Enciclopédia Simpozio      Micro História da Filosofia.


HISTÓRIA DA FILOSOFIA MODERNA.


 

§ 11. Realismos racionalistas do séc. 19:
Espiritualismo eclético. Variantes intuicionistas. Escolásticos da renovação. 2216y810.

 
 

810. Contra o idealismo, e também contra o positivismo e o materialismo, mas ainda contra os monismos de qualquer espécie, se desenvolveu, principalmente nos círculos católicos e mesmo cristãos em geral, um movimento ao mesmo tempo realista e espiritualista.

O fenômeno como ocorreu na França levou a denominação frequente de espiritualismo eclético francês (Maine de Biran, Victor Cousin); entre estes espiritualismos do século dezenove houve formulações especiais, como tradicionalismo (Lamennais), ontologismo (Rosmini, Gioberti), modernismo (Sabatier, Loisi), intuicionismo (Bergson), filosofia da ação (Blondel)..
Foi mais bem sucedida a escolástica renovada (Buzzetti, Mercier, Gemelli, Maritain, Gilson), por causa de seu longo passado e encaminhamento aperfeiçoativo, agora mais crítica.

Os demais realismos, ora derivados do idealismo amenizado, ora do positivismo tratado com otimismo, acabaram quase sempre por se extinguir com os primeiros defensores, não chegando a se instalar como movimento estável.
 

 

I - Espiritualismo eclético francês. 2216y811.

 

811. Nos meios católicos, sobretudo da França, se desenvolveu um espiritualismo por fora da linha escolástica, com aspectos ligeiramente cartesianos, por vezes algo fideistas, com tendências ecléticas, desde que não rompessem com a linha geral do cristianismo. Alguns destes espiritualistas ecléticos se definiram por linhas mais definidas, que foram ser tradicionalismo (vd), o ontologismo (vd), o intuicionismo (vd).

Primeiros espiritualistas ecléticos representativos na França foram Laromiguiére (1756-1837), autor de Lições de filosofia (Leçons de philosophie, ); Royer-Collard (1763-1843), estadista, e vulgarizador na França da Escola Escocesa (vd); Maine de Biran (1766-1824) (vd), este mais profundo e organizador; Victor Cousin (1792-1867) (vd), político, retórico, influente, ainda que não o mais profundo representante do espiritualismo eclético francês.

São apreciáveis, como espiritualistas, no sentido de mais coerentes com a nova escolástica ainda em estado de formação: J. S. Nourisson (1805-1899), lente do Collège de France; Alphonse Gratry (1805-1872), autor de O conhecimento de Deus (La connaissance de Dieu), Curso de filosofia (Cours de philosophie, 1861); Adolphe Franck (1809-1903), de origem judaica, autor de livros de filosofia e editor de um Dicionário de sciencias filosóficas (Dictionnaire du sciences philosophiques, 1843-1852); Ollé-Laprune (1839-1898), já na linha da filosofia da ação, autor de A certeza Moral (La certitude morale, 1898).

Mas ainda muitos outros nomes gravitam no mesmo contexto eclético espiritualista, na França do século dezenove: Theodoro Joufroy (1796-1842), que apelou a uma "fé cega e irresistível como fundamento de toda crença"; Ch. De Rémusat (1797-1875), Etienne Vacherot (1809-1897), autor de A metafísica e a ciência (La métaphysique et la science, 1858), O novo espiritualismo (Le nouveau spiritualisme, 1884); Paul Janet (1823-1899), autor de A moral (La morale, 1874), Causas finais (Causes finales, 1877), Psicologia e metafísica (Psychologie et metaphysique, 1897).
 

812. Maine de Biran. François-Pierre-Gonthier... (1766-1824). Filósofo francês, nascido em Bergerac. Já feitos os estudos de humanidades em Périgueus, transferiu-se aos 19 anos para Paris. Serviu no corpo de guarda do rei, até ;que sua dissolução em 1891(ano da deposição do rei, que foi decapitado. Depois se dedicou ao estudo, até que foi levado à política, em 1895, como administrador do Departamento de Dordogne. Em 1797 foi eleito para o Conselho dos Cincoenta, vindo então estabelecer-se de novo em Paris. Não muito depois o Conselho foi dissolvido, retirando-se mais uma vez da capital. Nomeado subprefeito de Bergerac em 1806. Opera no legislativo, como eleito, de 1807 a 1813, sendo oposição a Napoleão. Em 1814 iniciou a publicação de um Journal, instrumento de sua influência filosófica.

Quinzenalmente reuniu em seu torno um grupo de amigos, entre os quais Victor Cousin, quando tratavam dos problemas do conhecimento. Depois da queda de Napoleão, acontecida em 1814, a posição de Maine de Biran se tornou mais cômoda. Durante a Restauração foi eleito deputado, nomeado questor, conselheiro de Estado. De saúde frágil, veio a falecer relativamente cedo, com 58 anos.

Ainda que autor de poucas obras, Maine de Biran foi de grande influência no espiritualismo eclético francês do século 19. O esforço, como resistência ao mundo exterior, é o fato primitivo do conhecimento humano. Revela o esforço voluntário, ao se opor à passividade sensível e ao inconsciente, a personalidade propriamente humana. A partir desta percepção originária progride a restante certeza da filosofia, fundando desta maneira seu espiritualismo sob base alógica. Outros, derivando por este mesmo caminho, progredirão até chegarem ao intuicionismo de Bergson.

Obra. Os escritos de Maine de Biran se agrupam em filosóficos (dos quais publicou um volume), políticos, cartas e artigos de seu journal: Novas considerações sobre as relações da física e da moral do homem (Nouvelles considérations sur les rapports du physique et du moral de l'homme, 1834). Mais tarde: Obras inéditas (Oeuvres inedites, 3 vols., 1859, ed. Naville, ainda incompleta). Edição Tisserand, com notícias, 7 vols., 1920-1930.
 

813. Victor Cousin (1792-1867). Filósofo e político francês, nascido em Paris. Estudou na Universidade de Paris e na Escola Normal Superior. Nesta foi a seguir passou a ser repetidor, depois mestre de conferências, diretor. Na Sorbonne professor em 1815, inicialmente como suplente de Royer-Collard, depois como titular. Suspenso em 1821, a pretexto de ser liberal, foi restituído posteriormente. Esteve duas vezes na Alemanha, em 1817, quando contactou a Hegel e Schelling, e em 1824. Cresceu em influência política, ocupando diversos cargos, como diretor da Escola Normal, reitor da Universidade, em 1840 Ministro da Instrução Pública da França. No golpe de Estado de 1852 perdeu a Cátedra na Sorbonne.

Para as convicções de Cousin os sistemas filosóficos podem ser vistos como aspectos da mesma grande e única verdade. No seu pensamento ocorrem elementos que procedem de Descartes, escola escocesa, Kant, Hegel, e ainda pelo voluntarismo de voluntarismo de Maine de Biran. Seu ecletismo não é uma dialética de contraditórios, mas um equilíbrio progressivo dos sistemas na descoberta da verdade. O erro puro é impossível nos sistemas filosóficos. O espiritualismo eclético de Cousin não inclui todavia a revelação. Afastou-se a partir de 1828 algum tanto do idealismo alemão para acentuar a visão cartesiana e da escola escocesa.

Deus é o fundamento das verdades eternas, dos princípios e valores absolutos. Basta ao homem seguir a razão para atingir a verdade e a moral perfeitas.

Teve Cousin a oposição dos positivistas. Liberal, defendeu a laicização do ensino. Dada a integração de Cousin no poder, sua filosofia teve aspecto oficial desde a r3evolução de julho de 1830 até 1848, fim da monarquia constitucional de Luiz Filipe.

Obras: Curso de história da filosofia moderna (Cours de l'histoire de la philosophie moderne, 5 vols.,1815-1820); Da verdade, do belo, do bem (Du vrai, du beau, du bien, 1818), reformulado em 1853; Fragmentos filosóficos (Fragmenents philosophiques, 1826, vários volumes);Da metafísica de Aristóteles (De la métaphysique d'Aristote, 1835); Estudos sobre Pascal (Études sur Pascal, 1842); História geral da filosofia (Histoire générale de la philosophie, 1863).

 

II - Tradicionalismo. 2216y814.

 

814. No contexto da história da filosofia, tradicionalismo é um sistema que tem por base gnosiológica duas su suposições: a de que tenha havido uma revelação primitiva, e que a tradição tenha conduzido através do tempo, possibilitando à razão resolver o problema da verdade, que ela por si só não atingiria. Na suposição, portanto, que a razão por si só não consegue resolver o problema da verdade, o tradicionalismo é um movimento teológico e filosófico, que coloca na base uma revelação primitiva. Tais idéias se apresentam primeiramente nos escritos doutrinários do prestigioso escritor católico francês Joseph de Maistre (1754-1821), conhecido também como contrário à revolução francesa e como monarquista. Defendeu em sua obras O papa (Le Pape, ), a autoridade pontifícia ao modo medieval.

Mas foi Felix de Lammenais (1782-1854) (vd) o principal teórico do tradicionalismo. Tradicionalistas moderados foram Louis Bautain (1796-1867), Augustin Bonnetty (1798-1879), J. Ventura (1792-1861), superior dos teatinos, Gerhardt Casimir Ubaghs (1800-1875). Este foi padre e professor em Lovaina, autor de Ensaio de ideologia ontológica (Essai d'idéologie ontologique, 1860), com tendências ontologistas.

Os conflitos ocorridos entre a Igreja Católica e os tradicionalistas não se deram por causa do tradicionalismo em si mesmo, porquanto este costuma admitir a revelação originária, e sim porque outros fatores se interpuseram, como por exemplo o fideismo; não é peculiar à Igreja a fé cega. Também se deram conflitos por causa do liberalismo, o qual a Igreja combateu sobretudo no passado.
 

815. Felicité de Lammenais. (1782-1854). Filósofo, político e literato francês, nascido em Saint-Malo, Bretagne. Teve uma vida de paradoxos, ainda que sempre vertido para algo superior. Jovem ainda, abandonou o extremismo laico da revolução francesa, em troca de um catolicismo liberal, para se fazer sacerdote, havendo sido ordenado em 1816. Apesar do seu liberalismo democrático, de outra combateu os galicanos. Sustentava o galicanismo a doutrina segundo a qual a igreja da França, por declaração de 1682, punha limitações à autoridade papal. Lammenais publicou imediatamente, já em 1817, ensaio sobre a indiferença reinante em matéria de religião, que teve eficácia na derrota do galicanismo; de outra parte, porém, a nova apologética de Lamennais não se ajustaria suficientemente às instâncias oficiais do episcopado francês e da cúpula papal. Com Lacordaire e Montalembert ele havia fundado em 1830 o jornal L'Avenir, no qual defendeu a democracia, a república, a liberdade de ensino e de imprensa, a separação da Igreja e do Estado, a dissolução da Concordata entre ambos, etc. Esta diretriz do liberalismo católico de Lamennais, ainda que em função à modernização da Igreja, foi condenada pelo papa Gregório XVI, em 1832 (Encíclica Mirari vos).

Manteve-se Lamennais em seu ponto de vista, diferentemente de Lacordaire e Montalembert. Defendeu-se Lamennais em livro Palavras de um Crente (1834). Nova Enciclica (Singulari nos) voltou a condená-lo. Suas obras irão para o Index dos livros proibidos. Lammennais deixa finalmente a Igreja católica. Eleito deputado em 1841. Por último escreve com preocupações libertárias e sociais, além de seu cuidado literário.

Do ponto de vista filosófico, foi Lamennais o tradicionalistas mais radical. Gnosiologicamente, a razão por si só não seria suficiente para garantir a verdade, em vista do estado subjetivo variável dos indivíduos. Mas, a opinião de um grande número conduz à aceitação de certas verdades, por exemplo, que existem corpos; estas verdades são as que se mostram indispensáveis à vida social, moral e física. Demonstras-se a existência de Deus pelo consenso unânime de todos os povos. Um ato de fé nas verdades recebidas pela tradição. O Papa seria o depositário desta tradição. Depois da condenação em 1832, apelou Lamennais a uma fórmula moderada e que denominou senso comum; este seria depositário da referida tradição.

Democracia, liberdade, educação com liberdade de consciência foram temas muito frequentes nos escritos de Lamennais, de acordo com Rousseaux. Eis o liberalismo católico modernizante difícil de ser aceito pelas instâncias oficiais dos tempos de Lammenais.

Obras: Ensaio sobre a indiferença em matéria de religião (Essai sur l'indifférence en matière de religion, 1817-1823); Da educação do povo (De l'éducatrion du peuple, 1618); Da educação considerada em suas relações com a liberdade (De l'éducation considérée das ses rapports avec la liberté, 1818); Da religião considerada em suas relações com a ordem política e civil (De la religion considéré dans ses rapports avec l'ordre politique et civil, em duas partes, 1825-1826); Do progresso da revolução e da luta contra a Igreja (Des progrès de la révolution et de la lutte contre l'Eglise, 1829); Palavras de um crente (Paroles d'un croyant, 1834); Assuntos de Roma (Affaiares de Rome, 1834); O livro do povo (Le livre du peuple, 1838); A política ao nível do povo (La politique à l'usage du peuple, 1838); A escravidão moderna (L'esclavage moderne, 1839); Esboço de uma filosofia (Esquisse d'une philosophie, 4 vols., 1840-1846); Discussão crítica e pensamentos diversos sobre a religião (Discution critique et pensées diverses sur la religion et la philosophie,, 1841); A religião (La religion, 1841); Do passado e do futuro do povo (Du passé et de l'avenir du peuple, 1841); Os Evangelhos (Les Evangiles, 2 vols., 1846), tradução e notas. Obras completas (Oeuvres complètes, 12 vols., 1836-1837), já em vida; Obras póstumas (Oeuvres posthumes, 1855-1859).

 

 

III - Ontologismo do século dezenove. 2216y816.

 

816. Essencialmente o ontologismo consiste em atribuir somente a Deus a causalidade, de maneira tão radical que até a operação de nosso conhecer ocorre senão através da ação divina, enquanto nossa parte neste proceder é senão aparente. Não conhecemos as coisas, porque não agem sobre nós, senão aparentemente. Mas, vendo a Deus, nele vemos todas as coisas.
Um primeiro ontologismo ocorreu no século 17, com o sistema de Malebranche (vd). Reapareceu o ontologismo no século dezenove no contexto dos espiritualismos ecléticos, na forma como foi apresentado por Antônio Rosmini-Serbati (1797-1855) (vd). Teve logo seguidores, entre outros, Vicente Gioberti (1801-1852), sacerdote e político, autor de várias obras, havendo apresentado o sistema ontologista em Introdução ao estudo da filosofia (Introduzione allo studio della filosofia, 1839-1840).
 

817. Antônio Rosmini (1797-1855). Filósofo e teólogo italiano, n. em Rovereto, região de Trento. De família nobre. Estudioso, frequentou a Universidade de Pádua. Ordenado padre em 1821. Doutor em teologia em 1822. Ao mesmo tempo que procedeu a novos estudos, esteve em Milão, 1826-1828, onde foi amigo de Manzoni. Estabeleceu residência no Piemonte, em 1836. Havendo fundado em 1828 a congregação religiosa Instituto de Caridade, dela alcançou a aprovação pontifícia em 1839. Finalmente, em 1848 Rosmini foi enviado pelo Ministro Gioberti do Rei da Sardenha, como embaixador ao Papa Pio IX, então ainda detentor dos Estados Pontifícios, com vista a encaminhar a federação dos Estados italianos. Permaneceu alguns anos em Roma, até com alguma influência; todavia suas idéias constitucionalistas e reformistas lhe criaram finalmente dificuldades junto às instâncias oficiais da Igreja. Foi passar os últimos anos em Stresa, onde faleceu relativamente novo, com 58 anos.

Tentou Rosmini reformular a filosofia, dentro de um sistema com diretrizes algo ecléticas, com elementos a um tempo platônico e agostinianos, kantianos e empiristas, estes através de Locke e Condillac, então em voga na Itália; chegou a ser um grande filósofo no contexto do espiritualismo eclético do século dezenove. Para explicar a formação das idéias universais supôs o ser como noção inata universal. Não obtém, pois, esta noção a partir de uma abstração das coisas sensíveis; por esta via atacam sobretudo os escolásticos e aristotélicos em geral ao pensamento de Rosmini. Segundo ele, o sensível nos dá o conhecimento do real, e não contém o universal; aqui se observa a linha platônico-agostiniana e ao mesmo tempo kantiana de Rosmini. Os juízos se tornam possíveis pela aplicação da forma indeterminada do ser universal às impressões sensíveis, matéria do conhecimento. Criar-se-iam, pois, desta maneira os juízos universais das ciências. Asseverou ainda Rosmini, que o ideal supõe o real; assim, para além da idéia inata do ser, está a realidade deste ser. Eis, por onde, a ontologia de Rosmini poderia derivar para o monismo panteísta.

O ontologismo de Rosmini se desenvolveu a partir da idéia inata do ser, por sobre a qual construiu toda a sua metafísica. Mais tarde Rosmini identificou parte dos atributos do ente universal com a divindade, chegando assim à uma doutrina ontologista mais precisa, e mesmo próxima do panteísmo. Entretanto, na intenção de Rosmini, Deus é um ser pessoal e criador do mundo.

Distinguem-se, em alguns pontos, Rosmini e Gioberti, que por vezes polemizaram, ainda que no mesmo campo.

Em moral, Rosmini foi rigorista. Em política, onde lutou pela unificação da Itália, foi um tanto liberal, sendo pois reformista diante da situação então vigente na Itália, sobretudo nos Estados Pontifícios; em consequência duas obras suas, editadas em 1846 e 1848, foram condenadas e incluídas no Index dos livros proibidos pela Igreja. Outras ações ainda serão movidas contra suas doutrinas, algumas até depois de sua morte. O caráter de Santo homem, criador mesmo de uma congregação religiosa, autor ainda de escritos pedagógicos e de espiritualidade, fizeram de Rosmini uma personalidade influente e duradoura.

Obras: Ensaio sobre a felicidade (Saggio sulla felicità, 1822); Da educação cristã (Dell'educazione cristiana, 1823); Opúsculos filosóficos (Opusculi filosofici, 1827-1828); Novo ensaio sobre a origem das idéias (Nuovo saggio sull'origine delle idee, 1830), obra principal; Princípios da ciência moral e história comparada dos sistemas morais (Principi della scienza morale e storia comparata dei sistemi morali, 1831-1837); Renovação da filosofia na Itália (Rinovamento della filosofia in Italia, 1836); A Renovação de Terêncio Maminai exposto e examinado (Il rinovamiento di Terenzio Mamiani esposto ed examinato, 1836); A antropologia a serviço da moral (L'antropologia in servizio della morale, 1838); Filosofia do direito (Filosofia del diritto, 1839-1841); Opúsculos morais (Opusculi morali, 1841); Tratado da consciência moral (Tratato della coscienza morale, 1844); Sistema filosófico, 1845; Teodicea, 1845; Das cinco pragas da Igreja (Delle cinque piaghe della Chiesa, 1846); A constituição segundo a justiça social (La costituzione secondo la giustizia sociale, 1848), sendo esta e a anterior obras de índole reformista, havendo sido condenadas pela Igreja conservadora de então; Introdução à filosofia (Introduzione alla filosofia, 1850); A lógica (La lógica, 1854). Póstumos: Do princípio supremo da metodologia (Del supremo principio della metodologia e delle sue applicazioni all'educazione, 1857); Aristóteles exposto e examinado (Aristotele esposto ed esaminato, 1858); Teosofia , 1859; Correspondência (Corrispondenza, 1875).
 

818. Um semi-racionalismo (católico) aconteceu em círculos teológicos depois de Hegel. Ainda que contrariando a Hegel, em parte o aceitam, ou por ele se deixam influenciar.

Similares foram as idéias, no que concerne à influência racionalizante do kantismo, de dois padres católicos G. Hermes (1775-1831), na Alemanha, que insistiu dever a fé ser razoável; Anton Günther (1783-1863), na Áustria, que, depois de revelada, a verdade assim alcançada admite converter-se em racional.

 

IV - Intuicionismo. 2216y819.
 
 

819. Foi o intuicionismo mais uma tentativa alogicista de filosofar, e que veio com raízes no positivismo, mas para o superar. O alogicismo já de tempos vinha se manifestando nos círculos ligados ao racionalismo, até também foi surgir em outros campos, crescendo sobretudo a partir do final do século dezenove. No século 17 fora Pascal (vd) um alogicista praticamente isolado. Crescerá o número dos alogicistas, depois que a Crítica da razão prática (1788) de Kant deu oportunidade ao caminho de informação por fora da razão pura; pela nova fonte trilharam diversas correntes ligadas ao kantismo, como a fenomenologia de Scheler, o voluntarismo de Schopenhauer, e até mesmo o existencialismo. Finalmente no contexto do positivismo, como já se adiantou, bem como do espiritualismo eclético francês emerge um movimento alogicista, cujo principal protagonista foi Henri Bergson (1859-1941) (vd), e que se difundiu sob a sigla de intuicionismo, como ainda por bersonismo.

No quadro do espiritualismo eclético e de suas variantes se detectam diferentes sinais precursores do intuicionismo. Sirva de exemplo H. Bergson (vd).
 

820. Henry Bergson (1859-1941). Filósofo francês, de origem judaico-polonesa pela via paterna, e mãe inglesa, nascido em Paris. Estudou no Liceu Condorcet. Ingressando em 1878 na Escola Normal Superior, atingiu a agregação ;em 11881, o doutorado em letras, em 1889. Professor vários anos na escola secundária, - em Angers (1881-1883),Clermont-Ferrand, Louis-le- Grand, por último no Liceu Henrique IV de Paris. Professor de filosofia na Escola Normal Superior, de 1897 a 1900, de onde passou ao Collège de France, 1900 a 1921. Eleito para a Academia Francesa (de Letras), em 1914. Prêmio Nobel de literatura, em 1927.

O ponto de partida da filosofia de Bergson é admissão de duas fontes de conhecimento: a intuição, descrita como procedimento alógico, a qual atinge a realidade com mais autenticidade que a simples razão; diferentemente, a razão, ou inteligência, opera a realidade apenas pelas suas relações extrínsecas, como acontece na ciência experimental, ou como quer o positivismo. A intuição foi também comparada por Berson ao conhecimento místico, como acontecia habitualmente em certos homens de conhecimentos especiais. O mesmo aconteceria no processo da poesia e da percepção artística mais profunda.

A intuição descobre a realidade como duração; descreveu-a Bergson como elan vital. É a intuição o primeiro instante do conhecimento, o qual atinge, por esta primeira operação cognoscitiva o fundamento das coisas, em si mesmas, em absoluto e não apenas por relações. Na intuição opera o homem sapiens; no outro conhecimento, o homem faber. No seu cotidiano, o homem costumar ser primeiramente um homem faber; progredindo, passa a ser um homem sapiens. A filosofia é uma reflexão sobre os dados da intuição. O outro tipo de conhecimento, peculiar à ciência, opera a partir de elementos já conhecidos, que são interrelacionados. A duração, ou o devir, é alcançada em si mesma apenas pela intuição, e seu conteúdo, como já se adiantou, é o objeto da filosofia.

Matéria e espírito são impulsos constitutivos da mesma duração da qual são os extremos; aqui Bergson é monista e evolucionista, com alguns sinais de haver sido influenciado pelo positivismo evolucionista de Stuart Mill (vd), um dos seus autores preferidos inicialmente. Além disto, o reducionismo de Bergson está em favor do espírito; a matéria é como que o espírito, ou seja o psíquico, em estado menos ativo, como uma degradação da vida com momentos menos ativos. O que acontece são alterações qualitativas, ora em estágio de espírito, ora em de matéria. O elan vital é o devir em sua marcha criadora, como virtualidade deste devir. Direções materiais e espirituais, evoluções diferenciando-se em instintivas e inteletuais continuam sempre formas da mesma realidade. A memória é o elemento integrador dos momentos da duração. Há neste intuicionismo uma evidente oposição ao positivismo e ao empirismo em geral. De outra parte, não é um racionalismo cartesiano. Insere-se o bergsonismo na tendência de alguns filósofos modernos, que, desde Pascal (vd), se apoiam numa intuição, descrita ora mais alogicamente, ora mais ecleticamente.

Deus e o mundo são praticamente a mesma coisa, vista esta em fases diferenciadas. Este monismo, sobre o qual Bergson contudo não insistiu, foi descrito como evolução criadora. Deus é um imenso fazer-se, não é nada terminado, como se fosse todo feito (tout fait). Ele é vida sem cessar, é um agir sempre, é liberdade. Comparou Deus criador com centro de irradiação de fogos de artifício, em que os foguetes individualmente representariam as diversidades dos mundos. Para afastar o caráter monista de tais expressões em Bergson, procura-se apoio em algumas de suas cartas, que parecem dizer que a duração em Deus é diferente da nossa.

A moral surge como uma necessidade da vida, revelando-se como amor, ao modo como é alcançado pela experiência mítica e praticada pelos místicos. Esta é a moral da sociedade aberta. Há também a moral resultante da pressão social, a moral da sociedade fechada, produzida pela razão comum. Ao estabelecer na necessidade da vida a fonte da moral, opõe-se à ética apriori de Kant, como também ao positivismo em geral.

De índole tolerante, Bergson teve relacionamento com os praticantes dos fenômenos espíritas como também com os católicos. Disse mesmo admirar o catolicismo, todavia como um aperfeiçoamento do judaísmo, em cujo contexto étnico fez contudo questão de se manter. "Minhas reflexões levaram-se cada vez mais perto do catolicismo, onde vejo o acabamento completo do judaísmo. Ter-me-ia convertido, se não tivesse visto preparar-se desde há anos (em grande parte infelizmente pela culpa de um certo número de judeus inteiramente desprovidos de senso moral) a formidável vaga de anti-semitismo que vai desabar sobre o mundo. Quis ficar entre os que serão amanhã perseguidos" (Testamento, de 8-2-1937).

Obras: Ensaio sobre os dados imediatos da consciência (Essai sur le donnés immédiates de la conscience, 1889), tese; A idéia de lugar em Aristóteles; (Quid Aristoteles de lodo senserit, com tradução francesa - L'idée de lieu chez Aristote, 1889), tese; Matéria e memória. Ensaio sobre as relações do corpo com o espírito (Matière et mémoire, essai sur la relation du corpsà l'esprit, 1896); O riso, ensaio sobre a significação do cômico (Le rire, essai sur la; signifation du comique, 1900); A evolução criador (Lévolution créatrice, 1907), obra principal; A energia espiritual (L'énergie spirituelle, 1919), coleta de artigos e conferências; Duração e simultaneidade. A propósito da teoria de Einstein (Durée et simultanéité. À propos de la théorie d'Einstein 1922), a propósito da teoria de Einstein; As duas fontes da moral e da religião (Le deux suources de la morale et de la religion, 1932); O pensamento e o movimento (La pensée et le mouvant, 1934), coletânea de textos; Escritos e palestras; (Écrits et paroles, I vol. 1957, II e III vols., 1959), póstumo, contendo prólogos, resenhas, discursos, etc.).

 

V - Filosofia da ação. 2216y821.
 
 

821. Definição. Entende-se por filosofia da ação a diretriz epistemológica, que no binômio do especulativo e do prático, opta por este último, como decisivo na determinação da verdade. Não se diz simplesmente do valor da atividade, porém de sua participação no processo determinador da verdade. Advertiu para este aspecto sobretudo Maurice Blondel (vd), cuja filosofia leva por isso mais que outras a denominação de filosofia da ação. A valorização da ação se encontra também presente no pragmatismo, em algumas formas de marxismo, em filosofias voluntaristas.
 

821.Maurice Blondel (1861-1949). Filósofo francês, nascido em Dijon. Inicialmente pensou fazer-se sacerdote. Defendeu tese de doutorado em 1893. Mestre de conferências na Universidade de Lille, 1895-1896. Professor em 1897 na Universidade de Aix-en-Provence, permanecendo no posto até sua enfermidade em 1927, aumento de surdez e diminuição de visão. Continuou na mesma cidade, escrevendo sempre.

Fez-se conhecer Blondel como chefe da filosofia da ação, partindo de um intuicionismo inicial, irrompendo depois para uma espiritualismo metafísico antipositivista, com aparência neoplatônica e tomista, eclética e misticista, com algumas moderações, e que o aproximam ao existencialismo cristão. A ação é um acontecimento originário que se coloca como acontecimento inicial. Além desta fato, a ação apresenta implicações e se estabelece com integrações com outros elementos. E assim, a ação enquanto acontece, vai revelando a realidade. Portanto, a ação enquanto revela, se institui como conhecimento da realidade; distinto do conhecimento nocional, o conhecimento pela ação atinge algo mais no objeto.

Não basta o conhecimento nocional como aquele da metafísica tomista. O misticismo se desenvolve a partir do conhecimento real. Não se trata de tomar a ação como sucesso, ao modo do pragmatismo, como quis William James, mas da ação enquanto é consciência de si mesma, e nessa consciência diga algo mais do que a simples noção.

Aceita embora por muitos, a tese da ação como via originária de conhecimento foi muito contestada, havendo Blondel se ocupado em defendê-la no curso de toda a sua vida e obras.

Obras: A ação. Ensaio de uma crítica da vida e de uma ciência da prática (L'action. Essai d'une critique de la vie et d'une science de la practique, 1893), tese de doutorado; Do vínculo substancial e da substância composta em Leibniz (De vinculo substanciali et de substantia composita apud Leibnitium, 1972 em tradução francesa Le lien substantiel et la substance composée d'après Leibniz, 1893), pequena tese; O processo da inteligência (Le procès de l'intelligence, 1922), em colaboração com Archambault; O itinerário filosófico de Blondel (L'intinéraire philosophique de Maurice Blondel, 1928), coletânea de textos, por F. Lefèvre; O problema da filosofia católica (Le problème de la philosophie catholique, 1932); O pensamento (La concreta e integral (L'être et les êtres. Essai d'une ontologie concrète e intégrale, 1935); A ação (L'action, I: Le problème des causes secondes et le pur agir, 1936, II: L'Action humaine et les conditions de son aboutissement, 1937), 2 vols., sendo este livro chamado "segunda Action" para distingui-lo da obra de 1893, dita "primeira Action"; Luta pela civilização e filosofia da paz (Lutte pour la civilisation et philosophie de la paix, 1939); A filosofia e o espírito cristão (La philosophie et l'esprit chrétien, 2 vols., 1954-1950): Cartas filosóficas de Maurice Blondel (Lettres philosophiqes de Maurice Blondel, 1951).

 

VI - Modernismo (Teologia modernista). 2216y822.
 
 

822. Com variados sentidos na arte plástica e na literatura, modernismo em religião foi um movimento acontecido principalmente na Igreja católica no sentido de amoldar a teologia ao pensamento moderno, tomando como base gnosiológica um conhecimento sentimental, através do qual se faria o conhecimento seguro da natureza de Deus e da religião. Representava o modernismo a aceitação das críticas ao intelectualismo feitas por William James, Bergson e o positivismo em geral, tornando insustentável pois o racionalismo da escolástica e da teologia como vinha sendo feitas pelas instâncias oficiais das Igrejas em geral.

Na França fizeram-se conhecidos os modernistas, entre os católicos: Alfred Loisy (1857-1940), Henri Bremon, Edouard Le Roy, notório bergsoniano, Wilbois; entre os protestantes Aug. Sabatier, J. Réville. Na Alemanha, o comando modernista foi do renomado Adolph Harnack (1851-1930), liberal e antidogmático, investigador erudito do cristianismo primitivo. Na Inglaterra foi modernista notório G. Tyrrel (1861-1909). Na Itália fez renome A. Fogazzaro (+1911).

O Papa Pio X agiu com muita rigidez contra os modernistas, através do Syllabus (1907) e na Enciclica Pascendi, onde resume a doutrina que condena, obrigando ainda ao clero do mundo inteiro a um juramento anual antimodernista.
 

823. Alfred Loisy(1857-1940). Teólogo e filósofo francês, nascido em Ambrières, Marne. Inicialmente padre católico, ordenado em1879. No Instituto Católico de Paris foi brilhante professor de hebraico desde 1881, de exegese bíblica desde de 1889. O então Diretor e fundador Monsenhor Marucie d'Hulst favoreceu aos professores o uso de novos métodos de tratamento da teologia cristã. Mas a Sé Romana, mantenedora do controle doutrinário dos estabelecimentos católicos, destituiu em 1893 a Loisy de sua cátedra. Foram suas obras colocadas no Index dos livros proibidos em 1903. Afastou-se Loisy definitivamente da Igreja católica, e foi ser professor de histórias das religiões no Collège de France, onde, com liberdade de cátedra, lecionou de 1909 a 1926; foi também professor de história das religiões, desde 1924, nacole des Hautes Études.

Segundo o modernismo, professado por Loisy como um dos seus principais promotores, o cristianismo teria resultado de uma superação da fase em que os primeiros discípulos de Jesus acreditavam em uma eminente realização do reino de Deus. Em virtude da demora desta segunda vinda, formou-se a organização institucional da Igreja e a cristalização das doutrinas em dogmas. Loisy, passando a um plano generalizado, admitiu que a religião evoluiria no curso dos tempos, até assumir a forma de religião universal, fundada na noção de humanidade. É essencial ao pensamento de Loisy que já no passado bíblico ocorrera a evolução dos dogmas, o que ele buscava mostrar pela exegese dos textos.

Do ponto meramente filosófico, Loisy revelou tendências imanentistas.
Obras: História do Cânon do Antigo Testamento (Histoire du Canon de l'Ancien Testament, 1890); História do Cânon do Novo Testamento (Histoire du Canon du Nouveau Testament, 1891); História crítica do texto e das versões da Bíblia (Histoire critique du texte et des versions de la Bible,1892-1893); Estudos bíblicos (Études bibliques, 1901); A religião de Israel (La réligion d'Israel, 1901); Os mitos babilônicos e os primeiros capítulos do Gênesis (Les mythes babyloniens et les primieres chapitres de la Genèse, 1901); O Evangelho e a Igreja (L'Évangile et l'Eglise, 1902), havendo despertado grande polêmica; O Quarto Evangelho (Le quatrième Evangile, 1903); Os Evangelhos Sinópticos (L'Évangiles synoptiques, 2 vols., 1907-1908); Jesus e a tradição evangélica (Jesus et la traditions évangéliques, 1910); Os mistérios pagãos e o mistério cristão (Le mysthères paiens et le mysthère chrétienn, 1919); Os Atos dos Apóstolos (Les Actes des Apôtres, 1920); Ensaio histórico sobre o sacrifício (Essai historique sur le sacrifice, 1920); As origens do Novo Testamento (Les origines du Nouveau Testament, 1936); propósito da história das religiões (A propos d'histoire des religions, 1911); A moral humana (La morale humaine, 1923).
 

 

VII - Escolástica renovada. 2216y824.
 
 

824. Fatores propícios certamente houve para que a retomada da antiga escolástica ocorresse no curso do século dezenove, e a fizessem entrar século vinte a dentro com uma vasta literatura, tanto em línguas nacionais, como na latina. Estímulos os mais diversos possibilitaram este movimento de renovação. Houvera a escolástica desaparecido quase totalmente durante o século das luzes, como que ofuscada pelas novas filosofias racionalistas cartesianas e kantianas, bem como ainda pela prosperidade do empirismo. Os espiritualismos ecléticos do século 19, de certo modo criaram o clima para a referida renovação da escolástica; paradoxalmente, estes mesmos ecletismos espiritualistas, ao se mostrarem inconsistentes, superaram-se a si mesmos em favor do escolasticismo.

Houve ainda mais fatores a favorecer a renovação escolástica. Um destes outros fatores foi o crescente interesse pela história da filosofia, e com isso o interesse pela filosofia dos gregos, em especial de Aristóteles, de quem em parte a escolástica dependia. Até Kant inclusive, os filósofos não costumavam conhecer aprofundadamente a história da filosofia.

Adolf Trendelenburg (1802-1872), professor de Berlim, foi um destes notáveis historiadores da filosofia de nova geração, com profundos conhecimentos de Aristóteles, ao mesmo tempo que apreciador de suas idéias. Autor de Investigações lógicas (Logische Utersuchungen, 1840), Direito natural fundado na ética (Naturrecht auf dem Grunde der Ethick, ). Admitiu uma concepção organizada do universo, e portanto um finalismo geral. Nesta integração geral colocou também o direito natural como fundado na Ética.

Não ficou sem seguidores o movimento de Trendelenburg. Apesar do domínio neokantiano na Alemanha, havia ainda uma reminiscência escolástica na Europa Central, sob a velha inspiração do Império austríaco. "Os mais importantes dos seus discípulos foram Franz Brentano, G. Von Hertling, G. Willmann, G. Teichmüller, R. Eucken"(Hirschberger, em Hist. da fil. Contemporânea).

A tendência neokantiana, de certo modo, controlou o realismo de Trendelenburg. E assim não passava de uma inspiração no sentido de manter algumas teses clássicas. A do intencionalismo, que teve andamento no pensar de Brentano e depois de Husserl, é um exemplo disto.

A presença de Aristóteles continuou subtilmente ainda no pensamento contemporâneo. Sempre que algo de geral e absoluto é admitido, mesmo que seu nome não seja lembrado, encontra-se ele presente e atuante.

Outro estímulo da renovação escolástica foi a persistência de uma velha e bruxoleante tradição, como já nos adiantamos em dizer, a qual conseguiu finalmente oportunidade para se renovar. Havia escolásticos remanescentes sobretudo na Europa Central, sob a influência do então vasto império católico da Áustria, cuja capital era então a maior cidade da Europa. Mas também os havia na Itália e Espanha. Um dos escolásticos remanescentes e que veio sendo lido através do tempo foi Sigismundo Storchenau(1751-1797, jesuíta austríaco, que publicou em Viena Institutiones logicae et metaphysicae. Eram textos lidos até mesmo no Brasil Império. Persistia a escolástica no século 18 sobretudo nas Ordens religiosas, por força do tradicionalismo que lhes é peculiar.

Ainda foi decisivo para a renovação escolástica a alteração das circunstâncias político-religiosas após as guerras napoleônicas. Readquiriu a Igreja católica um relativo desenvolvimento. Criaram-se novas congregações religiosas, e a ordem dos jesuítas foi restabelecida em 1814. Teve andamento até um espírito apostólico renovador, em algumas regiões até com caráter extremista e fanático. A tendência fundamentalista do Concílio de Trento houvera sido retomada pelo Concílio Vaticano I (1870). Mas haveria de ser amenizado pelo Concílio Vaticano II (1963).

De qualquer forma, esta situação exterior da Igreja, interessada no movimento de renovação escolástica, estimulou o movimento. Não sendo embora os jesuítas os principais renovadores, são os que participaram na Itália, de importantes lances do movimento.

Finalmente, um seu aluno, que será Papa sob o nome Leão XIII, emitirá em 4 de agosto de 1879 a Carta Encíclica Aeterni Patris, que determinará o retorno aos pensadores escolásticos nos seminários e universidades católicas. E este retorno se faria sob a égide principal de Tomás de Aquino. Além dos comentaristas antigos reimpressos (Capréolo, Silvestre de Ferrara, Cajetano, João de Santo Tomás e outros), surgiram comentaristas modernos de Santo Tomás: Sattolli, Cardeal Billot, T. Pègues, L. Jansens, G. Matiussi, L. A. Paquet, H. Buonpensiere. Também se multiplicaram os cursos Ad mentem sancti Thomae.

Os dominicanos praticaram um tomismo mais puro. Os jesuítas, com atenuantes, tal como ocorria com os seus grandes mestres do século 16. Suarez e Molina. Não deixaram os franciscanos de prestigiar a forma escolástica de Duns Scoto.

Finalmente, o movimento de renovação escolástica representou também um cerrada crítica às filosofias modernas. Ainda que estas nem sempre se advertissem da força argumentativa dos seus adversários escolásticos, ou porque não conhecessem o seu latinório, ou porque fossem por demais convencidos de si mesmos, a crítica dos escolásticos foi o que historicamente mais valeu como aporte ao desenvolvimento da filosofia.
 

825. Diversificação das correntes escolásticas modernas.
Do ponto de vista moderno, o que mais divide os escolásticos é a questão gnosiológica, retomando uns o realismo imediato, peculiar aos antigos e medievais, e o realismo mediato, típico de Descartes. Como se sabe, os modernos em geral, sejam cartesianos, sejam empiristas, dão conhecimento uma interpretação fenomenista; o que se conhece é primeiramente o fenômeno, sendo necessário a seguir provar que este fenômeno tenha atrás de si um objeto real.

O realismo mediato foi admitido por algumas correntes da escolástica restaurada. Por não pertencer este detalhe à tradição, a escolástica do realismo mediato se denomina com mais propriedade uma neo-escolástica; por contraste, a outra é a escolástica simplesmente. Os neo-escolásticos abertos às correntes modernas foram também denominados progressistas. Importa, contudo, advertir que as denominações podem iludir, porque, porquanto é possível usá-las em diferentes sentidos.

Notabilizou-se como neo-escolástico do realismo mediato o Cardeal Desidério Mercier (1851-1926). Joseph Marechal, S.J. (1878-1944), professor em Louvain, autor de O ponto de partida da metafísica (L'e point de départ de la métaphysique, 1922-1923).

Outros preferiram manter a posição mais tradicional em gnosiologia. Entre estes se encontram: Reginaldo Garrigou-Lagrange (1877-1964), tomista dominicano, filósofo e teólogo a um tempo; Jaques Maritain (1882-1973), com estudos de gnosiologia comparativa tomista e moderna; Etienne Gilson (1884-1978), erudito autor de O realismo tomista e a crítica do conhecimento (Leréalisme thomiste et la critique de la connaissance, 1932), além de numerosos estudos comparativos sobre a escolástica e a filosofia moderna; Régis Jolivet (1891-1966), com excelentes trabalhos didáticos.

As escolas tradicionais, referentes sobretudo à metafísica, também ressurgiram: tomismo (com maior destaque), escotismo, suarezianismo, agostinianismo.

Encontrava-se, pois, finalmente, ali, de volta, o acervo inteletual da antiga escolástica, sobretudo na Itália, península ibérica, na Europa central, França, Inglaterra e países com as mesmas línguas. O uso frequente do latim possibilitou o uso dos mesmos materiais didáticos nos seminários e universidades que usavam ainda o latim. Também o francês foi logo um instrumento facilitador da difusão fora da Europa, e logo também o espanhol, como o alemão na Europa central.
 
 

 
826. Na Itália ocorreram as primeiras iniciativas da renovação escolástica moderna, que tiveram prosperidade imediata.

Vicente Buzzetti (1777-1824), do clero secular e cônego da Igreja, é considerado o iniciador da escolástica renovada da Itália, no seu tempo ainda dividida em vários Estados. Professor no Seminário de Piacenza, norte da Itália, despertou para o ensino puro e simples da filosofia escolástica.

Teve continuadores sobretudo nos seus alunos, especialmente nos irmãos Domingos Sordi (1770-1880) e Serafim Sordi (1795-1865), que se tornaram jesuítas ao ser restabelecida esta ordem religiosa.
 
O interesse de Buzzetti pela filosofia de Tomás de Aquino ocorreu em contato com jesuítas espanhóis, então expulsos da Espanha, alguns deles acolhidos no norte da Itália. Havendo atuado apenas através do magistério, deixou contudo um inédito Curso de sã filosofia (Institutiones sanae philosophiae), edição póstuma em 2 vols., 1940-1941, e outra em 3 vols. Os temas tratados e cobrem a lógica, metafísica, psicologia, cosmologia, etica, e têm a diretriz tomista, por exemplo o hilemorfismo e a distinção real entre essência e existência.
 

Caetano Sanseverino (1811-1865), sacerdote napolitano, desenvolveu um trabalho considerável em meiados do século em favor da renovação escolástica, como professor universitário e como plicista. Fundava em 1840 a revista Scienza e Fede (Ciência e Fé) e em 1846 a Academia de filosofia tomista, que em 1876 passaria a ser Academia de Santo Tomás. Desenvolveu em Nápoles um centro de estudos tomistas. Publicou Filosofia cristã comparada, com a antiga e nova (Philosophia christiana cum antiqua et nova comparata, 7 vols, Nápoles, 1862), em latim; Elementos de filosofia cristã (Elementa phiosophiae christianae, 3 vols., 1864-1865), em latim, e usado em diversos seminários da Europa.

Restabelecida a ordem dos Padres Jesuítas em 1814, não demoraram a se restaurar seus colégios na Itália e a sua Universidade Gregoriana, esta em Roma, ganhando rapidez a renovação escolástica. O mesmo acontece com os institutos superiores das demais ordens religiosas em Roma, com destaque o Angelicum, dos dominicanos, e o Antonianum, dos franciscanos.

Finalmente, ocorreu a coordenação oficial com detalhes na encíclica Aeterni Patris (1879) de Leão XIII, e que valeu não somente para a Itália, mas para as instituições católicas de todos o mundo, em alguns casos até com envio de professores. Pela inversa, lecionaram Roma, enviados pelas ordens religiosas, professores franceses, alemães e outros.
 

Escolásticos italianos: jesuítas, - Matteo Liberatore (1810-1892), autor de Instituições filosóficas (Institutiones philosopphicae, ), bem como de várias obras traduzidas ao francês, do Conhecimento nteletual (Du connaissance intellectuelle,1857), Do composto humano (Du composée humaine), Da composição dos corpos (Du composition des corps, 1878), Princípios de economia política (Principes d'économie politique, 1894).
Outros escolásticos jesuítas italianos do século dezenove: Luigi Taparelli D'Azeglio (1793-1862), primeiro reitor do Colégio Romano, restituído aos jesuítas, quando do restabelecimento da Ordem, e autor de Ensaio teórico do direito natural, apoiado sobre o fato (Saggio teòrico di diritto naturale appogiato sul fatto, 5 vols, 1840-1843);

Salvatore Tongiorgi (1820-1865), professor por longo tempo do Colégio Romano a partir de 1853, autor de uma Institutiones philosophicae, 3 vols.1861-1861, com uma dezena de edições no curso do século;
 

João M. Cornoldi (1822-1892), que contrariou aos tomistas dissidentes surgidos na Universidade Gregoriana;
 

Domênico Palmieri (1829-1909), professor em Roma e em Mastrich (1880), e autor de Instituições filosóficas (Institutiones philosophicae, 3 vols., 184-1876);
 

Guido Mattiussi (1852-1925), professor da Gregoriana e que trabalhou na elaboração das conhecidas 24 teses que caracterizam a filosofia de Santo Tomás, publicadas em1917.
 

Dentre os dominicanos se destacou Tomás Maria Zigliara (1833-1893), nascido na Córcega, que lecionou em Viterbo e por último em Roma. Em 1879 foi nomeado pelo Papa Leão XIII Cardeal e Presidente da Academia de Santo Tomás, bem como da Comissão editora das obras de Santo Tomás; desta comissão resultou a Editio leonina, que garantiu o amplo conhecimento do tomismo em seu mesmo original. Pela obra pessoal, Zigliara atuou no sentido da restauração do genuíno pensamento do sistema tomista, advertindo sobre as diversificações trazidas pelo ontologismo e pelo tradicionalismo, formas espiritualistas ecleticistas recentes.

Obras: Ensaio sobre os princípios do tradicionalismo (Saggio sui principii del tradizionalismo, 1865 ); Observações sobre algumas interpretações da doutrina ateológica de S. Tomás de Aquino (Osservazione sopra alcune interpretazioni della dottrina ideologica di S. Tommaso d'Aquino, dal professore G. C. Ubaghs, 1870); Da luz inteletual (Della luce intellettuale e dell'ontologismo, secondo le dottrine dei ss. Agostino, Bonaventura e Tomaso, 2 vols.1871); Suma filosófica para uso das Escolas (Summa philosophica in usum scholarum, 3 vols., 1876), com várias edições; Sobre o sentido do Concílio Vienense na definição da união da alma com o corpo (De mente Concilii viennensis in definitione unionis animae cum corpore, 1878).
 

Outro dominicano escolástico na Itália: Alberto Lepidi (158-1922), professor no Ateneu Angelicum, autor de Exame teológico e filosófico do ontologismo (Examen ilosophico-theologicum de ontologismo), e também de um curso didático..
 

Notável foi também a ação do franciscano Agostinho Gemelli (1878-1959), a frente da Universidade Católica de Milão, sendo ele mesmo sobretudo um psicólogo.
 

827. Na Espanha e Portugal, bem como em países de língua espanhola e portuguesa, a escolástica renovada moderna se tornou cedo uma vasta realidade, ainda que um século antes houvessem sido expulsos os jesuítas. O preparador da nova situação, favorável à escolástica, foi Jaime Balmes, um sacerdote do clero secular, e que morreu prematuramente.
 

Jaime Luciano Balmes (1810-1848). Filósofo, teólogo e apologista católico espanhol, nascido em Vic (Catalunha), em cujo seminário estudou, concluindo estudos na Universidade de Cervera, para se ordenar em 1834. Estabelecido inicialmente em Barcelona e depois em Madrid, foi imediatamente conduzido pelo espírito apologético de defesa da Igreja Católica, havendo em seus escritos atacado principalmente o protestantismo e a filosofia moderna. De outra parte, sem ser um tradicionalista, buscou adequar a tradicional escolástica, de sorte a criar um sistema eclético, que depois derivou para a renovação escolástica propriamente dita, de cuja renovação moderna foi um precursor direto. Havendo enaltecido a Tomás de Aquino, não retomou dele teses essenciais ao tomismo, pois rejeitou a distinção real de essência e existência, as espécies impressas do conhecimento. Esteve mais próximo de Francisco Suarez da tradição escolástica jesuíta espanhola. Também Descartes o influenciou. Todavia em teoria do conhecimento é contrário a todos os cartesianos e kantianos, porque estabeleceu o começo dogmático da certeza como uma certeza natural; esta certeza natural contém desde o início princípios explicitamente evidentes: a consciência, o princípio de não contradição, a realidade do mundo por conta do senso comum. Opôs-se, por conseguinte diretamente ao método da dúvida metódica de Descartes e ao idealismo kantiano. Balmes foi o inspirador do conservadorismo espanhol. Em 1844 fundou em Madrid uma publicação de caráter clerical e monarquista El pensamiento de la nación (O pensamento da nação). Por isto, e também porque defendesse o centralismo espanhol, seu nome foi renovado e promovido no decorrer do governo ditatorial de Francisco Franco. Obras: O protestantismo comparado com o catolicismo em suas relações com a civilização européia (El protestantismo comparado con el catolicismo en suas relaciones con la civilización europea, 18 -1844); O critério (El criterio, 1845); Filosofia fundamental (Filosofia fundamental, 4 vols., 1848), obra principal.
 

Desenvolveu-se a escolástica espanhola particularmente a partir da segunda metade do século dezenove, especialmente com Zeferino Gonzalez (1831-1894), dominicano, em 1885 cardeal Arcebispo de Toledo. Tomista puro, contrário às filosofias modernas e aos espiritualismos mal fundamentados como, segundo ele, o de Reid e de Cousin, quer, de outra parte excluir da filosofia do passado os seus elementos anacrônicos do ponto de vista científico.

É autor de Filosofia elementar para uso da juventude acadêmica, especialmente eclesiástica (Philosophia elementaria ad usum academicae ac praesertim ecclesiastcae juventutis, 3 vols., 1868), com novas edições e tradução em espanhol; Estudos religiosos, filosóficos, científicos e sociais (Estudos religiosos, filosóficos, cientificos y sociales, 2 vols, 1873); Estudos sobre a ;filosofia de Santo Tomás (Estudios sobre la ;filosofia de Santo Tomás, 1864); História da filosofia (Historia de la filosofia, 3 vols., 1878-1879), com reedição em 4 vols., 1885.

Outros escolásticos espanhóis: J. M. Ortí y Lara (1826-1904), A. Comellas y Cluet (1832-1884), J. Mendive (1836-1906), Juan José Urraburu (1841-1904).
Em Portugal, logo após a Encíclica Aeterni Patris (1879), foi introduzido o curso de filosofia tomista no seminário de Coimbra. Para melhoria deste ensino foi pedido a Roma um professor adequado.
 

Foi quando Cornoldi indicou a Giacomo Sinibaldi (1856-1928), chegado ao posto em setembro de 1886. autor de um curso de filosofia em língua portuguesa Elementos de filosofia, 2 vols., 1891-1892. Finalmente retornou à Roma.

Foi Sinibaldi também lido no Brasil. Ainda ocorreu no Brasil a influência de Louvaina, onde estudara José Soriano de Sousa (1833-1895), autor de um Compêndio de filosofia, que circulou nos seminários. Ocorreu logo ainda a presença de jesuítas alemães, vindos em função à imigração do Sul do País, mas trazendo todo o elenco da literatura latina da nova escolástica.
 

828. Na França o movimento de restauração da escolástica não ocorreu tão cedo quanto em outros países. A presença dos espiritualismos ecléticos ocupava os espíritos. Quando, porém, o movimento deu seus primeiros sinais, tornou-se muito representativo, no que se refere à qualidade. O mesmo se pode dizer da Bélgica (vd 828) e Suíça francesa.

O Instituto Católico, de Paris, teve importante papel na renovação da filosofia escolástica na França, o que aconteceu sobretudo a partir da ação do reitor Mgr. D'Hulst (1841-1906). Contou de início com a colaboração de Rt. De Broglie (1834-1895), Cl Piat (+1918) e de Peillaube, este fundador da Revue de Philosophie, fundada em 1900, como órgão do Instituto, sendo ainda autor de Siger de Brabante, 1911. Sobretudo os primeiros professores se ligam algum tanto aos espiritualismos ecléticos. Depois haverá significativos professores, entre outros Jacques Maritain, de 1914 a 1939.
 

Na investigação histórica se destacaram P. Mandonnet (1858-1936), fundador da Biblioteque thomiste;
 

P. Ephrem Longpré, do Colégio de Quarachi (perto de Florença), autor de A filosofia de B.Duns Scott (La philosphie du B. Duns Scott, 1924);
Étienne Gilson (1884-1978), leigo, diretriz tomista, professor da Sorbonne a partir de 1921, com um extraordinário volume de obras, diretor dos Etudes philosophiques médievales, e autor de O tomismo. Introdução ao sistema de Tomás de Aquino (Le thomisme. Introduction au systhème de saint Thomas d'Aquin, 1919), Realismo tomista e crítica do conhecimento (Réalisme thomiste et critique de la connaissance, 1939), A filosofia na Idade Média (La philosophie au Moyen âge, 1947), O espírito da filosofia medieval (L'esprit de la philosophie médiévale, 1948), O ser e a essência (L'être el l'essence, 1948), além de importantes monografias históricas, sobre Agostinho, Boaventura, Tomás de Aquino;
 

Th. De Régnon, autor de Estudo sobre a Trindade (Étude sur la Trinité, 1892), Metafísica das causas (Metaphysique des causes);
 

Thomas Pègues (1868-1936), dominicano, com magistério em Toulouse e Roma (Angelicum 1909-1921) ,fez o comentário literal à Suma teológica de Santo Tomás Comentário francês literal da Suma Theológica de Sto. Tomás (Commentaire française littéral de la Somme Théologique de St. Thomas dÁquin, 21 vols., Toulouse, 1907-1932), um Dicionário da Suma Teológica e do comentário francês literal (Dictionnaire de la Somme Théoloqique de St. Thomas d'Aquin, 2 vold., 1935), além de autor de Iniciação tomista (Initiation thomiste), editor alinda, com Caslas Paban, de obra de Capréolo Defensiones theologicae divi Thomae Aquinatira, 7 vols.(1900-1908).
 

Dominantemente teóricos: Domet de Vorges (1829-1910);

Ambroise Gardeil (1859-1931), dominicano, cofundador da Revue thomiste (1893), onde contestou o positivismo, o idealismo e o neokantismo, também autor de livros, alguns apologéticos e sobre espiritualidade;
 

Antonin Dalmace Sertillanges (1863-1948), autor de A filosofia de Santo Tomás de Aquino (La philosophie de S. Thomas d'Aquin, 2 vols.,1910), afinidades com o bergsonismo;
 

Pierre Descoqs (1877-1946), jesuíta, escolástico anti-tomista, destacado metafísico, autor de Ensaio crítico do hilemorfismo (Essai critique de l'hylemorphisme, 1924), Tratado de metafísica geral (Institutiones metaphysicaegeneralis, 1925), Tomismo e escolástica (Thomisme et scholastique, 1927; A distinção de essência e existência (La distinction d'essence et d'existence, 1929; Preleções de teologia natural (Praelectiones theologiae naturalis, 2 vols., 1932-1935);
 

Reginaldo Garrigou-Lagrange (1877-1964), aluno da Sorbonne, quando decidiu ser dominicano , professor em Saulchoir, Bélgica (1905-1909), depois no Angelicum, em Roma, tomista dos mais respeitáveis, autor de O senso comun (Le sens commun, 1909), A síntese tomista (La synthèse thomiste, 1946); Deus (Dieu, 1950); Pierre Rousselot (1878-1915), prof. do Instituto Católico de Paris, morto na guerra, porém de grande influência, autor de O intelectualismo de Santo Tomás (L'intellectualisme de S. Thomas, 1924);
 

Bernard Roland-Gosselin (1886-1962), prof. no Instituto Católico de Paris, autor de Realismo tomista e crítica do conhecimento (Réalisme thomiste et critique de la connaissance, 1939), Ensaio de uma crítica do conhecimento (Essai d'une critique de la connaissance, 1932);
 

F.- X. Maquart, professor no Seminário Maior de Reims, tomista puro, autor de Elementa philosophiae, 4 vols.,1937-1938;
 

Charles Boyer (1884-1965), jesuíta francês, professor na Universidade Gregoriana, em Roma, tomista puro, com estudos especiais sobre o neoplatonismo de Santo Agostinho, autor de Christianisme et néo-platonisme dans la formation de St. Augustin, 1920, L'idée de vérité dans la philosophie de St. Augustin, 1920, essai sur la doctrine de St. Augustin, 1932 In concetto di storia nell'idealismo e nel tomismo, 1935, S. Agostino, 1947e ainda autor de um Curso de filosofia (Cursus philosophicus, 2 vols.).
 

Jacques Maritain (1882-1973). Filósofo francês, nascido em Paris. Estudou na Sorbonme, ali conhecendo em 1901 a judia de origem russa, de nome Raissa Oumançoff, também filósofos e escritora, com quem casaria em 26 de novembro de 1904. Escutou em 1901 e 1902 lições de Henri Bergson no Collège de France. Concluía estudos na Sorbone em 1905. Licenciado em ciências naturais e agregado de filosofia. Educado no protestantismo liberal, sob influência de Leon Blois passou em 1905 à prática do catolicismo, deixando-se batizar, juntamente com Raissa. Na Alemanha aprofundou estudos de biologia na Universidade de Heidelberg, de 1906 a 1908. Nos anos de 1909 e 1910 aprofundou o estudo do pensamento de Tomás de Aquino, desde quando também passou a ser um divulgador do mesmo juntamente com o pensamento moderno. Examinou os temas do modernismo (vd) teológico e as teses liberantes do movimento da L'Action Française, atento também às reservas feitas pela Igreja Católica. Lecionou longamente no Instituto Católico de Paris, de 1914 a 1939. No Canadá, ministrou, desde 1932, cursos no Instituto de Estudos Medievais de Toronto. Com a Grande Guerra deu novo rumo às suas atividades, estabelecendo-se nos Estados Unidos da América, lecionando na Universidade de Princeton, de 1941 a 1942, depois na Universidade de Colúmbia, Nova Iorque. Terminada a guerra, passou a embaixador da França junto ao Vaticano, 1945-1948. Raissa faleceu em 1960, já de novo na França. No ano seguinte acolheu-se Maritain ao convento dos Pequenos Irmãos de Jesus, em Toulouse, dedicando-se à contemplação mística. Com profissão religiosa em 1971, faleceu dois anos depois, já nonagenário.

O pensamento tomista de Maritain serviu-lhe de parâmetro para a abordagem e julgamento de situações concretas, como a política, a educação, a arte e a religião vigentes. Mas tratou também da base mesma da gnosiologia, decidindo-se pelo realismo imediato e intuição do ser, tal como no aristotelismo e na escolástica originária. Diferenciou a filosofia e a ciência experimental, bem com diferenciou entre si as diversas ciências filosóficas. Advertiu para a diferença entre o tema da lógica e o da gnosiologia.

Diferenciou o tema geral do ser, daquele outro do ser particularizado da filosofia da natureza. Com referência à natureza, por sua vez, a filosofia tomista deve tratá-la com o uso de novos recursos oferecidos pela ciência moderna. O mesmo deverá fazer na psicologia. Tais advertências importavam sobretudo no seu tempo, quando a escolástica moderna mal minha se desenvolvendo.

Fixando-se nos fundamentos da moral e da lei natura. Insistiu na distinção entre indivíduo e pessoa, para destacar a esta. Foi muito claro no seu pensamento democrático, de que o exemplo foi sua atitude contra a revolução de Franco contrariando o resultado das urnas na Espanha. Seu modelo social foi o de um novo humanismo, resultante da reformulação do teocentrismo medieval.
Na questão que dividia bagnesianismo e molinismo, manifestou-se contra este; com isso evidentemente desgostou alguns setores jesuítas.

Obras de Maritain: A filosofia bergsoniana (La philosophie bergsonienne, 1913); Arte e escolástica (Art et scholastique, 1920); Elementos de filosofia (Eléments de philosophie) I - Introdução geral à filosofia (Introduction génerale a la philosophie , 1921) II - A ordem dos conceitos, pequena lógica (L'ordre des concepts, Petite logique, 1923), havendo o curso ficado incompleto, todavia complementado no seu conteúdo por outros títulos; Antimoderne, 1922; Reflexões sobre a inteligência e a vida própria (Réflexions sur l'intelligence et sur sa vie propre, 1924); Da vida de oração (De la vie d'oraison, 1914), com Raissa; Tres reformadores (Trois reformateurs, 1925); Prioridade do espiritual (Primauté du spirituel, 1927);O Doutor Angélico (Le docteur Angélique, 1929); Religião e cultura (Religion et culture, 1930); Distinguir para unir, ou os graus do saber (Distinguer pour unir ou Les degrés du savoir, 1932), apreciado estudo de gnosiologia e epistemologia; Da filosofia cristã (De la philosophie chrétienne, 1933); Sete lições sobre o ser (Sept leçons sur l'être, 1934); Fronteiras da poesia (Frontières de la poésie, 1935); A filosofia da natureza, ensaio crítico sobre suas fronteiras e seu objeto (La philosophie de la nature, essai critique sur ses frontières et son objet, 1935; Humanismo integral (Humanisme intégral, 1936), ensaio de filosofia política e social de repercussão nos meios cristãos; Situação da poesia (Situation de la poésie, 1938), com Raissa; Questões de consciência (Questions de conscience, 1938) Quatro ensaios sobre o espírito na sua condição carnal (Quatre essais sur l'esprit dans sa condition charnelle, 1939; Através do desastre (Atravers du désastre, 1941); O crepúsculo da civilização (Le crépuscule de la civilization, 1941); Confissão de fé (Confession du foi, 1941); Os direitos do homem e a lei natural (Les droits de l'homme et la loi naturelle, 1942), marca um começo de intensificação de estudos políticos; Cristianismo e democracia (Christianisme et démocratie, 1943); Princípios de uma política humanista (Principe d'une politique humaniste, 1944); De Bergson a Tomás de Aquino (Du Bergson à Thomas d'Aquin, 1944); Princípios de uma política humanista (Principes d'une politique humaniste, 1944); Pela ;justiça: artigos e discursos (Pour la justice: articles et discours - 1940,1945- , 1945); A pessoa e o bem comum (La personne et le bien commun, 1947); A educação na encruzilhada de caminhos (L'éducation à la croisée des chemins, 1947); Curto tratado da existência e do existente (Court traité de l'existence et de l'existente, 1947; Razão e razões (Raison et raisons, 1948); A significação do ateísmo contemporâneo (La signification de l'athéisme contemporain,

1949); O homem e o Estado (L'homme et l'Etat, 1951); Nove lições sobre as noções da filosofia primeira (Neuf leçons sur les notions premières de la philosophie morale, 1951); O homem e o Estado (Man and the State, 1952); A intuição criadora em arte e em poesia (L'intuition créatrice en art et en poésie, 1953); Aproximações de Deus (Aproximatiions de Dieu, 1953); Por uma filosofia da história (Pour une philosophie de l'histoire, 1957); Reflexões sobre a América (Reflexions on America, 1958); Por ;uma filosofia da educação (Pour une philosophie de l'éducation, 1959); Liturgia e contemplação (Liturgie et contemplation, 1959); O filósofo na cidade (Le philosophe dans la cité, 1960); A responsabilidade do artista ( The responsability of the artist, 1960); A filosofia moral (La philosophie morale, 1960), um exame crítico dos grandes sistemas; Aproximação do homem a Deus (Man's approach to God, 1961); Sobre a utilidade da filosofia. Três ensaios (On the use of the philosophy . Three essays, 1963); Deus e a permissão (Dieu et la permission du mal, 1963); O camponês de Garona (Le paysan de la Garonne,1966), confissões pessoais, e em que declara extremistas certas medidas do Concílio Vaticano II; Da Igreja de Cristo (De l'Eglise du Christ, 1970); Aproximações sem entraves (Approches sans entraves, 1973), reunião de escritos póstumos.
 

829. Na Bélgica o centro de irradiação da renovação escolástica foi em Lovaina, com um Instituto Superior de Filosofia Tomista agregado a Universidade, onde se destacaram Cardeal Joseph Mercier, secular, (1851-1926) (vd).
 

Descaram-se: Maurice de Wulf (1867-1947), prof. em Lovaina, autor de História da filosofia medieval (Histoire de la philosophie médiévale, 1934-1947);

Simon Deploige (1868-1927), sacerdote, sucessor de Mercier, em 1906, na direção do Instituto Superior de Filosofia Tomista de Louvaina, autor de O conflito da moral e da sociologia (Le conflit de la morale et de la sociologie, 1911, em que contesta sobretudo a Durkheim;
 

Joseph Marechal (1878-1944), jesuíta, com conciliações kantianas, autor de O ponto de partida da metafísica (Le point de départ de la métaphysique, em 5 cadernos, 1922-1923, sendo os dois último póstumos;
 

Louis De Raeymaeker (1895-1970), professor do seminário de Malines e da Universidade de Louvaina, com apreciados estudos sobre o ser, e autor de Introdução geral à filosofia e tomismo (Introductio generalis ad philosophiam et thomismum, 1934), Metafísica geral (Metaphysica generalis, 1935), Filosofia do ser (Philosophie de l'être, 1947).

Importa anotar que ocorreram tentativas de conciliação com o realismo mediato (vd), de fundo cartesiano, praticadas sobretudo por Mercier e Marechal, em contraste com o realismo imediato, peculiar da escolástica tradicional.

 

Cardeal Deziré-Joseph Mercier (1851-1926). Filósofo belga, nascido em Braine-l`Alleud, próximo de Malines. Sacerdote do clero diocesano de Malines e professor no Seminário Menor daquela diocese, onde ensinava elementos de filosofia tomista, de acordo com as determinações do Papa Leão XIII, através da Enciclica Aeterni Patris, esta de 4 de agosto de 1879. Surpreendida a Universidade Católica de Louvaina com a Enciclica, e, na ameaça de ser enviado um professor italiano, escolheu a Mercier, que passou a lecionar na referida Universidade a partir de 1882. Entretanto, o mesmo padre Mercier tendia à modernização do ensino, optando pelo uso da língua nacional (no caso francês). Nas férias de 1881 foi entrevistar-se com o papa, com vistas a definir seu programa de atualização. A cátedra de filosofia de Santo Tomás foi inaugurada em1882, e depois transformada em Instituto Superior de Filosofia. Foi também a Paris participar de um curso de psicologia de Charcot. Depois de vencer as resistências dos tradicionalistas, formou em seu torno ;um grupo de neo-escolásticos progressistas. Designado em 19065 Arcebispo de Malines e Cardeal. Entretanto continuou aperfeiçoando seus escritos, ocupando-se agora também com o tem da espiritualidade cristãs.

A diretriz escolástica de Mercier é tomista. De outra parte, fundamentou este tomismo com uma criteriologia de espírito cartesiano-kantista, porque, em vez do realismo imediato, peculiar ao tomismo histórico, estabelece o realismo mediato, em ;que o objeto do conhecimento é fenomenal, cabendo provar que, atrás dele se encontra o objeto. Esta colocação, de índole cartesiana, dividiu os tomistas em duas correntes, fato que estimulou o desenvolvimento entre eles de uma teoria do conhecimento, que até aqui ainda houvera recebido suficiente destaque.

Obras de Mercier: Curso de filosofia de santo Tomás (Cours de philosophie de S. Thomas ); Psicologia (Psychologie, 1883); Teoria do conhecimento certo (Théorie de la connaissance certaine, 1886), com novo título depois Criteriologia geral, ou Tratado da certeza (Critériologie génerale, ou Traité de la certitude, 1889); Teodicéia (Theodicée, 1884); Metafísica geral, ou Ontologia (Métaphysique générale, ou ontologie, 1886); Cosmologia (Cosmologie, 1886); Introdução à filosofia e curso de lógica (Introduction à la philosophie et cours de logique, 1891). Da reunião destes textos, resultou o Curso de filosofia (Cours du philosophie, em 4 partes, publicado de 1892 a 1899, e obra principal de Mercier: Logique, Métaphysique général ou ontologie, la Psychologie, Critériologie ou théorie g'énerale de la certitude), por sua vez enquadrados num conjunto ; eram na verdade os 4 primeiros volumes de um Curso de filosofia, de 12 volumes que então a universidade publicava.

Outros textos: As origens da psicologia contemporânea (Les origines de la psychologie contemporaine, 1897); A psicologia experimental e a filosofia espiritualista (La psychologie expérimentale et la philosophie spiritualiste, 1900); A definição filosófica da vida (La définition philosophique de la vie, 1908); Aos meus seminaristas (A mes seminaristes, 1908); Retiro espiritual (Retraite pastorale, 1910); Vida interior (Vie interieure, 1918); O cristianismo na vida moderna (Le christianisme dans la vie moderne, 1918). Obras pastorais (Oeuvres pastorales, 7 vols.), coletiva de escritos.
 

830. Na Alemanha e países de língua germânica, como Áustria e Suíça, o movimento escolástico ganhou grande profundidade e seriedade, inclusive com publicação sistemática de textos antigos. Vários representantes das ordens religiosas foram enviados para os institutos de ensino das mesmas em Roma.
Muitos foram os renovadores de destaque, entre os quais certamente apontam os nomes de Joseph Kleutgen (1811-1883) (vd), situado no início do movimento, e Joseph Geyser (1869-1948) (vd), meio século depois.

Particular evidência tiveram também os investigadores da história, ocupados com a reedição crítica dos textos do passado escolástico:
 

Henrique Denifle (1844-1905), dominicano, historiador da filosofia e da teologia, particularmente dos místicos medievais e de Lutero, colaborador da coleção Arquivo para Literatura e História da Igreja (Archiv für Literatur und Kirchen-Geschichte, 7 vols., Berlim, 1885-1900), autor ainda de A fundação da universidade (Die Entstehung der Universitáten, 1885), O cartorário parisiense (Chartularium parisiensis, 4 vols., Paris, 1889-1897), em colaboração com E.Chatelain;
 

Francisco Ehrle (1845-1934), jesuíta, bibliotecário da Vaticana, Cardeal, criador dum Dicionário Enciclopédico da Teologia, desenvolveu a partir de 1883 (data de um primeiro artigo) um plano para reedição dos escritos escolásticos medievais;
 

Clemens Baeuemker (1853-1924), nascido em Padeborn, onde lecionou no Liceu, professor nas universidades de Breslau (Wroclaw), Bonn, Strasburgo, Munique, fundador em 1891 de coleção de textos históricos e que se tornaria vasta Contribuições para a história da filosofia da Idade Média (Beitraege zur Geschichte der Philosophie des Mittelalters), havendo também se estendido a textos gregos, patrísticos e modernos;
 

Martin Grabmann (1875-1949), sacerdote, prof. de filosofia na universidade de Viena (1913-1918) e de Teologia na de Munich (1918-1939), a partir de 1925 diretor e impulsionador da coleção histórica fundada por Baeuemker, também dirigiu, de 1917 a 1942 o Anuário filosófico (Philosophisches Jahrbuch), além de autor de alguns escritos teóricos próprios;
 

Baumgartner. Mathias (1865-1933), professor de Friburgo de B., tomista, com monografias sobre os medievais Guilherme de Auvergne, Alano de Insulis e mais estudos, bem como edições críticas de patrísticos e medievais.
 

Fr. Pelster (1880-1956), jesuíta, colaborador de M. Grabmann, na fundação em 1926, da Series scholastica, em Munique; Endres; Geyer; Koch.

Os jesuítas alemães fizeram um trabalho de notório valor e dimensão. Restabeleceram a orientação suareziana, enquanto a tendência dos mesmos jesuítas em outros países fora tomista pura. Autores jesuítas com obras no Cursus Lacensis Major: Hontheim, S. J.: Th. Meyer, S. J. (1884- ), também historiador da filosofia; Tilman Pesch, S. J. (1836-1899).

Autores, também jesuítas, do Cursus ad usum scholarum: C. Frick, S. J.; H. Haan, S. J.; Victor Cathrein, S. J.(1845-1931).

Outros escolásticos de língua alemã, não raro com textos em latim: O. Wilmann (1839-1920), autor de História do idealismo (Geschichte des Idealismus), A didática como teoria da formação (Didaktik als Bildungslehere), pedagogia; Remer, SJ.; Donat, S. J. : Reinstadler, Willens; H. Pesch (1854-1926), autor de Tratado de economia nacional (Lehrbuch der Nationaloekonomie, 1914-1926), filosofia social; A. Delp., autor de Filosofia da história (Der Mensch und die Geschichte). Boeder, S. J.; Lehmen, S. J.; Gredt, O. S. B. (beneditino); Grimmsich, O. S. B. ; A. Stoeckl; C. Gutberlet; F. Froebes, S. J., autor de Tratado de psicologia experimental (Lehrbuch der experimentelle Psychologie, 2 vols), de grande aceitação; Joseph de Vries, S.J.
 

Joseph Kleutgen (1811-1883), de Dortmund (Westafália), jesuíta, suareziano. Lecionou em Friburgo da Suíça (1837-1843) e Friburgo de Breigau, Alemanha. Atuou nos últimos anos em Roma, como professor na Universidade Gregoriana, onde teria também sido um dos redatores da encíclica Aeterni Patris (1879), restauradora dos estudos escolásticos. Combateu Kleutgen não somente as filosofias modernas, como o idealismo, mas também as formas espiritualistas ecléticas, como o ontologismo de G. Hermes e A. Günther (vd 818), e ainda era contrário a qualquer desvio das diretrizes centrais que vinham do passado; neste sentido foi um restaurador típico. Mais especificamente, foi um suareziano.

Obras de Kleutgen, em latim e em alemão, sempre com reedições, - A teologia do passado, defendida (Die Theologie der Vorzeit vertheidigt, 3 vols.,1853-1860); A filosofia do passado defendida (Die Philosophie der Vorzeit vertheidigt, 2 vols., 1860-1863); Processo do ontologismo (Die Verurtheilung der Ontologismus, 1869); Pequenas obras (Kleinere Werke, 1869-1874); Do inteleto agente e das idéias inatas (Vom intellectus agens und die angeborenen Ideen, 1875); Da doutrina da fé (Zur Lehre vom Glauben, 1875); Do mesmo Deus (De ipso Dio, 1881), de curso projeto em 8 vols., deixado incompleto, Instituições teológicas (Institutiones theoloigicae).
 

Joseph Geyser (1869-1948), filósofo alemão, nascido em Erkelenz, Renânia. Professor em Münster, a partir de 1911; em Friburgo, a partir de 1917; de Munique, a partir de 1924, onde permaneceu até seu falecimento.

O pensamento de Geyger se fixou nos temas essenciais da lógica, teoria do conhecimento e ontologia, desenvolvendo o realismo escolástico em contato com o kantismo, a fenomenologia, o positivismo sempre com clara diferenciação, advertindo ainda contra o psicologismo para as diferenças dos pontos de vista da lógica, da teoria do conhecimento, da psicologia.

Obras: O problema filosófico de Deus e suas concepções mais importantes (Das philosophische Gottesproblem in seiner wichtigsten Aufassungen, 1899); Fundamentos da psicologia empírica (Grundlegung der empirischen Psychologie, 1902); Conhecimento da natureza e lei causal (Natur erkenntnis und Kausalgesetz, 1906); Manual de psicologia geral (Lehrbuch der allgemeinen Psychologie, 1908); Introdução à psicologia dos processos de pensar (Einführung in die Psychologie der Denkvorgaenge, 1909; Fundamentos de lógica e teoria do conhecimento (Grundlagen der Logik und Erkenntnislehre, 1909); A alma, sua relação com a consciência e com o corpo (Die Seele, ihr Verhaeltnis zum Bewusstsein und zum Leibe, 1914);Filosofia geral do ser e da natureza (Allgemeine philosophie des Seins und der Natur, 1915); Novos e antigos caminhos da filosofia. Um discussão sobre as bases do conhecimento, com vistas ao ensaio de E. Husserl sobre sua tentativa de refundamentação (Neue und alte Wege der Philosophie. Eine Oerterung der Grundlagen der Erkenntnis in Hinblick auf E. Husserls Versuch ihrer Neubegründung, 1916); A teoria do conhecimento de Aristóteles (Die Erkenntnistheoria des Aristoteles, 1917); Sobre a verdade e a evidência (Über Wahrheit und Evidenz, 1918); Eidologia ou filosofia como conhecimento da forma. Um programa filosófico (Eidologia ou filosofia como conhecimnto da forma. Um programa filosófico, 1921); Inteleto ou sentimento. Estudo filosófico sobre o livro de R. Otto "O santo" (Intellekt oder Gemüth. Eine philosophische Studie über R. Ottos Buch "Das Heilige", 1921); Planificação de uma psicologia geral (Abriss der allgemeinen Psychologie, 1922); Alguns dos problemas principais da metafísica (Einige Hauptprobleme der Metaphysik, 1923), visando em particular a Kant; Santo Agostinho e a atual fenomenologia da religião (Augustin und die phaenomenogischen Religionsphilosophie der Gegenwart, 1923); A fenomenologia da religião de Max Scheler, apresentada e julgada na forma geral mais acessível, à base de suas doutrinas mais essenciais (Max Schelers Phaenomenologie der Religion nach ihren wesentlichsten Lehren allgemeinverstaendlich dargestellt und beurteilt, 1924); A filosofia medieval (Die mittelalterliche Philosophie, 1925); No campo de batalha da lógica (Auf dem Kampffelde der Logik, 1926); O princípio de razão suficiente (Das Prinzip vom zureichenden Grunde, 1930); A lei causal. Investigação da lei causal geral (Das Gesetz der Ursache. Untersuchungen zur Begründung der allgemeinen Kausalgesetzes, 1933.
 

832. Na Inglaterra, a escolástica renovada cresceu a partir da segunda metade do século 19. Entre os pioneiros figura Th. Morton Harper (1821-1893), autor de Metafísica da escola (The metaphysics of the school, 1879-1884), incompleta.

A renovação histórica foi realizada principalmente por Cl. J. Webb (1865- ), autor Deus e a personalidade (God and personality, 1919); Little, Carlyle.

No domínio didático o empreendimento do curso Stonyhurst series philosophical, dos jesuítas: John Rickaby; Joseph Rickaby; R. F. Clark; Maher; Joyce; R. J. Walker (1877- ), autor de Teorias do conhecimento (Theories of knowledge, 1910), O retorno a Deus (The return to God, 1933).

Outros: R. P. Phillips (1887- ), autor de Filosofia moderna tomista (Modern thomistic philosophy, 1934); E. I. Watkin (1888- ); M. C. D'Arcy (1888- ), autor de Thomas Aquinas, 1930, A natureza da fé (The nature of belief, 1931), O sentido e o conteúdo do amor (The mind and heardt os love, 1945) ; E. L. Mascall (1905- ), autor de Aquele que é (He who is, 1943), Existência e analogia (Existence and analogy, 1949); Illytd Trethowan (1907- ), autor de Certeza, filosófica e teológica (Certeza, filosófica e teológica, 1948); Frederick Charles Copleston (1907- ) (vd), um dos mais significativos escolásticos ingleses; D. J. B. Hawkins (1906- ), autor de Causalidade e implicação (Causality and implication, 1937), O criticismo da experiência (The criticism of experience, 1945), O essencial do teísmo (Essencials of theism, 1949).

Na Irlanda: Peter Coffey (1876-1943), autor de A ciência da lógica (The science of logic, 1912); Ontologia (Ontology, 1914); Epistemologia (Epistemology, 1917).
 

Frederick Charles Copleston (1907- ). Filósofo inglês, nascido em Taunton, Somerset. Ingresso na Ordem dos Jesuítas. Estudou em Oxford. Professor de história da filosofia no Heythrop College, Oxon, de 1939 a1970. Por curtos períodos deu cursos em Roma, na Universidade Gregoriana, nos anos entre 1952 a 1968. Também lecionou dois anos na Universidade de Londres, de 1972 a 1974. Dialogou em 1948, com Bertrand Russel na televisão inglesas, discutindo a existência de Deus, a partir do qual elaborou um texto.

O pensamento de Copleston se direcionou para a história comparada e aprofundada pelo esclarecimento das diversas modalidades de pensamento, com reflexão sobre o pensamento de cada qual, influências e desdobramento. Com isto encaminhou também o esclarecimento maior sobre o pensamento escolástico, que acabou difundido e prestigiado.

Obras de Copleston: Frederico Nietzsche, filósofo da cultura (Frederick Nietzsche, philosopher of culture, 1942); História da filosofia (A history of philosophy, 1944-1975); A. Schopenhauer, filósofo do pessimismo (A. Schopenhauer, philosophy of pessimism, 1946); Filosofia contemporânea (Contemporary philosophy, 1956); Filósofos e filosofias (Philosophers and phylosophies, 1976); Sobre a história da filosofia e outros ensaios (On the history of philosophy and other essays, 1979); Filosofias e culturas (Philosophies and cultures, 1980); Religião e o Uno (Religion and the One: philosophies East and West, 1982); Filosofia na Rússia (Philosophie in Russia, 1986).

 

833. Nos países do continente americano a filosofia escolástica renovada aportou através do latim, nos meios eclesiásticos, mas também, conforme as circunstâncias, através das línguas francesa, inglesa, espanhola, portuguesa e mesmo italiana e alemã. O transplante da Europa para a América se deveu também à circulação fácil dos membros das ordens religiosas, como também porque muitas mantêm em Roma suas casas centrais de estudo.

No Canadá as universidades de Toronto e de Ottava criaram cedo seus Institutes of mediaeval studies, na primeira havendo atuado o experiente E. Gilson, na segunda o dominicano Chenu.

Nos Estados Unidos da América a Catholic University of America, de Washington, operou desde logo na renovação da filosofia escolástica.
 

835. No Brasil a nova escolástica apareceu já no século 19, com José Soriano de Souza (1833-1895), formado em filosofia pela Universidade de Louvaina, professor de Direito em Recife e ainda de filosofia num ginásio da mesma cidade do nordeste brasileiro; entre suas obras consta um Compêndio de Filosofia, 1867, e que foi adotado nos seminários brasileiros, e ainda Elementos de filosofia do direito, 1880.

Prosperou a escolástica brasileira a partir da Faculdade de Filosofia do Mosteiro de São Bento, de São Paulo, criada em 1908. Foi notória ali a atividade docente de Leonardo van Acker (1896-1986), belga formado na universidade de Lovaina, estabelecido em São Paulo desde 1922, como professor da Faculdade de Filosofia de São Bento, autor também de artigos e livros valiosos. Os seminários e universidades católicas, estas surgidas mais recentemente, foram a base principal da renovação da filosofia escolástica no Brasil.
 

836. Na Argentina a filosofia geral, inclusive escolástica, adquiriu significativo desenvolvimento, refletida na produção de alguns dos seus autores.

Destacou-se o tomista argentino Octavio Nicolas Derisi (1907- ), sacerdote do clero secular. Estudou filosofia na Universidade de Buenos Aires. Professor de filosofia no Seminário de La Plata, a partir de 1936. Doutorado em 1938. Adjunto de filosofia medieval na Universidade de La Plata, desde 1943, e depois professor de gnosiologia e metafísica. Nomeado bispo auxiliar da Buenos Aires em 1958. Reativador da filosofia escolástica tomista, fundou neste sentido a revista Sapientia. Promoveu uma crítica penetrante e erudita dos fundamentos gnosiológicos do pensamednto moderno, para em seu lugar estabelecer a doutrina tomista do ser, alcançado diretamente em sua realidade exterior em relação ao pensamento. Combateu sobretudo as doutrinas alogicistas.

Obras: Conceito de filosofia cristã (Concepto de la filosofia cristiana, 1935); Os fundamentos metafísicos del orden moral, 1941), grande tese doutoral; O eterno e o temporal na arte (Lo eterno y lo temporal en el arte, 1942); Filosofia moderna e filosofia tomista (Filosofia moderna y filosofia tomista, 2 vols., 1945); Doutrina da inteligência de Aristóteles a Santo Tomás (La doctrina de la inteligencia de Aristoteles a Santo Tomás, 1945); A filosofia do Espírito de Benedetto Croce, 1947); Tratado de existencialismo e tomismo (Tratado de existencialismo y tomismo, 1956); e outros ensaios.
 

 


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