 1786); Que significa a história universal e para que estuda o homem? (Was heist und zu welchem Ende studiert man Universalgeschicht?, 1789), discurso de ingresso na Academia, Jena; Da graça e da dignidade (Über Anmut und Würde, 1793); Do sublime (Über das Erhabene, 1793); Cálias e da beleza (Kallias oder über die Schoenheit, 1793); Da utilidade moral dos costumes estéticos (Über den moralischen Nutzen aesthetischer Sitten, 1793); Uma série de Cartas sobre a estética do homem (Über die aesthetische Erziehung in einer Reihe von Briefen, 1795), ao Duque de Holstein Augustemburgo; Da poesia ingênua e da poesia sentimental (Über naive und sentimentasle Dichtung, 1795-1796). Alguns dramas: Os bandoleiros (Die raeuber, 17..); Don Carlos (1797); Wallenstein, 1800); A donzela de Orleans (Jungfrau von Orleans, 1802); A noiva de Messina (Die Braut von Messina, 1803); Guilherme Tell (Wilhelm Tell, 1804); A conspiração de Fiesko em Gênova (Die Verschwoerung der Fiesko zu Genua, 1783); Intriga e amor (Kabale und Liebe, ....).

 

 

§2. Idealismo Romântico, ou dialético, na Alemanha. 2216y682.

 

682. O idealismo dialético levou ao máximo a racionalidade da idéia, o que envolve, no entender dos idealistas, o caráter dialético da mesma.
Os primeiros grandes idealistas dialéticos foram Fiche, com predomínio do ético, Schelling, com predomínio da natureza, e Hegel, com predomínio da idéia do absoluto.

Todavia antes dos três grandes mencionados, já Salomão Maimon (1754-1800), havia negado a coisa em si, desta sorte sugerindo o mesmo a Fiche.

O romantismo esteve particularmente ligado à filosofia idealista. Este fato resulta em referências a Hoelderlin (vd), irmãos Schlegel, Novalis e muitos outros. Já muito antes os românticos, como Schiller (vd) estavam relacionados com a Escola escocesa. O divino que o idealismo monista continha, evidentemente era favorável ao clima sentimental do romantismo.

A filosofia dos três corifeus do idealismo - Fiche, Schelling, Hegel, - teve desdobramentos do tipo escola. Sobretudo Hegel formou escola.

Na segunda metade do século dezenove veio a ser usado o termo neo-idealismo. Por ocasião deste movimento, a renovação se fez de novo na esteira de cada um dos três. Mas contra todos os idealistas e neo-idealistas se ergueu o neokantismo, como um retorno à Kant, ainda que com reformulações.

 

 

I - Idealismo subjetivo (de Fiche). 2216y683.

 

683 .Johann Gottlieb Fiche (1762-1814). Filósofo alemão, nascido em Rammenau, Saxônia, filho de um tecelão. Dada a sua precocidade e inteligência, seus estudos tiveram a proteção do Barão von Miltitz. Cursou nas universidades de Iena (teologia), Wittenberg, Leipzig. Em 1788 empregou-se por pouco tempo como tutor em Zurich (Suíça), vindo depois para Leipzig; aqui, para se manter, deu lições de filosofia transcendental a um estudante. Em decorrência preparou, que logo a seguir apresentou a Kant em Koenigsberg. Este, para ajudá-lo, recomendou-o a seu livreiro. Aparecendo a publicação sem o nome do autor, foi identificada pelo público como sendo do mesmo Kant; este em 1792 esclareceu sobre o verdadeiro autor, favorecendo-o. Professor ordinário todavia, de deixar a universidade de Iena, ante a acusação de ser ateu, frente a um seu artigo publicado em 1798, intitulado Sobre o princípio de nossa crença num governo divino do mundo, e que servia como introdução a um texto do ateu Forberg.

Seguiu então o filósofo panteísta para Berlim, onde teve uma vantajosa convivência com os círculos românticos (Friedrich Schlegel, Dorothea Veit, Schleiermacher). Nomeado em 1805 para a Universidade de Erlangen, e logo também para a de Koenigsberg. De retorno em 1809 a Berlim, lutou pela criação da Universidade de Berlim dentro dos novos conceitos da época, tendo sido nomeado naquele mesmo ano seu primeiro Reitor.

Por aqueles anos a Europa sofria os efeitos da ambição de Napoleão, que levava vantagem frente aos Estados alemães entre si semi-autônomos desde o Tratado de Westfália, 1648. Fiche promoveu uma campanha nacionalista, ao mesmo tempo que de unificação dos Estados alemães, nisto envolvendo também os estudantes. Ficaram particularmente famosos seus Discursos à nação alemã de 1807 e 1808. Neste contexto Fiche é considerado o fundador do nacionalismo alemão, que consolidou a unificação da Alemanha em 1871. Tratando dos feridos de uma guerra que viu terminar, morreu contaminado de tifo, em 29 de janeiro de 1814, pouco antes da derrota definitiva de Napoleão.

O sistema de Fiche parte do idealismo de Kant, transformando-o em idealismo absoluto, sem qualquer possibilidade de uma coisa real em si. O sujeito pensante é uma consciência absoluta e livre; o ideal é toda a realidade, e portanto a própria divindade. Eis o idealismo panteísmo.

Tem o idealismo de Fiche a forma de um processo dialético de tese, antítese, síntese. Primeiramente a consciência contempla a si mesma, descobrindo então suas determinações fundamentais. Intui sua egocidade (Ichheit). Eu sou eu (tese). Mas o eu coloca imediatamente o não-eu, o objeto, como sua negação (antítese). Mas, num terceiro momento (síntese) surgem o eu e o objeto como faces da mesma consciência, o que equivale a dizer que a realidade total é ideal e monística, um idealismo panteísta, um panegoísmo.

Desenvolveu Fiche, com destaque, também uma moral, que tende para um misticismo generalizado, e uma doutrina sobre o Estado, que se caracteriza como nacional e socialista. Entretanto, o Estado se funda num contrato social livre. Destacou a nacionalidade e o caráter de Estado Fechado. E assim também examinou a educação, especialmente o sentido da universidade, conceituando-a em função ao Estado.

Obras: Ensaio de uma crítica a toda a revelação (Versuch einer Kritik aller Offenbarung, 1792, anônima; 2-a ed. edição em 1793); Sobre o conceito da a teoria da ciência ou sobre a chamada filosofia primeira (Über den Begrif der issensnschaftslehre oder der sogenannten ersten Philosophie, 1794; 2-a ed. , 1798); Fundamentos de toda a doutrina da ciência (Grundlage der gesamten Wissenschaftslehre, 3 vols., 1794, com edição corrigida em 1802), sua obra principal; Lições sobre o destino do sábio (Einige Vorlesungen über die Bestimmung des Gelehrten, 1794); Sistema da doutrina moral segundo os princípios da doutrina da ciência (Das System der Sittenlehre nach den Prinzipien der Wissenschaftslehre, 1798); O Estado mercantil fechado (Der geschlossene Handelstadt, 1800); Sobre o destino do homem (Über die Bestimmung des Menschen, 1800); Características fundamentais do tempo presente (Grundzügen des gegenwártigen Zeitalters, 1804); Instrução para a vida espiritual (Anweisung zum selingen Leben, 1806); Discursos a nação alemã (Reden an die deutsche Nation (1808-1809); Teoria do Estado (Staatslehre, 1813).
 

684.Como informação adicional, anota-se que Immanuel Hermann Fiche (1796-1879), filósofo alemão, é filho de Johann Fiche, nascido em Iena, quando o pai ali lecionava. Seguindo também a carreira de filósofo, lecionou na Universidade de Bonn, 1836-1842. Depois catedrático em Tübingen.

Está no contexto do idealismo tardio, com tendência de regresso a Kant. Afastou-se do panteísmo, sobretudo daquele de Hegel, para professar o teísmo. Buscou conciliar a filosofia de Hegel com a de Herbart.

Obras: Elementos de um sistema de filosofia (Grundzüge zum System der Philosophie, 1833-1846); Sistema de ética (System der Ethik, 1850-1853); Antropologia (Anthropologie, 1856); Psicologia (Psychologie, 1864-1873); A concepção teísta do universo (Die theistische Weltanschaung, 1873); O novo espiritualismo (Der neuere Spiritualismus, 1878), referência ao espiritismo.
 

685. Desdobramentos do idealismo de Fiche. Houve discípulos imediatos. De novo por ocasião do neo-idealismo, desfechado na segunda metade do século, por Rudolf Eucken (1846-1926). Seguiram então a Fiche: J. M. Verweyen, Fritz Medicus (1876-1956), moralista e esteta; Hermann Schwartz (1864-1951), este também ligado ao movimento religioso alemão.

 

 

II - Idealismo de Schelling. 2216y686.

 

686. Friedrich Wilhelm Joseph von Schelling (1775-1854). Filósofo e romântico alemão, nascido em Leonberg, Württenberg. Filho de pastor, aos 15 anos iniciou estudos no seminário protestante de Tübingen, onde logo conheceu, como colegas ao poeta Hoelderlin e ao filósofo Hegel então ainda em formação. A leitura das obras de Fiche o despertaram para a filosofia. Em Leipzig estudou matemática e ciências. Em Iena filosofia com Fiche. Por iniciativa de Goethe, já aos 23 anos é professor em Iena (1798-1803). Esta precocidade fez com que Shelling despontasse mais cedo que Hegel; por isso, na sequência histórica, se usa tratar de Hegel depois de Schelling, ainda que esta fosse mais novo cinco anos. Passou Schelling à universidade de Würzburgo, onde esteve de 1803-1806; foi onde começaram as divergências com Fiche, de quem contudo mantém o idealismo dialético. Transferindo-se para Munich, ali foi secretário da Academia de Artes, e mais adiante da Academia de Ciências. Lecionou em Erlangen (1820-1827), Por esses anos diminuem suas publicações, ainda que tenha uma longa vida pela frente. Entrementes Hegel assumira o comando da filosofia alemã, que não perdeu, mesmo tendo morrido relativamente cedo, em 1831. Criada a Universidade de Munich, pela transferência em 1826 da universidade de Landshut, assumiu Schelling uma cátedra de filosofia, agora também com uma nova diretriz doutrinária, mais cristã, em contraste com seu anterior panteísmo spinozista. Presidente da Academia de Ciências de Munich. Preceptor do Príncipe herdeiro. Em Munique também conheceu a Franz von Baader, o qual por sua vez o fez conhecer a obra misticista de Jacob Boehme. A convite, seguiu em 1841 para a Universidade de Berlim, havendo lecionado ainda até 1846. Deu ali combate ao heguelianismo, cujo fundador já era morto desde 1831.

Foi Schelling uma das grandes figuras do idealismo dialético alemão, ao lado de Fiche e Hegel. Em vista de sua ênfase no objeto, ou seja na natureza, tornou-se o filósofo do romantismo. Concebeu a natureza como uma totalidade viva, que se basta e se explica a si mesma. Ela é "o espírito adormecido". Por efeito da evolução, emerge como consciência de si mesmo no homem. Já antes dos 20 anos manifestou Schelling seus pontos de vista doutrinários fundamentais. Entretanto, nos detalhes oscilaria várias vezes o seu pensamento, de sorte a se haverem podido mostrar ao menos quatro grandes fases no seu idealismo dialético e romântico. No começo está sob a inspiração de Fiche, fase de 1794-1801. Segue a filosofia da identidade, 1801-1808, propriamente schellinguiana. Acentua o absoluto como sendo divino, com influências místicas provenientes de Fr. v. Baader e J. Boehme, 1809-1817. Por último acontece uma filosofia positiva e de publicação sobretudo póstuma, 1827-1854, com tom anti-hegeliano.

Obras: Tentativa crítica de explicar filosofemas... (Antiquissimi de prima malorum origine philosophematis explicandi tentamen criticum, 1792), dissertação de magister); Sobre mitos, sagas históricas e filosofemas do mundo antigo (Über Mythen, historische Sagen und Philosopheme der aeltesten Welt, 1793); Sobre Marcião o reformulador das epístolas de Paulo (De Marcionte Paulinarum epistolarum emendatore, 1795), dissertação; A respeito da possibilidade da forma da filosofia em geral (Über die Moeglischkeit einer Form der Philosophie überhaupt, 1795); Do Eu como princípio da filosofia ou sobre o incondicionado no saber humano (Vom Ich als Prinzip der Philosophie oder über das Unbedingte im menschlichen Wissen, 1795); Cartas filosóficas sobre dogmatismo e criticismo (Philosophische Briefen über Dogmatismus und Kritizismus, no Philosophisches Journal, 1796); Visão geral da nova literatura filosófica (Allgemeine Übersicht der neuesten philosophischen Literatur, id. 1796, id. 1797), reimpresso nos Escritos filosóficos (Philosophische Schriften, 1809), agora sob o título Discussões para aclaramento do idealismo da doutrina das ciência (Abhandlungen zur Erlaeuterung des Idealismus der Wissenschaftslehre); Primeiro esboço de um sistema de filosofia da natureza; (Erster Entwurf eines Systems der Naturphilosophie, 1797); Idéias para uma filosofia da natureza (Ideen zu einer Philosophie der Natur, I, 1797); Sobre a alma do mundo, uma hipótese da altas físicas para esclarecimento do organismo em geral (Von der Weltseele, ein Hypothese der hoeren Physik zur Erklaerung des allgemeinen Organismus, 1798; Introdução a um esboço de um sistema de filosofia da natureza ou sobre a compreensão da físicas especulativa e a organização interna de um sistema desta ciência (Einleitung zu einem Entwurf eines Systems der Naturphilosophie oder Über den Begriff der spekulativen Physik und die innere Organisation eines Systems dieser Wissenschaft, 1799); Sistema do idealismo transcendental (System des transzendentalen Idealismus, 1800); Bruno ou sobre o princípio natural e divino das coisas (Bruno oder über das natürliche un goetliche Prinzip der Dinge, 1802); Preleções sobre o método dos estudos acadêmicos (Vorlesungen über die Methode des akademischen Studiums, 1803); Filosofia e religião (Philosophie und Religion, 1804); Exposição da verdadeira relação da filosofia da natureza com vistas a melhoria da doutrina de Fichte, uma elucidação do primeiro (Darlegung des Wahren Verhaeltnisses der Naturphilosophie zu der verbesserten Fichteschen Lehere, eine Erlaeuterungschrift der ersteren, 1806); Sobre a relação da arte plástica e da natureza (Über das Verhaeltnis der bibldenden Kunste zu der Natur, 1807), juntado aos Escritos filosóficos (Philosophischen Schrifsten, de 1809); Pesquisas sobre a essência da liberdade humana (Philosophische Untersuchungen ueber das Wesen der menschlischen Freiheit, 1809), contido nos já referidos Escritos filosóficos, deste mesmo ano; Monumento do escrito de Jacob sobre assuntos divinos... (Denkmal der Schrift Jacobis von den goettlichen Dingen und der ihm in derselben gemachten Beschuldigung einer absichtlichen taeuchenden Luegen redenden Atheismus, 1812); Sobre a divindade de Samotrácia (Über die Goetheiten von Samotrake, 1815); Prefácio à tradução de Herbert Becker de um escrito de Victor Cousin (Vorrede zu Herbert Beckers Übersetzung einer Schrift Victor Cousins, 1834), importante para compreender ao mesmo Schelling; Primeira preleção em Berlim (Erste Vorlesung in Berlin, 1841). Publicações póstumas: Da vida de Schelling em cartas (Aus Scheling Leben in Briefen, 3 vols., 1869-1870); Cartas e documentos (Briefe und Dokumente, 4 vols., 1961 e s.; Lições de Schelling em Munique sobre a história da nova filosofia e exposição do empirismo (Schellings Münchener Vorlesungen zur Geschichte der neuen Philosophie und Darstellung des Empirismus, 1902. Edição histórico-crítica (Historisch-kritische Ausgabe, 80 vols., a partir de 1975.
 

687. Desdobramentos do idealismo de Schelling. Foi Schelling o filósofo do romantismo, talvez mais que Fichte e Hegel. Em função a ele se podem citar os literatos pensadores Friedrich Hoelderlin (1770-1843), os irmãos August Wilhelm Schlegel (1767- 1845) e principalmente Frederico Schlegel (1772-1829), Novalis, ou Fr. Von Hardenberg ( 1772-1801).
 

688. Friedrich Hoelderlin (1770-1843). Poeta alemão, com erudição filosófica. Nascido em família protestante, que o destinou a ser pastor, estudou no seminário luterano de Stift, em Tübingen. Ali conheceu a Hegel e Schelling, então também estudantes. Entusiasmou-se Hoelderling pelas idéias de Rousseau e Kant. Renunciou em 1793 a ser pastor. Mas sua vida será bastante agitada, com crises nervosas crescentes. Por indicação de Schiller foi contratado como preceptor particular. Em 1794 ingressou na Universidade de Iena, onde frequentou os cursos de Fichte. Veio logo para Francfurt, onde reencontrou a Hegel. Ali foi preceptor particular e empregado de um banqueiro, de cuja mulher Suzete, se enamorou. Retratando-a em sua poesia, teve por isso de abandonar Francfurt em 1798. Vagando por diferentes cidades da Alemanha e França, foi acolhido finalmente em Tübingen por um amigo da família; já se encontrava agora semidemente, com apenas períodos de lucidez.
A poesia de Hoelderlin tem a capacidade de, mais que a do comum dos poetas, ultrapassar ao brilho da imagem sensível, para alcançar o conteúdo espiritual. Refere-se com força aos temas da humanidade, liberdade, amor, beleza, espírito do bem, renascimento dos valores helênicos, redenção da humanidade. Exalta a vida. A verdadeira religião é a que estimula o prazer de viver.

Hoelderlin encarnou o espírito helênico como uma efetiva realidade. Hércules e Dionísios funcionam como realidade. A estas figuras acrescentou a de Jesus como sendo o último herói antigo. Sua concepção geral é monista e romântica. Foi apreciado sobretudo por Nietzsche, que recolocou Hoelderlin mais uma vez na apreciação dos filósofos.

Obras (mais destacadas): Hipérion ou o eremita da Grécia (Hyperion oder der Eremit von Griechenland, 2 vols., 1797-1799), longa narrativa em forma de cartas sobre a viagem de um herói pela Grécia, em busca do antigo esplendor helênico, narrando também seu amor por Diotima (Susete) e o encontro no final da felicidade, identificada com a natureza; A morte de Empédocles (Der Tod des Empédocles, 1798-800), primeira versão, em que o sábio grego se atira no Etna, em vista de não haver sido compreendido em seus ideais; Poemas (Gedichte, 1826). Além de poemas de sua fase final, em que abandona o metro clássico, publicados uns em vida, outros postumamente.
 

689. August Wilhelm Schlegel (1767-1845). Filólogo, crítico literário e esteta, alemão, n. em Hannover. Irmão mais velho de Friedrich Schlegel, ao qual também sobreviveu. Estudou filosofia clássica. Professor da Universidade de Jena. Divorciado da primeira mulher, a qual casou com Schelling, viveu A. W. Schlegel com Madame Stael na Suíça.

Influenciou o primeiro movimento romântico, não tanto por criações próprias, mas teoricamente e pelas apreciadas traduções ao alemão das peças de Shakespeare e Calderon.

Obras: Preleções sobre literatura e arte (Vorlesungen über schoene Literatur und Kunst, 1801); Sobre literaturas e arte dramática (Über dramatische Literatur und Kunst , ... ), conferências pronunciadas em Viena entre 1809 e 1811; e outros escritos.
 

690. Friedrich von Schlegel (1772-1829). Filólogo, crítico literário e esteta, alemão, n. em Hannover. Como seu irmão mais velho A. W. Schlegel, estabeleceu-se em 1796 em Jena. Dirigiu, de 1798 a 1800, a revista literária dos românticos Athenaeum, na qual colaboraram Schleiermacher e Novalis. Desde 1798 relacionou-se intimamente com Dorotea Veit, filha de Mohses Mendelsohn (filósofo judeu), com a qual casaria em 1804. Passou em Paris os anos de 1802 a 1804, onde estudou sânscrito. Converteu-se ao catolicismo em 1808 (F. Mora diz 1804), entrando a seguir para o serviço diplomático em Viena, Áustria.

Romântico dos mais representativos da primeira fase da literatura romântica alemã. Ao iniciar os estudos sobre a literatura grega, era ainda um convicto do classicismo, todavia já então apresentando um desenvolvimento teórico avançado sobre conceitos gerais da criação artística. Defendeu o amor livro em seu romance, fato que provocou escândalo em seu tempo. Além da criação literária, ocupou-se também das história. No plano político, depois das distorções da Revolução Francesa, foi um defensor do poder monárquico e absoluto.

Obras: Do estudo da poesia grega (Vom Studium der grieschichen poesie, 1798); História da poesia dos gregos e romanos (Geschichte der Poesie r Grieschen und Roemer, 1798); Interpretações e crítica (Charakteristiken und Kritiken, 1801), com seu irmão August Schlegel; Sobre a língua e a sabedoria dos indianos (Über die Sprache und Weisheit der Inder, 1808); Filosofia da antiga e moderna literatura (Geschichte der alten und neue Literatur, 1815); Lições sobre Filosofia da história (Vorlesungen über Philosophie der Geschichte, 1829), 18 lições em Viena; Lições de filosofia, particularmente sobre filosofia da linguagem e da palavra (Philosophische Vorlesungen, insbesondere über Philosophie der Sprache und des Wortes, 1830).

 

 

691. Por ocasião do neo-idealismo (vd), chefiado por Rudolf Eucken (1846-1926), seguiram a Schelling O. Braun e O Suíço de Basiléia Karl Joel (1864-1934), enquanto outros a Fichte, e a maioria a Hegel.

 

 

III - Idealismo de Hegel. 2216y692.

 

692.. Georg Johann Friedrich Hegel (1770-1831). Filósofo alemão, dos mais destacados, nascido em Stuttgart. Ali também fez seus estudos clássicos de liceu, com forte interesse pelas artes e a história. Estudou filosofia e teologia a Universidade protestante de Tübingen (1778-1793), tendo sido condiscípulo de Schelling e Hoelderling, e, como estes, entusiasta da revolução francesa. A carreira profissional de Hegel não foi inicialmente fácil, tendo exercido o magistério particular em famílias ricas e outras funções sem maior expressividade. Nestas funções esteve em Berna de 1793 a 1796; em Francfurt de 1797 a 1800.

Já como Privat Dozent, leciona em Iena de 1801 a 1807, na Universidade, havendo conquistado esta posição com uma tese latina A órbita dos planetas. Já escrevia muito nestes primeiros anos, o que todavia veio a ser publica somente muito depois. Em 1801 publicava um estudo brilhante, comparando os sistemas de Fiche e Schelling, a partir dos quais criaria o seu idealismo objetivo. Em Bamberg foi diretor de um jornal de 1807 a 1808, para logo passar à Nüremberg de 1807 a 1817, como diretor de um ginásio. Todavia se revela uma inteligência precoce e logo capaz de significativas criações filosóficas. Em função ao seu prestígio, vem a ser professor da Universidade de Heidelberg em 1816, e, em 1818, será professor na Universidade de Berlim. Com mais 13 anos, findos os quais faleceu, relativamente novo, aos 61 anos, depois de haver despertado não só a admiração do rei da Prússia, como ainda a generalizada liderança mental sobre as inteligências jovens. Tranquilo, por vezes sonolento, sem atrativo exterior, tinha na mente um sistema vastamente concatenado de idéias.
 

 

695. Hegel foi na base um kantiano, mas com as reformulações do idealismo dialético de Fichte, ao qual levou à coerência final. Nunca foi, portanto, rigorosamente um kantiano, porque como Fichte, rejeitou a coisa em si, para se estabelecer na idéia como a única realidade, e esta trabalhada pelo processo dialético, mas de maneira muito mais meticulosa que fizera Fichte. Reteve um pouco de Aristóteles, enquanto este destacava a imanência dos universais, contra a transcendência de Platão. Conservou de Spinoza o princípio de que toda a determinação, ou afirmação, contém o seu contrário, ou contradição. Estavam postos os elementos essenciais da dialética do desenvolvimento da idéia em tese, antítese, síntese. Mesmo assim, Kant é o núcleo do seu sistema, porque no seu idealismo, a idéia não ultrapassa a idéia; neste particular foi um fenomenista, já como o fora Descartes, com a diferença de que este ainda passou da fenômeno ao real.
 

 

696. A filosofia é apenas o estudo da idéia. Os setores do saber receberam de Hegel meticuloso desenvolvimento, em que o destaque geral é a dinâmica dialética do evolver das sucessões, como se aprecia em sua Enciclopédia. A idéia progride, sendo um devir similar ao de Heráclito, acrescido da processão dialética. Em cada momento dialético se situam algumas ciências.

No primeiro estágio dialético, a idéia em si, ou a idéia pura, no seu momento anterior a qualquer manifestação finita, é objeto da lógica. Tem a lógica seu ponto de partida na universalidade do ser. A partir da noção mais geral do ser, vai ao seu oposto o não-ser, e depois à síntese de ambos. Prossegue a lógica, pelo processamento de todos os conceitos, principalmente das categorias.
No segundo estágio dialético, a idéia fora de si, enquanto representação de um objeto, é o objeto da filosofia da natureza. Ao assim se exteriorizar, a idéia multiplica-se no espaço sob diferentes formas, e em consequência a filosofia da natureza, se redivide em mecânica (matéria e espaço), física (corpos), orgânica (vida).

No terceiro estágio dialético, a idéia consciente di si mesma, portanto reunindo objeto e sujeito, é a filosofia do Espírito Absoluto. Com mais detalhe, a idéia, ao concentrar-se em sua realidade, assumindo consciência de si e manifestando-se como espírito, é estudada como filosofia do espírito, redividida em espírito subjetivo e individual (psicologia), espírito objetivo, ou seja da humanidade em sua vida coletiva e social (moral e direito), espírito absoluto, prescindindo do Estado e do indivíduo (arte, religião, filosofia).

Como se observa, tudo o mais são detalhes de três momentos gerais da idéia.

 


697. Nos detalhes da dialética, Hegel deu especial realce ao direito, à arte ou estética, à religião, abrindo um leque de variados interesses para os pesquisadores que o sucederam.

A arte e a religião tem validade apenas como fase da dialética, e não como estágio definitivo do espírito, a filosofia.

O Estado é concebido como absoluto. Não é criado pelos indivíduos, nem pelas famílias. Assim fosse, o Estado teria que prestar satisfação aos cidadãos. O Estado é fruto da natureza, isto é, do Espírito em evolução, da "liberdade objetiva" em realização, sendo suprema de sua realização, de sorte que sua autoridade não tem limites. Encarnando o Estado o Espírito Absoluto torna-se, em princípio, a expressão infalível do justo, impondo-se a todos sem réplica. Embora aparentemente absorvendo os direitos, de fato os assegura.

finalmente, para garantir a desordem provocada pela multiplicidade de Estados, Hegel postula, como Kant, uma sociedade das nações, como realização suprema do Espírito.
 

 
698. Obras: Diferença dos sistemas de filosofia de Fiche e Schelling (Differenz des Fichteschen und Schellingschen Systems der Philosophie,1801); A fenomenologia do espírito (Die Phaeomenologie des Geistes, 1807); Ciência da lógica (Wissenschaft der Logik, 2 vols., 1812-1816); Enciclopédia das ciências filosóficas em resumo (Encyclopaedie der philosophischen Wissenschaften im Grundrisse, 1817); Linhas fundamentais da filosofia do direito (Grundlinien des Rechts, 1821).

Póstumas: Lições sobre a filosofia da religião (Vorlesungen über die Philosophie der Religion, 1832); Lições sobre a história da filosofia (Vorlesungen über die Geschichte der Philosophie, 1833-1836); Lições sobre a Estética (Vorlesungen über Aesthetik, 1835-1838); Lições sobre a filosofia da história (Vorlesungen über die Philosophie der Geschichte, 1837).
 

699. Desdobramentos do idealismo de Hegel. A repercussão da filosofia de Hegel foi muito maior que a de seus predecessores idealistas, - Fiche, Schelling.

De imediato ocorreu o fenômeno da divisão em esquerda hegeliana (ou materialismo dialético) e direita hegeliana. Na segunda metade do século ocorrerá o neo-idealismo, o qual novamente prestigiou mais a Hegel, do que aos referidos seus antecessores.

Quanto à esquerda hegeliana, ela se distanciou de tal maneira com o seu materialismo, que didaticamente se pode estudar em separado (vd ...).

 

a). Direita hegeliana. 2216y700.
 

700. A expressão direita hegeliana foi usada por algum tempo nos anos imediatos à morte de Hegel (+ 1831), havendo servido para contrastar com os materialistas dialéticos.

Multiplicados os representantes da direita hegeliana, cada qual com suas variantes, complicou-se notavelmente o seu tratamento didático. Por vezes moderadores do hegelianismo em relação à religião, outras vezes em relação a valores tradicionais aceitos, os filósofos da direita hegeliana representam uma constelação de nomes representativos: Gabler, Hinrichs, Goeschel (1781-1861); Bruno Bauer (da primeira fase) (vd), J. K. F.; Rosenkranz (1805-1879), intermediário; J. E. Erdmann (1805-1892), que se conceituou como historiador da filosofia.
 

701. Bruno Bauer (1809-1882). Teólogo e filósofo alemão, nascido em Eisenberg. Licenciou-se em 1834 em teologia em Berlim, situando-se na direita hegeliana. Livre docente de teologia protestante, em 1839, na Universidade de Bonn, retiraram-lhe a nomeação em vista de haver posto em dúvida a existência histórica de Jesus, negado o caráter divino de sua pessoa e colocado a teoria da posterior elaboração dos livros chamados Evangelhos. A partir de 1843 viveu em Rixdorf, perto de Berlim, ali se dedicando ao estudo. Ponderava que, em princípio, a filosofia e a teologia deveriam poder harmonizar-se.

Segundo o monismo hegeliano, por ele professado, não podia admitir o cristianismo tradicionalmente praticado. Por último Bruno Bauer evoluiu numa direção política mais liberal. Tornando-se mais moderado no final, passou a ser dito um hegeliano de duas fases. Estudou ainda o significado da revolução francesa. Tornou-se também conhecido por causa do livro de Marx e Engels A sagrada família (Die heilige Familie, 1845), contra os irmãos Bauer, dos quais Bruno era o principal; o outro, mais idoso, era o teólogo e filósofo hegeliano Ferdinand Bauer (1792-1860), fundador da Escola crítico-teológica de Tübingen.

Obras principais: Exposição crítica da religião do Antigo testamento (Kritische Darstellung der Religion des Alten Testaments, 1838); Senhor Doutor Hengstenber (Herr Doktor Henstenbeg, 1838); Crítica da história evangélica dos sinópticos e de João (Kritik der evangelischen Geschichte der Synoptiker und der Johannes 1841); A trombeta do juízo final acerca de Hegel, o Ateu e o Anti-Cristo (Die Possaune des Jüngsten Gerichsts über Hegel den Atheisten und Antichristen. Ein Utimatum, 1841), panfleto, em que parece ter havido participação de Marx; O cristianismo a descoberto (Das endekte Christentum, 1843); Doutrina de Hegel sobre religião e arte do ponto de vista da fé (Hegels Lehre von Religion und Kunst von dem Standpunkt des Glubens aus beurtheilt, 1843); A Rússia e os germânicos(Russland und das Germanentum, 1853); O imperialismo romântico de Disraeli (Disraelis romantischer Imperialismus, 1882), além de outros estudos bíblicos.

 

 

b) Neo-idealismo hegeliano. 2216y702.
 

702. Rudolf Eucken (1846-1926). Filósofo alemão, nascido em Aurich, Osfriesland. Professor da universidade suíça de Basiléia, 1871-1873, a seguir longamente da de Iena. Ganhou o prêmio Nobel de literatura de 1908.
Fundador do neo-idealismo, - difícil de definir, - que em R. Eucken é uma filosofia da vida do espírito, com uma metafísica e uma ética. O ponto de partida é o fato da vida. É a vida mais que uma idéia, o que resulta em afastar o anterior idealismo. Contra o naturalismo, adverte Eucken que o espírito não se reduz ao meramente psíquico.

Procurou atingir o mundo que se situa mais além da experiência, inacessível à experiência conceptual; julgou alcançá-lo pelo método noológico, ou seja, por uma espécie de reflexão intuitiva (a via do sentimento). De tal natureza são as experiências de grandes espíritos, por exemplo de Jesus. Dali porque nos devemos dedicar ao estudo das religiões históricas, particularmente do cristianismo. Não explicou, portanto, as religiões por uma revelação sobrenatural; elas seriam antes o resultado de intuições profundas, que hoje ainda poderão ocorrer. A doutrina de Eucken oferece aproximações com o historicismo. Uma certa nebulosidade cobre a filosofia de Eucken. Depois, Max Scheller desenvolverá com algumas semelhanças a sua filosofia. Similares aproximações terá também Oto Braun.

Obras: A unidade da vida do espírito no saber e no fazer da humanidade (De Einheit des Geisteslebens un Tat der Menscheit, 1888); A luta pelo significado espiritual da vida(?) (Der Kampf um einen geistigen Lebensinhalt, 1896); A veracidade da religião(?) (Der Wahrheitgehalt der Religion, 1901); Linhas fundamentais de uma nova visão da vida, 190 O sentido e o valor da vida (Der Sinn und Wert des Lebens, 1908; Poderíamos nós ainda ser cristãos? (Koennen wir noch Christen sein?, 1911); Reconhecimento e vida (Erkennen und Leben, 1912); Homem e mundo (Mensch und Welt, 1918); Tomás de Aquino e Kant, uma luta entre dois mundos (Thomas von Aquin und Kant, ein Kampf zweier Welten (1901(?).
 
  
 
703. Seguem a Hegel, como neo-idealistas, na Alemanha: Adolf Lasson, Georg Lasson, um dos editores de Hegel; O. Pfleiderer , sobre filosofia da religião; Richard Kroner (1884-1973), autor de Kant até Hegel (Von Kant bis Hegel, 1921-1924); K. Lorenz; G. Golstein, sobre filosofia do estado; Theodor Litt (1880-1962), ligado ao historicismo e com grande produção, como Pensar e ser (Denken und Sein, 1948), Homem e mundo (Mensch und Welt, 1948).

 

 

§3. Criticismo realista na Alemanha, do séc. dezenove. 2216y704.

 

704. Definição. Ocorrem kantianos realistas, no sentido de que embora aconteçam as formas a priori, existe a coisa em si. É difícil redividir os realistas kantianos; didaticamente, contudo, qualquer tentativa é válida.

  1. Há os realistas que já vem do passado e se deixam influir por Kant; tais são sobretudo os realistas sentimentalistas e fideistas, algo relacionados com a escola escocesa. Alguns sentimentalistas, como Jacobi, atacaram a Kant, e por isso apenas se situam no contexto dos realistas kantianos. Outros, como Schleiermacher, são ao mesmo tempo sentimentalistas e kantianos, por efeito de uma síntese especial.
  2. Há os realistas propriamente kantianos, como por exemplo, Herbart, Lotze.
  3. A este modelo se reduzem os realistas voluntaristas, formando seu grupo a parte, do tipo Arthur Schopenhauer (1788-1860) (vd), E.v. Hartmann (1842-1906) (vd), Friedrich Nietzsche (1844-1900). Quanto a Nietzsche, costuma didaticamente ser deslocado para a lista dos precursores do existencialismo (vd).
 

 

I - Criticismo sentimentalista realista na Alemanha. 2216y705.

 

705. Friedrich Heinrich Jacobi (1743-1819). Filósofo alemão, de origem judaica, nascido em Düsseldorf. Estudou em Francfort, completando seus estudos de 1759 a 1761 em Genebra, Suíça, ali contactando o pensamento iluminista francês. Inicialmente se inclinou mais às letras, tendo contato com Goethe (em 1774) e Lessing. Professor de filosofia. Presidente da Academia de Ciências de Munich, do então reino da Baviera, de 1807 a 1812.

Opôs-se Jacobi à filosofia de Kant, que então se vinha difundindo, porque ela criava um universo de categorias separadas das coisas em si. E assim se opôs também à Fichte, Schelling, Hegel, em tudo o que encaminhava para o idealismo. Embora fosse Jacobi um adversário de Kant, se alinha de certo modo entre os assim chamados kantianos realistas. Sabe-se que, depois das acusações de Jacobi, deu Kant algumas emendas em sua Crítica da razão pura (1-a ed. 1781), que aparecem na edição de 1787, de sentido mais realista (menos próxima do idealismo, dito ingênuo, de Berkeley).

Em teoria do conhecimento propôs o fideísmo, assegurando que o homem possui um sentido misterioso capaz de receber as impressões do verdadeiro, do belo, do bem moral, à semelhança da escola sentimental escocesa de Reid. Advertiu para a importância de Spinoza. Criou romances filosóficos, nos quais transparece o pensamento crítico sobre religião e classicismo:

Obras: Woldemar 1779 (1796?), romance; Cartas de Allwill (Allwills Briefsammlung, 1799 (1792?); Sobre a doutrina de Spinoza (Über die Lehre des Spinozas, in Briefen an Hern Moses Mendelsohn, 1785); David Hume sobre a fé, ou idealismo e realismo (David Hume über den Glauben, oder idealismus und realismus, 1787); Sobre o empreendimento do criticismo, levar a razão a compreensão(?) (Über das Unternehmen des Kritizismus, die Vernunft zu Verstande zu bringen, 1802); Sobre coisas divinas e a sua revelação (Von den góttlichen Dingen und ihre Offenbarung, 1811), visando Fichte.
 

706. Friedrich Ernst Daniel Schleiermacher (1768-1834). Teólogo e filósofo da religião, de expressão alemã, n. na então Breslau (Wroclaw, depois de passada à Polônia, 1945). Filho de um capelão militar protestante, estudou teologia na Universidade de Halle, 1787-1789. Exerceu a função de pastor protestante em Landsberg, a partir de 1794, em Berlim de 1796 a 1802 (capelão da Charité, hospital) em Stolp (Pomerânia), de 1801 a 1804. Professor de teologia em Halle, de 1804 a 1806, quando a universidade fechou por causa das guerras napoleônicas. A partir de 1810 professor de teologia na Universidade de Berlim, então organizada por Fichte. Em 1811 eleito para a Academia de Berlim, e em 1814 seu secretário.

Influenciado por Kant, Spinoza e o racionalismo em geral, ainda que adotasse alguns pontos de vistas anti-racionalistas, Schleiermacher estabeleceu um idealismo realista, em que as formas da sensibilidade e do entendimento são também as formas da realidade, numa espécie de paralelismo harmônico.
Abriu novas perspectivas para a filosofia da religião e para a teologia protestante. Influenciado por Jacobi, colocou a religiosidade no sentimento; fica, então, a parte doutrinária, ou dogmática, em segundo plano. Antirracionalista, no que se refere ao fundamento da certeza, foi um fideista, como Jacobi, fundamentando a religião no sentimento, o qual tem consciência imediata da nossas dependência de Deus. Ocorre aqui uma aproximação com o romantismo, ao qual cedo aderiu.

Destacou também que não há religiões falsas, mas religiões que atingem a verdade em diferentes níveis, sendo o cristianismo a que mais se adianta neste objetivo. Portanto importa o método hermenêutico, ao qual Schleiermacher deu curso. A teologia dogmática, como se disse, é apenas uma reflexão aplicada ao sentimento religioso, porque o sentimento de dependência do homem finito em relação ao infinito, constitui essencialmente a religião. Na pessoa do Cristo o infinito se reconcilia com o finito. Influenciou largamente o pensamento teológico protestante do século 19 e do romantismo.

Obras: Sobre revelação e mitologia (Über Offenbarung und Mythologie, 1799); Sobre a religião. Discurso aos ilustrados que a desdenham (Über Religion. Reden an die Gebildeten unter iheren Veraechtern, 1799); Monólogos (Monologen, 1800), sobre Ética; Carta confidencial sobre Lucinda de F. Schlegel (Vertraute Briefe ueber F. Schlegels Lucinde, 1800), publicada anônima; Bases para a crítica da moral vigente até o momento (Grunlinien einer Kritik der bisherigen Sittenlehre, 1803); Pensamentos ocasionais sobre a universidade em sentido alemã (Gelegentliche Gedanken ueber Universitaeten im deutschen Sinn, 1808); Breve exposição do estudo da teologia (Kurze Darstellung des theologischen Studiums zum Behuf einleitender Vorlesungen, 1811); A fé cristã segundo a igreja evangélica (Der christliche Glaube nach den Grundsaetzen der Evangelischen Kirche im Zumannenhange dargestelt, 2 vols., 1821-1822). Em diferentes edições: Sermões (Predigten, I - 1801, II - 1803, III - 1814-1821, IV - 1820. Obras completas, 1-a ed. em 30 volumes, 1836-1864, contendo as obras póstumas. Entre estas se destacam, havendo sido publicadas em separado: Dialética (Dialektik, 1913); Hermeneutica (Hermeneutik, 1959).
 

707. Johann Gottfried von Herder (1744-1803). Filósofo e teólogo, esteta e poeta de expressão alemã, nascido em Mohrungen, na então Prússia Oriental. Pastor protestante em Riga e Buckeburg. Renunciando suas funções veio para a Alemanha ocidental, vagando por diversos lugares, estabelecendo-se em Weimar, onde foi presidente do Consistório.

Com referência a filosofia em geral, não admitiu o apriorismo de Kant. Neste sentido é um realista; todavia isto só não leva a enquadrá-lo como realista kantiano. Mas, de qualquer maneira se enquadra na filosofia do seu tempo, entre os que tendiam para o realismo.

Apreciou a Spinoza, interpretando-o porém teisticamente. Iniciou na Alemanha a filosofia da história, havendo estado atento sobretudo aos acontecimentos religiosos, culturais, sobretudo estéticos. Opôs-se a superstição e a ignorância, antecipando-se às críticas do protestantismo liberal às narrativas dos Evangelhos. Contrariou todavia a racionalização total do dogma e ao racionalismo em geral do iluminismo; acreditava na validade substancial do cristianismo.

Foi também contrário ao classicismo. Situou-se no movimento Sturm und Drang (= Tempestade e ímpeto), havendo tido contato em Koenigsberg com Hamann. Investigou as línguas dos povos, suas canções e arte. Pugnou pelo estudo das línguas nacionais em vez do latim. Foi precursor do romantismo. Influenciou também a estética de Goethe, não obstante várias discordâncias de linha neoclássica deste. Foi um grande pensador, todavia medíocre como poeta, mas um excelente tradutor da poesia.

Obras: Bosques críticos (Kritische Waelder, 1769); Estudo sobre a origem da língua (Abhandlung über den Ursprung der Sprache, 1792); O documento mais antigo do gênero humano (Die aelteste Urkunde des Menschengeschlechts, 1774); Idéias para uma filosofia da história da humanidade (Ideen zu einer Philosophie der Geschichte der Menscheit, 1784-1791); Cartas sobre o progresso da humanidade (Briefe zur befoerderung der Humanitaet, 1793-1797).

 

708. Também teólogos e filósofos católicos foram influenciados por Hegel, ainda que ao mesmo tempo lhe fazendo oposição.

Anton Guenther (183-1863), filósofo e teólogo austríaco semi-racionalista, ainda que adversário de Hegel, situa-se contudo no seu contexto. Autor de Propedêutica à teologia especulativa do cristianismo positivo (Vorschule zur speckulativen Theologie des positiven christentums). Similar aproximação a Hegel foi realizada por Froschammer (1821-1893). Ambos foram contestados pela Igreja oficial.

 

II- Criticismo realista na Alemanha. 2216y710.

 

710. Johann Friedrich Herbart (1776-1841). Filósofo e educador alemão, nascido em Oldenburg. Seguiu em 1794 para a Universidade de Iena, onde estudou sob Fichte, não aderindo todavia ao idealismo. De 1797 a 1800 esteve na Suíça como preceptor particular em Interlaken; na oportunidade contactou a Pestalozzi e visitou uma de suas escolas. Em 1802 se habilitou como professor de filosofia, exercendo a função primeiramente em Goettingen. A partir de 1809 em Koenigsberg (hoje Kaliningrad). Voltou em 1833 a lecionar em Goettingen, onde terminou seus dias.

Admitiu Herbart a realidade da coisa em si, o noúmeno, de acordo com Kant, revelando-se pelas aparências, ainda que estas não seja a sua expressão. Negou a espontaneidade pura da inteligência, contrariando pois ao idealismo e, em parte ao próprio Kant. De outra parte, porém, real é só o que não é contraditório. Importa, por conseguinte, o método, para corretamente interpretar a experiência. Concebeu o ser como simples, inextenso, imutável, eterno. Isto lembra a doutrina dos antigos eleatas. Trata-se todavia da volta ao realismo racionalista de Leibniz e Wolff. Retomou a doutrina sobre as realidades simples ou mônadas, mas sem lhes atribuir percepção.

Dedicado também a psicologia, que aplicou em sua pedagogia, introduziu a medição matemática e mecânica dos fenômenos psíquicos, preludiando a posterior psicologia experimental. Não atribuindo a consciência a criatividade espontânea do mundo conforme os idealistas de seu tempo. Dali a importância que deu ao método.

Na educação enfatizou o fator interesse, como decisivo no aprendizado. E assim desenvolvendo o conhecimento sobre os processos de aprendizagem, veio a ser um dos pais da pedagogia moderna.

Obras: Fundamentos do sistema platônico (De platonici systematisfundamenta, 1804), tese de habilitação para ser professor; Tratado introdutório a filosofia (Leherbuch zur Einleitung in die Philosophie, 1813); Manual de psicologia (Lehrbuch der Psychologie, 1815); A psicologia como ciência (Psychologie als Wissenschaft, 1824-1825); Esboço de lições de pedagogia (Umriss pádagogischer Vorlesungen, 1825); Metafísic geral (Allgemeine Metaphysik, 1828-1829).

 

711. Rudolf Hermann Lotze (1817-1881). Filósofo alemão, nascido em Bautzenn. Em 1828 doutor em medicina e em filosofia. Lecionou filosofia na Universidade de Leipzig, 1842; de Goettingen, 1844; depois na de Berlim, 1881.

Foi Lotze um dos mais representativos pensadores do seu século, havendo defendido princípios precursores de filosofias posteriores. Gnosiologicamente, Lotze se alinha no grupo kantiano realista e metafísico, o qual admite, como também Herbart, a realidade da coisa em si. Tudo isto em reação ao idealismo puro dos hegelianos. Estabeleceu em primeiro lugar o reino das leis universais e necessárias como condição de toda a realidade possível, as categorias kantianas, que são enfim a base das ciências. Admitiu a explicação causal dos fenômenos. Dali partiu para a aceitação da existência da alma e, como já se adiantou, da realidade exterior da coisa em si. ,Distinguiu entre Deus e o mundo, ao contrário da Metafísica de Herbart, ao qual seguiu em outros particulares.

A realidade dos corpos a entendeu ao modo leibniziano, de mônadas inextensas. Todavia, mais do que Leibniz, estabeleceu a relação causal, de sorte a haver ação dos corpos sobre a alma, criando os fenômenos da representação, e da alma sobre o corpo, nos atos da vontade. E assim, não obstante às aproximações com o cartesianismo de Leibniz, dele se afastou pela causalidade interrelacionante; bem como de Kant, que vira no Eu apenas um sujeito lógico e não substancial; e ainda de Hegel, o monista idealista. Sua posição é a de um realismo kantiano, intermédio ao de Leibniz e Herbart.

A metafísica de Lotze, bem como sua psicologia apoiada fortemente na experimentação, influirão C. Stumpf, A Wenzl, especialmente Francisco Brentano.

Um reino de valores é acrescentado por Lotze aos reinos anteriores das leis universais e categorias kantianas. Trata-se de mais um reforço às tendências alógicas da Crítica da razão prática de Kant, já manifestas em Lessing, Herder, Jacobi e sobretudo em Schopenhauer. Os valores assumem agora um "valer" independente das representações da experiência sensível e do entendimento. São apenas achados pela simples verificação de um particular modo de sentir experimental, ou seja, conforme linguagem usada no futuro, por uma simples verificação fenomenológica.

Os valores encontram-se nas coisas empíricas. Precisam como que destes determinantes, para que se determinem na consciência, que não se conscientiza deles senão deste modo. A ação do mundo sobre nós e a consciência dos valores cria uma unidade entre o espírito e a matéria.
Conduz Lotze a vivência dos valores para um enfoque positivo. Vividos com prazer, os valores projetados no mundo, levam a marcha da história para ; um sinal otimista e estético, diferente do eticismo abstrato da ética de Kant.

Obras. Além das de medicina e fisiologia: Metafísica (Metaphysik, 1841; Lógica, 1843; Psicologia médica, 1842; Sobre a conceito do belo (Über den Begriff der Schoenheit, 1845); Microcosmo, idéias para uma história natural da humanidade, tentativa de uma antropologia (Mikrokosmus, Ideen zur Naturgeschichte der Menscheit, versuch einer Anthropologie, 3 vols., 1856-1859), principal obra filosófica.

 

 

III - Criticismo realista voluntarista. Na Alemanha. 2216y712.
 

712. Arthur Schopenhauer (1788-1860). Filósofo de expressão alemã, n. em Dantzig (Gdanks, desde 1945, quando passou à Polônia). Filho de abastado comerciante. Nestas condição esteve em Hamburgo e Le Havre, França. Falecido o pai em 1805, Artur, ainda jovem, passou aos estudos no liceu de Gotha e logo nas universidades de Goettingen, 1809-1811, e de Berlim, 1811-1813, adquirindo grande erudição em filosofia e ciências naturais. Alcançou a docência em 1820 em Berlim. Entretanto seus ataques a Hegel o deixaram isolado. Insucedido, inconformado, de certo modo infeliz, passou novas viagens pela Alemanha e Itália, se fixou em 1831 definitivamente em Frankfurt, como escritor independente. Na sua última década de vida conseguiu que sua filosofia despertasse o interesse do público. Seu dote de bem escrever o tornou um dos filósofos mais lidos.

Reagiu ao romantismo e racionalismo anterior. Tomou elementos a Buda, Platão e Kant, rearanjando-os em um novo sistema. O mundo é fenomênico, uma representação subjetiva, de que as formas a priori são três: espaço, tempo, causalidade. Como em Kant, há uma distinção entre o fenômeno e a coisa em si. Discorda nos detalhes. Mantendo embora as formas a priori do espaço e tempo, substituiu a doutrina das 12 categorias do entendimento por um sistema de 4 conexões entre as representações; estas se dariam no plano lógico, matemático, psíquico, causal.

Quanto ao mundo noumênico, ou real, é alcançado pela intuição do eu, o qual se revela como vontade. Aqui se afasta bastante de Kant, de certo modo o alterando, porquanto a vontade oferece afecções alógicas e existenciais. Constitui-se, pois, a realidade total em vontade e representação. O conhecimento não se limita ao que é oferecido pela representação dos fenômenos; estes não alcançam a coisa em si. Vivemos, ainda. Esta outra modalidade de ser se constitui fundamentalmente pela vontade, que está mais no fundo da realidade, do que o que revela a simples representação. Por meio da vontade, mais do que por meio da representação, estamos em contato com a coisa em si. Por conseguinte, a vivência da vontade constitui a principal fonte de informação.

A teoria do noúmeno como vontade constitui o panteísmo ou monismo de Schopenhauer. A vontade geral é um instinto de conservação, um querer viver (der Wille zum leben). O que usualmente se denomina vontade, é apenas a vontade consciente. Segundo Schopenhauer pertencem todavia ao mesmo processo todo o desejo, anelo, esperança, amor, lamento, sofrer, fugir e opor-se. Toda a vida biológica é vivência da vontade geral de existir. Até mesmo as manifestações do mundo físico, tais como a gravitação, o peso, a polaridade, - tudo é vontade. O esforço reducionista de Schopenhauer reduzindo a uma base comum todas manifestações do ser, desde o impulso da vontade até a energia física, é algo efetivamente admirável, sobre o que importa concentrar a pesquisa.

Ocorre no monismo de Schopenhauer um encaminhamento diferente daquele do kantismo, porque se encaminha para uma totalização monística mais abrangente e mais vastamente explicadora. Diferente do monismo da idéia, há aqui uma mundividência monista do próprio existir. Tendências semelhantes ocorrem também no monismo de Schelling dos últimos anos, porquanto concebia todas as coisas como vivas.

A vontade é irracional; queremos simplesmente porque queremos e não porque tenhamos razões para querer. Com força cega, mas evolutiva, a vontade de viver cria uma escala zoológica de seres cada vez mais perfeitas, até alcançar no homem a plena consciência de si mesma. A vida é uma cadeia de desejos não satisfeitos e em progressão, em que o prazer positivo é uma ilusão. O estudo da arte e o cultivo da simpatia dão alívio, mas sobretudo ele acontece com a negação de querer viver, pelo qual retornamos à vontade geral, ou seja, de uma espécie de nada individualizante, o nirvana. O acento no voluntarismo (ou irracionalismo), contrário ao racionalismo, e o pessimismo em relação à vida presente, caracterizam o sistema schopenhaureano, aspectos que influíram o pensamento moderno.

Obras: A quadrupla raiz do princípio da razão suficiente (Über die vierfache Wurzel des Satzes vom zureichenden Grunde, 1815); Sobre o ver e as cores (Über das Sehen und die Farben, 1816); O mundo como vontade e representação (Die Welt als Wille und Vorstellung, 1819), obra principal, acrescida de um segundo volume na edição de 1844; Sobre a vontade na natureza (Über den Willen in der Natur, 1836); Sobre os dois problemas fundamentais da ética (Die beiden Grundprobleme de Ethik, 1841), constituída de dois livros, respectivamente Sobre a liberdade da vontade humana (Über die Freiheit des menschlichen Willens, premiada) e Sobre o fundamento da moral (Über das Fundament der Moral); Parerga e parigômena - aforismas sobre a sabedoria da vida (Parerga und Parigomena - Aphorismen und Lebensweisheit, 1847), escritos vários, as vezes publicados separadamente, por exemplo, As dores do mundo, Sobre a morte, Sobre o ler e o escrever, etc.; Escritos póstumos de Schopenhauer (Schopenhauer nachschriftlicher Nachlass, 4 vols., 1890-1893). E cartas.
 

713. Karl Robert Eduard von... (1842-1906). Filósofo alemão, nascido em Berlim. Primeiramente oficial do exército, deixando logo a função, aos 22 anos, em 1865, em consequência de uma lesão. Tornou a filosofia, que já antes estudava, em centro de suas preocupações, convertendo-a em objeto de sua função de escritor. Doutorou-se em 1867, na Universidade de Rostock, quando também publicou obra ressonante Filosofia do inconsciente, que lhe garantiu cedo a celebridade. Por último aprofundou-se também em física e biologia.
Tomou E. Hartmann como ponto de partida que um grande número de fenômenos não se explicam pelo mundo consciente, o qual pois está precedido pelo inconsciente. Funções inteletuais operam já antes das categorias (no sentido de Kant), manifestando-se finalmente nestas. Induz dali a metafísica de um Inconsciente, o qual cria e mantém o mundo consciente; este quando se desmantela, retorna a ele, até uma próxima oportunidade. Concebeu, pois, o mundo de maneira monista e contendo um Inconsciente universal, uma espécie de alma universal, um sistema panpsiquista. Vem-lhe a inspiração do monismo de Hegel, Schelling, Schopenhauer; mas como Lotze e Fechner está atento aos fenômenos naturais a explicar, e que eles e agora E. Hartmann fazem por indução. Em última instância é o que quase todas as filosofia buscam fazer, com a diferença que uns procedem suas explicações por via do monismo, outros por via do dualismo teísta.

Passando E. Hartmann a um outro plano, diz que o fim último e ético do indivíduo é conscientizar-se, com vista a integrar-se na totalidade do processo a que pertence. O que de uma parte é um nihilismo e pessimismo, de outra é um otimismo evolucionista. Dentro deste contexto deve ser interpretada a verdadeira religião. As religiões existentes, ainda que apontem para o futuro, o fazem deficientemente. E. Hartmann nas religiões existentes a maneira como acenam para uma felicidade futura.

As doutrinas de Eduard Hartmann estimularam as teorias vitalistas e neovitalistas, contra o materialismo mecanicista. Teve também partidários mais próximos: Max Schneider (1843-1931), A. Drews (1865-1935), autor de O mito de Cristo (Die Christus mythe, 1909); Leopold Ziegler (1881- ), autor de Metamorfose dos deuses Metamorfose dos deuses (Gestaltwandel der goetter, 1920); Gerardus Bolland (1854-1922), autor, em sua língua a holandesa, de Velha razão e novo entendimento, 1901, havendo lecionado também no Oriente, em Java.

Obras: Sobre o método dialético. Investigação histórica e crítica. (Über die dialektische Methode. Historisch-kritische Untersuchung, 1868), sobre Hegel; Filosofia do Inconsciente. Ensaio de uma mundivisão, (Philosophie des Unbewussten. Versuch einer Weltanschauung, 3 vols., 1869), obra central; A filosofia positiva de Schelling, como unidade de Hegel e Schopenhauer (Schellings positive Philosophie als Einhalt von Hegel und Schopenhauer, 1869); Aforismas sobre o drama (Aphorismen über das Drama, 1870); A coisa em si e sua constituição (Das Ding an sich und seine Beschaffenheit, 1870); Ensaios filosóficos reunidos sobre a filosofia do inconsciente (Gesammelte philosophische Abhandlungen zur Philosophie des Unbewussten, 1872); Esclarecimentos à metafísica do inconsciente, com referência especial ao panlogismo, 1874); A auto substituição do cristianismo e a religião do futuro (Die Selbsersetzung des Christentums und die Religion der Zukunft, 1874); Verdade e erro no darwinismo, uma exposição crítica da teoria do desenvolvimento orgânico (Warheit und Irrtum im Darwinismus, eine kritische Darstellung der organischen Etwicklungstheorie, 1875); Estudo das categorias (Kategorienlehre, 1896); O realismo da teoria do conhecimento de J. H. Kirchmanns. Contribuição crítica à fundamentação do realismo transcendental (J. H. Kirchmanns erkentnistheoretischer Realismus, ein kritischer Beitrag zur Begründung des transzendentalen Realismus, 1875); Estudos e ensaios reunidos (Gesammelte Studien und aAufsaetze, 1876); Fenomenologia da consciência moral (Phenomenologie des sittlichen Bewusstsein, 1879); Para a história e fundamentação do pessimismo (Zur Geschichte und Begründung des Pessimismus, 1880; A crise do cristianismo na teologia moderna (Die Krisis des Christentums in der modernen Theologie, 1880; Filosofia da religião (Religionsphilosophie, 1882); Questões atuais da filosofia (Philosophische Fragen der Gegenwart, 1885);

Der spiritismus (Der Spiritismus, 1885); Estética (Aesthetik, 1886); A filosofia do belo (Die Philosophie des Schoenen, 1887); Filosofia de Lotze (Lotzes Philosophie, 1888); Duzentos anos de política alemã e a atual situação mundial (Zwei Jahrzente deutscher Politik und die gegenwaertige Weltlage, 1889); Percorrendo criticamente pela da filosofia atual (Kritische Wanderungen durch die Philosophie der Gegenwart, 1889); O problema fundamental da teoria do conhecimento (Das Grundproblem der Erkenntnistheorie, 1889); A hipótese espiritista e seus fantasmas (Die Geisterhypothese des Spiritismus und seine Phantome, 1891); A teoria do conhecimento e a metafísica de Kant (Kants Erkenntnistheorie und Metaphysik, 1894); As questões sociais básicas (Die sozialen Kernfragen, 1894); Questões do dia (Tagewsfragen, 1896); Doutrina das categorias (Kategorienlehre, 1898); Histórias da metafísica (Geschichte der Metafisik, 2 vols., 1899-1900); A psicologia moderna (Die moderne Psychologie, 1901); A concepção do mundo da física moderna (Die Weltanschauung der modernen Physik, 1902); O cristianismo do Novo Testamento (Das Christentum des Neues Testaments, 1904), reedição de um texto impresso com pseudônimo em 1870 sob o título então Carta sobre a religião cristã (Briefe über die christliche Religion); O problema da vida. Estudos biológicos (Das Problem des Lebens. Biologische Studien, 1906); Compêndio sistemático de filosofia (System der Philosophie im Grundriss, em 8 partes, impressas 5 em 1908, as demais em 1909).
 

 

§4.-o. Materialismo dialético, esquerda hegeliana, na Alemanha. 2216y714.

 

714. O materialismo no contexto racionalista monista não é apenas um mecanicismo. Este tipo de materialismo costuma atribuir à matéria propriedades que não se limitam ao movimento espacial. Toda a realidade estando na matéria, resulta que ela também é portadora de psiquismo. Torna-se, então, coerente falar em hilozoísmo e mesmo em materialismo espiritualista.
 
No contexto da esquerda hegeliano a novidade é a dialética, a qual foi também atribuída à matéria, e que vinha sendo tratada assim por Feuerbach e Marx.
É o materialismo dialético uma filosofia racionalista realista; portanto não é um idealismo, embora tenha nascido no seu contexto.
 

715. David Friedrich Strauss (1808-1874). Filósofo da religião e teólogo alemão, nascido em Ludwigsburg, Württemberg, Baden. Estudou na universidade de Tübingen (1825-1831). Livre docente na mesma universidade de Tübingen. Apenas publicado seu livro (1835-1836) em que aplicou aos Evangelhos e à vida de Jesus as teorias de Hegel, sofre uma forte reação do protestantismo oficial, que resultou na sua destituição da cátedra. Chamado em 1839 para a universidade de Zurich (Suíça), também ali foi impedido por uma forte reação dos camponeses comandada por pastores protestantes, que derrubou o governo liberal da cidade e expulsou o professor. No livro seguinte (1840-1841) rompeu claramente com a igreja, interpretando a Hegel materialisticamente, conforme à esquerda hegeliana, e assim também desenvolvendo sua filosofia da religião. Elegeu-se deputado em 1848. Entretanto suas idéias conservadoras em política também não o ajudaram, retirando-se à vida privada dedicada ao estudo, por vezes a viajar.

A filosofia da religião de David Frederico Strauss considera que a idéia religiosa, de acordo com Hegel, surge como um desenvolvimento do espírito objetivo; portanto, como um estágio dialético que o desenvolvimento do mesmo espírito do homem consegue superar. Quis demonstrar que isto acontecia com o mito da divindade de Jesus. Não se restringia apenas a mostrar com o estudo meramente crítico dos Evangelhos o seu aspecto mítico, mas orientava-se pela idéia geral da mencionada filosofia da religião. Os Evangelhos, como os documentos de qualquer outra religião, exemplificariam a formação da religião.
 
Da vida de Jesus não sabemos nada. Sobretudo não esteve envolvido com fatos extraordinários, que pudessem ser explicados como milagres. Houve apenas a convicção messiânica em curso, a qual lhe foi atribuída. E por isso sobre ele se acumularam os elementos que constituíam este mito. Neste sentido procurou Strauss mostrar que os relatos dos Evangelhos são retirados sobretudo do Antigo Testamento, isto porque os evangelistas, ou a Igreja antiga, consideravam o Antigo Testamento como prefiguração e profetização do messias a vir. Os milagres surgiram como narrativas míticas para confirmar o papel messiânico que fora atribuído a Jesus.

A interpretação de Strauss estimulou os estudos teológicos. Enquanto uns passaram a acentuar a interpretação mítica, outros seguiram o caminho intermediário, combinando a interpretação mítica com a interpretação de fatos extraordinários efetivos equivocadamente interpretados como milagres; enfim outros procuravam manter a convicção da historicidade de tudo o que os Evangelhos afirmam. O mesmo Strauss teve oscilações em seu pensamento teológico.

O materialismo e o liberalismo são outros e outros capítulos da filosofia de Strauss. Todavia o que tornou famoso, foi sua filosofia da religião, combinada com a aplicação corajosa à crença vigente. Defendeu mesmo a revolução industrial apoiado em idéias condutoras das aspirações contidas nos Evangelhos. Teve aqui a oposição de Marx. Strauss era um otimista, e neste particular Nietzsche o contestou.

Obras: A vida de Jesus examinada criticamente (Das Leben Jesus kritisch bearbeitet, 1835-1836); A doutrina da fé cristã em sua evolução histórica (Die christliche Glaubenlehre in ihrer geschichtlichen Entwicklung, 1840-1841); O liberalismo político e teológico (Der politische und theologische liberaslismus, 1848); Ulrich von Hutten, 1858-1860, biografia do humanista e pregador protestante; Voltaire, 1870, estudo biográfico; A fé antiga e a nova (Die alte und die neue Glaube, 1872), contra toda e qualquer religião, livro que também foi atacado por Nietzsche.
 

717 Ludwig Andreas Feuerbach (1804-1872). Filósofo alemão, nascido em Landshut, Baviera. Estudou na Universidade de Heidelberg, 1823. Seguiu para a Universidade de Berlim, onde primeiramente ouviu ao teólogo Schleiermacher, depois a Hegel, que o aconselhou a deixar a teologia. Defendeu tese em 1828. Professor em Erlangen (1829-1832). Por haver atacado em um seu escrito de 1830 a imortalidade individual da alma, tornou-se difícil sua permanência no ensino oficial da época. Renunciou ao magistério em 1833. Casando em 1836, com pessoa de posses, e estabelecido em Bruckberg, dedicou-se ali a seus escritos. Incendiada todavia a fábrica da família, em 1859, passou a residir mais modestamente num subúrbio de Nüremberg.

Retomou Ludwig Feuerbach o monismo dialético de Hegel, todavia convertendo-o em materialismo monista dialético. Criou um materialismo dialético, distinto do anterior materialismo mecanicista. Posteriormente Marx acrescentará a consideração das causas econômicas, estabelecendo o materialismo histórico, a partir de Feuerbach. Deduziu ainda Feuerbach conclusões especiais contra a religião, interpretando-a como uma alienação a um objeto exterior, que não existe. A matéria, ao se conscientizar, cria representações, das quais uma é Deus. Portanto, Deus não passaria de uma exteriorização do mesmo homem, ao qual este equivocadamente se aliena pela religião.

Obras: Sobre a razão una, universal e infinita (De ratione una, universali, infinita, 1828, tese; Pensamentos sobre a morte e a imortalidade (Gedanken über Tod und Undsterblichkeit, 1830); História da filosofia moderna depois de Bacon de Verulam até Bento Spinoza, 1833); Abelardo e Heloisa (Abaelard und Heloisa, 1834; Pierre Bayle, 1838); Exposição, desenvolvimento e crítica da filosofia de Leibniz (Darstellung, Entwicklung und Kritik de Leibnizschen Philosophie, 1837); Contribuição a crítica da filosofia hegeliana (Kritik der hegelschen Philosophie, em, 1839, primeira crítica de Feuerbach ao espírito absoluto de Hegel; A essência do cristinianismo (Das Wesem des Christentums, 1841), em que esclarece como surge a religião como alienação; Da essência da religião (Vom Wesen der Religion, 1845); Teses provisórias sobre a reforma da filosofia (Vorláufige Thesen über die Reform der Philosphie, 1841); Teogonias (Theogonie, 1857), obra erudita sobre a origem clássica, hebraica e cristã das divindades.
 

718. Adicionalmente, anota-se o nome de Anselmo von Feuerbach (1775-1833). Jurista alemão, nascido em Frankfurt-sobre-o-Meno. Pai de Ludwig Feuerbach. Foi professor sucessivamente nas Universidades de Iena, Kiel (1802-1804) e Landshut (1805). Funcionário do ministério da justiça do então reino da Baviera (1805-1815). A seguir, da Academia de Ciências de Munich.
 
Orientou-se pelo racionalismo dos juristas franceses, já expresso no Código de Napoleão (1804) e no Código Penal (1810). Procurou complementar o contrato social com idéias tomadas a Hobbes, Montesquieu e sobretudo a Kant. Parte de uma reflexão sobre a lei natural. Não há liberdade se a justiça não for respeitada. Conseguiu que se eliminasse a tortura. Advertiu que a lei do Estado está a serviço do cidadão.

Obras: Anti-Hobbes, 1798); Sobre a liberdade alemã (Über deutsche Freiheit, 1714).

 

719. Karl Marx (1818-1883). Político, economista, filósofo socialista alemão, de origem judia, nascido em Tréveris, Palatinado. Seus pais, não obstante judeus, se haviam batizado, circunstância que na época os favorecia. Estudou direito nas universidades de Bon e Berlim. Nesta conheceu a filosofia de Hegel (+1831), não demorando sua adesão à esquerda hegeliana, ou seja ao materialismo dialético. Doutorou-se em 1841.

 
Profissionalizando-se como jornalista, exerceu a chefia da redação do Reinische Zeitung (Gazeta Renana), em Colônia, de 1841 a 1843. Depois se transferiu para Paris, onde editou o órgão principal da esquerda hegeliana Deutsche-franzoesische Jahrbücher (Anais germânico-franceses), em 1845. Discordou logo com os representantes deste movimento, Bruno Bauer e Ruge.

 
Conhecera já em 1844 a Frederico Engels, que se tornou seu colaborador principal. Expulso da França em 1845, Marx tomou o caminho da Bélgica, onde se estabeleceu em Bruxelas, a partir de onde atuou através de organizações clandestinas. Quando da revolução de 24 de fevereiro de 1848 em Paris, publicou juntamente com Engels o Manifesto comunista (Das komunistische Manifest). Este se tornou famoso e encaminharia a filosofia que tomaria o nome de marxismo. Volta a Paris e logo também à Colônia, para nesta cidade alemã dirigir o Neue reinische Zeitung (A nova gazeta renana), primeiro diário socialista. Mas, em toda a Europa os movimentos revolucionários, eclodidos em 1848, foram reprimidos. Dispersaram-se os seus responsáveis, alguns até para a América.

 
Proibido o jornal de Marx em Colônia. Seguiu Marx de novo para a capital francesa, de onde é outra vez expulso, indo estabelecer-se definitivamente em Londres. Prosseguiu em sua atividade jornalística, escrevendo mesmo para jornais da América. Em 1867 participou como fundador da criação da Primeira Internacional Socialista, denominada Associação Internacional dos Operários (Internazionale Arbeiterassoziation). Dentro da Internacional encontrou a oposição dos anarquistas, liderados por Bakunin. Em 1875 a organização patrocinava a fundação do Partido Socialista Alemão, o qual embora de imediato proibido, teve posteriormente progresso.

 
Em Londres Marx desenvolveu e sistematizou seu pensamento, chamado também materialismo histórico, porque explica basicamente a história como luta de classes. Acreditou no fracasso final do capitalismo, por causa, no seu entender, de suas contradições internas e da revolução vitoriosa final das organizações operárias pelo estabelecimento do sistema socialista.

 
Na base o pensamento de Marx é materialista e dialético. Não se trata de um materialismo meramente mecanicista, mas de um monismo em que a matéria é a realidade fundamental, com todas as funções do espírito, que o dualismo considera separado. A religião, conforme já estabelecia Feuerbach (vd 717) é uma alienação idealista equivocada, a um ser inexistente, imaginado como exterior ao mundo.

 
O marxismo se diz científico no sentido de que a comunidade de bens não se processa apenas por razões filantrópicas conforme os ideais utópicos de justiça, mas como consequência final da luta de classes. Paradoxalmente, o socialismo de Marx é também utópico, no sentido de pressupor a capacidade dos homens socializados para um sistema de economia eficaz.

 
De outra parte, ainda, o socialismo de Marx é antidemocrático, porque nega o direito de empresa dos indivíduos e ainda porque alega a força para imposição do mesmo. Além disto, a história não tem demonstrado as suas previsões. Em consequência o marxismo ficou sujeito a revisionismos. Para este fenômeno contribuíram os próprios escritos de Marx, as vezes por falta de sistematicidade, outras vezes em estado evolutivo, quando não admitindo iniciativas hoje menos democráticas.

 
 
Obras: Sobre as diferenças da filosofia da natureza de Demócrito e de Epicuro (Über die Diferenzen der Demokritischen und der Epikureischen Naturphilosophie, 1841), tese; Escritos econômico-filosóficos (Ökonomische-philosophische Manuskripte), redigidos em 1844, deixados inacabados, e redescobertos em 1932, contendo um socialismo humanista, do qual o posterior socialismo difere evolutivamente; Sobre a crítica da filosofia do direito de Hegel (Zur Kriik der hegelschen Rechstsphilosophie, 1844), artigo importante por causa de sua antiguidade; Teses sobre Feuerbach (Thesen über Feuerbach, redigidas em 1845), publicadas em 1888 por Engels, contra o materialismo teórico, em favor de um materialismo modificador da realidade social; A sagrada família (Die heilige Familie, 1845), co-autoria com Engels, contra o hegeliano Bruno Bauer e irmãos; A ideologia alemã (Die deutsche Ideologie, 1845-1846), também com Engels, expondo a filosofia marxista; Miséria da filosofia (La misère de la philosophie, 1847), contra Proudhon; Manifesto comunista (Kommunistische Manifest, 1847), já citado, com Engels; O dezoito de Brumário de Louis Bonaparte (Der 18 Brumaire des Louis Bonaparte, 1852 em jornais, 1869 em livro), interpretando o golpe de Estado segundo a teoria do materialismo histórico, escrito de transição para o marxismo definitivo; Sobre a crítica da economia política (Zur Kritik der politische Ökonomie, 1859), breve crítica à civilização moderna; Esboços de crítica de economia política (Grundrisse der Kritik deer politischen Ökonomie, escritos entre 1851 e 1858), inacabados, publicados somente em 1939-1941; O capital (Das Kapital, 3 vols., 1867, 1885, 1894), obra principal, sendo póstumos o segundo e terceiro volumes, por iniciativa de Engels, com muito material técnico junto aos textos teóricos. Um adendo, ou 4 volume, foi acrescido por Karl Kautsky, 1904-1910, contendo mais textos.

 
 
 

 

§5. Neokantismo na Alemanha. 2216y720.

 

720. Conceito de neokantismo. Na segunda metade do século 19, depois que os mais variados modelos criticistas haviam tido ocasião de se ostentar, ocorreu um revisionismo dentro deste contexto, cujos resultados foram os mais diversos, sem que nenhuma corrente anterior eliminasse a outra, mas todas ganharam fisionomia nova. O neokantismo teve por isso duas faces, volta às doutrinas anteriores, ao mesmo tempo com algo novo.

Na segunda parte do século 19 aconteceu mesmo a diretriz, proposta por Otto Liebmann (1840-1912), que se expressou verbalmente pela volta à Kant, na língua alemã zurück zu Kant. Tinha por objetivo contornar as inconsequências a que se chegara, denominando kantismo, o que efetivamente não era. Sobretudo se cuidava de não confundir a filosofia simplesmente com a psicologia. O que importava era a crítica do objeto do conhecimento, o qual por sua vez seria imanente, sem realidade exterior ao mesmo conhecimento.
 
Não há uma figura eminentemente central no neokantismo, senão lideranças de escolas, em que se redividiu. O neokantismo ocorreu principalmente na Alemanha. Nos demais países também se desenvolveu, mas com uma forte presença do idealismo hegeliano.

Iniciando o neokantismo pela volta de 1850, o ápice do seu desenvolvimento ocorre na passagem do século, em 1900, quando seus nomes mais expressivos apontam e inauguram a filosofia do século 20. Já depois de 1920 vão se fazendo diluições em novas modalidades kantianas, como a filosofia dos valores e o existencialismo, aos quais, ainda que sejam remotamente kantianos e racionalistas, não se insiste em assim caracterizar.

São várias as formas de neokantismo. Em sentido estrito, são neokantianas a escola de Marburgo, de direção logicista-metodológica, e a escola de Baden, orientada para os valores.
 

 

722. O retorno à Kant, que se manifestou pouco depois de 1850, foi gerado, como clima, como já se adiantou, pelas observações de H. Helmholtz (+1894), Kuno Fischer (+ 1907), Eduard Zeller (+1906). Adquiriu ênfase sobretudo em 1865, quando Otto Liebmann, en sua obra Kant e os seus epígonos, depois das análises dos sistemas pós-kantianos de Fiche, Schelling, Hegel e Fries, repete a conclusão invariável, "deve-se pois voltar a Kant".

O movimento, amparado pela revista Kantstudien, apesar de uma relativa unidade, assumiu formas várias, num total de ao menos 7. Talvez porque a escola de Marburgo e a escola de Baden tivessem maior desdobramento e sucesso, foram denominadas neokantianas de sentido estrito. Mas foi nalgumas das outras que tudo começou; a estas outras, pela sua menor dimensão, se pode denominar pequenas escolas neokantianas, para diferenciá-las descritivamente, exteriormente.

 

 

I - Pequenas escolas neokantianas. Alemãs. 2216y723.
 

723. O Neokantismo de direção fisiológica advertiu para a fisiologia dos sentidos como confirmação do criticismo. Representantes: Hermann. Helmholtz 1821-1894), físico e fisiólogo, professor sucessivamente em Koenigsberg, Bonn, Berlim; Friedrisch Albert Lange (1828-1875), professor em Marburgo e autor de História do materialismo, tentando dizer que as dificuldades do materialismo se resolvem pela doutrina de Kant. Ainda com referência à Helmoltz, foi quem formulou a lei da conservação da energia e o conceito de elétron. É autor também dos livros Sobre a vista humana, 1855; Teoria das sensações sonoras, 1863; Os fatos da percepção, 1879.

As formas a priori, propostas por Kant como elemento preliminar das faculdades de conhecimento, passam a ser consideradas disposições fisiológicas. As sensações, na opinião de Helmholtz, são sinais produzidos pelos objetos; nas mesmas circunstâncias, se repetem os mesmos sinais; exercem-se, portanto, como formas apriorísticas. Estes sinais são apenas relações que se estabelecem entre as faculdades e os objetos; não são representação, ou cópia, deles. Uma vez que se repetem nas mesmas circunstâncias, já são suficientes para conhecer a regular sucessão de causas e efeitos e os processos externos em geral. Para Helmholtz o realismo e o idealismo não passam de hipóteses, impossíveis de provar.
 

724. O Neokantismo de direção realistico-metafísica, reagindo a Hegel, ensaia uma metafísica dentro do horizonte crítico, em que contudo somente existe a consciência.

Eis a forma de neokantismo de Otto Liebmann (1840-1912). Autor de: Kant e seus epígonos (Kant und die Epigonen, 1865), também de Análise da realidade, 1876 .

Johannes Volkelt (1848-1930) é o principal representante do neokantismo de direção realístico-metafísica. Filósofo e esteta de expressão alemã, nascido em Biala-Bielitz, Galitzia. Professor de filosofia em Basiléia, 1879-1889, depois em Würzburgo, até 1894, e em Leipzig, até 1921.

Neokantiano da escola metafísica, como se adiantou, a tendência metafísica a recebeu contudo de Hegel. Mas, tomou de Kant a vinculação com a experiência, a partir da qual construiu todo um sistema "trans-subjetivista", que atinge finalmente o absoluto. Em estética, sob a influência de Schopenhauer e do romantismo, advertiu para a fusão sentimental do sujeito com o objeto, ou infusão (Einfühlung).

Obras: Experiência e pensamento, fundamentação crítica da teoria do conhecimento (Erfharung und Denken, kritische Grundlegung der Erkentnntnisstheorie, 1866); Teoria do conhecimento de Kant analisada segundo seus princípios fundamentais (Kants Erkentnnisstheorie nach ihren Grund-prinzipien analisiert, 1879); Questões estéticas do tempo (Aesthetische Zeit Fragen, 1895); Estética do trágico (Aesthetik des Tragischen, 1896); Sistema de estética (System der Aesthetik, 3 vols.,1905-1914); Certeza e verdade. Investigação das questões relativas à validade como fundamento da teoria do conhecimento (Gewissheit und Wahrheit. Untesuchung der Geltungsfrage als Grundlage de Erkenntnistheorie, 1918; Fenomenologia e metafísica do tempo (Phaenomenologie und Metaphysik der Zeit, 1925); O problema da individualidade (Das Problem der Individualitaet, 1928).
 

725. A Escola neokantiana realístico positivista de Luiz Riehl (1844-1924) admite a realidade da coisa em si. Seu discípulo Ricardo Hoenigswald (1875-1947), acentuará ainda mais a tendência realista do grupo kantiano de tendência realistico-positivista.

Aloys Riehl (1844-1924). Filósofo de expressão alemã, nascido em Bozen, Tirol italiano. Professor de filosofia em Graz, 1873-1882. Seguindo para a Alemanha, o foi também em Friburgo, 1882-1896, Kiel, 1896-1898, Halle, 1898-1905, finalmente em Berlim.

Ação fisiológica, de que falou Helmholtz, é também no entender de Riehl uma modificação da consciência, que permite efetivamente relacionar-nos com a coisa em si, embora seja apenas um sinal e não uma cópia a permitir saber em que coisa consiste exatamente. "O que não existe, não pode entrar em nenhuma relação", adverte Riehl, em seu O criticismo filosófico (1876-1887) . E o conhecimento funciona essencialmente como relação. Aquela realidade objetiva se reduz praticamente só à lei, entendida como a regularidade dos fenômenos.

Riehl, entretanto, conserva o caráter geral do neokantismo, qual seja o de recusar a metafísica, tal como o positivismo. Esforçou-se todavia em alcançar uma visão geral do mundo, como sistema monista, inclusive com a redução de corpo e espírito ao mesmo princípio. Indiferente ao problema dos valores, ocupou-se de preferência da estrutura das ciências da natureza.

Obras: Traços fundamentais realistas (Realistische Grundzuege, 1870); Moral e dogma (Moral und Dogma, 1871); Sobre o conceito e a forma da filosofia (Über Begriff und Form der Philosophie, 1872); O criticismo filosófico e seu significado para a ciência positiva. I. História e método do criticismo filosófico. II, 1. Os fundamentos sensíveis e lógicos do conhecimento. II, 2. Para a doutrina da ciência e da metafísica (Der philosophisches Kritizismus und seine Bedeutung für die positive Wissenschaft. I. Geschichte und Methode des philosophischen Kritizismus, 1876. II, 1. Die sinnlichen und logischen Grundlagen der Erkenntnis, 1879. II, 2. Zur Wissenschaftslehre und Metaphysik, 1887), obra principal; Lessing, 1882); Sobre filosofia científica e não científica (Über wissenschaftliche un nichtwissenschaftliche Philosophie, 1883; Contribuições à lógica (Beitraege zur Logik, 1892); F. Nietzsche (1897); G. Bruno (1900); R. Haym (1902); Para introdução à filosofia do presente (Zur Einfuehrung in di Philosophie der Gegenwart, 1905); I. Kant, 1904; H. von Helmholtz und Kant, 1904; Plato, 1905; Lógica e teoria do conhecimento (Logik und Erkenntnistheorie, 1907).
 

726. Um neokantismo relativista, com aspecto de filosofia da cultura e da vida, resultou de uma reforma, que apelou a uma teoria pragmatista da verdade e a um a priori histórico.

O relativismo neokantiano teve como seu principal representante inicial Georg Simmel (1858-1918). Filósofo e sociólogo alemão, nascido em Berlim, onde também estudou, e a partir de 1900 lecionou filosofia. Passou a Strassburgo em 1914, vindo a falecer ao final da Grande Guerra, quando a cidade passou a integrar a França.

O a priori kantiano o interpretou Samuel como sendo de natureza psicológica, relativa, histórica. O processo cognitivo é vitalista. O sistema filosófico é uma intuição da vida, que como um todo, ou como mundo, é um ímpeto, que nunca se satisfaz, nunca tem forma definitiva. Como Dilthey, adverte Simmell que em cada época se dão diferentes ideais filosóficos e religiosos. Por isso também as filosofias e religiões variam. Não há, pois, filosofias e religiões definitivas. Resolve-se pois a filosofia em sua própria história, e a verdade é relativa à cada época. O critério da verdade se torna pragmático e a moral é apenas uma ciência descritiva. Nestas alterações se constata uma profunda reforma do kantismo, quase como que saindo dele. Encaminho-se também Simmel na direção da sociologia, tratando de como a sociedade é possível. Afundou a sociologia das formas sociais, as quais independeriam do conteúdo.

Obras: Diferenciação social (Soziale Differenzierung, 1890); Introdução à ciência moral (Einleitung in die Moral Wissenschaft, 2 vols. 1892-1893); Problemas da filosofia da história (Die Probleme der Geschichtsphilosophie, 1892); filosofia do dinheiro (Philosophie des Geldes, 1900); Kant, 1904; A religião (Die Religion, 1906); ... e... (Schopenhauer und Nietzsche, 1907); Sociologia (Soziologie, 1908); Cultura filosófica (Philosophische Kultur, 1911); O conflito da cultura moderna (Der Konflikt der modernen Kultur, 1918); Intuição da vida; quatro capítulos metafísicos (Lebensanschauung; vier metaphysische Kapitel, 1918), importante para compreensão do sistema de Simmel; Sobre filosofia da arte (Zur Philosophie der Kunst, 1922); Fragmentos e exposições (Fragmente und Aufgabe, 1923).
 

728. Um neokantismo de sentido psicologista foi desenvolvido Hans Cornelius (1863- 1947),de Munich, autor, entre muitos outros livros, de Sistemática transcendental (Transzendentale Systematik, 1916).
Uns na mesma linha psilocologista, outros próximos, citam-se neste círculo vários neokantianos. O psicologismo será duramente combatido por Edmund Husserl.

 

 

III - Escola de Marburgo, Alemanha. 2216y730.
 

730. Diz-se escola de Marburgo a um grupo de filósofos neokantianos, concentrada principalmente na universidade desta cidade de Hesse, e que é representada principalmente pelos nomes altamente representativos de Hermann Cohen (1842-1918), Paul Natorp (1854-1924), Ernst Cassirer (1874-1945). Ao contexto da escola de Marburgo pertencem ainda: Rudolf Stammler (1856-1938), destacado filósofo do direito; Arthur Liebert (1878-1946), espirito eminentemente universal.

O neokantismo da Escola de Marburgo é caracterizadamente logicista, porque praticamente tudo ele reduz à relações lógicas, sem qualquer elemento irracional, ou exterior ao pensamento. Neste panlogismo ou idealismo lógico, como também se denomina a escola, nada transcende ao círculo interno do pensamento. A verdade do conhecimento consiste na execução interna de suas próprias leis de desenvolvimento. Há regras metódicas, que são condições do conhecimento; elas são categorias inteiramente a priori. A sensação não é algo autônomo ao pensamento e que se lhe impõe a partir de fora; é parte integrante do sistema, que surge como tarefa do mesmo todo pensante.
 
Nada vindo do fora, resulta que o conceito não é exatamente uma síntese; isto requereria algo preexistente, para unir. As formas a priori são interpretadas como modos de julgar.

A eliminação da coisa em si, ou seja de uma realidade independente, resulta em que ela se reduz apenas a um conceito limite (Grenzbegriff). O pensamento constrói dinamicamente todo o objeto, movendo-se de um a outro conceito, sucessivamente. Este trabalho é bastante claro na lógica e na matemática, que foram por isso mesmo muito prestigiadas pela Escola de Marburgo.

As normas da ética, ou da moral, são aprióricas. Não têm conteúdo efetivo fora delas mesmas; o conteúdo das referidas normas é apenas formal, ao modo das estruturas lógicas, como se constituíssem uma lógica do dever. Superando o individualismo de Kant, ocuparam-se os marbugenses também com a ética social. Neste sentido alguns, como Karl Vorlaender (1860-1928), tentaram inclusive formulações ao modo do socialismo marxista.

Também a religião se reduz ao mesmo significado formal, de ideal moral, sem conteúdo ontológico efetivo.

O direito, no contexto da escola de Marburgo, foi cultivado por Rudolf Stammler (1856-1938).
 

731. Hermann Cohen (1842-1918). Filósofo alemão, de origem judia, nascido em Coswig. Depois de um longo magistério em Marburgo (1876-1912), passou a lecionar em Berlim.

Fundador da Escola de Marburgo, que, deixando a Hegel, retomou a Kant, com reformulações. Como em geral os neokantianos, a escola de Marburgo rejeitou primeiramente o método psicológico, em favor do método transcendental. Este consiste na análise das condições lógicas do pensamento e da vontade, isto é, dos seus objetos. Em segundo lugar rejeitou a intuição inteletual de algo preexistente e exterior ao processo mental. De acordo com este logicismo idealista, a razão se constitui apenas da capacidade de síntese, construindo o todo a partir de seus elementos. Não apreende, mas cria o objeto enquanto conhece. O ser não existe em si mesmo, mas surge com o mesmo pensar. Não admitindo um conhecimento de conteúdos independentes do mesmo conhecer, o idealismo neokantiano se torna um conceptualismo pleno.

O neokantismo de Cohen é um idealismo mais radical que o de Kant, porque nega definitivamente o objeto em si. Cohen é também mais racionalista que Kant, no sentido de que nega a sensação como fonte original do conhecimento. Construiu Cohen também uma ética, em que a moral é um humanismo racionalista, reguladora de uma comunidade de seres racionais. A religião não é uma explicação do mundo, mas uma condição de desenvolvimento moral do homem.

Obras: Sobre a controvérsia entre Trendelenburg e Kuno Fischer (Zur Controverse zwischen Trendelenburg und Kuno Fischer, 1871); Teoria de Kant sobre a experiência (Kants Theorie der Erfahrung, 1871); Fundamentação da ética de Kant (Kants Begründung der Éthik, 1877); O ensinamento das idéias de Platão e a matemática (Platos Ideenlehre und die Mathematik, 1878); O princípio do método infinitesimal e sua história (Das Princip des Infinitesimalmethode und sein Geschichte, 1883); A fundamentação da estética de Kant (Kants Begrúndung der Aesthaetik, 1889); Sistema de filosofia (System der Philosophie, 3 vols., 1902, 1904, 1912), importante; O conceito de religião no sistema da filosofia (Der Begriff der Religion im System der Philosophie, 1915); Escritos judaicos (Jüdische Schrisften, 1924), póstumo; Pequenos escritos filosóficos (Kleine philosophische Schrisften, 1926), escritos recolhidos e editados reunidos.
 

732. Paul Natorp (1854-1924). Filósofo alemão, nascido em Düsseldorf. Estudos em Berlim, Bonn e Strassburgo. Lecionou em Marburgo, de 1885 a 1922, onde aderiu ao neokantismo de Cohen.

O pensamento de Natorp usa ser considerado mais claro que o de Cohen. Fez uma reinterpretação das idéias reais de Platão. Tais idéias são leis e métodos do conhecimento científico. Inverteu a marcha do pensamento de Kant. A intuição empírica não é o material bruto pelo qual tudo começa e sim a determinação final do próprio pensamento.

Estendeu-se Natorp ainda a outros temas, como psicologia, pedagogia, religião, sicuedade. Ficou particularmente atento ao lado psicológico do pensamento, mas sob a perspectiva transcendental kantiana. Defendeu um socialismo idealista e uma pedagogia social.

Obras: Teoria do conhecimento de Descartes (Descartes' Erkenntnistheorie, 1882); Introdução à psicologia segundo o método crítico (Einleitung in di Psychologie nach kritischer Methode, 1888); Religião dentro dos limites da humanidaden (Religion innerhalb der Humanitaet, 1894); Pedagogia social (Sozialpaedagogik, 1899); Doutrina platônica das idéias: introdução ao idealismo (Platons Ideenlehre: Einführung in den Idealismus, 1903); Reunião de ensaios de pedagogia social (Gesammelte Abhandlungen zur sozialpaedagogik, 1907); Pestalozzi. Sua vida e suas idéias (Pestalozzi. Sein Lebe un seine Ideen, 1909); Os fundamentos lógicos das ciências exatas (Die logische Grundlagen der exakten Wissenschaften, 1910); Psciologia geral conforme o método crítico (Allgemeine Psychologie nach kritische Methode, 1912); Idealismo social (Sozialidealismus, 1920); Indivíduo e comunidade (Individuum und Gemeinschaft, 1921); Preleções sobre filosofia prática (Vorlesungen über praktische Philosophie, 1925); Sistemática filosófica (Philosophische Systematik, 1958).
 

733. Ernst Cassirer (1874-1945). Filósofo de expressão alemã, judeu de origem, nascido na então Breslau (a partir de 1945 Wroclaw), Silésia. Representante significativo da escola neokantiana de Marburgo. Estudou filosofia, literatura e arte na Universidade de Berlim. Em 1896 encontrou-se com Hermann Cohen, professor em Marburgo desde 1876 e chefe da escola a cujas diretrizes aderiu. Cassirer lecionou em Berlim (1909-1919) e Hamburgo (1919-1933). Saindo da Alemanha nacional socialista, lecionou em Oxford (1933-1935) Da Inglaterra seguiu para a Universidade de Gotemburgo, ou Goeteborg (1935-1941), Suécia. Por último seguiu para os Estados Unidos da América, convidado pela universidade de Yale, ali lecionando como professor visitante (1941-1944),e depois na Columbia University de Nova Iorque (1944-1945), ali falecendo aos 71 anos.

O pensamento de Cassirer se identifica com o caráter logicista da escola neokantiana de Marburgo, distinto do axiológico da escola neokantiana de Baden, ou seja de Windelband, como também dos fenomenólogos. A inteligência é considerada ativa e criadora, ao contrário da sensação. O pensamento é uma construção (Erzeugen) da realidade. A geração do objeto aparece claramente no cálculo infinitesimal. Dali seu interesse pelo conceito de função, que julgava transcender ao de substância. Os símbolos algébrico transcendem a realidade. A coisa em si não existe; é apenas um conceito limite (Grenzbegriff). As categorias são modos de julgar (Grundrichtungen) e não formas a priori. A lógica e a matemática são importantes na escola de Marburgo.

Além de crítico do conhecimento, Cassirer foi também crítico da cultura, analisando suas formas mítico-criativas e lógico-discursivas, bem como suas manifestações de caráter simbólico. Não se preocupou Cassirer em criar um sistema, mas simplesmente se reteve na análise desta trama histórica do conhecimento como construtor do objeto. Foi um historiador da filosofia e, como já se advertiu, um filósofo da cultura.

Obras: Crítica de Descartes do conhecimento da matemática e das ciências da natureza. O sistema de Leibniz en seu fundamento científico (Descartes' Kritik der Mathematischen und naturwissenschaftlichen Erkenntnis. Leibniz' System in seinen wissenschaflichen Grundlagen, 1899-1902); O problema do conhecimento na filosofia e na ciência da época moderna (Das Erkenntnisproblem in der Philosophie und Wissenschaft der neuren Zeit, 4 vols., 1906, 1907, 1920, 1950), obra considerada a principal e completada só no fim de sua vida; Conceito de substância e conceito de função (Substanzbegriff und Funktionsbegriff, 1910), propondo a substituição do conceito de substância pelo de função; Liberdade e forma (Freiheit und form, 1916); Sobre a relatividade de Einstein (Zur Einstein'chen Relativitaetstheorie, 1921); A filosofia das formas simbólicas (Die Philosophie der symbolischen formen, 3 vols., 1925-1927, 1929); A filosofia da ilustração (Die Philosophie der Aufklaerung, 1932); Determinismo e indeterminismo na física moderna (Determinismus und Indterminismus in der modernen Physik, 1936); Um ensaio sobre o homem (An essay on man, 1944); O mito do Estado (The myth of the State, 1946).
 

 

III - Escola de Baden e derivações. 2216y734.
 

734. Define-se a Escola de Baden como sendo aquele grupo convergente, que de algum modo se relaciona com o realismo e com a liderança, mais ou menos elástica, de Wilhelm Windelband (1848-1915), professor em Friburgo im Breisgau (de Baden, Alemanha) e depois em Heidelberg, e teve em Heinrisch Rickert (1863-1936), também professor em Heidelberg, a sua continuidade. Também se faz referência ao grupo como Escola do Sudoeste da Alemanha.

A doutrina da lógica do conhecimento da escola de Baden é similar à da escola de Marburgo. Admite todavia a escola de Baden os valores, como um reino efetivo e em separado daquele da lógica. Neste sentido é conveniente advertir que Windelband foi discípulo de Lotze (vd) (+1881), que dera desenvolvimento a esta tendência do realismo kantiano.

A concepção geral da escola de Baden a respeito das coisas é pluralista. O mundo lógico é mesmo relegado a um segundo plano, em favor do mundo axiológico (aOKoT = valido, justo) dos valores. Destaca portanto a escola de Baden a Crítica da razão prática de Kant, em vez da Crítica da razão pura. O ser não é fundado nas leis lógicas, mas nas leis axiológicas.

Quanto à propriedade dos valores, eles são absolutos, isto é, imutáveis, sem relatividade.

Destacam-se três classes de valores: de verdade, morais, estéticos.
No que se refere às ciências, a escola de Baden usa distinguir duas modalidades: nomotéticas, que estudam a natureza, nela buscando as leis gerais; ideográficas, ou ciências do espírito, que descrevem o individual. Aqui toma contato com os problemas levantados por Dilthey a respeito das ciências do espírito.

  

735. Um elenco muito vasto de nomes apresenta a escola de Baden, que além de seus mestres principais, - Windelband e Rickert, - conta com nomes significativos, cada qual a enriquecendo com suas novidades: Hugo Münsterberg (1863-1916); Max Weber (1864-1921); Jonas Cohn (1869-1947); Bruno Bauch (1877--1942).

Neste quadro é possível citar grupos com aproximações, principalmente quando se trata de filosofia dos valores, combinada ao mesmo tempo com a fenomenologia. É o aso de Johannes Hessen (1889-1971), Fritz Joaquim Von Rintelen (1898-1980).
 

736. Wilhelm Windelband (1848-1915). Filósofo e historiador da filosofia, alemão, nascido em Potsdam. Lecionou sucessivamene em Zurich (Suíça, 1876), Friburgo, 1877, Strasburgo (então território alemão), 1882, Heidelberg, 1903, até seu falecimento.

Foi em Heidelberg que se tornou o chefe da escola neokantiana de Baden. Nesta condição negando a existência da coisa em si, tal como a escola neokantiana rival de Marburgo, mas acrescendo a doutrina dos valores. Com referência a Kant, inspira-se mais na Crítica da razão prática, do que na Crítica da razão pura. Os valores dizem respeito ao aspecto normativo da consciência empírica, a qual, ao realizar os valores universais, realiza a própria liberdade.

De outra parte esteve Dindelband sob a influência de Hegel, enquanto concebeu a realização do espírito na história. Completou o novo esquema pela concepção dos valores, a qual recebeu de Lotze, um seu antigo mestre. A escola de Baden opõe-se diretamente ao logicismo da Escola de Marburgo (Cohen, Natorp, Cassirer), mais ocupada com as leis da natureza.

Dividiu Windelband as ciências em nomotéticas (do grego OoµoT = lei), ou ciências da natureza, e ideográficas (do grego odKoT = singular, próprio), ou históricas. No seu entender, as ciências nomotéticas investigam as leis universais, enquanto que as ideográficas os acontecimentos individuais. Estas são as que mais contribuem para a visão do mundo e da vida. Ainda que as ciências se distingam, pelo seu objeto, em espécies e gêneros, não segue dali, que elas se distingam tão radicalmente quanto pensa Windelband. De qualquer maneira, Windelband contribuiu para que se pensasse mais profundamente a ciência da história. O ponto de vista específico da história é certamente a temporalidade, e não a singularidade em si mesma do fato. Também as ciências nomotéticas se ocupam da singularidade, ainda que seu ponto de vista seja a lei universal, ou seja a natureza em geral, que se realiza no fato singular.

Com referência ao estudo da história da filosofia, opôs-se Windelband ao estudo fragmentário por escolas e por filósofos, preferindo o exame por problemas e concepções filosóficas; portanto por questões filosóficas. O ponto de vista de Windelband é evidente, porquanto o essencial em história da filosofia é o pensamento filosófico em si mesmo. Mas, de outra parte, não pode Windelbandand excluir do essencial os demais envolvimentos de um todo concreto, nem pode deixar de levar em conta o modo didático de abordar a filosofia a partir dos documentos que ela deixou, dos filósofos e respectivas escolas que a criaram.

Obras. A teoria da contingência (Die Lehre vom Zufall, 1870); Sobre a certeza do conhecimento (Über die Gewissheit der Erkenntniss, 1873); A história da filosofia moderna (Die Geschichte der neueren Philosophie, 2 vols., 1878-1880); Prelúdios. Escritos e preleções sobre introdução à filosofia (Praeludien. Aufsaetze und reden zur EinfÜuhrund in die Philosofie, 1884); História da filosofia antiga ocidental, (Geschichte der Abendlaendischen Philosophie im Altertum, 1888); Os princípios da lógica (Die Prinzipien der Logik, 18 ); História da filosofia antiga (Geschichte der antiken Philosophie, 1888); Manual de história da filosofia (Lehrbuch der Geschichte der Philosophie, 1892); História e ciência natural (Geschichte und Naturwissenschaft, 1894); A filosofia na vida espiritual alemã no século dezenove (Die Philosophie im deutschen Geistesleben des 19. Jahrhunderts, 1909); Introdução à filosofia (Einleitung in die Philosophie, 1914). E textos menores dispersos.
 

737. Heinrich Rickert (1863-1936). Filósofo de expressão alemã, nascido na então cidade de Dantzig (em 1945 passada à administração polonesa, com a denominação Gdansk). Doutorou-se em filosofia na Universidade de Strasburgo. Professor em Friburgo de Breisgau, 1891-1916, depois na Universidade de Heidelberg.

Neokantiano na linha da Escola de Baden, foi Rickert o principal representante da mesma, depois do falecimento de Windelband (1915), ao qual também sucedera no magistério em Heidelberg. Distinguiu, como é peculiar à escola de Baden, entre ciências naturais e ciências históricas, atribuindo a estas mais realidade espiritual que às naturais. Conteriam as ciências históricas maior realidade espiritual, porque se diziam principalmente do homem, caracteriza pela cultura. As ciências naturais enunciam leis sobre o que a coisa é, e tendem à generalização. Contrariamente as ciências do espírito são ideográficas, isto é, individualizantes. Advertiu, entretanto, que Windelband atendera excessivamente ao lado psicológico e metafísico da realidade; preferiu neste particular a Husserl, atento à distinção entre nóesise noma.
A filosofia tem por objeto os valores, enquanto valem. Todavia a filosofia cuidará também da realização dos valores na prática da vida, onde o valor e a realidade coincidem. Este terceiro reino é uma sabedoria.

Espírito eminentemente sistêmico, Rickert defendeu também uma visão geral do mundo, tanto o da natureza, como o do homem. Destacou mais a complementaridade de tudo, do que as oposições dialéticas da filosofia de Hegel; igualmente se afastou dos alogicismos, do modelo Bergson, Dilthey, Scheler.

Obras: Teoria da definição. Contribuição para o problema da transcendência filosófica (Zur Lehre von der Definition. Ein Beitrag zum Problem der philosophischen Transzendenz, 1888); O objeto do conhecimento (Der Gegenstand der Erkenntniss, 1892), uma das obras principais; Os limites da conceptualização naturalista. Uma introdução lógica às ciências históricas (Die Grenzen der naturwissenschaftlichen Begriffsbildung. Einde logische Einleitung in die historischen Wissenschalten (1896-1902); Ciência cultural e ciência natural (Kulturwissenschaft und Naturwissenschaft, 1899); Os problemas da filosofia da história (Die Probleme der Geschichtphilosophie, 1907); O uno, a unidade e o uno. Observações sobre a lógica do conceito do número (Das Eine, die Einheit und die Eins, primeiramente na revista Logos, 2 (1911-1912), 26-78, depois em separado, 1924); Do sistema de valores (Vom System der Werte, em Logos, 4 (1913), 295-327); Sistema da filosofia, I: Fundamentação geral da filosofia (System der Philosopohie, I: Allgemeine Grundlegung der Philosophie, 1921), importante como sistema globalizado do pensamento do Rickert; A filosofia da vida (Die Philosophie des Lebens, 1920), atacando as filosofias irracionalistas, entre outras de Bergson, Dithey, Scheler; Kant como filósofo da moderna cultura. Um ensaio histórico-filosófico (Kant als Philosoph der modernen Kultur. Ein geschitsphilosophischer Versuch, 1924); A lógica do predicado e o problema da ontologia (Die Logik der Praedikats und das Problem der Ontologie, 1930); A tradição de Heidelberg na filosofia alemã (Die Heidelberger Tradition in der deutschen Philiosophie, 1931); Problemas fundamentais da filosofia, metodologia, ontologia, antropologia (Grundprobleme der Philosophie, Methodologie, Ontologie, Anthropologie, 1934); Imediaticidade e significado do sentido. Ensaios para a estruturação do sistema da filosofia (Unmittelbarkaeit und sinndeutung. Ausaetze zur Ausgestaltung des Systems der Philosophie, 1939).
 

738. Hugo Münsterberg. (1863-1916). Filósofo e psicólogo de expressão alemã, nascido na então Dantzig (Gdanks, depois de passada à Polônia em 1945). Estudou medicina e psicologia em Leipzig, com W. Wundt. Primeiramente professor em Friburgo. Fez trabalhos de psicologia na Universidade de Frankfurt. A convite de William James, foi ser em 1892 professor de Harvard (Cambridge, Massachussets, Estados Unidos da América), onde dirigiu também o laboratório de psicologia. Presidente, em 1898, da Associação de Psicologia da América. Ocorre desde então a influência dos psicólogos alemães neste lado do Atlântico.

Filosoficamente, situou-se Münsterberg no contexto da escola neokantiana de Baden, destacando sobretudo a função da vontade como princípio essencial do homem. A vontade afirma a existência de um mundo independente da consciência; nesta afirmação do mundo se firma um sistema de valores. Estes dão sentido à vida humana. Não têm os valores apenas significado subjetivo. Valem independentemente de cada homem.

Situam-se os valores em três esferas, correspondentes aos objetos lógicos, objetos éticos, objetos estéticos. Cada esfera de valor se ordena internamente, ao mesmo tempo que todos juntos formam um mundo metafísico absoluto.
Obras, em alemão e inglês: A doutrina da adatação natural no curso de sua evolução (Die Lehre von der natürlischen Anpassung in ihrer Entwicklung (A doutrina da adatação natural no curso de sua evolução, 1885); A ação voluntário (Die Willenshandlung, 1888); A origem da moralidade (Der Ursprung der Sittlichkeit, 1889); Contribuições à psicologia experimental (Beitraege zur experimentalen Psychologie, 2 vols., 1889-1892); Temas e métodos da psicologia (Aufgabe und Methoden der Psychologie, 1891); Psicologia e vida (Psychology and life, 1899); Fundamentos da psicologia. I. Princípios da psicologia (Grundzüge der Psychologie, I . Die Prinzipen de Psychologie, 1900); Ciência e idealismo (Science and Idealism, 1906); Filosofia dos valores. Traços fundamentais de uma concepção do mundo (Philosophie der Werte. Grundzüge einer Weltanschauung, 1908); Psicologia e crime (Psychology and crime, 1909); Psicologia e o mestre (Psychology and the teacher, 1910); Psicologia e vida econômica (Psychologie and Wirtschaftsleben, 1912); Vocação e aprendizagem (Vocation and learning, 1912); Traços fundamentais da psicotécnica (Grundzüge der Psychotechnik, 1914); Psicologia e sanidade social (Psychology and social sanity, 1914); Psicologia. Geral e aplicada (Sociology. General and applied, 1914). Além de estudos sobre a vida americana.
 

739. Max Weber (1864-1920. Sociólogo e economista, cientista e filósofo da história, alemão, nascido em Erfurt, Turíngia. Estudou várias ciências, como história, economia, filosofia, teologia, nas universidades de Heidelberg, Berlim, Goettingen, doutorando-se finamente em direito,1889. Por curto tempo ensinou economia política em Berlim. Professou em 1894 e 1895 em Friburgo de Breisgau; de 1895 a 1897 em Heidelberg. Retirando-se embora do magistério, por causa de uma doença crônica, retornou contudo ao seu exercício em 1919 na universidade de Munich, morrendo todavia já no ano seguinte. Na condição de filho um deputado, participou também ele mesmo dos acontecimentos políticos da Alemanha, já desde os tempos de Bismarck. Em 1918 fez tumultuadas conferências pela abdicação do Imperador Guilherme II. Foi conselheiro na delegação alemã na Paz de Versalhes. Participou na criação da constituição alemã de Weimar (1919), vigente até Hitler.

Esteve Max Webber particularmente atento às ciências humanas e aos seus métodos, bem como à filosofia dos valores. Inicialmente sob influência do historicismo de Dilthey, abriu-se também a outras vertentes, mas sempre com criatividade própria, gerando sínteses originais. Não rejeitou inteiramente ao método dialético de Marx, todavia contestou o seu caráter monocausal, porquanto os fenômenos sociais a explicar são universais. Não negando o fato causador do conflito de classes, não considerou este conflito de classes como causa única das transformações sociais.

Criou a teoria dos tipos ideais; são modelos que funcionam a maneira de conceitos limites aos quais obedece o comportamento social. Procurou também aproximar o método tipológico com o método histórico, resultando no método compreensivo.

Ligou ainda a origem do capitalismo ao protestantismo.

Obras. Sua produção foi dispersiva, resultando seus livros geralmente de artigos reunidos. Para a história das sociedades comerciais da Idade Média (Zur Geschichte der Handelsgeselschaften im Mittelalter, 1889; A história do agro-romano em sua ;significação para o direito público e privado (Die Aroemische Agrageschichte in ihre Bedeutung für den Staats-und Privats Recht, 1891); As relações dos trabalhadores agrícolas na Alemanha a este do Elba (Die Verhaeltnisse der Landarbeiter im ostelbischen Deutschland, 1892); Roscher e Kies e os problemas lógicos da economia nacional histórica (Roscher und Kies und die logische Probleme der historischen National-oekonomie, 1903); A ética protestante e o espírito do capitalismo (Die protestantisches Ethik und der Geist des Kapitalismus, 1903-1904), obra famosa publicada primeiramente no Arquivo de Sociologia e de Política Social (Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik, na data acima indicada); A ética econômica das religiões mundiais (Die Wirtschafsethik der Weltreligionen, 1915); Política como missão (Politik als Beruf, 1919).

Póstumas: Estudos reunidos sobre sociologia das religiões (Gesammelte Aufsaetze zur Religions Sociologie, 3 vols., 1920-1921); Economia e sociedade, fundamentos da sociologia compreensiva (Wirtschadft und Gesellschaft, Grundriss der vertehende Soziologie, 1921; Escritos políticos reunidos (Gesammelte politische Schriften, 1921); Fundamentos racionais e sociológicos da música (Die rationalen und soziologischen Grundlagen der Musik, 1921); Estudos reunidos sobre metodologia das ciências (Gesammelte Aufsaetze zur Wissenschaftlehre, 1922); Estudos reunidos sobre sociologia e política social (Gesammelte Aufsaetze zur Soziologie und Sozialpolitik, 1924).
 

740. Jonas Cohn (1869-1947). Filósofo e psicólogo alemão, de origem judaica, nascido em Goerlitz. Doutor em filosofia, em 1892. Professor de filosofia e pedagogia na Universidade de Friburgo de Brisgóvia, a partir de 1901. Com o advento do nazismo passou à Inglaterra em 1933, onde atuou até seu falecimento em Birmingham.

Filosoficamente situou-se no contexto da escola de Baden, caracterizada pelo idealismo e filosofia dos valores, para depois ser contudo influenciado pela dialética de Hegel. A partir primeiramente da dialética de H. Rickert, desenvolveu uma teoria universal dos valores. Advertiu que a contradição dos contrários dialéticos é apenas em parte solúvel, porque não ocorre a racionalidade plena do mundo, o que impede as sínteses perfeitas que pretende o sistema hegeliano. Prevalece todavia o positivo, e por isso ocorre uma tarefa a ser realizada.

Tratou Jonas Cohn dos valores estéticos dentro do contexto neokantiano.

Obras: História do problema do infinito no pensamento ocidental até Kant (Geschichte des Unendlichkeitsproblems im abendlaendlischen Denken bis Kant, 1896; Estética geral (Allgemeine Aesthetik, 1901); Pressupostos e fins do conhecer. Investigações sobre as questões fundamentais da lógica (Vorausaetzungen und Ziele des Erkennens. Untersuchungen über dieGrundfragen der Logik, 1908); O sentido da cultura atual. Ensaio filosófico (Der Sinn der gegenwaertigen Kultur. Ein philosophischer Versuch, 1914); O espírito da educação. Pedagogia com fundamento filosófico (Geist der Erzihung. Paedagogik auf philosophischer Grundlage, 1919); Teoria da dialética (Theorie der Dialektik, Formenlehre der Philosophie, 1923); O idealismo alemão (Der deutsche Idealismus, 1923; A filosofia em época de especialização (Die Philosophie im Zeitalter des Specialismus, 1925); Ciência do valor (Wertwissenschaft, 3 vols., 1932-1933). Além de obras póstumas.
 

741. Bruno Bauch (1877-1942). Filósofo de expressão alemã, nascido em Gross-Nossen, Silésia. Na Universidade de Heidelberg foi aluno de Einrich Rickert; de Straburgo, aluno de Windelband; em Heidelberg, aluno de Kuno Fischer. Os primeiros dois, da escola de Baden, e o último, um hegeliano, o puseram em contato com figuras expressivas do pensamento alemão. Lecionou em Halle, a partir de 1911, e logo em Iena, onde viveu a maior parte de seus anos de magistério.

Neokantiano, posicionou-se entre as escolas de Marburgo e de Baden. Se uma se apoiou na primeira Crítica de Kant e a outra na segunda, Bauch foi para a terceira (a do Juízo), apontando para aproximações entre as duas primeiras e as duas escolas. O valor e a verdade se aproximam, pois a verdade é também um valor, isto é, aquilo que deve ser pensado.

A realidade não é o valor, mas é nela que o valor se realiza. A idéia é a unidade suprema e diretriz da união do valor e da realidade, sem contudo destruir aqueles dois domínios. Neste modo de apresentar o todo, Bruno Bauch se encontra num contexto que é o da filosofia de Fichte.

Obras: Felicidade e personalidade na ética crítica (Glücklichkeit und Persoenlichkeit in der Kritischen Ethik, 1902), dissertação; Lutero e Kant (Luther und Kant , 1904); O problema da substância na filosofia grega até a época do florescimento (Das Substanzproblem in der Grichischen Philosophie bis zu Blütezeit, 1910); Estudos para a filosofia das ciências exatas (Studien zur Philosophie der exakten Wissenschaften, 1911); História da filosofia moderna até Kant (Geschichte der neueren Philosophie bis Kant, 1908; Immanuel Kant (1917); Fichte e a idéia alemã (ichte und der deutsche Gedanke, 1917); Primeiros fundamentos de filosofia (Anfangsgründe der Philosophie, 1920); Verdade, valor e realidade (Warheit, Wert und Wirklichkeit, 1923), importante; A lei natural (Das ;Naturgesetz, 1924); O sujeito transcendental (Das transzendentale Subjekt, 1923-1924); A idéia (Die Idee,1926); O espírito de Potsdam e o espírito de Weimar (Der Geist von Potsdam und der Geist von Weimar, 1926), discurso; Filosofia da vida e filosofia dos valores (Philosophie des Lebens und Philosophie der Werte, 1927); Goethe e a filosofia (Goethe und die Philosophie, 1928); Cultura e nação (Kultur und Nation, 1929); O significado educativo dos bens culturais (Die erzieherische Bedeutung der Kulturgüter, 1930); O mundo do fazer (Die Tatwelt, 1932); Valor e finalidade (Wert und Zweck, 1934); Esboço da ética (Grundzüge der Ethik, 1935); Liberdade nacional (National Freiheit, 1931).
 

 

IV - Outros kantianos de nota. 2216y743.
 

743. Conde Hermann Alexander, Graf (conde) Von Keyserling (1880-1946). Filósofo de expressão alemã, nascido em Kaunas, Lituânia, descendente de uma família báltica de barões. Adquiriu cidadania alemã. Estudou na Escola Superior de Pernau e na Universidade de Dorpat. Estudou também ciências naturais em Genebra, Heidelberg e Viena. Fez filosofia em Berlim. Fundou em Darmstadt, 1920, uma Escola de Sabedoria (Schuhle des Weisheit), de fundo oriental e teosófico. Destituído de sua posição pela revolução russa de 1905, passou a viajar pelo mundo, enunciando conferências na América do Norte e Sul, bem como na Europa, onde por exemplo fez 3 conferências em Lisboa, abril de 1930. A partir de tais experiências e de sua facilidade para o ensaio, escreveu livros muito apreciados e populares, tendo por conteúdo observações filosóficas, psicológicas e sociológicas. Ainda que assistemático, foi de grande aceitação e influência. Durante o regime nazista, ao qual contrariou, foi impedido de publicar. Faleceu em Insbruck, Áustria, pouco depois da Grande Guerra.

Em filosofia tendeu para o saber de fonte alógica, mágico-teosófica, pragmatista, ao modo da filosofia da vida de Bergson e de James. Teve afinidades também com o historicismo de Dilthey, com o relativismo de Simmel, com as filosofias da vida em geral, e mesmo com a filosofia de Kant. O homem não é uma entidade abstrata, fazendo-se conhecer dentro de seu contexto histórico, ou seja de sua cultura. Opõe Kayserling entre si o homem abstrato tecnicista e o homem em sua vida concreta integral. A cultura não é apenas o atomismo abstraccionistas do homem mentalizado, mas todo um viver criador. Viajou Kaysereling em torno do mundo, não pelo lazer, mas em busca do homem. Aos países que visitou tratava de lhe interpretar a cultura em todo o seu contexto.

Obras: A conjuntura do mundo. Ensaio de uma filosofia crítica (Das Gefüge der Welt. Versuch einer kritischen Philosophie, 1906); Imortalidade. Crítica das relações entre o conhecer natural e o mundo das representações humanas (Unsterblichkeit. Eine Kritik der Bezihungen zwischen Naturgeschehen und menchliche Vorstellungswelt, 1908); Prolegômenos a uma filosofia natural (Prolegomena zur Naturphilosophie, 1910); Diário de viagem de um filósofo (Das Reisetagebuch eines Philosophen, 1919), obra mais apreciada, tendo por roteiro a viagem iniciada em 1911 em torno do mundo; Compreensão criativa (1922); A filosofia como arte (Das Philosophie als Kunst, 1920); O conhecimento criador (Das schoepferische Erkenntnis, 1922); Política, economia, sabedoria (Politik, Wirtschaft, Weisheit, 1922); Homens símbolos (Menschen als Sinnbilder, 1926); O mundo novo mundo que se instala (Die neuenstehende Welt, 1926); O renascer (Wiedergeburt, 1927); Análise espectral da Europa (Das Spektrum Europas, 1928); América. O surgir de um novo mundo (Amerika. Der Aufgang einer neuen Welt, 1930); Ponderações sulamericanas (Südamerikanische Meditationen, 1932); A vida íntima (La vie intime, 1933); A revolução mundial e a responsabilidade do Espírito ( 1934); Sobre a arte da vida (Sur l'art de la vie, 1936); Livro sobre a vida pessoal (Das Buch vom persoenlichen Leben,1936); Do sofrimento à plenitude (De la soufrance a la plénitude, 1938); Considerações surgidas na calma e na meditação (Betrachtung der Stille und Besinlichkeit, 1941).

Póstumos: Livro de memórias (Gedachtnisbuch, 1948), com vários textos; Viagem através do tempo (Reise durch die Zeit, 2 vols., 1949-1951); Crítica do pensamento. Os fundamentos epistemológicos da filosofia do sentido (Kritik des Denkens. Die Erkenntniskritischen Grundlagen der Sinnesphilosophie, 1948); Diálogos filosóficos: I. Devir eterno; II. Mistérios (Philosophische Wechselgeschpraeche: I. Ewiges Werden; II. Mysterien,1954). Obras completas (Gesammelten Weke, Darmstadt, Baden-Baden, 1956 ss.).
 

 


Cap. 15